27.5.08
A Hard Day's Night
Trocaria a liberdade de mudar minha vida pela certeza imutável do que já vivi. Mas nem é certeza, muda sempre o ponto de vista. Aumenta a exaustão. E se eu falhar na minha essência, se minha existência for estragada pelas minhas trapalhadas e incompetência? Fui condenada à liberdade mas não me lembro de ter assinado esse acordo, não aceitei as regras. Quem não consegue comprar uma roupa vai falhar no projeto fundamental. E eu não decidi ainda qual é o meu projeto fundamental, já devo estar atrasada no cronograma, não aprovei orçamento nem selecionei equipe, não fiz o treinamento, eu vou falhar.
Então sou responsável pelo mundo que projetei. Pelo mundo todo eu levo a glória ou a culpa sozinha? Por que eu acho que vai ser culpa e não glória? Angústia previsível com tanta responsabilidade existencialista sobre as minhas costas. Eu quero o universo do sonho, isso é liberdade. Poder realizar qualquer coisa instantaneamente e não ter pessoas cutucando para avisar que não é bem assim, que são escolhas parciais e não livres, opções limitadas. Não é verdade que nada fora de mim define meu futuro. Os outros atrapalham, criam conflitos com projetos sobrepostos. Eles não serão punidos, obrigados a participar do meu plano? Inferno os outros. Coloca no acordo outra forma para que eu me veja que não seja através dos olhos deles. Ou me dê outros que me ajudem.
E se eu nem sempre tiver consciência da conseqüência dos meus atos? Quero férias de conseqüências, pausa na consciência. Alguém podia se responsabilizar pelas minhas decisões enquanto eu descanso um pouco. Posso ao menos voltar atrás? Undo? Desmake. Não estou fugindo da minha auto-determinação, mas quero conversar sobre o meu destino, preciso saber se dá para contar com ele. Nunca li o último capítulo do livro antes de chegar lá, nunca baixei episódios de Lost que não tenham sido exibidos, posso pelo menos saber se na minha história eu vou dar certo no final?
Eu, que por vontade própria ajo e afeto o mundo todo, peço licença. Preciso confessar que talvez não seja capaz. Nem sempre é justo o que o mundo faz comigo, ele podia me dar o caminho mais fácil. Eu aprenderia, juro que aprenderia. Me ouve, Sartre! É importante sim o que o mundo está fazendo comigo! Não sei o que eu vou fazer com o que o mundo está fazendo de mim! Eu aceito o acordo, com uma condição: de vez em quando, posso chorar?
Há dois anos existencialmente em Seu Martin 1.
16.5.08
A pessoa é para o que nasce
Nosso primeiro contato visual foi no Casseta e Planeta. Um deles imitava o João Gilberto e uma garota que se esfregava na cadeira a imitava. Achei engraçada a caricatura, qualquer médico classificaria aquela anatomia de anomalia e a dança mais parecia interpretação de uma atriz pornô descontrolada. De repente descobri que a cena não era uma paródia! Aquela era a célebre em carne, algum osso e carinha de quem tá gostando demais.
Hoje leio que Andressa (ela tem nome) quer fazer lipoaspiração. A ex-créu começou um tratamento que diminui 3 centímetros dos seus 119 por sessão. Pelas minhas contas, dentro de um mês ela vai desaparecer! Não digo minguar até a morte, mas se parar de esfregar a super-bunda nas... cadeiras... vai sobrar o quê? Andressa não pode virar mais uma ex-gostosona porque alguém tem que desempenhar essa função. Tal qual o futebol, o Playstation, a cerveja gelada e os camaradas, os homens precisam das Mulheres Melancia, portanto cabe às Mulheres Banana convencê-la a continuar bunduda.
A Mulher Banana*, se tivesse um quadril de 120cm, correria três horas por dia numa esteira. Ela morre de vergonha ao ver a mãe da Mulher Melancia dizer que sente muito orgulho de ter uma filha vitoriosa, acredita que o discernimento nasceu para todos e o pior: é tão banana que se importa.
As Bananas são poupadas de papéis incômodos pelas outras, peças fundamentais da cadeia alimentar. A Mulher-Biscoito-Globo, por exemplo, é gostosinha, mas não mata a fome e logo eles querem outra coisa que valorizarão muito mais. O mesmo acontece com a Mulher-Aperitivo, que acompanhada de uma bebida ele come e ainda acha bom; a Mulher-Arroz, que ele só come porque já está acostumado; a Mulher-Ostra, sobre quem todo mundo fala, mas quando ele experimenta vê que não é grande coisa; a Mulher-Cafezinho-de-Loja, que ele nem faz questão, mas aceita já que é de graça, e tantas outras que equilibram o ecossistema.
Eles precisam disso porque são homens. Pelo mesmo motivo, não conseguem encontrar nada sozinhos. Você ainda não aprendeu? Ele não entende que pegou pesado? Ele é homem. Jura que vai sufocar quando só tem um nariz entupido? Ele é homem. Não sabe como não resistiu à tentação? Ah, ele é homem! Não consegue lembrar nem do aniversário da própria mãe? Normal, ele é homem! É a explicação padrão.
Eu tenho fé que algum vai ser mais original e provar que existe modelo melhor. Qual o problema de ter esperança? Eu sou mulher!
* A Mulher Banana foi categorizada pela escritora Marta Medeiros
4.5.08
Raça, amor e paixão
Era mais um feriado dos tantos que inundaram a cidade tais quais as chuvas de março, abril e maio e eu estava dormindo quando ele ligou:
- BG?
Namoro novo, onde estiver estarei. Desde que o Souza deixou meu vizinho há cerca de um ano, volta e meia o pobre grita o nome do ex-amante pela janela, intercalando com outros com quem deve se envolver por aí. Entendo o Ronaldo, olhando eu jamais diria, mas juro que o cara em várias tardes urra nomes masculinos da sacada: Léo Mouuraaaa, Bruuuno, e sempre Soooouza! As dores do coração... Domingo piora, e era mais uma dessas tardes.
Lá fui eu encontrar o novo craque da minha vida com os camaradas no Báxu. “Tô em frente ao Alemão”. Estavam todos, e com a mesma roupa. Tentei negar, mas claramente ele tinha uma chupeta pendurada no pescoço onde meus braços deveriam estar e cantava Mamãe eu quero mamar sem se importar com o tempo que faltava para o Carnaval. Decido pegar uma cerveja, as coisas vão melhorar. Um homem acende um morteiro do meu lado e a massa começa a pular com as mãos pra cima. Vieram do Maracanã, não estão exatamente perfumados.
Querido, me resgata aqui, estou sendo esmagada por tantos corpos malhados e sorrisos talhados flertando com essas bandeiras. Ele me agarra meio vidrado e berra um eu sempre te amarei. Será que me olhou e viu o Joel Santana? Temo pelo resto da noite. Mais amigos chegam e trazem uma buzina. Impedida de ir ao banheiro pela nova política do Braseiro, parto para um Koni genérico.
Vejo o Smigol no meio da multidão e percebo que atrás dele tem um corpo rubro-negro sendo jogado pra cima. Conheço aquela pessoa em êxtase no ar. Por que, meu Santo Antonio? Chora o presidente, chora o time todo e choro também. Tiro o time de campo, não tenho a menor chance. Hoje Obina é melhor do que eu.
23.4.08
Deus, Jorge, livros e rosas
Dear-God.net é um site feito para que gente do mundo todo compartilhe sua fé - e seus medos – através da prece. Se Ele chegou na web, melhor garantir que não esqueça de mim e que leia Tribuneiros.com. Passa lá que hoje é dia santo na casa!
No Rio, São Jorge embaralhou os feriados, um dia ainda desbanca São Sebastião e vira padroeiro da cidade. Logo ali em Barcelona, a Diada de Sant Jordí enche as ruas de escritores e rosas. 23 de abril marca a morte de Cervantes e Shakespeare e foi transformado em Dia do Livro. Diz a lenda que há muitos anos um dragão atormentava um povoado espanhol e os habitantes decidiram oferecer uma pessoa por dia para acalmar a voracidade do bicho. Quando chegou a vez da filha do rei ser devorada, São Jorge apareceu e enfiou a lança no coração do dragão. Do sangue derramado brotou uma rosa. Juntando tudo, é tradição na Catalunha oferecer rosas às mulheres e livros aos homens, e as editoras montam bancas por toda a cidade para que os autores autografem as obras.
Quem quiser importar a festa, a Argumento vende Contra a Juventude - As Melhores Crônicas Tribuneiras:-) E quiosques vendem rosas em vários bairros.
13.4.08
As minhas noites de blueberry
- Por que você não foi procurá-la?
- Quando eu era pequeno minha mãe me levava ao parque e dizia que se eu me perdesse era pra ficar parado, assim ela me encontraria.
- Isso funciona?
- Nem sempre. Uma vez ela se perdeu procurando por mim."
Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights), de Wong Kar Wai
8.4.08
Da sempre sua...
Bom saber notícias tuas. Por aqui o inverno começa a dar uma trégua e permitir que coloquemos nossos corpos para fora sem milhares de camadas protetoras.
Essa não é pra mim uma situação nova, e ouso dizer que traição é somente um tabu que como tantos outros aos quais ficamos aprisionados por anos, uma vez transgredido, torna-se questão corriqueira como tantas que nos cercam sem gerar grandes dilemas. Não quero com isso confessar-me uma adúltera compulsiva nem tampouco pregar contra a fidelidade, somente aconselhar a todos que sofrem com culpas e desejos sacrificadamente contidos que sejam fiéis ao que sentem pelo outro, não às artimanhas de suas criações. Que questionem por que há no mundo – desde que ele é mundo – tantos casais infelizes e (por que não dizer?) vivendo sob o véu da hipocrisia.
Prefiro o risco de ir e voltar (ou não) ao condenante “felizes para sempre” que eu jamais poderia ter pronunciado caso soubesse que não poderia duvidar em nenhum momento de tal escolha. Duvido o tempo todo! Dias mais outros menos, mas tanto nesse como nos outros casamentos nunca tive por mais que algumas semanas seguidas a absoluta certeza de viver ao lado do único amor da minha vida.
Não sei se por não conhecer todas as pessoas do planeta e assim não poder testá-las ou por viver em constante mutação (como todos os sinceros), volta e meia paira sobre mim a interrogação: será que ainda amo tanto? Gostarei mais dele ou de sua presença? Sentirei falta do que ele é ou do que me causa? Poderia outro causar? Quando pode, e por prolongado tempo, separo-me e fico com o novo até o será voltar a rondar nossa cama, mesa e banho. Quando pode por pouco tempo, a volta é sempre inebriante e revigorante. E enquanto nenhum outro pode, feliz sou eu bem casada, bem amada e aberta a tudo que meu coração puder captar e meu cérebro não puder impedir.
É com ele sempre a minha batalha. O que sentimos sempre sabemos, sempre. Se queremos assumir ou não é outra questão. Portanto, querida, acho que respondi ao que me perguntaste. E se não foi bem isto que me perguntaste, perdoa-me. Talvez tenha dito tudo para lembrar a mim mesma.
Cuida de você que o mundo segue.
Um beijo...
5.4.08
Uma arma na mão e só merda na cabeça
Esse era meu pai, sentado no sofá, aparentando ter vinte anos a mais do que tinha ontem. Ontem foi o dia em que o Pedro saiu aqui de casa com meu irmão pra irem a mais uma festinha na The Week. Bebida, mulherada, desconfio que os meninos se divertem mais sacaneando um ao outro durante a noite do que realmente pegando alguém ou dançando (homem dança na The Week?).
Era uma arruaça desse tipo que estavam fazendo ao sair da boate – “ah, muléki, e aquela baranga que te deu toco? Seu viadinho!”. A diferença é que de repente um cara empurrou meu irmão no chão, começou a chutar a cara dele e disparou dois tiros. Que sorte que ele viu Missão Impossível duzentas vezes, né? Conseguiu se esquivar e não foi atingido por nenhum disparo. Boa garoto! Mais tarde, quando eu parar de tremer e de chorar, ele vai me ensinar a técnica. Posso precisar...
O Pedro não teve tanta sorte. Quando viu o amigo no chão, correu pra cima do agressor e acabou levando um tiro na perna. “Meu filho, de cara valente o cemitério tá cheio”! Tenho certeza que a mãe do Pedro já falou isso pra ele, a minha repete como mantra tentando criar o filho no purgatório da beleza e do caos. Mas quem vai ter sangue frio ao ver alguém que gosta sendo alvo de bala?
Não dá pra trancar os garotos em casa, né? Eu confesso que a minha vontade é essa. Cada vez que vejo meu irmão sair pra noitada com a galera, torço pra ele arrumar uma namorada e viver de cinema e restaurante logo. Aí lembro que na idade dele eu saía de quinta a domingo. Isso tem uns 8 anos, e não sei se a juventude é despreocupada ou se a cidade era mesmo melhor.
Agora o Pedro saiu do hospital, meu irmão está dormindo, os outros amigos hoje não vão à The Week, repórteres de todos os cantos estão ligando pra cá e eu estou escrevendo isso só pra desabafar mesmo. Já nem é mais uma denúncia. Logo eu que fiz jornalismo pra não ficar calada! Eu que volta e meia quero mudar o mundo! Eu que sou uma cidadã indignada! Estou exausta. Minha indignação não vai mudar nada. Só quero abraçar meu irmão, ver o Pedro de novo ganhando medalha de ouro e agradecer a Deus ou quem quer que seja por ter protegido os meninos.
Não sei se os tiros foram dados pelos seguranças do Estacione Fácil, não vou questionar o fato de um prestador de serviço portar uma arma, não vou nem responder aos ignorantes que comentam no jornal que “pra tomar tiro ele deve ter feito alguma coisa”. Se eu ainda tivesse vontade de consertar o mundo perguntaria que tipo de coisa justifica levar um tiro, mas vou levantar essa discussão pra quê? Daqui a pouco grito que esses alienados merecem um tiro na testa pra parar de falar besteira e aí perco a razão.
Mas se alguém ainda tiver esperança, faz isso por mim?
24.3.08
O sapatinho de cristal da Simone de Beauvoir
Hoje quero pregar a reconquista do direito de ser mocinha, de balançar lencinho no vento, de piscar os olhinhos romanticamente, de querer que abram a porta do carro, que mandem flores, que peguem no colo, que me tratem como boneca de porcelana. Não é porque eu ganho meu próprio dinheiro que não quero que paguem a minha conta como uma cortesia!
Quero poder não ser forte, chorar quando machucam meu coração, não fingir que não me importo de ser desprezada. Quero poder reclamar que não gostei sem ser histérica, quero conversar sorrindo sem dar mole, gargalhar com as amigas sem ser escandalosa.
Quero deixar claro que homem é sistema binário e precisa evoluir para entender o que não é dito explicitamente, que não está ok eles nunca superarem a adolescência e que eu odeio piadas machistas. Quero admitir que na maioria das vezes eu beijo ouvindo a marcha nupcial, que sei os nomes dos meus filhos há anos e que noutro dia vi um tecido lindo pra colcha da minha futura casa. Quero gastar horas escolhendo a cor do esmalte, quero pintar o cabelo e me sentir diva de Hollywood, quero ver A Noviça Rebelde e cantar saltitando “I’m sixteen going on seventeen”... Quero saia rodada, salto alto que não dói o pé e pescoço virando pra me ver passar sem fazer cara de tarado. Quero ser conquistada com galanteios apesar de saber ir atrás, quero ouvir coisas doces no dia seguinte apesar de já estar preparada para ele não ligar, quero deixar saudades apesar de saber partir pro próximo. Quero gritar que igualdade de direitos não é para descaracterizar os sexos. Quero cantar Tribalistas sem parecer mal-amada: já sei namorar, já sei beijar de língua agora só me resta sonhar. Quero poder sonhar mesmo tendo que acordar cedo pra reunião, quero que se ofereçam para trocar o pneu do carro que eu ainda estou pagando sozinha, quero que o gerente do banco me ache linda enquanto discutimos se é melhor um fundo moderado ou agressivo.
E já que hoje estou querendo muito, quero não sofrer com a mania de especular sobre o que nem existe, não enjoar na gravidez, não contar celulite nova no espelho, não viver um sobe e desce hormonal, não me dobrar de cólica e não ter crise de choro durante a TPM. Quero poder ser mais macho do que os espalhados por aí sem nunca abandonar meu carro conversível rosa, minha casa com elevador branco, roupinhas de todos os tipos, peitos enormes e cinturinha de violão by Mattel.
Quero acalmar os homens que estão lendo dizendo que exagerei em algumas coisas, mas queria que não tivesse problema se fosse tudo 100% verdade. Porque queridos, às vezes é.
E às vezes não é dia internacional da mulher, mas hora de reencontrar amigos que te lembram quem você queria ser quando crescesse.
Texto originalmente publicado em Seu Martin 1.
19.3.08
Não me amarra dinheiro não
Hoje se vejo cair uma moeda do bolso de alguém corro para pegá-la, missa não vou mais para fugir da tentação da cestinha sendo passada de mão em mão cheia de dinheiro. Pensei em fazer isso - nas festas de família inclusive faço – mas socialmente a piada perderia a graça na segunda linha. Chego a ficar aliviada quando leio que os bancos americanos estão sendo ajudado pelo Fed. Os caras trabalham com números e dinheiro e se ferraram, logo, eu tenho todo o direito do mundo não ter sido muito genial na minha vida financeira! Inclusive pegaria mal para eles se eu fosse totalmente auto-suficiente nessa área.
Noite dessas, bebendo em um pé sujo tal qual os maltrapilhos e catadores de guimbas de cigarro, confessei minha preocupação orçamentária a uma amiga que saiu da casa dos pais há mais tempo. Ela riu. “Onde você acha que eu jantei hoje?”, perguntou. Tinha ido visitar os pais. Quando quer uma comida mais alto nível visita os avós. Cata umas flores no jardim do prédio e bate na casa dos velhinhos com uma pose de neta fofa. “Mãe, vamos à praia?”, e em frente ao posto de gasolina faz o carro engasgar para a coitada oferecer um tanque cheio antes que precise empurrar o carro. Já chegou a simular um desmaio para que o pai bancasse a ida ao médico – dermatologista, mas ele nunca vai saber.
Fiquei atônita! Batalhamos tanto para viver de aplicar golpes em nossos próprios pais? Que nada - ela explicou, super experiente no assunto - eles sabem de tudo, é uma lição passada silenciosamente de geração para geração. A diferença é que antes, para liberar o dinheiro, os pais murmuravam “esse seu marido é um borra-botas, incapaz de sustentar meus netos”, enquanto hoje colocam a culpa na modernidade - “avisei, pra quê sair de casa com essa pressa?” O sonho dos pais não é que os filhos fiquem sempre por ali? Mãe não tem aquela síndrome de galinha com os pintinhos sob as asas? Nossa falência pós-saída de casa pode ser armação deles! Nos criam com regalias para que passemos dificuldades depois! Pensando bem, nós, filhas falidas, estamos fazendo um bem aos nossos pais. Amanhã vou sugerir que eles viajem na Páscoa e me levem para fazer companhia!
16.3.08
Sobre maquiagens e flashes
A repórter queria saber por que (porque? porquê?). Primeiro tiramos fotos no Jobi – eu, CA e Pim. Eram 19h30 e as pessoas passavam tentando saber quem eram as celebridades sob os holofotes, ficavam tão decepcionadas quando não viam um Gianechinni que combinamos de, na próxima vez, alugar um global. Depois do momento Gisele nos refugiamos da chuva na Guanabara para a entrevista. Como tudo começou? Pra mim com a necessidade de um hobby e um encontro na praia de Geribá duas Páscoas atrás. Segue com a lição de aprender a dar a cara a tapa. O futuro? Não tem futuro, tem esse presente de implicâncias, desabafos, verborragia, confissões e pretensões para que possa existir um futuro. Eu acredito em mudar o mundo, nem que seja o meu mundo. Nunca vou ter um milhão de amigos, mas quero ter um milhão de leitores e bem mais forte poder trocar idéias. Porque tudo deve ser conversado.
A matéria da Heloisa Marra sai em breve na Vogue RG. (Agradecimentos à Ana Andreazza e à santa paciência do fotógrafo Sergio Caddah).
10.3.08
A fé em Antônio
Texto Para a Senhora, com título que a Fernanda gostou;-)
1.3.08
O busto
Procuraram por meses o local perfeito para o encontro – tentaram comprar de volta a casa de Petrópolis, mas os apelos aos novos proprietários foram em vão. Optaram finalmente por reservar todos os quartos de um hotel e fazer a cerimônia em frente à antiga residência – a rua é pública – e até autorização da prefeitura local conseguiram para ocupar por um dia o espaço. Não só redecoraram o hotel com o tema como também cenografaram o palco da festa. Acharam uma lojinha no Saara especializada em artigos deutsch e qualquer um diria ter voltado no tempo. O chef foi obrigado a fazer um curso de gastronomia alemã para que nenhum salsichão parecesse chucrute. As canecas de cerveja foram personalizadas até mesmo para as crianças, que as encheriam de guaraná para o brinde. Os mais empolgados pintaram o cabelo de louro para dar mais veracidade às fantasias. Duas horas antes da festa o saguão do hotel parecia barracão de escola de samba tantos eram os adereços espalhados por ali.
O patriarca era um aficcionado por soldadinhos e chumbo, e um dia caminhando no frio berlinense deu de cara com uma loja do ramo. Comprou tantos quantos a companhia aérea permitia na bagagem, e os vendedores foram orientados a informá-lo sobre as novidades de cada coleção. Meses depois recebeu um email avisando sobre a chegada de um novo carregamento de soldadinhos, e no meio deles havia alguns bustos de heróis de guerra. Qual não foi a surpresa ao se deparar com seu sobrenome relacionado a um deles! No meio de tantas palavras com nauz e ungen entendeu que aquele ancestral fora um general do exército prussiano durante a primeira grande guerra, e imediatamente comprou a relíquia.
Tempos modernos, o Google em muito ajudou no levantamento da ficha do general e seus correlatos, mas o desconhecimento da língua atrapalhou. Em uma família tão numerosa ninguém fala alemão? É um desrespeito com os antepassados! Como um curso demoraria muito, a historiadora indicada pela embaixada foi contratada para mapear a árvore genealógica in loco e contextualizar o célebre general. Idas e vindas da mulher e de membros da família resultaram em um mapa extraordinário que seria apresentado no apogeu da festa.
Às dezessete em ponto ela chegou com a caixa nas mãos. Todos fizeram a dança coreografada pelo especialista em ritmos prussianos, ergueram suas canecas, apuraram os votos da eleição sobre quem mais se parecia com o general e voltaram os olhos para a historiadora. Ela relataria a pesquisa e o patriarca descortinaria o busto, devidamente colocado sobre um mármore no coreto erguido para a ocasião. A moça contou toda a história dos descendentes de general Wilhelm, destacou seus feitos na guerra, mostrou as pinturas de uma bisneta famosa, exibiu fotos feitas às escondidas de membros da família residentes na Alemanha e por fim revelou o fato: o general nasceu Schumacher, nome equivalente ao Silva brasileiro, e, ambicioso que era, quis, tal qual Fernanda Montenegro e Lima Duarte, entrar para a história com alcunha mais original. Leu nas páginas amarelas locais o sobrenome e adotou-o como pseudônimo, não tendo na verdade nenhuma ligação com a família verdadeira.
Os festejantes emudeceram. O patriarca então deu uma risadinha, cortou a fita que segurava a cortina de veludo, o busto apareceu e ele confessou: já sabia de tudo, apenas achou que há muito não faziam uma festinha. A música voltou, e quando o funk substituiu as danças típicas e as canecas nem eram mais necessárias para o consumo da cerveja o busto foi carregado pelas ruas imperiais como a Jules Rimet nas mãos de Cafu. O coreto petropolitano foi mantido e batizado de General Wilhelm Wahmann, e a coleção de soldadinhos de chumbo não pára de crescer.
22.2.08
Saudade, amor, que saudade
Não é a falta cotidiana, o não estar mais, é o nunca. O não estar e reticências (porque saber se é um ponto final não temos como, mas sempre parece).
Tem tanta saudade na vida, mas a saudade instalada é aquela que já entendeu que não adianta gritar, então chora baixinho mesmo.
Saudade é o registro do amor que só pôde ir porque um dia pôde ficar.
Registros de outras saudades em Tribuneiros.com
18.2.08
Lar salgado lar
- Se a senhora precisar de qualquer coisa é só falar, meu nome é Vanhuilstom.
- Vanhuilstom?
- Vonduilssom.
- Ah, obrigada. Muito prazer.
Não entendi o nome dele, decidi chamá-lo de "oi" por um tempo, mas aparentemente agora tenho um porteiro. E um faxineiro. E procuro por um pintor, o que me faz travar diálogos surrealistas.
- A senhora pensa em PVA ou acrílica?
Eu não penso nisso. Para ser mais sincera não sei nem se é um tipo de pergunta como "você sonha em preto e branco ou em cores" ou algo sobre o qual eu deva escolher. Descubro que são tipos de tinta e que sim: agora eu penso sobre isso. E PVA é mais barata.
- Olha isso aqui.
Eu olho para o buraco que o eletricista fez na parede. Vejo um fiozinho vermelho, um azul, e poeira. Pela cara dele, alguma coisa ruim tem ali. Lembro das primeiras vezes em que parei no posto e o frentista veio com o ferrinho do óleo e os dedos bezuntados balançando negativamente a cabeça para meu desespero. Resolvi o problema anotando a data de cada troca de óleo, a quilometragem e respondendo um sonoro não a cada tentativa de frentistas loucos para abrir o capô do carro.
Um dia aqueles fiozinhos farão sentido? Desconfio.
- Não vi nada não, mas esse interruptor vai ligar o ventilador de teto e sei que você vai conseguir!
Não entendo de elétrica, mas sou ótima em motivar equipes.
14.2.08
Um pra chamar de seu (prefácio de Lar, salgado lar)
Com uma cidade desse tamanho há de sobrar algum para mim. Unzinho que calhe de estar vago bem na hora em que estou procurando. Já parei de idealizar, não precisa ser perfeito, depois de um tempo deixo ele do meu jeito! Tanta gente em condições piores se arruma, por que não eu?
O homem nunca viu a minha cara, como julga ter achado quem a reflita? Se imaginar que eu sou uma baranga desdentada e manca vai me oferecer o minhocão?
- É exatamente o que a senhora queria. O preço está um pouco acima, mas podemos negociar.
- Um pouco? O proprietário vai abrir mão de cem mil reais?
- Ah! A senhora consegue essa diferençazinha. O que são cem mil?
- Dona Bruna, entrou um agora imperdível. Sol da manhã e tudo! São quinze metros quadrados, pode até colocar um fogão ou uma geladeira dentro. Quer ver?
- Não sei quanto à gramática, mas a lógica não aceita "ou" nessa frase.
- Esse ainda não mostrei para ninguém! Olha só que maravilha. É só refazer o piso, trocar a parte elétrica e de repente a hidráulica já que vai mexer mesmo, dar uma derrubadinha nessas paredes e tá pronto para morar! Pegar ou largar, hein? Ainda vem com essa gente aqui de brinde, acena para eles! São seus vizinhos, a família Amaral. Aqui no prédio é todo mundo muito chegado. Se precisar de qualquer coisa é só falar mais alto que eles ouvem ou chegar perto da janela. Uma grande família, do que mais uma moça solteira precisa?
Um lindo apartamento com porteiro e elevador
E ar refrigerado para os dias de calor
Madame antes do nome você teria agora
Ô ô ô ô
13.2.08
8.2.08
As águas vão rolar (marchinhas e curtinhas de Carnaval)
Encharcados como pintos molhados, estavam a Branca de Neve, a Porquinha, a Dança do Créu e a Joaninha esperando a comida chegar quando pegaram as toalhas das mesas do Bar Lagoa para se aquecer. Já se preparavam para a bronca quando o garçom se aproxima e decreta:
- Hoje pode tudo, é Carnaval!
E assim estava oficializada a folia nas terras de Momo. Bandeira branca, amor!
Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval.
- Sabe aquele cara com quem eu fiquei?
- Qual deles?
- O João.
- O que parece com o Nicholas Cage?
- Não, um outro. Ele disse que vinha para cá.
- E o que a gente vai fazer?
- Vamos esperar, o maluco ali disse que o bloco vai chegar aqui.
- Ah é? E depois?
- Depois vamos para outro.
Viemos do Egito e muitas vezes nós tivemos que rezar!
Bloco encerrado, corpos suados, sorrisos estampados, mortos computados, os organizadores dão por falta de um dos bonecos de dois metros contratados para divertir os foliões. Como pode um boneco de Olinda desaparecer na multidão? Vai bebum, alguém já guardou, você bebeu demais, rapaz. Maraca lotado, o teu cabelo não nega mulata: no meio da torcida, o bonecão é a sensação da Raça-Fla.
Pode me faltar tudo na vida: arroz feijão e pão, pode me faltar manteiga e tudo mais não faz falta não...
Agora eu era uma zebra, você um coelho, o de bigode uma gatinha e o mais alto uma borboleta de tubinho verde e asinha resistente à água. Se essa bóia não virar, eu chego lá na capa d'O Globo de domingo – “Foliões improvisam uma Arca de Noé e aproveitam o Carnaval sob a tempestade”. E a borboleta reza:
- Tomara que meu chefe não dê atenção às fotos.
27.1.08
Elas assim sem vocês
Contra a Juventude e a favor das fases que passam - leia Tribuneiros.
16.1.08
Hoje eu vou tomar um porre
Pra quem saiu de Angra correndo e manteve os batimentos cardíacos controlados a noite toda apesar de tanto.
Pra quem dividiu comigo o copo de whisky pensando que são determinadas coisas que a gente nunca esquece.
Pra quem não teria mais o que me dar de presente e pra quem me esperaria para comer sorvete de sobremesa depois do lançamento.
Pra quem depois de tudo arrumado dizia “acho que não quero mais brincar” (e até hoje brinca), e pra quem a faz tão feliz.
Pra quem fica ótima de dourado antes mesmo que nós outros saibamos que podemos usar dourado.
Pra quem, uhn, acho que engordou.
Pra quem é praticamente uma estopa.
Pra quem ainda cria três filhos bebezinhos e, como se não bastasse, sobrinhos e netos bebezinhos.
Pra quem me deu Ana Maria Machado, Lygia Fagundes Telles, Ziraldo, papel e lápis.
Pra quem, do alto de seus 95 anos e um divórcio, me aconselhou a não casar com homens bonitos porque eles dão muito trabalho.
Pro rei do karaokê do Japão e organizador fundamental da torcida Raça-Brasil 2014.
Pra quem soube reencontrar sua gargalhada irresistível, pra quem escreve e me conta e pra quem jura ter até hoje os registros do início dessa brincadeira literária.
Para la verdadera artista de la familia y su candango porteño..
Pra quem procura no globo os países onde serão suas histórias, pra quem é irresistivelmente abusada, pra minha assessora e pros que cometeram essas loucuras.
Pros que provaram que se uma coisa está ruim não necessariamente vai piorar, podemos dar a volta por cima.
Pra quem fica desesperada quando eu acordo antes da chegada do pão.
Pra quem reuniu a família e torceu tanto por ontem.
Para quem me levou pra zoar puta em Copacabana e pra espoleta do revolver dele.
Pra quem é meu 911 e o diabinho do desenho animado.
Pra quem, em algum lugar do velho continente, é peça chave na minha vida.
Pra quem é my person e pra essa mala que ela jurou que tinha um humor como o meu (eu sou muito melhor).
Pra quem will always have Paris (até porque lá tem Louis Vuitton!).
Pra quem apareceu de surpresa e me deixou sem palavras.
Pra quem daqui a pouco vai sumir porque está namorando.
Pras que me receberam de braços abertos e bloco na rua.
Pra cúmplice do politicamente incorreto.
Pras pragas, mineiros bígamos, intelectuais rock’n’roll, palhaços, shamus e as tampinhas de cachaça que me divertem tanto.
Pra quem enfrentou comigo la pluie sem ter como voltar para a Rue de la Huchette.
Pra quem mostrou que existe ser chefe e mãe, pro adolescente que tem um amor platônico mesmo sem saber o que é isso, e pra quem ontem era menor do que uma ervilha e hoje canta Cai, cai balão.
Pra quem colocou aquele banquinho na parede que me proporcionou tantas conversas produtivas.
Pra quem teve paciência e carinho de enfrentar a fila e se apresentar.
Pra quem toda semana me mostra que gente é gente, e ainda não inventaram coisa melhor.
Pra quem enlouqueceu em Geribá e me convidou para escrever um texto e pra quem foi sóbrio para Salvador e assim me levou ao site pela primeira vez. Ainda bem que vocês são loucos!
Muito obrigada.
13.1.08
Na primeira vez a gente sempre esquece
Esquece de filtrar todo aquele charme e racionalizar se existe algum futuro. Nem por um segundo você cogita a possibilidade de por trás de tanto empenho existir um psicopata dependente e ciumento. Que ele pode ser um grande mentiroso e destruir seu coração em poucos dias, que da última vez jurou nunca mais ser boba assim, que há pouco tempo estava acabando com o estoque de lenços da casa secando o vale de lágrimas derramado por quem começou do mesmo jeito. Esquece que ele vai te roubar o prazer da solidão, que vai passar essa vontade ingênua de ficar e não pensar em nada.
Esquece que precisa disfarçar a taquicardia, falar menos e parar de esbarrar nele. Nem nota que milhares de vezes ele vai pensar em te beijar e desistir com medo de ser precipitado, que existem pessoas ao redor reparando no seu sorriso bobo e que você não pára de mexer no cabelo. Esquece que os olhos dele nem sempre vão estar te seguindo, que a música está alta mas ninguém ao redor está falando tão perto do ouvido alheio, que nem sempre ele vai pagar mais uma bebida torcendo para aquilo dar um porre de coragem.
Esquece de guardar um pouco da sua versão adorável para depois, esquece que ele não vai falar de você pros amigos com reticências e uma gargalhada sem graça todas as vezes, não vai se culpar por ter perdido tanto tempo com as outras tendo você tão perto. Que a aranha da parede vai considerar usá-los como suporte para a teia se não saírem dali. Que as suas amigas estão dormindo no carro esperando você chegar flutuando, que se você ficar mais feliz vai começar a pular e isso vai ser estranho.
Esquece que isso não acontece todo dia, nem por toda a vida.
Na próxima vez tenta lembrar. E não esquece de guardar para sempre.
Publicado em Seu Martin 1, 10/5/06
