19.7.09

As canções que eu faço para você

Pode ter sido o Rei debaixo de um temporal no Maracanã lotado ou a lembrança do receituário azul.
Quando a dor vem de algum lugar concreto, ufa, deixa vir. Se com ela vem uma vozinha amiga, parente da tal luz no fim do túnel, confia. Se traz uma torrente de lágrimas, deixa cair. Elas limpam a alma, levam embora, fazem cada sorriso ser mais bonito e cada ser ser mais humano.
Se a dor gera histórias de uma vida, são detalhes que eu conto aqui. Às vezes vou deixar você me ver chorar sorrindo.
O amor pode vir de um abraço amigo, do caso mais antigo, pode não vir como a gente queria, pode vir de um gesto inesperado, uma ligação bêbada no meio da noite, uma tarde com vinho em um vale, uma dedicatória em um livro, pode vir do outro lado do monitor. Aqui esse amor é uma canção composta por um pobre resto de esperança sentada à beira de uma estrada. Um olhar volta e meia tristonho que deixa sangrar no peito uma saudade, um sonho. Posts e posts que nos trouxeram até aqui - coisa que somente entre nós dois ficou - cicatrizes que falam em palavras que não calam o que eu não me esqueci.
Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada (do tempo que transforma
todo amor em quase nada), mas como "quase" também é mais um detalhe eu quero levar este canto amigo a quem o necessitar. Preciso do coro de passarinhos! Quero ter um milhão de amigos pra cantar em um estádio inundado e lotado.
A felicidade pode vir em capsulas e o futuro em drágeas, mas é melhor quando vem em forma de gente mesmo que gente provoque dor. Porque quando você está aqui eu vivo momentos lindos que me fazem lembrar que com tanto sentimento deve ter algum que sirva.
Qualquer coisa que se sinta é melhor do que um receituário azul. O importante é poder compartilhar as emoções que vivi.

No dia 28 de julho nos encontraremos no Associados. Vou pedindo o chopp.

17.7.09

A few of my favorite things



An education, um roteiro de Nick Hornby. Em breve para as melhores platéias.

13.7.09

O que não tem critério nem nunca terá

Tribuneiros.com lança campanha contra a lisura!
Clique aqui para participar da homenagem a todos os pegadores que dizem que eu deveria estar na festa ao invés de ficar em casa redigindo textos. (Porque de vez em quando eles preferem jogar Wii a gastar mil reais no Baronetti).

Do para-choque

“Se um dia a vida lhe der as costas, passe a mão na bunda dela”

Paulo Cesar Pereio

7.7.09

Ctrl+Alt+Del

Todos em pé na calçada do bar. De novo.
O bar lotado. De novo.
Todos se divertindo, mesmo que preferindo estar em outro lugar. Todos adorando aquelas companhias, mas num beco escuro do peito um desejo imbecil de ter outra, e às vezes o desejo derrama e inunda. Se isso fosse um filme do Gondry a cena viraria uma piscina com todos brincando de Marco Polo.
Você pode pensar que se fosse uma obra de arte seria um quadro do Hopper, mas não. Na cidade colorida as dores não tocam blues, cantam samba, e pelo menos fica mais animado, aquele triste que a gente chama de bonito. É tão bonito que dói.
Na parede do bar o folheto de um curso que ensina a rir de si mesmo. É sério.
A música lá longe. De novo.
Todos vendo o mundo de uma redoma blindada, as pessoas em um plano etéreo. Se fossem risadas viriam do apartamento ao lado.
Você pode pensar que se eles voltassem no tempo fariam diferente, mas repetiriam.
Às vezes o mundo parece um manicômio lotado de gente com esparadrapo no coração.
Se fosse feita uma enquete no bar todos levantariam a mão.
Têm a banda calada, o tempo parado, comida no estômago, vontade de cair no sofá, pantufa e moletom, pálpebra pesando, um exército empurrando para sorrir. Sorriem. Superam. Suspiram.
Você conhece ela?
Conheço. Ela é quem eu queria ser se assim fosse ter você perto de mim.
Se fosse uma doença seria fibrilação.
Eles sabem que daqui a pouco vai aparecer alguém para deletar os itens excluídos de vez, mas antes têm que abrir espaço e a lixeira está ocupando toda a memória.
Se fosse um Mac a mensagem seria “the finder needs your attention”.
Se fosse fácil...

25.6.09

Do outro lado do Pontal

"No restaurante em frente à praia o prato executivo custa doze reais. Você senta de cara para uma vista avassaladora e paga doze reais para o garçom falar uma língua incompreensível, onde “o seu Matte é diet” parece “tomate diet”, e trazer uma travessa de comida ao invés de um simples prato. Além de gigantesco, nunca é quiche com salada. No Leblon se come quiche com salada, no Leme só sai das panelas arroz à piamontese, batata frita, bifes e outras comidas que se servem com duas colheres, uma técnica que os garçons antigos aprenderam no La Mole."

O Leme é aquele bairro que só tem 5 ruas. Vai tooooda a vida pela praia e quando esbarrar na pedra olha pra esquerda. É ali. Siga por esse caminho: tribuneiros.com

17.6.09

Samba de Galeão

Aqui tem feito 18 graus e podemos alternar as Havaianas com botas. Há um ano guardados os casacos cheiram a mofo então estou na função de separá-los por cores para lavar, o que é difícil tendo em vista que um dos meus braços foi operado (teclar com uma mão me lembra quando eu não sabia datilografar em máquina de escrever!).
Imagino que você não queira casacos, mas areia. Areia e Janot. Não tenho visto o Janot, mas me faria bem. Não tenho pisado na areia porque dizem que pode me fazer mal, mas penso que se fosse para ter problemas com o sol Deus não me colocaria nessa cidade. (Paul McCartney teria pensado nisso.)
A luz está linda nesse outono e juro que não é para disfarçar problemas no roteiro como em filme ruim, presta atenção no colorido da lagoa ao sair do túnel. É sempre quando eu suspiro por estar aqui.
Será que você tem andado por aí se despedindo, abraçando esquilos no Central Park, transformando qualquer refeição em brunch, atravessando várias vezes a ponte a pé? Será que você está fazendo planos ou se cansou de mudá-los? Tomara que não tenha perdido sua deliciosa capacidade de se entregar loucamente - a uma idéia. Ok... e ao seu marido (que eu não sou ciumenta). O bom de uma amizade é isso, a gente nunca precisa pedir o outro em casamento e ninguém se apavora pensando se queremos continuar ali. Simplesmente estamos sem medir o sempre.
Com você aqui voltaremos a mandar emails juntando pedaços das histórias confusas da noite anterior e não mais nos atualizando sobre how are we doin. Veremos bem de perto os efeitos dessa temporada longe. Não direi nada sobre as vezes em que nos lemos chorando, só que esse ano não passou rápido demais. Continuamos colecionando uarifes como se fossem toy art, nossa prateleira está cheia deles porque nosso caminho é cheio de What if, mas reagimos com menos ansiedade a essas bifurcações. Ou não.
Se me permite dar uma notícia, digo que essa vida à toa anda boa.
Como sempre.
As fases ruins passam. Também.
Pega esse avião. Vem beijar o meu Rio de Janeiro antes que um aventureiro lance mão.

8.6.09

Um chinelo velho do seu número

Se no seu céu falta raio, estrela e luar, a tampa é pequena demais para a sua panela, o pé prefere ficar descalço a viver apertado e o sol da sua praia dá câncer, leia Tribuneiros. E vá ao Jobi.

29.5.09

E fez o povo inteiro chorar

Três dias cantando Sá Marina.
Começando pelo fim, as pessoas aplaudiram. É muito legal filme onde as pessoas aplaudem, principalmente quando a sessão não é de festival nem no Estação Botafogo, onde o público é tão engajado que se não gostar do que vê é capaz até de discutir com a tela. O casal ao meu lado acrescentava tantas informações à história que vivi uma experiência de cinema interativo, ampliada pelo coro e dancinhas do resto da platéia. Mais um pouco alguém levantaria e regeria Meu Limão Meu Limoeiro dividindo a sala em duas.

Eram só três dias cantando Sá Marina, agora são mais três avaliando todas as questões geradas por um filme que eu já chamo de “historicamente importante por apresentar um outro lado da esquerda glorificada”. Estou virando uma mala e ainda uso gerúndio para confessar isso.

Meu Deus! Sim, é um cachimbo, nada além de um cachimbo, às vezes um charuto é só um charuto, xinga o Jaguar e dane-se. Está explicado o cansaço, compreender os motivos que levaram alguém a fazer alguma coisa fez com que meu cérebro se assemelhasse a contorcionistas do Pilobolus.

O Pasquim acertou, Simonal ficou mais conhecido por seu dedo do que por sua música, e para não cometer o mesmo erro de muitos que desfilaram naquela tela eu não queria apontar o meu para culpar quem em 30 anos não se lembrou de perdoar. Fica a lição, ficou a música, mas fica também ecoando na minha cabeça a declaração de que “ele está no céu regendo um coral de anjos”. Agora, José? Nem vem que não tem.

O filme é sobre a destruição da carreira de um gênio porque não existem bonzinhos e mauzinhos. Talvez a empáfia do filho da empregada que andava de Mercedes tenha encontrado resposta à altura entre seus colegas de profissão, exilaram o Simonal e ao contrário das outras vítimas da ditadura ele nunca voltou. Gente tem preguiça de olhar pro lado, pouco importa o sofrimento alheio seja ele de um branco, negro, rico, pobre, ídolo ou renegado.

A época era de patrulhamento ideológico, a traidora tem pais hippies, o chefe está sendo pressionado, ele tem medo de me magoar, dane-se se não vivi a ditadura, se nasci em um tempo onde não existe nada de tão grave que alguém possa fazer para ser jogado no ostracismo eterno. Gente erra, mas vai errar com outros. Eu tô com raiva. O filme é ótimo. O Jaguar é um filho da p*#@.

Ufa...

27.5.09

Soubesse escrever

Mercúrio retrógrado. Pausa para ler, ouvir música e comer bolinhas de queijo.

20.5.09

O cheiro do ralo (das aventuras de Lar, salgado lar)

Eles ensinaram detalhes dos compostos do carbono, me fizeram decorar a-ante-após-até-com-contra-de-desde-para-per-perante-sob-sub-sobre-trás, eu sei até hoje a fórmula de Baskara e esse inútil nunca me ajudou a pagar uma conta nem ninguém – ninguém! – do maternal à pós-graduação, avisou que eu teria que limpar o ralo.
São dez anos de congressos, milhas e milhas voadas para ouvir gente inteligente dizer coisas importantíssimas e nenhum palestrante jamais mostrou no Power Point: mais fundamental do que rentabilizar o conteúdo é catar os cabelos que caem no banheiro.
Eu entendo sobre cabelos, qualquer mulher entende: se não cortar de dois em dois meses aparecem pontas duplas, um pouquinho de silicone diminui o frizz, mas os danos mortais que os malditos fios que te custam uma fortuna causam no encanamento a Marie Claire não conta. Nunca li na Vogue como abrir o sifão da pia que inundou o banheiro branco decorado com vidrotil. Sei lá onde é o sifão!
Por isso acabei eu, cabelo hidratado com Alfaparf, trocentos cursos no currículo, bombeando um desentupidor no tanque enquanto meu pai, agachado com um plástico enrolado em uma mão e chave de fenda na outra, tentava eliminar o odor de fossa que acabou com minha essência comprada na Daslu Home. Com toda a paciência do mundo o homem puxava gremlings do buraco negro e pensava “se não sair uma cabeça daqui, a minha filha tem um problema capilar”. Ou “essa menina precisa de um marido”.
Amanhã tem reunião de condomínio, talvez seja uma boa idéia seduzir o vizinho.

10.5.09

Jogo da vida

Elas não são sócias da Light, juram que banho depois da comida entorta, sabem as estatísticas de morte de filhos por raio na piscina e vão dançar com a cabeça inclinada e os braços meio dobrados o Hey Jude do karaokê.
Quando você menos esperar, vai estar igualzinha a ela. E antes disso vai perceber que ela sempre foi bem parecida com você.
Feliz dia tribuneiro das mães.

8.5.09

Animal cão

E lá fomos eu e o cachorro ao médico. Por uma questão de especialização, na plaquinha do dele dizia veterinário e, na do meu, cirurgião (apesar do dele também operar e do meu também lidar com instintos animais).
O bichinho já é cego e surdo, eu já sou estressada e medrosa, mas nos dois apareceram bolas que mais pareciam corcovas e se não quiséssemos virar dromedários teríamos que extirpá-las.
- Está nervoso?
- Um pouco, e você?
- Vai dar certo, eu seguro a sua pata e você lambe a minha mão. Mas não morde ninguém.
- Ok. Nem você.


Às vezes o nunca mais não é exagero, é certeza. Não tem palavra. Não tem alívio pro vazio, principalmente pro vazio deixado por quem aliviava o caos do mundo. Quanto sentimento por um bichinho genioso.
Parecia uma nuvenzinha, um poodle de escova. Nos momentos menos higiênicos, uma estopa. A bolinha champagne chegou há tanto tempo que não dá mais pra contar uma história, ela se mistura com a minha. No nosso amor sem alardes talvez fôssemos presença fundamental na vida um do outro, eu o procurava pra fazer carinho, ele se apossava do meu travesseiro. Ele sentava se equilibrando com as patas em volta da minha mão enquanto tínhamos conversas assim:

Eu prometi que você não sofreria, cãozinho. Gente não escolhe sofrer ou não, mas você, deixa que eu protejo. Encara como um agradecimento às tantas vezes em que aturou quietinho eu te amassando em um abraço. Em troca de me eleger o melhor escudo humano contra implicâncias alheias, só precisei te apoiar durante a dor de barriga causada por um medalhão à piamontese. Foi uma relação bem equilibrada.
Há muito você já não me faz mais de apoio para suas espreguiçadas, não pula no meu colo amassando o jornal com a total falta de cerimônia de quem sabe que é o dono da gente. Se abaixo e te encaro não preciso mais desviar como ninja das suas investidas pra lamber minha cara.
Queria ver você pulando em volta de si mesmo até tropeçar quando a porta abre, ouvir os latidos escandalosos que ficaram lá no passado. De barulho, pra mim, só sobraram suas unhas no assoalho. Pra você não sobrou nada. Que diferença? Nunca atendeu ao nosso chamado mesmo. Você só vinha quando queria, e quando queria era a criaturinha mais companheira que eu já tive.
Não tinha isso de “cachorro, vamos brincar agora”, só brincava se quisesse. Correr atrás de bolinha nem pensar, pra quê o trabalho de buscar e vê-la sendo isolada de novo? Preferia sentar à mesa e comer pão com manteiga! Se estava dormindo, estava dormindo, ponto final, smplesmente não queria ser incomodado. Às vezes corria pela casa como se tivesse tomado um ácido, em outras horas ficava sozinho brincando com o vento. Criou bem seu mundinho particular em meio a tantas crianças, agüentava ser jogado pelos ares numa boa e quando passavam do limite rosnava como uma fera me fazendo pensar – um dia ele ataca. Esse era você ou era eu? Você, bem mais controlado.

Não publiquei o texto lá de cima esperando o dia do meu exame. Foi hoje de manhã, mas você foi ontem à tarde. Vou operar minha corcova. E nunca mais vou te esquecer.

1.5.09

30.4.09

Are you George Clooney?

Os sinais que mostram que você envelheceu não são os valorizados por campanhas de cosméticos politicamente corretas, para a pele os laboratórios desenvolvem milhares de cremes milionários. Irreversível é quando o caçula responde que sua perna não está com taaanta celulite assim, “é que você não tem mais vinte anos”. A estagiária nunca ouviu falar em Juba e Lula. Você tenta jogar XBox e percebe que está pulando com o controle na mão igualzinho a sua mãe fazia com o Mario Bros. Mas é quando lê a lista das 100 pessoas mais bonitas do ano da revista People que se dá conta da gravidade da situação: quem é Nick Jonas? Robert Pattinson? Não só você ignora por completo esses galãs como se assusta ao ver a foto: homem bonito? Mas é um menino! E todo descabelado! Já esse Secretário do Tesouro americano, uhn, interessante...
O próximo passo é comprar uma máquina de Nespresso.

22.4.09

Lerê lerê...

Era a taça do mundo ali na minha frente, se esticasse os braços e perdesse a sanidade eu poderia levantá-la tal qual Cafu e mostrar minha camiseta 100% Jardim Irene. Como todos agiram de forma blasé, também fingi que aquele encontro era normal. Ao lado dela, três homens engravatados certamente estavam lendo meus pensamentos - eram os seguranças. Tem gente que vive de proteger a taça! É como se ela fosse a Angelina Jolie, com a diferença de que por onde passa não adota bebês.
Eu sei, era a taça do mundo, ela brilha muito mais do que eu imaginava apesar de jamais ter imaginado algum dia estarmos tão perto, mas como uma criancinha deslumbrada saí olhando para o resto do estúdio. Dois homens com TVs enormes na frente e microfones assistiam a um jogo e conversavam sobre isso. Não tinham uma cerveja na mão nem palavras chulas à disposição, mas estavam comentando Porto x Manchester United ao vivo para todo o Brasil. Tem gente que vive de ver futebol! É como se me oferecessem dinheiro para ficar falando sobre Grey´s Anatomy.
O hotel Andaz, em Londres, contratou um novo profissional. Os hóspedes escolhem um livro em um cardápio de 25 títulos e Damien Barr lê para eles durante uma hora. Ele trabalha uniformizado - de pijamas – e só não pode deitar na cama nem fazer vozes diferentes para cada personagem.
É isso, Damien vive de contar histórias. Alguém vai ser o zelador de uma ilha paradisíaca na Austrália. Tem gente que vive de escrever os quadrinhos do Snoopy, treinar golfinhos no Sea World, ser acrobata no Cirque du Soleil, coreografar os shows da Madonna, alfabetizar crianças no sertão.
Às vezes parece que nem todas as histórias estão listadas no cardápio.

13.4.09

Dedicatória

"Todo amor que eu amei no fundo dediquei a mim e a mais ninguém".

E se eu hesitar em te pedir para ficar?
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