25.6.09

Do outro lado do Pontal

"No restaurante em frente à praia o prato executivo custa doze reais. Você senta de cara para uma vista avassaladora e paga doze reais para o garçom falar uma língua incompreensível, onde “o seu Matte é diet” parece “tomate diet”, e trazer uma travessa de comida ao invés de um simples prato. Além de gigantesco, nunca é quiche com salada. No Leblon se come quiche com salada, no Leme só sai das panelas arroz à piamontese, batata frita, bifes e outras comidas que se servem com duas colheres, uma técnica que os garçons antigos aprenderam no La Mole."

O Leme é aquele bairro que só tem 5 ruas. Vai tooooda a vida pela praia e quando esbarrar na pedra olha pra esquerda. É ali. Siga por esse caminho: tribuneiros.com

17.6.09

Samba de Galeão

Aqui tem feito 18 graus e podemos alternar as Havaianas com botas. Há um ano guardados os casacos cheiram a mofo então estou na função de separá-los por cores para lavar, o que é difícil tendo em vista que um dos meus braços foi operado (teclar com uma mão me lembra quando eu não sabia datilografar em máquina de escrever!).
Imagino que você não queira casacos, mas areia. Areia e Janot. Não tenho visto o Janot, mas me faria bem. Não tenho pisado na areia porque dizem que pode me fazer mal, mas penso que se fosse para ter problemas com o sol Deus não me colocaria nessa cidade. (Paul McCartney teria pensado nisso.)
A luz está linda nesse outono e juro que não é para disfarçar problemas no roteiro como em filme ruim, presta atenção no colorido da lagoa ao sair do túnel. É sempre quando eu suspiro por estar aqui.
Será que você tem andado por aí se despedindo, abraçando esquilos no Central Park, transformando qualquer refeição em brunch, atravessando várias vezes a ponte a pé? Será que você está fazendo planos ou se cansou de mudá-los? Tomara que não tenha perdido sua deliciosa capacidade de se entregar loucamente - a uma idéia. Ok... e ao seu marido (que eu não sou ciumenta). O bom de uma amizade é isso, a gente nunca precisa pedir o outro em casamento e ninguém se apavora pensando se queremos continuar ali. Simplesmente estamos sem medir o sempre.
Com você aqui voltaremos a mandar emails juntando pedaços das histórias confusas da noite anterior e não mais nos atualizando sobre how are we doin. Veremos bem de perto os efeitos dessa temporada longe. Não direi nada sobre as vezes em que nos lemos chorando, só que esse ano não passou rápido demais. Continuamos colecionando uarifes como se fossem toy art, nossa prateleira está cheia deles porque nosso caminho é cheio de What if, mas reagimos com menos ansiedade a essas bifurcações. Ou não.
Se me permite dar uma notícia, digo que essa vida à toa anda boa.
Como sempre.
As fases ruins passam. Também.
Pega esse avião. Vem beijar o meu Rio de Janeiro antes que um aventureiro lance mão.

8.6.09

Um chinelo velho do seu número

Se no seu céu falta raio, estrela e luar, a tampa é pequena demais para a sua panela, o pé prefere ficar descalço a viver apertado e o sol da sua praia dá câncer, leia Tribuneiros. E vá ao Jobi.

29.5.09

E fez o povo inteiro chorar

Três dias cantando Sá Marina.
Começando pelo fim, as pessoas aplaudiram. É muito legal filme onde as pessoas aplaudem, principalmente quando a sessão não é de festival nem no Estação Botafogo, onde o público é tão engajado que se não gostar do que vê é capaz até de discutir com a tela. O casal ao meu lado acrescentava tantas informações à história que vivi uma experiência de cinema interativo, ampliada pelo coro e dancinhas do resto da platéia. Mais um pouco alguém levantaria e regeria Meu Limão Meu Limoeiro dividindo a sala em duas.

Eram só três dias cantando Sá Marina, agora são mais três avaliando todas as questões geradas por um filme que eu já chamo de “historicamente importante por apresentar um outro lado da esquerda glorificada”. Estou virando uma mala e ainda uso gerúndio para confessar isso.

Meu Deus! Sim, é um cachimbo, nada além de um cachimbo, às vezes um charuto é só um charuto, xinga o Jaguar e dane-se. Está explicado o cansaço, compreender os motivos que levaram alguém a fazer alguma coisa fez com que meu cérebro se assemelhasse a contorcionistas do Pilobolus.

O Pasquim acertou, Simonal ficou mais conhecido por seu dedo do que por sua música, e para não cometer o mesmo erro de muitos que desfilaram naquela tela eu não queria apontar o meu para culpar quem em 30 anos não se lembrou de perdoar. Fica a lição, ficou a música, mas fica também ecoando na minha cabeça a declaração de que “ele está no céu regendo um coral de anjos”. Agora, José? Nem vem que não tem.

O filme é sobre a destruição da carreira de um gênio porque não existem bonzinhos e mauzinhos. Talvez a empáfia do filho da empregada que andava de Mercedes tenha encontrado resposta à altura entre seus colegas de profissão, exilaram o Simonal e ao contrário das outras vítimas da ditadura ele nunca voltou. Gente tem preguiça de olhar pro lado, pouco importa o sofrimento alheio seja ele de um branco, negro, rico, pobre, ídolo ou renegado.

A época era de patrulhamento ideológico, a traidora tem pais hippies, o chefe está sendo pressionado, ele tem medo de me magoar, dane-se se não vivi a ditadura, se nasci em um tempo onde não existe nada de tão grave que alguém possa fazer para ser jogado no ostracismo eterno. Gente erra, mas vai errar com outros. Eu tô com raiva. O filme é ótimo. O Jaguar é um filho da p*#@.

Ufa...

27.5.09

Soubesse escrever

Mercúrio retrógrado. Pausa para ler, ouvir música e comer bolinhas de queijo.

20.5.09

O cheiro do ralo (das aventuras de Lar, salgado lar)

Eles ensinaram detalhes dos compostos do carbono, me fizeram decorar a-ante-após-até-com-contra-de-desde-para-per-perante-sob-sub-sobre-trás, eu sei até hoje a fórmula de Baskara e esse inútil nunca me ajudou a pagar uma conta nem ninguém – ninguém! – do maternal à pós-graduação, avisou que eu teria que limpar o ralo.
São dez anos de congressos, milhas e milhas voadas para ouvir gente inteligente dizer coisas importantíssimas e nenhum palestrante jamais mostrou no Power Point: mais fundamental do que rentabilizar o conteúdo é catar os cabelos que caem no banheiro.
Eu entendo sobre cabelos, qualquer mulher entende: se não cortar de dois em dois meses aparecem pontas duplas, um pouquinho de silicone diminui o frizz, mas os danos mortais que os malditos fios que te custam uma fortuna causam no encanamento a Marie Claire não conta. Nunca li na Vogue como abrir o sifão da pia que inundou o banheiro branco decorado com vidrotil. Sei lá onde é o sifão!
Por isso acabei eu, cabelo hidratado com Alfaparf, trocentos cursos no currículo, bombeando um desentupidor no tanque enquanto meu pai, agachado com um plástico enrolado em uma mão e chave de fenda na outra, tentava eliminar o odor de fossa que acabou com minha essência comprada na Daslu Home. Com toda a paciência do mundo o homem puxava gremlings do buraco negro e pensava “se não sair uma cabeça daqui, a minha filha tem um problema capilar”. Ou “essa menina precisa de um marido”.
Amanhã tem reunião de condomínio, talvez seja uma boa idéia seduzir o vizinho.

10.5.09

Jogo da vida

Elas não são sócias da Light, juram que banho depois da comida entorta, sabem as estatísticas de morte de filhos por raio na piscina e vão dançar com a cabeça inclinada e os braços meio dobrados o Hey Jude do karaokê.
Quando você menos esperar, vai estar igualzinha a ela. E antes disso vai perceber que ela sempre foi bem parecida com você.
Feliz dia tribuneiro das mães.

8.5.09

Animal cão

E lá fomos eu e o cachorro ao médico. Por uma questão de especialização, na plaquinha do dele dizia veterinário e, na do meu, cirurgião (apesar do dele também operar e do meu também lidar com instintos animais).
O bichinho já é cego e surdo, eu já sou estressada e medrosa, mas nos dois apareceram bolas que mais pareciam corcovas e se não quiséssemos virar dromedários teríamos que extirpá-las.
- Está nervoso?
- Um pouco, e você?
- Vai dar certo, eu seguro a sua pata e você lambe a minha mão. Mas não morde ninguém.
- Ok. Nem você.


Às vezes o nunca mais não é exagero, é certeza. Não tem palavra. Não tem alívio pro vazio, principalmente pro vazio deixado por quem aliviava o caos do mundo. Quanto sentimento por um bichinho genioso.
Parecia uma nuvenzinha, um poodle de escova. Nos momentos menos higiênicos, uma estopa. A bolinha champagne chegou há tanto tempo que não dá mais pra contar uma história, ela se mistura com a minha. No nosso amor sem alardes talvez fôssemos presença fundamental na vida um do outro, eu o procurava pra fazer carinho, ele se apossava do meu travesseiro. Ele sentava se equilibrando com as patas em volta da minha mão enquanto tínhamos conversas assim:

Eu prometi que você não sofreria, cãozinho. Gente não escolhe sofrer ou não, mas você, deixa que eu protejo. Encara como um agradecimento às tantas vezes em que aturou quietinho eu te amassando em um abraço. Em troca de me eleger o melhor escudo humano contra implicâncias alheias, só precisei te apoiar durante a dor de barriga causada por um medalhão à piamontese. Foi uma relação bem equilibrada.
Há muito você já não me faz mais de apoio para suas espreguiçadas, não pula no meu colo amassando o jornal com a total falta de cerimônia de quem sabe que é o dono da gente. Se abaixo e te encaro não preciso mais desviar como ninja das suas investidas pra lamber minha cara.
Queria ver você pulando em volta de si mesmo até tropeçar quando a porta abre, ouvir os latidos escandalosos que ficaram lá no passado. De barulho, pra mim, só sobraram suas unhas no assoalho. Pra você não sobrou nada. Que diferença? Nunca atendeu ao nosso chamado mesmo. Você só vinha quando queria, e quando queria era a criaturinha mais companheira que eu já tive.
Não tinha isso de “cachorro, vamos brincar agora”, só brincava se quisesse. Correr atrás de bolinha nem pensar, pra quê o trabalho de buscar e vê-la sendo isolada de novo? Preferia sentar à mesa e comer pão com manteiga! Se estava dormindo, estava dormindo, ponto final, smplesmente não queria ser incomodado. Às vezes corria pela casa como se tivesse tomado um ácido, em outras horas ficava sozinho brincando com o vento. Criou bem seu mundinho particular em meio a tantas crianças, agüentava ser jogado pelos ares numa boa e quando passavam do limite rosnava como uma fera me fazendo pensar – um dia ele ataca. Esse era você ou era eu? Você, bem mais controlado.

Não publiquei o texto lá de cima esperando o dia do meu exame. Foi hoje de manhã, mas você foi ontem à tarde. Vou operar minha corcova. E nunca mais vou te esquecer.

1.5.09

30.4.09

Are you George Clooney?

Os sinais que mostram que você envelheceu não são os valorizados por campanhas de cosméticos politicamente corretas, para a pele os laboratórios desenvolvem milhares de cremes milionários. Irreversível é quando o caçula responde que sua perna não está com taaanta celulite assim, “é que você não tem mais vinte anos”. A estagiária nunca ouviu falar em Juba e Lula. Você tenta jogar XBox e percebe que está pulando com o controle na mão igualzinho a sua mãe fazia com o Mario Bros. Mas é quando lê a lista das 100 pessoas mais bonitas do ano da revista People que se dá conta da gravidade da situação: quem é Nick Jonas? Robert Pattinson? Não só você ignora por completo esses galãs como se assusta ao ver a foto: homem bonito? Mas é um menino! E todo descabelado! Já esse Secretário do Tesouro americano, uhn, interessante...
O próximo passo é comprar uma máquina de Nespresso.

22.4.09

Lerê lerê...

Era a taça do mundo ali na minha frente, se esticasse os braços e perdesse a sanidade eu poderia levantá-la tal qual Cafu e mostrar minha camiseta 100% Jardim Irene. Como todos agiram de forma blasé, também fingi que aquele encontro era normal. Ao lado dela, três homens engravatados certamente estavam lendo meus pensamentos - eram os seguranças. Tem gente que vive de proteger a taça! É como se ela fosse a Angelina Jolie, com a diferença de que por onde passa não adota bebês.
Eu sei, era a taça do mundo, ela brilha muito mais do que eu imaginava apesar de jamais ter imaginado algum dia estarmos tão perto, mas como uma criancinha deslumbrada saí olhando para o resto do estúdio. Dois homens com TVs enormes na frente e microfones assistiam a um jogo e conversavam sobre isso. Não tinham uma cerveja na mão nem palavras chulas à disposição, mas estavam comentando Porto x Manchester United ao vivo para todo o Brasil. Tem gente que vive de ver futebol! É como se me oferecessem dinheiro para ficar falando sobre Grey´s Anatomy.
O hotel Andaz, em Londres, contratou um novo profissional. Os hóspedes escolhem um livro em um cardápio de 25 títulos e Damien Barr lê para eles durante uma hora. Ele trabalha uniformizado - de pijamas – e só não pode deitar na cama nem fazer vozes diferentes para cada personagem.
É isso, Damien vive de contar histórias. Alguém vai ser o zelador de uma ilha paradisíaca na Austrália. Tem gente que vive de escrever os quadrinhos do Snoopy, treinar golfinhos no Sea World, ser acrobata no Cirque du Soleil, coreografar os shows da Madonna, alfabetizar crianças no sertão.
Às vezes parece que nem todas as histórias estão listadas no cardápio.

13.4.09

Dedicatória

"Todo amor que eu amei no fundo dediquei a mim e a mais ninguém".

E se eu hesitar em te pedir para ficar?
Memórias, crônicas e declarações em Tribuneiros.com.

1.4.09

Happy Pinoquio´s day

Essas são as minhas resoluções de ano novo.
Você vai esquecer esse cara em dois minutos.
Eu precisava comprar essa bolsa, não tinha mais nenhuma apresentável.
Ele está inseguro, você é mulher demais para ele.
Eu não vejo Big Brother, é porque todo mundo só fala disso.
Ela não está dando mole para ele, são só muito amigos.
Na segunda-feira eu começo.
Não estamos terminando, é só um tempo.
É diet, mas uma delícia.
Vamos lá pra casa, não vai acontecer nada demais.
É o trânsito, mas em cinco minutos estou aí.
Ele está sendo cauteloso, é medo de estragar a amizade.
Eu queria muito, mas não tive tempo.
Achamos sua proposta genial, mas agora o foco é outro.
Só mais uma partidinha, já vou desligar.
Nosso relacionamento terminou há anos, desejo que os dois sejam muito felizes.
Está muito gostoso, é que eu estou de dieta.
Eu seria incapaz de fazer qualquer coisa que te magoasse.
Não precisava!
Só estou com dor de cabeça.
Você não precisa ir, é só porque minha tia avó te adora.
Vamos tomar a última e partimos.
Em dez minutos eu estou pronta.
Não vai doer nada.
Faz assim, deixa que eu ligo pra você.
Mulher direita não corre atrás.
Você está louca.

30.3.09

Por uma vida menos ordinária

Ele insistia em dizer que o mundo estava pior. Ela respondia com peste, fome, guerra, e o quê disso foi extinto, ele apontava. Não pode ser. A liberdade! Tem mais verdade hoje. Para ela a diminuição da repressão era muito importante, tudo agüentaria desde que pudesse falar (talvez por ter passado tantos anos muda). Avanços no Leblon não configuram um mundo melhor, meu amor. E para não afligi-la mais ele a abraçava e inventava outro assunto, até que num dia qualquer ela trouxesse uma nova razão para sua defesa. O amor acabou, os universos particulares melhoraram e pioraram diversas vezes até sem nenhuma interferência de um na vida do outro, só ela seguiu buscando provas para mostrar a ninguém.Um dia a Coca Cola achou que os tempos estavam difíceis, aí juntou o homem mais velho de todos com o bebê mais novinho. A Coca Cola só queria vender refrigerante, mas ela achou aquilo muito bonito. Alegrias pessoais não configuram bem estar generalizado, mas gente feliz melhora o mundo.
Essa também é uma história real.

"Hola Aitana, me llamó Josep Mascaró y tengo ciento dos años. Soy un suertudo. Suerte por haber nacido, como tú. Por poder abrazar a mi mujer, por haber conocido a mis amigos, por haberme despedido de ellos, por seguir aquí.
Te preguntarás cúal es la razón de venir a conocerte hoy. Es que muchos te dirán que a quién se le ocurre llegar en los tiempos que corren. Que hay crisis, que no se puede. Esto te hará fuerte. Yo viví momentos peores que este, pero al final de lo único que te vas a acordar es de las cosas buenas.
No te entretengas en tonterías que las hay y vete a buscar lo que te haga feliz, que el tiempo corre muy deprisa. He vivido ciento dos años y te aseguro que lo único que no te va a gustar de la vida es que te va a parecer demasiado... corta.
Estás aquí para ser feliz."

22.3.09

Vem kafka comigo (mais uma da série Lar, salgado lar)

Eu até queria ser veterinária quando crescesse. Lido bem com animais em suas diversas formas, mais ou menos humanizados, vacas, burros, cachorros e galinhas, mas invertebrados não são animais. Invertebrados fazem parte da cadeia alimentar, mas com tanto desenvolvimento estranho que ninguém tenha pensado em substituí-los por pílulas ou readequar o ecossistema de forma que nós, habitantes de selvas de pedra, não precisássemos conviver com eles, coisinhas do mato.

Pombos não são invertebrados, mas também não são necessários por aqui. Cada vez mais, inclusive, perdem a noção do perigo: atravessam a rua como se fossem pedestres, vão à praia como se cantassem “separa um lugar nessa areia, nós vamos chacoalhar essa aldeia”, dão vôos rasantes como se fossem terroristas. Como não existe filhote de pombo suponho que o ajuntamento de ratos de asas que escolheu a minha janela para viver caracterize uma quadrilha, já que família eles não podem ser. Todos os dias, bem cedinho, os desgracentos começavam a fazer barulhos que pareciam um tórrido ato de acasalamento ou que estavam todos engasgados. Veneno, saco plástico esvoaçante, praga, tudo em vão. Há quem coloque grade na casa para afugentar ladrões, eu fui obrigada a me cercar contra pombos.

Afugentados os piolhentos, passei a desfrutar da delícia do meu lar até elas chegarem. Vivia com uma vassoura atrás da porta e não era simpatia para afastar visitas chatas, mas uma arma. Entrava em casa era vassoura em uma mão, Baigon na outra. Foram seis baratas em quatro meses e não era o calor, a chuva que sempre fechou o verão sem inundar a cidade de artrópodes, sujeira, era uma invasão, tal qual os pombos elas ficaram abusadas, debochadas até. Uma apareceu morta às sete da manhã, barriga pra cima, patas pro ar. Alguém invadiu a casa na calada da noite e exterminou uma barata? Um ataque cardíaco fulminante a levou antes que a nojenta alcançasse meus aposentos? O que fazia uma barata defunta na porta do meu sagrado quarto? Quando aproximei o saco-rabecão para recolher o corpo eis que a cascuda deu um 180, voltou do mundo dos mortos e correu para o meu edredom! É muita audácia. Ou alguém acha que havia uma barata dormindo tal qual um cachorro na porta do meu quarto? Queria ser minha barata de estimação, pedia festinha na barriga? Não, queria zombar de mim. Guerra oficialmente declarada, 2696969 chegou como Ghostbusters, if there’s something strange in the neighboorhood tinha, é passado, elas podem resistir à radiação, mas não resistiriam à minha fúria.

Precisei me preparar para tudo, quem seriam os próximos sem terra invasores de propriedades? Morcegos? Ratos? Lagartixas dissimuladas usando a desculpa de que trazem dinheiro? Não caio nessa. Na minha casa só entra quem eu convido e todos devem ter um número mínimo de ossos e nenhuma pena. Até que um dia um objeto voador verde chegou e eu amarelei. Era uma esperança. Não poderia matar a esperança no meio da sala! Viveríamos ali, ela e eu, até que a bendita decidisse bater asas e voar janela afora, o que poderia ser muito dramático, mas eu estava preparada para não encarar o fato simbolicamente. Acontece que a idiota ficou louca, começou a se jogar contra as paredes, foi de encontro ao ventilador, na casa de mais quem poderia existir uma esperança suicida? (mais uma, meu Deus, é essa a razão da felicidade do meu terapeuta milionário.) Ela se estatelou no chão. Eu preferia mil tsunamis a recolher restos mortais de esperança, só porque uma moça riu no supermercado ao me ouvir pedir duzentos gramas de Solidão mudei a marca do queijo minas, não quero dar sinais ao mundo, vai que ele também interpreta que agora desejo carregar sentimento em sacos plásticos!

Desesperada, me aproximei do cadáver e a verdade apareceu: era um grilo! Acabei com um grilo que havia na minha vida! Depois descobri que o inseto era um louva deus, mas quem se importa? Pra mim era um grilo e simbolicamente cancelei a terapia da semana.

18.3.09

Na primeira vez a gente sempre esquece

Ele não vai ser sempre perfeito daquele jeito, nem vai te achar tão encantadora. Não vai para sempre perguntar como diabos você não tem um marido que te trata como uma rainha nem você vai pensar se é mesmo possível tudo aquilo estar disponível nos dias de hoje. Não passa pela sua cabeça que não vai durar muito ele estar impressionado porque a menina mais linda do planeta está sem nenhum macho cercando. Que precisa acordar cedo no dia seguinte. Que já deveria estar em casa há horas.

Esquece de filtrar todo aquele charme e racionalizar se existe algum futuro. Nem por um segundo cogita a possibilidade de por trás de tanto empenho existir um psicopata dependente e ciumento, que ele pode ser um grande mentiroso e destruir seu coração em poucos dias, que da última vez jurou nunca mais ser boba assim, que há pouco tempo estava acabando com o estoque de lenços secando o vale de lágrimas derramado por quem começou exatamente do mesmo jeito. Esquece que juraram que você ia adorar o amigo dele que ninguém lembra mais onde foi parar, que ele vai te roubar o prazer da solidão, que vai passar essa vontade ingênua de ficar e não pensar em nada.

Esquece completamente que precisa disfarçar a taquicardia, falar menos e parar de esbarrar nele. Que daqui a pouco ele não vai mais precisar inventar motivo para tocar em você. Nem nota que milhares de vezes ele vai pensar em te beijar e desistir com medo de ser precipitado, que existem pessoas ao redor reparando no seu sorriso bobo e que você não pára de mexer no cabelo. Esquece que os olhos dele nem sempre vão estar te seguindo, que a música está alta mas ninguém ao redor está falando assim tão perto do ouvido alheio, que nem sempre ele vai pagar mais uma bebida torcendo para aquilo dar um porre de coragem.

Esquece de guardar um pouco dessa versão adorável de si mesma para depois, esquece que ele não vai falar de você pros amigos com reticências e uma gargalhada sem graça todas as vezes, não vai se culpar por ter perdido tanto tempo com as outras tendo você tão perto. Que aquela aranhinha na parede vai considerar usá-los como suporte pra a teia se vocês demorarem mais algumas horas conversando ali. Que as suas amigas estão dormindo no carro esperando você chegar flutuando, que se você ficar mais feliz vai começar a pular e isso vai ser estranho.

Esquece que isso não acontece todo dia, nem por toda a vida.
Na próxima vez, tenta lembrar. E não se esquece de guardar para sempre.


Publicado em Seu Martin 1

10.3.09

Mais que uma Brastemp

Largue o Jornal do Vaticano e corra! Queima de estoque aqui no Tribuneiros, toda as máquinas de lavar em promoção! Porque na minha pós-anos-60 vida de mulher independente a pílula foi responsável por besteiras muito mais catastróficas do que a Brastemp. (o que é um vestido manchado comparado ao desgraçado que disse que eu era especial?)

28.2.09

Meu caro amigo

Eu acordei cantando às seis e meia, você não pode dizer que não vai voltar. Respondi às mensagens no celular, vesti a fantasia de pirata, sentei no posto para esperar o táxi que traria Popeye e Super Mouse.
- Bom dia, dona Bruna.
- Bom dia, porteiro.
Alguns vizinhos passeavam com os cachorros, os frentistas atendiam um carro ou outro, os entregadores levavam os pães fresquinhos. Em pouco tempo o sol estaria ainda mais quente do que as bisnaguinhas, e tudo bem.

Eu gosto de ficar perto da bateria, corro pra comprar cerveja, furo embaixo da garrafinha de água pra jogar no rosto, roubo um gelo do ambulante pra resfriar a nuca e volto pra perto do surdo. No dia em que estávamos de chapéus de mágico não precisei subir nos carros para encontrar os outros, temos que fazer mais roupas assim. Colocaram banheiros químicos agora, sabia? Funcionam! Um porco ou outro prefere os postes, fazer o quê?

Éramos tantos juntos que as ruas pareciam um salão. No próximo ano vamos fazer um baile com orquestra e todos de preto e branco? Vou esperar você voltar e planejamos. Hoje vou ver o desfile da Mangueira. Depois, não sei. Não sei se isso ainda dura muitos anos. Na última noite os garçons do Jobi seguravam as mãos de quem batucava nas mesas “ô, o Rio é melhor que Salvador”. Acho que estavam mais preocupados com a disseminação da notícia do que da arruaça pelo bar. Lembra que no Caneco também não podia batucar nas mesas? Hoje o Caneco é um prédio de arquitetura bastante duvidosa e eu ainda digo que vou à praia em frente a ele. Não sei se um dia acharemos tudo apertado, de novo essa música, gente suada.

Não cheguei a tempo de exaltar o Rei na Urca, você viu que ele saudou os foliões na janela? Tínhamos combinado de chorar nessa hora, mas paramos para um mergulho na praia e acabou que não chorei nem quando a Teresa Cristina cantou Chico no Último Gole, grávida de explodir. Esqueci. Não senti nenhuma dor por mais de uma música. Levamos cerca de meia hora para dar a volta final na pracinha e confesso que cada pessoa cantava um samba diferente! Eu nem queria pensar nele, mas cantei O Amanhã.

Acho que chorei agora porque me lembrei dele quando falei com você. Não quero lembrar mais do que viver e por isso me esforço para viver tudo como se sempre houvesse pela frente uma quarta-feira. Promete que se um dia estiver nevando em fevereiro, se não houver serpentina nas lojas, se não for normal abelha, joaninha, dálmata e coelho pegarem um ônibus para uma saideira nós nos trancamos no quarto, fantasiamos nossos filhos e ensinamos a eles que cachaça não é água não? Senão eles nunca vão saber porque somos assim.
Senão eles nunca vão saber.