7.7.09
Ctrl+Alt+Del
O bar lotado. De novo.
Todos se divertindo, mesmo que preferindo estar em outro lugar. Todos adorando aquelas companhias, mas num beco escuro do peito um desejo imbecil de ter outra, e às vezes o desejo derrama e inunda. Se isso fosse um filme do Gondry a cena viraria uma piscina com todos brincando de Marco Polo.
Você pode pensar que se fosse uma obra de arte seria um quadro do Hopper, mas não. Na cidade colorida as dores não tocam blues, cantam samba, e pelo menos fica mais animado, aquele triste que a gente chama de bonito. É tão bonito que dói.
Na parede do bar o folheto de um curso que ensina a rir de si mesmo. É sério.
A música lá longe. De novo.
Todos vendo o mundo de uma redoma blindada, as pessoas em um plano etéreo. Se fossem risadas viriam do apartamento ao lado.
Você pode pensar que se eles voltassem no tempo fariam diferente, mas repetiriam.
Às vezes o mundo parece um manicômio lotado de gente com esparadrapo no coração.
Se fosse feita uma enquete no bar todos levantariam a mão.
Têm a banda calada, o tempo parado, comida no estômago, vontade de cair no sofá, pantufa e moletom, pálpebra pesando, um exército empurrando para sorrir. Sorriem. Superam. Suspiram.
Você conhece ela?
Conheço. Ela é quem eu queria ser se assim fosse ter você perto de mim.
Se fosse uma doença seria fibrilação.
Eles sabem que daqui a pouco vai aparecer alguém para deletar os itens excluídos de vez, mas antes têm que abrir espaço e a lixeira está ocupando toda a memória.
Se fosse um Mac a mensagem seria “the finder needs your attention”.
Se fosse fácil...
25.6.09
Do outro lado do Pontal
O Leme é aquele bairro que só tem 5 ruas. Vai tooooda a vida pela praia e quando esbarrar na pedra olha pra esquerda. É ali. Siga por esse caminho: tribuneiros.com
17.6.09
Samba de Galeão
Imagino que você não queira casacos, mas areia. Areia e Janot. Não tenho visto o Janot, mas me faria bem. Não tenho pisado na areia porque dizem que pode me fazer mal, mas penso que se fosse para ter problemas com o sol Deus não me colocaria nessa cidade. (Paul McCartney teria pensado nisso.)
A luz está linda nesse outono e juro que não é para disfarçar problemas no roteiro como em filme ruim, presta atenção no colorido da lagoa ao sair do túnel. É sempre quando eu suspiro por estar aqui.
Será que você tem andado por aí se despedindo, abraçando esquilos no Central Park, transformando qualquer refeição em brunch, atravessando várias vezes a ponte a pé? Será que você está fazendo planos ou se cansou de mudá-los? Tomara que não tenha perdido sua deliciosa capacidade de se entregar loucamente - a uma idéia. Ok... e ao seu marido (que eu não sou ciumenta). O bom de uma amizade é isso, a gente nunca precisa pedir o outro em casamento e ninguém se apavora pensando se queremos continuar ali. Simplesmente estamos sem medir o sempre.
Com você aqui voltaremos a mandar emails juntando pedaços das histórias confusas da noite anterior e não mais nos atualizando sobre how are we doin. Veremos bem de perto os efeitos dessa temporada longe. Não direi nada sobre as vezes em que nos lemos chorando, só que esse ano não passou rápido demais. Continuamos colecionando uarifes como se fossem toy art, nossa prateleira está cheia deles porque nosso caminho é cheio de What if, mas reagimos com menos ansiedade a essas bifurcações. Ou não.
Se me permite dar uma notícia, digo que essa vida à toa anda boa.
Como sempre.
As fases ruins passam. Também.
Pega esse avião. Vem beijar o meu Rio de Janeiro antes que um aventureiro lance mão.
8.6.09
Um chinelo velho do seu número
2.6.09
29.5.09
E fez o povo inteiro chorar
Começando pelo fim, as pessoas aplaudiram. É muito legal filme onde as pessoas aplaudem, principalmente quando a sessão não é de festival nem no Estação Botafogo, onde o público é tão engajado que se não gostar do que vê é capaz até de discutir com a tela. O casal ao meu lado acrescentava tantas informações à história que vivi uma experiência de cinema interativo, ampliada pelo coro e dancinhas do resto da platéia. Mais um pouco alguém levantaria e regeria Meu Limão Meu Limoeiro dividindo a sala em duas.
Eram só três dias cantando Sá Marina, agora são mais três avaliando todas as questões geradas por um filme que eu já chamo de “historicamente importante por apresentar um outro lado da esquerda glorificada”. Estou virando uma mala e ainda uso gerúndio para confessar isso.
Meu Deus! Sim, é um cachimbo, nada além de um cachimbo, às vezes um charuto é só um charuto, xinga o Jaguar e dane-se. Está explicado o cansaço, compreender os motivos que levaram alguém a fazer alguma coisa fez com que meu cérebro se assemelhasse a contorcionistas do Pilobolus.
O Pasquim acertou, Simonal ficou mais conhecido por seu dedo do que por sua música, e para não cometer o mesmo erro de muitos que desfilaram naquela tela eu não queria apontar o meu para culpar quem em 30 anos não se lembrou de perdoar. Fica a lição, ficou a música, mas fica também ecoando na minha cabeça a declaração de que “ele está no céu regendo um coral de anjos”. Agora, José? Nem vem que não tem.
O filme é sobre a destruição da carreira de um gênio porque não existem bonzinhos e mauzinhos. Talvez a empáfia do filho da empregada que andava de Mercedes tenha encontrado resposta à altura entre seus colegas de profissão, exilaram o Simonal e ao contrário das outras vítimas da ditadura ele nunca voltou. Gente tem preguiça de olhar pro lado, pouco importa o sofrimento alheio seja ele de um branco, negro, rico, pobre, ídolo ou renegado.
A época era de patrulhamento ideológico, a traidora tem pais hippies, o chefe está sendo pressionado, ele tem medo de me magoar, dane-se se não vivi a ditadura, se nasci em um tempo onde não existe nada de tão grave que alguém possa fazer para ser jogado no ostracismo eterno. Gente erra, mas vai errar com outros. Eu tô com raiva. O filme é ótimo. O Jaguar é um filho da p*#@.
Ufa...
27.5.09
20.5.09
O cheiro do ralo (das aventuras de Lar, salgado lar)
São dez anos de congressos, milhas e milhas voadas para ouvir gente inteligente dizer coisas importantíssimas e nenhum palestrante jamais mostrou no Power Point: mais fundamental do que rentabilizar o conteúdo é catar os cabelos que caem no banheiro.
Eu entendo sobre cabelos, qualquer mulher entende: se não cortar de dois em dois meses aparecem pontas duplas, um pouquinho de silicone diminui o frizz, mas os danos mortais que os malditos fios que te custam uma fortuna causam no encanamento a Marie Claire não conta. Nunca li na Vogue como abrir o sifão da pia que inundou o banheiro branco decorado com vidrotil. Sei lá onde é o sifão!
Por isso acabei eu, cabelo hidratado com Alfaparf, trocentos cursos no currículo, bombeando um desentupidor no tanque enquanto meu pai, agachado com um plástico enrolado em uma mão e chave de fenda na outra, tentava eliminar o odor de fossa que acabou com minha essência comprada na Daslu Home. Com toda a paciência do mundo o homem puxava gremlings do buraco negro e pensava “se não sair uma cabeça daqui, a minha filha tem um problema capilar”. Ou “essa menina precisa de um marido”.
Amanhã tem reunião de condomínio, talvez seja uma boa idéia seduzir o vizinho.
10.5.09
Jogo da vida
Quando você menos esperar, vai estar igualzinha a ela. E antes disso vai perceber que ela sempre foi bem parecida com você.
Feliz dia tribuneiro das mães.
8.5.09
Animal cão
O bichinho já é cego e surdo, eu já sou estressada e medrosa, mas nos dois apareceram bolas que mais pareciam corcovas e se não quiséssemos virar dromedários teríamos que extirpá-las.
- Está nervoso?
- Um pouco, e você?
- Vai dar certo, eu seguro a sua pata e você lambe a minha mão. Mas não morde ninguém.
- Ok. Nem você.
Às vezes o nunca mais não é exagero, é certeza. Não tem palavra. Não tem alívio pro vazio, principalmente pro vazio deixado por quem aliviava o caos do mundo. Quanto sentimento por um bichinho genioso.
Parecia uma nuvenzinha, um poodle de escova. Nos momentos menos higiênicos, uma estopa. A bolinha champagne chegou há tanto tempo que não dá mais pra contar uma história, ela se mistura com a minha. No nosso amor sem alardes talvez fôssemos presença fundamental na vida um do outro, eu o procurava pra fazer carinho, ele se apossava do meu travesseiro. Ele sentava se equilibrando com as patas em volta da minha mão enquanto tínhamos conversas assim:
Eu prometi que você não sofreria, cãozinho. Gente não escolhe sofrer ou não, mas você, deixa que eu protejo. Encara como um agradecimento às tantas vezes em que aturou quietinho eu te amassando em um abraço. Em troca de me eleger o melhor escudo humano contra implicâncias alheias, só precisei te apoiar durante a dor de barriga causada por um medalhão à piamontese. Foi uma relação bem equilibrada.
Há muito você já não me faz mais de apoio para suas espreguiçadas, não pula no meu colo amassando o jornal com a total falta de cerimônia de quem sabe que é o dono da gente. Se abaixo e te encaro não preciso mais desviar como ninja das suas investidas pra lamber minha cara.
Queria ver você pulando em volta de si mesmo até tropeçar quando a porta abre, ouvir os latidos escandalosos que ficaram lá no passado. De barulho, pra mim, só sobraram suas unhas no assoalho. Pra você não sobrou nada. Que diferença? Nunca atendeu ao nosso chamado mesmo. Você só vinha quando queria, e quando queria era a criaturinha mais companheira que eu já tive.
Não tinha isso de “cachorro, vamos brincar agora”, só brincava se quisesse. Correr atrás de bolinha nem pensar, pra quê o trabalho de buscar e vê-la sendo isolada de novo? Preferia sentar à mesa e comer pão com manteiga! Se estava dormindo, estava dormindo, ponto final, smplesmente não queria ser incomodado. Às vezes corria pela casa como se tivesse tomado um ácido, em outras horas ficava sozinho brincando com o vento. Criou bem seu mundinho particular em meio a tantas crianças, agüentava ser jogado pelos ares numa boa e quando passavam do limite rosnava como uma fera me fazendo pensar – um dia ele ataca. Esse era você ou era eu? Você, bem mais controlado.
Não publiquei o texto lá de cima esperando o dia do meu exame. Foi hoje de manhã, mas você foi ontem à tarde. Vou operar minha corcova. E nunca mais vou te esquecer.
1.5.09
30.4.09
Are you George Clooney?
O próximo passo é comprar uma máquina de Nespresso.
22.4.09
Lerê lerê...
Eu sei, era a taça do mundo, ela brilha muito mais do que eu imaginava apesar de jamais ter imaginado algum dia estarmos tão perto, mas como uma criancinha deslumbrada saí olhando para o resto do estúdio. Dois homens com TVs enormes na frente e microfones assistiam a um jogo e conversavam sobre isso. Não tinham uma cerveja na mão nem palavras chulas à disposição, mas estavam comentando Porto x Manchester United ao vivo para todo o Brasil. Tem gente que vive de ver futebol! É como se me oferecessem dinheiro para ficar falando sobre Grey´s Anatomy.
O hotel Andaz, em Londres, contratou um novo profissional. Os hóspedes escolhem um livro em um cardápio de 25 títulos e Damien Barr lê para eles durante uma hora. Ele trabalha uniformizado - de pijamas – e só não pode deitar na cama nem fazer vozes diferentes para cada personagem.
É isso, Damien vive de contar histórias. Alguém vai ser o zelador de uma ilha paradisíaca na Austrália. Tem gente que vive de escrever os quadrinhos do Snoopy, treinar golfinhos no Sea World, ser acrobata no Cirque du Soleil, coreografar os shows da Madonna, alfabetizar crianças no sertão.
Às vezes parece que nem todas as histórias estão listadas no cardápio.
13.4.09
Dedicatória
E se eu hesitar em te pedir para ficar?
Memórias, crônicas e declarações em Tribuneiros.com.
5.4.09
1.4.09
Happy Pinoquio´s day
Você vai esquecer esse cara em dois minutos.
Eu precisava comprar essa bolsa, não tinha mais nenhuma apresentável.
Ele está inseguro, você é mulher demais para ele.
Eu não vejo Big Brother, é porque todo mundo só fala disso.
Ela não está dando mole para ele, são só muito amigos.
Na segunda-feira eu começo.
Não estamos terminando, é só um tempo.
É diet, mas uma delícia.
Vamos lá pra casa, não vai acontecer nada demais.
É o trânsito, mas em cinco minutos estou aí.
Ele está sendo cauteloso, é medo de estragar a amizade.
Eu queria muito, mas não tive tempo.
Achamos sua proposta genial, mas agora o foco é outro.
Só mais uma partidinha, já vou desligar.
Nosso relacionamento terminou há anos, desejo que os dois sejam muito felizes.
Está muito gostoso, é que eu estou de dieta.
Eu seria incapaz de fazer qualquer coisa que te magoasse.
Não precisava!
Só estou com dor de cabeça.
Você não precisa ir, é só porque minha tia avó te adora.
Vamos tomar a última e partimos.
Em dez minutos eu estou pronta.
Não vai doer nada.
Faz assim, deixa que eu ligo pra você.
Mulher direita não corre atrás.
Você está louca.
30.3.09
Por uma vida menos ordinária
Essa também é uma história real.
"Hola Aitana, me llamó Josep Mascaró y tengo ciento dos años. Soy un suertudo. Suerte por haber nacido, como tú. Por poder abrazar a mi mujer, por haber conocido a mis amigos, por haberme despedido de ellos, por seguir aquí.
Te preguntarás cúal es la razón de venir a conocerte hoy. Es que muchos te dirán que a quién se le ocurre llegar en los tiempos que corren. Que hay crisis, que no se puede. Esto te hará fuerte. Yo viví momentos peores que este, pero al final de lo único que te vas a acordar es de las cosas buenas.
No te entretengas en tonterías que las hay y vete a buscar lo que te haga feliz, que el tiempo corre muy deprisa. He vivido ciento dos años y te aseguro que lo único que no te va a gustar de la vida es que te va a parecer demasiado... corta.
Estás aquí para ser feliz."
22.3.09
Vem kafka comigo (mais uma da série Lar, salgado lar)
Pombos não são invertebrados, mas também não são necessários por aqui. Cada vez mais, inclusive, perdem a noção do perigo: atravessam a rua como se fossem pedestres, vão à praia como se cantassem “separa um lugar nessa areia, nós vamos chacoalhar essa aldeia”, dão vôos rasantes como se fossem terroristas. Como não existe filhote de pombo suponho que o ajuntamento de ratos de asas que escolheu a minha janela para viver caracterize uma quadrilha, já que família eles não podem ser. Todos os dias, bem cedinho, os desgracentos começavam a fazer barulhos que pareciam um tórrido ato de acasalamento ou que estavam todos engasgados. Veneno, saco plástico esvoaçante, praga, tudo em vão. Há quem coloque grade na casa para afugentar ladrões, eu fui obrigada a me cercar contra pombos.
Afugentados os piolhentos, passei a desfrutar da delícia do meu lar até elas chegarem. Vivia com uma vassoura atrás da porta e não era simpatia para afastar visitas chatas, mas uma arma. Entrava em casa era vassoura em uma mão, Baigon na outra. Foram seis baratas em quatro meses e não era o calor, a chuva que sempre fechou o verão sem inundar a cidade de artrópodes, sujeira, era uma invasão, tal qual os pombos elas ficaram abusadas, debochadas até. Uma apareceu morta às sete da manhã, barriga pra cima, patas pro ar. Alguém invadiu a casa na calada da noite e exterminou uma barata? Um ataque cardíaco fulminante a levou antes que a nojenta alcançasse meus aposentos? O que fazia uma barata defunta na porta do meu sagrado quarto? Quando aproximei o saco-rabecão para recolher o corpo eis que a cascuda deu um 180, voltou do mundo dos mortos e correu para o meu edredom! É muita audácia. Ou alguém acha que havia uma barata dormindo tal qual um cachorro na porta do meu quarto? Queria ser minha barata de estimação, pedia festinha na barriga? Não, queria zombar de mim. Guerra oficialmente declarada, 2696969 chegou como Ghostbusters, if there’s something strange in the neighboorhood tinha, é passado, elas podem resistir à radiação, mas não resistiriam à minha fúria.
Precisei me preparar para tudo, quem seriam os próximos sem terra invasores de propriedades? Morcegos? Ratos? Lagartixas dissimuladas usando a desculpa de que trazem dinheiro? Não caio nessa. Na minha casa só entra quem eu convido e todos devem ter um número mínimo de ossos e nenhuma pena. Até que um dia um objeto voador verde chegou e eu amarelei. Era uma esperança. Não poderia matar a esperança no meio da sala! Viveríamos ali, ela e eu, até que a bendita decidisse bater asas e voar janela afora, o que poderia ser muito dramático, mas eu estava preparada para não encarar o fato simbolicamente. Acontece que a idiota ficou louca, começou a se jogar contra as paredes, foi de encontro ao ventilador, na casa de mais quem poderia existir uma esperança suicida? (mais uma, meu Deus, é essa a razão da felicidade do meu terapeuta milionário.) Ela se estatelou no chão. Eu preferia mil tsunamis a recolher restos mortais de esperança, só porque uma moça riu no supermercado ao me ouvir pedir duzentos gramas de Solidão mudei a marca do queijo minas, não quero dar sinais ao mundo, vai que ele também interpreta que agora desejo carregar sentimento em sacos plásticos!
Desesperada, me aproximei do cadáver e a verdade apareceu: era um grilo! Acabei com um grilo que havia na minha vida! Depois descobri que o inseto era um louva deus, mas quem se importa? Pra mim era um grilo e simbolicamente cancelei a terapia da semana.
18.3.09
Na primeira vez a gente sempre esquece
Esquece de filtrar todo aquele charme e racionalizar se existe algum futuro. Nem por um segundo cogita a possibilidade de por trás de tanto empenho existir um psicopata dependente e ciumento, que ele pode ser um grande mentiroso e destruir seu coração em poucos dias, que da última vez jurou nunca mais ser boba assim, que há pouco tempo estava acabando com o estoque de lenços secando o vale de lágrimas derramado por quem começou exatamente do mesmo jeito. Esquece que juraram que você ia adorar o amigo dele que ninguém lembra mais onde foi parar, que ele vai te roubar o prazer da solidão, que vai passar essa vontade ingênua de ficar e não pensar em nada.
Esquece completamente que precisa disfarçar a taquicardia, falar menos e parar de esbarrar nele. Que daqui a pouco ele não vai mais precisar inventar motivo para tocar em você. Nem nota que milhares de vezes ele vai pensar em te beijar e desistir com medo de ser precipitado, que existem pessoas ao redor reparando no seu sorriso bobo e que você não pára de mexer no cabelo. Esquece que os olhos dele nem sempre vão estar te seguindo, que a música está alta mas ninguém ao redor está falando assim tão perto do ouvido alheio, que nem sempre ele vai pagar mais uma bebida torcendo para aquilo dar um porre de coragem.
Esquece de guardar um pouco dessa versão adorável de si mesma para depois, esquece que ele não vai falar de você pros amigos com reticências e uma gargalhada sem graça todas as vezes, não vai se culpar por ter perdido tanto tempo com as outras tendo você tão perto. Que aquela aranhinha na parede vai considerar usá-los como suporte pra a teia se vocês demorarem mais algumas horas conversando ali. Que as suas amigas estão dormindo no carro esperando você chegar flutuando, que se você ficar mais feliz vai começar a pular e isso vai ser estranho.
Esquece que isso não acontece todo dia, nem por toda a vida.
Na próxima vez, tenta lembrar. E não se esquece de guardar para sempre.
Publicado em Seu Martin 1
10.3.09
Mais que uma Brastemp
28.2.09
Meu caro amigo
- Bom dia, dona Bruna.
- Bom dia, porteiro.
Alguns vizinhos passeavam com os cachorros, os frentistas atendiam um carro ou outro, os entregadores levavam os pães fresquinhos. Em pouco tempo o sol estaria ainda mais quente do que as bisnaguinhas, e tudo bem.
Eu gosto de ficar perto da bateria, corro pra comprar cerveja, furo embaixo da garrafinha de água pra jogar no rosto, roubo um gelo do ambulante pra resfriar a nuca e volto pra perto do surdo. No dia em que estávamos de chapéus de mágico não precisei subir nos carros para encontrar os outros, temos que fazer mais roupas assim. Colocaram banheiros químicos agora, sabia? Funcionam! Um porco ou outro prefere os postes, fazer o quê?
Éramos tantos juntos que as ruas pareciam um salão. No próximo ano vamos fazer um baile com orquestra e todos de preto e branco? Vou esperar você voltar e planejamos. Hoje vou ver o desfile da Mangueira. Depois, não sei. Não sei se isso ainda dura muitos anos. Na última noite os garçons do Jobi seguravam as mãos de quem batucava nas mesas “ô, o Rio é melhor que Salvador”. Acho que estavam mais preocupados com a disseminação da notícia do que da arruaça pelo bar. Lembra que no Caneco também não podia batucar nas mesas? Hoje o Caneco é um prédio de arquitetura bastante duvidosa e eu ainda digo que vou à praia em frente a ele. Não sei se um dia acharemos tudo apertado, de novo essa música, gente suada.
Não cheguei a tempo de exaltar o Rei na Urca, você viu que ele saudou os foliões na janela? Tínhamos combinado de chorar nessa hora, mas paramos para um mergulho na praia e acabou que não chorei nem quando a Teresa Cristina cantou Chico no Último Gole, grávida de explodir. Esqueci. Não senti nenhuma dor por mais de uma música. Levamos cerca de meia hora para dar a volta final na pracinha e confesso que cada pessoa cantava um samba diferente! Eu nem queria pensar nele, mas cantei O Amanhã.
Acho que chorei agora porque me lembrei dele quando falei com você. Não quero lembrar mais do que viver e por isso me esforço para viver tudo como se sempre houvesse pela frente uma quarta-feira. Promete que se um dia estiver nevando em fevereiro, se não houver serpentina nas lojas, se não for normal abelha, joaninha, dálmata e coelho pegarem um ônibus para uma saideira nós nos trancamos no quarto, fantasiamos nossos filhos e ensinamos a eles que cachaça não é água não? Senão eles nunca vão saber porque somos assim.
Senão eles nunca vão saber.
22.2.09
Conto de colombina
Outras donzelas desde então tiveram a mesma experiência: psiu, sapo, bruxa com poderes mágicos, beijo, tudo igual, variando o desenrolar prévio. A segunda donzela concordou em beijar o sapo para livrá-lo da maldição, com uma condição:
- Beijo de língua, não.
Já neste século instalou-se o instante de hesitação para esclarecer um ponto:
- Precisa ser donzela?
Anos sessenta, moça feminista, pra bruxa com poderes mágicos ter feito o que fez com o príncipe ela só poderia concluir:
- Alguma você andou aprontando!
Solidarizou-se com a bruxa e chutou o sapo.
Crise no mercado, Lehman Brothers, Merrill Lynch, a moça ouviu a proposta do sapo, levou pro seu consultor financeiro, nada é mais valioso do que informação privilegiada como a que o sapo lhe passara.
- Esqueça o sapo e encontre essa bruxa!
Ontem no Céu na Terra. A donzela achou que o sapo estava mais pra cachorro, mas a fantasia dele era muito divertida:
- Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é Carnaval.
Ele embarcou para Salvador, ela seguiu pro Corre Atrás, feliz para sempre.
"Amanhã tudo volta ao normal, deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar..."
Versão de Bruna para Versões do Veríssimo, com todo o respeito
17.2.09
12.2.09
Avalanche (ou bolha de sabão)
5.2.09
O tal do ataque de nervos
O copo lindo de cristal espatifado na parede poderia ter ido parar na sua cara de pau por conta da pergunta cretina que sempre ironizava o meu ciúme – “isso é TPM?”. Eu não esqueço, meu anjo, a parte do casal incapaz de lembrar fatos e datas importantes sempre foi você.
Poderia ter sido pior, arrancar a sua cabeça separaria para sempre seus deliciosos lábios do seu confortável tronco onde por tantas noites eu dormi. Isso sim seria injusto, eu sempre soube que um era o perfeito complemento do outro e essa dupla só teria sido usada para o bem se não fosse a influência maligna de outras partes do seu ser. Eu compreendo.
Você teve sorte, coração, uma sobrevida longa e bem aproveitada desde a primeira vez em que me fez de boba. Um cara aí do trabalho não ligaria tantas vezes a menos que a empresa estivesse em chamas, e incêndios que requerem a presença de homens como você no meio da noite normalmente só acontecem na cama de vagabundas.
Por que negar, amor? Eu já tinha perdoado sua indiferença às minhas perguntas, os quarenta e três minutos ignorando meu discurso, aqueles homens correndo atrás da bola desviando seu olhar de mim, já estava tudo sob controle! Era só pedir desculpas e dizer que me amava, mas “paranóica” é uma acusação grave. Falta para cartão! Nessa linguagem você entende, baby? Convenhamos: antes ser descompensada do que cega, não é? Pensa bem, se eu fosse desprovida de visão teria sido a única mulher no Rio de Janeiro a perder o espetáculo que era você sem camisa jogando pelada com os amigos na praia, olha como o seu exibicionismo teria sido desperdiçado!
Até você parar de negar eu já tinha pensado várias vezes se conseguiria te atirar pela janela, mas a partir da sua confissão estávamos indo bem. Por que soltar aquela frase, meu amor? Estaria você possuído por alguma entidade? Quem em sã consciência pronuncia as palavras “é por você ser assim que eu acabei me apaixonando por ela”? Seria uma tentativa velada de suicídio? Você realmente fez isso comigo?
Minhas mãos milagrosas que você tanto gostava, as unhas vermelhas que antes te acariciavam apertaram a sua goela e agora, querido, você nunca mais vai me enlouquecer. Eu avisei que um dia essa fase ia passar.
28.1.09
Mentiras sinceras
Se eu não vi, desconfio.
Se eu não gostei, invento.
Se eu escrevi, lê? Está aqui no Tribuneiros.
23.1.09
Where did you come from
Tem que ter muita gente de todo lugar, gente nova e gente velha, gente com espírito de sacanear e coração aberto para agregar. Gente que se não tem tampinha bebe na garrafa, se não tem cajon liga o som, se não tem a presença apela pro telefone. Gente que voltou a zoar e gente que nunca parou, gente que pula, que grita, que beija e que briga, gente que sempre toma conta de tudo e gente que não sabe nem de si mesmo, gente tentando, gente lembrando, gente entendendo.
E gente pode ser complicado. Às vezes gente disfarça de ódio bom a alegria arrebatadora no coração, de indiferença a preocupação, de cansaço físico a exaustão do peito. We are the world em revelações comprometedoras, imagem, ação, mímica e dança. Pra essa gente tem que ter alguma chance de dar merda, e às vezes dá. Tem que ter abraço, amasso, compasso, música lenta e show de calouros, Dirty Dancing e Jackson Five, Cindy Lauper e Ronaldo Boscoli. Tem que ser criança pra se lembrar do Chico Bento, saber a letra de Manequim, imitar as Paquitas e pedir colo. Tem que ter energético baiano engarrafado ou no Ipod, gim, batida, cerveja, vinho rosé, vodka ou só Cotton-eyed Joe no som.
Tem que subir na mesa e se esquecer da vida. Tem que ter limão, misto quente e Gran Padano. A família que a gente tem ou a família que a gente faz, uma plantação de melancias, memórias de um sargento de milícias e pôr-do-sol no deck. Um helicóptero pra resgatar essa gente que não fala nada, que fala muito, gente pra quem a gente quer pedir que please don’t go. Gente que enfrenta zoação mas não encara aranha, pra quem a noite pode virar histórica só com um pouco de carvão e bom humor, gente que vem do seu fantástico mundo trazendo gargalhadas de souvenir. Gente que não precisa de crachá.
Tem que ter o brilho do luar em sintonia com o mar, gente que se fala no olhar e caminha no mesmo lugar. Gente com tanto querer que faz até a terra tremer sem pressa nem medo de errar. Tem que ter sol no meu amanhecer.
Eu nunca pensei que aquela bifurcação levasse ao dia em que eu só tivesse que ter vocês.
13.1.09
Aaaaabacaxi
– Não adianta, ele não quer brincar agora, filha. Faz seu castelinho sozinha, ele vai ver que é divertido e vem brincar com você.
Mas ela estava desolada.
- E se mesmo assim ele não quiser?
Crianças, tão dramáticas...
- Aí você arruma outro amiguinho.
No sábado seguinte Manu conheceu a Julia e foram felizes por muitas praias. Agora a mãe pensa em comprar uma prancha de surf pra menina.
Adultos, tão condicionados...
11.1.09
Quem sabe
30.12.08
Andar com fé
Para garantir, simpatias infalíveis no Tribuneiros (clique aqui). Afinal, simpatia é quase amor!
27.12.08
Talk to me now I'm older
- Você ainda mora com meus pais? Não me diga que casou e se acomodou, não planejei ser uma Amélia sentimentalóide. Você é uma super profissional mega ocupada e rica, certo? E o livro, já escreveu? Cadê seus cachorros? Que fotos velhas nesse mural, não tem de festinhas mais atuais? Tão poucas pessoas. Você já é meio velha, mas tem uma cara de criança...
Bruna pequena não costumava falar assim com os outros, era quase uma diplomata. Releva, ela deve estar estressada... Não, tanta petulância merece uma resposta sincera!
- Quando crescer você vai fazer metade das coisas que sempre disse que não faria porque não quer ter razão, uhuuu, quer ser feliz! (mesmo que cisme que sua felicidade está do lado oposto ao que a seta indica). Vai realizar seus sonhos e se desapontar várias vezes, preferir manter suas ilusões porque são elas que geram energia para fazer o que está a seu alcance.
A vida é dura até para quem não é mole e acaba sendo uma sucessão de “fiz o melhor que pude”. Você vai perdoar pessoas que cometeram erros imperdoáveis e vai conviver com outras que não tem nada a ver com seus valores. Vai voltar atrás em decisões que antes pareciam as mais certas, vai brigar com quem não merece e passar por cima de mancadas de quem merecia um soco na cara. Você vai mentir mesmo que isso faça doer seu coração, vai se tornar uma ótima atriz de tanto se exercitar. Milhares de pessoas vão partir seu coração e milhares de vezes você vai querê-las de volta. Outras poucas vão fazer tudo para ter seu coração e você vai fazer o melhor de si para afastá-las. Vai se afastar de quem gostaria que ficasse para sempre do seu lado. Vai descobrir que “para sempre” tem duração limitada. Você vai ser orgulhosa, teimosa, dura demais para tentar não se sentir tão covarde. Não vai saber o que fazer, vai pedir conselhos e fazer exatamente o oposto. Vai descobrir que seus pais têm a mesma idade que você, às vezes menos, e que você tem a exata noção de como viver a vida alheia, mas nenhuma idéia do que fazer com a sua. Você vai ter menos dinheiro do que gostaria, vai realizar menos grandes ações do que planejou, só vai ser ídolo do seu cachorro e nem vai cuidar tanto dele.Você vai aprender que conquistas não são de graça e aos poucos vai descobrir que ser adulto significa preocupação com o futuro. Você vai preferir Paul ao John, vai vencer a batalha contra sua mãe e nunca comer feijão, vai decepcionar seu pai porque não sabe fazer conta, se esforçar para ser mais impulsiva. Mesmo assim você vai achar que vale a pena.
Só faz um favor? Estuda menos, viaja mais.
E a pequena Bruna pergunta:
- Com tudo isso Papai Noel ainda vai trazer nosso presente?
- Vai, e você continua esperando a hora certa de abrí-los na árvore.
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Escrito em dezembro de 2005 e republicado sem atualizar (pra seguir a gente precisa saber como chegou até aqui).
Em 2009, keep walking.
20.12.08
Como conquistar garotas
Clicando aqui para ler os conselhos qualquer leitor tribuneiro vai saber o que precisa para se tornar o muso do verão.
Só falta ter verão.
12.12.08
Reflexões de (mais uma) tarde chuvosa
As pessoas que lotaram o estádio do Corinthians nessa sexta-feira para ver a chegada do Papai Noel:
a) eram funcionários do Bank of America demitidos por causa da crise, por isso não estavam no trabalho
b) descontaram a manhã do banco de horas
c) eram só aposentados, crianças de férias e dondocas com poodles debaixo do braço
d) Não era o Papai Noel, o gorducho era o Ronaldo e nas arquibancadas eram realmente homens assalariados em idade produtiva, o que não torna o evento um grande encontro de desempregados e ociosos.
O ex-marido-de-Susana-Vieira Marcelo Silva teve os últimos dois anos mais frenéticos da Contigo – conheceu a atriz quando ela era (argh) rainha de bateria, chegou atrasado no casamento, teve apendicite na lua de mel, destruiu um motel na presença de prostitutas e da mãe, foi expulso da PM, teve o dedo arrancado pelo cachorro, traiu a mulher, bateu na amante, foi pra rehab... Atordoadas tentando entender quem é o morto, as pessoas podem ter se esquecido de fazer algumas considerações: o pacote que ele recebeu continha um DVD e seria o ex-PM mais uma vítima da Flora? Por que alguém está hospedado no Transamérica e vai passar a noite com o namorado no Shalimar? Quem volta de um motel de sunga? Como aquele casal paga as contas do Transamérica? Por que todas as pessoas que se hospedam no Transamérica morrem, seja de febre maculosa ou overdose? Poderia o ex-marido ser mais uma vítima de febre maculosa indicando que depois do mosquito da dengue seremos aterrorizados por carrapatos infectados? Por que o Globo definiu essa morte como tragédia? Ana Maria Braga, que esbravejou em seu programa dias atrás que "se esse cafajeste desaparecesse da face da Terra seria um bem", tem alguma coisa a ver com isso? Estaria Ana Maria Braga também envolvida na morte de Gonçalo?
Só falta uma semana para o ano acabar, quem se importa?
8.12.08
Eu e você no futuro do pretérito
2.12.08
30.11.08
Somos nozes
O banho de chuva não atrapalhou Elba Ramalho e seu banho de cheiro, só o show da Orquestra Sinfônica. O público dessa festa gosta da Orquestra Sinfônica? Agora a árvore toca música. Ouvi só canções natalinas, mas não posso garantir que funk, axé, forró e gospel estejam fora do repertório. Como a melodia vai soar diariamente em três horários, os privilegiados moradores do bairro podem colaborar com esse site respondendo à minha duvida. Tem um mês pela frente para descobrirem, não precisam se apressar.
No nada apressado caminho de volta pra casa aproveitei para aprender o nome de vários lugares através das placas dos carros – quem disse que árvore não é cultura? Já contabilizei 5 fechadas. Nenhuma causou acidente, dezembro no Rio é o mês perfeito para treinar o lema dos escoteiros – sempre alerta! O melhor de tudo: não me irritei, é Natal, o símbolo máximo da festividade iluminada e agora sonorizada torna tudo mais singelo. Eu fico, sem dúvida, uma pessoa melhor enquanto ela está ali, soberana, rodeada de pedalinhos, carrinhos engarrafadinhos e ambulantezinhos.
Ah, a festa é sua, é nossa, é de quem vier! Que venham os amigo-ocultos e eventos corporativos de fim de ano.
24.11.08
É?
Ele mandou por que era aniversário dela ou por que se lembrou da nossa conversa sobre a razão da arte? Era a razão da arte ou se o mundo estava melhorando? Pelo visto tínhamos várias conversas. No fundo eu ainda devo sentir alguma saudade que assim que a mágoa passar vai ser mais bem resolvida por tornar-se uma assumida nostalgia gostosa dos tempos que não cabem mais. Tínhamos o mesmo amor um pelo outro, e o reconhecimento e incrível registro dessa certeza são alterações milenares em um ser traumatizado pelo não-amor.
O tempo altera, mas é preciso algum esforço conivente. A gente não esquece, engaveta. Quando der, reveja os guardados (não queime as fotos). Mas cuidado, testar limites é diferente de auto-sabotagem. Sonho com o dia em que assoprarei o pó acumulado como quem reencontra uma velha caixinha de música esquecida no porão.
Ainda dói assim mesmo ou dói lembrar-se da dor? Dói dentro do peito, vontade de se dar um nó pra desatar o nó. Cabeça que vai de encontro a joelho. Quase vertigem. Nossa... Calma. Lembra? Está tudo bem. Perdão é um sorriso sincero. Ainda vou te abraçar com carinho. Agora fecha essa gaveta, se dá mais um ano. Essa saudade não é real, é só seu coração pedindo água.
No fundo pouca gente está querendo alterar as coisas, mas eu quero tanto que quis um canto.
E desabrochar não altera?
**Eu quis te conhecer mas tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
Pode ser cruel a eternidade
Eu ando em frente por sentir vontade
*Clarice Lispector
** Camelo (ainda mudo o autor desse blog.)
19.11.08
12.11.08
A boa de hoje
People gettin' ready for the news
Some are happy, some are sad
We got to let the music play
What the people need
Is a way to make 'em smile
It ain't so hard to do if you know how...
Leia o texto, listen to the music e dance your blues away em Tribuneiros.com
3.11.08
Modinha de moça
Tem problema não. Tem raiva não, mágoa não, tem é nada, só um achar graça e um tantinho de orgulho, assim, uma pontada.
O tanto que eu tentei, as vezes que eu liguei. Liga não, moça, que mulher tem que ser difícil. Então melhor eu nascer outra mulher, essa aqui dá mais bola que candidato em dia de comício.
Mas você desprezou, fez que era complicado quando enjoou. Acha que eu não sei? Teve complicação nenhuma, foi só mais um que me machucou.
Moça nova aceita muita bobagem. Quê isso de modernidade, eu só queria um pouquinho de atenção pra aplacar minha saudade. E quando é assim não tem novidade, moça é boba em tudo que é idade.
E não é que eu previ? Que depois que a lágrima secou eu entendi? Demorou um nada e tava você ali. É assim mesmo, rapaz, isso tudo eu já vivi.
Agora você ficou pra trás. Que eu também, Camelo, não sou porta de cinema pra dar cartaz.
1.11.08
Um dedim di prosa
Na mesa ao lado já tinha um sapo, um cachorro, um gato e um rato, eu teria que ser o porco - “você vai parecer a Miss Piggy!”. Quem quer parecer a Miss Piggy numa festa da empresa?
Sentados no palco, os gerentes precisavam de uma frase motivacional para fechar o painel. “Ao infinito, e além”, soltou um, e a moça cutucou o colega: “Não é o Superman que fala isso?’. Ainda vão fazer uma tese sobre o Buzz Lightyear e o homem de ferro.
O primeiro desafio dos grupos era fazer um filme. Se ninguém imaginava lobos e madrastas quando te perguntavam há cinco anos como você estaria hoje, por que insistem em perguntar?
O casal de velhinhos portugueses se hospedou no melhor hotel de Tiradentes, e alheio à convenção tomava o café quando viu passar 42 anões, 6 Brancas de Neve e 18 porquinhos. (Estava mesmo no guia que em Minas tem muita cachaça).
Só um porquinho tinha máscara. Já reparou que quando não é tão sério tudo dá certo?
Os porquinhos compraram ações com a indenização que receberam pela perda das casas, a Bolsa despencou e eles se disfarçaram de leitão à pururuca para seqüestrar a Branca de Neve, que continuava rica graças à construção de condomínios para deficientes físicos. (Talvez tenha mesmo muita cachaça em Minas). Já reparou que não precisa de MBA pra falar besteira?
No meio da festa a caldeira do hotel pegou fogo e o estrago só não foi maior porque os bombeiros agiram rápido. Na manhã seguinte alguns comentariam que aquela galera que alugou até carro com mangueira merecia ter ganhado o concurso de fantasia.
Duas da madrugada de quinta-feira, alguns resolveram ir para a boite da cidade vizinha. O coitado que ficou pra trás estava inconsolável. “Eles vão inventar que foi irado e eu vou ter que ouvir.” Já reparou que homem é um ser muito complexo?
Antigamente ninguém perguntava qual era a motivação do lobo ou analisava sua vida pregressa. Já reparou que isso não faz nenhuma diferença na história?
26.10.08
Espero a manhã que cante
Parece que eu perdi a Copa. E Copa não resolve nada, quando acaba a gente diz que tem mais daqui a quatro anos. Ah é, eleição também... Mas nesse tempo a gente faz o quê? Como começar de novo se parecia que aqui começaríamos agora! É um movimento, ele diz, agradecido à população e se dizendo personificação de um recado carioca. É...
Mas o Rio esquece, vai à praia, toma uma cerveja, o Flamengo ganha e a gente se vê, passa lá em casa, deixa o recado com o cara da barraca. Não existe hora marcada na cidade maravilhosa.
É um movimento... Tá. Quem sabe uma canção do mar.
24.10.08
9.10.08
2 ou 3 coisas antes de partir
Que um dia eu vou ter dinheiro para ver a vida passar na varanda de um café lendo jornal sem pensar na Bolsa.Que com poucos euros come-se uma baguette avec jambon e fromage, leia-se ementhal. Ou avec la chevre. Um crepe de chocolat vendido em qualquer balcão é magnifique.
Que toda mulher se sente uma dama sendo chamada de Madamme.
Que ao acordar deve-se procurar saber o que está em greve naquele dia. Sempre tem alguma coisa em greve.
Que tem mais câmera fotográfica do que gente por metro quadrado, e já se ouve mais inglês do que deveria nas ruas.
Que o Sena com a Notre Dame ao lado é o lugar mais bonito.
Que o Moulin Rouge não é legal e fica cercado de puteiros.
Que o metrô deveria ser menos eficiente para sermos obrigados a andar mais de ônibus. Debaixo da terra impressiona a praticidade mas perde-se a vista.
Que nenhuma tristeza resiste a um passeio pelo Champs Elyseés.
Que alguns museus têm desconto para os desempregados. Pode-se não ter trabalho, mas não ter cultura, jamais.
Que a pintura de Chagall parece sonho.
Que o melhor lugar para se tirar uma foto da Torre é no Trocadero.
Que o título completo do filme de Jean-Luc Godard é “Duas ou três coisas que sei dela: a região parisiense”, que originou uma cronica de Mario Sergio Conti, de quem roubei a idéia.
30.9.08
E o mundo não se acabou
E la nave va, sem crise, mais velha, mas ainda em Tribuneiros.com.
22.9.08
Alta costura
Yves Saint Laurent
18.9.08
Uma Brastemp (da série Lar, salgado lar)
Pra começar ela é enorme e isso deve ter a ver com a vontade de aparecer – máquina de lavar gosta de atenção, é praticamente a rainha da casa. Tudo ficando tão pequeno e ela continua aquele elefante? Não existe máquina boa meio-termo, ou é aquela foférrima que só lava lingerie ou são as matronas, casa com pouca gente vive de tanque?
Junto com o manual de instruções vem um Guia Rápido – o que significa que ou o manual é prolixo e desnecessário ou que ninguém vai entender mesmo então melhor se ater ao básico. Primeiro passo: selecione o nível de água – como é que eu vou saber? Nível médio, sem radicalismos. Coloque o sabão no compartimento sem ultrapassar o nível indicado. Como eles sabem o quanto de roupa eu vou lavar, é a mesma quantidade de sabão para a máquina cheia ou vazia? Essa gente não explica nada! Programa de Lavagem – isso deveria ser um quadro da Ana Maria Braga, todo mundo ensina a cozinhar e ninguém ensina a lavar roupa, que burrice. Lavagem Econômica, é essa, nem quero ver as outras opções. Opa, Mais Eficiência? Reaproveitar Água? Essa máquina é ecologicamente correta?
Separe as roupas por tipo, tecido e cor. Tipo de roupa? Tipo calças, blusas, casacos, toalhas? Tenho que lavá-los juntos? Sujar todas as toalhas da casa para lavá-las ao mesmo tempo? Enquanto isso, uso qual? Faço uma planilha para garantir que sempre um jogo fique de suplente enquanto os outros são limpos? Não vou separar por tipo. Tecido. Terei que aprender sobre tecidos para lavar roupa? Seda, malha, organza, tafetá? Jeans e moleton adianta? Não vou separar por tecidos, os que parecerem frágeis serão guardados ad eternum, a partir de hoje só roupa de guerra. Cor. Ah, isso eu sei, essa regra é básica! Branco com branco, preto com preto, coloridos misturados. Bege é colorido? Jeans classifica como azul? Blusa branca com bordado verde e vermelho pertence a que grupo? Deus, uma roupa listrada de preto e branco! E agora, picoto a roupa e recosturo depois?
E assim seu figurino passa a respeitar as regras da Brastemp. Para juntar a quantidade necessária de roupas brancas que satisfaça a máquina você se veste como macumbeira por duas semanas, depois vem a fase dark, preto dos pés à cabeça para poder lavar tudo junto, aí passa dias usando vermelho, rosa, laranja, salmão, grená e vinho, os outros comentam como você anda alegre, fazem piadinha de “esse cara, hein” e é tudo por causa dela. Basicamente você se veste de acordo com a vontade da máquina.
Isso tudo você reflete em 29 minutos, tempo que o Modo Rápido dá de descanso antes que ela devolva as roupas completamente amarfanhadas e você vá pendurá-las seguindo uma lógica toda especial de aplicar pregadores de roupa evitando marcas. Um dia alguém há de criar uma máquina que faça todo o serviço do-armário-ao-armário. E essa genialidade não pode exigir carteira assinada.
No próximo capítulo – Como é lindo meu Perfex (os furinhos de Perfex agarram a sujeira e não soltam mesmo! Depois é só enxaguar e está novo seu Perfex, é genial. O Perfex é praticamente o Google da faxina, uma Brastemp!).
5.9.08
Insensatez
Aí eu transformo toda a inconsequência em palavras, deixo no Tribuneiros esperando que você leia e não se livre do pensamento - será que é verdade? Se eu engano tão bem...
Nessa data, querida
Quem inventou que trinta é importante? É uma pressão digna de reveillon, tem que se divertir, refletir, não pode passar em branco, socorro! 29 ou 31 dá no mesmo. Calma, prometo que vai passar e vamos voltar ao dia-a-dia de conversas, planos de fins de semana, festas sensacionais, lágrimas torrenciais, macarrão e risoto exatamente como temos feito nos últimos... quantos anos? Já tem uns oito desde que nos conhecemos e você brindou à minha separação dizendo que eu era muito melhor sem ele? Quantos eles já passaram? Nossas figurinhas premiadas, brilhantes e perfumadas que não completam álbum. Quem se importa? Depois que o álbum acaba perde a graça mesmo.
Você conseguiria voltar praquela vida de chegar em casa às seis da manhã? Talvez. A gente ainda acha que vai morrer a cada fim? Acha. Mas por pouco tempo. Que bom, tomara que aos quarenta continue assim.
Eu me lembro do aniversário de trinta anos da minha mãe! Estávamos as três filhas, a babá e a cozinheira preparando a festa e as duas comentavam como ela era jovem. Onde colocaríamos essa gente toda nas nossas casas? Nos nossos dias? Nas nossas cabeças eminhocadas e corações epiléticos? Ela já tinha uma família na minha idade, eu tenho medo de me comprometer com o plano trimestral da academia!
Vi o Waltinho falando sobre pertencimento, a sensação de ser estrangeiro a um mundo, não conseguir fazer parte de algo maior que a gente. Que essa dor existencial tanto pode dizer respeito à falta de um pai quanto de um país. Ou de uma coisa qualquer que tantos passam a vida buscando. Trinta anos é tempo suficiente pra achar? Se você chegar lá não se esquece de me mandar um cartão postal. Pelo que dizem você vai saber tudo agora que é uma mulher feita. Dizem os mais novos. E os mentirosos. Ou os bem rasinhos. Que inveja...
Bom, preciso acabar esse testamento logo porque ainda tenho a casa inteira para varrer. Sabia que é importantíssimo limparmos o ralo do chuveiro? Por que não me avisou? E pensar que tem gente que casa só pra não ter que encarar isso. Desentupir ralo sozinha é fácil, difícil é ficar mais velha sem abraço. Então estamos bem, parabéns! E fica tranqüila que os próximos trinta devem ser mais fáceis, você já aprendeu tudo isso.
Feliz aniversário!
23.8.08
Pergunte ao pó
Tem uns fios espalhados pelo chão da sala que não estavam previstos na decoração, eles acabaram ali pelo mesmo motivo que levou a mesa de jantar a virar escrivaninha e vice-versa. A internet wi-fi não funciona, logo, na minha casa come-se no escritório e trabalha-se na sala de jantar, onde tem ponto de telefone. Pra quem não queria que os talheres previsivelmente ficassem na primeira gaveta é até um bônus no quesito inovação, mas depois de três meses isso já deveria ter sido resolvido.Acontece que nesse período tive outras preocupações como identificar se os barulhos agoniantes vinham de pombos ou ratos e me livrar deles, aprender a tirar o máximo proveito das comidas antes que elas virassem fungos gigantes e o maior desafio de todos – impedir que os bolinhos de poeira dominassem o apartamento.
Demiti o alergista, na equação de causa e efeito contratar uma empregada seria muito mais inteligente do que tomar bolinhas açucaradas em um quarto infestado de nojeirinhas cinzentas. O espanto é: por que ninguém contou isso antes? Fala-se sobre sabonete íntimo na TV e não sobre pés pretos por andar descalça na cozinha! Depois de descobrir que a poeira é composta por excremento de ácaros, a cada móvel que compro penso que vai ser mais um para arrastar na hora de lutar contra cocô de seres invisíveis.
Fico feliz ao ler que uma pessoa decidiu meditar depois de 20 minutos limpando os ladrilhos do banheiro “sem aceitar que aqueles mofinhos entre eles sejam normais”. Eu ainda não ando de touca em casa, mas já me questionei se todos aqueles fios de cabelo no azulejo branco são meus ou se a vizinha é cabeleireira e varre o lixo pra cá.
Lixo é outro drama universal que envolve diversos fatores – vou ao supermercado, compro comidas, ganho sacos plásticos. Tenho um daqueles puxa-sacos de pendurar na porta em formato de galo e meu galo está com obesidade mórbida. Resolvo aderir à campanha I am not a plastic bag porque nem a quantidade surreal de lixo que produzo diminui a barriga do galo, e olha que a rapidez com que a minha lixeira lota reforça a teoria de que a vizinha joga coisas aqui. Para facilitar, acabei com a lixeira do escritório. Uma pessoa com três lixeiras deve ser responsável por grande parte das mais de cento e cinqüenta mil toneladas de resíduos domiciliares coletados diariamente no Brasil. Agora só banheiro e cozinha, e mesmo assim o estoque de saquinhos plásticos já ameaça a circulação da área de serviço. Definitivamente eu sou uma ameaça ao planeta.
18.8.08
I remember when I lost my mind
and doesn’t want what they need
I want nothing to do with
And to do what I want
And to do what I please
Is first of my to-do list
But every once in a while I think about her smile
One of the few things that I do miss
But baby I‘ve got to go
Baby I’ve got to know
Baby I’ve got to prove it
Gnarls Barkley, there's life after Crazy
16.8.08
Se eu fosse marinheiro
Pensamentos budistas, dicas de faxina e as primeiras lições de como desatar nós! Fascículos colecionáveis já nas bancas dos Tribuneiros.com.
27.7.08
Minhocas, meninas e cucharitas
23.7.08
Veja você
Deixa chegar o sonho,
Prepara uma avenida
que a gente vai passar
(Los Hermanos)
21.7.08
Em busca da Legolandia
12.7.08
Goodbye, Jack
Reunidas na piscina, faziam o que se espera de um grupo de amigas: imitavam a Ana Maria Braga. A noite estava apenas começando e ainda nem eram 4 da tarde. Logo todas já estavam dançando em cima do sofá, algumas gritavam besteiras com a certeza de que ninguém mais estaria ouvindo, unhavam as amigas e tudo aquilo acabaria em uma dormidinha rápida antes de sair. Sim, você ainda sairia, em Cabul a guerra era mais leve.
Lá pelas 2 da madrugada você chegava na boate, de carro, sem bafômetro, assalto ou perigo pelo caminho, e depois de dançar umas músicas que, estranho, naquele dia estavam boas, se dava conta de que as outras tinham desaparecido (ou será que foi você quem se perdeu?). Consumação estourada, você procurava um cantinho para sentar porque o salto da bota não perdoava. Opa, você estava de tênis e rabo de cavalo? O DJ jurado de morte tocava uma música importante e como por milagre todas se encontravam. Vocês se abraçavam como se não se vissem há anos. Horas depois alguém tinha a excelente idéia de ir embora, da rua vinha uma luz pior do que criptonita, vocês saíam praticamente falidas mas felizes, o melhor ainda nem tinha começado.
Em casa, vários colchões espalhados pelo quarto eram palco de conversas que invariavelmente mesclariam as frases “lembra daquela hora” e “eu não vi nada disso”. Na segunda-feira vocês mandavam milhares de emails juntando mais alguns pedaços das histórias que anos depois seriam relidas por uma das suas amigas que pensaria – passou rápido demais! Em qual episódio você virou uma mulher casada em Nova York?
O que tem em Nova York? A estátua da Liberdade é péssima, pretzel na rua engorda, loja da Apple tem online, namorado? Ah, namorado tem aos montes por aí. Ela odeia namorados. Quer dizer, odeia namorados de amigas, principalmente os que a obrigam a comprar um Nextel de motoboy, instalar Skype para ser mais um vício e marcar no calendário tal qual uma presidiária os dias que faltam para as férias.
Ela vai se lembrar de quando vocês começaram a coleção de uarifes por causa dos tantos What Ifs que acumularam no caminho. Vai rir de quando se preocuparam se as almas gêmeas das freiras e dos padres estariam vagando sozinhas pelo mundo. Vai querer ver de novo Antes do Amanhecer pra poder debater Antes do Anoitecer antes de enlouquecer. Vai ter a certeza de que vocês cumpriram à risca o oitavo mandamento: ter sempre uma parceria à sua altura. Vai ser menos egoísta e torcer para que você siga o que diria a camiseta do reveillon que nunca fizeram: enjoy NY. Ela vai te visitar em breve, se Paul McCartney quiser.
Deus ainda é ele, né?
6.7.08
4.7.08
É por isso que eu canto
“É uma fábula! Você luta heroicamente, consegue o que até os mais iludidos duvidaram que fosse possível e erra no básico – chutar a bolinha pro gol. Faz tudo certo e no último minuto é vencido por um equatoriano, roubado por um juiz mau-caráter que representa todos aqueles que te passam a perna quando você merecia a vitória, acaba o sonho por falta de sorte!”
Morro de inveja dos que conseguem exorcizar tudo em um estádio. Ingênua, tentei argumentar que era só um campeonato, não tem outro acontecendo? Ofendi os deuses mais poderosos, posso jurar que esse comentário idiota gerou os trovões que abalaram o Rio de Janeiro naquela noite:
“Nãããão!” – ela só levantou a cabeça nessa hora. – “Nós merecíamos aquela vitória. Está provado que a vida é injusta, aquele goleiro desgraçado se mexeu na hora da cobrança porque é sempre assim, o mal vence, o mundo não presta”.
Silêncio total. O mundo presta, ao contrário de qualquer argumento meu ali.
“Eu acho que fui Hitler”.
Danou-se. Aparentemente o ditador teria influenciado a tragédia do Fluminense e eu precisaria ouvir a teoria. Nós pagamos pelo que fazemos e ela tinha errado muito, mas pelas contas feitas já devia estar em dia com a justiça divina. Achava que o tempo trágico do casamento teria sido suficiente para abater anos e deixá-la com crédito, mas não aconteceu assim. Até assassinos têm a pena reduzida por bom comportamento, mas a dela nunca era atenuada, logo, devia ser karma dos pesados. Nível Hitler na outra encarnação.
“Nego tá me sacaneando”!
Nego era Deus, o que teoricamente escreve certo por linhas tortas e a irritava por isso.
“Eu também faço as coisas certas, tento muito e fico ouvindo que é pro meu bem, foi melhor assim, blábláblá. Aaaaaaaaaahhhh, eu quero ser campeã da Libertadores!”
Lexotan? Tequila? Psicanálise? Abraço? Gargalhada? Filme bobo? Existe injeção de serotonina? Vai pra casa, grita no travesseiro, amanhã melhora.
Sonhei que era reveillon. Do nada, em julho, era ano novo. Como assim? Eu nem tinha me preparado para o brinde! Contagem regressiva e alguém disse a frase da Renata: “que 2008 seja como você quiser”. Não tem karma, culpa, injustiça, sacanagem, juiz ladrão, tem que ter vontade. Ás vezes é uma merda e não sei como são as coisas no futebol, mas na vida a meia-noite não acontece num simples movimento do ponteiro, pode durar uns seis meses para ser um novo ano. Comercial da Coca-Cola: é você quem faz.
Talvez você tenha lido até aqui esperando por um desfecho otimista. Bem... ele é! Só não tem nenhuma história agora para ilustrar o final feliz. Mas eles existem, eu ainda acredito.
25.6.08
Blues da piedade
12.6.08
Meu quinhão pro grande amor
"Hoje eu tenho apenas uma faca no meu peito
exijo respeito, não sou mais um sonhador
chego a mudar de calçada quando aparece uma flor
e dou risada do grande amor.
Mentira"
Ursinhos, bombons e flores artificiais em promoção no Tribuneiros.com
8.6.08
Is it getting better?
(de um médico que está sendo entrevistado pela Marilia Gabriela agora)
Ela teve a linda e tensa idéia de me pedir um texto para o casamento. Eu teria um ano para preparar e, para meu desespero, a época da festa calhou de coincidir justamente com a alta do ceticismo na montanha russa de emoções que é meu ser. Eu estava mais para “cada um no seu quadrado” do que para “one love, one life”. Quase a Miranda. Quase um Mr Big em pânico na porta da igreja: eu não sou capaz de fazer isso.
Pedi ajuda aos amigos, aos roteiristas de Grey’s Anatomy, a Drummond, aos meus registros de romantismo em sazonais fases férteis... Ninguém casa achando que aquilo pode acabar, alguém ainda acredita em amor eterno?
Quando os noivos entraram na festa o DJ tocou a trilha certa para quebrar qualquer descrença: Beatles, “love, love, love”. Não importa se um amor durou um mês, um ano ou uma vida, importa se ele foi inteiro, bom e velho clichê – eterno enquanto durou. E para usar mais um – anormal é ser incapaz de se permitir que ele aconteça. Love is all you need.
(...)
"A gente passa muito tempo tentando provar para o mundo que somos bons, divertidos, inteligentes, dá tanto trabalho! E de repente aparece uma pessoa que acha tudo isso justamente porque sabe como a gente é de verdade, conhece cada falha, descobre qualidades que a gente nem se dava conta de que tinha. Apesar de tudo e por causa de nada, ama. E tudo passa a fazer sentido.
Quem escala o Himalaia sabe que a emoção de chegar no topo é única, não se explica. Pode parecer loucura pra quem ficou lá embaixo, mas pra quem foi seria incompleto viver sem a vista. Casar é encontrar a criatura doida que topa o desafio de escalar a montanha com você.
Viver a dois é o amor na prática, e ainda não inventaram nada melhor. Cada um tem a responsabilidade de ser inteiro para compartilhar somando. (...)
Que vocês sejam felizes e plenos a cada minuto. Loucamente felizes. Ousadamente felizes. Mesmo quando ela falar demais e ele tentar impedir, até quando ela for a alegria dos netinhos com o jeito Dercy Gonçalves de ser e ele for o mais hipocondríaco dos homens. Tem que lembrar que ele ainda é roqueiro e ela só dorme no seu abraço".
2.6.08
All that you can't leave behind
Um short verde, corpo molhado da piscina, uma lata de cerveja na mão e ela na outra. O cabelo dela era maior e mais escuro, o sorriso era mais ingênuo, o coração era mais feliz. Ele também tinha um sorriso leve, estava gargalhando na foto. Não era muito freqüente e quando se dava essa chance era encantador.
Se deram muitas chances. Acabou. O vício dela em leite, o boa noite por telefone, a certeza de que ele chegaria antes da hora marcada, tudo agora só existia nas lembranças de cada um, nas mágoas, frustrações e incompreensões mútuas. Tudo aconteceu, só não tem mais, e tudo fez com que ela chegasse até aqui.
Era a primeira vez que não jogaria as coisas fora. Deu um suspiro, guardou o isqueiro, fechou a caixa e colocou no alto do armário junto com as apostilas dos cursos que nunca leria de novo. O que realmente importava ela aprendeu nas aulas, o resto é só papel.
You're packing a suitcase for a place
None of us has been
A place that has to be believed to be seen
You could have flown away
A singing bird in an open cage
Who will only fly for freedom
Stay safe tonight
27.5.08
A Hard Day's Night
Trocaria a liberdade de mudar minha vida pela certeza imutável do que já vivi. Mas nem é certeza, muda sempre o ponto de vista. Aumenta a exaustão. E se eu falhar na minha essência, se minha existência for estragada pelas minhas trapalhadas e incompetência? Fui condenada à liberdade mas não me lembro de ter assinado esse acordo, não aceitei as regras. Quem não consegue comprar uma roupa vai falhar no projeto fundamental. E eu não decidi ainda qual é o meu projeto fundamental, já devo estar atrasada no cronograma, não aprovei orçamento nem selecionei equipe, não fiz o treinamento, eu vou falhar.
Então sou responsável pelo mundo que projetei. Pelo mundo todo eu levo a glória ou a culpa sozinha? Por que eu acho que vai ser culpa e não glória? Angústia previsível com tanta responsabilidade existencialista sobre as minhas costas. Eu quero o universo do sonho, isso é liberdade. Poder realizar qualquer coisa instantaneamente e não ter pessoas cutucando para avisar que não é bem assim, que são escolhas parciais e não livres, opções limitadas. Não é verdade que nada fora de mim define meu futuro. Os outros atrapalham, criam conflitos com projetos sobrepostos. Eles não serão punidos, obrigados a participar do meu plano? Inferno os outros. Coloca no acordo outra forma para que eu me veja que não seja através dos olhos deles. Ou me dê outros que me ajudem.
E se eu nem sempre tiver consciência da conseqüência dos meus atos? Quero férias de conseqüências, pausa na consciência. Alguém podia se responsabilizar pelas minhas decisões enquanto eu descanso um pouco. Posso ao menos voltar atrás? Undo? Desmake. Não estou fugindo da minha auto-determinação, mas quero conversar sobre o meu destino, preciso saber se dá para contar com ele. Nunca li o último capítulo do livro antes de chegar lá, nunca baixei episódios de Lost que não tenham sido exibidos, posso pelo menos saber se na minha história eu vou dar certo no final?
Eu, que por vontade própria ajo e afeto o mundo todo, peço licença. Preciso confessar que talvez não seja capaz. Nem sempre é justo o que o mundo faz comigo, ele podia me dar o caminho mais fácil. Eu aprenderia, juro que aprenderia. Me ouve, Sartre! É importante sim o que o mundo está fazendo comigo! Não sei o que eu vou fazer com o que o mundo está fazendo de mim! Eu aceito o acordo, com uma condição: de vez em quando, posso chorar?
Há dois anos existencialmente em Seu Martin 1.
16.5.08
A pessoa é para o que nasce
Nosso primeiro contato visual foi no Casseta e Planeta. Um deles imitava o João Gilberto e uma garota que se esfregava na cadeira a imitava. Achei engraçada a caricatura, qualquer médico classificaria aquela anatomia de anomalia e a dança mais parecia interpretação de uma atriz pornô descontrolada. De repente descobri que a cena não era uma paródia! Aquela era a célebre em carne, algum osso e carinha de quem tá gostando demais.
Hoje leio que Andressa (ela tem nome) quer fazer lipoaspiração. A ex-créu começou um tratamento que diminui 3 centímetros dos seus 119 por sessão. Pelas minhas contas, dentro de um mês ela vai desaparecer! Não digo minguar até a morte, mas se parar de esfregar a super-bunda nas... cadeiras... vai sobrar o quê? Andressa não pode virar mais uma ex-gostosona porque alguém tem que desempenhar essa função. Tal qual o futebol, o Playstation, a cerveja gelada e os camaradas, os homens precisam das Mulheres Melancia, portanto cabe às Mulheres Banana convencê-la a continuar bunduda.
A Mulher Banana*, se tivesse um quadril de 120cm, correria três horas por dia numa esteira. Ela morre de vergonha ao ver a mãe da Mulher Melancia dizer que sente muito orgulho de ter uma filha vitoriosa, acredita que o discernimento nasceu para todos e o pior: é tão banana que se importa.
As Bananas são poupadas de papéis incômodos pelas outras, peças fundamentais da cadeia alimentar. A Mulher-Biscoito-Globo, por exemplo, é gostosinha, mas não mata a fome e logo eles querem outra coisa que valorizarão muito mais. O mesmo acontece com a Mulher-Aperitivo, que acompanhada de uma bebida ele come e ainda acha bom; a Mulher-Arroz, que ele só come porque já está acostumado; a Mulher-Ostra, sobre quem todo mundo fala, mas quando ele experimenta vê que não é grande coisa; a Mulher-Cafezinho-de-Loja, que ele nem faz questão, mas aceita já que é de graça, e tantas outras que equilibram o ecossistema.
Eles precisam disso porque são homens. Pelo mesmo motivo, não conseguem encontrar nada sozinhos. Você ainda não aprendeu? Ele não entende que pegou pesado? Ele é homem. Jura que vai sufocar quando só tem um nariz entupido? Ele é homem. Não sabe como não resistiu à tentação? Ah, ele é homem! Não consegue lembrar nem do aniversário da própria mãe? Normal, ele é homem! É a explicação padrão.
Eu tenho fé que algum vai ser mais original e provar que existe modelo melhor. Qual o problema de ter esperança? Eu sou mulher!
* A Mulher Banana foi categorizada pela escritora Marta Medeiros
4.5.08
Raça, amor e paixão
Era mais um feriado dos tantos que inundaram a cidade tais quais as chuvas de março, abril e maio e eu estava dormindo quando ele ligou:
- BG?
Namoro novo, onde estiver estarei. Desde que o Souza deixou meu vizinho há cerca de um ano, volta e meia o pobre grita o nome do ex-amante pela janela, intercalando com outros com quem deve se envolver por aí. Entendo o Ronaldo, olhando eu jamais diria, mas juro que o cara em várias tardes urra nomes masculinos da sacada: Léo Mouuraaaa, Bruuuno, e sempre Soooouza! As dores do coração... Domingo piora, e era mais uma dessas tardes.
Lá fui eu encontrar o novo craque da minha vida com os camaradas no Báxu. “Tô em frente ao Alemão”. Estavam todos, e com a mesma roupa. Tentei negar, mas claramente ele tinha uma chupeta pendurada no pescoço onde meus braços deveriam estar e cantava Mamãe eu quero mamar sem se importar com o tempo que faltava para o Carnaval. Decido pegar uma cerveja, as coisas vão melhorar. Um homem acende um morteiro do meu lado e a massa começa a pular com as mãos pra cima. Vieram do Maracanã, não estão exatamente perfumados.
Querido, me resgata aqui, estou sendo esmagada por tantos corpos malhados e sorrisos talhados flertando com essas bandeiras. Ele me agarra meio vidrado e berra um eu sempre te amarei. Será que me olhou e viu o Joel Santana? Temo pelo resto da noite. Mais amigos chegam e trazem uma buzina. Impedida de ir ao banheiro pela nova política do Braseiro, parto para um Koni genérico.
Vejo o Smigol no meio da multidão e percebo que atrás dele tem um corpo rubro-negro sendo jogado pra cima. Conheço aquela pessoa em êxtase no ar. Por que, meu Santo Antonio? Chora o presidente, chora o time todo e choro também. Tiro o time de campo, não tenho a menor chance. Hoje Obina é melhor do que eu.
23.4.08
Deus, Jorge, livros e rosas
Dear-God.net é um site feito para que gente do mundo todo compartilhe sua fé - e seus medos – através da prece. Se Ele chegou na web, melhor garantir que não esqueça de mim e que leia Tribuneiros.com. Passa lá que hoje é dia santo na casa!
No Rio, São Jorge embaralhou os feriados, um dia ainda desbanca São Sebastião e vira padroeiro da cidade. Logo ali em Barcelona, a Diada de Sant Jordí enche as ruas de escritores e rosas. 23 de abril marca a morte de Cervantes e Shakespeare e foi transformado em Dia do Livro. Diz a lenda que há muitos anos um dragão atormentava um povoado espanhol e os habitantes decidiram oferecer uma pessoa por dia para acalmar a voracidade do bicho. Quando chegou a vez da filha do rei ser devorada, São Jorge apareceu e enfiou a lança no coração do dragão. Do sangue derramado brotou uma rosa. Juntando tudo, é tradição na Catalunha oferecer rosas às mulheres e livros aos homens, e as editoras montam bancas por toda a cidade para que os autores autografem as obras.
Quem quiser importar a festa, a Argumento vende Contra a Juventude - As Melhores Crônicas Tribuneiras:-) E quiosques vendem rosas em vários bairros.



