6.12.09

Que bonito é

Suderj informa: é dia de jogo no Tribuneiros.com.

25.11.09

Capítulo 3

“Não quero torturá-lo e menos ainda aborrecê-lo, mas se acaso em um dia desses você descobrir que me quer mais perto do que tem hoje, por favor não deixe de me procurar. Caso isso aconteça daqui a cinqüenta anos não se preocupe com a minha beleza, a vida terá trocado, com nós dois, ela por serenidade.”

Vista de longe a carta parecia... bem, a carta parecia um telegrama, e quase o era. Telegramas remetem a urgências e aquela definitivamente era uma. Ações impetuosas são de extrema urgência no coração escalpelado do ator e aquilo deveria ficar claro. Debatia-se dentro de si um terror de desperdiçar qualquer chance do amor acontecer, mesmo quando ela desconfiava que o sentimento não passaria num desses testes de ourives para confirmar a pureza. Costumava colocar em um gráfico amor e carência para avaliar o desenho, como se preciso fosse.
Também estava consciente de que o tempo, sempre ele, poderia interferir no desfecho. Ela não tinha como garantir ao rapaz daqui a cinquenta anos resposta diferente da que vinha recebendo nos últimos porque todas as promessas de amor tem prazo de validade, mas ainda assim não gostaria de deixar escapar nenhuma possibilidade de ser feliz por falta de comunicação.

19.11.09

Primavera

“A maioria dos dias do ano são indiferentes. Eles começam e eles terminam, sem nenhuma grande lembrança para marcar. A maioria dos dias não tem nenhum impacto sobre o curso de uma vida. 23 de maio foi uma quarta-feira."




Anos depois ela estava novamente escrevendo sobre filmes. Não porque aquele fosse sensacional, era uma bobagem - como todos os nossos tropeços. Mas ele disse que a história era triste.

(arte de relógio digital volta 4710 dias)
O Uno Mille não subia a ladeira do Fashion Mall. Subiria, se ela soubesse soltar com o pé esquerdo a embreagem à medida em que pressionasse com o direito o acelerador e no meio dessa manobra minimamente calculada o infeliz da frente não parasse o carro, pondo tudo a perder. “Eu nunca vou conseguir fazer isso”. E outros motoristas até cantavam enquanto passavam a primeira, segunda, terceira, reduziam da quinta para a quarta, “é automático!”. “Eu nunca vou conseguir fazer isso”. Esgotada na poltrona, vivia a retomada do cinema nacional em épocas pré-lei seca e arrastão no túnel assistindo à Andrea Beltrão e Daniel Dantas desfilarem o alfabeto em uma tórrida paixão. Não bastasse o desgaste no estacionamento, tudo flutuava na tela até que o casal termina. E não volta no final! Se cruzaram na praia como dois conhecidos, mãos dadas com novas pessoas que – quem são aqueles? Você amava aquela mulher! De quem é esse filho? Filme brasileiro é uma droga.

(arte de relógio digital anda 4710 dias para frente)
Se ela concordasse que o filme é triste atestaria não ter aprendido nada com os tantos perturbados e descrentes que a deixaram por incapacidade de se comprometer, os tais que sempre voltam ao parque para lhe dizer o quanto ela é especial. Os tais de aliança no dedo e medo nenhum, dúvida nenhuma, questão resolvida, pós-ela. Os que gostavam, mas faltava alguma coisa, que na melhor das hipóteses buscam justificativa para remover a ponta de culpa que nem existe, ou desejam tudo de bom ainda estupefatos com a nova rotação da Terra depois do encontro certo, o que pôs tudo nos eixos. Ou o que tirou todas as certezas e preconceitos do lugar como que por mágica. Os que passam de mãos dadas na praia.

Se a mocinha não estivesse lendo Dorian Grey na deli, se tivesse ido ao cinema, se estivesse de mau humor na hora em que o outro entrou, continuaria acreditando mais em Papai Noel do que no amor. E ele... Se Summer não tivesse gostado tanto, mas achado que faltava alguma coisa, estaria de mau humor em outra hora em qualquer deli lendo Dorian Grey. Se ela realmente acreditasse menos no "algo a mais" do que em Papai Noel nem teria visto outras pessoas na deli. E ele...

Salvo masoquistas, adeptos do auto-flagelo, quem, ó céus, escolheria passar por tudo de novo, permitiria que tamanho mal o acometesse? Ele. É uma opção? Pode ser esse o grande castigo por Eva ter mordido a bendita maçã: padecereis de taquicardia por toda a eternidade ainda que pregue pelos quatro cantos a debilidade da paixão. Ou o mal foi a causa – o que essa moça tinha na cabeça? Adão. E um creme da Lanza que prometia deixar os cabelos mais sedosos e sedutores, logo ela que achava isso submissão. E ele vai passar por tudo de novo, e o pior: não há garantia alguma de que um dia vá achar que é isso e ser isso.

Vai ver ele acha que 500 dias são melhor que nada. Senão são só dias. Senão não tem filme, e é um depois do outro que faz com que ela aprenda a subir ladeira. Uns quatro mil depois, até cantando.

15.11.09

Capítulo 2

Tinha vontades – uma caixa de Caran d’Ache, relógio Cuco, sanduíche de carne assada no pão de forma, sino. Vestia uma calça de moletom, considerava calças de moletom sinônimo de conforto como pantufas (ninguém tem pressa de pantufas) e tinha acima de tudo vontade de não ter pressa. Para não ter pressa tinha vontade de ter tempo, e desde que começou a prestar atenção nos que exclamavam como era possível já ser novembro considerou ser tempo substantivo masculino subjetivo. Era novembro porque acontecera outubro, e antes setembro e agosto e assim o contrário de sucessivamente e só causa desconfiança essa contagem em quem não esteve ali, o que acontece com bem mais freqüência do que dizem os cartões de ponto das indústrias fedorentas. Antes ela própria não estava, e quando esteve estava tudo tão estranho que escolheu se sentar na nuvem.
De lá viu o cantor cantando na beira do palco. Ele também estava sentado quando engasgou com as palavras e num soluço a lembrou do tanto de amor que há. Alguém no palco tem uma platéia e um disco e curumins e um amor e canta, e ela sentiu vontade de cantar. Juntou à caixa de Caran d’Ache, ao relógio Cuco, sanduíche de carne assada no pão de forma e ao sino mais essa, sem saber se era também lembrança boa ou promessa de felicidade possível. Pensou se essa seria uma vontade-chave, e deu-se conta de que chaves na língua portuguesa abrem portas.

13.11.09

Agora eu já sei

"Restaram pela casa três corpos a serem recolhidos em cena que lembrava o dia seguinte de uma chacina. Estavam ali, jogados no chão faltando só aquela marca em volta do defunto, duas baratas e um besouro. Ela, de galochas, com as mãos em luvas, armada de pá de lixo e vassoura, rezava para nenhum morto ressuscitar. Besouros são legais se comparados a baratas, as cascudas cheias de patas não são tão terríveis quanto lagartixas, catar aquilo seria melhor do que desentupir ralos e um parágrafo desses só poderia descrever punições."

E só poderá ser lido no Tribuneiros.com

6.11.09

Capítulo 1

Depois de selar a carta à moda antiga, não usando a língua e sim aquela cola de pincel que ainda existe nos Correios, entregou ao atendente e pediu licença. Não licença ao atendente, que para sair dos Correios basta atravessar a porta, mas à vida mesmo. Ficaria ali no alto por um tempo. É um lugar entre a terra e o céu, como se estivesse sentada em uma nuvem, sabe? Uma pausa. Você pode pensar que ficar sentada por muito tempo dói a coluna como nos vôos muito longos onde não se dorme, mas nesse caso isso não acontece, e não sei por quê. Precisava de tempo, e não esse dos casais sem coragem ou com muita dor no coração, mas o dos cansados, daqueles que não sabem em que direção seguir. Já tinha passado por maus bocados antes, e bota maus nisso! Os atuais nem eram assim tão ruins, havia solução, qualquer um apontaria uma dezena delas, mas as instruções não funcionavam, inicializar não lhe parecia palavra em português, faltava até metáfora para ilustrar, e a pausa prescindia de razões, explicações, desculpas, respostas confortáveis para os ouvidos dos que perguntavam. Foi por isso que puxou-se pela gola e lá em cima se sentou.

9.10.09

Passagem

"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida*."

Participe do programa de milhagens do Tribuneiros.com. O primeiro com a garantia de vôos turbulentos, além da certeza da chegada.

*Drummond

27.9.09

Carta a J.

Chérie,
Não consegui responder de imediato, sua carta ficou me incomodando. Na verdade eu nem precisaria responder porque não foi endereçada a mim, mas você deixou espalhada então li, foi irresistível.
Nem sei direito se me lembro bem das palavras porque tem sido tantas coisas que... tão inúteis. Eu deveria me lembrar de cor e repetir até esclarecer aqui dentro, mas... tanta perda de tempo. E enquanto isso meu caderno está ali, em branco, dizendo que não sou obrigada a dizer nada: se não sei, posso calar-me. Já há besteiras demais no mundo, agora ainda incessantemente propagandeadas pela internet. As coisas têm feito barulho demais? Isso deve ser o segundo sinal da velhice, precisa ver como minhas pernas doem.
Não tenho entendido as aulas, sei que são discutidos assuntos fabulosos, prendo os olhos no professor a cada vez que pronuncia Matisse, é em vão. Desconfio que falavam na língua do pê ontem só para me provocar, tudo o que consegui fazer foi retirar-me e usar dos limpadores de para-brisas e lenços do porta-luvas para chegar até em casa consciente de que minha presença física ali não evitava minha ausência. Estou completamente exausta, não sei se mais cansada por ser quarta-feira ou por tanta precaução. Arrisco o segundo, sinto-me existencialistamente esgotada e isso é o máximo de beleza que eu enxergaria em algum lugar. O meu caso requer um reprocessamento cerebral.
Já o seu caso, minha querida, ah... As coisas são repetitivas sim, você é que não é. É tão bom deixar pra trás o que já não é mais, recomendo veementemente. Meu único medo em relação a isso é não ter fôlego para convencer os outros, eles lhe parecem muito acomodados onde estão? Vontade que tenho de sacudir pessoas, mas por que desejar a elas o incômodo que me assombra? Felizes os outros, na sala de jantar. Os outros não se tornam, eles sempre foram. O que acontece quando nos tornamos o que queríamos ser? Adoraria culpá-los, gritar com eles, expulsá-los daqui! Seguiria com tudo que joguei em cima deles berrando para o espelho. Se eu fosse burra nem perceberia, droga.
Vi que ele respondeu a sua carta e meu conselho de leitora intrusa é que você dê atenção às palavras dele – poder constatar que não mais ou não agora é um crescimento, não tivesse você vivido até aqui não teria discernimento para apreciar ou rejeitar o que lhe é oferecido, mesmo que tenha sangrentamente lutado por aquilo. Só alcançando somos capazes de não querer mais, sem birra ou ansiedade juvenil.
Calma, em breve voltaremos à mesa lotada. Nos juntaremos ao resto na pista de dança e de longe nem dará pra perceber que não estivemos ali o tempo todo. Por ora ficarei por aqui, estas poucas linhas já me causam dúvidas e só não as amasso porque me ajudaram a localizar o norte de novo. Nós estamos mesmo sozinhos. Eu só queria alguém que dissesse “estou aqui”. E sorrisse.

A tout a l'heure.

20.9.09

Keep Walking

É quase sempre assim: ali no cantinho direito o relógio avisa que se eu não for dormir agora amanhã vou me arrepender, e o silêncio da madrugada coloca as roldanas das minhocas para funcionar. O registro escrito é pura conseqüência. O amanhã chega sonado, mas a cada par de olhos que sorri ou se inunda ao compartilhar as palavras o arrependimento tem menos chance de existir. Ele nunca existiu.

Ouvi dizer que as comemorações são importantes para marcarmos nossos passos e interiorizarmos os feitos. São 4 anos hoje, e por mais bobo que às vezes meu cinismo faça parecer seria um desperdício não aproveitar a data para celebrar por termos vindo até aqui.

É mesmo uma exposição, as pessoas acham que tudo aconteceu. Não sei bem o que realmente aconteceu e o que invento, mas isso já é assim há mais anos do que completa agora essa idéia engraçada de publicar, então tudo bem. Minha cabeça insiste em criar histórias, é a realidade quem falha ao ser incapaz de acompanhá-las.

Estamos comemorando também o Ano Novo, e qualquer idéia de renovação ou pretexto para ajeitar o que está ruim me parece bem-vinda independente do mês e dos fogos. Com seu quipá na cabeça, da cabeceira da mesa, ele ensinou que parássemos para pensar no que temos feito, e brindou. Shaná Tová, que você seja inscrito no livro da vida.

Na minha história continuo achando que a felicidade é mais completa com um bode tocando violino, volta e meia há pausas para conversas de Brunas ao som de Strokes porque são muitos hard and twisted thoughts that spin round my head. Saio provocando quem estiver por perto para sermos todos loucos nesse hospício de portas abertas, assumo verdades que não são fraquezas e quando são tento me lembrar de pedir socorro. Cantando em verso e prosa amores e desamores e pulando tantos carnavais ficam mais leves e ricas as centenas de dúvidas e questões que mostram que a vida é para ser vivida com paixão para que até a saudade valha a pena.

Continuo andando, mesmo tendo percebido que o titulo original sumiu do blog. Foi uma evolução natural, quando reparei já tinha acontecido, vai ver a mensagem está tão presente em cada linha que seria redundante colocar uma faixa lá em cima. Mas não se preocupe, as pessoas comuns aqui retratadas continuam determinadas a terem vidas extraordinárias e fazerem seus próprios caminhos. Sabem que acontecimentos não fazem escolhas como se fossem extrínsecos a nós, como se a vida fosse indo tal qual um barco levado pela maré sem que tomássemos o leme. Somos a soma das nossas escolhas – não as grandes, enormes, que parecem definitivas, mas as pequenas e diárias, aqueles percursos que traçamos todos os dias e que só passam a existir no momento em que os criamos. Somos protagonistas, roteiristas e diretores desse filme (preciso, inclusive, renegociar o orçamento).

É dessa mesa, desse lado da tela, às vezes mera espectadora desse mundo, que vasculho um jeito de tornar tudo mais fácil. A solidão não é uma ameaça, é condição e até opção, mesmo que não pareça. A minha história não é um monólogo.

Puxa essa cadeira. Você mesmo! Como no jogo de buraco que a vez é sempre de quem pergunta “quem é agora?”, é exatamente você. Pede um Johnnie Walker para brindar.
Feliz ano novo!

5.9.09

Programa de aceleração do crescimento pessoal

A Light acha que eu sou pobre. Educadamente falando, que pertenço à classe de baixa renda. Sábado à noite, planilha de orçamento nas mãos e ouço da atendente da empresa a sugestão de me cadastrar no Bolsa Família para conseguir novamente pagar quinze reais por mês de luz, e não mais trinta como vem acontecendo. Gisele, muito simpática, recomendou fortemente os benefícios do projeto do governo que visa ajudar meus semelhantes pobrinhos e explicou que a Light poderia me dar uma mãozinha se eu conseguisse me manter dentro da faixa de consumo que eles entendem como boa para mim, mas não o fazem para me punir pela oscilação no meu comportamento. Eles analisaram meu histórico, me incluíram nessa classificação econômico-social e me consideram muito instável. Às vezes enlouqueço e extrapolo, mas conta de luz não é crediário da Marisa. Achei que Gisele fosse recomendar outras ações que reforçassem meu voto de pobreza, mas ela se ateve ao quesito energia. Pelo menos, na hora, pareceu fazer isso.

A Light não desaprovou o fato de uma moça bem apessoada de 30 anos, de posse de suas faculdades mentais e possuidora de um circulo razoável de amigos passar a noite de sábado questionando os reajustes de preço aprovados pela Aneel, mas eu sei que acrescentou à minha ficha o dado de que preferi conversar com a Gisele a ver a Yvone levar mais uns tapas da Silvia na reta final de Caminho das Índias. Talvez isso represente um ponto a meu favor, afinal, TV consome muito. Talvez a moça tenha ficado com pena de mim por não ter dinheiro nem pra ir a um pagode tipo damas grátis até a meia noite e só me restado a companhia de um atendimento 24 horas. Gisele me deu o nome do Valdecir, um colega dela que trabalha no call center da CEG, e na hora não entendi, mas pensando agora vejo que foi bonito de sua parte essa outra dica. Ela poderia ter sugerido que eu passasse meus sábados na Bola de Neve Church ou recomendado livros de auto-ajuda. Se bem que ler gasta luz, reprovável.

Quando desliguei o telefone levei horas pensando sobre o parâmetro usado para consumo de luz pela baixa renda. Se uma pessoa solteira que basicamente só vai em casa para dormir gasta muita energia, como se economiza nos lares onde a renda per capita não supera um quarto de salário mínimo e há em média cinco filhos? Eles têm Net gato e painéis solares no teto? Fazem aproveitamento de energia eólica?

Que mau uso de massa cinzenta, Bruna! O importante é estarmos sempre atentos às coisas boas que nos aparecem e às mãos estendidas quando menos esperamos, identificar as oportunidades de melhoria e crescimento. A Light está me doutrinando, o desperdício é uma atitude incorreta em qualquer área. Sobre a minha incapacidade de permanecer estável até na conta de luz, prefiro não comentar aqui. Isso é entre mim e, quem sabe, o Valdecir – não posso desperdiçar um amigo da amiga assim, certo? Se casarmos a conta sobe, mas ganho alguém para pagar a metade dela.

27.8.09

O casamento da minha melhor amiga

Lá vem a noiva toda de branco e sua amiga enxugando o seu pranto.
Ele aceitou, ele aceitou, terão mil bem-casadinhos e a madrinha vai surtar.
Já começou, já começou, ela está fazendo riminhas que CA e Pim vão publicar.

Tribuneiros.com não coube na música. Mas continua aqui.

17.8.09

Baile de máscaras

Eu menti sim. Editei a verdade a meu favor. Em um exercício de futurologia imaginei como você reagiria a todas as histórias e escolhi a que melhor me pareceu. Tenho um crédito pelo trabalho! Deveria sim ter economizado tanta especulação e sido simplesmente eu, mas garanto que foi bem mais fácil ter criado tantas hipóteses e investido em uma. Não por eu ser uma pessoa ruim, absolutamente, mas por já estar de tal forma acostumada a esse exercício que naturalmente ser é desgastante, exaustivo. Talvez você gostasse de mim sim, mas não dá. Achou que viesse aí uma explicação psicológica do motivo? Está vendo como sou surpreendente? E isso nem foi calculado, essa sou eu sendo bastante espontânea.
Ao pouco que você falou acrescentei o muito que percebi por aí e montei essa personagem, criatura bem legal, confessa. Adorável. São anos de estudo: livros, filmes, revistas, campanhas publicitárias, conversas abertas e entreouvidas, músicas, tentativas e erros de quando eu ainda arriscava, quase uma tese com extensa bibliografia! Deu em nada, não é? Só mais uma em vão.
Não foi por mal. Nunca tive a intenção malévola de enganá-lo, pelo contrário. Queria que você encontrasse tudo aquilo que sempre buscou na vida. Olha que presente! Queria ser sua mãe, a ausente que não impôs limites, sua amiga a te incentivar e dar mil motivos para rir, sua amante mais atenta, a filha desprotegida e mulher da qual se orgulhar. Acabei sendo nada, alguém que você nem sabe quem é. É ninguém, um pedaço de carne, coração dilacerado implorando atenção.
Não vou ficar muito tempo por aqui. Invento uma nova, me dá cinco minutos para retocar a maquiagem e pode chamar o público. O show tem que continuar.

10.8.09

Ligeiramente à toa

Digite 1 para promoções de fraldas.
Digite 2 para aulas de carpintaria.
Digite 3 para idéééias.
Digite 4 para a banda passar.
Digite Tribuneiros.com para tudo fazer mais sentido. Ou não.

6.8.09

He's gonna be a fry cook at Venus



John Hughes, 1950-2009. (Com uma incrível atuação no take 1986!)

31.7.09

Ligeiramente feliz

Eu estou grávida.

Corta pro flashback. Porão da casa de cultura Laura Alvim. “Não saber que camisinha estoura é como não saber que carro atropela!”. E tinha a cena da Ingrid que saiu com uma toalha na cabeça por culpa de um baseado e uma parte chatíssima onde a Maria Mariana dizia que duas simples bocas podem fazer maravilhas por duas simples almas. A gente ria quando elas diziam que o primeiro beijo tinha sido bom, mas aquela língua atrapalhava um pouco. Primeiro beijo da vida. Era bem próximo.

Eu estou grávida.

Ser surpreendida por uma gravidez aos trinta é como bater o carro na garagem? Você já relaxou, acha que domina as técnicas de baliza, em um dia ruim manobra até pensando em outras coisas, não tem mais alarmes e sinais luminosos indicando a cartela de pílulas, adultos acenando com preservativos, os homens que reclamam que aquilo atrapalha não são mais moleques querendo contar vantagem (será?). Sendo bem sincera você sabe que consegue ter um filho ainda que converse melhor com o garçom do Bracarense do que com o pediatra.

Ela está grávida.

Em homenagem ao aniversário da chegada do homem na lua ela resolveu dar seu grande passo – apesar de pequeno para a humanidade. Cancelou a prova de docinhos que faria com a irmã noiva, prendeu o cabelo besuntado de formol contrariando as recomendações da cabeleireira e saiu com ele. Um cara tão romântico, eles e o oceano Atlântico, ele não sabe quem é Bahuan, ela usa um lindo sutiã e as coisas mais sérias a gente conversa amanhã.

De repente, no amanhã, ela está grávida. Que merda.
E ele sorri. Ela chora. Chora mais ainda. Ele encosta na barriga dela onde cresce um serzinho de treze milímetros. Ele não acha bom que ela fique em lugares fechados por causa da gripe suína, mas pergunta se podem viajar nos próximos meses. Antes do sétimo ele quer que ela conheça seu país preferido.

Ela está grávida e algumas pessoas simplesmente não nasceram para o comercial de margarina. Elas escolheriam Bob Dylan para a trilha. E tudo bem.

You've gone to the finest school all right, Miss Lonely
But you know you only used to get juiced in it
And nobody's ever taught you how to live on the street
And now you're gonna have to get used to it
You said you'd never compromise

29.7.09

Quando eu estou aqui

Pra quem vai fazer as ilustrações do próximo e pra quem mais uma vez manteve os batimentos cardíacos controlados a noite toda.
Pra estopa que deve estar rodopiando de alegria e se estabacando no chão.
Pra quem, de algum lugar, acompanhou meu vinho com um whisky porque são determinadas coisas que nunca mudam.
Pra quem apesar dos tantos presentes em todas as datas devia saber que o maior deles foi o imenso carinho, e pra quem depois me levaria pra andar de bodinho.
Pra bridezilla que comportadamente ontem não ficou desenvolvendo teorias etílicas infinitas sobre qualquer coisa, e pra quem traiu o movimento punk.
Pra quem pode ouvir Lulu Santos no repeat sem traumas – o seu destino é ser star.
Pra quem, uhn, acho que engordou mais um pouco, mas a roupa de business man disfarça.
Pra quem me enganava colocando ovo no Nescau! E hoje me esclarece tanta coisa.
Pra quem ontem estaria vestida toda fofinha com os cabelos azuis (e talvez me emprestasse seus casacos de pele mesmo que não fôssemos a um baile).
Pra quem colocou um caracol na minha cabeceira para eu não me esquecer de levar a vida devagar.
Pra quem nem nas suas apostas mais altas devia imaginar que aquela coleção de livros geraria dois!
Pra quem é báááárbara.
Pra minha parceira no Jogo da Vida.
Pra quem começou essa brincadeira virtual e tornou tudo tão real.
Pra quem pinta, borda, escreve, esculpe, viaja, se muda e encanta, e para seu príncipe bem real.
Pra quem comprava de uma vez só todas as figurinhas do álbum e para suas novas figurinhas.
Pra my person, again, e isso não vai passar.
Pra meu 911, mesmo quando pede pra aguardar um momento, senhora, sua ligação é muito importante para nós.
Pra quem agora voa porque pular era pouco.
Pra dona do meu spa particular – mesmo que ele fique em SP.
Pra quem daqui a pouco volta não só a passar a mão na bunda da vida, mas a agarrar com vontade - e ainda vai ganhar a tal.
Pra quem eu sei que nunca vai faltar nosso almoço de domingo mesmo que nem se lembre mais que diabos é isso.
Pros que aprenderam que não há nada tão ruim que não possa melhorar - muito.
Pra quem talvez não fosse tão parte da família se realmente tivesse nascido nela.
Pra quem – sim – tem o mesmo sobrenome, é minha tia (como ela pode conhecer tanta gente?).
Pra quem cuida de mim mesmo perdido pelo mundo.
Pra minha roommate que gosta de gente bonita.
Pros meus mestres, com carinho. Eles ensinam que hay que endurecer sin perder la ternura jamás.
Pra quem destrói carrinhos, mas constrói amizades – e eu saí ganhando nessa!
Pra quem sabe que a vida é o resultado das nossas decisões, mas sopra um ventinho ali na praia e sempre é tempo de aprender kitesurf.
Pra quem teve batizado coletivo, mas é único.
Pra quem é muito mais bobo do que eu.
Pra quem me deu um chocolate lááá atrás.
Pra quem gira no chão porque... ah, normal, a música é boa.
Pra minha insensatez.
Pra keynote speaker dos seminários que ainda vou organizar.
Pra quem não quer the next best thing, mas the best thing ever.
Pra mãe das meninas.
Pra quem tem 13 milímetros.
Pra borboleta verde com diploma de Yale.
Pra quem elogiava tanto que me convenceu que era bom, e pra baleia da sua piscina.
Pra primeira princesa, ou Your Royal Highness.
Pros amigos que eu ganhei deles.
Pro sóbrio em Salvador.
Pros meus companheiros de aventuras.
Pra quem foi, e isso já foi tanto.
Pros que acham o Junior o melhor garçon do Jobi.
Praquele banquinho na parede que me rendeu tantas conversas, pros que conversam através dessa tela e até sem nenhum comentário.
Pra quem me deu um abraço.
Pra quem me desafiou a escrever e mostrou a medida da felicidade.
Pra quem me ensinou a ter certeza, e que reinventá-la não a transforma em dúvida.
Pra quem segue andando, e às vezes assobia feliz.

28.7.09

There's no point to any of this!
It's all just a... a random lottery of meaningless tragedy and a series of near escapes. So I take pleasure in the details. You know... a Quarter-Pounder with cheese, those are good, the sky about ten minutes before it starts to rain, the moment where your laughter become a cackle... and I, I sit back and I smoke my Camel Straights and I ride my own melt.

Reality Bites, 1994

19.7.09

As canções que eu faço para você

Pode ter sido o Rei debaixo de um temporal no Maracanã lotado ou a lembrança do receituário azul.
Quando a dor vem de algum lugar concreto, ufa, deixa vir. Se com ela vem uma vozinha amiga, parente da tal luz no fim do túnel, confia. Se traz uma torrente de lágrimas, deixa cair. Elas limpam a alma, levam embora, fazem cada sorriso ser mais bonito e cada ser ser mais humano.
Se a dor gera histórias de uma vida, são detalhes que eu conto aqui. Às vezes vou deixar você me ver chorar sorrindo.
O amor pode vir de um abraço amigo, do caso mais antigo, pode não vir como a gente queria, pode vir de um gesto inesperado, uma ligação bêbada no meio da noite, uma tarde com vinho em um vale, uma dedicatória em um livro, pode vir do outro lado do monitor. Aqui esse amor é uma canção composta por um pobre resto de esperança sentada à beira de uma estrada. Um olhar volta e meia tristonho que deixa sangrar no peito uma saudade, um sonho. Posts e posts que nos trouxeram até aqui - coisa que somente entre nós dois ficou - cicatrizes que falam em palavras que não calam o que eu não me esqueci.
Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada (do tempo que transforma
todo amor em quase nada), mas como "quase" também é mais um detalhe eu quero levar este canto amigo a quem o necessitar. Preciso do coro de passarinhos! Quero ter um milhão de amigos pra cantar em um estádio inundado e lotado.
A felicidade pode vir em capsulas e o futuro em drágeas, mas é melhor quando vem em forma de gente mesmo que gente provoque dor. Porque quando você está aqui eu vivo momentos lindos que me fazem lembrar que com tanto sentimento deve ter algum que sirva.
Qualquer coisa que se sinta é melhor do que um receituário azul. O importante é poder compartilhar as emoções que vivi.

No dia 28 de julho nos encontraremos no Associados. Vou pedindo o chopp.