30.11.08

Somos nozes

Ouvi gente perguntando se alguém tem verificado as encostas do Rebouças. Com essas chuvas, vai que desaba tudo de novo... Imagina o túnel fechar logo agora! Enquanto uns se contentavam com o cardápio do Bar Lagoa, logo em frente a opção era muito mais variada: pipoca doce, pipoca salgada, milho, cachorro quente, tapioca, algodão doce, pizza e... frango, a grande novidade deste ano na inauguração da árvore!
O banho de chuva não atrapalhou Elba Ramalho e seu banho de cheiro, só o show da Orquestra Sinfônica. O público dessa festa gosta da Orquestra Sinfônica? Agora a árvore toca música. Ouvi só canções natalinas, mas não posso garantir que funk, axé, forró e gospel estejam fora do repertório. Como a melodia vai soar diariamente em três horários, os privilegiados moradores do bairro podem colaborar com esse site respondendo à minha duvida. Tem um mês pela frente para descobrirem, não precisam se apressar.
No nada apressado caminho de volta pra casa aproveitei para aprender o nome de vários lugares através das placas dos carros – quem disse que árvore não é cultura? Já contabilizei 5 fechadas. Nenhuma causou acidente, dezembro no Rio é o mês perfeito para treinar o lema dos escoteiros – sempre alerta! O melhor de tudo: não me irritei, é Natal, o símbolo máximo da festividade iluminada e agora sonorizada torna tudo mais singelo. Eu fico, sem dúvida, uma pessoa melhor enquanto ela está ali, soberana, rodeada de pedalinhos, carrinhos engarrafadinhos e ambulantezinhos.
Ah, a festa é sua, é nossa, é de quem vier! Que venham os amigo-ocultos e eventos corporativos de fim de ano.

24.11.08

É?

Tem quase um ano aquela frase - Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro*...".

Ele mandou por que era aniversário dela ou por que se lembrou da nossa conversa sobre a razão da arte? Era a razão da arte ou se o mundo estava melhorando? Pelo visto tínhamos várias conversas. No fundo eu ainda devo sentir alguma saudade que assim que a mágoa passar vai ser mais bem resolvida por tornar-se uma assumida nostalgia gostosa dos tempos que não cabem mais. Tínhamos o mesmo amor um pelo outro, e o reconhecimento e incrível registro dessa certeza são alterações milenares em um ser traumatizado pelo não-amor.

O tempo altera, mas é preciso algum esforço conivente. A gente não esquece, engaveta. Quando der, reveja os guardados (não queime as fotos). Mas cuidado, testar limites é diferente de auto-sabotagem. Sonho com o dia em que assoprarei o pó acumulado como quem reencontra uma velha caixinha de música esquecida no porão.

Ainda dói assim mesmo ou dói lembrar-se da dor? Dói dentro do peito, vontade de se dar um nó pra desatar o nó. Cabeça que vai de encontro a joelho. Quase vertigem. Nossa... Calma. Lembra? Está tudo bem. Perdão é um sorriso sincero. Ainda vou te abraçar com carinho. Agora fecha essa gaveta, se dá mais um ano. Essa saudade não é real, é só seu coração pedindo água.

No fundo pouca gente está querendo alterar as coisas, mas eu quero tanto que quis um canto.

E desabrochar não altera?

**Eu quis te conhecer mas tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
Pode ser cruel a eternidade
Eu ando em frente por sentir vontade


*Clarice Lispector
** Camelo (ainda mudo o autor desse blog.)

19.11.08

Para o nosso bem

Na Leader Magazine, 19 de novembro.
Faltam 10 dias.

12.11.08

A boa de hoje

Don't you feel it growin', day by day
People gettin' ready for the news
Some are happy, some are sad
We got to let the music play
What the people need
Is a way to make 'em smile
It ain't so hard to do if you know how...

Leia o texto, listen to the music e dance your blues away em Tribuneiros.com

3.11.08

Modinha de moça

É assim mesmo, rapaz. Esse olhar comprido eu conheço bem. Quem mandou não me querer? E dessa vez eu vou lembrar porque sempre esqueço e me convenço de que não sou capaz.
Tem problema não. Tem raiva não, mágoa não, tem é nada, só um achar graça e um tantinho de orgulho, assim, uma pontada.
O tanto que eu tentei, as vezes que eu liguei. Liga não, moça, que mulher tem que ser difícil. Então melhor eu nascer outra mulher, essa aqui dá mais bola que candidato em dia de comício.
Mas você desprezou, fez que era complicado quando enjoou. Acha que eu não sei? Teve complicação nenhuma, foi só mais um que me machucou.
Moça nova aceita muita bobagem. Quê isso de modernidade, eu só queria um pouquinho de atenção pra aplacar minha saudade. E quando é assim não tem novidade, moça é boba em tudo que é idade.
E não é que eu previ? Que depois que a lágrima secou eu entendi? Demorou um nada e tava você ali. É assim mesmo, rapaz, isso tudo eu já vivi.
Agora você ficou pra trás. Que eu também, Camelo, não sou porta de cinema pra dar cartaz.

1.11.08

Um dedim di prosa

“Já reparou que quando não tem ninguém tudo pode?”. A vida de solteiro derruba a tese de que não existe vento favorável para quem não sabe onde quer chegar. Dali a pouco ela sugeriria ir para Cabo Frio quando acabasse o almoço.

Na mesa ao lado já tinha um sapo, um cachorro, um gato e um rato, eu teria que ser o porco - “você vai parecer a Miss Piggy!”. Quem quer parecer a Miss Piggy numa festa da empresa?

Sentados no palco, os gerentes precisavam de uma frase motivacional para fechar o painel. “Ao infinito, e além”, soltou um, e a moça cutucou o colega: “Não é o Superman que fala isso?’. Ainda vão fazer uma tese sobre o Buzz Lightyear e o homem de ferro.

O primeiro desafio dos grupos era fazer um filme. Se ninguém imaginava lobos e madrastas quando te perguntavam há cinco anos como você estaria hoje, por que insistem em perguntar?

O casal de velhinhos portugueses se hospedou no melhor hotel de Tiradentes, e alheio à convenção tomava o café quando viu passar 42 anões, 6 Brancas de Neve e 18 porquinhos. (Estava mesmo no guia que em Minas tem muita cachaça).

Só um porquinho tinha máscara. Já reparou que quando não é tão sério tudo dá certo?

Os porquinhos compraram ações com a indenização que receberam pela perda das casas, a Bolsa despencou e eles se disfarçaram de leitão à pururuca para seqüestrar a Branca de Neve, que continuava rica graças à construção de condomínios para deficientes físicos. (Talvez tenha mesmo muita cachaça em Minas). Já reparou que não precisa de MBA pra falar besteira?

No meio da festa a caldeira do hotel pegou fogo e o estrago só não foi maior porque os bombeiros agiram rápido. Na manhã seguinte alguns comentariam que aquela galera que alugou até carro com mangueira merecia ter ganhado o concurso de fantasia.

Duas da madrugada de quinta-feira, alguns resolveram ir para a boite da cidade vizinha. O coitado que ficou pra trás estava inconsolável. “Eles vão inventar que foi irado e eu vou ter que ouvir.” Já reparou que homem é um ser muito complexo?

Antigamente ninguém perguntava qual era a motivação do lobo ou analisava sua vida pregressa. Já reparou que isso não faz nenhuma diferença na história?

26.10.08

Espero a manhã que cante

Vi gente de verde ontem. Vi adesivos pela cidade mesmo que a minha seja reduzida a poucas ruas. Vi uma carreata do novo prefeito ser esmagada pelas vaias dos bebedores do Jobi que contagiaram todos os clientes dos outros bares e de repente eles viraram cidadãos. Vi minha caixa de email lotar com defesas e historias. Me vi pensando como faria aquelas mensagens chegarem a quem ainda não votaria nele. Vi o cara do jornal dizer que foram cinqüenta mil votos a menos.
Parece que eu perdi a Copa. E Copa não resolve nada, quando acaba a gente diz que tem mais daqui a quatro anos. Ah é, eleição também... Mas nesse tempo a gente faz o quê? Como começar de novo se parecia que aqui começaríamos agora! É um movimento, ele diz, agradecido à população e se dizendo personificação de um recado carioca. É...
Mas o Rio esquece, vai à praia, toma uma cerveja, o Flamengo ganha e a gente se vê, passa lá em casa, deixa o recado com o cara da barraca. Não existe hora marcada na cidade maravilhosa.
É um movimento... Tá. Quem sabe uma canção do mar.

24.10.08

Mensagens em garrafas

Pinturas rupestres em marcos históricos, siga por esse caminho.

9.10.08

2 ou 3 coisas antes de partir

Que um dia eu vou ter dinheiro para ver a vida passar na varanda de um café lendo jornal sem pensar na Bolsa.
Que com poucos euros come-se uma baguette avec jambon e fromage, leia-se ementhal. Ou avec la chevre. Um crepe de chocolat vendido em qualquer balcão é magnifique.
Que lá quando as pessoas não conseguem fazer o que você pede ficam desoleé!
Que toda mulher se sente uma dama sendo chamada de Madamme.
Que ao acordar deve-se procurar saber o que está em greve naquele dia. Sempre tem alguma coisa em greve.
Que ninguém é servil, nem os pedintes.
Que o povo é tão indignado que há uns anos alguns eram contra a candidatura da cidade a sede das Olimpiadas porque o esporte não precisa de patrocinadores mercenários pequeno-burgueses.
Que tem mais câmera fotográfica do que gente por metro quadrado, e já se ouve mais inglês do que deveria nas ruas.
Que o Sena com a Notre Dame ao lado é o lugar mais bonito.
Que o Moulin Rouge não é legal e fica cercado de puteiros.
Que o metrô deveria ser menos eficiente para sermos obrigados a andar mais de ônibus. Debaixo da terra impressiona a praticidade mas perde-se a vista.
Que nenhuma tristeza resiste a um passeio pelo Champs Elyseés.
Que alguns museus têm desconto para os desempregados. Pode-se não ter trabalho, mas não ter cultura, jamais.
Que não o verbo “flanar” foi redefinido ali.
Que o amor de Rodin e Camille Claudel foi tão grande que escorreu pelas obras.
Que a pintura de Chagall parece sonho.
Que o melhor lugar para se tirar uma foto da Torre é no Trocadero.
Que o título completo do filme de Jean-Luc Godard é “Duas ou três coisas que sei dela: a região parisiense”, que originou uma cronica de Mario Sergio Conti, de quem roubei a idéia.

Na volta tem mais, au revoir!

30.9.08

E o mundo não se acabou

Será que me doparam? Um complô do meu terapeuta com meus amigos que temiam uma avalanche de avaliações! Será que entrei em um processo de negação, finjo não ver a realidade para não precisar lidar com ela? Tentei mentalizar - conta corrente de cliente da Ricardo Eletro, nenhum marido, sem nome escolhido para os futuros filhos, estrias e celulites democraticamente distribuídas pelo corpo, litros de corretivo para disfarçar manchas na pele, geladeira com vodka e requeijão, profundo conhecimento de homens tipo “a gente precisa conversar”, um tanque entupido porque prendeu um Perfex no buraco – se não é Prozac que me mantém calma, só pode ser autismo.
E la nave va, sem crise, mais velha, mas ainda em Tribuneiros.com.

22.9.08

Alta costura

"A roupa mais bonita para vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama. Para as que não tiveram essa felicidade, eu estou aqui."
Yves Saint Laurent

18.9.08

Uma Brastemp (da série Lar, salgado lar)

Você já viveu em função dos seus pais, em função do seu trabalho, já definiu ações na vida baseada em homens que mal definiam o que faziam ali, mas quando percebe que depende da máquina de lavar, nota que tem alguma coisa errada nisso.

Pra começar ela é enorme e isso deve ter a ver com a vontade de aparecer – máquina de lavar gosta de atenção, é praticamente a rainha da casa. Tudo ficando tão pequeno e ela continua aquele elefante? Não existe máquina boa meio-termo, ou é aquela foférrima que só lava lingerie ou são as matronas, casa com pouca gente vive de tanque?

Junto com o manual de instruções vem um Guia Rápido – o que significa que ou o manual é prolixo e desnecessário ou que ninguém vai entender mesmo então melhor se ater ao básico. Primeiro passo: selecione o nível de água – como é que eu vou saber? Nível médio, sem radicalismos. Coloque o sabão no compartimento sem ultrapassar o nível indicado. Como eles sabem o quanto de roupa eu vou lavar, é a mesma quantidade de sabão para a máquina cheia ou vazia? Essa gente não explica nada! Programa de Lavagem – isso deveria ser um quadro da Ana Maria Braga, todo mundo ensina a cozinhar e ninguém ensina a lavar roupa, que burrice. Lavagem Econômica, é essa, nem quero ver as outras opções. Opa, Mais Eficiência? Reaproveitar Água? Essa máquina é ecologicamente correta?

Separe as roupas por tipo, tecido e cor. Tipo de roupa? Tipo calças, blusas, casacos, toalhas? Tenho que lavá-los juntos? Sujar todas as toalhas da casa para lavá-las ao mesmo tempo? Enquanto isso, uso qual? Faço uma planilha para garantir que sempre um jogo fique de suplente enquanto os outros são limpos? Não vou separar por tipo. Tecido. Terei que aprender sobre tecidos para lavar roupa? Seda, malha, organza, tafetá? Jeans e moleton adianta? Não vou separar por tecidos, os que parecerem frágeis serão guardados ad eternum, a partir de hoje só roupa de guerra. Cor. Ah, isso eu sei, essa regra é básica! Branco com branco, preto com preto, coloridos misturados. Bege é colorido? Jeans classifica como azul? Blusa branca com bordado verde e vermelho pertence a que grupo? Deus, uma roupa listrada de preto e branco! E agora, picoto a roupa e recosturo depois?

E assim seu figurino passa a respeitar as regras da Brastemp. Para juntar a quantidade necessária de roupas brancas que satisfaça a máquina você se veste como macumbeira por duas semanas, depois vem a fase dark, preto dos pés à cabeça para poder lavar tudo junto, aí passa dias usando vermelho, rosa, laranja, salmão, grená e vinho, os outros comentam como você anda alegre, fazem piadinha de “esse cara, hein” e é tudo por causa dela. Basicamente você se veste de acordo com a vontade da máquina.

Isso tudo você reflete em 29 minutos, tempo que o Modo Rápido dá de descanso antes que ela devolva as roupas completamente amarfanhadas e você vá pendurá-las seguindo uma lógica toda especial de aplicar pregadores de roupa evitando marcas. Um dia alguém há de criar uma máquina que faça todo o serviço do-armário-ao-armário. E essa genialidade não pode exigir carteira assinada.

No próximo capítulo – Como é lindo meu Perfex (os furinhos de Perfex agarram a sujeira e não soltam mesmo! Depois é só enxaguar e está novo seu Perfex, é genial. O Perfex é praticamente o Google da faxina, uma Brastemp!).

5.9.08

Insensatez

E é por desestruturar meu ato, bagunçar meu quarto e me deixar sem chão que eu treino exaustivamente um jeito blasé de te mandar embora e torço sem muito querer pra logo te esquecer. Porque a paz traz um tédio que você aniquila com um beijo mesmo que nem chegue a tocar meus lábios, se só de te ver me olhar eu já adivinho seu desejo e deixo o resto por conta da imaginação.
Aí eu transformo toda a inconsequência em palavras, deixo no Tribuneiros esperando que você leia e não se livre do pensamento - será que é verdade? Se eu engano tão bem...

Nessa data, querida

Trinta. Como chegamos aqui tão depressa? Nem virar uma tequila fazíamos nessa velocidade!

Quem inventou que trinta é importante? É uma pressão digna de reveillon, tem que se divertir, refletir, não pode passar em branco, socorro! 29 ou 31 dá no mesmo. Calma, prometo que vai passar e vamos voltar ao dia-a-dia de conversas, planos de fins de semana, festas sensacionais, lágrimas torrenciais, macarrão e risoto exatamente como temos feito nos últimos... quantos anos? Já tem uns oito desde que nos conhecemos e você brindou à minha separação dizendo que eu era muito melhor sem ele? Quantos eles já passaram? Nossas figurinhas premiadas, brilhantes e perfumadas que não completam álbum. Quem se importa? Depois que o álbum acaba perde a graça mesmo.

Você conseguiria voltar praquela vida de chegar em casa às seis da manhã? Talvez. A gente ainda acha que vai morrer a cada fim? Acha. Mas por pouco tempo. Que bom, tomara que aos quarenta continue assim.

Eu me lembro do aniversário de trinta anos da minha mãe! Estávamos as três filhas, a babá e a cozinheira preparando a festa e as duas comentavam como ela era jovem. Onde colocaríamos essa gente toda nas nossas casas? Nos nossos dias? Nas nossas cabeças eminhocadas e corações epiléticos? Ela já tinha uma família na minha idade, eu tenho medo de me comprometer com o plano trimestral da academia!

Vi o Waltinho falando sobre pertencimento, a sensação de ser estrangeiro a um mundo, não conseguir fazer parte de algo maior que a gente. Que essa dor existencial tanto pode dizer respeito à falta de um pai quanto de um país. Ou de uma coisa qualquer que tantos passam a vida buscando. Trinta anos é tempo suficiente pra achar? Se você chegar lá não se esquece de me mandar um cartão postal. Pelo que dizem você vai saber tudo agora que é uma mulher feita. Dizem os mais novos. E os mentirosos. Ou os bem rasinhos. Que inveja...

Bom, preciso acabar esse testamento logo porque ainda tenho a casa inteira para varrer. Sabia que é importantíssimo limparmos o ralo do chuveiro? Por que não me avisou? E pensar que tem gente que casa só pra não ter que encarar isso. Desentupir ralo sozinha é fácil, difícil é ficar mais velha sem abraço. Então estamos bem, parabéns! E fica tranqüila que os próximos trinta devem ser mais fáceis, você já aprendeu tudo isso.

Feliz aniversário!

23.8.08

Pergunte ao pó

Tem uns fios espalhados pelo chão da sala que não estavam previstos na decoração, eles acabaram ali pelo mesmo motivo que levou a mesa de jantar a virar escrivaninha e vice-versa. A internet wi-fi não funciona, logo, na minha casa come-se no escritório e trabalha-se na sala de jantar, onde tem ponto de telefone. Pra quem não queria que os talheres previsivelmente ficassem na primeira gaveta é até um bônus no quesito inovação, mas depois de três meses isso já deveria ter sido resolvido.
Acontece que nesse período tive outras preocupações como identificar se os barulhos agoniantes vinham de pombos ou ratos e me livrar deles, aprender a tirar o máximo proveito das comidas antes que elas virassem fungos gigantes e o maior desafio de todos – impedir que os bolinhos de poeira dominassem o apartamento.
Demiti o alergista, na equação de causa e efeito contratar uma empregada seria muito mais inteligente do que tomar bolinhas açucaradas em um quarto infestado de nojeirinhas cinzentas. O espanto é: por que ninguém contou isso antes? Fala-se sobre sabonete íntimo na TV e não sobre pés pretos por andar descalça na cozinha! Depois de descobrir que a poeira é composta por excremento de ácaros, a cada móvel que compro penso que vai ser mais um para arrastar na hora de lutar contra cocô de seres invisíveis.
Fico feliz ao ler que uma pessoa decidiu meditar depois de 20 minutos limpando os ladrilhos do banheiro “sem aceitar que aqueles mofinhos entre eles sejam normais”. Eu ainda não ando de touca em casa, mas já me questionei se todos aqueles fios de cabelo no azulejo branco são meus ou se a vizinha é cabeleireira e varre o lixo pra cá.
Lixo é outro drama universal que envolve diversos fatores – vou ao supermercado, compro comidas, ganho sacos plásticos. Tenho um daqueles puxa-sacos de pendurar na porta em formato de galo e meu galo está com obesidade mórbida. Resolvo aderir à campanha I am not a plastic bag porque nem a quantidade surreal de lixo que produzo diminui a barriga do galo, e olha que a rapidez com que a minha lixeira lota reforça a teoria de que a vizinha joga coisas aqui. Para facilitar, acabei com a lixeira do escritório. Uma pessoa com três lixeiras deve ser responsável por grande parte das mais de cento e cinqüenta mil toneladas de resíduos domiciliares coletados diariamente no Brasil. Agora só banheiro e cozinha, e mesmo assim o estoque de saquinhos plásticos já ameaça a circulação da área de serviço. Definitivamente eu sou uma ameaça ao planeta.

E ainda nem comecei a contar sobre como a máquina de lavar influencia meu figurino...




(to be continued)

18.8.08

I remember when I lost my mind

Anyone that needs what they want
and doesn’t want what they need
I want nothing to do with
And to do what I want
And to do what I please
Is first of my to-do list
But every once in a while I think about her smile
One of the few things that I do miss
But baby I‘ve got to go
Baby I’ve got to know
Baby I’ve got to prove it

Gnarls Barkley, there's life after Crazy

16.8.08

Se eu fosse marinheiro

Arrumar o armário era a forma mais boba de desapego, mas ela se desculpou assumindo que desprender-se de uma paixão unilateral poderia ser a fase 2.0 do processo. Era quase sempre por eles, um dia teria iniciativas e não meras reações, mas hoje cuidaria das calças baggy enfileiradas nos cabides. Valeria como exercício.
Já tinha prometido parar de fumar, e apesar de ter tomado a grande decisão enquanto acendia o último cigarro, jurou que quando terminasse com o próximo homem da sua vida partiria para outra sem mais amor ao romance do que ao ser amado. Enquanto isso, jogaria fora todos os objetos que não queria mais. O primeiro esforço seria não mais querer.

Pensamentos budistas, dicas de faxina e as primeiras lições de como desatar nós! Fascículos colecionáveis já nas bancas dos Tribuneiros.com.

27.7.08

Minhocas, meninas e cucharitas

A vida era fácil no paraíso. Adão marcava pelada com os amigos sábado à noite e Eva simplesmente acreditava, Eva se dava bem com os ex-namorados e Adão não ficava remoendo o fato (em nome da moral da história, finge que existiam esses figurantes). Um dia Eva tarrou uma maçã da árvore e aquela minhoca que fica nas frutas foi parar na cabeça dela, destruindo toda a harmonia do mundo. Nunca mais a vida foi leve e, apesar de toda a evolução da ciência, nem Freud descobriu como eliminar o bicho.
Ninguém mais conseguiu viver sem pensar nas consequências, sem fazer um congresso de minhocas para tomar qualquer decisão. Só que bons momentos não são burocráticos, eles passam. A minhoca é o “e se...”, o nó na garganta que às vezes vem até por antecedência, o diabinho que fica atrapalhando a felicidade e se alimenta de tudo que não se sabe. E não se sabe de quase nada.
Existe uma conquista que apesar de ser a small step for humanity é um big step para quem chega lá: é quando no meio de minhocas, incertezas, medos e especulações sentimos o gostinho do melhor lugar do mundo ser aqui e agora. E como sempre temos que voltar para a realidade, chegar à lua é acreditar que valeu a pena, senão a vida vira commodity.
Drummond escreveu: "a cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca. E, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade". Na falta de uma equação perfeita de vida, pode-se encarar o absurdo do imprevisto, arriscar ir em frente com o restinho de fé arrogante que ignora a minhoca.
Complementando Drummond, que piada, Sex and the City: “Have fun, just don't have amnesia”.
Originalmente publicado em Seu Martin I.

23.7.08

Veja você

Porque eu tentei uma vez. Porque eu tentei outra vez. Porque fazer por teimosia é bem diferente de fazer por acreditar. Porque saudade é sinal de que se viveu algo bom. Porque saudade não é o mesmo que viver no passado. Porque viver algo bom não significa que será para sempre. Porque o futuro pode trazer coisas melhores. Porque o Tom Hanks já disse que a vida é como uma caixa de chocolates. Porque ele também já disse que nunca se sabe o que a maré pode trazer e ganhou patins de gelo. Porque é preciso deixar ir embora. Porque é preciso se amar muito para que alguém também ame a gente. Porque é preciso se amar primeiro. Porque não dá para saber se somos mais perdidos. Porque é preciso saber o que a gente quer. Porque é preciso querer de verdade. Porque além de querer de verdade é preciso acreditar que merecemos. Porque pessoas até muito mais vão lhe amar. Porque os outros não podem adivinhar. Porque os príncipes que batem na porta das princesas são encantados. Porque as princesas não trancaram a porta. Porque quero dançar com outro par pra variar. Porque pra existir um “a gente” é preciso deixar essa gente chegar. Porque o tempo passa. Porque a gente muda. Porque a vida ensina. Porque a gente aprende. Porque é mesmo duro assim. Porque esse é só o começo da minha vida.


Deixa chegar o sonho,
Prepara uma avenida

que a gente vai passar
(Los Hermanos)

21.7.08

Em busca da Legolandia

As Barbies podem destruir a vida de uma menina e devido a essa certeza eu incentivo todas as minhas sobrinhas a jogarem futebol: entra em campo, chuta a canela do moleque, xinga a mãe, acaba o jogo e é capacidade total de abstração. Mas ela queria brincar de Barbie e lá fui eu com a boneca mentirosa que me coube para a casinha rosa. A minha Barbie tinha acabado de desenvolver uma teoria sobre a importância do Lego e publicaria no Tribuneiros.com.