26.10.08

Espero a manhã que cante

Vi gente de verde ontem. Vi adesivos pela cidade mesmo que a minha seja reduzida a poucas ruas. Vi uma carreata do novo prefeito ser esmagada pelas vaias dos bebedores do Jobi que contagiaram todos os clientes dos outros bares e de repente eles viraram cidadãos. Vi minha caixa de email lotar com defesas e historias. Me vi pensando como faria aquelas mensagens chegarem a quem ainda não votaria nele. Vi o cara do jornal dizer que foram cinqüenta mil votos a menos.
Parece que eu perdi a Copa. E Copa não resolve nada, quando acaba a gente diz que tem mais daqui a quatro anos. Ah é, eleição também... Mas nesse tempo a gente faz o quê? Como começar de novo se parecia que aqui começaríamos agora! É um movimento, ele diz, agradecido à população e se dizendo personificação de um recado carioca. É...
Mas o Rio esquece, vai à praia, toma uma cerveja, o Flamengo ganha e a gente se vê, passa lá em casa, deixa o recado com o cara da barraca. Não existe hora marcada na cidade maravilhosa.
É um movimento... Tá. Quem sabe uma canção do mar.

24.10.08

Mensagens em garrafas

Pinturas rupestres em marcos históricos, siga por esse caminho.

9.10.08

2 ou 3 coisas antes de partir

Que um dia eu vou ter dinheiro para ver a vida passar na varanda de um café lendo jornal sem pensar na Bolsa.
Que com poucos euros come-se uma baguette avec jambon e fromage, leia-se ementhal. Ou avec la chevre. Um crepe de chocolat vendido em qualquer balcão é magnifique.
Que lá quando as pessoas não conseguem fazer o que você pede ficam desoleé!
Que toda mulher se sente uma dama sendo chamada de Madamme.
Que ao acordar deve-se procurar saber o que está em greve naquele dia. Sempre tem alguma coisa em greve.
Que ninguém é servil, nem os pedintes.
Que o povo é tão indignado que há uns anos alguns eram contra a candidatura da cidade a sede das Olimpiadas porque o esporte não precisa de patrocinadores mercenários pequeno-burgueses.
Que tem mais câmera fotográfica do que gente por metro quadrado, e já se ouve mais inglês do que deveria nas ruas.
Que o Sena com a Notre Dame ao lado é o lugar mais bonito.
Que o Moulin Rouge não é legal e fica cercado de puteiros.
Que o metrô deveria ser menos eficiente para sermos obrigados a andar mais de ônibus. Debaixo da terra impressiona a praticidade mas perde-se a vista.
Que nenhuma tristeza resiste a um passeio pelo Champs Elyseés.
Que alguns museus têm desconto para os desempregados. Pode-se não ter trabalho, mas não ter cultura, jamais.
Que não o verbo “flanar” foi redefinido ali.
Que o amor de Rodin e Camille Claudel foi tão grande que escorreu pelas obras.
Que a pintura de Chagall parece sonho.
Que o melhor lugar para se tirar uma foto da Torre é no Trocadero.
Que o título completo do filme de Jean-Luc Godard é “Duas ou três coisas que sei dela: a região parisiense”, que originou uma cronica de Mario Sergio Conti, de quem roubei a idéia.

Na volta tem mais, au revoir!

30.9.08

E o mundo não se acabou

Será que me doparam? Um complô do meu terapeuta com meus amigos que temiam uma avalanche de avaliações! Será que entrei em um processo de negação, finjo não ver a realidade para não precisar lidar com ela? Tentei mentalizar - conta corrente de cliente da Ricardo Eletro, nenhum marido, sem nome escolhido para os futuros filhos, estrias e celulites democraticamente distribuídas pelo corpo, litros de corretivo para disfarçar manchas na pele, geladeira com vodka e requeijão, profundo conhecimento de homens tipo “a gente precisa conversar”, um tanque entupido porque prendeu um Perfex no buraco – se não é Prozac que me mantém calma, só pode ser autismo.
E la nave va, sem crise, mais velha, mas ainda em Tribuneiros.com.

22.9.08

Alta costura

"A roupa mais bonita para vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama. Para as que não tiveram essa felicidade, eu estou aqui."
Yves Saint Laurent

18.9.08

Uma Brastemp (da série Lar, salgado lar)

Você já viveu em função dos seus pais, em função do seu trabalho, já definiu ações na vida baseada em homens que mal definiam o que faziam ali, mas quando percebe que depende da máquina de lavar, nota que tem alguma coisa errada nisso.

Pra começar ela é enorme e isso deve ter a ver com a vontade de aparecer – máquina de lavar gosta de atenção, é praticamente a rainha da casa. Tudo ficando tão pequeno e ela continua aquele elefante? Não existe máquina boa meio-termo, ou é aquela foférrima que só lava lingerie ou são as matronas, casa com pouca gente vive de tanque?

Junto com o manual de instruções vem um Guia Rápido – o que significa que ou o manual é prolixo e desnecessário ou que ninguém vai entender mesmo então melhor se ater ao básico. Primeiro passo: selecione o nível de água – como é que eu vou saber? Nível médio, sem radicalismos. Coloque o sabão no compartimento sem ultrapassar o nível indicado. Como eles sabem o quanto de roupa eu vou lavar, é a mesma quantidade de sabão para a máquina cheia ou vazia? Essa gente não explica nada! Programa de Lavagem – isso deveria ser um quadro da Ana Maria Braga, todo mundo ensina a cozinhar e ninguém ensina a lavar roupa, que burrice. Lavagem Econômica, é essa, nem quero ver as outras opções. Opa, Mais Eficiência? Reaproveitar Água? Essa máquina é ecologicamente correta?

Separe as roupas por tipo, tecido e cor. Tipo de roupa? Tipo calças, blusas, casacos, toalhas? Tenho que lavá-los juntos? Sujar todas as toalhas da casa para lavá-las ao mesmo tempo? Enquanto isso, uso qual? Faço uma planilha para garantir que sempre um jogo fique de suplente enquanto os outros são limpos? Não vou separar por tipo. Tecido. Terei que aprender sobre tecidos para lavar roupa? Seda, malha, organza, tafetá? Jeans e moleton adianta? Não vou separar por tecidos, os que parecerem frágeis serão guardados ad eternum, a partir de hoje só roupa de guerra. Cor. Ah, isso eu sei, essa regra é básica! Branco com branco, preto com preto, coloridos misturados. Bege é colorido? Jeans classifica como azul? Blusa branca com bordado verde e vermelho pertence a que grupo? Deus, uma roupa listrada de preto e branco! E agora, picoto a roupa e recosturo depois?

E assim seu figurino passa a respeitar as regras da Brastemp. Para juntar a quantidade necessária de roupas brancas que satisfaça a máquina você se veste como macumbeira por duas semanas, depois vem a fase dark, preto dos pés à cabeça para poder lavar tudo junto, aí passa dias usando vermelho, rosa, laranja, salmão, grená e vinho, os outros comentam como você anda alegre, fazem piadinha de “esse cara, hein” e é tudo por causa dela. Basicamente você se veste de acordo com a vontade da máquina.

Isso tudo você reflete em 29 minutos, tempo que o Modo Rápido dá de descanso antes que ela devolva as roupas completamente amarfanhadas e você vá pendurá-las seguindo uma lógica toda especial de aplicar pregadores de roupa evitando marcas. Um dia alguém há de criar uma máquina que faça todo o serviço do-armário-ao-armário. E essa genialidade não pode exigir carteira assinada.

No próximo capítulo – Como é lindo meu Perfex (os furinhos de Perfex agarram a sujeira e não soltam mesmo! Depois é só enxaguar e está novo seu Perfex, é genial. O Perfex é praticamente o Google da faxina, uma Brastemp!).

5.9.08

Insensatez

E é por desestruturar meu ato, bagunçar meu quarto e me deixar sem chão que eu treino exaustivamente um jeito blasé de te mandar embora e torço sem muito querer pra logo te esquecer. Porque a paz traz um tédio que você aniquila com um beijo mesmo que nem chegue a tocar meus lábios, se só de te ver me olhar eu já adivinho seu desejo e deixo o resto por conta da imaginação.
Aí eu transformo toda a inconsequência em palavras, deixo no Tribuneiros esperando que você leia e não se livre do pensamento - será que é verdade? Se eu engano tão bem...

Nessa data, querida

Trinta. Como chegamos aqui tão depressa? Nem virar uma tequila fazíamos nessa velocidade!

Quem inventou que trinta é importante? É uma pressão digna de reveillon, tem que se divertir, refletir, não pode passar em branco, socorro! 29 ou 31 dá no mesmo. Calma, prometo que vai passar e vamos voltar ao dia-a-dia de conversas, planos de fins de semana, festas sensacionais, lágrimas torrenciais, macarrão e risoto exatamente como temos feito nos últimos... quantos anos? Já tem uns oito desde que nos conhecemos e você brindou à minha separação dizendo que eu era muito melhor sem ele? Quantos eles já passaram? Nossas figurinhas premiadas, brilhantes e perfumadas que não completam álbum. Quem se importa? Depois que o álbum acaba perde a graça mesmo.

Você conseguiria voltar praquela vida de chegar em casa às seis da manhã? Talvez. A gente ainda acha que vai morrer a cada fim? Acha. Mas por pouco tempo. Que bom, tomara que aos quarenta continue assim.

Eu me lembro do aniversário de trinta anos da minha mãe! Estávamos as três filhas, a babá e a cozinheira preparando a festa e as duas comentavam como ela era jovem. Onde colocaríamos essa gente toda nas nossas casas? Nos nossos dias? Nas nossas cabeças eminhocadas e corações epiléticos? Ela já tinha uma família na minha idade, eu tenho medo de me comprometer com o plano trimestral da academia!

Vi o Waltinho falando sobre pertencimento, a sensação de ser estrangeiro a um mundo, não conseguir fazer parte de algo maior que a gente. Que essa dor existencial tanto pode dizer respeito à falta de um pai quanto de um país. Ou de uma coisa qualquer que tantos passam a vida buscando. Trinta anos é tempo suficiente pra achar? Se você chegar lá não se esquece de me mandar um cartão postal. Pelo que dizem você vai saber tudo agora que é uma mulher feita. Dizem os mais novos. E os mentirosos. Ou os bem rasinhos. Que inveja...

Bom, preciso acabar esse testamento logo porque ainda tenho a casa inteira para varrer. Sabia que é importantíssimo limparmos o ralo do chuveiro? Por que não me avisou? E pensar que tem gente que casa só pra não ter que encarar isso. Desentupir ralo sozinha é fácil, difícil é ficar mais velha sem abraço. Então estamos bem, parabéns! E fica tranqüila que os próximos trinta devem ser mais fáceis, você já aprendeu tudo isso.

Feliz aniversário!

23.8.08

Pergunte ao pó

Tem uns fios espalhados pelo chão da sala que não estavam previstos na decoração, eles acabaram ali pelo mesmo motivo que levou a mesa de jantar a virar escrivaninha e vice-versa. A internet wi-fi não funciona, logo, na minha casa come-se no escritório e trabalha-se na sala de jantar, onde tem ponto de telefone. Pra quem não queria que os talheres previsivelmente ficassem na primeira gaveta é até um bônus no quesito inovação, mas depois de três meses isso já deveria ter sido resolvido.
Acontece que nesse período tive outras preocupações como identificar se os barulhos agoniantes vinham de pombos ou ratos e me livrar deles, aprender a tirar o máximo proveito das comidas antes que elas virassem fungos gigantes e o maior desafio de todos – impedir que os bolinhos de poeira dominassem o apartamento.
Demiti o alergista, na equação de causa e efeito contratar uma empregada seria muito mais inteligente do que tomar bolinhas açucaradas em um quarto infestado de nojeirinhas cinzentas. O espanto é: por que ninguém contou isso antes? Fala-se sobre sabonete íntimo na TV e não sobre pés pretos por andar descalça na cozinha! Depois de descobrir que a poeira é composta por excremento de ácaros, a cada móvel que compro penso que vai ser mais um para arrastar na hora de lutar contra cocô de seres invisíveis.
Fico feliz ao ler que uma pessoa decidiu meditar depois de 20 minutos limpando os ladrilhos do banheiro “sem aceitar que aqueles mofinhos entre eles sejam normais”. Eu ainda não ando de touca em casa, mas já me questionei se todos aqueles fios de cabelo no azulejo branco são meus ou se a vizinha é cabeleireira e varre o lixo pra cá.
Lixo é outro drama universal que envolve diversos fatores – vou ao supermercado, compro comidas, ganho sacos plásticos. Tenho um daqueles puxa-sacos de pendurar na porta em formato de galo e meu galo está com obesidade mórbida. Resolvo aderir à campanha I am not a plastic bag porque nem a quantidade surreal de lixo que produzo diminui a barriga do galo, e olha que a rapidez com que a minha lixeira lota reforça a teoria de que a vizinha joga coisas aqui. Para facilitar, acabei com a lixeira do escritório. Uma pessoa com três lixeiras deve ser responsável por grande parte das mais de cento e cinqüenta mil toneladas de resíduos domiciliares coletados diariamente no Brasil. Agora só banheiro e cozinha, e mesmo assim o estoque de saquinhos plásticos já ameaça a circulação da área de serviço. Definitivamente eu sou uma ameaça ao planeta.

E ainda nem comecei a contar sobre como a máquina de lavar influencia meu figurino...




(to be continued)

18.8.08

I remember when I lost my mind

Anyone that needs what they want
and doesn’t want what they need
I want nothing to do with
And to do what I want
And to do what I please
Is first of my to-do list
But every once in a while I think about her smile
One of the few things that I do miss
But baby I‘ve got to go
Baby I’ve got to know
Baby I’ve got to prove it

Gnarls Barkley, there's life after Crazy

16.8.08

Se eu fosse marinheiro

Arrumar o armário era a forma mais boba de desapego, mas ela se desculpou assumindo que desprender-se de uma paixão unilateral poderia ser a fase 2.0 do processo. Era quase sempre por eles, um dia teria iniciativas e não meras reações, mas hoje cuidaria das calças baggy enfileiradas nos cabides. Valeria como exercício.
Já tinha prometido parar de fumar, e apesar de ter tomado a grande decisão enquanto acendia o último cigarro, jurou que quando terminasse com o próximo homem da sua vida partiria para outra sem mais amor ao romance do que ao ser amado. Enquanto isso, jogaria fora todos os objetos que não queria mais. O primeiro esforço seria não mais querer.

Pensamentos budistas, dicas de faxina e as primeiras lições de como desatar nós! Fascículos colecionáveis já nas bancas dos Tribuneiros.com.

27.7.08

Minhocas, meninas e cucharitas

A vida era fácil no paraíso. Adão marcava pelada com os amigos sábado à noite e Eva simplesmente acreditava, Eva se dava bem com os ex-namorados e Adão não ficava remoendo o fato (em nome da moral da história, finge que existiam esses figurantes). Um dia Eva tarrou uma maçã da árvore e aquela minhoca que fica nas frutas foi parar na cabeça dela, destruindo toda a harmonia do mundo. Nunca mais a vida foi leve e, apesar de toda a evolução da ciência, nem Freud descobriu como eliminar o bicho.
Ninguém mais conseguiu viver sem pensar nas consequências, sem fazer um congresso de minhocas para tomar qualquer decisão. Só que bons momentos não são burocráticos, eles passam. A minhoca é o “e se...”, o nó na garganta que às vezes vem até por antecedência, o diabinho que fica atrapalhando a felicidade e se alimenta de tudo que não se sabe. E não se sabe de quase nada.
Existe uma conquista que apesar de ser a small step for humanity é um big step para quem chega lá: é quando no meio de minhocas, incertezas, medos e especulações sentimos o gostinho do melhor lugar do mundo ser aqui e agora. E como sempre temos que voltar para a realidade, chegar à lua é acreditar que valeu a pena, senão a vida vira commodity.
Drummond escreveu: "a cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca. E, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade". Na falta de uma equação perfeita de vida, pode-se encarar o absurdo do imprevisto, arriscar ir em frente com o restinho de fé arrogante que ignora a minhoca.
Complementando Drummond, que piada, Sex and the City: “Have fun, just don't have amnesia”.
Originalmente publicado em Seu Martin I.

23.7.08

Veja você

Porque eu tentei uma vez. Porque eu tentei outra vez. Porque fazer por teimosia é bem diferente de fazer por acreditar. Porque saudade é sinal de que se viveu algo bom. Porque saudade não é o mesmo que viver no passado. Porque viver algo bom não significa que será para sempre. Porque o futuro pode trazer coisas melhores. Porque o Tom Hanks já disse que a vida é como uma caixa de chocolates. Porque ele também já disse que nunca se sabe o que a maré pode trazer e ganhou patins de gelo. Porque é preciso deixar ir embora. Porque é preciso se amar muito para que alguém também ame a gente. Porque é preciso se amar primeiro. Porque não dá para saber se somos mais perdidos. Porque é preciso saber o que a gente quer. Porque é preciso querer de verdade. Porque além de querer de verdade é preciso acreditar que merecemos. Porque pessoas até muito mais vão lhe amar. Porque os outros não podem adivinhar. Porque os príncipes que batem na porta das princesas são encantados. Porque as princesas não trancaram a porta. Porque quero dançar com outro par pra variar. Porque pra existir um “a gente” é preciso deixar essa gente chegar. Porque o tempo passa. Porque a gente muda. Porque a vida ensina. Porque a gente aprende. Porque é mesmo duro assim. Porque esse é só o começo da minha vida.


Deixa chegar o sonho,
Prepara uma avenida

que a gente vai passar
(Los Hermanos)

21.7.08

Em busca da Legolandia

As Barbies podem destruir a vida de uma menina e devido a essa certeza eu incentivo todas as minhas sobrinhas a jogarem futebol: entra em campo, chuta a canela do moleque, xinga a mãe, acaba o jogo e é capacidade total de abstração. Mas ela queria brincar de Barbie e lá fui eu com a boneca mentirosa que me coube para a casinha rosa. A minha Barbie tinha acabado de desenvolver uma teoria sobre a importância do Lego e publicaria no Tribuneiros.com.

12.7.08

Goodbye, Jack

A vida era assim: depois de sair na quarta, na quinta e na sexta finalmente chegava o sábado, quando a escova da véspera já era graças aos cigarros alheios e mãos que adoravam embaraçar seus fios cuidados pelo cabeleireiro mais caro do mundo. O combinado era sempre pegar a estrada às dez, o que significava acordar às onze. Enquanto se arrumava, as amigas ligavam – para o telefone de casa – duzentas vezes. Às 2 da tarde vocês partiam, de ressaca, ouvindo Fabio Jr na serra.

Reunidas na piscina, faziam o que se espera de um grupo de amigas: imitavam a Ana Maria Braga. A noite estava apenas começando e ainda nem eram 4 da tarde. Logo todas já estavam dançando em cima do sofá, algumas gritavam besteiras com a certeza de que ninguém mais estaria ouvindo, unhavam as amigas e tudo aquilo acabaria em uma dormidinha rápida antes de sair. Sim, você ainda sairia, em Cabul a guerra era mais leve.

Lá pelas 2 da madrugada você chegava na boate, de carro, sem bafômetro, assalto ou perigo pelo caminho, e depois de dançar umas músicas que, estranho, naquele dia estavam boas, se dava conta de que as outras tinham desaparecido (ou será que foi você quem se perdeu?). Consumação estourada, você procurava um cantinho para sentar porque o salto da bota não perdoava. Opa, você estava de tênis e rabo de cavalo? O DJ jurado de morte tocava uma música importante e como por milagre todas se encontravam. Vocês se abraçavam como se não se vissem há anos. Horas depois alguém tinha a excelente idéia de ir embora, da rua vinha uma luz pior do que criptonita, vocês saíam praticamente falidas mas felizes, o melhor ainda nem tinha começado.

Em casa, vários colchões espalhados pelo quarto eram palco de conversas que invariavelmente mesclariam as frases “lembra daquela hora” e “eu não vi nada disso”. Na segunda-feira vocês mandavam milhares de emails juntando mais alguns pedaços das histórias que anos depois seriam relidas por uma das suas amigas que pensaria – passou rápido demais! Em qual episódio você virou uma mulher casada em Nova York?

O que tem em Nova York? A estátua da Liberdade é péssima, pretzel na rua engorda, loja da Apple tem online, namorado? Ah, namorado tem aos montes por aí. Ela odeia namorados. Quer dizer, odeia namorados de amigas, principalmente os que a obrigam a comprar um Nextel de motoboy, instalar Skype para ser mais um vício e marcar no calendário tal qual uma presidiária os dias que faltam para as férias.

Ela vai se lembrar de quando vocês começaram a coleção de uarifes por causa dos tantos What Ifs que acumularam no caminho. Vai rir de quando se preocuparam se as almas gêmeas das freiras e dos padres estariam vagando sozinhas pelo mundo. Vai querer ver de novo Antes do Amanhecer pra poder debater Antes do Anoitecer antes de enlouquecer. Vai ter a certeza de que vocês cumpriram à risca o oitavo mandamento: ter sempre uma parceria à sua altura. Vai ser menos egoísta e torcer para que você siga o que diria a camiseta do reveillon que nunca fizeram: enjoy NY. Ela vai te visitar em breve, se Paul McCartney quiser.
Deus ainda é ele, né?

6.7.08

Domingo eu quero ver

O diabo da escola da vida é a bagunça do método pedagógico.
(Bailinho)



4.7.08

É por isso que eu canto

Ela estava devastada. Trevas. Todos os tricolores estavam cabisbaixos e só não choravam para não serem taxados de botafoguenses, mas só uma estava estatelada no gramado do Maracanã. Comparado a ela, Renight Gaúcho parecia apenas chateado:

“É uma fábula! Você luta heroicamente, consegue o que até os mais iludidos duvidaram que fosse possível e erra no básico – chutar a bolinha pro gol. Faz tudo certo e no último minuto é vencido por um equatoriano, roubado por um juiz mau-caráter que representa todos aqueles que te passam a perna quando você merecia a vitória, acaba o sonho por falta de sorte!”

Morro de inveja dos que conseguem exorcizar tudo em um estádio. Ingênua, tentei argumentar que era só um campeonato, não tem outro acontecendo? Ofendi os deuses mais poderosos, posso jurar que esse comentário idiota gerou os trovões que abalaram o Rio de Janeiro naquela noite:

“Nãããão!” – ela só levantou a cabeça nessa hora. – “Nós merecíamos aquela vitória. Está provado que a vida é injusta, aquele goleiro desgraçado se mexeu na hora da cobrança porque é sempre assim, o mal vence, o mundo não presta”.

Silêncio total. O mundo presta, ao contrário de qualquer argumento meu ali.

“Eu acho que fui Hitler”.

Danou-se. Aparentemente o ditador teria influenciado a tragédia do Fluminense e eu precisaria ouvir a teoria.
Nós pagamos pelo que fazemos e ela tinha errado muito, mas pelas contas feitas já devia estar em dia com a justiça divina. Achava que o tempo trágico do casamento teria sido suficiente para abater anos e deixá-la com crédito, mas não aconteceu assim. Até assassinos têm a pena reduzida por bom comportamento, mas a dela nunca era atenuada, logo, devia ser karma dos pesados. Nível Hitler na outra encarnação.

“Nego tá me sacaneando”!

Nego era Deus, o que teoricamente escreve certo por linhas tortas e a irritava por isso.

“Eu também faço as coisas certas, tento muito e fico ouvindo que é pro meu bem, foi melhor assim, blábláblá. Aaaaaaaaaahhhh, eu quero ser campeã da Libertadores!”

Lexotan? Tequila? Psicanálise? Abraço? Gargalhada? Filme bobo? Existe injeção de serotonina? Vai pra casa, grita no travesseiro, amanhã melhora.

Sonhei que era reveillon. Do nada, em julho, era ano novo. Como assim? Eu nem tinha me preparado para o brinde! Contagem regressiva e alguém disse a frase da Renata: “que 2008 seja como você quiser”. Não tem karma, culpa, injustiça, sacanagem, juiz ladrão, tem que ter vontade. Ás vezes é uma merda e não sei como são as coisas no futebol, mas na vida a meia-noite não acontece num simples movimento do ponteiro, pode durar uns seis meses para ser um novo ano. Comercial da Coca-Cola: é você quem faz.

Talvez você tenha lido até aqui esperando por um desfecho otimista. Bem... ele é! Só não tem nenhuma história agora para ilustrar o final feliz. Mas eles existem, eu ainda acredito.

25.6.08

Blues da piedade

Nem sempre eles vão entender. Milhares de vezes eles não vão entender. Por que doeu tanto, por que esse e não aquele, por que diferente? Por que assumir, por que não engolir, por que insistir? Vão te chamar de exagerada, de burra, maluca tantas vezes que nem o hospício te aceitaria.Você vai ler isso e pensar - pelo menos não sou só eu.

12.6.08

Meu quinhão pro grande amor

Pelo amor de Deus, é só mais um dia. Nem é reveillon, você pode ficar sozinha. Também não precisa inventar de jantar fora nessa noite. Evita os shoppings com vitrines cafonas e pensa que fila na porta do motel é humilhante. Doze de junho é fácil. Difícil é domingo à noite, fim de semana com chuva e festa do trabalho, quando cada um pergunta dez vezes “cadê seu namorado?”. Ele ainda não chegou. Não chegou na minha vida, mas se entenderem que não chegou na festa não é minha culpa.

"Hoje eu tenho apenas uma faca no meu peito
exijo respeito, não sou mais um sonhador
chego a mudar de calçada quando aparece uma flor
e dou risada do grande amor.
Mentira"

Ursinhos, bombons e flores artificiais em promoção no Tribuneiros.com

8.6.08

Is it getting better?

O amor é uma bela amizade com grandes momentos eróticos.
(de um médico que está sendo entrevistado pela Marilia Gabriela agora)


Ela teve a linda e tensa idéia de me pedir um texto para o casamento. Eu teria um ano para preparar e, para meu desespero, a época da festa calhou de coincidir justamente com a alta do ceticismo na montanha russa de emoções que é meu ser. Eu estava mais para “cada um no seu quadrado” do que para “one love, one life”. Quase a Miranda. Quase um Mr Big em pânico na porta da igreja: eu não sou capaz de fazer isso.
Pedi ajuda aos amigos, aos roteiristas de Grey’s Anatomy, a Drummond, aos meus registros de romantismo em sazonais fases férteis... Ninguém casa achando que aquilo pode acabar, alguém ainda acredita em amor eterno?
Quando os noivos entraram na festa o DJ tocou a trilha certa para quebrar qualquer descrença: Beatles, “love, love, love”. Não importa se um amor durou um mês, um ano ou uma vida, importa se ele foi inteiro, bom e velho clichê – eterno enquanto durou. E para usar mais um – anormal é ser incapaz de se permitir que ele aconteça. Love is all you need.

(...)
"A gente passa muito tempo tentando provar para o mundo que somos bons, divertidos, inteligentes, dá tanto trabalho! E de repente aparece uma pessoa que acha tudo isso justamente porque sabe como a gente é de verdade, conhece cada falha, descobre qualidades que a gente nem se dava conta de que tinha. Apesar de tudo e por causa de nada, ama. E tudo passa a fazer sentido.

Quem escala o Himalaia sabe que a emoção de chegar no topo é única, não se explica. Pode parecer loucura pra quem ficou lá embaixo, mas pra quem foi seria incompleto viver sem a vista. Casar é encontrar a criatura doida que topa o desafio de escalar a montanha com você.

Viver a dois é o amor na prática, e ainda não inventaram nada melhor. Cada um tem a responsabilidade de ser inteiro para compartilhar somando. (...)

Que vocês sejam felizes e plenos a cada minuto. Loucamente felizes. Ousadamente felizes. Mesmo quando ela falar demais e ele tentar impedir, até quando ela for a alegria dos netinhos com o jeito Dercy Gonçalves de ser e ele for o mais hipocondríaco dos homens. Tem que lembrar que ele ainda é roqueiro e ela só dorme no seu abraço".