22.4.09

Lerê lerê...

Era a taça do mundo ali na minha frente, se esticasse os braços e perdesse a sanidade eu poderia levantá-la tal qual Cafu e mostrar minha camiseta 100% Jardim Irene. Como todos agiram de forma blasé, também fingi que aquele encontro era normal. Ao lado dela, três homens engravatados certamente estavam lendo meus pensamentos - eram os seguranças. Tem gente que vive de proteger a taça! É como se ela fosse a Angelina Jolie, com a diferença de que por onde passa não adota bebês.
Eu sei, era a taça do mundo, ela brilha muito mais do que eu imaginava apesar de jamais ter imaginado algum dia estarmos tão perto, mas como uma criancinha deslumbrada saí olhando para o resto do estúdio. Dois homens com TVs enormes na frente e microfones assistiam a um jogo e conversavam sobre isso. Não tinham uma cerveja na mão nem palavras chulas à disposição, mas estavam comentando Porto x Manchester United ao vivo para todo o Brasil. Tem gente que vive de ver futebol! É como se me oferecessem dinheiro para ficar falando sobre Grey´s Anatomy.
O hotel Andaz, em Londres, contratou um novo profissional. Os hóspedes escolhem um livro em um cardápio de 25 títulos e Damien Barr lê para eles durante uma hora. Ele trabalha uniformizado - de pijamas – e só não pode deitar na cama nem fazer vozes diferentes para cada personagem.
É isso, Damien vive de contar histórias. Alguém vai ser o zelador de uma ilha paradisíaca na Austrália. Tem gente que vive de escrever os quadrinhos do Snoopy, treinar golfinhos no Sea World, ser acrobata no Cirque du Soleil, coreografar os shows da Madonna, alfabetizar crianças no sertão.
Às vezes parece que nem todas as histórias estão listadas no cardápio.

13.4.09

Dedicatória

"Todo amor que eu amei no fundo dediquei a mim e a mais ninguém".

E se eu hesitar em te pedir para ficar?
Memórias, crônicas e declarações em Tribuneiros.com.

1.4.09

Happy Pinoquio´s day

Essas são as minhas resoluções de ano novo.
Você vai esquecer esse cara em dois minutos.
Eu precisava comprar essa bolsa, não tinha mais nenhuma apresentável.
Ele está inseguro, você é mulher demais para ele.
Eu não vejo Big Brother, é porque todo mundo só fala disso.
Ela não está dando mole para ele, são só muito amigos.
Na segunda-feira eu começo.
Não estamos terminando, é só um tempo.
É diet, mas uma delícia.
Vamos lá pra casa, não vai acontecer nada demais.
É o trânsito, mas em cinco minutos estou aí.
Ele está sendo cauteloso, é medo de estragar a amizade.
Eu queria muito, mas não tive tempo.
Achamos sua proposta genial, mas agora o foco é outro.
Só mais uma partidinha, já vou desligar.
Nosso relacionamento terminou há anos, desejo que os dois sejam muito felizes.
Está muito gostoso, é que eu estou de dieta.
Eu seria incapaz de fazer qualquer coisa que te magoasse.
Não precisava!
Só estou com dor de cabeça.
Você não precisa ir, é só porque minha tia avó te adora.
Vamos tomar a última e partimos.
Em dez minutos eu estou pronta.
Não vai doer nada.
Faz assim, deixa que eu ligo pra você.
Mulher direita não corre atrás.
Você está louca.

30.3.09

Por uma vida menos ordinária

Ele insistia em dizer que o mundo estava pior. Ela respondia com peste, fome, guerra, e o quê disso foi extinto, ele apontava. Não pode ser. A liberdade! Tem mais verdade hoje. Para ela a diminuição da repressão era muito importante, tudo agüentaria desde que pudesse falar (talvez por ter passado tantos anos muda). Avanços no Leblon não configuram um mundo melhor, meu amor. E para não afligi-la mais ele a abraçava e inventava outro assunto, até que num dia qualquer ela trouxesse uma nova razão para sua defesa. O amor acabou, os universos particulares melhoraram e pioraram diversas vezes até sem nenhuma interferência de um na vida do outro, só ela seguiu buscando provas para mostrar a ninguém.Um dia a Coca Cola achou que os tempos estavam difíceis, aí juntou o homem mais velho de todos com o bebê mais novinho. A Coca Cola só queria vender refrigerante, mas ela achou aquilo muito bonito. Alegrias pessoais não configuram bem estar generalizado, mas gente feliz melhora o mundo.
Essa também é uma história real.

"Hola Aitana, me llamó Josep Mascaró y tengo ciento dos años. Soy un suertudo. Suerte por haber nacido, como tú. Por poder abrazar a mi mujer, por haber conocido a mis amigos, por haberme despedido de ellos, por seguir aquí.
Te preguntarás cúal es la razón de venir a conocerte hoy. Es que muchos te dirán que a quién se le ocurre llegar en los tiempos que corren. Que hay crisis, que no se puede. Esto te hará fuerte. Yo viví momentos peores que este, pero al final de lo único que te vas a acordar es de las cosas buenas.
No te entretengas en tonterías que las hay y vete a buscar lo que te haga feliz, que el tiempo corre muy deprisa. He vivido ciento dos años y te aseguro que lo único que no te va a gustar de la vida es que te va a parecer demasiado... corta.
Estás aquí para ser feliz."

22.3.09

Vem kafka comigo (mais uma da série Lar, salgado lar)

Eu até queria ser veterinária quando crescesse. Lido bem com animais em suas diversas formas, mais ou menos humanizados, vacas, burros, cachorros e galinhas, mas invertebrados não são animais. Invertebrados fazem parte da cadeia alimentar, mas com tanto desenvolvimento estranho que ninguém tenha pensado em substituí-los por pílulas ou readequar o ecossistema de forma que nós, habitantes de selvas de pedra, não precisássemos conviver com eles, coisinhas do mato.

Pombos não são invertebrados, mas também não são necessários por aqui. Cada vez mais, inclusive, perdem a noção do perigo: atravessam a rua como se fossem pedestres, vão à praia como se cantassem “separa um lugar nessa areia, nós vamos chacoalhar essa aldeia”, dão vôos rasantes como se fossem terroristas. Como não existe filhote de pombo suponho que o ajuntamento de ratos de asas que escolheu a minha janela para viver caracterize uma quadrilha, já que família eles não podem ser. Todos os dias, bem cedinho, os desgracentos começavam a fazer barulhos que pareciam um tórrido ato de acasalamento ou que estavam todos engasgados. Veneno, saco plástico esvoaçante, praga, tudo em vão. Há quem coloque grade na casa para afugentar ladrões, eu fui obrigada a me cercar contra pombos.

Afugentados os piolhentos, passei a desfrutar da delícia do meu lar até elas chegarem. Vivia com uma vassoura atrás da porta e não era simpatia para afastar visitas chatas, mas uma arma. Entrava em casa era vassoura em uma mão, Baigon na outra. Foram seis baratas em quatro meses e não era o calor, a chuva que sempre fechou o verão sem inundar a cidade de artrópodes, sujeira, era uma invasão, tal qual os pombos elas ficaram abusadas, debochadas até. Uma apareceu morta às sete da manhã, barriga pra cima, patas pro ar. Alguém invadiu a casa na calada da noite e exterminou uma barata? Um ataque cardíaco fulminante a levou antes que a nojenta alcançasse meus aposentos? O que fazia uma barata defunta na porta do meu sagrado quarto? Quando aproximei o saco-rabecão para recolher o corpo eis que a cascuda deu um 180, voltou do mundo dos mortos e correu para o meu edredom! É muita audácia. Ou alguém acha que havia uma barata dormindo tal qual um cachorro na porta do meu quarto? Queria ser minha barata de estimação, pedia festinha na barriga? Não, queria zombar de mim. Guerra oficialmente declarada, 2696969 chegou como Ghostbusters, if there’s something strange in the neighboorhood tinha, é passado, elas podem resistir à radiação, mas não resistiriam à minha fúria.

Precisei me preparar para tudo, quem seriam os próximos sem terra invasores de propriedades? Morcegos? Ratos? Lagartixas dissimuladas usando a desculpa de que trazem dinheiro? Não caio nessa. Na minha casa só entra quem eu convido e todos devem ter um número mínimo de ossos e nenhuma pena. Até que um dia um objeto voador verde chegou e eu amarelei. Era uma esperança. Não poderia matar a esperança no meio da sala! Viveríamos ali, ela e eu, até que a bendita decidisse bater asas e voar janela afora, o que poderia ser muito dramático, mas eu estava preparada para não encarar o fato simbolicamente. Acontece que a idiota ficou louca, começou a se jogar contra as paredes, foi de encontro ao ventilador, na casa de mais quem poderia existir uma esperança suicida? (mais uma, meu Deus, é essa a razão da felicidade do meu terapeuta milionário.) Ela se estatelou no chão. Eu preferia mil tsunamis a recolher restos mortais de esperança, só porque uma moça riu no supermercado ao me ouvir pedir duzentos gramas de Solidão mudei a marca do queijo minas, não quero dar sinais ao mundo, vai que ele também interpreta que agora desejo carregar sentimento em sacos plásticos!

Desesperada, me aproximei do cadáver e a verdade apareceu: era um grilo! Acabei com um grilo que havia na minha vida! Depois descobri que o inseto era um louva deus, mas quem se importa? Pra mim era um grilo e simbolicamente cancelei a terapia da semana.

18.3.09

Na primeira vez a gente sempre esquece

Ele não vai ser sempre perfeito daquele jeito, nem vai te achar tão encantadora. Não vai para sempre perguntar como diabos você não tem um marido que te trata como uma rainha nem você vai pensar se é mesmo possível tudo aquilo estar disponível nos dias de hoje. Não passa pela sua cabeça que não vai durar muito ele estar impressionado porque a menina mais linda do planeta está sem nenhum macho cercando. Que precisa acordar cedo no dia seguinte. Que já deveria estar em casa há horas.

Esquece de filtrar todo aquele charme e racionalizar se existe algum futuro. Nem por um segundo cogita a possibilidade de por trás de tanto empenho existir um psicopata dependente e ciumento, que ele pode ser um grande mentiroso e destruir seu coração em poucos dias, que da última vez jurou nunca mais ser boba assim, que há pouco tempo estava acabando com o estoque de lenços secando o vale de lágrimas derramado por quem começou exatamente do mesmo jeito. Esquece que juraram que você ia adorar o amigo dele que ninguém lembra mais onde foi parar, que ele vai te roubar o prazer da solidão, que vai passar essa vontade ingênua de ficar e não pensar em nada.

Esquece completamente que precisa disfarçar a taquicardia, falar menos e parar de esbarrar nele. Que daqui a pouco ele não vai mais precisar inventar motivo para tocar em você. Nem nota que milhares de vezes ele vai pensar em te beijar e desistir com medo de ser precipitado, que existem pessoas ao redor reparando no seu sorriso bobo e que você não pára de mexer no cabelo. Esquece que os olhos dele nem sempre vão estar te seguindo, que a música está alta mas ninguém ao redor está falando assim tão perto do ouvido alheio, que nem sempre ele vai pagar mais uma bebida torcendo para aquilo dar um porre de coragem.

Esquece de guardar um pouco dessa versão adorável de si mesma para depois, esquece que ele não vai falar de você pros amigos com reticências e uma gargalhada sem graça todas as vezes, não vai se culpar por ter perdido tanto tempo com as outras tendo você tão perto. Que aquela aranhinha na parede vai considerar usá-los como suporte pra a teia se vocês demorarem mais algumas horas conversando ali. Que as suas amigas estão dormindo no carro esperando você chegar flutuando, que se você ficar mais feliz vai começar a pular e isso vai ser estranho.

Esquece que isso não acontece todo dia, nem por toda a vida.
Na próxima vez, tenta lembrar. E não se esquece de guardar para sempre.


Publicado em Seu Martin 1

10.3.09

Mais que uma Brastemp

Largue o Jornal do Vaticano e corra! Queima de estoque aqui no Tribuneiros, toda as máquinas de lavar em promoção! Porque na minha pós-anos-60 vida de mulher independente a pílula foi responsável por besteiras muito mais catastróficas do que a Brastemp. (o que é um vestido manchado comparado ao desgraçado que disse que eu era especial?)

28.2.09

Meu caro amigo

Eu acordei cantando às seis e meia, você não pode dizer que não vai voltar. Respondi às mensagens no celular, vesti a fantasia de pirata, sentei no posto para esperar o táxi que traria Popeye e Super Mouse.
- Bom dia, dona Bruna.
- Bom dia, porteiro.
Alguns vizinhos passeavam com os cachorros, os frentistas atendiam um carro ou outro, os entregadores levavam os pães fresquinhos. Em pouco tempo o sol estaria ainda mais quente do que as bisnaguinhas, e tudo bem.

Eu gosto de ficar perto da bateria, corro pra comprar cerveja, furo embaixo da garrafinha de água pra jogar no rosto, roubo um gelo do ambulante pra resfriar a nuca e volto pra perto do surdo. No dia em que estávamos de chapéus de mágico não precisei subir nos carros para encontrar os outros, temos que fazer mais roupas assim. Colocaram banheiros químicos agora, sabia? Funcionam! Um porco ou outro prefere os postes, fazer o quê?

Éramos tantos juntos que as ruas pareciam um salão. No próximo ano vamos fazer um baile com orquestra e todos de preto e branco? Vou esperar você voltar e planejamos. Hoje vou ver o desfile da Mangueira. Depois, não sei. Não sei se isso ainda dura muitos anos. Na última noite os garçons do Jobi seguravam as mãos de quem batucava nas mesas “ô, o Rio é melhor que Salvador”. Acho que estavam mais preocupados com a disseminação da notícia do que da arruaça pelo bar. Lembra que no Caneco também não podia batucar nas mesas? Hoje o Caneco é um prédio de arquitetura bastante duvidosa e eu ainda digo que vou à praia em frente a ele. Não sei se um dia acharemos tudo apertado, de novo essa música, gente suada.

Não cheguei a tempo de exaltar o Rei na Urca, você viu que ele saudou os foliões na janela? Tínhamos combinado de chorar nessa hora, mas paramos para um mergulho na praia e acabou que não chorei nem quando a Teresa Cristina cantou Chico no Último Gole, grávida de explodir. Esqueci. Não senti nenhuma dor por mais de uma música. Levamos cerca de meia hora para dar a volta final na pracinha e confesso que cada pessoa cantava um samba diferente! Eu nem queria pensar nele, mas cantei O Amanhã.

Acho que chorei agora porque me lembrei dele quando falei com você. Não quero lembrar mais do que viver e por isso me esforço para viver tudo como se sempre houvesse pela frente uma quarta-feira. Promete que se um dia estiver nevando em fevereiro, se não houver serpentina nas lojas, se não for normal abelha, joaninha, dálmata e coelho pegarem um ônibus para uma saideira nós nos trancamos no quarto, fantasiamos nossos filhos e ensinamos a eles que cachaça não é água não? Senão eles nunca vão saber porque somos assim.
Senão eles nunca vão saber.

22.2.09

Conto de colombina

“Era uma vez uma donzela que caminhava pela beira de um rio quando ouviu um "psiu". Era um sapo, que lhe contou que na verdade era um príncipe amaldiçoado, transformado em sapo por uma bruxa malvada com poderes mágicos. Se a donzela o beijasse, o sapo voltaria a ser príncipe. A donzela acreditou no sapo, beijou-o, ele se transformou de novo em príncipe e os dois se casaram e viveram felizes para sempre.”

Outras donzelas desde então tiveram a mesma experiência: psiu, sapo, bruxa com poderes mágicos, beijo, tudo igual, variando o desenrolar prévio. A segunda donzela concordou em beijar o sapo para livrá-lo da maldição, com uma condição:
- Beijo de língua, não.
Já neste século instalou-se o instante de hesitação para esclarecer um ponto:
- Precisa ser donzela?
Anos sessenta, moça feminista, pra bruxa com poderes mágicos ter feito o que fez com o príncipe ela só poderia concluir:
- Alguma você andou aprontando!
Solidarizou-se com a bruxa e chutou o sapo.
Crise no mercado, Lehman Brothers, Merrill Lynch, a moça ouviu a proposta do sapo, levou pro seu consultor financeiro, nada é mais valioso do que informação privilegiada como a que o sapo lhe passara.
- Esqueça o sapo e encontre essa bruxa!

Ontem no Céu na Terra. A donzela achou que o sapo estava mais pra cachorro, mas a fantasia dele era muito divertida:
- Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é Carnaval.
Ele embarcou para Salvador, ela seguiu pro Corre Atrás, feliz para sempre.

"Amanhã tudo volta ao normal, deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar..."

Versão de Bruna para Versões do Veríssimo, com todo o respeito

17.2.09

Me leva que eu vou

Aplausos ao cancioneiro, é Carnaval aqui no Tribuneiros!

12.2.09

Avalanche (ou bolha de sabão)

Eu sempre acho que não te beijei o suficiente. Porque toda vez é a última até que vem a próxima e vai dar tão errado porque parece tão errado mesmo quando é tão certo que não tem razão continuar, e onde falta razão sobra um beijo, um toque, um cheiro e um desejo que não passa e se ao menos você fizesse o que o mundo me alerta que você vai fazer ajudaria, mas você segue sendo isso que você é e tira meu fôlego e desperta meus sentidos e traz de volta poesia pra minha vida. Aí quando vejo você está aqui e eu te beijo achando que não beijei o suficiente e checo seus lábios, seus braços, seu peito e desrespeito o acordo que fiz com o não e abro a porta e você vai. E deixa esse cheiro. E esse sorriso. E esse "eu acho que vai ser a última vez" e hoje vai. Então arrumo a casa, ajeito a cama, desfaço a bagunça do coração e pela última vez relembro o abraço com força que eu te dei sem querer ver que na verdade... você nunca esteve aqui.

5.2.09

O tal do ataque de nervos

Eu não queria ter te matado, mas a verdade é que você me obrigou. Provocou. Testou meus limites. Desde a época em que você sorria de lado, os olhos semicerrados e um falar bem devagar naquele ritmo hipnotizante que me embriagava só pra estalar os dedos no meio do meu transe e pegar outra na minha cara eu previa isso. Quantas doses virei e bocas beijei em vão! Enquanto eu me achava a mulher mais malandra desse mundo por seduzir um figurante qualquer você usava minha vingança pífia como desculpa para seguir com o seu show.

O copo lindo de cristal espatifado na parede poderia ter ido parar na sua cara de pau por conta da pergunta cretina que sempre ironizava o meu ciúme – “isso é TPM?”. Eu não esqueço, meu anjo, a parte do casal incapaz de lembrar fatos e datas importantes sempre foi você.

Poderia ter sido pior, arrancar a sua cabeça separaria para sempre seus deliciosos lábios do seu confortável tronco onde por tantas noites eu dormi. Isso sim seria injusto, eu sempre soube que um era o perfeito complemento do outro e essa dupla só teria sido usada para o bem se não fosse a influência maligna de outras partes do seu ser. Eu compreendo.

Você teve sorte, coração, uma sobrevida longa e bem aproveitada desde a primeira vez em que me fez de boba. Um cara aí do trabalho não ligaria tantas vezes a menos que a empresa estivesse em chamas, e incêndios que requerem a presença de homens como você no meio da noite normalmente só acontecem na cama de vagabundas.

Por que negar, amor? Eu já tinha perdoado sua indiferença às minhas perguntas, os quarenta e três minutos ignorando meu discurso, aqueles homens correndo atrás da bola desviando seu olhar de mim, já estava tudo sob controle! Era só pedir desculpas e dizer que me amava, mas “paranóica” é uma acusação grave. Falta para cartão! Nessa linguagem você entende, baby? Convenhamos: antes ser descompensada do que cega, não é? Pensa bem, se eu fosse desprovida de visão teria sido a única mulher no Rio de Janeiro a perder o espetáculo que era você sem camisa jogando pelada com os amigos na praia, olha como o seu exibicionismo teria sido desperdiçado!

Até você parar de negar eu já tinha pensado várias vezes se conseguiria te atirar pela janela, mas a partir da sua confissão estávamos indo bem. Por que soltar aquela frase, meu amor? Estaria você possuído por alguma entidade? Quem em sã consciência pronuncia as palavras “é por você ser assim que eu acabei me apaixonando por ela”? Seria uma tentativa velada de suicídio? Você realmente fez isso comigo?

Minhas mãos milagrosas que você tanto gostava, as unhas vermelhas que antes te acariciavam apertaram a sua goela e agora, querido, você nunca mais vai me enlouquecer. Eu avisei que um dia essa fase ia passar.

28.1.09

Mentiras sinceras

Se eu não lembro, não fiz.
Se eu não vi, desconfio.
Se eu não gostei, invento.
Se eu escrevi, lê? Está aqui no Tribuneiros.

23.1.09

Where did you come from

Na primeira vez a casa estava aberta pra quem quisesse entrar e isso ainda não era licença poética, só quase uma bifurcação no meu caminho. Na piscina tinha um João-bobo, no isopor cerveja, na sauna acerto de contas. Lá embaixo tinha uma praia pequenininha e bonita de querer largar o escritório. Era tanta gente que parecia ocupar toda a areia. Como eles vão saber quem eu sou? Não tinha crachá. Para voltar era uma escada enorme e alguém avisou: aqui tem que ter fôlego. Em pouco tempo apareceram instrumentos musicais e as pessoas passaram a brincar na piscina e dançar na mesa. Eu fiquei espantada – o que mais tem que ter aqui?

Tem que ter muita gente de todo lugar, gente nova e gente velha, gente com espírito de sacanear e coração aberto para agregar. Gente que se não tem tampinha bebe na garrafa, se não tem cajon liga o som, se não tem a presença apela pro telefone. Gente que voltou a zoar e gente que nunca parou, gente que pula, que grita, que beija e que briga, gente que sempre toma conta de tudo e gente que não sabe nem de si mesmo, gente tentando, gente lembrando, gente entendendo.

E gente pode ser complicado. Às vezes gente disfarça de ódio bom a alegria arrebatadora no coração, de indiferença a preocupação, de cansaço físico a exaustão do peito. We are the world em revelações comprometedoras, imagem, ação, mímica e dança. Pra essa gente tem que ter alguma chance de dar merda, e às vezes dá. Tem que ter abraço, amasso, compasso, música lenta e show de calouros, Dirty Dancing e Jackson Five, Cindy Lauper e Ronaldo Boscoli. Tem que ser criança pra se lembrar do Chico Bento, saber a letra de Manequim, imitar as Paquitas e pedir colo. Tem que ter energético baiano engarrafado ou no Ipod, gim, batida, cerveja, vinho rosé, vodka ou só Cotton-eyed Joe no som.

Tem que subir na mesa e se esquecer da vida. Tem que ter limão, misto quente e Gran Padano. A família que a gente tem ou a família que a gente faz, uma plantação de melancias, memórias de um sargento de milícias e pôr-do-sol no deck. Um helicóptero pra resgatar essa gente que não fala nada, que fala muito, gente pra quem a gente quer pedir que please don’t go. Gente que enfrenta zoação mas não encara aranha, pra quem a noite pode virar histórica só com um pouco de carvão e bom humor, gente que vem do seu fantástico mundo trazendo gargalhadas de souvenir. Gente que não precisa de crachá.

Tem que ter o brilho do luar em sintonia com o mar, gente que se fala no olhar e caminha no mesmo lugar. Gente com tanto querer que faz até a terra tremer sem pressa nem medo de errar. Tem que ter sol no meu amanhecer.

Eu nunca pensei que aquela bifurcação levasse ao dia em que eu só tivesse que ter vocês.

13.1.09

Aaaaabacaxi

A garotinha estava enfurecida, baldinho na mão, e gritava "Pedro Henrique" na beira do mar como se o amiguinho fosse seu cachorro. Pedro Henrique estava feliz da vida pegando jacaré.
– Não adianta, ele não quer brincar agora, filha. Faz seu castelinho sozinha, ele vai ver que é divertido e vem brincar com você.
Mas ela estava desolada.
- E se mesmo assim ele não quiser?
Crianças, tão dramáticas...
- Aí você arruma outro amiguinho.

No sábado seguinte Manu conheceu a Julia e foram felizes por muitas praias. Agora a mãe pensa em comprar uma prancha de surf pra menina.
Adultos, tão condicionados...

11.1.09

Quem sabe

Você não sabe que eu começo a ler o jornal pelos quadrinhos. Eu não sei se você come cebola. Não sei se você toma banho de manhã e você não sabe que eu abaixo o radio quando tem blitz. Que eu tomo mais leite que um bezerro recém-nascido, molho os punhos antes de mergulhar e que gosto da carne assada fria no pão quente. Não sei se o seu ar condicionado congela ou você prefere vento no rosto. Nunca pensei se você deixa a TV ligada enquanto está se arrumando. Você não sabe que é Paul, marguerita e meditação e não John, calabresa e missa. Que as chaves sempre somem na bolsa. Não sei se você deixa bilhetes pra empregada, não sei se você sempre repara, você nunca percebeu que eu tento não me importar. Você não sabe que eu canto I’ll let you stay with me if you surrender. Não sei se o molho é à parte, se pode ter rúcula na salada, se o bife é ao ponto. Nunca perguntei onde você estava quando o Senna morreu, você nunca reparou que eu não tomo chopp e que estaciono bem. Eu sei que você me tira do rumo, você sabe que eu respiro fundo.

30.12.08

Andar com fé

Que 2009 seja uma fonte inesgotável de textos.
Para garantir, simpatias infalíveis no Tribuneiros (clique aqui). Afinal, simpatia é quase amor!

27.12.08

Talk to me now I'm older

Mexendo em fotos antigas, Bruna grande é desafiada pela pequena Bruna:
- Você ainda mora com meus pais? Não me diga que casou e se acomodou, não planejei ser uma Amélia sentimentalóide. Você é uma super profissional mega ocupada e rica, certo? E o livro, já escreveu? Cadê seus cachorros? Que fotos velhas nesse mural, não tem de festinhas mais atuais? Tão poucas pessoas. Você já é meio velha, mas tem uma cara de criança...

Bruna pequena não costumava falar assim com os outros, era quase uma diplomata. Releva, ela deve estar estressada... Não, tanta petulância merece uma resposta sincera!

- Quando crescer você vai fazer metade das coisas que sempre disse que não faria porque não quer ter razão, uhuuu, quer ser feliz! (mesmo que cisme que sua felicidade está do lado oposto ao que a seta indica). Vai realizar seus sonhos e se desapontar várias vezes, preferir manter suas ilusões porque são elas que geram energia para fazer o que está a seu alcance.
A vida é dura até para quem não é mole e acaba sendo uma sucessão de “fiz o melhor que pude”. Você vai perdoar pessoas que cometeram erros imperdoáveis e vai conviver com outras que não tem nada a ver com seus valores. Vai voltar atrás em decisões que antes pareciam as mais certas, vai brigar com quem não merece e passar por cima de mancadas de quem merecia um soco na cara. Você vai mentir mesmo que isso faça doer seu coração, vai se tornar uma ótima atriz de tanto se exercitar. Milhares de pessoas vão partir seu coração e milhares de vezes você vai querê-las de volta. Outras poucas vão fazer tudo para ter seu coração e você vai fazer o melhor de si para afastá-las. Vai se afastar de quem gostaria que ficasse para sempre do seu lado. Vai descobrir que “para sempre” tem duração limitada. Você vai ser orgulhosa, teimosa, dura demais para tentar não se sentir tão covarde. Não vai saber o que fazer, vai pedir conselhos e fazer exatamente o oposto. Vai descobrir que seus pais têm a mesma idade que você, às vezes menos, e que você tem a exata noção de como viver a vida alheia, mas nenhuma idéia do que fazer com a sua. Você vai ter menos dinheiro do que gostaria, vai realizar menos grandes ações do que planejou, só vai ser ídolo do seu cachorro e nem vai cuidar tanto dele.Você vai aprender que conquistas não são de graça e aos poucos vai descobrir que ser adulto significa preocupação com o futuro. Você vai preferir Paul ao John, vai vencer a batalha contra sua mãe e nunca comer feijão, vai decepcionar seu pai porque não sabe fazer conta, se esforçar para ser mais impulsiva. Mesmo assim você vai achar que vale a pena.
Só faz um favor? Estuda menos, viaja mais.

E a pequena Bruna pergunta:
- Com tudo isso Papai Noel ainda vai trazer nosso presente?
- Vai, e você continua esperando a hora certa de abrí-los na árvore.

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Escrito em dezembro de 2005 e republicado sem atualizar (pra seguir a gente precisa saber como chegou até aqui).
Em 2009, keep walking.

20.12.08

Como conquistar garotas

Alec Greven, de 9 anos, escreveu ‘How to Talk to Girls’. Em 46 páginas o garotinho ensina o que todo homem passa a vida tentando aprender: achar meninas é fácil, elas estão em todas as partes, o pulo do gato é achar a certa para você (exatamente o que eu penso sobre calças jeans).
Clicando aqui para ler os conselhos qualquer leitor tribuneiro vai saber o que precisa para se tornar o muso do verão.
Só falta ter verão.