27.7.08

Minhocas, meninas e cucharitas

A vida era fácil no paraíso. Adão marcava pelada com os amigos sábado à noite e Eva simplesmente acreditava, Eva se dava bem com os ex-namorados e Adão não ficava remoendo o fato (em nome da moral da história, finge que existiam esses figurantes). Um dia Eva tarrou uma maçã da árvore e aquela minhoca que fica nas frutas foi parar na cabeça dela, destruindo toda a harmonia do mundo. Nunca mais a vida foi leve e, apesar de toda a evolução da ciência, nem Freud descobriu como eliminar o bicho.
Ninguém mais conseguiu viver sem pensar nas consequências, sem fazer um congresso de minhocas para tomar qualquer decisão. Só que bons momentos não são burocráticos, eles passam. A minhoca é o “e se...”, o nó na garganta que às vezes vem até por antecedência, o diabinho que fica atrapalhando a felicidade e se alimenta de tudo que não se sabe. E não se sabe de quase nada.
Existe uma conquista que apesar de ser a small step for humanity é um big step para quem chega lá: é quando no meio de minhocas, incertezas, medos e especulações sentimos o gostinho do melhor lugar do mundo ser aqui e agora. E como sempre temos que voltar para a realidade, chegar à lua é acreditar que valeu a pena, senão a vida vira commodity.
Drummond escreveu: "a cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca. E, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade". Na falta de uma equação perfeita de vida, pode-se encarar o absurdo do imprevisto, arriscar ir em frente com o restinho de fé arrogante que ignora a minhoca.
Complementando Drummond, que piada, Sex and the City: “Have fun, just don't have amnesia”.
Originalmente publicado em Seu Martin I.

23.7.08

Veja você

Porque eu tentei uma vez. Porque eu tentei outra vez. Porque fazer por teimosia é bem diferente de fazer por acreditar. Porque saudade é sinal de que se viveu algo bom. Porque saudade não é o mesmo que viver no passado. Porque viver algo bom não significa que será para sempre. Porque o futuro pode trazer coisas melhores. Porque o Tom Hanks já disse que a vida é como uma caixa de chocolates. Porque ele também já disse que nunca se sabe o que a maré pode trazer e ganhou patins de gelo. Porque é preciso deixar ir embora. Porque é preciso se amar muito para que alguém também ame a gente. Porque é preciso se amar primeiro. Porque não dá para saber se somos mais perdidos. Porque é preciso saber o que a gente quer. Porque é preciso querer de verdade. Porque além de querer de verdade é preciso acreditar que merecemos. Porque pessoas até muito mais vão lhe amar. Porque os outros não podem adivinhar. Porque os príncipes que batem na porta das princesas são encantados. Porque as princesas não trancaram a porta. Porque quero dançar com outro par pra variar. Porque pra existir um “a gente” é preciso deixar essa gente chegar. Porque o tempo passa. Porque a gente muda. Porque a vida ensina. Porque a gente aprende. Porque é mesmo duro assim. Porque esse é só o começo da minha vida.


Deixa chegar o sonho,
Prepara uma avenida

que a gente vai passar
(Los Hermanos)

21.7.08

Em busca da Legolandia

As Barbies podem destruir a vida de uma menina e devido a essa certeza eu incentivo todas as minhas sobrinhas a jogarem futebol: entra em campo, chuta a canela do moleque, xinga a mãe, acaba o jogo e é capacidade total de abstração. Mas ela queria brincar de Barbie e lá fui eu com a boneca mentirosa que me coube para a casinha rosa. A minha Barbie tinha acabado de desenvolver uma teoria sobre a importância do Lego e publicaria no Tribuneiros.com.

12.7.08

Goodbye, Jack

A vida era assim: depois de sair na quarta, na quinta e na sexta finalmente chegava o sábado, quando a escova da véspera já era graças aos cigarros alheios e mãos que adoravam embaraçar seus fios cuidados pelo cabeleireiro mais caro do mundo. O combinado era sempre pegar a estrada às dez, o que significava acordar às onze. Enquanto se arrumava, as amigas ligavam – para o telefone de casa – duzentas vezes. Às 2 da tarde vocês partiam, de ressaca, ouvindo Fabio Jr na serra.

Reunidas na piscina, faziam o que se espera de um grupo de amigas: imitavam a Ana Maria Braga. A noite estava apenas começando e ainda nem eram 4 da tarde. Logo todas já estavam dançando em cima do sofá, algumas gritavam besteiras com a certeza de que ninguém mais estaria ouvindo, unhavam as amigas e tudo aquilo acabaria em uma dormidinha rápida antes de sair. Sim, você ainda sairia, em Cabul a guerra era mais leve.

Lá pelas 2 da madrugada você chegava na boate, de carro, sem bafômetro, assalto ou perigo pelo caminho, e depois de dançar umas músicas que, estranho, naquele dia estavam boas, se dava conta de que as outras tinham desaparecido (ou será que foi você quem se perdeu?). Consumação estourada, você procurava um cantinho para sentar porque o salto da bota não perdoava. Opa, você estava de tênis e rabo de cavalo? O DJ jurado de morte tocava uma música importante e como por milagre todas se encontravam. Vocês se abraçavam como se não se vissem há anos. Horas depois alguém tinha a excelente idéia de ir embora, da rua vinha uma luz pior do que criptonita, vocês saíam praticamente falidas mas felizes, o melhor ainda nem tinha começado.

Em casa, vários colchões espalhados pelo quarto eram palco de conversas que invariavelmente mesclariam as frases “lembra daquela hora” e “eu não vi nada disso”. Na segunda-feira vocês mandavam milhares de emails juntando mais alguns pedaços das histórias que anos depois seriam relidas por uma das suas amigas que pensaria – passou rápido demais! Em qual episódio você virou uma mulher casada em Nova York?

O que tem em Nova York? A estátua da Liberdade é péssima, pretzel na rua engorda, loja da Apple tem online, namorado? Ah, namorado tem aos montes por aí. Ela odeia namorados. Quer dizer, odeia namorados de amigas, principalmente os que a obrigam a comprar um Nextel de motoboy, instalar Skype para ser mais um vício e marcar no calendário tal qual uma presidiária os dias que faltam para as férias.

Ela vai se lembrar de quando vocês começaram a coleção de uarifes por causa dos tantos What Ifs que acumularam no caminho. Vai rir de quando se preocuparam se as almas gêmeas das freiras e dos padres estariam vagando sozinhas pelo mundo. Vai querer ver de novo Antes do Amanhecer pra poder debater Antes do Anoitecer antes de enlouquecer. Vai ter a certeza de que vocês cumpriram à risca o oitavo mandamento: ter sempre uma parceria à sua altura. Vai ser menos egoísta e torcer para que você siga o que diria a camiseta do reveillon que nunca fizeram: enjoy NY. Ela vai te visitar em breve, se Paul McCartney quiser.
Deus ainda é ele, né?

6.7.08

Domingo eu quero ver

O diabo da escola da vida é a bagunça do método pedagógico.
(Bailinho)



4.7.08

É por isso que eu canto

Ela estava devastada. Trevas. Todos os tricolores estavam cabisbaixos e só não choravam para não serem taxados de botafoguenses, mas só uma estava estatelada no gramado do Maracanã. Comparado a ela, Renight Gaúcho parecia apenas chateado:

“É uma fábula! Você luta heroicamente, consegue o que até os mais iludidos duvidaram que fosse possível e erra no básico – chutar a bolinha pro gol. Faz tudo certo e no último minuto é vencido por um equatoriano, roubado por um juiz mau-caráter que representa todos aqueles que te passam a perna quando você merecia a vitória, acaba o sonho por falta de sorte!”

Morro de inveja dos que conseguem exorcizar tudo em um estádio. Ingênua, tentei argumentar que era só um campeonato, não tem outro acontecendo? Ofendi os deuses mais poderosos, posso jurar que esse comentário idiota gerou os trovões que abalaram o Rio de Janeiro naquela noite:

“Nãããão!” – ela só levantou a cabeça nessa hora. – “Nós merecíamos aquela vitória. Está provado que a vida é injusta, aquele goleiro desgraçado se mexeu na hora da cobrança porque é sempre assim, o mal vence, o mundo não presta”.

Silêncio total. O mundo presta, ao contrário de qualquer argumento meu ali.

“Eu acho que fui Hitler”.

Danou-se. Aparentemente o ditador teria influenciado a tragédia do Fluminense e eu precisaria ouvir a teoria.
Nós pagamos pelo que fazemos e ela tinha errado muito, mas pelas contas feitas já devia estar em dia com a justiça divina. Achava que o tempo trágico do casamento teria sido suficiente para abater anos e deixá-la com crédito, mas não aconteceu assim. Até assassinos têm a pena reduzida por bom comportamento, mas a dela nunca era atenuada, logo, devia ser karma dos pesados. Nível Hitler na outra encarnação.

“Nego tá me sacaneando”!

Nego era Deus, o que teoricamente escreve certo por linhas tortas e a irritava por isso.

“Eu também faço as coisas certas, tento muito e fico ouvindo que é pro meu bem, foi melhor assim, blábláblá. Aaaaaaaaaahhhh, eu quero ser campeã da Libertadores!”

Lexotan? Tequila? Psicanálise? Abraço? Gargalhada? Filme bobo? Existe injeção de serotonina? Vai pra casa, grita no travesseiro, amanhã melhora.

Sonhei que era reveillon. Do nada, em julho, era ano novo. Como assim? Eu nem tinha me preparado para o brinde! Contagem regressiva e alguém disse a frase da Renata: “que 2008 seja como você quiser”. Não tem karma, culpa, injustiça, sacanagem, juiz ladrão, tem que ter vontade. Ás vezes é uma merda e não sei como são as coisas no futebol, mas na vida a meia-noite não acontece num simples movimento do ponteiro, pode durar uns seis meses para ser um novo ano. Comercial da Coca-Cola: é você quem faz.

Talvez você tenha lido até aqui esperando por um desfecho otimista. Bem... ele é! Só não tem nenhuma história agora para ilustrar o final feliz. Mas eles existem, eu ainda acredito.

25.6.08

Blues da piedade

Nem sempre eles vão entender. Milhares de vezes eles não vão entender. Por que doeu tanto, por que esse e não aquele, por que diferente? Por que assumir, por que não engolir, por que insistir? Vão te chamar de exagerada, de burra, maluca tantas vezes que nem o hospício te aceitaria.Você vai ler isso e pensar - pelo menos não sou só eu.

12.6.08

Meu quinhão pro grande amor

Pelo amor de Deus, é só mais um dia. Nem é reveillon, você pode ficar sozinha. Também não precisa inventar de jantar fora nessa noite. Evita os shoppings com vitrines cafonas e pensa que fila na porta do motel é humilhante. Doze de junho é fácil. Difícil é domingo à noite, fim de semana com chuva e festa do trabalho, quando cada um pergunta dez vezes “cadê seu namorado?”. Ele ainda não chegou. Não chegou na minha vida, mas se entenderem que não chegou na festa não é minha culpa.

"Hoje eu tenho apenas uma faca no meu peito
exijo respeito, não sou mais um sonhador
chego a mudar de calçada quando aparece uma flor
e dou risada do grande amor.
Mentira"

Ursinhos, bombons e flores artificiais em promoção no Tribuneiros.com

8.6.08

Is it getting better?

O amor é uma bela amizade com grandes momentos eróticos.
(de um médico que está sendo entrevistado pela Marilia Gabriela agora)


Ela teve a linda e tensa idéia de me pedir um texto para o casamento. Eu teria um ano para preparar e, para meu desespero, a época da festa calhou de coincidir justamente com a alta do ceticismo na montanha russa de emoções que é meu ser. Eu estava mais para “cada um no seu quadrado” do que para “one love, one life”. Quase a Miranda. Quase um Mr Big em pânico na porta da igreja: eu não sou capaz de fazer isso.
Pedi ajuda aos amigos, aos roteiristas de Grey’s Anatomy, a Drummond, aos meus registros de romantismo em sazonais fases férteis... Ninguém casa achando que aquilo pode acabar, alguém ainda acredita em amor eterno?
Quando os noivos entraram na festa o DJ tocou a trilha certa para quebrar qualquer descrença: Beatles, “love, love, love”. Não importa se um amor durou um mês, um ano ou uma vida, importa se ele foi inteiro, bom e velho clichê – eterno enquanto durou. E para usar mais um – anormal é ser incapaz de se permitir que ele aconteça. Love is all you need.

(...)
"A gente passa muito tempo tentando provar para o mundo que somos bons, divertidos, inteligentes, dá tanto trabalho! E de repente aparece uma pessoa que acha tudo isso justamente porque sabe como a gente é de verdade, conhece cada falha, descobre qualidades que a gente nem se dava conta de que tinha. Apesar de tudo e por causa de nada, ama. E tudo passa a fazer sentido.

Quem escala o Himalaia sabe que a emoção de chegar no topo é única, não se explica. Pode parecer loucura pra quem ficou lá embaixo, mas pra quem foi seria incompleto viver sem a vista. Casar é encontrar a criatura doida que topa o desafio de escalar a montanha com você.

Viver a dois é o amor na prática, e ainda não inventaram nada melhor. Cada um tem a responsabilidade de ser inteiro para compartilhar somando. (...)

Que vocês sejam felizes e plenos a cada minuto. Loucamente felizes. Ousadamente felizes. Mesmo quando ela falar demais e ele tentar impedir, até quando ela for a alegria dos netinhos com o jeito Dercy Gonçalves de ser e ele for o mais hipocondríaco dos homens. Tem que lembrar que ele ainda é roqueiro e ela só dorme no seu abraço".

2.6.08

All that you can't leave behind

Estavam ali os dois e não tinha muito tempo, mas ficou longe. Não parecia mais possível.
Um short verde, corpo molhado da piscina, uma lata de cerveja na mão e ela na outra. O cabelo dela era maior e mais escuro, o sorriso era mais ingênuo, o coração era mais feliz. Ele também tinha um sorriso leve, estava gargalhando na foto. Não era muito freqüente e quando se dava essa chance era encantador.
Se deram muitas chances. Acabou. O vício dela em leite, o boa noite por telefone, a certeza de que ele chegaria antes da hora marcada, tudo agora só existia nas lembranças de cada um, nas mágoas, frustrações e incompreensões mútuas. Tudo aconteceu, só não tem mais, e tudo fez com que ela chegasse até aqui.
Era a primeira vez que não jogaria as coisas fora. Deu um suspiro, guardou o isqueiro, fechou a caixa e colocou no alto do armário junto com as apostilas dos cursos que nunca leria de novo. O que realmente importava ela aprendeu nas aulas, o resto é só papel.

You're packing a suitcase for a place
None of us has been
A place that has to be believed to be seen
You could have flown away

A singing bird in an open cage
Who will only fly for freedom

Stay safe tonight

27.5.08

A Hard Day's Night

Um ser abalado por achar que não vai conseguir fazer nada. Cansada de construir um sentido para o mundo em que vive, saber de si e dos outros, queria tirar férias de mim e por um tempo ser resultado de uma idéia pré-existente. Poderia ter nascido uma caneta, que nasceu para ser caneta e apenas é. Essência definida.
Trocaria a liberdade de mudar minha vida pela certeza imutável do que já vivi. Mas nem é certeza, muda sempre o ponto de vista. Aumenta a exaustão. E se eu falhar na minha essência, se minha existência for estragada pelas minhas trapalhadas e incompetência? Fui condenada à liberdade mas não me lembro de ter assinado esse acordo, não aceitei as regras. Quem não consegue comprar uma roupa vai falhar no projeto fundamental. E eu não decidi ainda qual é o meu projeto fundamental, já devo estar atrasada no cronograma, não aprovei orçamento nem selecionei equipe, não fiz o treinamento, eu vou falhar.
Então sou responsável pelo mundo que projetei. Pelo mundo todo eu levo a glória ou a culpa sozinha? Por que eu acho que vai ser culpa e não glória? Angústia previsível com tanta responsabilidade existencialista sobre as minhas costas. Eu quero o universo do sonho, isso é liberdade. Poder realizar qualquer coisa instantaneamente e não ter pessoas cutucando para avisar que não é bem assim, que são escolhas parciais e não livres, opções limitadas. Não é verdade que nada fora de mim define meu futuro. Os outros atrapalham, criam conflitos com projetos sobrepostos. Eles não serão punidos, obrigados a participar do meu plano? Inferno os outros. Coloca no acordo outra forma para que eu me veja que não seja através dos olhos deles. Ou me dê outros que me ajudem.
E se eu nem sempre tiver consciência da conseqüência dos meus atos? Quero férias de conseqüências, pausa na consciência. Alguém podia se responsabilizar pelas minhas decisões enquanto eu descanso um pouco. Posso ao menos voltar atrás? Undo? Desmake. Não estou fugindo da minha auto-determinação, mas quero conversar sobre o meu destino, preciso saber se dá para contar com ele. Nunca li o último capítulo do livro antes de chegar lá, nunca baixei episódios de Lost que não tenham sido exibidos, posso pelo menos saber se na minha história eu vou dar certo no final?
Eu, que por vontade própria ajo e afeto o mundo todo, peço licença. Preciso confessar que talvez não seja capaz. Nem sempre é justo o que o mundo faz comigo, ele podia me dar o caminho mais fácil. Eu aprenderia, juro que aprenderia. Me ouve, Sartre! É importante sim o que o mundo está fazendo comigo! Não sei o que eu vou fazer com o que o mundo está fazendo de mim! Eu aceito o acordo, com uma condição: de vez em quando, posso chorar?

Há dois anos existencialmente em Seu Martin 1.

16.5.08

A pessoa é para o que nasce

Eu estou muito preocupada com a Mulher Melancia.
Nosso primeiro contato visual foi no Casseta e Planeta. Um deles imitava o João Gilberto e uma garota que se esfregava na cadeira a imitava. Achei engraçada a caricatura, qualquer médico classificaria aquela anatomia de anomalia e a dança mais parecia interpretação de uma atriz pornô descontrolada. De repente descobri que a cena não era uma paródia! Aquela era a célebre em carne, algum osso e carinha de quem tá gostando demais.
Hoje leio que Andressa (ela tem nome) quer fazer lipoaspiração. A ex-créu começou um tratamento que diminui 3 centímetros dos seus 119 por sessão. Pelas minhas contas, dentro de um mês ela vai desaparecer! Não digo minguar até a morte, mas se parar de esfregar a super-bunda nas... cadeiras... vai sobrar o quê? Andressa não pode virar mais uma ex-gostosona porque alguém tem que desempenhar essa função. Tal qual o futebol, o Playstation, a cerveja gelada e os camaradas, os homens precisam das Mulheres Melancia, portanto cabe às Mulheres Banana convencê-la a continuar bunduda.
A Mulher Banana*, se tivesse um quadril de 120cm, correria três horas por dia numa esteira. Ela morre de vergonha ao ver a mãe da Mulher Melancia dizer que sente muito orgulho de ter uma filha vitoriosa, acredita que o discernimento nasceu para todos e o pior: é tão banana que se importa.
As Bananas são poupadas de papéis incômodos pelas outras, peças fundamentais da cadeia alimentar. A Mulher-Biscoito-Globo, por exemplo, é gostosinha, mas não mata a fome e logo eles querem outra coisa que valorizarão muito mais. O mesmo acontece com a Mulher-Aperitivo, que acompanhada de uma bebida ele come e ainda acha bom; a Mulher-Arroz, que ele só come porque já está acostumado; a Mulher-Ostra, sobre quem todo mundo fala, mas quando ele experimenta vê que não é grande coisa; a Mulher-Cafezinho-de-Loja, que ele nem faz questão, mas aceita já que é de graça, e tantas outras que equilibram o ecossistema.
Eles precisam disso porque são homens. Pelo mesmo motivo, não conseguem encontrar nada sozinhos. Você ainda não aprendeu? Ele não entende que pegou pesado? Ele é homem. Jura que vai sufocar quando só tem um nariz entupido? Ele é homem. Não sabe como não resistiu à tentação? Ah, ele é homem! Não consegue lembrar nem do aniversário da própria mãe? Normal, ele é homem! É a explicação padrão.
Eu tenho fé que algum vai ser mais original e provar que existe modelo melhor. Qual o problema de ter esperança? Eu sou mulher!

* A Mulher Banana foi categorizada pela escritora Marta Medeiros

4.5.08

Raça, amor e paixão

Era mais um feriado dos tantos que inundaram a cidade tais quais as chuvas de março, abril e maio e eu estava dormindo quando ele ligou:

- BG?

Namoro novo, onde estiver estarei. Desde que o Souza deixou meu vizinho há cerca de um ano, volta e meia o pobre grita o nome do ex-amante pela janela, intercalando com outros com quem deve se envolver por aí. Entendo o Ronaldo, olhando eu jamais diria, mas juro que o cara em várias tardes urra nomes masculinos da sacada: Léo Mouuraaaa, Bruuuno, e sempre Soooouza! As dores do coração... Domingo piora, e era mais uma dessas tardes.

Lá fui eu encontrar o novo craque da minha vida com os camaradas no Báxu. “Tô em frente ao Alemão”. Estavam todos, e com a mesma roupa. Tentei negar, mas claramente ele tinha uma chupeta pendurada no pescoço onde meus braços deveriam estar e cantava Mamãe eu quero mamar sem se importar com o tempo que faltava para o Carnaval. Decido pegar uma cerveja, as coisas vão melhorar. Um homem acende um morteiro do meu lado e a massa começa a pular com as mãos pra cima. Vieram do Maracanã, não estão exatamente perfumados.

Querido, me resgata aqui, estou sendo esmagada por tantos corpos malhados e sorrisos talhados flertando com essas bandeiras. Ele me agarra meio vidrado e berra um eu sempre te amarei. Será que me olhou e viu o Joel Santana? Temo pelo resto da noite. Mais amigos chegam e trazem uma buzina. Impedida de ir ao banheiro pela nova política do Braseiro, parto para um Koni genérico.

Vejo o Smigol no meio da multidão e percebo que atrás dele tem um corpo rubro-negro sendo jogado pra cima. Conheço aquela pessoa em êxtase no ar. Por que, meu Santo Antonio? Chora o presidente, chora o time todo e choro também. Tiro o time de campo, não tenho a menor chance. Hoje Obina é melhor do que eu.

23.4.08

Deus, Jorge, livros e rosas

"Deus, está aí? Me ouvindo? Está sempre me ouvindo? Fica me espiando? Tem um minuto? Tem dez?"

Dear-God.net é um site feito para que gente do mundo todo compartilhe sua fé - e seus medos – através da prece. Se Ele chegou na web, melhor garantir que não esqueça de mim e que leia Tribuneiros.com. Passa lá que hoje é dia santo na casa!

No Rio, São Jorge embaralhou os feriados, um dia ainda desbanca São Sebastião e vira padroeiro da cidade. Logo ali em Barcelona, a Diada de Sant Jordí enche as ruas de escritores e rosas. 23 de abril marca a morte de Cervantes e Shakespeare e foi transformado em Dia do Livro. Diz a lenda que há muitos anos um dragão atormentava um povoado espanhol e os habitantes decidiram oferecer uma pessoa por dia para acalmar a voracidade do bicho. Quando chegou a vez da filha do rei ser devorada, São Jorge apareceu e enfiou a lança no coração do dragão. Do sangue derramado brotou uma rosa. Juntando tudo, é tradição na Catalunha oferecer rosas às mulheres e livros aos homens, e as editoras montam bancas por toda a cidade para que os autores autografem as obras.

Quem quiser importar a festa, a Argumento vende Contra a Juventude - As Melhores Crônicas Tribuneiras:-) E quiosques vendem rosas em vários bairros.

13.4.08

As minhas noites de blueberry

“- Essas foram dadas a uma garota russa que adorava colecionar chaves e ver o pôr-do-sol. Infelizmente ela gostava mais do pôr-do-sol do que dessas chaves e acabou desaparecendo em um.
- Por que você não foi procurá-la?
- Quando eu era pequeno minha mãe me levava ao parque e dizia que se eu me perdesse era pra ficar parado, assim ela me encontraria.
- Isso funciona?
- Nem sempre. Uma vez ela se perdeu procurando por mim."

Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights), de Wong Kar Wai

8.4.08

Da sempre sua...

Olá,

Bom saber notícias tuas. Por aqui o inverno começa a dar uma trégua e permitir que coloquemos nossos corpos para fora sem milhares de camadas protetoras.
Essa não é pra mim uma situação nova, e ouso dizer que traição é somente um tabu que como tantos outros aos quais ficamos aprisionados por anos, uma vez transgredido, torna-se questão corriqueira como tantas que nos cercam sem gerar grandes dilemas. Não quero com isso confessar-me uma adúltera compulsiva nem tampouco pregar contra a fidelidade, somente aconselhar a todos que sofrem com culpas e desejos sacrificadamente contidos que sejam fiéis ao que sentem pelo outro, não às artimanhas de suas criações. Que questionem por que há no mundo – desde que ele é mundo – tantos casais infelizes e (por que não dizer?) vivendo sob o véu da hipocrisia.
Prefiro o risco de ir e voltar (ou não) ao condenante “felizes para sempre” que eu jamais poderia ter pronunciado caso soubesse que não poderia duvidar em nenhum momento de tal escolha. Duvido o tempo todo! Dias mais outros menos, mas tanto nesse como nos outros casamentos nunca tive por mais que algumas semanas seguidas a absoluta certeza de viver ao lado do único amor da minha vida.
Não sei se por não conhecer todas as pessoas do planeta e assim não poder testá-las ou por viver em constante mutação (como todos os sinceros), volta e meia paira sobre mim a interrogação: será que ainda amo tanto? Gostarei mais dele ou de sua presença? Sentirei falta do que ele é ou do que me causa? Poderia outro causar? Quando pode, e por prolongado tempo, separo-me e fico com o novo até o será voltar a rondar nossa cama, mesa e banho. Quando pode por pouco tempo, a volta é sempre inebriante e revigorante. E enquanto nenhum outro pode, feliz sou eu bem casada, bem amada e aberta a tudo que meu coração puder captar e meu cérebro não puder impedir.
É com ele sempre a minha batalha. O que sentimos sempre sabemos, sempre. Se queremos assumir ou não é outra questão. Portanto, querida, acho que respondi ao que me perguntaste. E se não foi bem isto que me perguntaste, perdoa-me. Talvez tenha dito tudo para lembrar a mim mesma.

Cuida de você que o mundo segue.
Um beijo...

5.4.08

Uma arma na mão e só merda na cabeça

- Fica calma, está tudo bem, mas o Pedro levou um tiro.
Esse era meu pai, sentado no sofá, aparentando ter vinte anos a mais do que tinha ontem. Ontem foi o dia em que o Pedro saiu aqui de casa com meu irmão pra irem a mais uma festinha na The Week. Bebida, mulherada, desconfio que os meninos se divertem mais sacaneando um ao outro durante a noite do que realmente pegando alguém ou dançando (homem dança na The Week?).

Era uma arruaça desse tipo que estavam fazendo ao sair da boate – “ah, muléki, e aquela baranga que te deu toco? Seu viadinho!”. A diferença é que de repente um cara empurrou meu irmão no chão, começou a chutar a cara dele e disparou dois tiros. Que sorte que ele viu Missão Impossível duzentas vezes, né? Conseguiu se esquivar e não foi atingido por nenhum disparo. Boa garoto! Mais tarde, quando eu parar de tremer e de chorar, ele vai me ensinar a técnica. Posso precisar...

O Pedro não teve tanta sorte. Quando viu o amigo no chão, correu pra cima do agressor e acabou levando um tiro na perna. “Meu filho, de cara valente o cemitério tá cheio”! Tenho certeza que a mãe do Pedro já falou isso pra ele, a minha repete como mantra tentando criar o filho no purgatório da beleza e do caos. Mas quem vai ter sangue frio ao ver alguém que gosta sendo alvo de bala?

Não dá pra trancar os garotos em casa, né? Eu confesso que a minha vontade é essa. Cada vez que vejo meu irmão sair pra noitada com a galera, torço pra ele arrumar uma namorada e viver de cinema e restaurante logo. Aí lembro que na idade dele eu saía de quinta a domingo. Isso tem uns 8 anos, e não sei se a juventude é despreocupada ou se a cidade era mesmo melhor.

Agora o Pedro saiu do hospital, meu irmão está dormindo, os outros amigos hoje não vão à The Week, repórteres de todos os cantos estão ligando pra cá e eu estou escrevendo isso só pra desabafar mesmo. Já nem é mais uma denúncia. Logo eu que fiz jornalismo pra não ficar calada! Eu que volta e meia quero mudar o mundo! Eu que sou uma cidadã indignada! Estou exausta. Minha indignação não vai mudar nada. Só quero abraçar meu irmão, ver o Pedro de novo ganhando medalha de ouro e agradecer a Deus ou quem quer que seja por ter protegido os meninos.

Não sei se os tiros foram dados pelos seguranças do Estacione Fácil, não vou questionar o fato de um prestador de serviço portar uma arma, não vou nem responder aos ignorantes que comentam no jornal que “pra tomar tiro ele deve ter feito alguma coisa”. Se eu ainda tivesse vontade de consertar o mundo perguntaria que tipo de coisa justifica levar um tiro, mas vou levantar essa discussão pra quê? Daqui a pouco grito que esses alienados merecem um tiro na testa pra parar de falar besteira e aí perco a razão.

Mas se alguém ainda tiver esperança, faz isso por mim?

24.3.08

O sapatinho de cristal da Simone de Beauvoir

No dia internacional da mulher eu não quero queimar nenhum sutiã. Quero gastar minha fortuna na Victoria’s Secret para comprar um lindo, rendado e dedicado ao príncipe do momento sem ter nada de submisso nisso.
Hoje quero pregar a reconquista do direito de ser mocinha, de balançar lencinho no vento, de piscar os olhinhos romanticamente, de querer que abram a porta do carro, que mandem flores, que peguem no colo, que me tratem como boneca de porcelana. Não é porque eu ganho meu próprio dinheiro que não quero que paguem a minha conta como uma cortesia!
Quero poder não ser forte, chorar quando machucam meu coração, não fingir que não me importo de ser desprezada. Quero poder reclamar que não gostei sem ser histérica, quero conversar sorrindo sem dar mole, gargalhar com as amigas sem ser escandalosa.
Quero deixar claro que homem é sistema binário e precisa evoluir para entender o que não é dito explicitamente, que não está ok eles nunca superarem a adolescência e que eu odeio piadas machistas. Quero admitir que na maioria das vezes eu beijo ouvindo a marcha nupcial, que sei os nomes dos meus filhos há anos e que noutro dia vi um tecido lindo pra colcha da minha futura casa. Quero gastar horas escolhendo a cor do esmalte, quero pintar o cabelo e me sentir diva de Hollywood, quero ver A Noviça Rebelde e cantar saltitando “I’m sixteen going on seventeen”... Quero saia rodada, salto alto que não dói o pé e pescoço virando pra me ver passar sem fazer cara de tarado. Quero ser conquistada com galanteios apesar de saber ir atrás, quero ouvir coisas doces no dia seguinte apesar de já estar preparada para ele não ligar, quero deixar saudades apesar de saber partir pro próximo. Quero gritar que igualdade de direitos não é para descaracterizar os sexos. Quero cantar Tribalistas sem parecer mal-amada: já sei namorar, já sei beijar de língua agora só me resta sonhar. Quero poder sonhar mesmo tendo que acordar cedo pra reunião, quero que se ofereçam para trocar o pneu do carro que eu ainda estou pagando sozinha, quero que o gerente do banco me ache linda enquanto discutimos se é melhor um fundo moderado ou agressivo.
E já que hoje estou querendo muito, quero não sofrer com a mania de especular sobre o que nem existe, não enjoar na gravidez, não contar celulite nova no espelho, não viver um sobe e desce hormonal, não me dobrar de cólica e não ter crise de choro durante a TPM. Quero poder ser mais macho do que os espalhados por aí sem nunca abandonar meu carro conversível rosa, minha casa com elevador branco, roupinhas de todos os tipos, peitos enormes e cinturinha de violão by Mattel.
Quero acalmar os homens que estão lendo dizendo que exagerei em algumas coisas, mas queria que não tivesse problema se fosse tudo 100% verdade. Porque queridos, às vezes é.

E às vezes não é dia internacional da mulher, mas hora de reencontrar amigos que te lembram quem você queria ser quando crescesse.

Texto originalmente publicado em Seu Martin 1.

19.3.08

Não me amarra dinheiro não

Descobri que meus dias de independência financeira acabaram. Fui rica durante o período pós-faculdade-pré-casa própria, quando todo o dinheiro arrecadado era revertido para meu próprio bem-estar e eventuais contas que não envolviam o governo ou instituições como Light, CEG e cia. Deveria ter ido à África do Sul, estocado roupas para os próximos 5 invernos ainda que fosse me vestir sempre um pouco vintage (para não dizer fora de moda). Deveria ter encarnado a Demi Moore e jogado meus reais para cima enquanto rolava na cama (ok, isso seria estranho e pouco higiênico).
Hoje se vejo cair uma moeda do bolso de alguém corro para pegá-la, missa não vou mais para fugir da tentação da cestinha sendo passada de mão em mão cheia de dinheiro. Pensei em fazer isso - nas festas de família inclusive faço – mas socialmente a piada perderia a graça na segunda linha. Chego a ficar aliviada quando leio que os bancos americanos estão sendo ajudado pelo Fed. Os caras trabalham com números e dinheiro e se ferraram, logo, eu tenho todo o direito do mundo não ter sido muito genial na minha vida financeira! Inclusive pegaria mal para eles se eu fosse totalmente auto-suficiente nessa área.
Noite dessas, bebendo em um pé sujo tal qual os maltrapilhos e catadores de guimbas de cigarro, confessei minha preocupação orçamentária a uma amiga que saiu da casa dos pais há mais tempo. Ela riu. “Onde você acha que eu jantei hoje?”, perguntou. Tinha ido visitar os pais. Quando quer uma comida mais alto nível visita os avós. Cata umas flores no jardim do prédio e bate na casa dos velhinhos com uma pose de neta fofa. “Mãe, vamos à praia?”, e em frente ao posto de gasolina faz o carro engasgar para a coitada oferecer um tanque cheio antes que precise empurrar o carro. Já chegou a simular um desmaio para que o pai bancasse a ida ao médico – dermatologista, mas ele nunca vai saber.
Fiquei atônita! Batalhamos tanto para viver de aplicar golpes em nossos próprios pais? Que nada - ela explicou, super experiente no assunto - eles sabem de tudo, é uma lição passada silenciosamente de geração para geração. A diferença é que antes, para liberar o dinheiro, os pais murmuravam “esse seu marido é um borra-botas, incapaz de sustentar meus netos”, enquanto hoje colocam a culpa na modernidade - “avisei, pra quê sair de casa com essa pressa?” O sonho dos pais não é que os filhos fiquem sempre por ali? Mãe não tem aquela síndrome de galinha com os pintinhos sob as asas? Nossa falência pós-saída de casa pode ser armação deles! Nos criam com regalias para que passemos dificuldades depois! Pensando bem, nós, filhas falidas, estamos fazendo um bem aos nossos pais. Amanhã vou sugerir que eles viajem na Páscoa e me levem para fazer companhia!

16.3.08

Sobre maquiagens e flashes

Essa semana fez um ano do novo lay-out do blog. Há um ano ele estava insatisfeito e fez como toda mulher: mudou o visual. Eu adorei, e para celebrar mudei tudo de novo. Feliz aniversário! E tin-tin: às mudanças.

A repórter queria saber por que (porque? porquê?). Primeiro tiramos fotos no Jobi – eu, CA e Pim. Eram 19h30 e as pessoas passavam tentando saber quem eram as celebridades sob os holofotes, ficavam tão decepcionadas quando não viam um Gianechinni que combinamos de, na próxima vez, alugar um global. Depois do momento Gisele nos refugiamos da chuva na Guanabara para a entrevista. Como tudo começou? Pra mim com a necessidade de um hobby e um encontro na praia de Geribá duas Páscoas atrás. Segue com a lição de aprender a dar a cara a tapa. O futuro? Não tem futuro, tem esse presente de implicâncias, desabafos, verborragia, confissões e pretensões para que possa existir um futuro. Eu acredito em mudar o mundo, nem que seja o meu mundo. Nunca vou ter um milhão de amigos, mas quero ter um milhão de leitores e bem mais forte poder trocar idéias. Porque tudo deve ser conversado.
A matéria da Heloisa Marra sai em breve na Vogue RG. (Agradecimentos à Ana Andreazza e à santa paciência do fotógrafo Sergio Caddah).