24.5.07

Por mares nunca dantes navegados

Logo que cheguei por ali, tudo entendi. Aquela gente explicava muito sobre a minha gente. Eu vinha da Espanha e um brasileiro, residente em Lisboa desde os tempos de Collor, avisou: você não está mais na Europa. Eu já elaborava uma teoria a respeito dos europeus que envolve escadas rolantes e ruas: como desembarquei em Praga e fui descendo por alguns países até chegar à Espanha, reparei que quanto mais ao sul, menos pessoas ficavam do lado direito das escadas rolantes para que os apressados pudessem correr pela esquerda. Da mesma forma, mais pedestres atravessavam a rua fora da faixa.

Temendo que a civilidade diminuísse drasticamente, ao ouvir a frase do meu anfitrião já imaginei encontrar nas ruas da capital portuguesa uma baderna. A cidade estava em obras, era o nascimento do euro, mas tudo transcorria na maior organização. Os monumentos eram imponentes, havia castelos, arte, nem sinal dos viciados e traficantes que outrora ocuparam a cidade. Então por que ele teria dito aquilo? Porque de certa forma eu estava em casa, tão distante da rigidez britânica quanto da malandragem carioca, mas aquela gente não me olhava e exclamava “Pelé, Ronaldo!”. Me conheciam, ficavam mais felizes ao ouvir Rio de Janeiro por pensar nos cenários das novelas do que nas bundas das mulatas sambando na praia. Pela primeira vez nas minhas andanças eu não era olhada com curiosidade, mas com admiração.

O mais inusitado da viagem foi descobrir um outro lado da História, ver aquele tal de Cabral junto com Vasco da Gama e Camões às margens do rio Tejo, me sentir vasculhando capítulos dos livros que foram arrancados e nunca chegaram nas escolas brasileiras. A partir daí têm muitas passagens envolvendo deliciosos pastéis de Belém, greve de eléctricos e o imperdível Palácio da Pena, mas hoje o principal é a lembrança de um povo muito amável.

Voltei a Portugal! Estou em Estoril, e vim por mares nunca dantes navegados: cheguei via web! Fui tão bem recebida quanto da primeira vez e meu pouso por aqui é no blog Pipáterra, que me trouxe à terrinha com um carinhoso post sobre minhas palavras pecadoras nascidas ao sul do Equador. Bué fixe.

21.5.07

Help! (I love somebody)

Vai ser piegas, brega, ridículo, mas Fernando Pessoa já avisou há anos e, se nem ele escapou, estou livre dessa responsabilidade: a de escrever uma declaração de amor legal. Falei declaração de amor? Droga. O que seja, quero escrever agora porque, para variar, quero registrar meus felizes pensamentos e minhas felizes impressões a respeito deste relacionamento. E quem sabe assim libertar os relacionamentos em geral.

Freud deve estar rindo do óbvio – depois de tantos anos de divã resolvo documentar essa euforia pra me convencer daqui a uma semana, talvez um pouco mais ou menos, de que talvez se possa ser feliz por mais do que alguns efêmeros instantes. Tudo por quê? Um telefonema. E dizem que crianças se satisfazem com pouco. Era só pra dizer oi, saber se estava tudo bem. Como as coisas são, estava tudo planejado para eu não atender quando você ligasse, minha única tática de resistência. Como as coisas são, sou uma péssima estrategista.

Quando passei a encarnar xiitamente o conceito de que as coisas devem ser como queremos? Que o mundo deve se adaptar às nossas necessidades, pessoas fortes, decididas, que não se contentam com pouco, não tem medo, raciocinam em detrimento do que sentem, não se deixam levar pelas emoções apesar de reconhecê-las, o que talvez as levem a crer que, assumindo-as, possam controlá-las e modificá-las. Velha história de que o pior inimigo é aquele que não conhecemos. Sabendo o que me atinge, posso lutar contra ele. E de repente eu estava lutando contra moinhos de vento, não tinha ninguém me atacando! Isso começou quando vi o que os outros fazem para não ficarem sozinhos. Já vi gente que não fuma sair para comprar cigarros só para ter alguns minutos de paz. O problema estava em mim. (novidade).

E se agora eu não estiver a fim de ficar sozinha? (argh). É uma epidemia! E não é só isso. Para piorar, ao tocar o telefone veio a bomba. Estava meio triste antes do telefone tocar. Estou romântica? É raríssimo gostar de alguém, raríssimo encontrar outra pessoa que corresponda ao meu sentimento, que desperte admiração, respeito, que me faça querer ser melhor, mais bonita, mais inteligente, mais culta, mais sexy, caramba, muita gente nem sabe o que é essa palavra! Pronto, quer agradar Freud? Explica sexualmente. É uma questão de tesão, de aprendizagem sexual. Ufa, assim está mais tranqüilo. Sem carência, sem romance, sem cara de drogada.

Olha, estou cansada, daqui a pouco preciso trabalhar, essas idéias originárias da sua ligação oi tudo bem me tiraram o sono e preciso explicá-las cerebralmente. Tenho muito mais vontade de estar com você do que estou e ainda não acho que esteja virando uma mulher submissa. Estou ficando cega! Preciso ser interditada! A paixão é uma merda. Você se encanta com alguém e pronto, perde o controle da sua vida, seu bem estar fica à mercê de outra pessoa, é horrível, não devia ser assim. Mas é.

Ainda posso usar minha pouca resistência para não virar uma deprimida, dependente e psicótica. Até quando? Não sei. Porque nesse exato momento, dez pras cinco da madrugada, estou achando tudo lindo. Feels good, felt fucking good enquanto ouvia as suas palavras banais no telefone.

O resto resolvo daqui a pouco, quando a carência trouxer a insegurança, o ciúme e sua gangue. É sempre ela. Agora, está sendo sempre você.

18.5.07

Já leu Tribuneiros hoje?

Você vem sempre aqui?
Cadê o namorado?
Vocês não pensam em casar não?
Você vai ficar chateada se eu fizer isso?
Você pode vir no sábado terminar o trabalho?
Posso te conhecer?
Você está na fila?
O que você quer ser agora que cresceu?

Conselho gratuito de uma garota não desse tipo: o céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu.

make your own kind of music, sing your own special song even if nobody else sings along

14.5.07

Habemus dogmas

Então o Papa foi embora. Eu achei que ele fosse ficar para o Pan, excomungar mais uma galera, preparei até uma lista de sugestões, mas ele voltou para Roma que é terra boa. Deve ter voltado exausto, mas aquela exaustão feliz. Convenhamos: o Papa adorou o Brasil! E isso que ele esteve em São Paulo, fosse no Rio ou Salvador corríamos o risco dele ficar pro Carnaval (nesse sentido “ficar” não é pecado, ok?).
Coitado, talvez nem tenha demorado tanto por aqui, mas foi aquela visita presente demais, né? Que o diga o ministro da Saúde... E Papa é o João Paulo, fofinho. Bentoxisveí tem carinha de malvado, ex-hittleriano e cheio de opiniões, não é pop. Mas até que deu suas risadas.
Ateísmos e racionalizações à parte, é comovente ver a felicidade dos que realmente têm fé no momento em que o Papa aparece. Se os Beatles me convidassem para uma jam session eu teria reação semelhante, com a diferença de que eles não poderiam me aconselhar nem me acolher nem transmitiriam a sensação de paz que um líder espiritual passa (nesse caso eu teria que me encontrar com o Maharishi). Logo, é triste constatar que nunca saberei o que passa dentro daqueles católicos de cara com o sumo-sacerdote. Adoraria ter um sumo-sacerdote. Adoraria ter um ser superior que regesse minha vida e me apoiasse, nem que fosse para eu poder culpá-lo ou dizer “se vira aí em cima que aqui embaixo ferrou”.
Em compensação, sei que métodos anti-concepcionais são uma benção da ciência, estudos com células-tronco são um avanço indiscutível e isenção fiscal, hahaha, posso ter também? Opinião de uma excomungada destemida: a não-flexibilização da empresa Igreja para se adaptar às modificações de seu público, idéia defendida por Bentoxisveí, é um plano questionável quando se trata de marketing, e ainda mais quando envolve ideologias (que eu, pope, também imaginava superadas).
Mas, como não entendo muito de religião, sigo indo a batizados, casamentos e funerais quando convêm e separando o joio do trigo. Como o padre que sugeriu humildade, doçura e paciência na criação dos filhos. Bonitinho, super nanny. Logo depois brincou com os pequeninos que estavam ali tomando água na cabeça: “sempre batizo mais meninas do que meninos. Ou seja, rapazes, a oferta está boa para vocês”. Até tu, padre?

13.5.07

On the road

Ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos.
E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace al andar”.

Caio Fernando Abreu no dia das mães.

Porque eu te adoro cada vez mais
Eu só quero que você siga para onde quiser
Que eu não vou ficar muito atrás

E Marisa.

11.5.07

Ela. E eu.

Mãe só tem uma e vê lá se isso é algo que deva ser dito impunemente. Vai que alguém resolve clonar mãe por aí, decide que melhor seria ter várias!
Mãe só tem uma porque seria impossível para nós, filhos, administrarmos mais do que isso. Ofertas especiais para o Dia Oficial do "Leva um Casaquinho" em Tribuneiros.com

7.5.07

Pinguins rubro-negros

Eu espero acontecimentos.
Só que quando anoitece as pessoas gritam é campeão e eu acesso globo.com para ver se torcem para o Flamengo ou Botafogo.
A decisão vai para os pênaltis. Por aqui, Canadá e Austrália financiam profissionais graduados que queiram migrar para seu gelo ou suas praias.
Talvez eu esteja lutando por um ideal que se comprova a cada dia menos ideal. Esteja seguindo a cartilha que escrevi na infância sem me tocar que em algum momento ela deveria ter sido atualizada.
Penso se o vizinho vai se jogar da janela quando acabar de berrar Souza. Acho que Souza o deixou para comprar cigarros e nunca mais voltou. Descubro que Souza é um jogador.
30 anos é adulto, mas não aquele adulto que nem suas Barbies foram já que elas tinham 20 e poucos, o Ken, uma casa enorme e carro conversível.
O Baixo Gávea vai lotar, as pessoas vão se abraçar imundas de suor e cerveja porque pooooorraaaaaaaaaa meeeeermão.
Sarkozy é eleito presidente na França. Imagino que ele vá descobrir meus planos e criar uma lei proibindo brasileiras bipolares de pisar em Paris.
Os carros começam a deixar o Maracanã e entoam pelo caminho “Obina vai voltar”. Será uma ameaça, maldição, uma prece?
Não saber o que se quer ser quando crescer é pior quando você já cresceu. Pior quando sua angústia acusa o mundo de ser injusto justamente porque você não consegue lidar com a culpa, confunde o significado de fracasso, não entende que o futuro é como os objetos no espelho e está mais perto do que parece.
Que torcida é essa?
Sigo a massa. Algo me diz em rubro-negro que o sofrimento leva além.
Um boneco do Shrek uniformizado é sacudido junto com uma bandeira. As pessoas xingam Dodô. Mais tarde xingarão Eurico. Aproveito para xingar diversos desafetos.
Durante o verão uma garçonete na Riviera Francesa ganha mil e quatrocentos euros, e mil em estações de esqui nos Alpes durante o inverno.
Já passa da meia-noite. Uma criança com máscara de urubu é jogada para cima. Torço para que não se esqueçam de segurá-la na descida.
No último verão muitos pingüins apareceram no litoral do Rio. Disseram que eles se perderam do grupo por causa das correntes marítimas, mas pode ser que só tenham querido experimentar outra coisa.
Já passa da meia-noite e meia. Outra criança fuma um baseado do tamanho das faixas vermelho-e-pretas.
Não pretendo ganhar um Nobel, subir o Everest nem me tornar a primeira presidente da França, mas depois de conseguir pagar mensalmente o aluguel e passar mais de uma semana com a mesma pessoa num mundo de quase 7 bilhões, vou correr atrás de que grande feito?
As pessoas gritam Flamengo é minha vida Flamengo é minha história. Mais tarde gritarão letras do Ultraje a Rigor. Aproveito para gritar Revoluções por Minuto.
Acho que o D2 sorri para mim. Talvez ele esteja sorrindo ininterruptamente desde as 7 da noite.
No dia seguinte descubro que um impedimento marcado errado impediu Dodô de fazer o terceiro gol do Botafogo. Ele foi expulso. Meu nome é Enéas morreu. A Virada Cultural em São Paulo viu a Praça da Sé virar uma praça de guerra.
Ô, Obina é melhor que o Eto’o. Obina é melhor que o Eto’o.

2.5.07

Oh yes, oh no, noooooo!

Sharon Stone está sentada prestando depoimento. Um coque, um cigarro. Sob o vestido branco, nada. Descruza as pernas, mantém aquele olhar come on tiger, cruza novamente. Joe Pesci arranca a gravata e a agarra pelos cabelos. Corta! Joe Pesci? Sem condição. Ingrediente número 1 para uma cena de sexo passar de excitante a patética em um take: pessoas bizarras. Ele não estava em Instinto Selvagem, mas pegou Sharon em Casino e a tensão sexual entre os dois é... ok, próximo.

Catherine Deneuve e Susan Sarandon levaram milhares de pessoas ao cinema (na maioria homens, por que será?) para vê-las rolando na cama em Fome de Viver. Assistindo hoje à cena, meu deus, é uma piada? Aquele cabelo anos 80, parece que elas vão cantar Walk like an Egyptian ou outro hit desses. E Catherine Deneuve agressivamente gay? Desconfio...

Você olha para um pote de manteiga e pensa em sexo anal? Sim, se você for o Marlon Brando. Maria Schneider, O Ultimo Tango em Paris, muitos quilos a menos, muitas expressões intrigadas na platéia a mais. Isso é sexy? De tão parodiadas, algumas cenas antológicas acabaram passando de eróticas a risíveis: frutas, mel, venda nos olhos, Nove e Meia Semanas de Amor. Na época aumentou a venda de compotas de frutas, hoje nas sex shops elas ficam nas prateleiras das tangas de oncinha para homens?

Alguns comentários são maldosos: Titanic, Kate Winslet, Leonardo di Caprio e um carro bem pequeno. Para começar já seria difícil a Kate Winslet caber naquele banco de trás sozinha, o que leva a pensar se a batida de mão do Leo no vidro embaçado não é um pedido de socorro. Não, na hora não estava tocando Celine Dion, a coisa também não era tão ruim.

Quem viu Sex and the City vai entender essa piada de cara: você imagina o Trey, marido da Charlotte, um vulcão sexual? Ele está em uma piscina, oh babe, com uma atriz loura, sexo selvagem. Ela se debate, mexe os braços, joga o pescoço para trás, mas é tanto que parece um ataque de epilepsia ou uma brincadeirinha de maremoto! O filme é Showgirls, mas tem quem jure que essa cena era para estar em Tubarão.

Nicholas Cage e Cher em Feitiço da Lua. Paris Hilton e o namorado no vídeo caseiro. Tarcísio Meira e... calma, brincadeira! Clássicas cenas calientes volta e meia surgem na conversa – Brown Bunny, Nove Canções, Y tu mama también – mas fazer uma lista das piores cenas de sexo pode ser hilariante. O júri está à solta.

27.4.07

Kiss, kiss, kiss

Na faculdade de jornalismo a primeira lição foi sobre objetividade. Simplifica esse texto. Na pós era o equilíbrio entre florear o produto e convencer logo o cliente. Não enrola demais, nego é burro. Depois foi o chefe mudando o programa. Isso está muito alto-nível, o espectador vai se perder. Fala mais fácil. O Gordon Ramsey analisando por que o restaurante ia mal apesar dos altos investimentos: têm muitos ingredientes nesses pratos, crie receitas mais simples. O departamento de marketing discutindo com a Engenharia: o software é ótimo, mas ninguém consegue usar. Deixem mais user-friendly. Se por todos os lados a mensagem é clara, por que diabos na hora de aplicar na vida eu me esqueço do KISS Principle?
Keep it Simple, Stupid!

26.4.07

Confessions on a dance floor


When all else fails and you long to be something better than you are today I know a place where you can get away, it's called a dance floor, and here's what it's for.

Espartilho, salto fino, unha vermelha, mini-saia, diamantes, batom, cabeleireiro, bronzeado, decote, extravagância, aumento de salário, homem gago, striptease, flores, hipnose.
Foto de Ellen von Unwerth e música da Madonna.

24.4.07

Ele vai viver sozinho

Como assim você precisa de um tempo? Não leu O Pequeno Príncipe? Tu-te-tornas-eternamente-responsavel-por-aquilo-que-cativaaaas. Não pode agora, do dia pra noite, depois de falsas promessas de que era só uma fase e que ia passar, resolver que quer parar. Você pára e eu faço o quê, releio incessantemente as coisas antigas? Logo agora que você falou que perceber aquilo que se tem de bom no viver é um dom. Isso era um aviso? Eu não sabia que era um aviso, achei que fosse um sinal de que essa maldita fase acabaria logo.


Vai lançar o clichê máximo de que as coisas estavam ficando muito sérias? Sim, estavam. São coisas sérias, sou eu sentimental, eu que lavei os seus lençóis sujos de tantas outras paixões. Você me conquistou, eu que estava quieta no meu canto envolvida com outros, inclusive eu não gostava de você, lembra? Implicava com seu visual desleixado, com a sua popularidade fanática, com as suas palavras difíceis para impressionar menininha da PUC, eu odiava maconheiros das casinhas e sei que você era assim.


Nessa hora você não achou que pudesse ir rápido demais, não é? Nessa hora você só se importou em falar baixinho com aquela moça que se encontrava mais nos dias em que se via só, brava escrava sã e salva de sofrer. Sempre odiei concordar com a massa, já me bastava achar Chico Buarque lindo. Com você eu relutei tanto... para quê? Para acabar assim? Quantas vezes já estive aqui, quantas vezes já passei por essa cena de olhar com cara de paisagem enquanto o coração ordena para o cérebro gritar? E, quando isso acontecia, quem estava lá para me amparar? Você estava lá quando eu precisava me descabelar na frente de um palco ou em uma pista de dança para continuar, o mesmo você que agora, ahahaha, pede um tempo. Vem dizer adeus ao que restou de quem um dia foi feliz.


Não houve desentendimento ou discordância, que piada. Não houve conversa! Você decidiu sozinho e anunciou, mas eu não concordo e não quero a sua amizade nem para jogar truco na quinta à noite. Eu quero jogar coisas em você, daquelas que as loucas jogam quando são abandonadas. Diz que isso é só marketing, que você é daquele tipo carente que não recebeu amor suficiente na infância e precisa ficar testando as pessoas. Pronto, acabou o teste, eu estou sofrendo, olha bem meu bem, agora volta atrás, eu te perdôo. Diz que vem praqui me ver e que vai chegar no último vagão. Fala alguma coisa! Não fica com essa cara barbuda me olhando.


Não quero agir civilizadamente nessa despedida Eu vou gritar que Anna Julia é a única coisa que presta e que vocês não coordenam letra e melodia. Eu vou dizer pra todo mundo que vocês são uns deprimidos dependentes de Prozac. Eu vou dizer que gosto de axé. Eu vou ouvir Jorge Vercilo. Eu vou pro lado de lá. Eu tô levando tudo de mim que é pra não ter razão pra chorar. Só peço pra que um dia se pensares em trazer-me seus olhares faça porque lhe convêm. Agora vai, cuida do teu pra que ninguém te jogue no chão e não pensa que eu fui por não te amar.

22.4.07

Resíduos

Dos tantos anos, o saber-se amada. Do pouco tempo, a espontaneidade. De tanta convivência, as lições do machismo feminino. Daquela montanha, o ainda poder ser qualquer coisa. Daquela casa rosa, a porta sempre aberta. Daquela idade, a dor e a delícia de ser especial. Daquele amor, as declarações que não são feitas em forma de eu te amo. Daquela paixão, a transitoriedade dos sentimentos. Daqueles cigarros com um copo de whisky, a ilusão tão certa de que depois dá-se um jeito. Daquelas noites, a solidariedade feminina. Da grama verde do vizinho, a nota fiscal da loja de produtos artificiais. Daquele Carnaval, permissão e a máscara para ser feliz. Daquela união, uma pista sobre seu lugar no mundo. Daquele encontro, o calafrio de um olhar intraduzível. Daquela dor, o alerta de sinal vermelho. Daquela estrada, horas de vôo. Daquele adeus, a vontade de um novo encontro. Daquela brincadeira, a necessidade de novas regras para o jogo. Daquela decisão, a sentença da certeza interna. Daquela floresta, o livro de ouro dos mosqueteiros. Daquele amadurecimento, a tranqüilidade de só ser quem você já é. Daquelas palavras, uma esperança. De Drummond, a próxima frase.
De tudo, ficou um pouco.

17.4.07

Então deita e aceita eu

Nem telecomunicações, nem mercado financeiro, nem chocolate. Ela fez fama e fortuna apostando em um mercado que considerou óbvio depois da pesquisa que propiciou um boom no ramo cacaueiro. Bruna Demaison, 28 anos, apostou suas fichas no mercado do beijo depois que estudos britânicos revelaram que comer chocolate meio amargo provocava uma sensação mais longa e intensa do que beijar na boca. Casais com cerca de 20 anos tiveram seus batimentos monitorados enquanto deixavam um pedaço de chocolate derreter na boca e enquanto se beijavam. Na maioria dos casos, o chocolate mais do que dobrou as batidas do coração. "Deduzi que esses beijos estavam uma porcaria. Enquanto todos correram para a Kopenhagen, corri para incentivar as pessoas a se apaixonar. Contratei diversos experts em criação de borboletas no estômago e meu negócio se transformou em um grande sucesso principalmente na Inglaterra, berço de pessoas travadas", revela a multi-milionária em um resort na Costa Amalfitana. Para quem defende a vantagem do chocolate em relação à durabilidade da sensação, a guru responde: "Vinicius já sabia disso, e foi aí que criou a máxima - que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure".

16.4.07

1 colher de chá de quem-sabe-um-dia

Nunca acreditei naquela história de “muita TV não é bom”. Muita TV é ótimo. “TV não exercita a criatividade do espectador”. Baboseira. Hoje criei uma nova faceta: sei cozinhar! Com tanto tempo em cursos de línguas, marketing, finanças, etc, repeti por falta nas matérias Omelete I e Bife Básico. Essa fase acabou.
A primeira ação foi construir uma cozinha aberta para a sala, daquelas com uma bancada que favorece a interação. Convido muita gente, inclusive minhas visitas são um pretexto para novas receitas e as novas receitas viram um pretexto para sempre receber gente. A bancada é de madeira, mas não arranha nem com minhas facas super-poderosas de fatiar peixe cru (salmonete fresco cortado fino servido com agrião crispy). Itens fundamentais: um pilão, que alterno com o triturador, ralador para as cascas de limão (que uso em tudo), vasinhos com alecrim, manjericão, orégano, tomilho e outras ervas que ainda não aprendi os nomes. Mas já aprendi que clementine é prima da tangerina. Só tenho um certo pânico de franguinhos inteiros sem cabeça, mas pico os vegetais com uma rapidez ninja. Arrancar a pele dos tomates? Menos de um minuto. Coloco-os na água quente e depois amasso os despelados junto com alho e manjericão do vasinho. Esses vão virar molho para a massa home-made, Barilla que se cuide. Farinha batida com ovos e sal, de repente amanhã até recheio com queijo Pecorino meus personal-raviólis. Boa idéia essa, hein, Jamie? Sobem os créditos – no matter who you are, won't you come into my world, like a shooting star, take this journey with me to the heart…
Esse é o efeito de, às 8 da manhã, já estar convivendo intensamente com alguém. Suas vidas se misturam. É quando as pessoas passam a conjugar na primeira do plural verbos muito pessoais como gostar e preferir. No meu caso, nós cozinhamos por horas e horas juntos todos os dias, eu e Jamie. Jamie Oliver, chef e... apresentador de TV.
Temo pela hora de revisar a série Traga Seu Marido na Coleira. Uma adestradora de cães adapta as técnicas de castigo e recompensa para fazer com que os maridos fiquem como suas mulheres querem. É sério.

12.4.07

Quadrante, sextante, pequena caixa

"O desassossego do coração invadia-o (...). Sidarta começava a abrigar em suas entranhas o descontentamento. Começava a sentir que nem o amor do pai, nem o da mãe nem tampouco o do dedicado Govinda teriam sempre e a cada momento a força de alegrá-lo, de tranquilizá-lo, de nutrir-lhe, de bastar-lhe. Começava a vislumbrar que seu venerando pai e seus demais mestres já lhe haviam comunicado a maior e melhor parte dos seus conhecimentos: tinham derramado a plenitude do que possuiam no receptáculo acolhedor que ele trazia em seu íntimo, e esse receptáculo não estava cheio; o espírito continuava insatisfeito; a alma andava inquieta; o coração não se sentia saciado."*

"Tua alma é o mundo inteiro!", dizia um dos versos dos livros sagrados.

Se criar é preciso, além de navegar: Tribuneiros.com

*Sidarta, de Herman Hesse

10.4.07

O meu féraiado

Nesta Páscoa eu viajei com meus amiguinhos e fomos abduzidos.
Estávamos brincando no quintal quando tivemos uma visão além do alcance, um menino fez uma reza estranha que falava sobre aquele dia e fomos parar em outra dimensão. Quando chegamos fomos recebidos pelo Cheetos Cheetara, que nos deu uma água estranha com gosto de azeitona e que os passarinhos não bebem. Ele disse que a água tornaria nossa vida mais pulsante e umas pessoas beberam até mais do que precisava.
Acho que o menino da reza era o líder da semana porque fomos obrigados a imitá-lo e pular na piscina de barriga para recarregar nossas energias. Também tínhamos que comer o tempo todo e fiquei com medo de virar um baiacu. Sem querer acabei comendo um ET porque não gosto de bertalha, mas ninguém brigou comigo. Teve uma menina que se revoltou e não quis obedecer às ordens da brincadeira então apagaram a memória dela e ela ficou sem lembranças.
Cheetos Cheetara disse que se comêssemos tudo poderíamos ir na casa de Shirley MacLaine brincar com os botos, dinossauros e até com o pau de sebo. Eu acho que ela é rica porque guarda o dinheiro debaixo dos peitos ao invés do colchão. Na casa de Shirley as coisas são engraçadas porque os pinguins parecem coelhos, mas deve ser por causa da Páscoa.
Assistimos a um vídeo com o Sargento Pincel e tivemos aula prática de dança para o grande encontro com o Líder dos Feras, que eu não entendi muito bem quem é mas parece que se repetirmos o nome dele em vão muitas vezes ele aparece. Justo na hora em que íamos para a casa de Líder dos Feras o tempo acabou porque o Bial estava usando o lado da ampulheta que passa mais rápido.
Essa foi a única parte da história que a mamãe gostou, e agora ela também carrega uma ampulheta na bolsa para os debates de relacionamento. O meu féraiado foi muito legal e se quiserem eu posso contar de novo muitas vezes para vocês entenderem bem.

5.4.07

Ao som do pancadão

E foi assim que eu deixei você, como em uma letra de funk. É Big Mix, Mané. Já é.
Tão tranqüilão, sempre ali para quando eu chamasse. Quando eu chamasse. Não tinha uma surpresa, uma aparição de repente, uma ligação no meio da tarde, um beijo roubado, um olhar desconcertante, uma briga, tão respeitador do meu espaço. Sobrou tanto espaço, e aí, todo latifundiário sabe como é. Em matéria de amor todos me conhecem bem! Segurança demais pode virar indiferença, tranquilidade vira tédio, tempo? Ah, tempo vira mente vazia e nessa aí a mulherada vai descendo até o chão...
“Quero seu amor só pra mim, quero te fazer bem mais feliz. Esqueça o que passou vem pra cá, deixa eu te querer deixa eu te amar”. É um tal de olhar pro céu e ver as nuvens passando, umas concordâncias revolucionárias – “Ela não me quer e não me gosta mais, eu tenho é mais é que correr atrás de alguém que me dê muito valor” - Ô lá em casa, né não, Doralice?
Não vou mais ser boba, cansei de te esperar. Conselho da minha manicure - quem não dá assistência abre concorrência. Eu arrumei um amor, ah essa é nova!
Bastou um “eu cheguei, me ajeitei no estilo Don Juan, o que posso fazer hoje, não deixo pra amanhã” para eu pensar que, para certas pessoas, as coisas não são tão complicadas. Se nem a gramática é!
Pra mim já chega, eu tô bolada. Bo-la-da. É uma coisa grave.
Agora quem não quer sou eu. Minhas novas amigas estão saindo pra zoar. Perdi muito tempo, já me decidi. Vou chutar o balde, hoje eu vou me divertir. Ouaaaa, Doralice!
O mundo dá voltas. Sai, que a fila vai andar.
Tara tataratatatara tataratatatara...

1.4.07

O amor nos tempos da solidão

“Sólo porque alguien no te ame como tú quieres, no significa que no te ame con todo su ser."
Gabriel García Márquez

“Persiste em se agarrar na certeza mais absoluta de que a raça humana é capaz de sobreviver às piores catástrofes, inclusive as que ela mesma gera em seus afãs demenciais de ganância.
Continua obcecado pela fé na possibilidade de existirem outras formas de se viver – mais justas, menos absurdas, mais dignas.
Continua reivindicando, para todos aqueles que parecem condenados a cem anos de solidão, uma segunda oportunidade sobre a terra. Para os humilhados, os ofendidos, os sem-nada que erguem, em seus sonhos e esperanças, um outro mundo possível”.

Eric Nepomuceno, tradutor de diversas obras de García Márquez, sobre os 80 anos do traduzido.