18.2.08

Lar salgado lar

Vinte anos. Há vinte anos eu tinha umas 3 casas da Barbie. Daqui a vinte anos terei praticamente cinquenta anos. Terei aplicado botox ou algum descendente dele. Terei filhos, pelo menos um. Há vinte anos o oceano Atlêntico era meio grau mais gelado. Vinte anos é o prazo do financiamento que consegui na Caixa Econômica. Vinte dias foi o tempo que levei para aprender termos como ônus reais, registro geral de imóveis, amortização crescente, outorgante, certidões e parabéns, o imóvel é seu. Meu?!

- Se a senhora precisar de qualquer coisa é só falar, meu nome é Vanhuilstom.
- Vanhuilstom?
- Vonduilssom.
- Ah, obrigada. Muito prazer.
Não entendi o nome dele, decidi chamá-lo de "oi" por um tempo, mas aparentemente agora tenho um porteiro. E um faxineiro. E procuro por um pintor, o que me faz travar diálogos surrealistas.
- A senhora pensa em PVA ou acrílica?
Eu não penso nisso. Para ser mais sincera não sei nem se é um tipo de pergunta como "você sonha em preto e branco ou em cores" ou algo sobre o qual eu deva escolher. Descubro que são tipos de tinta e que sim: agora eu penso sobre isso. E PVA é mais barata.

- Olha isso aqui.
Eu olho para o buraco que o eletricista fez na parede. Vejo um fiozinho vermelho, um azul, e poeira. Pela cara dele, alguma coisa ruim tem ali. Lembro das primeiras vezes em que parei no posto e o frentista veio com o ferrinho do óleo e os dedos bezuntados balançando negativamente a cabeça para meu desespero. Resolvi o problema anotando a data de cada troca de óleo, a quilometragem e respondendo um sonoro não a cada tentativa de frentistas loucos para abrir o capô do carro.
Um dia aqueles fiozinhos farão sentido? Desconfio.
- Não vi nada não, mas esse interruptor vai ligar o ventilador de teto e sei que você vai conseguir!
Não entendo de elétrica, mas sou ótima em motivar equipes.

14.2.08

Um pra chamar de seu (prefácio de Lar, salgado lar)

- Dona Bruna, achei um que é a sua cara!
Com uma cidade desse tamanho há de sobrar algum para mim. Unzinho que calhe de estar vago bem na hora em que estou procurando. Já parei de idealizar, não precisa ser perfeito, depois de um tempo deixo ele do meu jeito! Tanta gente em condições piores se arruma, por que não eu?
O homem nunca viu a minha cara, como julga ter achado quem a reflita? Se imaginar que eu sou uma baranga desdentada e manca vai me oferecer o minhocão?
- É exatamente o que a senhora queria. O preço está um pouco acima, mas podemos negociar.
- Um pouco? O proprietário vai abrir mão de cem mil reais?
- Ah! A senhora consegue essa diferençazinha. O que são cem mil?

- Dona Bruna, entrou um agora imperdível. Sol da manhã e tudo! São quinze metros quadrados, pode até colocar um fogão ou uma geladeira dentro. Quer ver?
- Não sei quanto à gramática, mas a lógica não aceita "ou" nessa frase.

- Esse ainda não mostrei para ninguém! Olha só que maravilha. É só refazer o piso, trocar a parte elétrica e de repente a hidráulica já que vai mexer mesmo, dar uma derrubadinha nessas paredes e tá pronto para morar! Pegar ou largar, hein? Ainda vem com essa gente aqui de brinde, acena para eles! São seus vizinhos, a família Amaral. Aqui no prédio é todo mundo muito chegado. Se precisar de qualquer coisa é só falar mais alto que eles ouvem ou chegar perto da janela. Uma grande família, do que mais uma moça solteira precisa?

Um lindo apartamento com porteiro e elevador
E ar refrigerado para os dias de calor
Madame antes do nome você teria agora
Ô ô ô ô

13.2.08

Junebug



Juno: I think I'm, like, in love with you.
Bleeker: You mean as friends?
Juno: No, I mean, like, for real. 'Cause you're, like, the coolest person I've ever met, and you don't even have to try, you know.
Bleeker: I try really hard, actually.

8.2.08

As águas vão rolar (marchinhas e curtinhas de Carnaval)

A chuva tá caindo e quando a chuva começa eu acabo de perder a cabeça.

Encharcados como pintos molhados, estavam a Branca de Neve, a Porquinha, a Dança do Créu e a Joaninha esperando a comida chegar quando pegaram as toalhas das mesas do Bar Lagoa para se aquecer. Já se preparavam para a bronca quando o garçom se aproxima e decreta:
- Hoje pode tudo, é Carnaval!
E assim estava oficializada a folia nas terras de Momo. Bandeira branca, amor!

Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval.

- Sabe aquele cara com quem eu fiquei?
- Qual deles?
- O João.
- O que parece com o Nicholas Cage?
- Não, um outro. Ele disse que vinha para cá.
- E o que a gente vai fazer?
- Vamos esperar, o maluco ali disse que o bloco vai chegar aqui.
- Ah é? E depois?
- Depois vamos para outro.

Viemos do Egito e muitas vezes nós tivemos que rezar!

Bloco encerrado, corpos suados, sorrisos estampados, mortos computados, os organizadores dão por falta de um dos bonecos de dois metros contratados para divertir os foliões. Como pode um boneco de Olinda desaparecer na multidão? Vai bebum, alguém já guardou, você bebeu demais, rapaz. Maraca lotado, o teu cabelo não nega mulata: no meio da torcida, o bonecão é a sensação da Raça-Fla.

Pode me faltar tudo na vida: arroz feijão e pão, pode me faltar manteiga e tudo mais não faz falta não...

Agora eu era uma zebra, você um coelho, o de bigode uma gatinha e o mais alto uma borboleta de tubinho verde e asinha resistente à água. Se essa bóia não virar, eu chego lá na capa d'O Globo de domingo – “Foliões improvisam uma Arca de Noé e aproveitam o Carnaval sob a tempestade”. E a borboleta reza:
- Tomara que meu chefe não dê atenção às fotos.

27.1.08

Elas assim sem vocês

"Sempre desconfiei das que cantam com olhos fechados e mãos para cima os versos katmandúnicos de sol, de sal, de mar – “movimentos circulares, zona sul de bar em bar, são bocas em todo lugar”. Ou ela acabou de terminar um namoro ou mente – não faz sentido que moças bem-resolvidas bradem frases como essas em locais públicos".
Contra a Juventude e a favor das fases que passam - leia Tribuneiros.

16.1.08

Hoje eu vou tomar um porre

Pra quem brindou em um café de Paris querendo um pouquinho estar aqui (não queira!).
Pra quem saiu de Angra correndo e manteve os batimentos cardíacos controlados a noite toda apesar de tanto.
Pra quem dividiu comigo o copo de whisky pensando que são determinadas coisas que a gente nunca esquece.
Pra quem não teria mais o que me dar de presente e pra quem me esperaria para comer sorvete de sobremesa depois do lançamento.
Pra quem depois de tudo arrumado dizia “acho que não quero mais brincar” (e até hoje brinca), e pra quem a faz tão feliz.
Pra quem fica ótima de dourado antes mesmo que nós outros saibamos que podemos usar dourado.
Pra quem, uhn, acho que engordou.
Pra quem é praticamente uma estopa.
Pra quem ainda cria três filhos bebezinhos e, como se não bastasse, sobrinhos e netos bebezinhos.
Pra quem me deu Ana Maria Machado, Lygia Fagundes Telles, Ziraldo, papel e lápis.
Pra quem, do alto de seus 95 anos e um divórcio, me aconselhou a não casar com homens bonitos porque eles dão muito trabalho.
Pro rei do karaokê do Japão e organizador fundamental da torcida Raça-Brasil 2014.
Pra quem soube reencontrar sua gargalhada irresistível, pra quem escreve e me conta e pra quem jura ter até hoje os registros do início dessa brincadeira literária.
Para la verdadera artista de la familia y su candango porteño..
Pra quem procura no globo os países onde serão suas histórias, pra quem é irresistivelmente abusada, pra minha assessora e pros que cometeram essas loucuras.
Pros que provaram que se uma coisa está ruim não necessariamente vai piorar, podemos dar a volta por cima.
Pra quem fica desesperada quando eu acordo antes da chegada do pão.
Pra quem reuniu a família e torceu tanto por ontem.
Para quem me levou pra zoar puta em Copacabana e pra espoleta do revolver dele.
Pra quem é meu 911 e o diabinho do desenho animado.
Pra quem, em algum lugar do velho continente, é peça chave na minha vida.
Pra quem é my person e pra essa mala que ela jurou que tinha um humor como o meu (eu sou muito melhor).
Pra quem will always have Paris (até porque lá tem Louis Vuitton!).
Pra quem apareceu de surpresa e me deixou sem palavras.
Pra quem daqui a pouco vai sumir porque está namorando.
Pras que me receberam de braços abertos e bloco na rua.
Pra cúmplice do politicamente incorreto.
Pras pragas, mineiros bígamos, intelectuais rock’n’roll, palhaços, shamus e as tampinhas de cachaça que me divertem tanto.
Pra quem enfrentou comigo la pluie sem ter como voltar para a Rue de la Huchette.
Pra quem mostrou que existe ser chefe e mãe, pro adolescente que tem um amor platônico mesmo sem saber o que é isso, e pra quem ontem era menor do que uma ervilha e hoje canta Cai, cai balão.
Pra quem colocou aquele banquinho na parede que me proporcionou tantas conversas produtivas.
Pra quem teve paciência e carinho de enfrentar a fila e se apresentar.
Pra quem toda semana me mostra que gente é gente, e ainda não inventaram coisa melhor.

Pra quem enlouqueceu em Geribá e me convidou para escrever um texto e pra quem foi sóbrio para Salvador e assim me levou ao site pela primeira vez. Ainda bem que vocês são loucos!

Muito obrigada.

13.1.08

Na primeira vez a gente sempre esquece

Ele não vai ser sempre perfeito daquele jeito, nem vai te achar tão encantadora. Não vai para sempre perguntar por que diabos você não está casada e eternamente comprometida, nem você vai pensar se é mesmo possível tudo aquilo estar disponível nos dias de hoje. Que precisa acordar cedo no dia seguinte e já deveria estar em casa há horas.

Esquece de filtrar todo aquele charme e racionalizar se existe algum futuro. Nem por um segundo você cogita a possibilidade de por trás de tanto empenho existir um psicopata dependente e ciumento. Que ele pode ser um grande mentiroso e destruir seu coração em poucos dias, que da última vez jurou nunca mais ser boba assim, que há pouco tempo estava acabando com o estoque de lenços da casa secando o vale de lágrimas derramado por quem começou do mesmo jeito. Esquece que ele vai te roubar o prazer da solidão, que vai passar essa vontade ingênua de ficar e não pensar em nada.

Esquece que precisa disfarçar a taquicardia, falar menos e parar de esbarrar nele. Nem nota que milhares de vezes ele vai pensar em te beijar e desistir com medo de ser precipitado, que existem pessoas ao redor reparando no seu sorriso bobo e que você não pára de mexer no cabelo. Esquece que os olhos dele nem sempre vão estar te seguindo, que a música está alta mas ninguém ao redor está falando tão perto do ouvido alheio, que nem sempre ele vai pagar mais uma bebida torcendo para aquilo dar um porre de coragem.

Esquece de guardar um pouco da sua versão adorável para depois, esquece que ele não vai falar de você pros amigos com reticências e uma gargalhada sem graça todas as vezes, não vai se culpar por ter perdido tanto tempo com as outras tendo você tão perto. Que a aranha da parede vai considerar usá-los como suporte para a teia se não saírem dali. Que as suas amigas estão dormindo no carro esperando você chegar flutuando, que se você ficar mais feliz vai começar a pular e isso vai ser estranho.
Esquece que isso não acontece todo dia, nem por toda a vida.

Na próxima vez tenta lembrar. E não esquece de guardar para sempre.

Publicado em Seu Martin 1, 10/5/06

11.1.08

Adrenalina

Soltaram fogos na rua e me dei conta de que 2008 só começou há onze dias. Nesse pouco tempo soube que vou lançar um livro e por isso apareci no jornal, aprendi a fazer cobertura de um evento ao vivo e com isso conheci várias pessoas que teoricamente eu já conhecia, participei de um tiroteio, me apaixonei pelas botas da nova coleção da Juliana Jabour, entendi que no inverno vou usar meia-calça colorida, que o plural correto é meias-calças, li um livro sobre a livraria Shakespeare and Company e quis voltar a Paris. Enquanto isso mal consegui acompanhar que mexeram nos meus impostos, soltaram as reféns, Sarkozy saracoteia por aí com Carla Bruni, Madeleine não apareceu, Obama disputa voto a voto com Hillary e me parece que todos deram para chorar em público nos Estados Unidos.
Eu chorei baldes em público depois de sair correndo para fugir do tiroteio. Comemorei cada transmissão ao vivo bem-feita vibrando como vou fazer a cada livro vendido e a cada novo leitor no site e no blog.
Depois que a guerra civil acalmou naquele dia, o segurança falou para mim:
- Entendo que você fique nervosa, é porque não está acostumada.
Com algumas coisas nunca devemos nos acostumar, seja para não perder a euforia da novidade nem o senso crítico sobre o absurdo.

5.1.08

O Rio de Janeiro, fevereiro e março

Baixo Gávea, entro na vaga e vem o flanelinha:
- Posso dar uma olhadinha, madame?
- Claro, são quinze reais.
- Tô fazendo preço especial, linda. Aqui é cinco.
- Para olhar o meu carro são quinze. Esse mês tem IPVA e acabei de fazer a revisão, ele está tinindo. Se quiser pode terceirizar e recolher o dinheiro com cada um que passar e olhar. Já calcula no seu preço o IOF.

Horas depois eu volto e o flanelinha está jantando na varanda do Guimas com o salário do dia.
- Aí, princesa, toma teus quinze. O carro tava na passagem e nego teve que olhar direto, faturei bem!

Tem otário para pagar por tudo nessa vida.

Coluna do Ancelmo Gois:
Motorista de um Volvo blindado vê o ladrão armado bater no vidro e dizer que vai explodi-lo. Pelo auto-falante, responde:
- Zero dois, o senhor é um fanfarrão! Você é que vai se explodir.
E arranca.

Fecharam a praia do Leblon. Imprópria. 1,4 mil coliformes fecais por 100 mililitros a mais do que o normal.
Para garantir o verão, dona Vanda, da barraca onde trabalha Reginaldo, montou várias piscininhas Tone na ciclovia, bem ali onde daqui a pouco começam a passar os blocos do Carnaval.

Enquanto isso, em uma livraria a algumas quadras da praia poluída de Manoel Carlos, os Tribuneiros preparam seu lançamento.

31.12.07

Jetsons

Já são quase 9 da manhã em Pequim e amigos chineses me ligam para avisar que, por enquanto, tudo bem em 2008.
Sendo assim, vou brindar ao Ano Novo. Nos vemos no futuro!

28.12.07

Como ser feliz em 2008

Com música, sempre.
Comece com Mutya em Real Girl, para ouvir lendo Tribuneiros.

23.12.07

Meu querido Santa

E aí, Noel, achou que eu não fosse te escrever esse ano, né? Estava sem tempo, agora finalmente esbarrei no espírito de Natal e sentei para fazer nossa tradicional comunicação. É só uma vez ao ano, não pode faltar. Sabe que tem gente que eu vi quase com essa freqüência em 2007? Nada bom.
De cara queria agradecer pela chuva, senti-la me causou a mesma felicidade que nos sobreviventes do sertão. Não ter obrigação de ir à praia me deixa passar o tempo livre recarregando as energias e criando guias de viagem. Já contei que talvez eu queira ser isso quando crescer? Mas eu adoro dias de sol, tá? No domingo fui ao Arpoador e estava tão maravilhoso que tinha até baleia no mar! Eu não vi, mas fingi que vi para me sentir mais privilegiada.
Desisti de viajar, troquei a passagem aérea pelo direito de ficar jogada nesse sofá e, pelo caos aéreo, parece que fui gênia. Não vou te encher de novo com história de caos aéreo, inclusive não quero mais escrever essas palavras. Vou te contar que ganhei uma almofada de Natal! Serei a primeira pessoa a montar uma casa a partir de uma almofada, e isso já faz dela o lugar mais sensacional do mundo.
Sinceramente não sei bem que presente pedir, posso ficar com um vale? Foi tanta correria para ter uma semana longe do trabalho que não lembrei nem de infernizar os outros cantando Já é Natal na Leader Magazine. Só quero saber de pernas para o ar.
Deixa pra passar aqui no final da noite, assim não precisa fazer visita de médico. Não vou sair, podemos tomar uma champagne rosé e bater papo. Se tiver algum duende estilo Will Ferrel pode trazer, a festa é sua, a festa é nossa, é de quem quiser desde que não perturbe. Minhas obrigações a partir de amanhã são ver muitos filmes (tenho amado tanto Daniel Autteil e Adrian Brody! Preciso ver Viagem a Darjeeling, Conversas com Meu Jardineiro, Meu Melhor Amigo, Across the Universe, Meu nome não é Johnny e Encantada. Sim, quero ver.), baixar músicas da Candie Payne, esvaziar o armário, pegar um solzinho e comprar o livro da Clarice Lispector com cartas para as irmãs – Minhas Queridas.
Preciso escrever mais cartas.
Essa já está ficando grande demais. Por fim, Santa, um desejo que achei em algum blog pelo mundo: “En tous cas, je vous souhaite d'être heureux, en cette période des fêtes. Et comme le dit ma chanson de Noël préférée: Have yourself a merry little Christmas, may your heart be light".
Desejar em francês é bonito, né?

14.12.07

When you wish upon a star

Se você já está cansado de pular sete ondas, há muitos anos passa o reveillon engasgado com uvas, considera o preço das flores para Iemanjá um absurdo mesmo sem CPMF e não acredita mais nas próprias resoluções de ano novo, essa é a sua chance!
A previsão para a madrugada é de chuva de meteoros. Não, não é a oportunidade de morrer atingido por um ser vindo do espaço. Para os íntimos, os meteoros são as estrelas cadentes e esta noite elas vão dominar a Terra. Cerca de 80 estrelas despencarão sobre nossas cabeças a cada hora em um fenômeno de extrema beleza e esperança para os desesperados.
Decore os pedidos para não errar na hora e olho fixo nos traços luminosos do céu. Especialistas recomendam olhar para o lado onde o sol se põe e escolher lugares altos como topo de prédios ou descampados como praias. Para garantir, vá para alguma cobertura na Delfim Moreira. Eles recomendam também paciência, mas se você já esperou até aqui para ter seu desejo realizado, meia hora a mais ou a menos não é nada.
Se der, vê se pede alguma coisa pra mim.

9.12.07

É.

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
Clarice Lispector (10 dez 1920 - 09 dez 1977)

1.12.07

1o de dezembro de 2007

Você aqui de novo? Não é possível! Tem alguém controlando esse tempo? Acabou de ser dezembro. Mal consegui andar um quarteirão desde que abriram o Rebouças e já está trânsito de novo, quem colocou essa árvore no meio da Lagoa?
Eu estava fingindo que não via a onipresença do Papai Noel nos shoppings e encartes de jornal, mudava de assunto quando faziam planos para o reveillon ao meu redor: eu não sei onde vou estar no dia 31! Não posso garantir que vá estar feliz tacando champagne na cabeça dos outros. Tomo remédio para ansiedade o ano inteiro e agora querem correr com as datas festivas, inventaram um tal Dia do Samba para começar o Carnaval dois meses antes da hora. Daqui a pouco vou comprar ovo de Páscoa em janeiro.
Não pode ser Natal de novo, se bobear devo ao cartão de crédito até hoje. É isso mesmo? Planos para 2008? (ainda é 2008, né? Vai ver pisquei e estou atrasada para a Copa. Os ingressos já estão à venda?) Planos para 2008. Nem assimilei ainda o que aconteceu em 2007. Tenho que fazer aquelas listas? Esse ano escrevi mais de 120 textos aqui e no Tribuneiros, o que significa muita besteira publicamente assumida e uma economia de horas na terapia de grupo. Passei a ouvir Martnália nesse ano ou no passado? Las Chicas foi nesse ano. O CD novo da Maria Rita ainda é novo? Ai... lembrei que nesse ano Los Hermanos trocaram os shows por partidas de truco em casa. Agora só o vento vai dizer lento o que virá.
House já está na décima temporada, mas entra na lista desse ano. Em 2007 houve a conquista de Nova York por Bruna! E o país foi conquistado por Bebel. Bebel e Wagner Moura. Tropa de Elite. Lançaram War in Rio, vocês viram? 2007 foi mais violento? Essa pica é do aspira. Sergio Cabral entrou esse ano, Valerioduto é do ano passado, Renan é coisa nova, certo? Mas Renan é velho pra caramba. O Christo Redemptor agora é oficialmente uma maravilha. Que outros filmes vi em 2007? Notas sobre um escândalo, Shrek 3, Scoop, O ano em que meus pais saíram de férias foi 2007 ou 2008? Certamente em 2007 Hugo Chávez não calou a boca. Fidel não morreu. Lula também não (calou a boca). No ano passado ainda voávamos de avião no Brasil? Não, até o meio do ano passado, na calma dos ignorantes. Não imaginávamos que um avião pudesse atravessar a pista de Congonhas e explodir ao bater em um prédio. Bentoxisveí esteve por aqui. Al Gore também? Perdi a noção, para onde eu olho tem Al Gore. E temakis.
Em 2007 descobri onde fica Mianmar, nunca tinha visto protesto de monges. Por aqui também houve conscientização, milhares de pessoas foram à praia de Copacabana para o Live Earth. Sim, aquilo era um evento mundial para alertar sobre a crise climática, não era uma micareta. Em 2007 decretaram que o mundo vai derreter. Ele decretou – Al Gore. Jogos Panamericanos! O Rio nunca esteve tão patriota. Os estádios ainda estão de pé? Por que o Co-Rio ainda não pagou todo o meu salário? Olha o rancor, deixa esses sentimentos ruins para trás, nesse ano você aprendeu que Obina é melhor do que o Eto’o. Vai enfeitar a casa e vestir seu espírito natalino que o mundo fica melhor. É só um mês, depois passa.
Passa rápido demais, deve ser por isso que não tenho aprendido nada. Ou passa exatamente igual a sempre, eu é que estou correndo demais. Fazendo a retrospectiva mais cedo dá tempo de reverter a situação antes do fim oficial do ano. Em dezembro eu vou fazer yoga.

21.11.07

Cidade Partida

– E quando o Flamengo ganhar?
– Eu fico na calçada do Braseiro, você no Hipódromo.
– Ok.
– É isso?
– É isso.

Uma separação total e de bem em Tribuneiros.com.

16.11.07

Know all of the things that make you who you are

Meu livro de cabeceira é 1000 Lugares para Conhecer Antes de Morrer. Assim, quando o despertador toca e o corpo diz que não vai, olho para ele, para o extrato do banco preso no mural e vou trabalhar. Viajo muito mais sem sair do lugar do que com o pé na estrada, mas pelo menos a crise nas idéias não depende do governo como a aérea.
Agora foi lançado 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, onde 90 jornalistas e críticos de música apresentam uma seleção dos álbuns mais inesquecíveis de todos os tempos. Desde que eu recuperava fitas K7 com durex e as enrolava com caneta Bic meu playlist mudou muito (passou inclusive a se chamar playlist). Xeretando o que escrevi há exatos 2 anos no blog antigo, achei esse texto:

"(...) Músicas marcam momentos das nossas vidas até que montamos nossa própria trilha sonora. Eu tive a certeza de estar vivendo um desses momentos únicos quando ouvi Maroon 5 num show em Praga. Pôr do sol, 10 graus de primavera, neve derretendo e a praça principal enfeitada para o dia de São Patrício. Todas as pessoas cantavam baixinho, e eu sempre volto para aquele lugar quando ouço She Will be Loved de novo. Um bloco de Carnaval lava a alma, e quando caiu um temporal na hora em que o Cordão do Bola Preta tocava Explode Coração, não ficou um inteiro. Passei a adolescência na California de tanto que ouvi All Eyes on Me. Orishas é a cara de Barcelona.
(...) Foi assim que me encantei por Los Hermanos. Vivia tão triste que ouvir Mais uma Canção era o conforto de saber que eu não estava sozinha, alguém já tinha sobrevivido àquela dor. Ou não, e a genialidade do artista está em conseguir detectar o que vai no coração das pessoas e transformar aquilo em música. Tenho ouvido muito Zélia Duncan, Black Eyed Peas e Vanessa da Matta. Dependendo do momento, ouço Even Flow ou Maggie May. E nessa de andar na praia para ficar muito tempo só ouvindo música, descobri Doesn’t Remind Me, do Audioslave. Fala de coisas que o autor gosta por não trazer lembranças de nada: The things that I've loved/ the things that I've lost/ The things I've held sacred/ that I've dropped/ I won't lie no more you can bet/ I don't want to learn what I'll need to forget. Essa é a armadilha das músicas. Vão sempre remind me of something, não tem como escapar".

Black Eyed Peas? Zelia Duncan? Ano vai, ano vem, continuo ouvindo essa do Audioslave. E hoje me peguei cantando Vanessa da Matta (mas só essa!)

...Tudo o que quer de mim/ Irreais expectativas desleais...

So many special people in the world... A APAE está cheia delas.

11.11.07

Ficou tudo igual.
Daqui a quinze minutos eu levanto.O ventilador chacoalhando no teto. O homem serrando as madeiras na minha janela. Copo de leite no café da manhã. Boca rachada. Carro sujo. Preguiça de ir à pé para a academia. Os filmes continuam estreando nos cinemas, o telefone continua ligado, os classificados saem toda semana cheios de ofertas. A areia continua um pouco suja, mas a água ainda é refrescante. Caminhar do 12 ao 10 é pouco, mas desperta. Esse sol que não sai. Só tudo mais sem graça, meio sem porque.

Ficou tudo igual.
Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo, segunda. Manhã, tarde, noite. Uns feriados. A árvore da Lagoa sendo montada. Show do Jorge Benjor. Crise aérea. Ar condicionado. O verão chegando trazendo um bafo quente.
Você só não vai estar nele.

No outono refresca.

6.11.07

L de lágrima

Não costumo ler recaps, mas procurando pela estréia da nova temporada de The L Word fui sugada pela crítica de um episódio anterior ao do casamento.
Dizia - "se existe uma coisa da natureza humana é o desejo de ser irrestritamente aceito por alguém. Para alguns isso significa ser acolhido pelo maior número de pessoas possível e, para outros, ser aceito por uma única pessoa no mundo já é o suficiente, o que vier a mais é bônus". Essa introdução era para explicar porque Carmen contou à sua família latina que estava apaixonada por outra mulher e mostrar a porrada que foi ouvir que era melhor ela ser puta do que lésbica.
A tal outra mulher era a Shane e o tal episódio do casamento vem a seguir.
Na abertura Shane conhece o pai que a abandonou quando criança. Ela estava fugindo do lugar onde tinha marcado de encontrá-lo quando ele a reconheceu porque também estava fugindo. Pai e filha, além de fujões, dormem tarde, são sedutores e indomáveis. Mesmo sendo a Shane, ela se emocionou ao ver que tinha uma família normal, uma madrasta, um irmão, e convidou os seus para o casamento. Mesmo sendo a Shane ela tinha pedido a Carmen em casamento. Mesmo sendo a Shane ela queria continuar a lado da Carmen apesar de tudo.
As amigas fizeram uma despedida de solteiro: "um brinde à Shane, que nos ensinou que as idiossincrasias podem ser bonitas". Por ser a Shane todas se espantaram ao ouvir sua declaração: "quase sempre o amor não acontece da forma como esperamos, mas se suportarmos a dor ele pode se fortalecer e tornar-se ainda mais precioso. Quem sabe?".
A família da Carmen foi ao casamento e ela entrou de braços dados com a mãe na igreja. Irrestritamente aceita. A família da Shane também foi, e ela encontrou o pai traindo a madrasta no bar do hotel. "Patty, essa é minha filha Shane. Shane, não me orgulho disso, me desculpe. Eu sou assim, sei que você entende".
Carmen ainda estava sorrindo a caminho do altar quando entendeu o recado que a madrinha trazia na frente de todos os convidados: "Shane não espera que a perdoe, não se orgulha disso, mas ela é assim".
O tal recap compara a cena do não-casamento àquela história do sapo que aceitou levar o escorpião até o outro lado do rio e foi picado porque escorpiões são assim. Lamenta que algumas pessoas não acreditem que possam mudar. Mas vai ver só alguns homens descendem do macaco. Talvez outros descendam do escorpião. E outros do sapo.
Quem sabe?