22.3.09

Vem kafka comigo (mais uma da série Lar, salgado lar)

Eu até queria ser veterinária quando crescesse. Lido bem com animais em suas diversas formas, mais ou menos humanizados, vacas, burros, cachorros e galinhas, mas invertebrados não são animais. Invertebrados fazem parte da cadeia alimentar, mas com tanto desenvolvimento estranho que ninguém tenha pensado em substituí-los por pílulas ou readequar o ecossistema de forma que nós, habitantes de selvas de pedra, não precisássemos conviver com eles, coisinhas do mato.

Pombos não são invertebrados, mas também não são necessários por aqui. Cada vez mais, inclusive, perdem a noção do perigo: atravessam a rua como se fossem pedestres, vão à praia como se cantassem “separa um lugar nessa areia, nós vamos chacoalhar essa aldeia”, dão vôos rasantes como se fossem terroristas. Como não existe filhote de pombo suponho que o ajuntamento de ratos de asas que escolheu a minha janela para viver caracterize uma quadrilha, já que família eles não podem ser. Todos os dias, bem cedinho, os desgracentos começavam a fazer barulhos que pareciam um tórrido ato de acasalamento ou que estavam todos engasgados. Veneno, saco plástico esvoaçante, praga, tudo em vão. Há quem coloque grade na casa para afugentar ladrões, eu fui obrigada a me cercar contra pombos.

Afugentados os piolhentos, passei a desfrutar da delícia do meu lar até elas chegarem. Vivia com uma vassoura atrás da porta e não era simpatia para afastar visitas chatas, mas uma arma. Entrava em casa era vassoura em uma mão, Baigon na outra. Foram seis baratas em quatro meses e não era o calor, a chuva que sempre fechou o verão sem inundar a cidade de artrópodes, sujeira, era uma invasão, tal qual os pombos elas ficaram abusadas, debochadas até. Uma apareceu morta às sete da manhã, barriga pra cima, patas pro ar. Alguém invadiu a casa na calada da noite e exterminou uma barata? Um ataque cardíaco fulminante a levou antes que a nojenta alcançasse meus aposentos? O que fazia uma barata defunta na porta do meu sagrado quarto? Quando aproximei o saco-rabecão para recolher o corpo eis que a cascuda deu um 180, voltou do mundo dos mortos e correu para o meu edredom! É muita audácia. Ou alguém acha que havia uma barata dormindo tal qual um cachorro na porta do meu quarto? Queria ser minha barata de estimação, pedia festinha na barriga? Não, queria zombar de mim. Guerra oficialmente declarada, 2696969 chegou como Ghostbusters, if there’s something strange in the neighboorhood tinha, é passado, elas podem resistir à radiação, mas não resistiriam à minha fúria.

Precisei me preparar para tudo, quem seriam os próximos sem terra invasores de propriedades? Morcegos? Ratos? Lagartixas dissimuladas usando a desculpa de que trazem dinheiro? Não caio nessa. Na minha casa só entra quem eu convido e todos devem ter um número mínimo de ossos e nenhuma pena. Até que um dia um objeto voador verde chegou e eu amarelei. Era uma esperança. Não poderia matar a esperança no meio da sala! Viveríamos ali, ela e eu, até que a bendita decidisse bater asas e voar janela afora, o que poderia ser muito dramático, mas eu estava preparada para não encarar o fato simbolicamente. Acontece que a idiota ficou louca, começou a se jogar contra as paredes, foi de encontro ao ventilador, na casa de mais quem poderia existir uma esperança suicida? (mais uma, meu Deus, é essa a razão da felicidade do meu terapeuta milionário.) Ela se estatelou no chão. Eu preferia mil tsunamis a recolher restos mortais de esperança, só porque uma moça riu no supermercado ao me ouvir pedir duzentos gramas de Solidão mudei a marca do queijo minas, não quero dar sinais ao mundo, vai que ele também interpreta que agora desejo carregar sentimento em sacos plásticos!

Desesperada, me aproximei do cadáver e a verdade apareceu: era um grilo! Acabei com um grilo que havia na minha vida! Depois descobri que o inseto era um louva deus, mas quem se importa? Pra mim era um grilo e simbolicamente cancelei a terapia da semana.

18.3.09

Na primeira vez a gente sempre esquece

Ele não vai ser sempre perfeito daquele jeito, nem vai te achar tão encantadora. Não vai para sempre perguntar como diabos você não tem um marido que te trata como uma rainha nem você vai pensar se é mesmo possível tudo aquilo estar disponível nos dias de hoje. Não passa pela sua cabeça que não vai durar muito ele estar impressionado porque a menina mais linda do planeta está sem nenhum macho cercando. Que precisa acordar cedo no dia seguinte. Que já deveria estar em casa há horas.

Esquece de filtrar todo aquele charme e racionalizar se existe algum futuro. Nem por um segundo cogita a possibilidade de por trás de tanto empenho existir um psicopata dependente e ciumento, que ele pode ser um grande mentiroso e destruir seu coração em poucos dias, que da última vez jurou nunca mais ser boba assim, que há pouco tempo estava acabando com o estoque de lenços secando o vale de lágrimas derramado por quem começou exatamente do mesmo jeito. Esquece que juraram que você ia adorar o amigo dele que ninguém lembra mais onde foi parar, que ele vai te roubar o prazer da solidão, que vai passar essa vontade ingênua de ficar e não pensar em nada.

Esquece completamente que precisa disfarçar a taquicardia, falar menos e parar de esbarrar nele. Que daqui a pouco ele não vai mais precisar inventar motivo para tocar em você. Nem nota que milhares de vezes ele vai pensar em te beijar e desistir com medo de ser precipitado, que existem pessoas ao redor reparando no seu sorriso bobo e que você não pára de mexer no cabelo. Esquece que os olhos dele nem sempre vão estar te seguindo, que a música está alta mas ninguém ao redor está falando assim tão perto do ouvido alheio, que nem sempre ele vai pagar mais uma bebida torcendo para aquilo dar um porre de coragem.

Esquece de guardar um pouco dessa versão adorável de si mesma para depois, esquece que ele não vai falar de você pros amigos com reticências e uma gargalhada sem graça todas as vezes, não vai se culpar por ter perdido tanto tempo com as outras tendo você tão perto. Que aquela aranhinha na parede vai considerar usá-los como suporte pra a teia se vocês demorarem mais algumas horas conversando ali. Que as suas amigas estão dormindo no carro esperando você chegar flutuando, que se você ficar mais feliz vai começar a pular e isso vai ser estranho.

Esquece que isso não acontece todo dia, nem por toda a vida.
Na próxima vez, tenta lembrar. E não se esquece de guardar para sempre.


Publicado em Seu Martin 1

10.3.09

Mais que uma Brastemp

Largue o Jornal do Vaticano e corra! Queima de estoque aqui no Tribuneiros, toda as máquinas de lavar em promoção! Porque na minha pós-anos-60 vida de mulher independente a pílula foi responsável por besteiras muito mais catastróficas do que a Brastemp. (o que é um vestido manchado comparado ao desgraçado que disse que eu era especial?)

28.2.09

Meu caro amigo

Eu acordei cantando às seis e meia, você não pode dizer que não vai voltar. Respondi às mensagens no celular, vesti a fantasia de pirata, sentei no posto para esperar o táxi que traria Popeye e Super Mouse.
- Bom dia, dona Bruna.
- Bom dia, porteiro.
Alguns vizinhos passeavam com os cachorros, os frentistas atendiam um carro ou outro, os entregadores levavam os pães fresquinhos. Em pouco tempo o sol estaria ainda mais quente do que as bisnaguinhas, e tudo bem.

Eu gosto de ficar perto da bateria, corro pra comprar cerveja, furo embaixo da garrafinha de água pra jogar no rosto, roubo um gelo do ambulante pra resfriar a nuca e volto pra perto do surdo. No dia em que estávamos de chapéus de mágico não precisei subir nos carros para encontrar os outros, temos que fazer mais roupas assim. Colocaram banheiros químicos agora, sabia? Funcionam! Um porco ou outro prefere os postes, fazer o quê?

Éramos tantos juntos que as ruas pareciam um salão. No próximo ano vamos fazer um baile com orquestra e todos de preto e branco? Vou esperar você voltar e planejamos. Hoje vou ver o desfile da Mangueira. Depois, não sei. Não sei se isso ainda dura muitos anos. Na última noite os garçons do Jobi seguravam as mãos de quem batucava nas mesas “ô, o Rio é melhor que Salvador”. Acho que estavam mais preocupados com a disseminação da notícia do que da arruaça pelo bar. Lembra que no Caneco também não podia batucar nas mesas? Hoje o Caneco é um prédio de arquitetura bastante duvidosa e eu ainda digo que vou à praia em frente a ele. Não sei se um dia acharemos tudo apertado, de novo essa música, gente suada.

Não cheguei a tempo de exaltar o Rei na Urca, você viu que ele saudou os foliões na janela? Tínhamos combinado de chorar nessa hora, mas paramos para um mergulho na praia e acabou que não chorei nem quando a Teresa Cristina cantou Chico no Último Gole, grávida de explodir. Esqueci. Não senti nenhuma dor por mais de uma música. Levamos cerca de meia hora para dar a volta final na pracinha e confesso que cada pessoa cantava um samba diferente! Eu nem queria pensar nele, mas cantei O Amanhã.

Acho que chorei agora porque me lembrei dele quando falei com você. Não quero lembrar mais do que viver e por isso me esforço para viver tudo como se sempre houvesse pela frente uma quarta-feira. Promete que se um dia estiver nevando em fevereiro, se não houver serpentina nas lojas, se não for normal abelha, joaninha, dálmata e coelho pegarem um ônibus para uma saideira nós nos trancamos no quarto, fantasiamos nossos filhos e ensinamos a eles que cachaça não é água não? Senão eles nunca vão saber porque somos assim.
Senão eles nunca vão saber.

22.2.09

Conto de colombina

“Era uma vez uma donzela que caminhava pela beira de um rio quando ouviu um "psiu". Era um sapo, que lhe contou que na verdade era um príncipe amaldiçoado, transformado em sapo por uma bruxa malvada com poderes mágicos. Se a donzela o beijasse, o sapo voltaria a ser príncipe. A donzela acreditou no sapo, beijou-o, ele se transformou de novo em príncipe e os dois se casaram e viveram felizes para sempre.”

Outras donzelas desde então tiveram a mesma experiência: psiu, sapo, bruxa com poderes mágicos, beijo, tudo igual, variando o desenrolar prévio. A segunda donzela concordou em beijar o sapo para livrá-lo da maldição, com uma condição:
- Beijo de língua, não.
Já neste século instalou-se o instante de hesitação para esclarecer um ponto:
- Precisa ser donzela?
Anos sessenta, moça feminista, pra bruxa com poderes mágicos ter feito o que fez com o príncipe ela só poderia concluir:
- Alguma você andou aprontando!
Solidarizou-se com a bruxa e chutou o sapo.
Crise no mercado, Lehman Brothers, Merrill Lynch, a moça ouviu a proposta do sapo, levou pro seu consultor financeiro, nada é mais valioso do que informação privilegiada como a que o sapo lhe passara.
- Esqueça o sapo e encontre essa bruxa!

Ontem no Céu na Terra. A donzela achou que o sapo estava mais pra cachorro, mas a fantasia dele era muito divertida:
- Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é Carnaval.
Ele embarcou para Salvador, ela seguiu pro Corre Atrás, feliz para sempre.

"Amanhã tudo volta ao normal, deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar..."

Versão de Bruna para Versões do Veríssimo, com todo o respeito

17.2.09

Me leva que eu vou

Aplausos ao cancioneiro, é Carnaval aqui no Tribuneiros!

12.2.09

Avalanche (ou bolha de sabão)

Eu sempre acho que não te beijei o suficiente. Porque toda vez é a última até que vem a próxima e vai dar tão errado porque parece tão errado mesmo quando é tão certo que não tem razão continuar, e onde falta razão sobra um beijo, um toque, um cheiro e um desejo que não passa e se ao menos você fizesse o que o mundo me alerta que você vai fazer ajudaria, mas você segue sendo isso que você é e tira meu fôlego e desperta meus sentidos e traz de volta poesia pra minha vida. Aí quando vejo você está aqui e eu te beijo achando que não beijei o suficiente e checo seus lábios, seus braços, seu peito e desrespeito o acordo que fiz com o não e abro a porta e você vai. E deixa esse cheiro. E esse sorriso. E esse "eu acho que vai ser a última vez" e hoje vai. Então arrumo a casa, ajeito a cama, desfaço a bagunça do coração e pela última vez relembro o abraço com força que eu te dei sem querer ver que na verdade... você nunca esteve aqui.

5.2.09

O tal do ataque de nervos

Eu não queria ter te matado, mas a verdade é que você me obrigou. Provocou. Testou meus limites. Desde a época em que você sorria de lado, os olhos semicerrados e um falar bem devagar naquele ritmo hipnotizante que me embriagava só pra estalar os dedos no meio do meu transe e pegar outra na minha cara eu previa isso. Quantas doses virei e bocas beijei em vão! Enquanto eu me achava a mulher mais malandra desse mundo por seduzir um figurante qualquer você usava minha vingança pífia como desculpa para seguir com o seu show.

O copo lindo de cristal espatifado na parede poderia ter ido parar na sua cara de pau por conta da pergunta cretina que sempre ironizava o meu ciúme – “isso é TPM?”. Eu não esqueço, meu anjo, a parte do casal incapaz de lembrar fatos e datas importantes sempre foi você.

Poderia ter sido pior, arrancar a sua cabeça separaria para sempre seus deliciosos lábios do seu confortável tronco onde por tantas noites eu dormi. Isso sim seria injusto, eu sempre soube que um era o perfeito complemento do outro e essa dupla só teria sido usada para o bem se não fosse a influência maligna de outras partes do seu ser. Eu compreendo.

Você teve sorte, coração, uma sobrevida longa e bem aproveitada desde a primeira vez em que me fez de boba. Um cara aí do trabalho não ligaria tantas vezes a menos que a empresa estivesse em chamas, e incêndios que requerem a presença de homens como você no meio da noite normalmente só acontecem na cama de vagabundas.

Por que negar, amor? Eu já tinha perdoado sua indiferença às minhas perguntas, os quarenta e três minutos ignorando meu discurso, aqueles homens correndo atrás da bola desviando seu olhar de mim, já estava tudo sob controle! Era só pedir desculpas e dizer que me amava, mas “paranóica” é uma acusação grave. Falta para cartão! Nessa linguagem você entende, baby? Convenhamos: antes ser descompensada do que cega, não é? Pensa bem, se eu fosse desprovida de visão teria sido a única mulher no Rio de Janeiro a perder o espetáculo que era você sem camisa jogando pelada com os amigos na praia, olha como o seu exibicionismo teria sido desperdiçado!

Até você parar de negar eu já tinha pensado várias vezes se conseguiria te atirar pela janela, mas a partir da sua confissão estávamos indo bem. Por que soltar aquela frase, meu amor? Estaria você possuído por alguma entidade? Quem em sã consciência pronuncia as palavras “é por você ser assim que eu acabei me apaixonando por ela”? Seria uma tentativa velada de suicídio? Você realmente fez isso comigo?

Minhas mãos milagrosas que você tanto gostava, as unhas vermelhas que antes te acariciavam apertaram a sua goela e agora, querido, você nunca mais vai me enlouquecer. Eu avisei que um dia essa fase ia passar.

28.1.09

Mentiras sinceras

Se eu não lembro, não fiz.
Se eu não vi, desconfio.
Se eu não gostei, invento.
Se eu escrevi, lê? Está aqui no Tribuneiros.

23.1.09

Where did you come from

Na primeira vez a casa estava aberta pra quem quisesse entrar e isso ainda não era licença poética, só quase uma bifurcação no meu caminho. Na piscina tinha um João-bobo, no isopor cerveja, na sauna acerto de contas. Lá embaixo tinha uma praia pequenininha e bonita de querer largar o escritório. Era tanta gente que parecia ocupar toda a areia. Como eles vão saber quem eu sou? Não tinha crachá. Para voltar era uma escada enorme e alguém avisou: aqui tem que ter fôlego. Em pouco tempo apareceram instrumentos musicais e as pessoas passaram a brincar na piscina e dançar na mesa. Eu fiquei espantada – o que mais tem que ter aqui?

Tem que ter muita gente de todo lugar, gente nova e gente velha, gente com espírito de sacanear e coração aberto para agregar. Gente que se não tem tampinha bebe na garrafa, se não tem cajon liga o som, se não tem a presença apela pro telefone. Gente que voltou a zoar e gente que nunca parou, gente que pula, que grita, que beija e que briga, gente que sempre toma conta de tudo e gente que não sabe nem de si mesmo, gente tentando, gente lembrando, gente entendendo.

E gente pode ser complicado. Às vezes gente disfarça de ódio bom a alegria arrebatadora no coração, de indiferença a preocupação, de cansaço físico a exaustão do peito. We are the world em revelações comprometedoras, imagem, ação, mímica e dança. Pra essa gente tem que ter alguma chance de dar merda, e às vezes dá. Tem que ter abraço, amasso, compasso, música lenta e show de calouros, Dirty Dancing e Jackson Five, Cindy Lauper e Ronaldo Boscoli. Tem que ser criança pra se lembrar do Chico Bento, saber a letra de Manequim, imitar as Paquitas e pedir colo. Tem que ter energético baiano engarrafado ou no Ipod, gim, batida, cerveja, vinho rosé, vodka ou só Cotton-eyed Joe no som.

Tem que subir na mesa e se esquecer da vida. Tem que ter limão, misto quente e Gran Padano. A família que a gente tem ou a família que a gente faz, uma plantação de melancias, memórias de um sargento de milícias e pôr-do-sol no deck. Um helicóptero pra resgatar essa gente que não fala nada, que fala muito, gente pra quem a gente quer pedir que please don’t go. Gente que enfrenta zoação mas não encara aranha, pra quem a noite pode virar histórica só com um pouco de carvão e bom humor, gente que vem do seu fantástico mundo trazendo gargalhadas de souvenir. Gente que não precisa de crachá.

Tem que ter o brilho do luar em sintonia com o mar, gente que se fala no olhar e caminha no mesmo lugar. Gente com tanto querer que faz até a terra tremer sem pressa nem medo de errar. Tem que ter sol no meu amanhecer.

Eu nunca pensei que aquela bifurcação levasse ao dia em que eu só tivesse que ter vocês.

13.1.09

Aaaaabacaxi

A garotinha estava enfurecida, baldinho na mão, e gritava "Pedro Henrique" na beira do mar como se o amiguinho fosse seu cachorro. Pedro Henrique estava feliz da vida pegando jacaré.
– Não adianta, ele não quer brincar agora, filha. Faz seu castelinho sozinha, ele vai ver que é divertido e vem brincar com você.
Mas ela estava desolada.
- E se mesmo assim ele não quiser?
Crianças, tão dramáticas...
- Aí você arruma outro amiguinho.

No sábado seguinte Manu conheceu a Julia e foram felizes por muitas praias. Agora a mãe pensa em comprar uma prancha de surf pra menina.
Adultos, tão condicionados...

11.1.09

Quem sabe

Você não sabe que eu começo a ler o jornal pelos quadrinhos. Eu não sei se você come cebola. Não sei se você toma banho de manhã e você não sabe que eu abaixo o radio quando tem blitz. Que eu tomo mais leite que um bezerro recém-nascido, molho os punhos antes de mergulhar e que gosto da carne assada fria no pão quente. Não sei se o seu ar condicionado congela ou você prefere vento no rosto. Nunca pensei se você deixa a TV ligada enquanto está se arrumando. Você não sabe que é Paul, marguerita e meditação e não John, calabresa e missa. Que as chaves sempre somem na bolsa. Não sei se você deixa bilhetes pra empregada, não sei se você sempre repara, você nunca percebeu que eu tento não me importar. Você não sabe que eu canto I’ll let you stay with me if you surrender. Não sei se o molho é à parte, se pode ter rúcula na salada, se o bife é ao ponto. Nunca perguntei onde você estava quando o Senna morreu, você nunca reparou que eu não tomo chopp e que estaciono bem. Eu sei que você me tira do rumo, você sabe que eu respiro fundo.

30.12.08

Andar com fé

Que 2009 seja uma fonte inesgotável de textos.
Para garantir, simpatias infalíveis no Tribuneiros (clique aqui). Afinal, simpatia é quase amor!

27.12.08

Talk to me now I'm older

Mexendo em fotos antigas, Bruna grande é desafiada pela pequena Bruna:
- Você ainda mora com meus pais? Não me diga que casou e se acomodou, não planejei ser uma Amélia sentimentalóide. Você é uma super profissional mega ocupada e rica, certo? E o livro, já escreveu? Cadê seus cachorros? Que fotos velhas nesse mural, não tem de festinhas mais atuais? Tão poucas pessoas. Você já é meio velha, mas tem uma cara de criança...

Bruna pequena não costumava falar assim com os outros, era quase uma diplomata. Releva, ela deve estar estressada... Não, tanta petulância merece uma resposta sincera!

- Quando crescer você vai fazer metade das coisas que sempre disse que não faria porque não quer ter razão, uhuuu, quer ser feliz! (mesmo que cisme que sua felicidade está do lado oposto ao que a seta indica). Vai realizar seus sonhos e se desapontar várias vezes, preferir manter suas ilusões porque são elas que geram energia para fazer o que está a seu alcance.
A vida é dura até para quem não é mole e acaba sendo uma sucessão de “fiz o melhor que pude”. Você vai perdoar pessoas que cometeram erros imperdoáveis e vai conviver com outras que não tem nada a ver com seus valores. Vai voltar atrás em decisões que antes pareciam as mais certas, vai brigar com quem não merece e passar por cima de mancadas de quem merecia um soco na cara. Você vai mentir mesmo que isso faça doer seu coração, vai se tornar uma ótima atriz de tanto se exercitar. Milhares de pessoas vão partir seu coração e milhares de vezes você vai querê-las de volta. Outras poucas vão fazer tudo para ter seu coração e você vai fazer o melhor de si para afastá-las. Vai se afastar de quem gostaria que ficasse para sempre do seu lado. Vai descobrir que “para sempre” tem duração limitada. Você vai ser orgulhosa, teimosa, dura demais para tentar não se sentir tão covarde. Não vai saber o que fazer, vai pedir conselhos e fazer exatamente o oposto. Vai descobrir que seus pais têm a mesma idade que você, às vezes menos, e que você tem a exata noção de como viver a vida alheia, mas nenhuma idéia do que fazer com a sua. Você vai ter menos dinheiro do que gostaria, vai realizar menos grandes ações do que planejou, só vai ser ídolo do seu cachorro e nem vai cuidar tanto dele.Você vai aprender que conquistas não são de graça e aos poucos vai descobrir que ser adulto significa preocupação com o futuro. Você vai preferir Paul ao John, vai vencer a batalha contra sua mãe e nunca comer feijão, vai decepcionar seu pai porque não sabe fazer conta, se esforçar para ser mais impulsiva. Mesmo assim você vai achar que vale a pena.
Só faz um favor? Estuda menos, viaja mais.

E a pequena Bruna pergunta:
- Com tudo isso Papai Noel ainda vai trazer nosso presente?
- Vai, e você continua esperando a hora certa de abrí-los na árvore.

*************************

Escrito em dezembro de 2005 e republicado sem atualizar (pra seguir a gente precisa saber como chegou até aqui).
Em 2009, keep walking.

20.12.08

Como conquistar garotas

Alec Greven, de 9 anos, escreveu ‘How to Talk to Girls’. Em 46 páginas o garotinho ensina o que todo homem passa a vida tentando aprender: achar meninas é fácil, elas estão em todas as partes, o pulo do gato é achar a certa para você (exatamente o que eu penso sobre calças jeans).
Clicando aqui para ler os conselhos qualquer leitor tribuneiro vai saber o que precisa para se tornar o muso do verão.
Só falta ter verão.

12.12.08

Reflexões de (mais uma) tarde chuvosa

Conformada com o desaparecimento do verão, olho pela janela cheia de gotas e pensamentos filosóficos inundam minha mente.
As pessoas que lotaram o estádio do Corinthians nessa sexta-feira para ver a chegada do Papai Noel:
a) eram funcionários do Bank of America demitidos por causa da crise, por isso não estavam no trabalho
b) descontaram a manhã do banco de horas
c) eram só aposentados, crianças de férias e dondocas com poodles debaixo do braço
d) Não era o Papai Noel, o gorducho era o Ronaldo e nas arquibancadas eram realmente homens assalariados em idade produtiva, o que não torna o evento um grande encontro de desempregados e ociosos.

O ex-marido-de-Susana-Vieira Marcelo Silva teve os últimos dois anos mais frenéticos da Contigo – conheceu a atriz quando ela era (argh) rainha de bateria, chegou atrasado no casamento, teve apendicite na lua de mel, destruiu um motel na presença de prostitutas e da mãe, foi expulso da PM, teve o dedo arrancado pelo cachorro, traiu a mulher, bateu na amante, foi pra rehab... Atordoadas tentando entender quem é o morto, as pessoas podem ter se esquecido de fazer algumas considerações: o pacote que ele recebeu continha um DVD e seria o ex-PM mais uma vítima da Flora? Por que alguém está hospedado no Transamérica e vai passar a noite com o namorado no Shalimar? Quem volta de um motel de sunga? Como aquele casal paga as contas do Transamérica? Por que todas as pessoas que se hospedam no Transamérica morrem, seja de febre maculosa ou overdose? Poderia o ex-marido ser mais uma vítima de febre maculosa indicando que depois do mosquito da dengue seremos aterrorizados por carrapatos infectados? Por que o Globo definiu essa morte como tragédia? Ana Maria Braga, que esbravejou em seu programa dias atrás que "se esse cafajeste desaparecesse da face da Terra seria um bem", tem alguma coisa a ver com isso? Estaria Ana Maria Braga também envolvida na morte de Gonçalo?

Só falta uma semana para o ano acabar, quem se importa?

8.12.08

Eu e você no futuro do pretérito

Eu poderia estender minha canga na sua praia, beber no seu bar, te tirar pra dançar Chico.
Poderia te convidar para ir ao cinema ver esse filme aqui.
Ou mandaria um texto do Tribuneiros, lê aqui.

2.12.08

When you wish upon a star

Ontem à noite Jupiter e Vênus ficaram bem perto da Lua.










30.11.08

Somos nozes

Ouvi gente perguntando se alguém tem verificado as encostas do Rebouças. Com essas chuvas, vai que desaba tudo de novo... Imagina o túnel fechar logo agora! Enquanto uns se contentavam com o cardápio do Bar Lagoa, logo em frente a opção era muito mais variada: pipoca doce, pipoca salgada, milho, cachorro quente, tapioca, algodão doce, pizza e... frango, a grande novidade deste ano na inauguração da árvore!
O banho de chuva não atrapalhou Elba Ramalho e seu banho de cheiro, só o show da Orquestra Sinfônica. O público dessa festa gosta da Orquestra Sinfônica? Agora a árvore toca música. Ouvi só canções natalinas, mas não posso garantir que funk, axé, forró e gospel estejam fora do repertório. Como a melodia vai soar diariamente em três horários, os privilegiados moradores do bairro podem colaborar com esse site respondendo à minha duvida. Tem um mês pela frente para descobrirem, não precisam se apressar.
No nada apressado caminho de volta pra casa aproveitei para aprender o nome de vários lugares através das placas dos carros – quem disse que árvore não é cultura? Já contabilizei 5 fechadas. Nenhuma causou acidente, dezembro no Rio é o mês perfeito para treinar o lema dos escoteiros – sempre alerta! O melhor de tudo: não me irritei, é Natal, o símbolo máximo da festividade iluminada e agora sonorizada torna tudo mais singelo. Eu fico, sem dúvida, uma pessoa melhor enquanto ela está ali, soberana, rodeada de pedalinhos, carrinhos engarrafadinhos e ambulantezinhos.
Ah, a festa é sua, é nossa, é de quem vier! Que venham os amigo-ocultos e eventos corporativos de fim de ano.

24.11.08

É?

Tem quase um ano aquela frase - Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro*...".

Ele mandou por que era aniversário dela ou por que se lembrou da nossa conversa sobre a razão da arte? Era a razão da arte ou se o mundo estava melhorando? Pelo visto tínhamos várias conversas. No fundo eu ainda devo sentir alguma saudade que assim que a mágoa passar vai ser mais bem resolvida por tornar-se uma assumida nostalgia gostosa dos tempos que não cabem mais. Tínhamos o mesmo amor um pelo outro, e o reconhecimento e incrível registro dessa certeza são alterações milenares em um ser traumatizado pelo não-amor.

O tempo altera, mas é preciso algum esforço conivente. A gente não esquece, engaveta. Quando der, reveja os guardados (não queime as fotos). Mas cuidado, testar limites é diferente de auto-sabotagem. Sonho com o dia em que assoprarei o pó acumulado como quem reencontra uma velha caixinha de música esquecida no porão.

Ainda dói assim mesmo ou dói lembrar-se da dor? Dói dentro do peito, vontade de se dar um nó pra desatar o nó. Cabeça que vai de encontro a joelho. Quase vertigem. Nossa... Calma. Lembra? Está tudo bem. Perdão é um sorriso sincero. Ainda vou te abraçar com carinho. Agora fecha essa gaveta, se dá mais um ano. Essa saudade não é real, é só seu coração pedindo água.

No fundo pouca gente está querendo alterar as coisas, mas eu quero tanto que quis um canto.

E desabrochar não altera?

**Eu quis te conhecer mas tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
Pode ser cruel a eternidade
Eu ando em frente por sentir vontade


*Clarice Lispector
** Camelo (ainda mudo o autor desse blog.)

19.11.08

Para o nosso bem

Na Leader Magazine, 19 de novembro.
Faltam 10 dias.

12.11.08

A boa de hoje

Don't you feel it growin', day by day
People gettin' ready for the news
Some are happy, some are sad
We got to let the music play
What the people need
Is a way to make 'em smile
It ain't so hard to do if you know how...

Leia o texto, listen to the music e dance your blues away em Tribuneiros.com

3.11.08

Modinha de moça

É assim mesmo, rapaz. Esse olhar comprido eu conheço bem. Quem mandou não me querer? E dessa vez eu vou lembrar porque sempre esqueço e me convenço de que não sou capaz.
Tem problema não. Tem raiva não, mágoa não, tem é nada, só um achar graça e um tantinho de orgulho, assim, uma pontada.
O tanto que eu tentei, as vezes que eu liguei. Liga não, moça, que mulher tem que ser difícil. Então melhor eu nascer outra mulher, essa aqui dá mais bola que candidato em dia de comício.
Mas você desprezou, fez que era complicado quando enjoou. Acha que eu não sei? Teve complicação nenhuma, foi só mais um que me machucou.
Moça nova aceita muita bobagem. Quê isso de modernidade, eu só queria um pouquinho de atenção pra aplacar minha saudade. E quando é assim não tem novidade, moça é boba em tudo que é idade.
E não é que eu previ? Que depois que a lágrima secou eu entendi? Demorou um nada e tava você ali. É assim mesmo, rapaz, isso tudo eu já vivi.
Agora você ficou pra trás. Que eu também, Camelo, não sou porta de cinema pra dar cartaz.

1.11.08

Um dedim di prosa

“Já reparou que quando não tem ninguém tudo pode?”. A vida de solteiro derruba a tese de que não existe vento favorável para quem não sabe onde quer chegar. Dali a pouco ela sugeriria ir para Cabo Frio quando acabasse o almoço.

Na mesa ao lado já tinha um sapo, um cachorro, um gato e um rato, eu teria que ser o porco - “você vai parecer a Miss Piggy!”. Quem quer parecer a Miss Piggy numa festa da empresa?

Sentados no palco, os gerentes precisavam de uma frase motivacional para fechar o painel. “Ao infinito, e além”, soltou um, e a moça cutucou o colega: “Não é o Superman que fala isso?’. Ainda vão fazer uma tese sobre o Buzz Lightyear e o homem de ferro.

O primeiro desafio dos grupos era fazer um filme. Se ninguém imaginava lobos e madrastas quando te perguntavam há cinco anos como você estaria hoje, por que insistem em perguntar?

O casal de velhinhos portugueses se hospedou no melhor hotel de Tiradentes, e alheio à convenção tomava o café quando viu passar 42 anões, 6 Brancas de Neve e 18 porquinhos. (Estava mesmo no guia que em Minas tem muita cachaça).

Só um porquinho tinha máscara. Já reparou que quando não é tão sério tudo dá certo?

Os porquinhos compraram ações com a indenização que receberam pela perda das casas, a Bolsa despencou e eles se disfarçaram de leitão à pururuca para seqüestrar a Branca de Neve, que continuava rica graças à construção de condomínios para deficientes físicos. (Talvez tenha mesmo muita cachaça em Minas). Já reparou que não precisa de MBA pra falar besteira?

No meio da festa a caldeira do hotel pegou fogo e o estrago só não foi maior porque os bombeiros agiram rápido. Na manhã seguinte alguns comentariam que aquela galera que alugou até carro com mangueira merecia ter ganhado o concurso de fantasia.

Duas da madrugada de quinta-feira, alguns resolveram ir para a boite da cidade vizinha. O coitado que ficou pra trás estava inconsolável. “Eles vão inventar que foi irado e eu vou ter que ouvir.” Já reparou que homem é um ser muito complexo?

Antigamente ninguém perguntava qual era a motivação do lobo ou analisava sua vida pregressa. Já reparou que isso não faz nenhuma diferença na história?

26.10.08

Espero a manhã que cante

Vi gente de verde ontem. Vi adesivos pela cidade mesmo que a minha seja reduzida a poucas ruas. Vi uma carreata do novo prefeito ser esmagada pelas vaias dos bebedores do Jobi que contagiaram todos os clientes dos outros bares e de repente eles viraram cidadãos. Vi minha caixa de email lotar com defesas e historias. Me vi pensando como faria aquelas mensagens chegarem a quem ainda não votaria nele. Vi o cara do jornal dizer que foram cinqüenta mil votos a menos.
Parece que eu perdi a Copa. E Copa não resolve nada, quando acaba a gente diz que tem mais daqui a quatro anos. Ah é, eleição também... Mas nesse tempo a gente faz o quê? Como começar de novo se parecia que aqui começaríamos agora! É um movimento, ele diz, agradecido à população e se dizendo personificação de um recado carioca. É...
Mas o Rio esquece, vai à praia, toma uma cerveja, o Flamengo ganha e a gente se vê, passa lá em casa, deixa o recado com o cara da barraca. Não existe hora marcada na cidade maravilhosa.
É um movimento... Tá. Quem sabe uma canção do mar.

24.10.08

Mensagens em garrafas

Pinturas rupestres em marcos históricos, siga por esse caminho.

9.10.08

2 ou 3 coisas antes de partir

Que um dia eu vou ter dinheiro para ver a vida passar na varanda de um café lendo jornal sem pensar na Bolsa.
Que com poucos euros come-se uma baguette avec jambon e fromage, leia-se ementhal. Ou avec la chevre. Um crepe de chocolat vendido em qualquer balcão é magnifique.
Que lá quando as pessoas não conseguem fazer o que você pede ficam desoleé!
Que toda mulher se sente uma dama sendo chamada de Madamme.
Que ao acordar deve-se procurar saber o que está em greve naquele dia. Sempre tem alguma coisa em greve.
Que ninguém é servil, nem os pedintes.
Que o povo é tão indignado que há uns anos alguns eram contra a candidatura da cidade a sede das Olimpiadas porque o esporte não precisa de patrocinadores mercenários pequeno-burgueses.
Que tem mais câmera fotográfica do que gente por metro quadrado, e já se ouve mais inglês do que deveria nas ruas.
Que o Sena com a Notre Dame ao lado é o lugar mais bonito.
Que o Moulin Rouge não é legal e fica cercado de puteiros.
Que o metrô deveria ser menos eficiente para sermos obrigados a andar mais de ônibus. Debaixo da terra impressiona a praticidade mas perde-se a vista.
Que nenhuma tristeza resiste a um passeio pelo Champs Elyseés.
Que alguns museus têm desconto para os desempregados. Pode-se não ter trabalho, mas não ter cultura, jamais.
Que não o verbo “flanar” foi redefinido ali.
Que o amor de Rodin e Camille Claudel foi tão grande que escorreu pelas obras.
Que a pintura de Chagall parece sonho.
Que o melhor lugar para se tirar uma foto da Torre é no Trocadero.
Que o título completo do filme de Jean-Luc Godard é “Duas ou três coisas que sei dela: a região parisiense”, que originou uma cronica de Mario Sergio Conti, de quem roubei a idéia.

Na volta tem mais, au revoir!

30.9.08

E o mundo não se acabou

Será que me doparam? Um complô do meu terapeuta com meus amigos que temiam uma avalanche de avaliações! Será que entrei em um processo de negação, finjo não ver a realidade para não precisar lidar com ela? Tentei mentalizar - conta corrente de cliente da Ricardo Eletro, nenhum marido, sem nome escolhido para os futuros filhos, estrias e celulites democraticamente distribuídas pelo corpo, litros de corretivo para disfarçar manchas na pele, geladeira com vodka e requeijão, profundo conhecimento de homens tipo “a gente precisa conversar”, um tanque entupido porque prendeu um Perfex no buraco – se não é Prozac que me mantém calma, só pode ser autismo.
E la nave va, sem crise, mais velha, mas ainda em Tribuneiros.com.

22.9.08

Alta costura

"A roupa mais bonita para vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama. Para as que não tiveram essa felicidade, eu estou aqui."
Yves Saint Laurent

18.9.08

Uma Brastemp (da série Lar, salgado lar)

Você já viveu em função dos seus pais, em função do seu trabalho, já definiu ações na vida baseada em homens que mal definiam o que faziam ali, mas quando percebe que depende da máquina de lavar, nota que tem alguma coisa errada nisso.

Pra começar ela é enorme e isso deve ter a ver com a vontade de aparecer – máquina de lavar gosta de atenção, é praticamente a rainha da casa. Tudo ficando tão pequeno e ela continua aquele elefante? Não existe máquina boa meio-termo, ou é aquela foférrima que só lava lingerie ou são as matronas, casa com pouca gente vive de tanque?

Junto com o manual de instruções vem um Guia Rápido – o que significa que ou o manual é prolixo e desnecessário ou que ninguém vai entender mesmo então melhor se ater ao básico. Primeiro passo: selecione o nível de água – como é que eu vou saber? Nível médio, sem radicalismos. Coloque o sabão no compartimento sem ultrapassar o nível indicado. Como eles sabem o quanto de roupa eu vou lavar, é a mesma quantidade de sabão para a máquina cheia ou vazia? Essa gente não explica nada! Programa de Lavagem – isso deveria ser um quadro da Ana Maria Braga, todo mundo ensina a cozinhar e ninguém ensina a lavar roupa, que burrice. Lavagem Econômica, é essa, nem quero ver as outras opções. Opa, Mais Eficiência? Reaproveitar Água? Essa máquina é ecologicamente correta?

Separe as roupas por tipo, tecido e cor. Tipo de roupa? Tipo calças, blusas, casacos, toalhas? Tenho que lavá-los juntos? Sujar todas as toalhas da casa para lavá-las ao mesmo tempo? Enquanto isso, uso qual? Faço uma planilha para garantir que sempre um jogo fique de suplente enquanto os outros são limpos? Não vou separar por tipo. Tecido. Terei que aprender sobre tecidos para lavar roupa? Seda, malha, organza, tafetá? Jeans e moleton adianta? Não vou separar por tecidos, os que parecerem frágeis serão guardados ad eternum, a partir de hoje só roupa de guerra. Cor. Ah, isso eu sei, essa regra é básica! Branco com branco, preto com preto, coloridos misturados. Bege é colorido? Jeans classifica como azul? Blusa branca com bordado verde e vermelho pertence a que grupo? Deus, uma roupa listrada de preto e branco! E agora, picoto a roupa e recosturo depois?

E assim seu figurino passa a respeitar as regras da Brastemp. Para juntar a quantidade necessária de roupas brancas que satisfaça a máquina você se veste como macumbeira por duas semanas, depois vem a fase dark, preto dos pés à cabeça para poder lavar tudo junto, aí passa dias usando vermelho, rosa, laranja, salmão, grená e vinho, os outros comentam como você anda alegre, fazem piadinha de “esse cara, hein” e é tudo por causa dela. Basicamente você se veste de acordo com a vontade da máquina.

Isso tudo você reflete em 29 minutos, tempo que o Modo Rápido dá de descanso antes que ela devolva as roupas completamente amarfanhadas e você vá pendurá-las seguindo uma lógica toda especial de aplicar pregadores de roupa evitando marcas. Um dia alguém há de criar uma máquina que faça todo o serviço do-armário-ao-armário. E essa genialidade não pode exigir carteira assinada.

No próximo capítulo – Como é lindo meu Perfex (os furinhos de Perfex agarram a sujeira e não soltam mesmo! Depois é só enxaguar e está novo seu Perfex, é genial. O Perfex é praticamente o Google da faxina, uma Brastemp!).

5.9.08

Insensatez

E é por desestruturar meu ato, bagunçar meu quarto e me deixar sem chão que eu treino exaustivamente um jeito blasé de te mandar embora e torço sem muito querer pra logo te esquecer. Porque a paz traz um tédio que você aniquila com um beijo mesmo que nem chegue a tocar meus lábios, se só de te ver me olhar eu já adivinho seu desejo e deixo o resto por conta da imaginação.
Aí eu transformo toda a inconsequência em palavras, deixo no Tribuneiros esperando que você leia e não se livre do pensamento - será que é verdade? Se eu engano tão bem...

Nessa data, querida

Trinta. Como chegamos aqui tão depressa? Nem virar uma tequila fazíamos nessa velocidade!

Quem inventou que trinta é importante? É uma pressão digna de reveillon, tem que se divertir, refletir, não pode passar em branco, socorro! 29 ou 31 dá no mesmo. Calma, prometo que vai passar e vamos voltar ao dia-a-dia de conversas, planos de fins de semana, festas sensacionais, lágrimas torrenciais, macarrão e risoto exatamente como temos feito nos últimos... quantos anos? Já tem uns oito desde que nos conhecemos e você brindou à minha separação dizendo que eu era muito melhor sem ele? Quantos eles já passaram? Nossas figurinhas premiadas, brilhantes e perfumadas que não completam álbum. Quem se importa? Depois que o álbum acaba perde a graça mesmo.

Você conseguiria voltar praquela vida de chegar em casa às seis da manhã? Talvez. A gente ainda acha que vai morrer a cada fim? Acha. Mas por pouco tempo. Que bom, tomara que aos quarenta continue assim.

Eu me lembro do aniversário de trinta anos da minha mãe! Estávamos as três filhas, a babá e a cozinheira preparando a festa e as duas comentavam como ela era jovem. Onde colocaríamos essa gente toda nas nossas casas? Nos nossos dias? Nas nossas cabeças eminhocadas e corações epiléticos? Ela já tinha uma família na minha idade, eu tenho medo de me comprometer com o plano trimestral da academia!

Vi o Waltinho falando sobre pertencimento, a sensação de ser estrangeiro a um mundo, não conseguir fazer parte de algo maior que a gente. Que essa dor existencial tanto pode dizer respeito à falta de um pai quanto de um país. Ou de uma coisa qualquer que tantos passam a vida buscando. Trinta anos é tempo suficiente pra achar? Se você chegar lá não se esquece de me mandar um cartão postal. Pelo que dizem você vai saber tudo agora que é uma mulher feita. Dizem os mais novos. E os mentirosos. Ou os bem rasinhos. Que inveja...

Bom, preciso acabar esse testamento logo porque ainda tenho a casa inteira para varrer. Sabia que é importantíssimo limparmos o ralo do chuveiro? Por que não me avisou? E pensar que tem gente que casa só pra não ter que encarar isso. Desentupir ralo sozinha é fácil, difícil é ficar mais velha sem abraço. Então estamos bem, parabéns! E fica tranqüila que os próximos trinta devem ser mais fáceis, você já aprendeu tudo isso.

Feliz aniversário!

23.8.08

Pergunte ao pó

Tem uns fios espalhados pelo chão da sala que não estavam previstos na decoração, eles acabaram ali pelo mesmo motivo que levou a mesa de jantar a virar escrivaninha e vice-versa. A internet wi-fi não funciona, logo, na minha casa come-se no escritório e trabalha-se na sala de jantar, onde tem ponto de telefone. Pra quem não queria que os talheres previsivelmente ficassem na primeira gaveta é até um bônus no quesito inovação, mas depois de três meses isso já deveria ter sido resolvido.
Acontece que nesse período tive outras preocupações como identificar se os barulhos agoniantes vinham de pombos ou ratos e me livrar deles, aprender a tirar o máximo proveito das comidas antes que elas virassem fungos gigantes e o maior desafio de todos – impedir que os bolinhos de poeira dominassem o apartamento.
Demiti o alergista, na equação de causa e efeito contratar uma empregada seria muito mais inteligente do que tomar bolinhas açucaradas em um quarto infestado de nojeirinhas cinzentas. O espanto é: por que ninguém contou isso antes? Fala-se sobre sabonete íntimo na TV e não sobre pés pretos por andar descalça na cozinha! Depois de descobrir que a poeira é composta por excremento de ácaros, a cada móvel que compro penso que vai ser mais um para arrastar na hora de lutar contra cocô de seres invisíveis.
Fico feliz ao ler que uma pessoa decidiu meditar depois de 20 minutos limpando os ladrilhos do banheiro “sem aceitar que aqueles mofinhos entre eles sejam normais”. Eu ainda não ando de touca em casa, mas já me questionei se todos aqueles fios de cabelo no azulejo branco são meus ou se a vizinha é cabeleireira e varre o lixo pra cá.
Lixo é outro drama universal que envolve diversos fatores – vou ao supermercado, compro comidas, ganho sacos plásticos. Tenho um daqueles puxa-sacos de pendurar na porta em formato de galo e meu galo está com obesidade mórbida. Resolvo aderir à campanha I am not a plastic bag porque nem a quantidade surreal de lixo que produzo diminui a barriga do galo, e olha que a rapidez com que a minha lixeira lota reforça a teoria de que a vizinha joga coisas aqui. Para facilitar, acabei com a lixeira do escritório. Uma pessoa com três lixeiras deve ser responsável por grande parte das mais de cento e cinqüenta mil toneladas de resíduos domiciliares coletados diariamente no Brasil. Agora só banheiro e cozinha, e mesmo assim o estoque de saquinhos plásticos já ameaça a circulação da área de serviço. Definitivamente eu sou uma ameaça ao planeta.

E ainda nem comecei a contar sobre como a máquina de lavar influencia meu figurino...




(to be continued)

18.8.08

I remember when I lost my mind

Anyone that needs what they want
and doesn’t want what they need
I want nothing to do with
And to do what I want
And to do what I please
Is first of my to-do list
But every once in a while I think about her smile
One of the few things that I do miss
But baby I‘ve got to go
Baby I’ve got to know
Baby I’ve got to prove it

Gnarls Barkley, there's life after Crazy

16.8.08

Se eu fosse marinheiro

Arrumar o armário era a forma mais boba de desapego, mas ela se desculpou assumindo que desprender-se de uma paixão unilateral poderia ser a fase 2.0 do processo. Era quase sempre por eles, um dia teria iniciativas e não meras reações, mas hoje cuidaria das calças baggy enfileiradas nos cabides. Valeria como exercício.
Já tinha prometido parar de fumar, e apesar de ter tomado a grande decisão enquanto acendia o último cigarro, jurou que quando terminasse com o próximo homem da sua vida partiria para outra sem mais amor ao romance do que ao ser amado. Enquanto isso, jogaria fora todos os objetos que não queria mais. O primeiro esforço seria não mais querer.

Pensamentos budistas, dicas de faxina e as primeiras lições de como desatar nós! Fascículos colecionáveis já nas bancas dos Tribuneiros.com.

27.7.08

Minhocas, meninas e cucharitas

A vida era fácil no paraíso. Adão marcava pelada com os amigos sábado à noite e Eva simplesmente acreditava, Eva se dava bem com os ex-namorados e Adão não ficava remoendo o fato (em nome da moral da história, finge que existiam esses figurantes). Um dia Eva tarrou uma maçã da árvore e aquela minhoca que fica nas frutas foi parar na cabeça dela, destruindo toda a harmonia do mundo. Nunca mais a vida foi leve e, apesar de toda a evolução da ciência, nem Freud descobriu como eliminar o bicho.
Ninguém mais conseguiu viver sem pensar nas consequências, sem fazer um congresso de minhocas para tomar qualquer decisão. Só que bons momentos não são burocráticos, eles passam. A minhoca é o “e se...”, o nó na garganta que às vezes vem até por antecedência, o diabinho que fica atrapalhando a felicidade e se alimenta de tudo que não se sabe. E não se sabe de quase nada.
Existe uma conquista que apesar de ser a small step for humanity é um big step para quem chega lá: é quando no meio de minhocas, incertezas, medos e especulações sentimos o gostinho do melhor lugar do mundo ser aqui e agora. E como sempre temos que voltar para a realidade, chegar à lua é acreditar que valeu a pena, senão a vida vira commodity.
Drummond escreveu: "a cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca. E, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade". Na falta de uma equação perfeita de vida, pode-se encarar o absurdo do imprevisto, arriscar ir em frente com o restinho de fé arrogante que ignora a minhoca.
Complementando Drummond, que piada, Sex and the City: “Have fun, just don't have amnesia”.
Originalmente publicado em Seu Martin I.

23.7.08

Veja você

Porque eu tentei uma vez. Porque eu tentei outra vez. Porque fazer por teimosia é bem diferente de fazer por acreditar. Porque saudade é sinal de que se viveu algo bom. Porque saudade não é o mesmo que viver no passado. Porque viver algo bom não significa que será para sempre. Porque o futuro pode trazer coisas melhores. Porque o Tom Hanks já disse que a vida é como uma caixa de chocolates. Porque ele também já disse que nunca se sabe o que a maré pode trazer e ganhou patins de gelo. Porque é preciso deixar ir embora. Porque é preciso se amar muito para que alguém também ame a gente. Porque é preciso se amar primeiro. Porque não dá para saber se somos mais perdidos. Porque é preciso saber o que a gente quer. Porque é preciso querer de verdade. Porque além de querer de verdade é preciso acreditar que merecemos. Porque pessoas até muito mais vão lhe amar. Porque os outros não podem adivinhar. Porque os príncipes que batem na porta das princesas são encantados. Porque as princesas não trancaram a porta. Porque quero dançar com outro par pra variar. Porque pra existir um “a gente” é preciso deixar essa gente chegar. Porque o tempo passa. Porque a gente muda. Porque a vida ensina. Porque a gente aprende. Porque é mesmo duro assim. Porque esse é só o começo da minha vida.


Deixa chegar o sonho,
Prepara uma avenida

que a gente vai passar
(Los Hermanos)

21.7.08

Em busca da Legolandia

As Barbies podem destruir a vida de uma menina e devido a essa certeza eu incentivo todas as minhas sobrinhas a jogarem futebol: entra em campo, chuta a canela do moleque, xinga a mãe, acaba o jogo e é capacidade total de abstração. Mas ela queria brincar de Barbie e lá fui eu com a boneca mentirosa que me coube para a casinha rosa. A minha Barbie tinha acabado de desenvolver uma teoria sobre a importância do Lego e publicaria no Tribuneiros.com.

12.7.08

Goodbye, Jack

A vida era assim: depois de sair na quarta, na quinta e na sexta finalmente chegava o sábado, quando a escova da véspera já era graças aos cigarros alheios e mãos que adoravam embaraçar seus fios cuidados pelo cabeleireiro mais caro do mundo. O combinado era sempre pegar a estrada às dez, o que significava acordar às onze. Enquanto se arrumava, as amigas ligavam – para o telefone de casa – duzentas vezes. Às 2 da tarde vocês partiam, de ressaca, ouvindo Fabio Jr na serra.

Reunidas na piscina, faziam o que se espera de um grupo de amigas: imitavam a Ana Maria Braga. A noite estava apenas começando e ainda nem eram 4 da tarde. Logo todas já estavam dançando em cima do sofá, algumas gritavam besteiras com a certeza de que ninguém mais estaria ouvindo, unhavam as amigas e tudo aquilo acabaria em uma dormidinha rápida antes de sair. Sim, você ainda sairia, em Cabul a guerra era mais leve.

Lá pelas 2 da madrugada você chegava na boate, de carro, sem bafômetro, assalto ou perigo pelo caminho, e depois de dançar umas músicas que, estranho, naquele dia estavam boas, se dava conta de que as outras tinham desaparecido (ou será que foi você quem se perdeu?). Consumação estourada, você procurava um cantinho para sentar porque o salto da bota não perdoava. Opa, você estava de tênis e rabo de cavalo? O DJ jurado de morte tocava uma música importante e como por milagre todas se encontravam. Vocês se abraçavam como se não se vissem há anos. Horas depois alguém tinha a excelente idéia de ir embora, da rua vinha uma luz pior do que criptonita, vocês saíam praticamente falidas mas felizes, o melhor ainda nem tinha começado.

Em casa, vários colchões espalhados pelo quarto eram palco de conversas que invariavelmente mesclariam as frases “lembra daquela hora” e “eu não vi nada disso”. Na segunda-feira vocês mandavam milhares de emails juntando mais alguns pedaços das histórias que anos depois seriam relidas por uma das suas amigas que pensaria – passou rápido demais! Em qual episódio você virou uma mulher casada em Nova York?

O que tem em Nova York? A estátua da Liberdade é péssima, pretzel na rua engorda, loja da Apple tem online, namorado? Ah, namorado tem aos montes por aí. Ela odeia namorados. Quer dizer, odeia namorados de amigas, principalmente os que a obrigam a comprar um Nextel de motoboy, instalar Skype para ser mais um vício e marcar no calendário tal qual uma presidiária os dias que faltam para as férias.

Ela vai se lembrar de quando vocês começaram a coleção de uarifes por causa dos tantos What Ifs que acumularam no caminho. Vai rir de quando se preocuparam se as almas gêmeas das freiras e dos padres estariam vagando sozinhas pelo mundo. Vai querer ver de novo Antes do Amanhecer pra poder debater Antes do Anoitecer antes de enlouquecer. Vai ter a certeza de que vocês cumpriram à risca o oitavo mandamento: ter sempre uma parceria à sua altura. Vai ser menos egoísta e torcer para que você siga o que diria a camiseta do reveillon que nunca fizeram: enjoy NY. Ela vai te visitar em breve, se Paul McCartney quiser.
Deus ainda é ele, né?

6.7.08

Domingo eu quero ver

O diabo da escola da vida é a bagunça do método pedagógico.
(Bailinho)



4.7.08

É por isso que eu canto

Ela estava devastada. Trevas. Todos os tricolores estavam cabisbaixos e só não choravam para não serem taxados de botafoguenses, mas só uma estava estatelada no gramado do Maracanã. Comparado a ela, Renight Gaúcho parecia apenas chateado:

“É uma fábula! Você luta heroicamente, consegue o que até os mais iludidos duvidaram que fosse possível e erra no básico – chutar a bolinha pro gol. Faz tudo certo e no último minuto é vencido por um equatoriano, roubado por um juiz mau-caráter que representa todos aqueles que te passam a perna quando você merecia a vitória, acaba o sonho por falta de sorte!”

Morro de inveja dos que conseguem exorcizar tudo em um estádio. Ingênua, tentei argumentar que era só um campeonato, não tem outro acontecendo? Ofendi os deuses mais poderosos, posso jurar que esse comentário idiota gerou os trovões que abalaram o Rio de Janeiro naquela noite:

“Nãããão!” – ela só levantou a cabeça nessa hora. – “Nós merecíamos aquela vitória. Está provado que a vida é injusta, aquele goleiro desgraçado se mexeu na hora da cobrança porque é sempre assim, o mal vence, o mundo não presta”.

Silêncio total. O mundo presta, ao contrário de qualquer argumento meu ali.

“Eu acho que fui Hitler”.

Danou-se. Aparentemente o ditador teria influenciado a tragédia do Fluminense e eu precisaria ouvir a teoria.
Nós pagamos pelo que fazemos e ela tinha errado muito, mas pelas contas feitas já devia estar em dia com a justiça divina. Achava que o tempo trágico do casamento teria sido suficiente para abater anos e deixá-la com crédito, mas não aconteceu assim. Até assassinos têm a pena reduzida por bom comportamento, mas a dela nunca era atenuada, logo, devia ser karma dos pesados. Nível Hitler na outra encarnação.

“Nego tá me sacaneando”!

Nego era Deus, o que teoricamente escreve certo por linhas tortas e a irritava por isso.

“Eu também faço as coisas certas, tento muito e fico ouvindo que é pro meu bem, foi melhor assim, blábláblá. Aaaaaaaaaahhhh, eu quero ser campeã da Libertadores!”

Lexotan? Tequila? Psicanálise? Abraço? Gargalhada? Filme bobo? Existe injeção de serotonina? Vai pra casa, grita no travesseiro, amanhã melhora.

Sonhei que era reveillon. Do nada, em julho, era ano novo. Como assim? Eu nem tinha me preparado para o brinde! Contagem regressiva e alguém disse a frase da Renata: “que 2008 seja como você quiser”. Não tem karma, culpa, injustiça, sacanagem, juiz ladrão, tem que ter vontade. Ás vezes é uma merda e não sei como são as coisas no futebol, mas na vida a meia-noite não acontece num simples movimento do ponteiro, pode durar uns seis meses para ser um novo ano. Comercial da Coca-Cola: é você quem faz.

Talvez você tenha lido até aqui esperando por um desfecho otimista. Bem... ele é! Só não tem nenhuma história agora para ilustrar o final feliz. Mas eles existem, eu ainda acredito.

25.6.08

Blues da piedade

Nem sempre eles vão entender. Milhares de vezes eles não vão entender. Por que doeu tanto, por que esse e não aquele, por que diferente? Por que assumir, por que não engolir, por que insistir? Vão te chamar de exagerada, de burra, maluca tantas vezes que nem o hospício te aceitaria.Você vai ler isso e pensar - pelo menos não sou só eu.

12.6.08

Meu quinhão pro grande amor

Pelo amor de Deus, é só mais um dia. Nem é reveillon, você pode ficar sozinha. Também não precisa inventar de jantar fora nessa noite. Evita os shoppings com vitrines cafonas e pensa que fila na porta do motel é humilhante. Doze de junho é fácil. Difícil é domingo à noite, fim de semana com chuva e festa do trabalho, quando cada um pergunta dez vezes “cadê seu namorado?”. Ele ainda não chegou. Não chegou na minha vida, mas se entenderem que não chegou na festa não é minha culpa.

"Hoje eu tenho apenas uma faca no meu peito
exijo respeito, não sou mais um sonhador
chego a mudar de calçada quando aparece uma flor
e dou risada do grande amor.
Mentira"

Ursinhos, bombons e flores artificiais em promoção no Tribuneiros.com

8.6.08

Is it getting better?

O amor é uma bela amizade com grandes momentos eróticos.
(de um médico que está sendo entrevistado pela Marilia Gabriela agora)


Ela teve a linda e tensa idéia de me pedir um texto para o casamento. Eu teria um ano para preparar e, para meu desespero, a época da festa calhou de coincidir justamente com a alta do ceticismo na montanha russa de emoções que é meu ser. Eu estava mais para “cada um no seu quadrado” do que para “one love, one life”. Quase a Miranda. Quase um Mr Big em pânico na porta da igreja: eu não sou capaz de fazer isso.
Pedi ajuda aos amigos, aos roteiristas de Grey’s Anatomy, a Drummond, aos meus registros de romantismo em sazonais fases férteis... Ninguém casa achando que aquilo pode acabar, alguém ainda acredita em amor eterno?
Quando os noivos entraram na festa o DJ tocou a trilha certa para quebrar qualquer descrença: Beatles, “love, love, love”. Não importa se um amor durou um mês, um ano ou uma vida, importa se ele foi inteiro, bom e velho clichê – eterno enquanto durou. E para usar mais um – anormal é ser incapaz de se permitir que ele aconteça. Love is all you need.

(...)
"A gente passa muito tempo tentando provar para o mundo que somos bons, divertidos, inteligentes, dá tanto trabalho! E de repente aparece uma pessoa que acha tudo isso justamente porque sabe como a gente é de verdade, conhece cada falha, descobre qualidades que a gente nem se dava conta de que tinha. Apesar de tudo e por causa de nada, ama. E tudo passa a fazer sentido.

Quem escala o Himalaia sabe que a emoção de chegar no topo é única, não se explica. Pode parecer loucura pra quem ficou lá embaixo, mas pra quem foi seria incompleto viver sem a vista. Casar é encontrar a criatura doida que topa o desafio de escalar a montanha com você.

Viver a dois é o amor na prática, e ainda não inventaram nada melhor. Cada um tem a responsabilidade de ser inteiro para compartilhar somando. (...)

Que vocês sejam felizes e plenos a cada minuto. Loucamente felizes. Ousadamente felizes. Mesmo quando ela falar demais e ele tentar impedir, até quando ela for a alegria dos netinhos com o jeito Dercy Gonçalves de ser e ele for o mais hipocondríaco dos homens. Tem que lembrar que ele ainda é roqueiro e ela só dorme no seu abraço".

2.6.08

All that you can't leave behind

Estavam ali os dois e não tinha muito tempo, mas ficou longe. Não parecia mais possível.
Um short verde, corpo molhado da piscina, uma lata de cerveja na mão e ela na outra. O cabelo dela era maior e mais escuro, o sorriso era mais ingênuo, o coração era mais feliz. Ele também tinha um sorriso leve, estava gargalhando na foto. Não era muito freqüente e quando se dava essa chance era encantador.
Se deram muitas chances. Acabou. O vício dela em leite, o boa noite por telefone, a certeza de que ele chegaria antes da hora marcada, tudo agora só existia nas lembranças de cada um, nas mágoas, frustrações e incompreensões mútuas. Tudo aconteceu, só não tem mais, e tudo fez com que ela chegasse até aqui.
Era a primeira vez que não jogaria as coisas fora. Deu um suspiro, guardou o isqueiro, fechou a caixa e colocou no alto do armário junto com as apostilas dos cursos que nunca leria de novo. O que realmente importava ela aprendeu nas aulas, o resto é só papel.

You're packing a suitcase for a place
None of us has been
A place that has to be believed to be seen
You could have flown away

A singing bird in an open cage
Who will only fly for freedom

Stay safe tonight

27.5.08

A Hard Day's Night

Um ser abalado por achar que não vai conseguir fazer nada. Cansada de construir um sentido para o mundo em que vive, saber de si e dos outros, queria tirar férias de mim e por um tempo ser resultado de uma idéia pré-existente. Poderia ter nascido uma caneta, que nasceu para ser caneta e apenas é. Essência definida.
Trocaria a liberdade de mudar minha vida pela certeza imutável do que já vivi. Mas nem é certeza, muda sempre o ponto de vista. Aumenta a exaustão. E se eu falhar na minha essência, se minha existência for estragada pelas minhas trapalhadas e incompetência? Fui condenada à liberdade mas não me lembro de ter assinado esse acordo, não aceitei as regras. Quem não consegue comprar uma roupa vai falhar no projeto fundamental. E eu não decidi ainda qual é o meu projeto fundamental, já devo estar atrasada no cronograma, não aprovei orçamento nem selecionei equipe, não fiz o treinamento, eu vou falhar.
Então sou responsável pelo mundo que projetei. Pelo mundo todo eu levo a glória ou a culpa sozinha? Por que eu acho que vai ser culpa e não glória? Angústia previsível com tanta responsabilidade existencialista sobre as minhas costas. Eu quero o universo do sonho, isso é liberdade. Poder realizar qualquer coisa instantaneamente e não ter pessoas cutucando para avisar que não é bem assim, que são escolhas parciais e não livres, opções limitadas. Não é verdade que nada fora de mim define meu futuro. Os outros atrapalham, criam conflitos com projetos sobrepostos. Eles não serão punidos, obrigados a participar do meu plano? Inferno os outros. Coloca no acordo outra forma para que eu me veja que não seja através dos olhos deles. Ou me dê outros que me ajudem.
E se eu nem sempre tiver consciência da conseqüência dos meus atos? Quero férias de conseqüências, pausa na consciência. Alguém podia se responsabilizar pelas minhas decisões enquanto eu descanso um pouco. Posso ao menos voltar atrás? Undo? Desmake. Não estou fugindo da minha auto-determinação, mas quero conversar sobre o meu destino, preciso saber se dá para contar com ele. Nunca li o último capítulo do livro antes de chegar lá, nunca baixei episódios de Lost que não tenham sido exibidos, posso pelo menos saber se na minha história eu vou dar certo no final?
Eu, que por vontade própria ajo e afeto o mundo todo, peço licença. Preciso confessar que talvez não seja capaz. Nem sempre é justo o que o mundo faz comigo, ele podia me dar o caminho mais fácil. Eu aprenderia, juro que aprenderia. Me ouve, Sartre! É importante sim o que o mundo está fazendo comigo! Não sei o que eu vou fazer com o que o mundo está fazendo de mim! Eu aceito o acordo, com uma condição: de vez em quando, posso chorar?

Há dois anos existencialmente em Seu Martin 1.

16.5.08

A pessoa é para o que nasce

Eu estou muito preocupada com a Mulher Melancia.
Nosso primeiro contato visual foi no Casseta e Planeta. Um deles imitava o João Gilberto e uma garota que se esfregava na cadeira a imitava. Achei engraçada a caricatura, qualquer médico classificaria aquela anatomia de anomalia e a dança mais parecia interpretação de uma atriz pornô descontrolada. De repente descobri que a cena não era uma paródia! Aquela era a célebre em carne, algum osso e carinha de quem tá gostando demais.
Hoje leio que Andressa (ela tem nome) quer fazer lipoaspiração. A ex-créu começou um tratamento que diminui 3 centímetros dos seus 119 por sessão. Pelas minhas contas, dentro de um mês ela vai desaparecer! Não digo minguar até a morte, mas se parar de esfregar a super-bunda nas... cadeiras... vai sobrar o quê? Andressa não pode virar mais uma ex-gostosona porque alguém tem que desempenhar essa função. Tal qual o futebol, o Playstation, a cerveja gelada e os camaradas, os homens precisam das Mulheres Melancia, portanto cabe às Mulheres Banana convencê-la a continuar bunduda.
A Mulher Banana*, se tivesse um quadril de 120cm, correria três horas por dia numa esteira. Ela morre de vergonha ao ver a mãe da Mulher Melancia dizer que sente muito orgulho de ter uma filha vitoriosa, acredita que o discernimento nasceu para todos e o pior: é tão banana que se importa.
As Bananas são poupadas de papéis incômodos pelas outras, peças fundamentais da cadeia alimentar. A Mulher-Biscoito-Globo, por exemplo, é gostosinha, mas não mata a fome e logo eles querem outra coisa que valorizarão muito mais. O mesmo acontece com a Mulher-Aperitivo, que acompanhada de uma bebida ele come e ainda acha bom; a Mulher-Arroz, que ele só come porque já está acostumado; a Mulher-Ostra, sobre quem todo mundo fala, mas quando ele experimenta vê que não é grande coisa; a Mulher-Cafezinho-de-Loja, que ele nem faz questão, mas aceita já que é de graça, e tantas outras que equilibram o ecossistema.
Eles precisam disso porque são homens. Pelo mesmo motivo, não conseguem encontrar nada sozinhos. Você ainda não aprendeu? Ele não entende que pegou pesado? Ele é homem. Jura que vai sufocar quando só tem um nariz entupido? Ele é homem. Não sabe como não resistiu à tentação? Ah, ele é homem! Não consegue lembrar nem do aniversário da própria mãe? Normal, ele é homem! É a explicação padrão.
Eu tenho fé que algum vai ser mais original e provar que existe modelo melhor. Qual o problema de ter esperança? Eu sou mulher!

* A Mulher Banana foi categorizada pela escritora Marta Medeiros

4.5.08

Raça, amor e paixão

Era mais um feriado dos tantos que inundaram a cidade tais quais as chuvas de março, abril e maio e eu estava dormindo quando ele ligou:

- BG?

Namoro novo, onde estiver estarei. Desde que o Souza deixou meu vizinho há cerca de um ano, volta e meia o pobre grita o nome do ex-amante pela janela, intercalando com outros com quem deve se envolver por aí. Entendo o Ronaldo, olhando eu jamais diria, mas juro que o cara em várias tardes urra nomes masculinos da sacada: Léo Mouuraaaa, Bruuuno, e sempre Soooouza! As dores do coração... Domingo piora, e era mais uma dessas tardes.

Lá fui eu encontrar o novo craque da minha vida com os camaradas no Báxu. “Tô em frente ao Alemão”. Estavam todos, e com a mesma roupa. Tentei negar, mas claramente ele tinha uma chupeta pendurada no pescoço onde meus braços deveriam estar e cantava Mamãe eu quero mamar sem se importar com o tempo que faltava para o Carnaval. Decido pegar uma cerveja, as coisas vão melhorar. Um homem acende um morteiro do meu lado e a massa começa a pular com as mãos pra cima. Vieram do Maracanã, não estão exatamente perfumados.

Querido, me resgata aqui, estou sendo esmagada por tantos corpos malhados e sorrisos talhados flertando com essas bandeiras. Ele me agarra meio vidrado e berra um eu sempre te amarei. Será que me olhou e viu o Joel Santana? Temo pelo resto da noite. Mais amigos chegam e trazem uma buzina. Impedida de ir ao banheiro pela nova política do Braseiro, parto para um Koni genérico.

Vejo o Smigol no meio da multidão e percebo que atrás dele tem um corpo rubro-negro sendo jogado pra cima. Conheço aquela pessoa em êxtase no ar. Por que, meu Santo Antonio? Chora o presidente, chora o time todo e choro também. Tiro o time de campo, não tenho a menor chance. Hoje Obina é melhor do que eu.

23.4.08

Deus, Jorge, livros e rosas

"Deus, está aí? Me ouvindo? Está sempre me ouvindo? Fica me espiando? Tem um minuto? Tem dez?"

Dear-God.net é um site feito para que gente do mundo todo compartilhe sua fé - e seus medos – através da prece. Se Ele chegou na web, melhor garantir que não esqueça de mim e que leia Tribuneiros.com. Passa lá que hoje é dia santo na casa!

No Rio, São Jorge embaralhou os feriados, um dia ainda desbanca São Sebastião e vira padroeiro da cidade. Logo ali em Barcelona, a Diada de Sant Jordí enche as ruas de escritores e rosas. 23 de abril marca a morte de Cervantes e Shakespeare e foi transformado em Dia do Livro. Diz a lenda que há muitos anos um dragão atormentava um povoado espanhol e os habitantes decidiram oferecer uma pessoa por dia para acalmar a voracidade do bicho. Quando chegou a vez da filha do rei ser devorada, São Jorge apareceu e enfiou a lança no coração do dragão. Do sangue derramado brotou uma rosa. Juntando tudo, é tradição na Catalunha oferecer rosas às mulheres e livros aos homens, e as editoras montam bancas por toda a cidade para que os autores autografem as obras.

Quem quiser importar a festa, a Argumento vende Contra a Juventude - As Melhores Crônicas Tribuneiras:-) E quiosques vendem rosas em vários bairros.

13.4.08

As minhas noites de blueberry

“- Essas foram dadas a uma garota russa que adorava colecionar chaves e ver o pôr-do-sol. Infelizmente ela gostava mais do pôr-do-sol do que dessas chaves e acabou desaparecendo em um.
- Por que você não foi procurá-la?
- Quando eu era pequeno minha mãe me levava ao parque e dizia que se eu me perdesse era pra ficar parado, assim ela me encontraria.
- Isso funciona?
- Nem sempre. Uma vez ela se perdeu procurando por mim."

Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights), de Wong Kar Wai

8.4.08

Da sempre sua...

Olá,

Bom saber notícias tuas. Por aqui o inverno começa a dar uma trégua e permitir que coloquemos nossos corpos para fora sem milhares de camadas protetoras.
Essa não é pra mim uma situação nova, e ouso dizer que traição é somente um tabu que como tantos outros aos quais ficamos aprisionados por anos, uma vez transgredido, torna-se questão corriqueira como tantas que nos cercam sem gerar grandes dilemas. Não quero com isso confessar-me uma adúltera compulsiva nem tampouco pregar contra a fidelidade, somente aconselhar a todos que sofrem com culpas e desejos sacrificadamente contidos que sejam fiéis ao que sentem pelo outro, não às artimanhas de suas criações. Que questionem por que há no mundo – desde que ele é mundo – tantos casais infelizes e (por que não dizer?) vivendo sob o véu da hipocrisia.
Prefiro o risco de ir e voltar (ou não) ao condenante “felizes para sempre” que eu jamais poderia ter pronunciado caso soubesse que não poderia duvidar em nenhum momento de tal escolha. Duvido o tempo todo! Dias mais outros menos, mas tanto nesse como nos outros casamentos nunca tive por mais que algumas semanas seguidas a absoluta certeza de viver ao lado do único amor da minha vida.
Não sei se por não conhecer todas as pessoas do planeta e assim não poder testá-las ou por viver em constante mutação (como todos os sinceros), volta e meia paira sobre mim a interrogação: será que ainda amo tanto? Gostarei mais dele ou de sua presença? Sentirei falta do que ele é ou do que me causa? Poderia outro causar? Quando pode, e por prolongado tempo, separo-me e fico com o novo até o será voltar a rondar nossa cama, mesa e banho. Quando pode por pouco tempo, a volta é sempre inebriante e revigorante. E enquanto nenhum outro pode, feliz sou eu bem casada, bem amada e aberta a tudo que meu coração puder captar e meu cérebro não puder impedir.
É com ele sempre a minha batalha. O que sentimos sempre sabemos, sempre. Se queremos assumir ou não é outra questão. Portanto, querida, acho que respondi ao que me perguntaste. E se não foi bem isto que me perguntaste, perdoa-me. Talvez tenha dito tudo para lembrar a mim mesma.

Cuida de você que o mundo segue.
Um beijo...

5.4.08

Uma arma na mão e só merda na cabeça

- Fica calma, está tudo bem, mas o Pedro levou um tiro.
Esse era meu pai, sentado no sofá, aparentando ter vinte anos a mais do que tinha ontem. Ontem foi o dia em que o Pedro saiu aqui de casa com meu irmão pra irem a mais uma festinha na The Week. Bebida, mulherada, desconfio que os meninos se divertem mais sacaneando um ao outro durante a noite do que realmente pegando alguém ou dançando (homem dança na The Week?).

Era uma arruaça desse tipo que estavam fazendo ao sair da boate – “ah, muléki, e aquela baranga que te deu toco? Seu viadinho!”. A diferença é que de repente um cara empurrou meu irmão no chão, começou a chutar a cara dele e disparou dois tiros. Que sorte que ele viu Missão Impossível duzentas vezes, né? Conseguiu se esquivar e não foi atingido por nenhum disparo. Boa garoto! Mais tarde, quando eu parar de tremer e de chorar, ele vai me ensinar a técnica. Posso precisar...

O Pedro não teve tanta sorte. Quando viu o amigo no chão, correu pra cima do agressor e acabou levando um tiro na perna. “Meu filho, de cara valente o cemitério tá cheio”! Tenho certeza que a mãe do Pedro já falou isso pra ele, a minha repete como mantra tentando criar o filho no purgatório da beleza e do caos. Mas quem vai ter sangue frio ao ver alguém que gosta sendo alvo de bala?

Não dá pra trancar os garotos em casa, né? Eu confesso que a minha vontade é essa. Cada vez que vejo meu irmão sair pra noitada com a galera, torço pra ele arrumar uma namorada e viver de cinema e restaurante logo. Aí lembro que na idade dele eu saía de quinta a domingo. Isso tem uns 8 anos, e não sei se a juventude é despreocupada ou se a cidade era mesmo melhor.

Agora o Pedro saiu do hospital, meu irmão está dormindo, os outros amigos hoje não vão à The Week, repórteres de todos os cantos estão ligando pra cá e eu estou escrevendo isso só pra desabafar mesmo. Já nem é mais uma denúncia. Logo eu que fiz jornalismo pra não ficar calada! Eu que volta e meia quero mudar o mundo! Eu que sou uma cidadã indignada! Estou exausta. Minha indignação não vai mudar nada. Só quero abraçar meu irmão, ver o Pedro de novo ganhando medalha de ouro e agradecer a Deus ou quem quer que seja por ter protegido os meninos.

Não sei se os tiros foram dados pelos seguranças do Estacione Fácil, não vou questionar o fato de um prestador de serviço portar uma arma, não vou nem responder aos ignorantes que comentam no jornal que “pra tomar tiro ele deve ter feito alguma coisa”. Se eu ainda tivesse vontade de consertar o mundo perguntaria que tipo de coisa justifica levar um tiro, mas vou levantar essa discussão pra quê? Daqui a pouco grito que esses alienados merecem um tiro na testa pra parar de falar besteira e aí perco a razão.

Mas se alguém ainda tiver esperança, faz isso por mim?

24.3.08

O sapatinho de cristal da Simone de Beauvoir

No dia internacional da mulher eu não quero queimar nenhum sutiã. Quero gastar minha fortuna na Victoria’s Secret para comprar um lindo, rendado e dedicado ao príncipe do momento sem ter nada de submisso nisso.
Hoje quero pregar a reconquista do direito de ser mocinha, de balançar lencinho no vento, de piscar os olhinhos romanticamente, de querer que abram a porta do carro, que mandem flores, que peguem no colo, que me tratem como boneca de porcelana. Não é porque eu ganho meu próprio dinheiro que não quero que paguem a minha conta como uma cortesia!
Quero poder não ser forte, chorar quando machucam meu coração, não fingir que não me importo de ser desprezada. Quero poder reclamar que não gostei sem ser histérica, quero conversar sorrindo sem dar mole, gargalhar com as amigas sem ser escandalosa.
Quero deixar claro que homem é sistema binário e precisa evoluir para entender o que não é dito explicitamente, que não está ok eles nunca superarem a adolescência e que eu odeio piadas machistas. Quero admitir que na maioria das vezes eu beijo ouvindo a marcha nupcial, que sei os nomes dos meus filhos há anos e que noutro dia vi um tecido lindo pra colcha da minha futura casa. Quero gastar horas escolhendo a cor do esmalte, quero pintar o cabelo e me sentir diva de Hollywood, quero ver A Noviça Rebelde e cantar saltitando “I’m sixteen going on seventeen”... Quero saia rodada, salto alto que não dói o pé e pescoço virando pra me ver passar sem fazer cara de tarado. Quero ser conquistada com galanteios apesar de saber ir atrás, quero ouvir coisas doces no dia seguinte apesar de já estar preparada para ele não ligar, quero deixar saudades apesar de saber partir pro próximo. Quero gritar que igualdade de direitos não é para descaracterizar os sexos. Quero cantar Tribalistas sem parecer mal-amada: já sei namorar, já sei beijar de língua agora só me resta sonhar. Quero poder sonhar mesmo tendo que acordar cedo pra reunião, quero que se ofereçam para trocar o pneu do carro que eu ainda estou pagando sozinha, quero que o gerente do banco me ache linda enquanto discutimos se é melhor um fundo moderado ou agressivo.
E já que hoje estou querendo muito, quero não sofrer com a mania de especular sobre o que nem existe, não enjoar na gravidez, não contar celulite nova no espelho, não viver um sobe e desce hormonal, não me dobrar de cólica e não ter crise de choro durante a TPM. Quero poder ser mais macho do que os espalhados por aí sem nunca abandonar meu carro conversível rosa, minha casa com elevador branco, roupinhas de todos os tipos, peitos enormes e cinturinha de violão by Mattel.
Quero acalmar os homens que estão lendo dizendo que exagerei em algumas coisas, mas queria que não tivesse problema se fosse tudo 100% verdade. Porque queridos, às vezes é.

E às vezes não é dia internacional da mulher, mas hora de reencontrar amigos que te lembram quem você queria ser quando crescesse.

Texto originalmente publicado em Seu Martin 1.

19.3.08

Não me amarra dinheiro não

Descobri que meus dias de independência financeira acabaram. Fui rica durante o período pós-faculdade-pré-casa própria, quando todo o dinheiro arrecadado era revertido para meu próprio bem-estar e eventuais contas que não envolviam o governo ou instituições como Light, CEG e cia. Deveria ter ido à África do Sul, estocado roupas para os próximos 5 invernos ainda que fosse me vestir sempre um pouco vintage (para não dizer fora de moda). Deveria ter encarnado a Demi Moore e jogado meus reais para cima enquanto rolava na cama (ok, isso seria estranho e pouco higiênico).
Hoje se vejo cair uma moeda do bolso de alguém corro para pegá-la, missa não vou mais para fugir da tentação da cestinha sendo passada de mão em mão cheia de dinheiro. Pensei em fazer isso - nas festas de família inclusive faço – mas socialmente a piada perderia a graça na segunda linha. Chego a ficar aliviada quando leio que os bancos americanos estão sendo ajudado pelo Fed. Os caras trabalham com números e dinheiro e se ferraram, logo, eu tenho todo o direito do mundo não ter sido muito genial na minha vida financeira! Inclusive pegaria mal para eles se eu fosse totalmente auto-suficiente nessa área.
Noite dessas, bebendo em um pé sujo tal qual os maltrapilhos e catadores de guimbas de cigarro, confessei minha preocupação orçamentária a uma amiga que saiu da casa dos pais há mais tempo. Ela riu. “Onde você acha que eu jantei hoje?”, perguntou. Tinha ido visitar os pais. Quando quer uma comida mais alto nível visita os avós. Cata umas flores no jardim do prédio e bate na casa dos velhinhos com uma pose de neta fofa. “Mãe, vamos à praia?”, e em frente ao posto de gasolina faz o carro engasgar para a coitada oferecer um tanque cheio antes que precise empurrar o carro. Já chegou a simular um desmaio para que o pai bancasse a ida ao médico – dermatologista, mas ele nunca vai saber.
Fiquei atônita! Batalhamos tanto para viver de aplicar golpes em nossos próprios pais? Que nada - ela explicou, super experiente no assunto - eles sabem de tudo, é uma lição passada silenciosamente de geração para geração. A diferença é que antes, para liberar o dinheiro, os pais murmuravam “esse seu marido é um borra-botas, incapaz de sustentar meus netos”, enquanto hoje colocam a culpa na modernidade - “avisei, pra quê sair de casa com essa pressa?” O sonho dos pais não é que os filhos fiquem sempre por ali? Mãe não tem aquela síndrome de galinha com os pintinhos sob as asas? Nossa falência pós-saída de casa pode ser armação deles! Nos criam com regalias para que passemos dificuldades depois! Pensando bem, nós, filhas falidas, estamos fazendo um bem aos nossos pais. Amanhã vou sugerir que eles viajem na Páscoa e me levem para fazer companhia!

16.3.08

Sobre maquiagens e flashes

Essa semana fez um ano do novo lay-out do blog. Há um ano ele estava insatisfeito e fez como toda mulher: mudou o visual. Eu adorei, e para celebrar mudei tudo de novo. Feliz aniversário! E tin-tin: às mudanças.

A repórter queria saber por que (porque? porquê?). Primeiro tiramos fotos no Jobi – eu, CA e Pim. Eram 19h30 e as pessoas passavam tentando saber quem eram as celebridades sob os holofotes, ficavam tão decepcionadas quando não viam um Gianechinni que combinamos de, na próxima vez, alugar um global. Depois do momento Gisele nos refugiamos da chuva na Guanabara para a entrevista. Como tudo começou? Pra mim com a necessidade de um hobby e um encontro na praia de Geribá duas Páscoas atrás. Segue com a lição de aprender a dar a cara a tapa. O futuro? Não tem futuro, tem esse presente de implicâncias, desabafos, verborragia, confissões e pretensões para que possa existir um futuro. Eu acredito em mudar o mundo, nem que seja o meu mundo. Nunca vou ter um milhão de amigos, mas quero ter um milhão de leitores e bem mais forte poder trocar idéias. Porque tudo deve ser conversado.
A matéria da Heloisa Marra sai em breve na Vogue RG. (Agradecimentos à Ana Andreazza e à santa paciência do fotógrafo Sergio Caddah).

10.3.08

A fé em Antônio

Se as maduras estão a cada dia mais com homens jovens e as novinhas voltaram a acreditar no casamento isso significa que elas não têm conversado ou que a nova geração quer pagar para ver?
Texto Para a Senhora, com título que a Fernanda gostou;-)

1.3.08

O busto

Estava tudo pronto para a festa – a família se reuniria para celebrar a chegada do busto. Uma passagem tinha sido enviada para que a historiadora contratada pudesse vir de Berlim para a ocasião, e a encomenda demorara tanto a chegar que por obra do destino viajaria escoltada pela profissional que relataria em sessão solene a história do clã ao grupo.
Procuraram por meses o local perfeito para o encontro – tentaram comprar de volta a casa de Petrópolis, mas os apelos aos novos proprietários foram em vão. Optaram finalmente por reservar todos os quartos de um hotel e fazer a cerimônia em frente à antiga residência – a rua é pública – e até autorização da prefeitura local conseguiram para ocupar por um dia o espaço. Não só redecoraram o hotel com o tema como também cenografaram o palco da festa. Acharam uma lojinha no Saara especializada em artigos deutsch e qualquer um diria ter voltado no tempo. O chef foi obrigado a fazer um curso de gastronomia alemã para que nenhum salsichão parecesse chucrute. As canecas de cerveja foram personalizadas até mesmo para as crianças, que as encheriam de guaraná para o brinde. Os mais empolgados pintaram o cabelo de louro para dar mais veracidade às fantasias. Duas horas antes da festa o saguão do hotel parecia barracão de escola de samba tantos eram os adereços espalhados por ali.
O patriarca era um aficcionado por soldadinhos e chumbo, e um dia caminhando no frio berlinense deu de cara com uma loja do ramo. Comprou tantos quantos a companhia aérea permitia na bagagem, e os vendedores foram orientados a informá-lo sobre as novidades de cada coleção. Meses depois recebeu um email avisando sobre a chegada de um novo carregamento de soldadinhos, e no meio deles havia alguns bustos de heróis de guerra. Qual não foi a surpresa ao se deparar com seu sobrenome relacionado a um deles! No meio de tantas palavras com nauz e ungen entendeu que aquele ancestral fora um general do exército prussiano durante a primeira grande guerra, e imediatamente comprou a relíquia.
Tempos modernos, o Google em muito ajudou no levantamento da ficha do general e seus correlatos, mas o desconhecimento da língua atrapalhou. Em uma família tão numerosa ninguém fala alemão? É um desrespeito com os antepassados! Como um curso demoraria muito, a historiadora indicada pela embaixada foi contratada para mapear a árvore genealógica in loco e contextualizar o célebre general. Idas e vindas da mulher e de membros da família resultaram em um mapa extraordinário que seria apresentado no apogeu da festa.
Às dezessete em ponto ela chegou com a caixa nas mãos. Todos fizeram a dança coreografada pelo especialista em ritmos prussianos, ergueram suas canecas, apuraram os votos da eleição sobre quem mais se parecia com o general e voltaram os olhos para a historiadora. Ela relataria a pesquisa e o patriarca descortinaria o busto, devidamente colocado sobre um mármore no coreto erguido para a ocasião. A moça contou toda a história dos descendentes de general Wilhelm, destacou seus feitos na guerra, mostrou as pinturas de uma bisneta famosa, exibiu fotos feitas às escondidas de membros da família residentes na Alemanha e por fim revelou o fato: o general nasceu Schumacher, nome equivalente ao Silva brasileiro, e, ambicioso que era, quis, tal qual Fernanda Montenegro e Lima Duarte, entrar para a história com alcunha mais original. Leu nas páginas amarelas locais o sobrenome e adotou-o como pseudônimo, não tendo na verdade nenhuma ligação com a família verdadeira.
Os festejantes emudeceram. O patriarca então deu uma risadinha, cortou a fita que segurava a cortina de veludo, o busto apareceu e ele confessou: já sabia de tudo, apenas achou que há muito não faziam uma festinha. A música voltou, e quando o funk substituiu as danças típicas e as canecas nem eram mais necessárias para o consumo da cerveja o busto foi carregado pelas ruas imperiais como a Jules Rimet nas mãos de Cafu. O coreto petropolitano foi mantido e batizado de General Wilhelm Wahmann, e a coleção de soldadinhos de chumbo não pára de crescer.

22.2.08

Saudade, amor, que saudade

Chamei de saudade instalada, aquela que realmente é.
Não é a falta cotidiana, o não estar mais, é o nunca. O não estar e reticências (porque saber se é um ponto final não temos como, mas sempre parece).
Tem tanta saudade na vida, mas a saudade instalada é aquela que já entendeu que não adianta gritar, então chora baixinho mesmo.
Saudade é o registro do amor que só pôde ir porque um dia pôde ficar.

Registros de outras saudades em Tribuneiros.com

18.2.08

Lar salgado lar

Vinte anos. Há vinte anos eu tinha umas 3 casas da Barbie. Daqui a vinte anos terei praticamente cinquenta anos. Terei aplicado botox ou algum descendente dele. Terei filhos, pelo menos um. Há vinte anos o oceano Atlêntico era meio grau mais gelado. Vinte anos é o prazo do financiamento que consegui na Caixa Econômica. Vinte dias foi o tempo que levei para aprender termos como ônus reais, registro geral de imóveis, amortização crescente, outorgante, certidões e parabéns, o imóvel é seu. Meu?!

- Se a senhora precisar de qualquer coisa é só falar, meu nome é Vanhuilstom.
- Vanhuilstom?
- Vonduilssom.
- Ah, obrigada. Muito prazer.
Não entendi o nome dele, decidi chamá-lo de "oi" por um tempo, mas aparentemente agora tenho um porteiro. E um faxineiro. E procuro por um pintor, o que me faz travar diálogos surrealistas.
- A senhora pensa em PVA ou acrílica?
Eu não penso nisso. Para ser mais sincera não sei nem se é um tipo de pergunta como "você sonha em preto e branco ou em cores" ou algo sobre o qual eu deva escolher. Descubro que são tipos de tinta e que sim: agora eu penso sobre isso. E PVA é mais barata.

- Olha isso aqui.
Eu olho para o buraco que o eletricista fez na parede. Vejo um fiozinho vermelho, um azul, e poeira. Pela cara dele, alguma coisa ruim tem ali. Lembro das primeiras vezes em que parei no posto e o frentista veio com o ferrinho do óleo e os dedos bezuntados balançando negativamente a cabeça para meu desespero. Resolvi o problema anotando a data de cada troca de óleo, a quilometragem e respondendo um sonoro não a cada tentativa de frentistas loucos para abrir o capô do carro.
Um dia aqueles fiozinhos farão sentido? Desconfio.
- Não vi nada não, mas esse interruptor vai ligar o ventilador de teto e sei que você vai conseguir!
Não entendo de elétrica, mas sou ótima em motivar equipes.

14.2.08

Um pra chamar de seu (prefácio de Lar, salgado lar)

- Dona Bruna, achei um que é a sua cara!
Com uma cidade desse tamanho há de sobrar algum para mim. Unzinho que calhe de estar vago bem na hora em que estou procurando. Já parei de idealizar, não precisa ser perfeito, depois de um tempo deixo ele do meu jeito! Tanta gente em condições piores se arruma, por que não eu?
O homem nunca viu a minha cara, como julga ter achado quem a reflita? Se imaginar que eu sou uma baranga desdentada e manca vai me oferecer o minhocão?
- É exatamente o que a senhora queria. O preço está um pouco acima, mas podemos negociar.
- Um pouco? O proprietário vai abrir mão de cem mil reais?
- Ah! A senhora consegue essa diferençazinha. O que são cem mil?

- Dona Bruna, entrou um agora imperdível. Sol da manhã e tudo! São quinze metros quadrados, pode até colocar um fogão ou uma geladeira dentro. Quer ver?
- Não sei quanto à gramática, mas a lógica não aceita "ou" nessa frase.

- Esse ainda não mostrei para ninguém! Olha só que maravilha. É só refazer o piso, trocar a parte elétrica e de repente a hidráulica já que vai mexer mesmo, dar uma derrubadinha nessas paredes e tá pronto para morar! Pegar ou largar, hein? Ainda vem com essa gente aqui de brinde, acena para eles! São seus vizinhos, a família Amaral. Aqui no prédio é todo mundo muito chegado. Se precisar de qualquer coisa é só falar mais alto que eles ouvem ou chegar perto da janela. Uma grande família, do que mais uma moça solteira precisa?

Um lindo apartamento com porteiro e elevador
E ar refrigerado para os dias de calor
Madame antes do nome você teria agora
Ô ô ô ô

13.2.08

Junebug



Juno: I think I'm, like, in love with you.
Bleeker: You mean as friends?
Juno: No, I mean, like, for real. 'Cause you're, like, the coolest person I've ever met, and you don't even have to try, you know.
Bleeker: I try really hard, actually.