20.8.07

A história da senhorinha das plantas

Não sabia muito bem desde quando, mas fazia tempo que ela estava ali. Não hoje, hoje acabara de entrar, mas já havia alguns anos que ela vinha toda pequenininha, sempre com um casaquinho mesmo nos dias mais quentes, um regador e a cesta de ferramentas. Não demorava quase nada, falava pouquíssimo, e depois sumia por um período. Naquele dia, sentiu um ímpeto de abraçá-la. Seria estranho, é claro, e a senhora decerto se assustaria já que as duas mal se conheciam, mas queria mostrar que o trabalho de cuidar das suas plantas a deixava muito feliz. Não pela função de jardineira, mas pela conseqüente presença das flores na sala. E como estavam bonitas! Sempre foram aquelas? Combinavam perfeitamente com a decoração, será que quando pintaram as paredes a senhorinha mudou as cores do jardim também? Nunca tinha reparado nisso! Concluiu que adorava ter uma sala com flores. Levantou, encheu um copo de água e ofereceu à dona do casaquinho lilás da cor das pétalas. Precisava tratá-la bem, ela não podia ir embora. Ofereceu café também, mas este foi recusado por causa da cafeína. Então não toma! Se ficar acelerada é capaz de passar a energia para as plantas e elas morrerem. Nada poderia estragar aquele quadro.
Ele também não toma café, já fazia tempo que tinha trocado por sucos. Todas as terças trazia da feira um carrinho cheio de frutas e escolhia o cardápio matinal da semana. Oferecia um gole para ela provar na tentativa de um dia convencê-la a trocar a dieta. Sentiu um ímpeto de ir encontrá-lo. Seria estranho, é claro, e ele decerto pensaria que algo tinha acontecido, mas ela queria mostrar que a certeza de tê-lo a deixava muito feliz. Não por ele ser um grande inventor de sucos, mas pelo discreto cuidado com seu bem-estar. E como ela estava tranquila! Nunca fora assim. Não se corroía de mau-humor se ele chegasse mais tarde nem achava que cada vez seria a última. A segurança de um alimentava a do outro. Ainda não tinha reparado nisso. Concluiu que adorava tê-lo por perto. Pensou que o amor traz à vida uma paz que por tantos anos ela buscou dentro de si, e de fato só lá conseguiu achar.


I never made promises lightly
And there have been some that I've broken
But I swear in the days still left we'll walk in the fields of gold
(Sting)

12.8.07

RG

Eu preciso que o meu oxigênio contenha partículas de maresia. Eu adoro quando o mundo dá provas de que posso ser menos descrente. Eu bebo muita cafeína. Eu poderia beber muito vinho. Eu adoraria comer mais pão, queijo e chocolate. Eu gargalho menos do que preciso e por isso amo o Will Ferrell. Eu acho as pessoas estranhas. Eu deveria tirar mais fotos. As notas na minha carteira são em ordem crescente. Quando eu sou feliz sei que sou feliz e não digo que era e não sabia. Eu tenho preguiça de certas convenções sociais. Eu não sei quase nada. Eu ando sentindo falta de humildade. Eu acho emocionante alguém aprender a ler. Às vezes eu quero desligar crianças. Eu não acho bonito dizer isso. Eu não tenho muita energia para as coisas que não me interessam. Eu queria conseguir meditar. Eu associo moletom a edredom e pantufa. Eu rejuvenesço enquanto amadureço. Eu teria um São Bernardo se ele fosse auto-limpante. Eu precisaria de mais espaço para ele. Eu olho para o Jamie Oliver e temo ter dislexia culinária. Eu queria que aulas de dança fossem como parecem ser. Diagnosticaram que eu extrapolaria a minha criatividade, mas até aqui tudo bem. Eu gosto de fotos em close. Eu quero sempre mais e não sou uma música do Ira. Eu sacudo o meu cachorro para checar se ele está só dormindo ou morreu. Eu me sinto culpada, mas a culpa não é minha. Eu adoro cachecóis e pashminas. Eu tenho me obrigado a esperar mais um pouco. Eu tenho problema com pontualidade. Eu acho que auto-conhecimento é fundamental, mas pode gerar uma overdose de primeira pessoa. Eu escrevi todas essas linhas e não consegui montar como pediram o meu perfil.

8.8.07

O silêncio da inocente

Ás vezes fico lendo blogs de gente que está longe e queria estar longe só para ter muito o que contar. Porque quando a gente está fora tudo é diferente, e mesmo que as pessoas do outro lugar façam o mesmo que as do meu lugar, isso já é algo novo para perceber. E mesmo que muitas vezes eu seja turista onde nasci e as pessoas com quem convivo sejam para mim gente de outro lugar, não são relatos de uma viagem. Mesmo que os dias às vezes sejam uma viagem.
Eu chego e falo bom dia, mas elas não respondem. Respondem só com um bom dia, nem me olham. Eu queria falar coisas! E de vez em quando me encho de coragem ou não aguento pensar só comigo e comento em voz alta. A moça da mesa ao lado dá um sorrisinho ou rebate com uma frase de mais ou menos 5 palavras. Acabou a conversa. Eu tento rir, riso aproxima, né? Ninguém ri junto. Choro também aproxima, mas não ficaria bem alguém chorar no meio do dia. O que acontece com essa gente?
Comecei a sofrer de excesso de palavras contidas, a qualquer momento eu gritaria na cara delas ou faria uma revelação polêmica. Por enquanto, diminuía cada vez mais as interações. Até que acharam pistas sobre o desaparecimento da Madeleine. Meu Deus, Madeleine poderia estar morta! E os pais de Madeleine? Coitados! Acham que Madeleine pode ter sido assassinada no quarto do hotel! Não aguentei. Desde que a garotinha desapareceu em maio em Portugal eu acompanho a busca por Madeleine nos jornais. Interrompi o silêncio. Anunciei que os pais mataram Madeleine. As cabeças não se moveram, veio só uma voz: "Não está confirmado ainda. Existem outras pistas". Uau, 7 palavras! Recorde.
É por isso que as pessoas escrevem diários. Eca, imagina os diários dessa gente.

5.8.07

Amil Resgate

Há horas em que só Nick Hornby.
I am an island. I'm bloody Ibiza!
Dias em que só Little Miss Sunshine.
Everyone just... pretend to be normal!
Tardes em que só Friends.
Ross: You know what? I'd better pass on the game. I'm just gonna go home and think about my ex-wife and her lesbian lover.
Joey: The hell with hockey. Let's all do that.
Momentos em que só Will Ferrell.
http://www.funnyordie.com/videos/74
Pearl rules.

3.8.07

Terapia tribuneira

Sintomas: baixa auto-estima, ansiedade, tristeza, solidão.
Tratamento: eliminação do stress com a diminuição do nível de cortisol, elevação de serotonina e dopamina e controle da pressão sanguínea através da desaceleração dos batimentos cardíacos.
Posologia: conforme vontade de cada um. Nos casos em que o paciente achar que não há necessidade, tornar-se-á obrigatório o ato ao menos uma vez ao dia.
Contra-indicação: não foi diagnosticada nenhuma até o momento.

28.7.07

Sweet child o'mine

Acontece quando o Beijoqueiro reaparece no Maracanã atrás das meninas do futebol e o estagiário grita: “um velhinho invadiu o campo!”, o que gera uma comoção saudosa, indignação pelas cacetadas que ele levou e espanto do garoto: “vocês conhecem o cara?”. Ele também nunca ouviu falar no Juruna.
Você lembra que tinha pânico de encontrar o Ulysses Guimarães no mar de Angra depois que helicóptero dele caiu. Comentando com uma amiga, ela revela que o filho adorou o CD preto do RPM que achou: “antigamente os CDs eram enormes, né, mãe?”. E culmina nos 20 anos de Appetite for Destruction. Axl, bermuda ciclista, bandana na cabeça. Por que exatamente você guardou suas argolas douradas? Para quando a irmã mais nova aparecesse de colete e escova no cabelo, pudesse ter a indumentária completa. Você só reza - por favor não me diz que vai para a re-inauguração do Fun Club.
O DVR não pode vingar porque se os estagiários não compreenderem a gravidade de não se conseguir programar um videocassete eles serão oficialmente uma nova geração! Tudo bem as Barbies terem virado Pollys, o PS3 ter substituído a Cecizinha no Natal, mas ter que responder que sim, é verdade que o Michael Jackson era preto, aí já não dá. Finge que você sempre se comunicou por email, sempre! Ouviu falar que a bateria azul durava 6 horas ao contrário das 2 horas das verdes, mas seu celular sempre ficou ligado 24 horas, Teletrim devia ser uma parada tipo TeleSena, tá ligado? E na primeira vez em que foi aos Estados Unidos (para comprar Pringles e Juicy Fruit) não mandou um postal encantada com os telefones porque eles davam linha assim que tirávamos do gancho. Os telefones daqui é que davam linha, eram temperamentais, iam embora e não ligavam no dia seguinte! Meu Deus, será que os molequinhos te chamam de tia no sinal porque realmente te acham bem mais velha? Você sente uma taquicardia – mas já está na idade de infartar?
A Astrid entra na sala. Pela porta, não pela TV. Chegou para a reunião. Você só pensa em pedir – por favor, fala mais uma vez “na primeira posição do Disk MTV, Epic, com Faith no More". Mas fala baixo senão os estagiários vão querer saber quem é.

And if I stare too long I’ll probably break down and cry
And pray for the thunder and the rain

To quietly pass me by

24.7.07

Assim

Porque eu vi lá do começo da rua que você estava na porta da varanda. Porque tocava um CD do Elvis no carro. Porque eu olhei para ver se você estava vindo. Porque dá saudade sem. Porque existe email. Porque o Flamengo ganhou. Porque eu desenrolo o cabelo. Porque você ignora a blusa. Porque tem sempre vinho no meu copo. Porque tem sempre whisky no seu. Porque você deita no meu colo. Porque eu preciso apagar as mensagens do celular. Porque existem orelhas. Porque existem pescoços. Porque existem mãos. Porque o gatinho deu de cara no vidro. Porque você bebe muita água. Porque eu acho bombom na bolsa. Porque você quer saber. Porque eu tento entender. Porque você está perto. Porque eu não acredito na sua fama de mau. Porque o tempo passa. Porque a gente muda. Porque a vida ensina. Porque a gente cede. Porque é bom.

23.7.07

Aspas

"O que atrapalha o ser humano... é gente."

Anônimo no trailer de É Tudo Verdade.

19.7.07

Com muito orgulho e muito amor

"E de tanto torcerem por você, você aprendeu a torcer.
Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel.
Torcia o nariz para o quiabo e a escarola. Mas torcia por hambúrguer e refrigerante.
Começou a torcer até para um time. Provavelmente, nesse dia, você descobriu que
tem gente que torce diferente de você.
Seus pais torciam para você comer de boca fechada, tomar banho, escovar os dentes, estudar inglês e piano.
Eles só estavam torcendo para você ser uma pessoa bacana.
Seus amigos torciam para você usar brinco, cabular aula, falar palavrão. Eles também estavam torcendo para você ser bacana.
Nessas horas, você só torcia para não ter nascido".

Campanha da DPZ para a Copa de 2002.
Em Tribuneiros.com, campanha pela torcida Pan.

15.7.07

Espírito esportivo

O Pan mal começou e as coisas já estão péssimas: lavei a camisa verde e amarela para tirar o mofo. A gente fica pateticamente patriota e planeja começar uma revolução, melhor o governo ficar atento.
Os organizadores da linda festa de abertura teriam alegado que os ritmistas tocariam usando playback devido a problemas de acústica no Maracanã. Para testar essa afirmação, o público vaiou o presidente Lula: em todas as Américas realmente ecoou a demonstração de carinho ao líder do país. E deu um nó na garganta.
A ginástica em equipe é no sábado à noite. Poxa, a dor de garganta não passa, melhor ficar em casa vendo TV. Se a atleta só cumpre as exigências, por mais perfeita que seja a apresentação, a nota não será muito alta. Se acrescenta elementos de bonificação e o nível de dificuldade aumenta, a nota segue o mesmo caminho. E uma dose de charme nunca é mau. Se arrisca muito, pode ganhar muito. Se arrisca pouco... Entendi.
A trilha do solo da Daiane é tão maravilhosa que quase grito gol na janela por não saber como comemorar. Penso em colocar a foto da Jade no "Vin de la Maison" da semana. Xingo o câmera que não mostrou a Daniele Hypolito pedindo para a arquibancada aplaudir o ouro americano.
Jade, Laís, Daiane e Daniele são medalha de ouro, independente da opinião dos juizes.
Amanhã tem final da Copa América, Brasil e Argentina. E final da Liga de vôlei. E final individual masculina na ginástica.
Se eu começar a cantar Viva essa energia, por favor alguém me tire da cidade até que os jogos acabem.

11.7.07

Natural born killers

"Batman é, na verdade, Bruce Wayne. Homem-Aranha é Peter Parker. Quando o personagem acorda de manhã, é Peter Parker. Ele precisa vestir um disfarce para virar Homem-Aranha e é nessa característica que só Superman se encaixa. Superman não se tornou Superman, Superman nasceu Superman. Quando Superman acorda de manhã, ele é Superman. Seu alter-ego é Clark Kent. Seu figurino com o grande S é o cobertor em que ele foi embrulhado ainda bebê, quando os Kent o acharam. Essa é a sua roupa. O que Kent usa – os óculos, o terno – esse é o seu disfarce. É esse disfarce que Superman usa para se misturar conosco. Clark Kent é como Superman nos vê, e quais as características de Clark Kent? Ele é fraco... inseguro... ele é um covarde. Clark Kent é a crítica de Superman à toda a raça humana."

Kill Bill vol. II

6.7.07

Ah, que maravilha

Votei no Cristo. Porque precisava desesperadamente de um fim de semana e a sexta-feira chegou com um céu descaradamente azul. A garganta não dói mais. A Vogue de julho acena intacta da porta. Daqui a 24 horas vou dar um mergulho, deitar na areia quentinha e só me preocupar com as novidades da revista. Fui na varanda para sentir o sol bater na pele e ver se o corpo entendia que era hora de acordar e ele estava ali em cima, com os braços abertos se espreguiçando quase igual a mim. Sentei para ler o jornal e o link Vote no Cristo fez uma carinha de "me ajuda". Liguei para onde pediram. Uma gravação de mulher respondeu: "Seu voto foi computado, obrigado por sua ligação". ObrigadO? ObrigadOOO?
Droga! Por que me deixei levar pelo impulso? Quero reverter meu voto. É obrigadA. Enquanto as pessoas não tiverem o mínimo de alfabetização, não voto nisso. Não consigo retirar o voto. Escolho as outras maravilhas para anular minha participação. Voto no Alhambra, na torre Eiffel, em Machu Picchu. Besteira.
Isso me estressou. Lembro que preciso urgentemente de um sábado de sol largada na praia olhando para... bem, para a favela do Vidigal.

4.7.07

Outras notícias, no Jornal da Globo

Tem vezes em que a gente não sai do trabalho, mesmo que não esteja fisicamente lá. Para tentar me reconectar com o mundo, assisti ao Jornal Nacional:
O Live Earth foi suspenso. Não ele todo, claro, a parte aqui do Rio. Não existem policiais para todo mundo – público do show, atletas do Pan e bandidos do morro do Alemão. Xuxa, D2 e Lenny Kravitz ainda não se pronunciaram.
O galã de Malhação levou uns travecos para o motel, se irritou e tentou jogá-los do carro.
As jogadoras de softbol tiraram fotos sensuais para atrair patrocínio. Posaram de camiseta e taco na mão.
Alguns outros competidores já chegaram à Vila Panamericana, escaparam ilesos ao trajeto aeroporto-Barra. A Secretaria de Segurança estuda adotar o esquema vitorioso para todos os outros visitantes do Rio: 1,1 batedor da polícia por pessoa.
No Cartoon estava passando Se liga, Ian. Ian é uma criancinha cinéfila que finge que a vida é um filme de aventura onde ele é o diretor.
Preferi.

30.6.07

Quando ele está aqui

Fã que é fã canta com as mãos para cima, os punhos levemente inclinados para trás. A melhor de todas pulava na cadeira a cada “eu te amo, eu te amo, eu te amo” do Rei para gritar “eu também”, e ele dava um risinho. Não é um show minimalista, a orquestra é enorme (e de catiguria, o Rei assume que vê novela), as luzes são imponentes, há escuros silenciosos e de repente no palco surgem cadillacs e calhambeques para delírio das moças. Para quem está acostumada a marisas e hermanos contidos, Roberto é verborrágico. Simpaticíssimo. O Rei é um visionário, aquilo sim é interatividade! Eu sabia que ficaria desconcertada quando ele entrasse, cumprimentasse o maestro, fechasse os olhos e começasse Emoções. Não sabia que a noite revelaria uma outra faceta de Roberto Carlos.
Ele fala sobre as músicas da Jovem Guarda, “elas eram ingênuas. As canções, nós não”. Hehe. Eu sei, Rei, está no livro censurado. E diz que depois dessa fase veio a hora de liberar a sexualidade contida. O Rei é praticamente o Wando. Obsceno! Um homem pede “Cavalgada” e, depois da risadinha, RC manda “calma, bicho”. Se alguma daquelas senhoras jogasse uma calcinha no palco eu seria obrigada a me retirar. Começa a série “Rei para maiores” e ele canta a tal “Cavalgada”. Quem se espantou com a presença de Mc Leozinho no especial de fim de ano é bobo. Pelo que parece RC já chamava mulher de potranca desde os tempos em que elas eram uma brasa, mora? “Vou cavalgar por toda a noite/ Por uma estrada colorida/ Usar meus beijos como açoite/ E a minha mão mais atrevida.” Podemos voltar a Detalhes? Nunca pensei que o tapa que ele levou em Splish Splash fosse metáfora para um tapinha não dói. O Rei acaricia sensualmente o indefectível microfone torto e eu penso “Jesus Cristo, onde está você?”. Uma letra fala em peitos, ele faz o símbolo com as mãos. E o problema era Negro Gato? Ele canta Negro Gato e diz que a terapia fez efeito. Estou vendo. Mas acho que tinha algum verso estranho em Além do Horizonte...
Chega a tradicional distribuição de rosas. As mulheres saem correndo. Nem precisa, são milhares de buquês! Ele separa uma branca e guarda, vai beijando e entregando as outras diretamente para as felizardas, não permite que nenhuma desarvorada roube a flor de quem ele escolheu para recebê-la. Separa duas vermelhas do último buquê, dá tchau e sai.
O Rei é clássico.

29.6.07

:-((

"Ufa! Estou quase terminando o artigo pedido, e consegui chegar até aqui sem usar a palavra “adeus”, a não ser no título. Como diriam Chitãozinho e Xororó, “não aprendi a dizer adeus”. Um parênteses. Por essa vocês não esperavam, né? O Tutty vai dizer que já escolhi melhores autores para citar. Acho que está mesmo na hora de ir embora. A que ponto cheguei para fugir da obrigação que meus editores me impuseram de fazer uma despedida. Pra não dizer adeus, sou capaz até de baixar o nível do meu gosto musical." - Zuenir Ventura.

No Minimo (2005 - 29/06/2007). Morte súbita.
Não li o adeus do Tutty Vasques. É sexta-feira, está chovendo.
Volta e meia eu tenho a sensação de que não é possível que ninguém vá tomar alguma providência.

25.6.07

Yeah, totally...

Felizes são os bebezinhos com suas necessidades vitais, os adolescentes com seus problemas existenciais, os adultos com seus problemas sócio-econômicos e os velhinhos com seus problemas que ainda não sei quais são. Naquela etapa entre Rebeldes e auto-escola, alguém nos ajude. Danem-se eles, o desespero é nosso. Eles não costumavam se trancar nos quartos e viver deprimidos em seus mundos particulares? Onde foi parar isso?
Chegaram em bando no cinema, entre outros motivos porque têm problemas de locomoção: nem pensar em ônibus, nem pensar em poder dirigir um carro. Os pais estão ocupados fazendo outras coisas. Com aquelas roupas parecem duendes, não por usarem peças coloridas e gorrinhos, mas porque os modelos não foram criados para seres daquele tamanho. As garotas têm os corpos gorduchinhos de quem ainda não chegou na fase anoréxica em que não saberão lidar com as curvas sonhadas pelas mais velhas. Vieram de uma festa junina sobre a qual comentam e continuarão comentando durante a próxima hora e meia, por acaso o mesmo tempo do filme que compraram para assistir. Penso se engoliram a Paris Hilton, não fosse a presidiária mais monossilábica do que elas.
Entre o cinema e o bar tem um pipoqueiro, um poste, uma rua com carros, um banco e mesinhas na calçada. Temo que algum dê com a cara nos obstáculos devido à visão comprometida pelos cabelos caindo nos olhos. Enquanto eles comem, elas conversam sei lá, tipo mil coisas, apoiando o peso do corpo em uma perna e intensificando a lordose/escoliose agravada pela preocupação em carregar nos ombros uma bolsa murcha já que completamente vazia.
Entramos na sala e sinto saudade dos espectadores que comem balas e esquecem de desligar o celular. Uma profusão de “shhhh” dos adultos estimula a rebeldia grupal e penso se eles são tolhidos de comunicação verbal em casa por isso precisam extravasar. Voa na cabeça de um cidadão civilizado uma almofada que o cinema deixa à disposição de crianças. Torço por sangue. O homem se controla e sua fúria acalma as criaturas. Quem aposentou os lanterninhas? Shrek Terceiro começa. Não deve ter sido um caco exclusivo dessa sessão, mas vem bem a calhar que o ogro apareça em uma high school americana. Os mini-teen não entendem as piadas, logo, não se acanham e, ai, nada a ver, falam tipo todo o tempo e alto e prevêem as cenas mais óbvias que não requerem muito, sabe, cérebro, e o gatinho é muuuito fofo.
O filme acaba e eu vou ter que ver de novo, mas pelo menos valeu o texto e a decisão de mandar meus filhos para a Suíça a partir dos dez anos.

20.6.07

Pra fazer feliz a quem?

"Quantos não decepcionaram nosso voto? (...) Estamos, enfim, tratando aqui de hipótese absurda – a de Cristo ter um dia que ficar explicando que não sabia disso, não sabia daquilo –, estátuas não falam, mas, sei lá! Tem-se visto coisas! Já imaginou se depois de eleito ele cai lá de cima sobre uma comunidade pobre de Botafogo ou Santa Teresa?
Pensei nisso na quinta-feira, quando Lula subiu o morro."
Tutty Vasques

Vote no Cristo, mas antes leia Tribuneiros.

19.6.07

Uma brincadeira de papel

Estava na China agora, via fuçações internéticas. O site tem uma categoria “Felicidade é...”, onde, claro, cliquei: na China existe um trem do metrô adesivado de Snoopy! Peanuts está diretamente relacionado à felicidade - à minha - apesar de Charlie Brown ser um tanto quanto deprimido. Esse post poderia ser todo sobre Peanuts não fosse mais urgente o fato d’eu ter clicado em “Felicidade é” antes mesmo de ler o resto do site. Papai Noel não traz, e precisamos ser felizes ainda nesta vida.
Brotam livros sobre felicidade. Não só textos de auto-ajuda, alguns autores posicionam o debate filosoficamente e esse é o caso de Darrin McMahon, professor de história na Universidade da Flórida, que relata como os ideais e a percepção mudaram ao longo dos séculos, em diferentes culturas e lugares. Quando nos séculos 17 e 18 apareceu a noção de que nossas vidas não estavam mais nas mãos dos deuses, destino, sorte, etc, o Iluminismo trouxe a idéia de que devíamos buscar mais prazeres e tentar reduzir o sofrimento. Foi aí que a coisa pesou para nosso lado: opa, se der errado eu terei sido um incompetente? Como vou fazer isso? Que angústia.
O Fantástico (esse mesmo, do Cid Moreira) fez uma matéria sobre o tema. Tanto para o Alcides, dos cafundós do Brasil, quanto para o antropólogo Roberto da Matta, felicidade envolve coisas simples como tomar uma cerveja, passa por conquistas e momentos, e só se diferencia no rebuscamento da argumentação. Da Matta explica que felicidade é um estado de equilíbrio: “O paraíso, que também seria um lugar de felicidade plena, é um lugar de estabilidade. O paraíso não muda”. Não?
O professor Darrin acrescenta que a preocupação que temos hoje com a felicidade é um luxo – nos sobra tempo para pensar sobre isso graças à longevidade e outras questões resolvidas como pragas, fome e guerras. Aproveitando meu luxuoso ócio criativo, tenho prestado atenção a um outro tipo de ciência, tentando relacionar seu prefixo a ações diárias - a paciência. Tendo a crer que é a única forma de aplacar o mal que acomete o mundo – pelo menos o meu – a ansiedade. Uma dose de fé não faz mal, e cada um acrescenta à receita o ingrediente que mais lhe agradar, mas recomendo a calma.
Artigo raro, vai ver produzido em larga escala no mercado negro chinês.

O pensamento parece uma coisa à toa
mas como é que a gente voa
Quando começa a pensar

13.6.07

Dá uma forcinha pro santo!

Logo na entrada dá para sentir o cheiro de broa de milho e, naturalmente, dos famosos pãezinhos. Ele chega um pouco atrasado, o que nos dá tempo para olhar ao redor, e vai logo se explicando: "Ainda bem que você não é ansiosa, sabe quantas vezes sou agredido por esses meus atrasos?" Antonio desmarcou a conversa diversas vezes, mas garante que há tempos quer esclarecer como funcionam as coisas no seu departamento.

O santo não se atrasa por excesso de pedidos, difícil é separá-los. Para ele mesmo, sobram poucos. “Não é o caso de terceirizar por preguiça, mas de encaminhar corretamente. Antigamente chegavam súplicas que, juro por Deus, nem Ele resolveria. A mulher era chata, feia, grudenta e já tinha escolhido o homem para casar no próximo mês porque a lipo estava marcada. Hoje não sofro mais por isso, nosso sistema encaminha a fiel para Rita de Cássia e ela tem todo um know-how em causas impossíveis assim. Confesso que aprendi um bocado com o tempo também, você não imagina a quantidade de gente que quer casar. Isso é o mais fácil, minha filha! Casar qualquer um casa porque tem é pessoa carente no mundo. Sendo essa a condição única, beleza. Santo Expedito, nem me preocupo – causas urgentes. Não é preconceito, dependendo da idade da mulher nem ela quer que o pedido passe por aqui”.

Nada tira o bom humor do santo, a não ser falar sobre a moça que primeiro o jogou pela janela. “Conversávamos muito, mas existiam outras questões a resolver e ela não quis entender, achou que era tudo minha culpa e zum, lá fui eu quarto afora pelos ares. Tinha que cair em algum lugar, é física e não religião. Caí na cabeça de um pedestre e acabou que eles se casaram. Não fui eu! O boato se espalhou e todos os dias alguém me coloca de cabeça para baixo, dentro do armário, arranca até o menino Jesus dos meus braços. Não gosto desse tipo de coisa não, deduro logo para São Gangulfo. Quase ninguém sabe, mas ele é o santo dos adultérios. Depois dele, só São Theodoro na reconciliação ou Santa Adelaide no segundo casamento. Acabam intercedendo junto a mim, mas preciso acabar com essa moda de me punir.”

Os pedidos não param de chegar e reparo que Santo Antonio encaminha um para São Longuinho. “Esse trabalha também. Não é só chave que ele acha não, tem gente que perdeu amor no mundo, deixou escapar a chance e quer uma segunda. Os pulinhos não são só de alegria, é o pagamento. Contamos com a ajuda até de São Jorge aqui, não porque em alguns casos só sendo muito guerreiro mas pelo costume catalão de presentear com livros e flores no dia dele. Acaba funcionando. Essa questão cultural ajuda muito, basta olhar ali a sala de São Valentim e Santa Catarina de Alexandria, lotadas! A verdade é que eu, minha filha, fui promovido e hoje só atendo os casos mais graves. Não os desesperados – esses esgotam a paciência de São Judas – mas aqueles que dão mais trabalho. As tais mulheres que escolhem. Inventaram de estar bem sozinhas e querem alguém que some, não complete. Além de tudo querem ser felizes! Ah, saudades de quem pedia só véu e grinalda...”

11.6.07

Cara estranho

Tem que trocar o ingresso comprado pela internet por outro na hora. Lotou tão rápido que marcaram um show extra. É feriado, vem gente do país todo. Será que haverá suicídio coletivo em um final digno de seitas? É o último!
Contrariando expectativas, saímos para a despedida uma hora antes (sem cadeiras de praia, isopor com alimentos ou kit de primeiros socorros), estacionamos o carro, entramos na Fundição Progresso sem enfrentar fila e nos posicionamos na platéia. “Será melhor ficarmos no segundo andar? Aqui está muito na frente, seremos esmagados. Não solta da minha mão, se nos perdermos o ponto de encontro é aqui”.
Esperamos o show começar, os fãs cumpriam sua parte com os uuus e palmas. A banda entrou. “Moça, olha só o que eu te escrevi”... O Camelo usava um figurino simbólico, fiquei na dúvida se de pastor ou morto do interior, mas o tamanho do terno atestava que o defunto era maior. Era Quincas Berro d’Água. Eles, os blasés, estavam anormalmente animados e simpáticos, percebi umas quatro comunicações com o público e, apesar do som de cinema dos anos 70, captei a deixa “sola, Camelo!”, e vi corridinhas da dupla através dos telões. Não que eu não conseguisse ver o palco, na ponta dos pés enxergava o cocoruto da cabeça deles mas evitava ficar assim porque, se desequilibrasse, cairia em cima do ser humano sem camisa que estava a 0,5 centímetros de mim. Estranho a Red Nose patrocinar o show do Los Hermanos, mas é acreditar nisso ou que a moda camisa listrada e barba foi substituída por cuecas de tal marca aparecendo para fora da calça. Eles seguiam - "canta para mim, qualquer coisa assim sobre você". Um ambulante tentou atravessar a multidão com um carrinho de cerveja. Desconfiei que eu estivesse no show errado. Me acalmei quando o grupo perguntou “quem é mais sentimental que eu” e os donos das cuecas Red Nose fecharam os olhos, levantaram os braços de punhos fechados e gritaram a letra. Alguns se abraçaram. Eu não chorei. "Iaiá, se eu peco é na vontade de ter um amor de verdade". Uma menina perto de mim começou a pular de maneira diferente das outras. Era uma barata que subia pelas pernas dela. "Quem te vê passar assim por mim não sabe o que é sofrer". Alguns súditos negociavam com caras não muito amáveis seu espaço na massa enquanto eu torcia para que as próximas músicas seguissem melancólicas temendo o que aconteceria se puxassem “dai-me outro viés de ilusão pois minha paixão tu não compras mais com teu olhar”.
Lembrei dos shows em que saí de alma lavada, era só mais um, eles traduzem melhor o que eu sinto do que eu mesma, diria uma fã a um jornalista. As serpentinas voaram em Todo carnaval tem seu fim. Deixa eu brincar de ser feliz em outro lugar. Percebi quando o Amarante tentou ver o público e fiz aquele sinalzinho de mais tarde nos falamos, depois eu vou praí te ver. O Jamari França foi ao camarim e, engasgado com o fora, recebeu um email do Marcelo.

Eu sabia que você tinha entrado a trabalho mesmo contrariando o nosso pedido (...). Nós todos sabíamos que não era a hora de entrevista e a falta de educação tem muito a ver com o acordo entre a atitude e o lugar. Peço desculpas se não soube escolher as palavras com o cuidado devido (acho que disse "que perguntinha escrota?") e mando-te um beijo estalado na bochecha pra ver se cura qualquer ressaca tá?"

Para mim restou ouvir o CD em casa e guardar na lembrança o show do Morro da Urca como o último “transe coletivo”. Hasta la vista, hermanos. Com 15 mil pagantes e ingressos a 100 reais pode ser que vocês demorem a voltar. Ter e perder alguém...