1.3.08

O busto

Estava tudo pronto para a festa – a família se reuniria para celebrar a chegada do busto. Uma passagem tinha sido enviada para que a historiadora contratada pudesse vir de Berlim para a ocasião, e a encomenda demorara tanto a chegar que por obra do destino viajaria escoltada pela profissional que relataria em sessão solene a história do clã ao grupo.
Procuraram por meses o local perfeito para o encontro – tentaram comprar de volta a casa de Petrópolis, mas os apelos aos novos proprietários foram em vão. Optaram finalmente por reservar todos os quartos de um hotel e fazer a cerimônia em frente à antiga residência – a rua é pública – e até autorização da prefeitura local conseguiram para ocupar por um dia o espaço. Não só redecoraram o hotel com o tema como também cenografaram o palco da festa. Acharam uma lojinha no Saara especializada em artigos deutsch e qualquer um diria ter voltado no tempo. O chef foi obrigado a fazer um curso de gastronomia alemã para que nenhum salsichão parecesse chucrute. As canecas de cerveja foram personalizadas até mesmo para as crianças, que as encheriam de guaraná para o brinde. Os mais empolgados pintaram o cabelo de louro para dar mais veracidade às fantasias. Duas horas antes da festa o saguão do hotel parecia barracão de escola de samba tantos eram os adereços espalhados por ali.
O patriarca era um aficcionado por soldadinhos e chumbo, e um dia caminhando no frio berlinense deu de cara com uma loja do ramo. Comprou tantos quantos a companhia aérea permitia na bagagem, e os vendedores foram orientados a informá-lo sobre as novidades de cada coleção. Meses depois recebeu um email avisando sobre a chegada de um novo carregamento de soldadinhos, e no meio deles havia alguns bustos de heróis de guerra. Qual não foi a surpresa ao se deparar com seu sobrenome relacionado a um deles! No meio de tantas palavras com nauz e ungen entendeu que aquele ancestral fora um general do exército prussiano durante a primeira grande guerra, e imediatamente comprou a relíquia.
Tempos modernos, o Google em muito ajudou no levantamento da ficha do general e seus correlatos, mas o desconhecimento da língua atrapalhou. Em uma família tão numerosa ninguém fala alemão? É um desrespeito com os antepassados! Como um curso demoraria muito, a historiadora indicada pela embaixada foi contratada para mapear a árvore genealógica in loco e contextualizar o célebre general. Idas e vindas da mulher e de membros da família resultaram em um mapa extraordinário que seria apresentado no apogeu da festa.
Às dezessete em ponto ela chegou com a caixa nas mãos. Todos fizeram a dança coreografada pelo especialista em ritmos prussianos, ergueram suas canecas, apuraram os votos da eleição sobre quem mais se parecia com o general e voltaram os olhos para a historiadora. Ela relataria a pesquisa e o patriarca descortinaria o busto, devidamente colocado sobre um mármore no coreto erguido para a ocasião. A moça contou toda a história dos descendentes de general Wilhelm, destacou seus feitos na guerra, mostrou as pinturas de uma bisneta famosa, exibiu fotos feitas às escondidas de membros da família residentes na Alemanha e por fim revelou o fato: o general nasceu Schumacher, nome equivalente ao Silva brasileiro, e, ambicioso que era, quis, tal qual Fernanda Montenegro e Lima Duarte, entrar para a história com alcunha mais original. Leu nas páginas amarelas locais o sobrenome e adotou-o como pseudônimo, não tendo na verdade nenhuma ligação com a família verdadeira.
Os festejantes emudeceram. O patriarca então deu uma risadinha, cortou a fita que segurava a cortina de veludo, o busto apareceu e ele confessou: já sabia de tudo, apenas achou que há muito não faziam uma festinha. A música voltou, e quando o funk substituiu as danças típicas e as canecas nem eram mais necessárias para o consumo da cerveja o busto foi carregado pelas ruas imperiais como a Jules Rimet nas mãos de Cafu. O coreto petropolitano foi mantido e batizado de General Wilhelm Wahmann, e a coleção de soldadinhos de chumbo não pára de crescer.

22.2.08

Saudade, amor, que saudade

Chamei de saudade instalada, aquela que realmente é.
Não é a falta cotidiana, o não estar mais, é o nunca. O não estar e reticências (porque saber se é um ponto final não temos como, mas sempre parece).
Tem tanta saudade na vida, mas a saudade instalada é aquela que já entendeu que não adianta gritar, então chora baixinho mesmo.
Saudade é o registro do amor que só pôde ir porque um dia pôde ficar.

Registros de outras saudades em Tribuneiros.com

18.2.08

Lar salgado lar

Vinte anos. Há vinte anos eu tinha umas 3 casas da Barbie. Daqui a vinte anos terei praticamente cinquenta anos. Terei aplicado botox ou algum descendente dele. Terei filhos, pelo menos um. Há vinte anos o oceano Atlêntico era meio grau mais gelado. Vinte anos é o prazo do financiamento que consegui na Caixa Econômica. Vinte dias foi o tempo que levei para aprender termos como ônus reais, registro geral de imóveis, amortização crescente, outorgante, certidões e parabéns, o imóvel é seu. Meu?!

- Se a senhora precisar de qualquer coisa é só falar, meu nome é Vanhuilstom.
- Vanhuilstom?
- Vonduilssom.
- Ah, obrigada. Muito prazer.
Não entendi o nome dele, decidi chamá-lo de "oi" por um tempo, mas aparentemente agora tenho um porteiro. E um faxineiro. E procuro por um pintor, o que me faz travar diálogos surrealistas.
- A senhora pensa em PVA ou acrílica?
Eu não penso nisso. Para ser mais sincera não sei nem se é um tipo de pergunta como "você sonha em preto e branco ou em cores" ou algo sobre o qual eu deva escolher. Descubro que são tipos de tinta e que sim: agora eu penso sobre isso. E PVA é mais barata.

- Olha isso aqui.
Eu olho para o buraco que o eletricista fez na parede. Vejo um fiozinho vermelho, um azul, e poeira. Pela cara dele, alguma coisa ruim tem ali. Lembro das primeiras vezes em que parei no posto e o frentista veio com o ferrinho do óleo e os dedos bezuntados balançando negativamente a cabeça para meu desespero. Resolvi o problema anotando a data de cada troca de óleo, a quilometragem e respondendo um sonoro não a cada tentativa de frentistas loucos para abrir o capô do carro.
Um dia aqueles fiozinhos farão sentido? Desconfio.
- Não vi nada não, mas esse interruptor vai ligar o ventilador de teto e sei que você vai conseguir!
Não entendo de elétrica, mas sou ótima em motivar equipes.

14.2.08

Um pra chamar de seu (prefácio de Lar, salgado lar)

- Dona Bruna, achei um que é a sua cara!
Com uma cidade desse tamanho há de sobrar algum para mim. Unzinho que calhe de estar vago bem na hora em que estou procurando. Já parei de idealizar, não precisa ser perfeito, depois de um tempo deixo ele do meu jeito! Tanta gente em condições piores se arruma, por que não eu?
O homem nunca viu a minha cara, como julga ter achado quem a reflita? Se imaginar que eu sou uma baranga desdentada e manca vai me oferecer o minhocão?
- É exatamente o que a senhora queria. O preço está um pouco acima, mas podemos negociar.
- Um pouco? O proprietário vai abrir mão de cem mil reais?
- Ah! A senhora consegue essa diferençazinha. O que são cem mil?

- Dona Bruna, entrou um agora imperdível. Sol da manhã e tudo! São quinze metros quadrados, pode até colocar um fogão ou uma geladeira dentro. Quer ver?
- Não sei quanto à gramática, mas a lógica não aceita "ou" nessa frase.

- Esse ainda não mostrei para ninguém! Olha só que maravilha. É só refazer o piso, trocar a parte elétrica e de repente a hidráulica já que vai mexer mesmo, dar uma derrubadinha nessas paredes e tá pronto para morar! Pegar ou largar, hein? Ainda vem com essa gente aqui de brinde, acena para eles! São seus vizinhos, a família Amaral. Aqui no prédio é todo mundo muito chegado. Se precisar de qualquer coisa é só falar mais alto que eles ouvem ou chegar perto da janela. Uma grande família, do que mais uma moça solteira precisa?

Um lindo apartamento com porteiro e elevador
E ar refrigerado para os dias de calor
Madame antes do nome você teria agora
Ô ô ô ô

13.2.08

Junebug



Juno: I think I'm, like, in love with you.
Bleeker: You mean as friends?
Juno: No, I mean, like, for real. 'Cause you're, like, the coolest person I've ever met, and you don't even have to try, you know.
Bleeker: I try really hard, actually.

8.2.08

As águas vão rolar (marchinhas e curtinhas de Carnaval)

A chuva tá caindo e quando a chuva começa eu acabo de perder a cabeça.

Encharcados como pintos molhados, estavam a Branca de Neve, a Porquinha, a Dança do Créu e a Joaninha esperando a comida chegar quando pegaram as toalhas das mesas do Bar Lagoa para se aquecer. Já se preparavam para a bronca quando o garçom se aproxima e decreta:
- Hoje pode tudo, é Carnaval!
E assim estava oficializada a folia nas terras de Momo. Bandeira branca, amor!

Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval.

- Sabe aquele cara com quem eu fiquei?
- Qual deles?
- O João.
- O que parece com o Nicholas Cage?
- Não, um outro. Ele disse que vinha para cá.
- E o que a gente vai fazer?
- Vamos esperar, o maluco ali disse que o bloco vai chegar aqui.
- Ah é? E depois?
- Depois vamos para outro.

Viemos do Egito e muitas vezes nós tivemos que rezar!

Bloco encerrado, corpos suados, sorrisos estampados, mortos computados, os organizadores dão por falta de um dos bonecos de dois metros contratados para divertir os foliões. Como pode um boneco de Olinda desaparecer na multidão? Vai bebum, alguém já guardou, você bebeu demais, rapaz. Maraca lotado, o teu cabelo não nega mulata: no meio da torcida, o bonecão é a sensação da Raça-Fla.

Pode me faltar tudo na vida: arroz feijão e pão, pode me faltar manteiga e tudo mais não faz falta não...

Agora eu era uma zebra, você um coelho, o de bigode uma gatinha e o mais alto uma borboleta de tubinho verde e asinha resistente à água. Se essa bóia não virar, eu chego lá na capa d'O Globo de domingo – “Foliões improvisam uma Arca de Noé e aproveitam o Carnaval sob a tempestade”. E a borboleta reza:
- Tomara que meu chefe não dê atenção às fotos.

27.1.08

Elas assim sem vocês

"Sempre desconfiei das que cantam com olhos fechados e mãos para cima os versos katmandúnicos de sol, de sal, de mar – “movimentos circulares, zona sul de bar em bar, são bocas em todo lugar”. Ou ela acabou de terminar um namoro ou mente – não faz sentido que moças bem-resolvidas bradem frases como essas em locais públicos".
Contra a Juventude e a favor das fases que passam - leia Tribuneiros.

16.1.08

Hoje eu vou tomar um porre

Pra quem brindou em um café de Paris querendo um pouquinho estar aqui (não queira!).
Pra quem saiu de Angra correndo e manteve os batimentos cardíacos controlados a noite toda apesar de tanto.
Pra quem dividiu comigo o copo de whisky pensando que são determinadas coisas que a gente nunca esquece.
Pra quem não teria mais o que me dar de presente e pra quem me esperaria para comer sorvete de sobremesa depois do lançamento.
Pra quem depois de tudo arrumado dizia “acho que não quero mais brincar” (e até hoje brinca), e pra quem a faz tão feliz.
Pra quem fica ótima de dourado antes mesmo que nós outros saibamos que podemos usar dourado.
Pra quem, uhn, acho que engordou.
Pra quem é praticamente uma estopa.
Pra quem ainda cria três filhos bebezinhos e, como se não bastasse, sobrinhos e netos bebezinhos.
Pra quem me deu Ana Maria Machado, Lygia Fagundes Telles, Ziraldo, papel e lápis.
Pra quem, do alto de seus 95 anos e um divórcio, me aconselhou a não casar com homens bonitos porque eles dão muito trabalho.
Pro rei do karaokê do Japão e organizador fundamental da torcida Raça-Brasil 2014.
Pra quem soube reencontrar sua gargalhada irresistível, pra quem escreve e me conta e pra quem jura ter até hoje os registros do início dessa brincadeira literária.
Para la verdadera artista de la familia y su candango porteño..
Pra quem procura no globo os países onde serão suas histórias, pra quem é irresistivelmente abusada, pra minha assessora e pros que cometeram essas loucuras.
Pros que provaram que se uma coisa está ruim não necessariamente vai piorar, podemos dar a volta por cima.
Pra quem fica desesperada quando eu acordo antes da chegada do pão.
Pra quem reuniu a família e torceu tanto por ontem.
Para quem me levou pra zoar puta em Copacabana e pra espoleta do revolver dele.
Pra quem é meu 911 e o diabinho do desenho animado.
Pra quem, em algum lugar do velho continente, é peça chave na minha vida.
Pra quem é my person e pra essa mala que ela jurou que tinha um humor como o meu (eu sou muito melhor).
Pra quem will always have Paris (até porque lá tem Louis Vuitton!).
Pra quem apareceu de surpresa e me deixou sem palavras.
Pra quem daqui a pouco vai sumir porque está namorando.
Pras que me receberam de braços abertos e bloco na rua.
Pra cúmplice do politicamente incorreto.
Pras pragas, mineiros bígamos, intelectuais rock’n’roll, palhaços, shamus e as tampinhas de cachaça que me divertem tanto.
Pra quem enfrentou comigo la pluie sem ter como voltar para a Rue de la Huchette.
Pra quem mostrou que existe ser chefe e mãe, pro adolescente que tem um amor platônico mesmo sem saber o que é isso, e pra quem ontem era menor do que uma ervilha e hoje canta Cai, cai balão.
Pra quem colocou aquele banquinho na parede que me proporcionou tantas conversas produtivas.
Pra quem teve paciência e carinho de enfrentar a fila e se apresentar.
Pra quem toda semana me mostra que gente é gente, e ainda não inventaram coisa melhor.

Pra quem enlouqueceu em Geribá e me convidou para escrever um texto e pra quem foi sóbrio para Salvador e assim me levou ao site pela primeira vez. Ainda bem que vocês são loucos!

Muito obrigada.

13.1.08

Na primeira vez a gente sempre esquece

Ele não vai ser sempre perfeito daquele jeito, nem vai te achar tão encantadora. Não vai para sempre perguntar por que diabos você não está casada e eternamente comprometida, nem você vai pensar se é mesmo possível tudo aquilo estar disponível nos dias de hoje. Que precisa acordar cedo no dia seguinte e já deveria estar em casa há horas.

Esquece de filtrar todo aquele charme e racionalizar se existe algum futuro. Nem por um segundo você cogita a possibilidade de por trás de tanto empenho existir um psicopata dependente e ciumento. Que ele pode ser um grande mentiroso e destruir seu coração em poucos dias, que da última vez jurou nunca mais ser boba assim, que há pouco tempo estava acabando com o estoque de lenços da casa secando o vale de lágrimas derramado por quem começou do mesmo jeito. Esquece que ele vai te roubar o prazer da solidão, que vai passar essa vontade ingênua de ficar e não pensar em nada.

Esquece que precisa disfarçar a taquicardia, falar menos e parar de esbarrar nele. Nem nota que milhares de vezes ele vai pensar em te beijar e desistir com medo de ser precipitado, que existem pessoas ao redor reparando no seu sorriso bobo e que você não pára de mexer no cabelo. Esquece que os olhos dele nem sempre vão estar te seguindo, que a música está alta mas ninguém ao redor está falando tão perto do ouvido alheio, que nem sempre ele vai pagar mais uma bebida torcendo para aquilo dar um porre de coragem.

Esquece de guardar um pouco da sua versão adorável para depois, esquece que ele não vai falar de você pros amigos com reticências e uma gargalhada sem graça todas as vezes, não vai se culpar por ter perdido tanto tempo com as outras tendo você tão perto. Que a aranha da parede vai considerar usá-los como suporte para a teia se não saírem dali. Que as suas amigas estão dormindo no carro esperando você chegar flutuando, que se você ficar mais feliz vai começar a pular e isso vai ser estranho.
Esquece que isso não acontece todo dia, nem por toda a vida.

Na próxima vez tenta lembrar. E não esquece de guardar para sempre.

Publicado em Seu Martin 1, 10/5/06

11.1.08

Adrenalina

Soltaram fogos na rua e me dei conta de que 2008 só começou há onze dias. Nesse pouco tempo soube que vou lançar um livro e por isso apareci no jornal, aprendi a fazer cobertura de um evento ao vivo e com isso conheci várias pessoas que teoricamente eu já conhecia, participei de um tiroteio, me apaixonei pelas botas da nova coleção da Juliana Jabour, entendi que no inverno vou usar meia-calça colorida, que o plural correto é meias-calças, li um livro sobre a livraria Shakespeare and Company e quis voltar a Paris. Enquanto isso mal consegui acompanhar que mexeram nos meus impostos, soltaram as reféns, Sarkozy saracoteia por aí com Carla Bruni, Madeleine não apareceu, Obama disputa voto a voto com Hillary e me parece que todos deram para chorar em público nos Estados Unidos.
Eu chorei baldes em público depois de sair correndo para fugir do tiroteio. Comemorei cada transmissão ao vivo bem-feita vibrando como vou fazer a cada livro vendido e a cada novo leitor no site e no blog.
Depois que a guerra civil acalmou naquele dia, o segurança falou para mim:
- Entendo que você fique nervosa, é porque não está acostumada.
Com algumas coisas nunca devemos nos acostumar, seja para não perder a euforia da novidade nem o senso crítico sobre o absurdo.

5.1.08

O Rio de Janeiro, fevereiro e março

Baixo Gávea, entro na vaga e vem o flanelinha:
- Posso dar uma olhadinha, madame?
- Claro, são quinze reais.
- Tô fazendo preço especial, linda. Aqui é cinco.
- Para olhar o meu carro são quinze. Esse mês tem IPVA e acabei de fazer a revisão, ele está tinindo. Se quiser pode terceirizar e recolher o dinheiro com cada um que passar e olhar. Já calcula no seu preço o IOF.

Horas depois eu volto e o flanelinha está jantando na varanda do Guimas com o salário do dia.
- Aí, princesa, toma teus quinze. O carro tava na passagem e nego teve que olhar direto, faturei bem!

Tem otário para pagar por tudo nessa vida.

Coluna do Ancelmo Gois:
Motorista de um Volvo blindado vê o ladrão armado bater no vidro e dizer que vai explodi-lo. Pelo auto-falante, responde:
- Zero dois, o senhor é um fanfarrão! Você é que vai se explodir.
E arranca.

Fecharam a praia do Leblon. Imprópria. 1,4 mil coliformes fecais por 100 mililitros a mais do que o normal.
Para garantir o verão, dona Vanda, da barraca onde trabalha Reginaldo, montou várias piscininhas Tone na ciclovia, bem ali onde daqui a pouco começam a passar os blocos do Carnaval.

Enquanto isso, em uma livraria a algumas quadras da praia poluída de Manoel Carlos, os Tribuneiros preparam seu lançamento.

31.12.07

Jetsons

Já são quase 9 da manhã em Pequim e amigos chineses me ligam para avisar que, por enquanto, tudo bem em 2008.
Sendo assim, vou brindar ao Ano Novo. Nos vemos no futuro!

28.12.07

Como ser feliz em 2008

Com música, sempre.
Comece com Mutya em Real Girl, para ouvir lendo Tribuneiros.

23.12.07

Meu querido Santa

E aí, Noel, achou que eu não fosse te escrever esse ano, né? Estava sem tempo, agora finalmente esbarrei no espírito de Natal e sentei para fazer nossa tradicional comunicação. É só uma vez ao ano, não pode faltar. Sabe que tem gente que eu vi quase com essa freqüência em 2007? Nada bom.
De cara queria agradecer pela chuva, senti-la me causou a mesma felicidade que nos sobreviventes do sertão. Não ter obrigação de ir à praia me deixa passar o tempo livre recarregando as energias e criando guias de viagem. Já contei que talvez eu queira ser isso quando crescer? Mas eu adoro dias de sol, tá? No domingo fui ao Arpoador e estava tão maravilhoso que tinha até baleia no mar! Eu não vi, mas fingi que vi para me sentir mais privilegiada.
Desisti de viajar, troquei a passagem aérea pelo direito de ficar jogada nesse sofá e, pelo caos aéreo, parece que fui gênia. Não vou te encher de novo com história de caos aéreo, inclusive não quero mais escrever essas palavras. Vou te contar que ganhei uma almofada de Natal! Serei a primeira pessoa a montar uma casa a partir de uma almofada, e isso já faz dela o lugar mais sensacional do mundo.
Sinceramente não sei bem que presente pedir, posso ficar com um vale? Foi tanta correria para ter uma semana longe do trabalho que não lembrei nem de infernizar os outros cantando Já é Natal na Leader Magazine. Só quero saber de pernas para o ar.
Deixa pra passar aqui no final da noite, assim não precisa fazer visita de médico. Não vou sair, podemos tomar uma champagne rosé e bater papo. Se tiver algum duende estilo Will Ferrel pode trazer, a festa é sua, a festa é nossa, é de quem quiser desde que não perturbe. Minhas obrigações a partir de amanhã são ver muitos filmes (tenho amado tanto Daniel Autteil e Adrian Brody! Preciso ver Viagem a Darjeeling, Conversas com Meu Jardineiro, Meu Melhor Amigo, Across the Universe, Meu nome não é Johnny e Encantada. Sim, quero ver.), baixar músicas da Candie Payne, esvaziar o armário, pegar um solzinho e comprar o livro da Clarice Lispector com cartas para as irmãs – Minhas Queridas.
Preciso escrever mais cartas.
Essa já está ficando grande demais. Por fim, Santa, um desejo que achei em algum blog pelo mundo: “En tous cas, je vous souhaite d'être heureux, en cette période des fêtes. Et comme le dit ma chanson de Noël préférée: Have yourself a merry little Christmas, may your heart be light".
Desejar em francês é bonito, né?

14.12.07

When you wish upon a star

Se você já está cansado de pular sete ondas, há muitos anos passa o reveillon engasgado com uvas, considera o preço das flores para Iemanjá um absurdo mesmo sem CPMF e não acredita mais nas próprias resoluções de ano novo, essa é a sua chance!
A previsão para a madrugada é de chuva de meteoros. Não, não é a oportunidade de morrer atingido por um ser vindo do espaço. Para os íntimos, os meteoros são as estrelas cadentes e esta noite elas vão dominar a Terra. Cerca de 80 estrelas despencarão sobre nossas cabeças a cada hora em um fenômeno de extrema beleza e esperança para os desesperados.
Decore os pedidos para não errar na hora e olho fixo nos traços luminosos do céu. Especialistas recomendam olhar para o lado onde o sol se põe e escolher lugares altos como topo de prédios ou descampados como praias. Para garantir, vá para alguma cobertura na Delfim Moreira. Eles recomendam também paciência, mas se você já esperou até aqui para ter seu desejo realizado, meia hora a mais ou a menos não é nada.
Se der, vê se pede alguma coisa pra mim.

9.12.07

É.

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
Clarice Lispector (10 dez 1920 - 09 dez 1977)

1.12.07

1o de dezembro de 2007

Você aqui de novo? Não é possível! Tem alguém controlando esse tempo? Acabou de ser dezembro. Mal consegui andar um quarteirão desde que abriram o Rebouças e já está trânsito de novo, quem colocou essa árvore no meio da Lagoa?
Eu estava fingindo que não via a onipresença do Papai Noel nos shoppings e encartes de jornal, mudava de assunto quando faziam planos para o reveillon ao meu redor: eu não sei onde vou estar no dia 31! Não posso garantir que vá estar feliz tacando champagne na cabeça dos outros. Tomo remédio para ansiedade o ano inteiro e agora querem correr com as datas festivas, inventaram um tal Dia do Samba para começar o Carnaval dois meses antes da hora. Daqui a pouco vou comprar ovo de Páscoa em janeiro.
Não pode ser Natal de novo, se bobear devo ao cartão de crédito até hoje. É isso mesmo? Planos para 2008? (ainda é 2008, né? Vai ver pisquei e estou atrasada para a Copa. Os ingressos já estão à venda?) Planos para 2008. Nem assimilei ainda o que aconteceu em 2007. Tenho que fazer aquelas listas? Esse ano escrevi mais de 120 textos aqui e no Tribuneiros, o que significa muita besteira publicamente assumida e uma economia de horas na terapia de grupo. Passei a ouvir Martnália nesse ano ou no passado? Las Chicas foi nesse ano. O CD novo da Maria Rita ainda é novo? Ai... lembrei que nesse ano Los Hermanos trocaram os shows por partidas de truco em casa. Agora só o vento vai dizer lento o que virá.
House já está na décima temporada, mas entra na lista desse ano. Em 2007 houve a conquista de Nova York por Bruna! E o país foi conquistado por Bebel. Bebel e Wagner Moura. Tropa de Elite. Lançaram War in Rio, vocês viram? 2007 foi mais violento? Essa pica é do aspira. Sergio Cabral entrou esse ano, Valerioduto é do ano passado, Renan é coisa nova, certo? Mas Renan é velho pra caramba. O Christo Redemptor agora é oficialmente uma maravilha. Que outros filmes vi em 2007? Notas sobre um escândalo, Shrek 3, Scoop, O ano em que meus pais saíram de férias foi 2007 ou 2008? Certamente em 2007 Hugo Chávez não calou a boca. Fidel não morreu. Lula também não (calou a boca). No ano passado ainda voávamos de avião no Brasil? Não, até o meio do ano passado, na calma dos ignorantes. Não imaginávamos que um avião pudesse atravessar a pista de Congonhas e explodir ao bater em um prédio. Bentoxisveí esteve por aqui. Al Gore também? Perdi a noção, para onde eu olho tem Al Gore. E temakis.
Em 2007 descobri onde fica Mianmar, nunca tinha visto protesto de monges. Por aqui também houve conscientização, milhares de pessoas foram à praia de Copacabana para o Live Earth. Sim, aquilo era um evento mundial para alertar sobre a crise climática, não era uma micareta. Em 2007 decretaram que o mundo vai derreter. Ele decretou – Al Gore. Jogos Panamericanos! O Rio nunca esteve tão patriota. Os estádios ainda estão de pé? Por que o Co-Rio ainda não pagou todo o meu salário? Olha o rancor, deixa esses sentimentos ruins para trás, nesse ano você aprendeu que Obina é melhor do que o Eto’o. Vai enfeitar a casa e vestir seu espírito natalino que o mundo fica melhor. É só um mês, depois passa.
Passa rápido demais, deve ser por isso que não tenho aprendido nada. Ou passa exatamente igual a sempre, eu é que estou correndo demais. Fazendo a retrospectiva mais cedo dá tempo de reverter a situação antes do fim oficial do ano. Em dezembro eu vou fazer yoga.

21.11.07

Cidade Partida

– E quando o Flamengo ganhar?
– Eu fico na calçada do Braseiro, você no Hipódromo.
– Ok.
– É isso?
– É isso.

Uma separação total e de bem em Tribuneiros.com.

16.11.07

Know all of the things that make you who you are

Meu livro de cabeceira é 1000 Lugares para Conhecer Antes de Morrer. Assim, quando o despertador toca e o corpo diz que não vai, olho para ele, para o extrato do banco preso no mural e vou trabalhar. Viajo muito mais sem sair do lugar do que com o pé na estrada, mas pelo menos a crise nas idéias não depende do governo como a aérea.
Agora foi lançado 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, onde 90 jornalistas e críticos de música apresentam uma seleção dos álbuns mais inesquecíveis de todos os tempos. Desde que eu recuperava fitas K7 com durex e as enrolava com caneta Bic meu playlist mudou muito (passou inclusive a se chamar playlist). Xeretando o que escrevi há exatos 2 anos no blog antigo, achei esse texto:

"(...) Músicas marcam momentos das nossas vidas até que montamos nossa própria trilha sonora. Eu tive a certeza de estar vivendo um desses momentos únicos quando ouvi Maroon 5 num show em Praga. Pôr do sol, 10 graus de primavera, neve derretendo e a praça principal enfeitada para o dia de São Patrício. Todas as pessoas cantavam baixinho, e eu sempre volto para aquele lugar quando ouço She Will be Loved de novo. Um bloco de Carnaval lava a alma, e quando caiu um temporal na hora em que o Cordão do Bola Preta tocava Explode Coração, não ficou um inteiro. Passei a adolescência na California de tanto que ouvi All Eyes on Me. Orishas é a cara de Barcelona.
(...) Foi assim que me encantei por Los Hermanos. Vivia tão triste que ouvir Mais uma Canção era o conforto de saber que eu não estava sozinha, alguém já tinha sobrevivido àquela dor. Ou não, e a genialidade do artista está em conseguir detectar o que vai no coração das pessoas e transformar aquilo em música. Tenho ouvido muito Zélia Duncan, Black Eyed Peas e Vanessa da Matta. Dependendo do momento, ouço Even Flow ou Maggie May. E nessa de andar na praia para ficar muito tempo só ouvindo música, descobri Doesn’t Remind Me, do Audioslave. Fala de coisas que o autor gosta por não trazer lembranças de nada: The things that I've loved/ the things that I've lost/ The things I've held sacred/ that I've dropped/ I won't lie no more you can bet/ I don't want to learn what I'll need to forget. Essa é a armadilha das músicas. Vão sempre remind me of something, não tem como escapar".

Black Eyed Peas? Zelia Duncan? Ano vai, ano vem, continuo ouvindo essa do Audioslave. E hoje me peguei cantando Vanessa da Matta (mas só essa!)

...Tudo o que quer de mim/ Irreais expectativas desleais...

So many special people in the world... A APAE está cheia delas.

11.11.07

Ficou tudo igual.
Daqui a quinze minutos eu levanto.O ventilador chacoalhando no teto. O homem serrando as madeiras na minha janela. Copo de leite no café da manhã. Boca rachada. Carro sujo. Preguiça de ir à pé para a academia. Os filmes continuam estreando nos cinemas, o telefone continua ligado, os classificados saem toda semana cheios de ofertas. A areia continua um pouco suja, mas a água ainda é refrescante. Caminhar do 12 ao 10 é pouco, mas desperta. Esse sol que não sai. Só tudo mais sem graça, meio sem porque.

Ficou tudo igual.
Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo, segunda. Manhã, tarde, noite. Uns feriados. A árvore da Lagoa sendo montada. Show do Jorge Benjor. Crise aérea. Ar condicionado. O verão chegando trazendo um bafo quente.
Você só não vai estar nele.

No outono refresca.

6.11.07

L de lágrima

Não costumo ler recaps, mas procurando pela estréia da nova temporada de The L Word fui sugada pela crítica de um episódio anterior ao do casamento.
Dizia - "se existe uma coisa da natureza humana é o desejo de ser irrestritamente aceito por alguém. Para alguns isso significa ser acolhido pelo maior número de pessoas possível e, para outros, ser aceito por uma única pessoa no mundo já é o suficiente, o que vier a mais é bônus". Essa introdução era para explicar porque Carmen contou à sua família latina que estava apaixonada por outra mulher e mostrar a porrada que foi ouvir que era melhor ela ser puta do que lésbica.
A tal outra mulher era a Shane e o tal episódio do casamento vem a seguir.
Na abertura Shane conhece o pai que a abandonou quando criança. Ela estava fugindo do lugar onde tinha marcado de encontrá-lo quando ele a reconheceu porque também estava fugindo. Pai e filha, além de fujões, dormem tarde, são sedutores e indomáveis. Mesmo sendo a Shane, ela se emocionou ao ver que tinha uma família normal, uma madrasta, um irmão, e convidou os seus para o casamento. Mesmo sendo a Shane ela tinha pedido a Carmen em casamento. Mesmo sendo a Shane ela queria continuar a lado da Carmen apesar de tudo.
As amigas fizeram uma despedida de solteiro: "um brinde à Shane, que nos ensinou que as idiossincrasias podem ser bonitas". Por ser a Shane todas se espantaram ao ouvir sua declaração: "quase sempre o amor não acontece da forma como esperamos, mas se suportarmos a dor ele pode se fortalecer e tornar-se ainda mais precioso. Quem sabe?".
A família da Carmen foi ao casamento e ela entrou de braços dados com a mãe na igreja. Irrestritamente aceita. A família da Shane também foi, e ela encontrou o pai traindo a madrasta no bar do hotel. "Patty, essa é minha filha Shane. Shane, não me orgulho disso, me desculpe. Eu sou assim, sei que você entende".
Carmen ainda estava sorrindo a caminho do altar quando entendeu o recado que a madrinha trazia na frente de todos os convidados: "Shane não espera que a perdoe, não se orgulha disso, mas ela é assim".
O tal recap compara a cena do não-casamento àquela história do sapo que aceitou levar o escorpião até o outro lado do rio e foi picado porque escorpiões são assim. Lamenta que algumas pessoas não acreditem que possam mudar. Mas vai ver só alguns homens descendem do macaco. Talvez outros descendam do escorpião. E outros do sapo.
Quem sabe?

29.10.07

Correndo atrás do rabo

Eu tô tentando tirar o atraso, eu tô tentando te dar um abraço, eu tô penando pra driblar o fracasso, eu tô brigando pra enfrentar o cagaço, eu tô fincando meus pés no chão, eu tô tentando ganhar um milhão, eu tô tentando ter mais culhão, eu tô treinando pra ser campeão, eu tô apelando pro Kid Abelha, eu tô confiando no Paulinho da Viola, eu tô fazendo como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar, eu tô usando gerúndio até no título em mais um texto cheio de amígdalas na cabeça no Tribuneiros.com

14.10.07

O feriado da criança carente (ou Uma vaca de Rolex)

Eu, Lázaro Ramos, Taís Araújo, Adriana Esteves e Raí passamos o feriado no Rio de Janeiro. Provavelmente outras celebridades também passaram, mas só esbarrei com essas. E com vacas. Está acontecendo no Rio a Cow Parade: artistas customizam vacas e elas ficam espalhadas pela cidade. Provavelmente também esbarrei com outras vacas, mas só dei atenção a essas. Não sei se a proposta era ser uma mostra interativa, nem como o público reagiu nos outros lugares. Aqui as obras são agarradas, escaladas por crianças e incessantemente fotografadas. Vi pessoas abraçando as vacas. Cariocas abraçam tudo.
Cariocas falam sobre Tropa de Elite. Ainda. E, como continuação, debatem o assalto do Luciano Huck. Ok, eu debato, eles acompanham. O homem tem uma arma apontada para a cabeça, escreve um artigo para o jornal e é acusado de (no mínimo) ser elite. Isso é acusação? Eu também escreveria para o jornal. Não escrevi porque ainda não fui assaltada, só a moça do carro ao lado cuja bolsa levaram no Leblon e a irmã cujo carro arrombaram na porta de casa. Não me roubariam um Rolex (não me pagam esse salário) nem polemizariam sobre meu desabafo (já estão acostumados), mas ficar calada pensando que é assim mesmo não ajudaria. (Aproveito para pedir a todos os assaltados que registrem a queixa na delegacia).
Depois que o Roberto da Matta resumiu o bafafá chamando a crítica de neofascista e acusou-a de negar a um rico o mesmo direito de reclamar dado a um pobre, opino também para defender o direito de cada um usar no pulso o que bem lhe interessar desde que pago com dinheiro honesto. Não roubam por serem pobres, fosse assim o Congresso estaria uma beleza (a frase não é minha, roubei do Globo). Frase minha é que o rapaz foi ingênuo, sábio foi Tom Jobim ao dizer que no Brasil sucesso é ofensa pessoal.
De resto, não estava muito sol e a praia estava cheia, não fiz nada demais e gastei uma fortuna, começou o horário de verão e ainda não achei muito legal, daqui a alguns dias tem mais feriado e de novo prometo que vou viajar.

Nota de esclarecimento: o assalto do Rolex foi em São Paulo. No Rio, até agora, nenhuma vaca foi vítima de bala perdida.

11.10.07

Sobre o que eu nem sei quem sou

"Outro dia descobri o "Acredite se Quiser", uma brincadeira que faz mais sentido com o tempo. Remédio para dormir não é glamouroso. Para voltar atrás é preciso ter ido. “Não” é uma palavra salvadora. Óbvio é muito subjetivo. O que não é dito não é ouvido. Você vai se decepcionar. Você vai se encantar. Gente ocupadíssima não consegue ter hobbies. Antibiótico para gastrite pode ser pior do que a doença. Você só vai ter vinte e poucos anos por mais alguns meses. A previsão para o feriado é de tempo bom. Nem isso é uma certeza. Se chover, improvisa e aproveita."

I Used to Believe que writer's block era frescura. Depois de um tempo rouca, mais verborragia em Tribuneiros.com.

2.10.07

John, Paul, Charlie and Bruna

Nada de balonê, sandálias-bota nem (perdão, senhor) calças de cintura alta. Nada de new faces que pesam 40 quilos, fazem biquinho sexy e usam combinações estranhas. Na semana de moda de Nova York diversos estilistas criaram roupas de alta costura inspirados em seus personagens preferidos... do Snoopy!
As roupas nem ficaram grande coisa, mas pouparia explicações poder acordar e vestir nosso estado de espírito – hoje estou mais Lucy, mais Linus, mais Joe Cool.

Baz Luhrman já tinha usado letras de música para fazer um filme - Moulin Rouge - e agora Julie Taymor usa a fórmula em Across the Universe. Através das músicas do Beatles ela conta a história de dois jovens que se conhecem nos anos 60 e vão se transformando junto com o mundo. Eu (como o Silvio Santos) ainda não assisti, mas dizem que é ruim:-) Se não vale pela história, vale pela trilha.

O que uma coisa tem a ver com a outra? São legais, e às vezes isso já é muito. E não estou convencida de que os Beatles são de verdade, às vezes eles ficam na minha cabeça em um nível Charlie Brown. São gurus.

Hey Jude,

Don't make it bad. Take a sad song and make it better.
Don't be afraid. You were made to go out and get her.
The minute you let her under your skin then you begin to make it better.
Don't carry the world upon your shoulders. Well, don't you know that its a fool who plays it cool?

Love,
Paul

28.9.07

Os suspeitos

Quem você acha que matou Madeleine?

( ) a mãe McCann - os portugueses não são bobinhos
( ) Olavo - ele é o vilão, odeia criancinha fofinha
( ) Marion - Maddie tentou envenená-la
( ) Antenor - se ele não pode ter filhos, ninguém pode
( ) Bebel - Olavo iria se casar com Maddie
( ) Paula - não queria mais ser a gêmea boazinha com olhar de peixe
( ) Capitão Nascimento - Maddie fumava um no pilotis

25.9.07

Pumpkin!

Data de nascimento: 9/4/1926
Filiação: fazendeiros do Nebraska
QI: 152 (gênio)
Atividades anteriores: infantaria e cartunista do jornalzinho do exército americano, aluno do Chicago Art Institute e sociólogo.
Hora em que chutou o balde: quando a revista Esquire se mudou para NY e não quis lhe dar um aumento de 5 dólares, ele pediu dinheiro emprestado para lançar uma revista. Não deu certo, até ele perceber que faltava uma publicação para homens no mercado. (o nome Playboy e o coelhinho foram sugestões de um amigo)
Você ama as 3 girls of the Playboy Mansion, ou só finge?
Hef: Das minhas três namoradas, é Holly de quem gosto mais. Há cinco ou seis anos ela era apenas uma de sete, hoje a vejo como o relacionamento que manterei até o fim da vida. Ela adora filmes antigos e gosta da música que eu ouço há décadas.

As outras namoradas, Bridget e Kendra, não tem ciúmes?
Hef: Não. Mas independente de serem 3 namoradas ou 7, é mais fácil do que 1 esposa. Elas não perturbam muito porque sabem que você sempre tem outra alternativa. Meu segundo casamento durou 10 anos e tive 2 filhos, quando acabou conheci uma jovem atriz e duas semanas depois duas gêmeas, foi uma reação ao casamento turbulento.

Foi a primeira vez que você teve 3 namoradas ao mesmo tempo?
Hef: Na verdade foram quatro.

Algum dia você pensa "hoje tudo que eu quero é ver um vídeo em casa"?
Hef: Claro, ficar na cama assistindo a um filme é uma das coisas que mais gosto. Eu me acalmei muito. Recebo esses milhares de convites, mas separo os que vou. As melhores horas são as quietas em casa.

Hef não gosta que as meninas voltem para casa tarde, adora festas de aniversário e faz questão de conhecer as famílias das namoradas.
Se tudo der errado, eu vou pedir asilo na Mansão Playboy.
Hef é um fofo.

21.9.07

Deus é 10

(...) E com Ele envolvido em tanto trelelê, noiva e noivo se beijaram no altar da Nossa Senhora do Bonsucesso diante do olhar comovido e pés já doendo dos convidados, ao que o padre anunciou: ide em paz, e uma boa notícia para as encalhadas – agora tem festa! A mãe que tanto insistiu na primeira comunhão da filha porque é preciso buscar conforto na fé só teve tempo de pôr as mãos sobre os ombros da menina e das amigas e acalmá-las: vocês são jovens, vamos.

Ele está no meio de nós, mais especificamente ali em Tribuneiros.com.

17.9.07

Na primeira vez a gente sempre esquece

Ele não vai ser sempre perfeito daquele jeito, nem vai te achar tão encantadora. Não vai para sempre perguntar por que diabos você não está casada com um marido que te trata como uma rainha, com filhos fofos e eternamente comprometida, nem você vai pensar se é mesmo possível tudo aquilo estar disponível nos dias de hoje, e ainda por cima te dando tanta atenção quando existem milhares de mulheres no mundo. Nem passa pela cabeça que não vai durar muito o fato dele estar impressionado porque a menina mais linda do planeta está sem nenhum macho cercando. Que precisa acordar cedo no dia seguinte e já deveria estar em casa há horas.

Esquece de filtrar todo aquele charme e racionalizar se existe algum futuro. Nem por um segundo você cogita a possibilidade de por trás de tanto empenho existir um psicopata dependente e ciumento. Que ele pode ser um grande mentiroso e destruir seu coração em poucos dias, que da última vez jurou nunca mais ser boba assim, que há pouco tempo estava acabando com o estoque de lenços da casa secando o vale de lágrimas derramado por quem começou do mesmo jeito. Esquece que juraram que você ia adorar o amigo dele que ninguém lembra mais onde foi parar, que ele vai te roubar o prazer da solidão, que vai passar essa vontade ingênua de ficar e não pensar em nada.

Esquece completamente que precisa disfarçar a taquicardia, falar menos e parar de esbarrar nele, que daqui a pouco ele não vai mais precisar inventar motivo para tocar em você. Nem nota que milhares de vezes ele vai pensar em te beijar e desistir com medo de ser precipitado, que existem pessoas ao redor reparando no seu sorriso bobo e que você não pára de mexer no cabelo. Esquece que os olhos dele nem sempre vão estar te seguindo, que a música está alta mas ninguém ao redor está falando tão perto do ouvido alheio, que nem sempre ele vai pagar mais uma bebida torcendo para aquilo dar um porre de coragem. Esquece de guardar um pouco da sua versão adorável para depois, esquece que ele não vai falar de você pros amigos com reticências e uma gargalhada sem graça todas as vezes, não vai se culpar por ter perdido tanto tempo com as outras tendo você tão perto. Que a aranha da parede vai considerar usar vocês como suporte para a teia se não saírem dali. Que as suas amigas estão dormindo no carro esperando você chegar flutuando, que se você ficar mais feliz vai começar a pular e isso vai ser estranho.

Esquece que isso não acontece todo dia, nem por toda a vida. Na próxima vez, tenta lembrar. E não esquece de guardar para sempre.

Publicado em 10/05/2006, Seu Martin I.

6.9.07

Crazy

Eu lembro de quando perdi a cabeça, tinha uma coisa legal naquela fase.
Até as emoções faziam eco em tanto espaço vazio.
Tomara que você esteja realmente vivendo o seu grande momento, só pensa melhor. É meu único conselho.
Quem você acha que você é? Ahahaha, abençoe a sua alma! Você acha mesmo que está no comando? É... eu acho que você está louca igualzinho a mim.
Meus heróis tinham um coração que os faria perder a vida por aquilo e tudo que eu lembro é de pensar - caramba, eu quero ser igual a eles. Desde pequeno aquilo parecia divertido.
Não é coincidência que eu tenha chegado aqui. E agora eu vou morrer por isso? Maybe I'm crazy.
Probably.

Gnarls Barkley

4.9.07

24 horas

Tem horas em que eu não quero te ver muito para não gastar.
Tem horas em que é tanta coisa que você não está.
Tem horas em que, com tanta coisa, só você pra me animar.
Tem horas em que eu vou logo dormir pra hora chegar.
Tem horas em que a gente se despede e eu fico com muita vontade de não te largar.
Tem horas em que eu acho que você vai dizer que não dá.
Tem horas em que não tem mais ninguém em nenhum lugar.
Tem horas em que eu fujo para não exagerar.
Tem horas em que a gente fica quietinho sem precisar ter nada para falar.
Tem horas em que eu quero te matar.
Tem horas em que eu dou nó nos meus miolos arrumando um jeito de te ajudar.
Tem horas em que eu descubro como se conjuga o verbo cuidar.
Tem horas em que eu fico ridícula querendo agradar.
Tem horas em que as coisas são mais legais só porque eu vou te contar.
Tem horas em que eu tenho vontade de chorar.
Tem horas em que eu queria que pra você só existisse eu em todo lugar.
Tem horas em que eu preparo um exército e você desarma bem devagar.
Tem horas em que é difícil disfarçar.
Tem horas em que eu não quero dormir para não ter que ir embora quando acordar.
Tem horas em que você me beija tão forte que eu acho que todo mundo vai reparar.
Tem horas em que eu fico com medo de dar bandeira e o povo invejar.
Tem horas em que perco tempo sofrendo pensando que isso pode passar.
Tem horas em que eu acho uma bobeira criar rima para a palavra amar.
Tem horas em que eu acho que bobo é quem não aproveita e ainda tenta negar.

24.8.07

As noivas do meu tempo

"Esse é um dos grandes motivos da angústia da minha geração toda.
Qual?
Os créditos.
Como assim?
É, porque a vida é depois dos créditos, né? A vida começa a acontecer depois que o cara beija a mocinha, e depois de ganhar do vilão. No momento do auge, ali é que começa né! Aí acabou o filme e tu fica o tempo inteiro querendo aquilo ali, sacou?"
Marcelo Camelo em entrevista à revista TPM, 2004


"Elas querem véu e grinalda e as mães saídas da revolução sexual olham incrédulas – precisa não, minha filha. Eu queimei tanto sutiã por você, pede ao porteiro para abrir a lata de palmito e vai desfrutar a sua independência, seu pai já se acostumou. Mas a noiva mostra o enxoval, dúzias de lingeries rendadas, kit da sex shop moderninha de Ipanema na mesa ao lado dos bem-casados que precisa experimentar. Elas podem sair de casa a qualquer hora, podem pagar pelo quarto e sala, podem experimentar quantos errados quiserem até chegar ao certo, mas querem o certo e o querem no altar".

E lá vem a noiva em Tribuneiros.com.

23.8.07

Foro íntimo

Vamuslewandovsky diz:
Ahahaha, você tá quase dormindo, sua cabeça tá caindo pra frente.
Fuegodelcarmem diz:
Esse julgamento está muito chato, podiam falar logo sobre a Jane.
Vamuslewandovsky diz:
Vc tá mto sexy com essa saia justa.
Fuegodelcarmem diz:
Bobinho. Vc gostou mesmo? Amanhã pensei em usar a preta ou a azul, minha duvida é qto ao peculato em co-autoria ou participação, o que você acha?
Vamuslewandovsky diz:
Acho q sim.
Fuegodelcarmem diz:
Sim o q? Tem q votar! Não consigo decidir. Precisa ver o q está por baixo desses panos.
Vamuslewandovsky diz:
A combinação q eu dei? Sabia! A sustentação me impressiona.
Fuegodelcarmem diz:
Acho q seria conveniente q a gente se encontrasse no final do dia ainda q durante meia hora. Escolhi ela especialmente para hoje.
Vamuslewandovsky diz:
Eu vou varar a noite. Podemos bater um papo aqui.
Fuegodelcarmem diz:
Uhn, acho q alguem andou lendo o livro do Eros.
Vamuslewandovsky diz:
Hehehe, ele me vendeu por uma barganha, acabei aceitando o presentinho.
Fuegodelcarmem diz:
O Cupido acaba de afirmar aqui do lado q naum vai aceitar nada.
Vamuslewandovsky diz:
Isso naum afasta as minhas convicções com relação aqueles pontos q conversamos. Se acontecer o jantar naum será só para tomar um bom vinho.
Fuegodelcarmem diz:
Naum liga pra minha casmurrice, tô muito amolada. Depois faço alguma coisa e passa.
Vamuslewandovsky diz:
Cacete!
Fuegodelcarmem diz:
Pára! Vão perceber.
Vamuslewandovsky diz:
Naum, já perceberam! Tem um cara fotografando nossos monitores. Vai ver: TEM UM CORNO ME OLHANDO.
Fuegodelcarmem diz:
Tá louco? &%@#$, vão saber da combinação. Inventa que estamos falando sobre outra coisa.

20.8.07

A história da senhorinha das plantas

Não sabia muito bem desde quando, mas fazia tempo que ela estava ali. Não hoje, hoje acabara de entrar, mas já havia alguns anos que ela vinha toda pequenininha, sempre com um casaquinho mesmo nos dias mais quentes, um regador e a cesta de ferramentas. Não demorava quase nada, falava pouquíssimo, e depois sumia por um período. Naquele dia, sentiu um ímpeto de abraçá-la. Seria estranho, é claro, e a senhora decerto se assustaria já que as duas mal se conheciam, mas queria mostrar que o trabalho de cuidar das suas plantas a deixava muito feliz. Não pela função de jardineira, mas pela conseqüente presença das flores na sala. E como estavam bonitas! Sempre foram aquelas? Combinavam perfeitamente com a decoração, será que quando pintaram as paredes a senhorinha mudou as cores do jardim também? Nunca tinha reparado nisso! Concluiu que adorava ter uma sala com flores. Levantou, encheu um copo de água e ofereceu à dona do casaquinho lilás da cor das pétalas. Precisava tratá-la bem, ela não podia ir embora. Ofereceu café também, mas este foi recusado por causa da cafeína. Então não toma! Se ficar acelerada é capaz de passar a energia para as plantas e elas morrerem. Nada poderia estragar aquele quadro.
Ele também não toma café, já fazia tempo que tinha trocado por sucos. Todas as terças trazia da feira um carrinho cheio de frutas e escolhia o cardápio matinal da semana. Oferecia um gole para ela provar na tentativa de um dia convencê-la a trocar a dieta. Sentiu um ímpeto de ir encontrá-lo. Seria estranho, é claro, e ele decerto pensaria que algo tinha acontecido, mas ela queria mostrar que a certeza de tê-lo a deixava muito feliz. Não por ele ser um grande inventor de sucos, mas pelo discreto cuidado com seu bem-estar. E como ela estava tranquila! Nunca fora assim. Não se corroía de mau-humor se ele chegasse mais tarde nem achava que cada vez seria a última. A segurança de um alimentava a do outro. Ainda não tinha reparado nisso. Concluiu que adorava tê-lo por perto. Pensou que o amor traz à vida uma paz que por tantos anos ela buscou dentro de si, e de fato só lá conseguiu achar.


I never made promises lightly
And there have been some that I've broken
But I swear in the days still left we'll walk in the fields of gold
(Sting)

12.8.07

RG

Eu preciso que o meu oxigênio contenha partículas de maresia. Eu adoro quando o mundo dá provas de que posso ser menos descrente. Eu bebo muita cafeína. Eu poderia beber muito vinho. Eu adoraria comer mais pão, queijo e chocolate. Eu gargalho menos do que preciso e por isso amo o Will Ferrell. Eu acho as pessoas estranhas. Eu deveria tirar mais fotos. As notas na minha carteira são em ordem crescente. Quando eu sou feliz sei que sou feliz e não digo que era e não sabia. Eu tenho preguiça de certas convenções sociais. Eu não sei quase nada. Eu ando sentindo falta de humildade. Eu acho emocionante alguém aprender a ler. Às vezes eu quero desligar crianças. Eu não acho bonito dizer isso. Eu não tenho muita energia para as coisas que não me interessam. Eu queria conseguir meditar. Eu associo moletom a edredom e pantufa. Eu rejuvenesço enquanto amadureço. Eu teria um São Bernardo se ele fosse auto-limpante. Eu precisaria de mais espaço para ele. Eu olho para o Jamie Oliver e temo ter dislexia culinária. Eu queria que aulas de dança fossem como parecem ser. Diagnosticaram que eu extrapolaria a minha criatividade, mas até aqui tudo bem. Eu gosto de fotos em close. Eu quero sempre mais e não sou uma música do Ira. Eu sacudo o meu cachorro para checar se ele está só dormindo ou morreu. Eu me sinto culpada, mas a culpa não é minha. Eu adoro cachecóis e pashminas. Eu tenho me obrigado a esperar mais um pouco. Eu tenho problema com pontualidade. Eu acho que auto-conhecimento é fundamental, mas pode gerar uma overdose de primeira pessoa. Eu escrevi todas essas linhas e não consegui montar como pediram o meu perfil.

8.8.07

O silêncio da inocente

Ás vezes fico lendo blogs de gente que está longe e queria estar longe só para ter muito o que contar. Porque quando a gente está fora tudo é diferente, e mesmo que as pessoas do outro lugar façam o mesmo que as do meu lugar, isso já é algo novo para perceber. E mesmo que muitas vezes eu seja turista onde nasci e as pessoas com quem convivo sejam para mim gente de outro lugar, não são relatos de uma viagem. Mesmo que os dias às vezes sejam uma viagem.
Eu chego e falo bom dia, mas elas não respondem. Respondem só com um bom dia, nem me olham. Eu queria falar coisas! E de vez em quando me encho de coragem ou não aguento pensar só comigo e comento em voz alta. A moça da mesa ao lado dá um sorrisinho ou rebate com uma frase de mais ou menos 5 palavras. Acabou a conversa. Eu tento rir, riso aproxima, né? Ninguém ri junto. Choro também aproxima, mas não ficaria bem alguém chorar no meio do dia. O que acontece com essa gente?
Comecei a sofrer de excesso de palavras contidas, a qualquer momento eu gritaria na cara delas ou faria uma revelação polêmica. Por enquanto, diminuía cada vez mais as interações. Até que acharam pistas sobre o desaparecimento da Madeleine. Meu Deus, Madeleine poderia estar morta! E os pais de Madeleine? Coitados! Acham que Madeleine pode ter sido assassinada no quarto do hotel! Não aguentei. Desde que a garotinha desapareceu em maio em Portugal eu acompanho a busca por Madeleine nos jornais. Interrompi o silêncio. Anunciei que os pais mataram Madeleine. As cabeças não se moveram, veio só uma voz: "Não está confirmado ainda. Existem outras pistas". Uau, 7 palavras! Recorde.
É por isso que as pessoas escrevem diários. Eca, imagina os diários dessa gente.

5.8.07

Amil Resgate

Há horas em que só Nick Hornby.
I am an island. I'm bloody Ibiza!
Dias em que só Little Miss Sunshine.
Everyone just... pretend to be normal!
Tardes em que só Friends.
Ross: You know what? I'd better pass on the game. I'm just gonna go home and think about my ex-wife and her lesbian lover.
Joey: The hell with hockey. Let's all do that.
Momentos em que só Will Ferrell.
http://www.funnyordie.com/videos/74
Pearl rules.

3.8.07

Terapia tribuneira

Sintomas: baixa auto-estima, ansiedade, tristeza, solidão.
Tratamento: eliminação do stress com a diminuição do nível de cortisol, elevação de serotonina e dopamina e controle da pressão sanguínea através da desaceleração dos batimentos cardíacos.
Posologia: conforme vontade de cada um. Nos casos em que o paciente achar que não há necessidade, tornar-se-á obrigatório o ato ao menos uma vez ao dia.
Contra-indicação: não foi diagnosticada nenhuma até o momento.

28.7.07

Sweet child o'mine

Acontece quando o Beijoqueiro reaparece no Maracanã atrás das meninas do futebol e o estagiário grita: “um velhinho invadiu o campo!”, o que gera uma comoção saudosa, indignação pelas cacetadas que ele levou e espanto do garoto: “vocês conhecem o cara?”. Ele também nunca ouviu falar no Juruna.
Você lembra que tinha pânico de encontrar o Ulysses Guimarães no mar de Angra depois que helicóptero dele caiu. Comentando com uma amiga, ela revela que o filho adorou o CD preto do RPM que achou: “antigamente os CDs eram enormes, né, mãe?”. E culmina nos 20 anos de Appetite for Destruction. Axl, bermuda ciclista, bandana na cabeça. Por que exatamente você guardou suas argolas douradas? Para quando a irmã mais nova aparecesse de colete e escova no cabelo, pudesse ter a indumentária completa. Você só reza - por favor não me diz que vai para a re-inauguração do Fun Club.
O DVR não pode vingar porque se os estagiários não compreenderem a gravidade de não se conseguir programar um videocassete eles serão oficialmente uma nova geração! Tudo bem as Barbies terem virado Pollys, o PS3 ter substituído a Cecizinha no Natal, mas ter que responder que sim, é verdade que o Michael Jackson era preto, aí já não dá. Finge que você sempre se comunicou por email, sempre! Ouviu falar que a bateria azul durava 6 horas ao contrário das 2 horas das verdes, mas seu celular sempre ficou ligado 24 horas, Teletrim devia ser uma parada tipo TeleSena, tá ligado? E na primeira vez em que foi aos Estados Unidos (para comprar Pringles e Juicy Fruit) não mandou um postal encantada com os telefones porque eles davam linha assim que tirávamos do gancho. Os telefones daqui é que davam linha, eram temperamentais, iam embora e não ligavam no dia seguinte! Meu Deus, será que os molequinhos te chamam de tia no sinal porque realmente te acham bem mais velha? Você sente uma taquicardia – mas já está na idade de infartar?
A Astrid entra na sala. Pela porta, não pela TV. Chegou para a reunião. Você só pensa em pedir – por favor, fala mais uma vez “na primeira posição do Disk MTV, Epic, com Faith no More". Mas fala baixo senão os estagiários vão querer saber quem é.

And if I stare too long I’ll probably break down and cry
And pray for the thunder and the rain

To quietly pass me by

24.7.07

Assim

Porque eu vi lá do começo da rua que você estava na porta da varanda. Porque tocava um CD do Elvis no carro. Porque eu olhei para ver se você estava vindo. Porque dá saudade sem. Porque existe email. Porque o Flamengo ganhou. Porque eu desenrolo o cabelo. Porque você ignora a blusa. Porque tem sempre vinho no meu copo. Porque tem sempre whisky no seu. Porque você deita no meu colo. Porque eu preciso apagar as mensagens do celular. Porque existem orelhas. Porque existem pescoços. Porque existem mãos. Porque o gatinho deu de cara no vidro. Porque você bebe muita água. Porque eu acho bombom na bolsa. Porque você quer saber. Porque eu tento entender. Porque você está perto. Porque eu não acredito na sua fama de mau. Porque o tempo passa. Porque a gente muda. Porque a vida ensina. Porque a gente cede. Porque é bom.

23.7.07

Aspas

"O que atrapalha o ser humano... é gente."

Anônimo no trailer de É Tudo Verdade.

19.7.07

Com muito orgulho e muito amor

"E de tanto torcerem por você, você aprendeu a torcer.
Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel.
Torcia o nariz para o quiabo e a escarola. Mas torcia por hambúrguer e refrigerante.
Começou a torcer até para um time. Provavelmente, nesse dia, você descobriu que
tem gente que torce diferente de você.
Seus pais torciam para você comer de boca fechada, tomar banho, escovar os dentes, estudar inglês e piano.
Eles só estavam torcendo para você ser uma pessoa bacana.
Seus amigos torciam para você usar brinco, cabular aula, falar palavrão. Eles também estavam torcendo para você ser bacana.
Nessas horas, você só torcia para não ter nascido".

Campanha da DPZ para a Copa de 2002.
Em Tribuneiros.com, campanha pela torcida Pan.

15.7.07

Espírito esportivo

O Pan mal começou e as coisas já estão péssimas: lavei a camisa verde e amarela para tirar o mofo. A gente fica pateticamente patriota e planeja começar uma revolução, melhor o governo ficar atento.
Os organizadores da linda festa de abertura teriam alegado que os ritmistas tocariam usando playback devido a problemas de acústica no Maracanã. Para testar essa afirmação, o público vaiou o presidente Lula: em todas as Américas realmente ecoou a demonstração de carinho ao líder do país. E deu um nó na garganta.
A ginástica em equipe é no sábado à noite. Poxa, a dor de garganta não passa, melhor ficar em casa vendo TV. Se a atleta só cumpre as exigências, por mais perfeita que seja a apresentação, a nota não será muito alta. Se acrescenta elementos de bonificação e o nível de dificuldade aumenta, a nota segue o mesmo caminho. E uma dose de charme nunca é mau. Se arrisca muito, pode ganhar muito. Se arrisca pouco... Entendi.
A trilha do solo da Daiane é tão maravilhosa que quase grito gol na janela por não saber como comemorar. Penso em colocar a foto da Jade no "Vin de la Maison" da semana. Xingo o câmera que não mostrou a Daniele Hypolito pedindo para a arquibancada aplaudir o ouro americano.
Jade, Laís, Daiane e Daniele são medalha de ouro, independente da opinião dos juizes.
Amanhã tem final da Copa América, Brasil e Argentina. E final da Liga de vôlei. E final individual masculina na ginástica.
Se eu começar a cantar Viva essa energia, por favor alguém me tire da cidade até que os jogos acabem.

11.7.07

Natural born killers

"Batman é, na verdade, Bruce Wayne. Homem-Aranha é Peter Parker. Quando o personagem acorda de manhã, é Peter Parker. Ele precisa vestir um disfarce para virar Homem-Aranha e é nessa característica que só Superman se encaixa. Superman não se tornou Superman, Superman nasceu Superman. Quando Superman acorda de manhã, ele é Superman. Seu alter-ego é Clark Kent. Seu figurino com o grande S é o cobertor em que ele foi embrulhado ainda bebê, quando os Kent o acharam. Essa é a sua roupa. O que Kent usa – os óculos, o terno – esse é o seu disfarce. É esse disfarce que Superman usa para se misturar conosco. Clark Kent é como Superman nos vê, e quais as características de Clark Kent? Ele é fraco... inseguro... ele é um covarde. Clark Kent é a crítica de Superman à toda a raça humana."

Kill Bill vol. II

6.7.07

Ah, que maravilha

Votei no Cristo. Porque precisava desesperadamente de um fim de semana e a sexta-feira chegou com um céu descaradamente azul. A garganta não dói mais. A Vogue de julho acena intacta da porta. Daqui a 24 horas vou dar um mergulho, deitar na areia quentinha e só me preocupar com as novidades da revista. Fui na varanda para sentir o sol bater na pele e ver se o corpo entendia que era hora de acordar e ele estava ali em cima, com os braços abertos se espreguiçando quase igual a mim. Sentei para ler o jornal e o link Vote no Cristo fez uma carinha de "me ajuda". Liguei para onde pediram. Uma gravação de mulher respondeu: "Seu voto foi computado, obrigado por sua ligação". ObrigadO? ObrigadOOO?
Droga! Por que me deixei levar pelo impulso? Quero reverter meu voto. É obrigadA. Enquanto as pessoas não tiverem o mínimo de alfabetização, não voto nisso. Não consigo retirar o voto. Escolho as outras maravilhas para anular minha participação. Voto no Alhambra, na torre Eiffel, em Machu Picchu. Besteira.
Isso me estressou. Lembro que preciso urgentemente de um sábado de sol largada na praia olhando para... bem, para a favela do Vidigal.

4.7.07

Outras notícias, no Jornal da Globo

Tem vezes em que a gente não sai do trabalho, mesmo que não esteja fisicamente lá. Para tentar me reconectar com o mundo, assisti ao Jornal Nacional:
O Live Earth foi suspenso. Não ele todo, claro, a parte aqui do Rio. Não existem policiais para todo mundo – público do show, atletas do Pan e bandidos do morro do Alemão. Xuxa, D2 e Lenny Kravitz ainda não se pronunciaram.
O galã de Malhação levou uns travecos para o motel, se irritou e tentou jogá-los do carro.
As jogadoras de softbol tiraram fotos sensuais para atrair patrocínio. Posaram de camiseta e taco na mão.
Alguns outros competidores já chegaram à Vila Panamericana, escaparam ilesos ao trajeto aeroporto-Barra. A Secretaria de Segurança estuda adotar o esquema vitorioso para todos os outros visitantes do Rio: 1,1 batedor da polícia por pessoa.
No Cartoon estava passando Se liga, Ian. Ian é uma criancinha cinéfila que finge que a vida é um filme de aventura onde ele é o diretor.
Preferi.

30.6.07

Quando ele está aqui

Fã que é fã canta com as mãos para cima, os punhos levemente inclinados para trás. A melhor de todas pulava na cadeira a cada “eu te amo, eu te amo, eu te amo” do Rei para gritar “eu também”, e ele dava um risinho. Não é um show minimalista, a orquestra é enorme (e de catiguria, o Rei assume que vê novela), as luzes são imponentes, há escuros silenciosos e de repente no palco surgem cadillacs e calhambeques para delírio das moças. Para quem está acostumada a marisas e hermanos contidos, Roberto é verborrágico. Simpaticíssimo. O Rei é um visionário, aquilo sim é interatividade! Eu sabia que ficaria desconcertada quando ele entrasse, cumprimentasse o maestro, fechasse os olhos e começasse Emoções. Não sabia que a noite revelaria uma outra faceta de Roberto Carlos.
Ele fala sobre as músicas da Jovem Guarda, “elas eram ingênuas. As canções, nós não”. Hehe. Eu sei, Rei, está no livro censurado. E diz que depois dessa fase veio a hora de liberar a sexualidade contida. O Rei é praticamente o Wando. Obsceno! Um homem pede “Cavalgada” e, depois da risadinha, RC manda “calma, bicho”. Se alguma daquelas senhoras jogasse uma calcinha no palco eu seria obrigada a me retirar. Começa a série “Rei para maiores” e ele canta a tal “Cavalgada”. Quem se espantou com a presença de Mc Leozinho no especial de fim de ano é bobo. Pelo que parece RC já chamava mulher de potranca desde os tempos em que elas eram uma brasa, mora? “Vou cavalgar por toda a noite/ Por uma estrada colorida/ Usar meus beijos como açoite/ E a minha mão mais atrevida.” Podemos voltar a Detalhes? Nunca pensei que o tapa que ele levou em Splish Splash fosse metáfora para um tapinha não dói. O Rei acaricia sensualmente o indefectível microfone torto e eu penso “Jesus Cristo, onde está você?”. Uma letra fala em peitos, ele faz o símbolo com as mãos. E o problema era Negro Gato? Ele canta Negro Gato e diz que a terapia fez efeito. Estou vendo. Mas acho que tinha algum verso estranho em Além do Horizonte...
Chega a tradicional distribuição de rosas. As mulheres saem correndo. Nem precisa, são milhares de buquês! Ele separa uma branca e guarda, vai beijando e entregando as outras diretamente para as felizardas, não permite que nenhuma desarvorada roube a flor de quem ele escolheu para recebê-la. Separa duas vermelhas do último buquê, dá tchau e sai.
O Rei é clássico.

29.6.07

:-((

"Ufa! Estou quase terminando o artigo pedido, e consegui chegar até aqui sem usar a palavra “adeus”, a não ser no título. Como diriam Chitãozinho e Xororó, “não aprendi a dizer adeus”. Um parênteses. Por essa vocês não esperavam, né? O Tutty vai dizer que já escolhi melhores autores para citar. Acho que está mesmo na hora de ir embora. A que ponto cheguei para fugir da obrigação que meus editores me impuseram de fazer uma despedida. Pra não dizer adeus, sou capaz até de baixar o nível do meu gosto musical." - Zuenir Ventura.

No Minimo (2005 - 29/06/2007). Morte súbita.
Não li o adeus do Tutty Vasques. É sexta-feira, está chovendo.
Volta e meia eu tenho a sensação de que não é possível que ninguém vá tomar alguma providência.

25.6.07

Yeah, totally...

Felizes são os bebezinhos com suas necessidades vitais, os adolescentes com seus problemas existenciais, os adultos com seus problemas sócio-econômicos e os velhinhos com seus problemas que ainda não sei quais são. Naquela etapa entre Rebeldes e auto-escola, alguém nos ajude. Danem-se eles, o desespero é nosso. Eles não costumavam se trancar nos quartos e viver deprimidos em seus mundos particulares? Onde foi parar isso?
Chegaram em bando no cinema, entre outros motivos porque têm problemas de locomoção: nem pensar em ônibus, nem pensar em poder dirigir um carro. Os pais estão ocupados fazendo outras coisas. Com aquelas roupas parecem duendes, não por usarem peças coloridas e gorrinhos, mas porque os modelos não foram criados para seres daquele tamanho. As garotas têm os corpos gorduchinhos de quem ainda não chegou na fase anoréxica em que não saberão lidar com as curvas sonhadas pelas mais velhas. Vieram de uma festa junina sobre a qual comentam e continuarão comentando durante a próxima hora e meia, por acaso o mesmo tempo do filme que compraram para assistir. Penso se engoliram a Paris Hilton, não fosse a presidiária mais monossilábica do que elas.
Entre o cinema e o bar tem um pipoqueiro, um poste, uma rua com carros, um banco e mesinhas na calçada. Temo que algum dê com a cara nos obstáculos devido à visão comprometida pelos cabelos caindo nos olhos. Enquanto eles comem, elas conversam sei lá, tipo mil coisas, apoiando o peso do corpo em uma perna e intensificando a lordose/escoliose agravada pela preocupação em carregar nos ombros uma bolsa murcha já que completamente vazia.
Entramos na sala e sinto saudade dos espectadores que comem balas e esquecem de desligar o celular. Uma profusão de “shhhh” dos adultos estimula a rebeldia grupal e penso se eles são tolhidos de comunicação verbal em casa por isso precisam extravasar. Voa na cabeça de um cidadão civilizado uma almofada que o cinema deixa à disposição de crianças. Torço por sangue. O homem se controla e sua fúria acalma as criaturas. Quem aposentou os lanterninhas? Shrek Terceiro começa. Não deve ter sido um caco exclusivo dessa sessão, mas vem bem a calhar que o ogro apareça em uma high school americana. Os mini-teen não entendem as piadas, logo, não se acanham e, ai, nada a ver, falam tipo todo o tempo e alto e prevêem as cenas mais óbvias que não requerem muito, sabe, cérebro, e o gatinho é muuuito fofo.
O filme acaba e eu vou ter que ver de novo, mas pelo menos valeu o texto e a decisão de mandar meus filhos para a Suíça a partir dos dez anos.

20.6.07

Pra fazer feliz a quem?

"Quantos não decepcionaram nosso voto? (...) Estamos, enfim, tratando aqui de hipótese absurda – a de Cristo ter um dia que ficar explicando que não sabia disso, não sabia daquilo –, estátuas não falam, mas, sei lá! Tem-se visto coisas! Já imaginou se depois de eleito ele cai lá de cima sobre uma comunidade pobre de Botafogo ou Santa Teresa?
Pensei nisso na quinta-feira, quando Lula subiu o morro."
Tutty Vasques

Vote no Cristo, mas antes leia Tribuneiros.

19.6.07

Uma brincadeira de papel

Estava na China agora, via fuçações internéticas. O site tem uma categoria “Felicidade é...”, onde, claro, cliquei: na China existe um trem do metrô adesivado de Snoopy! Peanuts está diretamente relacionado à felicidade - à minha - apesar de Charlie Brown ser um tanto quanto deprimido. Esse post poderia ser todo sobre Peanuts não fosse mais urgente o fato d’eu ter clicado em “Felicidade é” antes mesmo de ler o resto do site. Papai Noel não traz, e precisamos ser felizes ainda nesta vida.
Brotam livros sobre felicidade. Não só textos de auto-ajuda, alguns autores posicionam o debate filosoficamente e esse é o caso de Darrin McMahon, professor de história na Universidade da Flórida, que relata como os ideais e a percepção mudaram ao longo dos séculos, em diferentes culturas e lugares. Quando nos séculos 17 e 18 apareceu a noção de que nossas vidas não estavam mais nas mãos dos deuses, destino, sorte, etc, o Iluminismo trouxe a idéia de que devíamos buscar mais prazeres e tentar reduzir o sofrimento. Foi aí que a coisa pesou para nosso lado: opa, se der errado eu terei sido um incompetente? Como vou fazer isso? Que angústia.
O Fantástico (esse mesmo, do Cid Moreira) fez uma matéria sobre o tema. Tanto para o Alcides, dos cafundós do Brasil, quanto para o antropólogo Roberto da Matta, felicidade envolve coisas simples como tomar uma cerveja, passa por conquistas e momentos, e só se diferencia no rebuscamento da argumentação. Da Matta explica que felicidade é um estado de equilíbrio: “O paraíso, que também seria um lugar de felicidade plena, é um lugar de estabilidade. O paraíso não muda”. Não?
O professor Darrin acrescenta que a preocupação que temos hoje com a felicidade é um luxo – nos sobra tempo para pensar sobre isso graças à longevidade e outras questões resolvidas como pragas, fome e guerras. Aproveitando meu luxuoso ócio criativo, tenho prestado atenção a um outro tipo de ciência, tentando relacionar seu prefixo a ações diárias - a paciência. Tendo a crer que é a única forma de aplacar o mal que acomete o mundo – pelo menos o meu – a ansiedade. Uma dose de fé não faz mal, e cada um acrescenta à receita o ingrediente que mais lhe agradar, mas recomendo a calma.
Artigo raro, vai ver produzido em larga escala no mercado negro chinês.

O pensamento parece uma coisa à toa
mas como é que a gente voa
Quando começa a pensar

13.6.07

Dá uma forcinha pro santo!

Logo na entrada dá para sentir o cheiro de broa de milho e, naturalmente, dos famosos pãezinhos. Ele chega um pouco atrasado, o que nos dá tempo para olhar ao redor, e vai logo se explicando: "Ainda bem que você não é ansiosa, sabe quantas vezes sou agredido por esses meus atrasos?" Antonio desmarcou a conversa diversas vezes, mas garante que há tempos quer esclarecer como funcionam as coisas no seu departamento.

O santo não se atrasa por excesso de pedidos, difícil é separá-los. Para ele mesmo, sobram poucos. “Não é o caso de terceirizar por preguiça, mas de encaminhar corretamente. Antigamente chegavam súplicas que, juro por Deus, nem Ele resolveria. A mulher era chata, feia, grudenta e já tinha escolhido o homem para casar no próximo mês porque a lipo estava marcada. Hoje não sofro mais por isso, nosso sistema encaminha a fiel para Rita de Cássia e ela tem todo um know-how em causas impossíveis assim. Confesso que aprendi um bocado com o tempo também, você não imagina a quantidade de gente que quer casar. Isso é o mais fácil, minha filha! Casar qualquer um casa porque tem é pessoa carente no mundo. Sendo essa a condição única, beleza. Santo Expedito, nem me preocupo – causas urgentes. Não é preconceito, dependendo da idade da mulher nem ela quer que o pedido passe por aqui”.

Nada tira o bom humor do santo, a não ser falar sobre a moça que primeiro o jogou pela janela. “Conversávamos muito, mas existiam outras questões a resolver e ela não quis entender, achou que era tudo minha culpa e zum, lá fui eu quarto afora pelos ares. Tinha que cair em algum lugar, é física e não religião. Caí na cabeça de um pedestre e acabou que eles se casaram. Não fui eu! O boato se espalhou e todos os dias alguém me coloca de cabeça para baixo, dentro do armário, arranca até o menino Jesus dos meus braços. Não gosto desse tipo de coisa não, deduro logo para São Gangulfo. Quase ninguém sabe, mas ele é o santo dos adultérios. Depois dele, só São Theodoro na reconciliação ou Santa Adelaide no segundo casamento. Acabam intercedendo junto a mim, mas preciso acabar com essa moda de me punir.”

Os pedidos não param de chegar e reparo que Santo Antonio encaminha um para São Longuinho. “Esse trabalha também. Não é só chave que ele acha não, tem gente que perdeu amor no mundo, deixou escapar a chance e quer uma segunda. Os pulinhos não são só de alegria, é o pagamento. Contamos com a ajuda até de São Jorge aqui, não porque em alguns casos só sendo muito guerreiro mas pelo costume catalão de presentear com livros e flores no dia dele. Acaba funcionando. Essa questão cultural ajuda muito, basta olhar ali a sala de São Valentim e Santa Catarina de Alexandria, lotadas! A verdade é que eu, minha filha, fui promovido e hoje só atendo os casos mais graves. Não os desesperados – esses esgotam a paciência de São Judas – mas aqueles que dão mais trabalho. As tais mulheres que escolhem. Inventaram de estar bem sozinhas e querem alguém que some, não complete. Além de tudo querem ser felizes! Ah, saudades de quem pedia só véu e grinalda...”

11.6.07

Cara estranho

Tem que trocar o ingresso comprado pela internet por outro na hora. Lotou tão rápido que marcaram um show extra. É feriado, vem gente do país todo. Será que haverá suicídio coletivo em um final digno de seitas? É o último!
Contrariando expectativas, saímos para a despedida uma hora antes (sem cadeiras de praia, isopor com alimentos ou kit de primeiros socorros), estacionamos o carro, entramos na Fundição Progresso sem enfrentar fila e nos posicionamos na platéia. “Será melhor ficarmos no segundo andar? Aqui está muito na frente, seremos esmagados. Não solta da minha mão, se nos perdermos o ponto de encontro é aqui”.
Esperamos o show começar, os fãs cumpriam sua parte com os uuus e palmas. A banda entrou. “Moça, olha só o que eu te escrevi”... O Camelo usava um figurino simbólico, fiquei na dúvida se de pastor ou morto do interior, mas o tamanho do terno atestava que o defunto era maior. Era Quincas Berro d’Água. Eles, os blasés, estavam anormalmente animados e simpáticos, percebi umas quatro comunicações com o público e, apesar do som de cinema dos anos 70, captei a deixa “sola, Camelo!”, e vi corridinhas da dupla através dos telões. Não que eu não conseguisse ver o palco, na ponta dos pés enxergava o cocoruto da cabeça deles mas evitava ficar assim porque, se desequilibrasse, cairia em cima do ser humano sem camisa que estava a 0,5 centímetros de mim. Estranho a Red Nose patrocinar o show do Los Hermanos, mas é acreditar nisso ou que a moda camisa listrada e barba foi substituída por cuecas de tal marca aparecendo para fora da calça. Eles seguiam - "canta para mim, qualquer coisa assim sobre você". Um ambulante tentou atravessar a multidão com um carrinho de cerveja. Desconfiei que eu estivesse no show errado. Me acalmei quando o grupo perguntou “quem é mais sentimental que eu” e os donos das cuecas Red Nose fecharam os olhos, levantaram os braços de punhos fechados e gritaram a letra. Alguns se abraçaram. Eu não chorei. "Iaiá, se eu peco é na vontade de ter um amor de verdade". Uma menina perto de mim começou a pular de maneira diferente das outras. Era uma barata que subia pelas pernas dela. "Quem te vê passar assim por mim não sabe o que é sofrer". Alguns súditos negociavam com caras não muito amáveis seu espaço na massa enquanto eu torcia para que as próximas músicas seguissem melancólicas temendo o que aconteceria se puxassem “dai-me outro viés de ilusão pois minha paixão tu não compras mais com teu olhar”.
Lembrei dos shows em que saí de alma lavada, era só mais um, eles traduzem melhor o que eu sinto do que eu mesma, diria uma fã a um jornalista. As serpentinas voaram em Todo carnaval tem seu fim. Deixa eu brincar de ser feliz em outro lugar. Percebi quando o Amarante tentou ver o público e fiz aquele sinalzinho de mais tarde nos falamos, depois eu vou praí te ver. O Jamari França foi ao camarim e, engasgado com o fora, recebeu um email do Marcelo.

Eu sabia que você tinha entrado a trabalho mesmo contrariando o nosso pedido (...). Nós todos sabíamos que não era a hora de entrevista e a falta de educação tem muito a ver com o acordo entre a atitude e o lugar. Peço desculpas se não soube escolher as palavras com o cuidado devido (acho que disse "que perguntinha escrota?") e mando-te um beijo estalado na bochecha pra ver se cura qualquer ressaca tá?"

Para mim restou ouvir o CD em casa e guardar na lembrança o show do Morro da Urca como o último “transe coletivo”. Hasta la vista, hermanos. Com 15 mil pagantes e ingressos a 100 reais pode ser que vocês demorem a voltar. Ter e perder alguém...

7.6.07

Os poderes de Greyskull

Você pode acordar e ir trabalhar ou faltar e ver todas as estréias da locadora. Pode vestir um terno ou decidir que hoje vai casual mesmo que não seja Friday. Pode almoçar no restaurante ali da esquina ou andar mais um pouco e arriscar um novo. Pode ir para a academia de noite ou caminhar no parque ouvindo musica. Pode dormir com a TV ligada ou ligar para alguém com quem não fala há tempos. Pode ver se tem outro caminho ou seguir naquele mesmo já seguro e conhecido.Você pode fazer Administração, Direito ou Economia ou pode não fazer faculdade por um ano para estudar línguas, arte e viajar por aí. Você pode se formar e começar uma pós-graduação ou descobrir que não tem idéia do que quer ser quando crescer. Pode fazer musculação ou pilates ou não fazer nada. Pode nunca sair de casa sem estar besuntada de protetor solar ou torrar no sol e usar biquíni branco no inverno.

Você pode ficar com todos os caras que te olham ou não gostar nunca de ninguém. Pode reclamar do que te incomoda ou esperar para ver se passa.Você pode guardar muito dinheiro para ter um carro zero ou andar de ônibus e ter mais sapatos do que Imelda Marcos. Pode tocar vários instrumentos ou entender sobre musica o tanto quanto o I-Tunes permite. Pode ligar para ver se volta ou acreditar que o que passou, passou. Pode saber de cor quantas calorias tem em cada alimento ou fechar a boca sempre que a calca jeans apertar. Você pode ler todos os clássicos ou os quadrinhos do jornal. Pode sair todas as noites ou dormir oito horas por dia. Pode falar com seus amigos toda hora ou deixar scraps de vez em quando. Pode viver num apartamento onde, se entrar correndo, cai pela janela ou pode ligar para seus pais avisando quando não vai dormir em casa. Pode conversar para chegar a um acordo ou desistir porque não vale a pena.

Você não pode não lembrar do que queria quando era pequeno, não pode não saber se quem te importa está bem, não pode não conhecer o lugar com o qual sempre sonhou, não pode não dar uma chance se há uma pequena possibilidade de funcionar, não pode não saber quais musicas e filmes te fazem chorar e quais te fazem feliz, não pode não descobrir por que está se sentindo mal há tanto tempo, não pode não ter algo só seu, não pode não ter alguém com quem contar e não pode não ter um motivo qualquer para continuar.

Você não pode um dia acordar e ver que não se lembra como tudo ficou assim. Pelo menos não deve.


publicado em Seu Martin 1a encarnação.

3.6.07

Sau-dá-dji

A noite e a chuva que cai lá fora.

Publicaram esse estudo, quais as palavras mais difíceis de serem traduzidas. No dialeto tshibula, Ilunga é a pessoa que está disposta a perdoar maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira. Tem palavra para isso. E gente ilunga. Em ídiche, Shlimazl é uma pessoa cronicamente azarada. Não é amaldiçoada, nem só azarada, é quem sempre se dá mal. A terceira da lista é a polonesa Radioukacz, nome para quem trabalhou como telegrafista nos movimentos de resistência ao domínio soviético nos países da Cortina de Ferro. Ahn?
Saudade é a sétima palavra. A dor da ausência. Saudade dói. Você não está mais aqui. Show de bola, ferrocarril, gostoso, sambinha, o dia vai nascer de novo e você não está mais aqui. Quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue*, dá saudade. Quando fica lá longe. Quando não é desejo de voltar, mas a vontade de que pudesse estar aqui. Fico eu com essa lista de assuntos para falar e se você estivesse aqui possivelmente eu nem me obrigaria a começar. Ainda não perguntei tudo e esqueci de contar algumas histórias. Será que esqueci de vivê-las a dois ou foi o tempo que esqueceu de demorar mais para que elas pudessem existir? Você gosta? O que você acha? Você vai comigo? Nos vemos depois? Não tem ninguém e eu aqui Pochemuchka, que em russo é quem faz perguntas demais.
Quando não apertam as lembranças mas sim o que ainda está por vir e quero aproveitá-lo logo, dá saudade. Em árabe, Altahmam é um tipo de tristeza profunda, quem sabe igual a saudade! Quem disse que saudade é bonito não viu que acenderam a luz, as cadeiras estão sobre as mesas e não toca mais música. Quando eu queria só mais um pouquinho. Quando "como foi bom"! Mas não tem mais. Pode ter em outra hora, mas não agora. Agora, é vazio.
Quem se importa com o nome do telegrafista?
Será que saudade só tem aqui?

Solidão apavora, tudo demorando em ser tão ruim.

*Adriana Falcão

2.6.07

Ligue os pontinhos

Nessa semana Steve Apple Jobs e Bill Microsoft Gates se encontraram em um debate sobre tecnologia, e eu não estava lá. Junto com os meninos do Google eles mudaram a minha vida, e deveríamos ser mais próximos.

Nas alfinetadas civilizadas falaram sobre a campanha Get a Mac, onde Mac e PC conversam sobre funcionalidades e diferenças. A cara do Bill Gates quando Steve Jobs disse que a idéia não é ser maldoso, mas que os dois personagens gostem um do outro, foi impagável. Os textos são brilhantes! (como cobaia do Windows Vista, às vezes rio para não chorar. Ok, vou comprar mais memória) Ele parecia pensar – ‘tudo bem, ponto para você. Me aguarde”. Os dois ali, calça jeans, milhões no bolso, I’m the king of the world, personalizam a idéia de que ter um adversário que te provoca uma risada e um ok, vamos lá, vou fazer melhor, pode ser o sonho de qualquer ser cerebrado. Desafios e admiração mútua.

Há cerca de dois anos Jobs discursou para os alunos de Stanford. “Isso é o mais perto que já cheguei de uma formatura”. Ele largou a faculdade aos 17 anos, em uma história que começou quando nasceu. O casal que deveria adotá-lo desistiu na hora H, e sua mãe biológica só aceitou os novos pais porque eles prometeram mandar o garoto à faculdade. Eram os segundos na lista e receberam a ligação no meio da noite: “Temos um menino inesperado, querem ficar com ele?”

Anos depois, a faculdade de Steve custava todo o dinheiro que os pais juntaram na vida, e ele não tinha a menor idéia do que queria fazer. Decidiu sair e confiar que tudo correria bem. “Foi bastante assustador na época, mas olhando para trás vejo que foi uma das minhas melhores decisões”. Porque ele ficava vagando pelo campus e dormindo no quarto de amigos, resolveu cursar caligrafia. Dez anos depois desenvolveu a tipografia do Mac, copiada pelo Windows, e hoje eu agradeço à professora de caligrafia do garoto inesperado. “Não dá para ligar os pontos olhando para o futuro, só para o passado. Acreditar que os pontos vão se ligar vai te dar confiança para seguir seu coração, mesmo que isso te leve para um caminho diferente do previsto”.

Logo depois ele montou uma empresa na garagem. Lançou o Mac. Tinha 30 anos. Foi demitido. Visões diferentes do sócio, a diretoria escolheu o outro, o cara tinha falhado e o mundo inteiro sabia. Era como se tivesse deixado cair o bastão que recebeu. Acabou. “Devagarzinho uma coisa começou a acontecer. Tinha sido rejeitado, mas continuava apaixonado pelo que fazia.” Não é tão simples como parece lendo, e o resto é historia: ele criou a Next, que foi comprada pela Apple e hoje é o coração da empresa, criou a Pixar, maior estúdio de animação do mundo, e formou uma família. “Como em todos os assuntos do coração, você precisa descobrir o que ama para trabalhar nisso. E vai saber quando encontrar”. Precisa repetir que foi o Steve Jobs quem disse isso?

De volta ao debate em que eu não fui. “I think of most things in life as either a Bob Dylan or a Beatles song”, e citou Two of Us para definir sua relação com Bill: “You and I have memories longer than the road that stretches out ahead”.

God! E eu escrevo isso em um PC…

1.6.07

30 incertezas na mesa do bar

Julia Roberts estava largada no chão, miserable. Paul Giamatti era o cara do hotel. Entre cigarros, solta a palavra do Senhor: “This too will pass”.
Filosofar é preciso em Tribuneiros.com. Porque na vida, sabe como é, só sobram motorista e trocador.

29.5.07

Sobre sapos e tubarões

Agora são os tubarões, depois das abelhas e das formigas (sabia que não era possível ter tanta formiga procriando assim no mundo!). Passaram a se reproduzir sozinhas, sem fazer sexo, porque a espécie está sofrendo com a drástica redução da população. O jeito que as tubaroas-martelo acharam de não serem extintas foi esse - partenogênese. Cansaram de esperar.

Eu tenho feito algumas pesquisas na área e temo pela próxima decisão das ditas mulheres de atitude. O nível de contagem de espermatozóides nos homens caiu nos últimos 50 anos, e espermatozóides disformes ou imóveis ficaram comuns. Elas já vinham lidando com metro-sexuais, com homens cujo “problema sou eu e não você”, até homens confusos agüentaram. Agora essa? Tenho medo, eu e Regina Duarte.

Por mais que meu professor de estatística diga que pesquisas são como biquínis e mostram tudo menos o que importa, elas me permitem elaborar teorias geniais que podem salvar o mundo. E me distraem. A extinção de príncipes encantados, acabei de desvendar. Girinos defeituosos, sapos ficam sapos ad eternum. Graças às colegas tubaroas-martelo já sei que nem tudo está perdido, mas Deus queira que não precisemos chegar ao ponto de vermos sex shops se tornarem mais rentáveis do que ações da Vale.

Vamos lá, ala macho: calor afeta a morfologia dos espermatozóides, e quem vive no Rio sabe o que é o verão por aqui. Eles nadam, logo, se o homem não beber muita água, uma nova geração de girininhos terá que aprender a andar. Menos girinos, menos sapos, menos príncipes, nozes, pimentões, repolho e laticínios ajudam a vida dos espermatozóides. Se entupam disso! E há uma incompatibilidade grave: beber promove a integração, mas ao mesmo tempo a bebida é culpada pela baixa contagem das criaturinhas. Menos chopp, mais cara de pau ao natural. Se virem.

Ah, peixe rico em omega 3 também é bom para a cabeça. Do espermatozóide, querido.