4.2.10
Quem te viu, quem te vê
"Oi Bruna,
Como se dizia naquele programa humorístico: “Olha o coração do velho!”
Fico muito lisonjeado e emocionado por ter dado uma pequena contribuição ao seu belo texto. É lindo ver que palavras que escrevi sem muito cuidado se transformam em ótimas colocações para sugerir uma conduta de vida. Parabéns. Tenho certeza que você se saiu muito bem na palestra.
Quanto à autorização, os direitos autorais daquele texto são seus. Eu o escrevi para você.
Um beijo,
F."
E eu publiquei aqui, para arrumar as coisas e termos todos um bom Carnaval.
Como se dizia naquele programa humorístico: “Olha o coração do velho!”
Fico muito lisonjeado e emocionado por ter dado uma pequena contribuição ao seu belo texto. É lindo ver que palavras que escrevi sem muito cuidado se transformam em ótimas colocações para sugerir uma conduta de vida. Parabéns. Tenho certeza que você se saiu muito bem na palestra.
Quanto à autorização, os direitos autorais daquele texto são seus. Eu o escrevi para você.
Um beijo,
F."
E eu publiquei aqui, para arrumar as coisas e termos todos um bom Carnaval.
26.1.10
Landing
NATALIE
When I was 16 I thought by 23 I would be married, maybe have a kid… corner office by day, entertaining at night. I was supposed to be driving a Grand Cherokee by now.
ALEX
Life can underwhelm you that way.
NATALIE
Now I have my sights on 29 because 30 is just way too… apocalyptic. I mean where did you think you’d be by…
ALEX
It doesn’t work that way.
RYAN
At a certain point, you stop with the deadlines.
ALEX
They can be a little counterproductive.
(...)
ALEX
You really thought this guy was the one.
NATALIE
I guess. I don’t know. I could have made it work. He just really fit the bill.
RYAN
The bill?
NATALIE
My type. You know. White collar. College grad. Loves dogs. Likes funny movies. Six foot one. Brown hair. Kind eyes. Works in finance, but is outdoorsy, you know on the “weekends.” I always imagined he’d have a single syllable name like Matt or John or… Dave. In a perfect world, he drives a Four Runner and the only thing he loves more than me is his golden lab.
Oh… and a nice smile.
What about you?
ALEX
Well… by the time you’re 34, all the physical requirements are pretty much out the window.
You secretly pray he’ll be taller than you. Not an asshole would be nice. Just someone who enjoys my company. Comes from a good family- you don’t think that when you’re younger. Wants kids… likes kids… wants kids. Healthy enough to play catch with his future son one day. Please let him earn more than I do - that doesn’t make sense now, but believe me, it will one day. Otherwise it’s just a recipe for disaster. Hopefully some hair on his head… but it’s not exactly a deal breaker anymore. Nice smile. Yep. A nice smile just might do it.
NATALIE
Wow. That was depressing.
Up in the air
When I was 16 I thought by 23 I would be married, maybe have a kid… corner office by day, entertaining at night. I was supposed to be driving a Grand Cherokee by now.
ALEX
Life can underwhelm you that way.
NATALIE
Now I have my sights on 29 because 30 is just way too… apocalyptic. I mean where did you think you’d be by…
ALEX
It doesn’t work that way.
RYAN
At a certain point, you stop with the deadlines.
ALEX
They can be a little counterproductive.
(...)
ALEX
You really thought this guy was the one.
NATALIE
I guess. I don’t know. I could have made it work. He just really fit the bill.
RYAN
The bill?
NATALIE
My type. You know. White collar. College grad. Loves dogs. Likes funny movies. Six foot one. Brown hair. Kind eyes. Works in finance, but is outdoorsy, you know on the “weekends.” I always imagined he’d have a single syllable name like Matt or John or… Dave. In a perfect world, he drives a Four Runner and the only thing he loves more than me is his golden lab.
Oh… and a nice smile.
What about you?
ALEX
Well… by the time you’re 34, all the physical requirements are pretty much out the window.
You secretly pray he’ll be taller than you. Not an asshole would be nice. Just someone who enjoys my company. Comes from a good family- you don’t think that when you’re younger. Wants kids… likes kids… wants kids. Healthy enough to play catch with his future son one day. Please let him earn more than I do - that doesn’t make sense now, but believe me, it will one day. Otherwise it’s just a recipe for disaster. Hopefully some hair on his head… but it’s not exactly a deal breaker anymore. Nice smile. Yep. A nice smile just might do it.
NATALIE
Wow. That was depressing.
Up in the air
24.1.10
Lost in translation
Aceito, é difícil ser brilhante todas as vezes. São muitos lançamentos que exigem diversos processos de rotina em uma equipe que não necessariamente está super envolvida com aquilo e um deles, só mais um na lista de coisas a serem feitas, é criar título em português. Se o filme tem nome de gente, danou-se, na melhor das hipóteses acrescentam um complemento explicativo para mongol, mas normalmente avacalham tudo.
Eles mudam os cartazes. Obviamente por trás dessa decisão existe um estudo de marketing provando a necessidade de se adaptar a imagem do filme à cultura local e eu não sei se são criadas varias opções de cartazes ou cada escritório regional tem carta branca para adaptar a seu gosto, mas pessoalmente gostaria de sempre olhar um cartaz aprovado pelo diretor - quem imaginou aponta a figurinha. É dar tiro no meu próprio pé pregar a liberdade artística em prol das decisões executivas visto que parte do meu trabalho consiste em meter o bedelho na obra alheia, mas aqui sou só uma menina sentada na frente de um computador pedindo aos distribuidores de filmes mais atenção.
Não são monstros (inclusive, achei-os fofinhos!). É “onde estão as coisas selvagens”. Não entendeu o tag line? (o slogan do filme) Não entendeu o filme? Como se não bastasse tudo o mais, percebo que tradução também é complicado.
Você pode colocar seres azuis correndo em uma floresta em 3D para pregar o bem, pode filmar a história de um menino abandonado que se torna rei de seres peludos e grandes com medo da solidão, ou simplesmente andar com um cartaz na rua escrito: eu estou te vendo, está tudo bem. É o que as pessoas sentadas naquela sala escura precisam, mesmo as que só vão ao cinema ver Velozes e Furiosos. Mas algumas não vêem tão claramente. Ou vêem e saem correndo (o “monstro” explicou, nem sempre reagimos como queremos).
Encontro-me em uma fase complicada com as palavras, dificuldade de exatidão. Sofrer em inglês é quase mais fácil se você já passou maior número de horas assistindo a produções made in Hollywood do que ficção na TV aberta, porém é preciso um esforço extra por parte dos encarregados na função de encontrar o nome certo para o que está ali. Se você errar a palavra que define a coisa o outro pode não entender, e aí a historia foi em vão. Se é que existem histórias em vão.
Existem em cartaz Where the wild things are e Up in the air. Don’t miss it.
Eles mudam os cartazes. Obviamente por trás dessa decisão existe um estudo de marketing provando a necessidade de se adaptar a imagem do filme à cultura local e eu não sei se são criadas varias opções de cartazes ou cada escritório regional tem carta branca para adaptar a seu gosto, mas pessoalmente gostaria de sempre olhar um cartaz aprovado pelo diretor - quem imaginou aponta a figurinha. É dar tiro no meu próprio pé pregar a liberdade artística em prol das decisões executivas visto que parte do meu trabalho consiste em meter o bedelho na obra alheia, mas aqui sou só uma menina sentada na frente de um computador pedindo aos distribuidores de filmes mais atenção.
Não são monstros (inclusive, achei-os fofinhos!). É “onde estão as coisas selvagens”. Não entendeu o tag line? (o slogan do filme) Não entendeu o filme? Como se não bastasse tudo o mais, percebo que tradução também é complicado.
Você pode colocar seres azuis correndo em uma floresta em 3D para pregar o bem, pode filmar a história de um menino abandonado que se torna rei de seres peludos e grandes com medo da solidão, ou simplesmente andar com um cartaz na rua escrito: eu estou te vendo, está tudo bem. É o que as pessoas sentadas naquela sala escura precisam, mesmo as que só vão ao cinema ver Velozes e Furiosos. Mas algumas não vêem tão claramente. Ou vêem e saem correndo (o “monstro” explicou, nem sempre reagimos como queremos).
Encontro-me em uma fase complicada com as palavras, dificuldade de exatidão. Sofrer em inglês é quase mais fácil se você já passou maior número de horas assistindo a produções made in Hollywood do que ficção na TV aberta, porém é preciso um esforço extra por parte dos encarregados na função de encontrar o nome certo para o que está ali. Se você errar a palavra que define a coisa o outro pode não entender, e aí a historia foi em vão. Se é que existem histórias em vão.
Existem em cartaz Where the wild things are e Up in the air. Don’t miss it.
13.1.10
Receita para tempos bons
Para se ter um bom ano é preciso Carnaval. E poesia. É preciso barraca de praia, biquíni novo e Sundown. É preciso uma mesa de bar com amigos, histórias inacreditáveis de se ouvir, e questões.
Para se ter um bom ano é aconselhável dois Ipods, se roubarem um ainda sobra outro. (Para se ter uma boa cidade seria preciso menos violência, mas para acreditar nisso seria preciso algo que já perdi). Para se ter um bom ano é preciso internet rápida para baixar músicas novas e pessoas velhas que conhecem músicas. É preciso que alguém veja o que eu vi, por mais surreal que pareça. E que alguém se lembre do pedaço da noite que esquecemos (mas como assim)?
O ano melhora com um mergulho, piscina, mar ou a cachoeira se você encontrar. Um bom ano tem noites em que uma cama menor bastaria praquelas duas pessoas, é mais fácil com muitas pessoas mesmo que só exista uma, mais carinhoso com cachorro abanando o rabo mesmo que não seja seu e mais garantido com algum trocado. É preciso vento.
Para se ter um bom ano é preciso bons livros, filmes e séries, alguma comida, e pedaços de morango com chocolate. É preciso um entorpecente qualquer, alguém que chegue perto e te bote tonta, que venha dançar assim pertinho e você pense que seria prudente sair. É preciso imprudência, imaturidade e um tiquinho de irresponsabilidade. Para se ter um bom ano é preciso dormir no sofá.
Um bom ano melhora com torcida, na arquibancada ou na cadeira. É bom um ano com Copa do Mundo. É inútil um ano sem beijo. Para se ter um bom ano é preciso ver o sol nascer, o sol se por e tomar chuva. É preciso cantar. Dançar. Surpresa. É preciso chorar, aprender o nome de uma flor diferente e usar uma roupa linda.
É bom que tenha avião, que se faça malas e planos e roteiros de viagem. É fundamental viajar, mesmo que sem tirar os pés do chão. É preciso tirar os pés do chão mesmo que em quadrilha de festa junina e é preciso fantasia, o ano inteiro. É preciso que se libere o Matte de galão e batucar na mesa, liberar ajuda.
Para se ter um bom ano, é preciso Vinicius: a vida só se dá pra quem se deu. É preciso tentar.
Para se ter um bom ano é aconselhável dois Ipods, se roubarem um ainda sobra outro. (Para se ter uma boa cidade seria preciso menos violência, mas para acreditar nisso seria preciso algo que já perdi). Para se ter um bom ano é preciso internet rápida para baixar músicas novas e pessoas velhas que conhecem músicas. É preciso que alguém veja o que eu vi, por mais surreal que pareça. E que alguém se lembre do pedaço da noite que esquecemos (mas como assim)?
O ano melhora com um mergulho, piscina, mar ou a cachoeira se você encontrar. Um bom ano tem noites em que uma cama menor bastaria praquelas duas pessoas, é mais fácil com muitas pessoas mesmo que só exista uma, mais carinhoso com cachorro abanando o rabo mesmo que não seja seu e mais garantido com algum trocado. É preciso vento.
Para se ter um bom ano é preciso bons livros, filmes e séries, alguma comida, e pedaços de morango com chocolate. É preciso um entorpecente qualquer, alguém que chegue perto e te bote tonta, que venha dançar assim pertinho e você pense que seria prudente sair. É preciso imprudência, imaturidade e um tiquinho de irresponsabilidade. Para se ter um bom ano é preciso dormir no sofá.
Um bom ano melhora com torcida, na arquibancada ou na cadeira. É bom um ano com Copa do Mundo. É inútil um ano sem beijo. Para se ter um bom ano é preciso ver o sol nascer, o sol se por e tomar chuva. É preciso cantar. Dançar. Surpresa. É preciso chorar, aprender o nome de uma flor diferente e usar uma roupa linda.
É bom que tenha avião, que se faça malas e planos e roteiros de viagem. É fundamental viajar, mesmo que sem tirar os pés do chão. É preciso tirar os pés do chão mesmo que em quadrilha de festa junina e é preciso fantasia, o ano inteiro. É preciso que se libere o Matte de galão e batucar na mesa, liberar ajuda.
Para se ter um bom ano, é preciso Vinicius: a vida só se dá pra quem se deu. É preciso tentar.
4.1.10
Gentle people with flowers in their hair
Fui chamada no meio da noite, o prefeito batia à minha porta. Não sei se mais pelos efeitos dos remédios para dormir, pela hora ou pelo inesperado, estava completamente zonza, eram tantos oficiais do Choque de Ordem que mal cabiam na minha pequena sala. Queriam me levar para a praia antes que amanhecesse. Tenho levantado a hipótese da cidade não poder sediar eventos internacionais, me enfureço com a proibição do Matte de galão na orla e não dos flanelinhas, mas a razão da urgência não era censura: dezenas de leões-marinhos ocupavam as águas do Leblon.
Era a terceira vez no repeat, volume máximo. Estava com essa mania de ouvir música aos berros para que me desligasse das baboseiras cuspidas, dos meus pensamentos, tinha que ser mais alto. Fosse mais alto talvez eu berrasse e se berrasse no meio do escritório talvez fosse internada, ou libertasse aquelas almas excelianas que lutam pelo nada. Na ida, a cada relógio-termômetro a taquicardia aumentava e com ela o calor e aquele engarrafamento de idéias e palavrões e era apenas uma manhã qualquer de uma vida, existia a promessa de um verão inteiro pela frente e a visão de um mar lindo à direita e nada parecia suficiente, pior, tudo parecia motivo óbvio para que aquele tradicional trajeto fosse interrompido e coisas absolutamente sem sentido fossem feitas porque nenhum sentido mais havia em chegar onde eu estava indo. Não era mais try a little harder, era parar. No mais barato dos clichês, deixar a vela panejando porque não existe pressa e à noite no mar ecoam os versos de que o céu de Icaro tem mais poesia que o de Galileu.
Peguei um avião, “tira umas férias!”. Exausta, me vi ali sentada, caveiras e monstros correndo felizes pelo Pier 39 no sábado pré-Halloween, olhos ardendo por causa do fedor que os cartões postais não mostram, hipnotizada por leões-marinhos que se derrubavam uns aos outros por um cantinho no sol. Hilário. Eles são bem parecidos com focas e tão gordos! São da família das “otters”? “Otters” são tão bonitinhas, quando pensava em lontra imaginava uma coisa meio capivara. Eu queria ter uma lontra. Não tomei nenhuma grande decisão nas tardes ali sentada, não refleti sobre minhas angústias, fiquei parada automaticamente respirando e achando graça dos gorduchos barulhentos. Me afeiçoei a eles.
A visão na praia era linda. A Niemeyer amanhecendo, eu e o prefeito, milhares de leões marinhos. Vieram me dar um abraço. Acho que choramos um pouco, mostrei o Arpoador, pegamos uns jacarés e eles partiram. O prefeito se acalmou, nos jornais cariocas não foi publicada uma linha, só uma nota sobre os folclóricos leões-marinhos terem desaparecido de San Francisco.
Às vezes tudo o que precisamos é de amigos que acreditem em nós.
Be a good boy
Push a little farther now
That wasn't fast enough to make us happy
We'll love you just the way you are
if you're perfect
Era a terceira vez no repeat, volume máximo. Estava com essa mania de ouvir música aos berros para que me desligasse das baboseiras cuspidas, dos meus pensamentos, tinha que ser mais alto. Fosse mais alto talvez eu berrasse e se berrasse no meio do escritório talvez fosse internada, ou libertasse aquelas almas excelianas que lutam pelo nada. Na ida, a cada relógio-termômetro a taquicardia aumentava e com ela o calor e aquele engarrafamento de idéias e palavrões e era apenas uma manhã qualquer de uma vida, existia a promessa de um verão inteiro pela frente e a visão de um mar lindo à direita e nada parecia suficiente, pior, tudo parecia motivo óbvio para que aquele tradicional trajeto fosse interrompido e coisas absolutamente sem sentido fossem feitas porque nenhum sentido mais havia em chegar onde eu estava indo. Não era mais try a little harder, era parar. No mais barato dos clichês, deixar a vela panejando porque não existe pressa e à noite no mar ecoam os versos de que o céu de Icaro tem mais poesia que o de Galileu.
Peguei um avião, “tira umas férias!”. Exausta, me vi ali sentada, caveiras e monstros correndo felizes pelo Pier 39 no sábado pré-Halloween, olhos ardendo por causa do fedor que os cartões postais não mostram, hipnotizada por leões-marinhos que se derrubavam uns aos outros por um cantinho no sol. Hilário. Eles são bem parecidos com focas e tão gordos! São da família das “otters”? “Otters” são tão bonitinhas, quando pensava em lontra imaginava uma coisa meio capivara. Eu queria ter uma lontra. Não tomei nenhuma grande decisão nas tardes ali sentada, não refleti sobre minhas angústias, fiquei parada automaticamente respirando e achando graça dos gorduchos barulhentos. Me afeiçoei a eles.
A visão na praia era linda. A Niemeyer amanhecendo, eu e o prefeito, milhares de leões marinhos. Vieram me dar um abraço. Acho que choramos um pouco, mostrei o Arpoador, pegamos uns jacarés e eles partiram. O prefeito se acalmou, nos jornais cariocas não foi publicada uma linha, só uma nota sobre os folclóricos leões-marinhos terem desaparecido de San Francisco.
Às vezes tudo o que precisamos é de amigos que acreditem em nós.
Be a good boy
Push a little farther now
That wasn't fast enough to make us happy
We'll love you just the way you are
if you're perfect
31.12.09
The October issue
Tínhamos acabado nos conhecer, Catarina e eu, e almoçávamos em Napa, quatro taças mais leve – três e meia, que do Zinfandel não gostei. Ainda ríamos do simpático responsável pela vinícola que defendia a idéia de que uma garrafa de vinho aberta deveria ser consumida naquela mesma noite, no máximo duas depois, e quem não é capaz de fazer isso que beba Bud Light. Foi logo após essa lição que Catarina veio ver minhas anotações: “você está estudando vinhos?” De certa forma sim, mas na verdade só entendo o que escrevo então à medida que nosso guia ia falando eu ia anotando – e bebendo.
Então eu era brasileira, férias na Califórnia, e ela, o que fazia? “Nada. Vou morar na Toscana.”
Saímos andando até a área permitida para cigarros, onde estava Patrycia. Em Wine County se pode beber dentro dos lugares e fumar fora deles, jamais os dois juntos. Patrycia também não fumava, mas ali estava para conversar. Havia tirado três meses dos seus oitenta anos para dar uma voltinha, gostou muito de Salvador e Havana, aquela era a última parada antes de retornar a Sidney, Austrália. Com um inglês enrolado nos contou que viajar era o passatempo preferido dela e do marido, falecido oito meses antes. Passado o luto ela manteve o hábito, é o que gosta de fazer. Agora ia sozinha com seu casaco de nylon branco e cabelos no mesmo tom.
Catarina se mudaria para a Toscana com o namorado. A filha estava criada tentando superar a crise econômica na Flórida, nasceu quando ela tinha vinte e poucos anos e trocou a idéia de trabalhar na ONU por uma paixão mexicana. A nova paixão era do ramo de turismo e quicava pelo globo, quanto tempo mais ela se prenderia a estafantes reuniões de apresentação de resultados e análise de riscos em multinacionais? “Descobri que mais da metade do meu dia eu passava resolvendo problemas que para mim não representavam ameaça alguma. E que a Toscana é extremamente agradável”.
A nova cidadã italiana terminou seu cigarro, passamos em mais alguns oásis de Baco e voltamos a San Francisco. Ao descer do ônibus, Patrycia se despediu: “girls, stay safe.”
À noite achei, jogada dentro da mochila, a bateria da câmera que pensei ter deixado no hotel. Não tenho uma só foto dos intermináveis vinhedos e suas rosas! Alguns momentos são irretratáveis e inesquecíveis. Preste atenção.
You too, Patrycia.
Então eu era brasileira, férias na Califórnia, e ela, o que fazia? “Nada. Vou morar na Toscana.”
Saímos andando até a área permitida para cigarros, onde estava Patrycia. Em Wine County se pode beber dentro dos lugares e fumar fora deles, jamais os dois juntos. Patrycia também não fumava, mas ali estava para conversar. Havia tirado três meses dos seus oitenta anos para dar uma voltinha, gostou muito de Salvador e Havana, aquela era a última parada antes de retornar a Sidney, Austrália. Com um inglês enrolado nos contou que viajar era o passatempo preferido dela e do marido, falecido oito meses antes. Passado o luto ela manteve o hábito, é o que gosta de fazer. Agora ia sozinha com seu casaco de nylon branco e cabelos no mesmo tom.
Catarina se mudaria para a Toscana com o namorado. A filha estava criada tentando superar a crise econômica na Flórida, nasceu quando ela tinha vinte e poucos anos e trocou a idéia de trabalhar na ONU por uma paixão mexicana. A nova paixão era do ramo de turismo e quicava pelo globo, quanto tempo mais ela se prenderia a estafantes reuniões de apresentação de resultados e análise de riscos em multinacionais? “Descobri que mais da metade do meu dia eu passava resolvendo problemas que para mim não representavam ameaça alguma. E que a Toscana é extremamente agradável”.
A nova cidadã italiana terminou seu cigarro, passamos em mais alguns oásis de Baco e voltamos a San Francisco. Ao descer do ônibus, Patrycia se despediu: “girls, stay safe.”
À noite achei, jogada dentro da mochila, a bateria da câmera que pensei ter deixado no hotel. Não tenho uma só foto dos intermináveis vinhedos e suas rosas! Alguns momentos são irretratáveis e inesquecíveis. Preste atenção.
You too, Patrycia.
23.12.09
21.12.09
17.12.09
Laughing all the way
Você descobre que é hora de acabar o ano quando passageiros de um avião se rebelam e começam a berrar com os comissários porque a neblina impediu o pouso em São Paulo. Vindos de Londres, os viajantes não queriam descer no Rio de Janeiro: “vamos nos assustar com aqueles presépios! Toca pra Viracopos!”. Semanas antes, no dia da final do Brasileirão, Herbert Vianna assumiu o microfone da aeronave na qual voava e puxou à capela o hino do Flamengo, transformando a ponte aérea em uma jam session. Dezembro estressa.
No mais perfeito clima Al Gore falou, Al Gore avisou, a estufa carioca não tem mais sol, uma lama provocada pelas chuvas semanais cobre os caminhos por onde Madonna pisou e o choque de ordem previsto para as praias faz aumentar o preço das cadeiras que não estão sendo usadas. As garotas de Ipanema não tem marca de biquíni (ou essa garota cresceu e trocou as areias nubladas por um escritório com ar condicionado quebrado?).
A década vai acabando e só me dou conta de que o bug do milênio é passado distante quando a playlist que mais anima as festas tem o nome de “músicas anos 90”, nostalgia indicadora de que aqueles adultos viveram bem suas adolescências. Correm na web listas de retrospectiva, “os dez mais de qualquer tema”, e nem sei se o Cold Play é coisa de agora ou tempos remotos, aqueles onde líamos jornais em papel. É melhor parar o texto por aqui, resistir à pressão de refletir e avaliar e planejar – depois do dia 31 vem o dia 1 como em qualquer outro mês.
Ao contrario do que diz um estudo de saúde pública da Austrália, Papai Noel não precisa perder peso nem trocar o trenó por bicicletas para servir de exemplo para as crianças. Deixem o velhuxo beber sua Coca-Cola, delegar as funções aos duendes e continuar com o olhar condescendente que só alcança quem já chutou o balde. Ele tem um sorriso feliz.
Tente se manter são nesse Natal.
No mais perfeito clima Al Gore falou, Al Gore avisou, a estufa carioca não tem mais sol, uma lama provocada pelas chuvas semanais cobre os caminhos por onde Madonna pisou e o choque de ordem previsto para as praias faz aumentar o preço das cadeiras que não estão sendo usadas. As garotas de Ipanema não tem marca de biquíni (ou essa garota cresceu e trocou as areias nubladas por um escritório com ar condicionado quebrado?).
A década vai acabando e só me dou conta de que o bug do milênio é passado distante quando a playlist que mais anima as festas tem o nome de “músicas anos 90”, nostalgia indicadora de que aqueles adultos viveram bem suas adolescências. Correm na web listas de retrospectiva, “os dez mais de qualquer tema”, e nem sei se o Cold Play é coisa de agora ou tempos remotos, aqueles onde líamos jornais em papel. É melhor parar o texto por aqui, resistir à pressão de refletir e avaliar e planejar – depois do dia 31 vem o dia 1 como em qualquer outro mês.
Ao contrario do que diz um estudo de saúde pública da Austrália, Papai Noel não precisa perder peso nem trocar o trenó por bicicletas para servir de exemplo para as crianças. Deixem o velhuxo beber sua Coca-Cola, delegar as funções aos duendes e continuar com o olhar condescendente que só alcança quem já chutou o balde. Ele tem um sorriso feliz.
Tente se manter são nesse Natal.
15.12.09
Capítulo 4
Todos os dias, às vezes pela manhã, ou entre uma coisa e outra, algumas logo antes de adormecer, lembrava-se dele. Contasse para diferentes pessoas sobre espontânea rotina perceberia reações diversas - os poetas sorririam, psiquiatras receitariam, ele a abraçaria com carinho.
Ali do alto, procurando por de cima da nuvem, desconfiou que talvez ele não existisse - fosse construção de lembranças dele com delírios dela, contos de fada, finais felizes e sobrancelhas arqueadas num suspiro. Queria tanto. Mas entre o tanto e o mesmo havia uma névoa, emaranhado de fios intransponíveis.
Como tinha tempo, puxou uma pontinha. Continuou puxando. E enquanto cantava percebeu que estava desembaraçando, precisava colocar aquela fiarada em algum lugar, e enquanto desembaraçava percebeu que estava cantando. Ficou estupefata. Se conseguisse guardar um punhado daquela sensação em um potinho seria o suficiente para ter fôlego e descer. Se soubesse o que fazer com a fiarada poderia tentar.
Começava a acreditar que na história da cigarra e da formiga uma tinha casa para o inverno, mas a outra tinha histórias de verão.
Ali do alto, procurando por de cima da nuvem, desconfiou que talvez ele não existisse - fosse construção de lembranças dele com delírios dela, contos de fada, finais felizes e sobrancelhas arqueadas num suspiro. Queria tanto. Mas entre o tanto e o mesmo havia uma névoa, emaranhado de fios intransponíveis.
Como tinha tempo, puxou uma pontinha. Continuou puxando. E enquanto cantava percebeu que estava desembaraçando, precisava colocar aquela fiarada em algum lugar, e enquanto desembaraçava percebeu que estava cantando. Ficou estupefata. Se conseguisse guardar um punhado daquela sensação em um potinho seria o suficiente para ter fôlego e descer. Se soubesse o que fazer com a fiarada poderia tentar.
Começava a acreditar que na história da cigarra e da formiga uma tinha casa para o inverno, mas a outra tinha histórias de verão.
6.12.09
25.11.09
Capítulo 3
“Não quero torturá-lo e menos ainda aborrecê-lo, mas se acaso em um dia desses você descobrir que me quer mais perto do que tem hoje, por favor não deixe de me procurar. Caso isso aconteça daqui a cinqüenta anos não se preocupe com a minha beleza, a vida terá trocado, com nós dois, ela por serenidade.”
Vista de longe a carta parecia... bem, a carta parecia um telegrama, e quase o era. Telegramas remetem a urgências e aquela definitivamente era uma. Ações impetuosas são de extrema urgência no coração escalpelado do ator e aquilo deveria ficar claro. Debatia-se dentro de si um terror de desperdiçar qualquer chance do amor acontecer, mesmo quando ela desconfiava que o sentimento não passaria num desses testes de ourives para confirmar a pureza. Costumava colocar em um gráfico amor e carência para avaliar o desenho, como se preciso fosse.
Também estava consciente de que o tempo, sempre ele, poderia interferir no desfecho. Ela não tinha como garantir ao rapaz daqui a cinquenta anos resposta diferente da que vinha recebendo nos últimos porque todas as promessas de amor tem prazo de validade, mas ainda assim não gostaria de deixar escapar nenhuma possibilidade de ser feliz por falta de comunicação.
Vista de longe a carta parecia... bem, a carta parecia um telegrama, e quase o era. Telegramas remetem a urgências e aquela definitivamente era uma. Ações impetuosas são de extrema urgência no coração escalpelado do ator e aquilo deveria ficar claro. Debatia-se dentro de si um terror de desperdiçar qualquer chance do amor acontecer, mesmo quando ela desconfiava que o sentimento não passaria num desses testes de ourives para confirmar a pureza. Costumava colocar em um gráfico amor e carência para avaliar o desenho, como se preciso fosse.
Também estava consciente de que o tempo, sempre ele, poderia interferir no desfecho. Ela não tinha como garantir ao rapaz daqui a cinquenta anos resposta diferente da que vinha recebendo nos últimos porque todas as promessas de amor tem prazo de validade, mas ainda assim não gostaria de deixar escapar nenhuma possibilidade de ser feliz por falta de comunicação.
19.11.09
Primavera
“A maioria dos dias do ano são indiferentes. Eles começam e eles terminam, sem nenhuma grande lembrança para marcar. A maioria dos dias não tem nenhum impacto sobre o curso de uma vida. 23 de maio foi uma quarta-feira."
Anos depois ela estava novamente escrevendo sobre filmes. Não porque aquele fosse sensacional, era uma bobagem - como todos os nossos tropeços. Mas ele disse que a história era triste.
(arte de relógio digital volta 4710 dias)
O Uno Mille não subia a ladeira do Fashion Mall. Subiria, se ela soubesse soltar com o pé esquerdo a embreagem à medida em que pressionasse com o direito o acelerador e no meio dessa manobra minimamente calculada o infeliz da frente não parasse o carro, pondo tudo a perder. “Eu nunca vou conseguir fazer isso”. E outros motoristas até cantavam enquanto passavam a primeira, segunda, terceira, reduziam da quinta para a quarta, “é automático!”. “Eu nunca vou conseguir fazer isso”. Esgotada na poltrona, vivia a retomada do cinema nacional em épocas pré-lei seca e arrastão no túnel assistindo à Andrea Beltrão e Daniel Dantas desfilarem o alfabeto em uma tórrida paixão. Não bastasse o desgaste no estacionamento, tudo flutuava na tela até que o casal termina. E não volta no final! Se cruzaram na praia como dois conhecidos, mãos dadas com novas pessoas que – quem são aqueles? Você amava aquela mulher! De quem é esse filho? Filme brasileiro é uma droga.
(arte de relógio digital anda 4710 dias para frente)
Se ela concordasse que o filme é triste atestaria não ter aprendido nada com os tantos perturbados e descrentes que a deixaram por incapacidade de se comprometer, os tais que sempre voltam ao parque para lhe dizer o quanto ela é especial. Os tais de aliança no dedo e medo nenhum, dúvida nenhuma, questão resolvida, pós-ela. Os que gostavam, mas faltava alguma coisa, que na melhor das hipóteses buscam justificativa para remover a ponta de culpa que nem existe, ou desejam tudo de bom ainda estupefatos com a nova rotação da Terra depois do encontro certo, o que pôs tudo nos eixos. Ou o que tirou todas as certezas e preconceitos do lugar como que por mágica. Os que passam de mãos dadas na praia.
Se a mocinha não estivesse lendo Dorian Grey na deli, se tivesse ido ao cinema, se estivesse de mau humor na hora em que o outro entrou, continuaria acreditando mais em Papai Noel do que no amor. E ele... Se Summer não tivesse gostado tanto, mas achado que faltava alguma coisa, estaria de mau humor em outra hora em qualquer deli lendo Dorian Grey. Se ela realmente acreditasse menos no "algo a mais" do que em Papai Noel nem teria visto outras pessoas na deli. E ele...
Salvo masoquistas, adeptos do auto-flagelo, quem, ó céus, escolheria passar por tudo de novo, permitiria que tamanho mal o acometesse? Ele. É uma opção? Pode ser esse o grande castigo por Eva ter mordido a bendita maçã: padecereis de taquicardia por toda a eternidade ainda que pregue pelos quatro cantos a debilidade da paixão. Ou o mal foi a causa – o que essa moça tinha na cabeça? Adão. E um creme da Lanza que prometia deixar os cabelos mais sedosos e sedutores, logo ela que achava isso submissão. E ele vai passar por tudo de novo, e o pior: não há garantia alguma de que um dia vá achar que é isso e ser isso.
Vai ver ele acha que 500 dias são melhor que nada. Senão são só dias. Senão não tem filme, e é um depois do outro que faz com que ela aprenda a subir ladeira. Uns quatro mil depois, até cantando.
Anos depois ela estava novamente escrevendo sobre filmes. Não porque aquele fosse sensacional, era uma bobagem - como todos os nossos tropeços. Mas ele disse que a história era triste.
(arte de relógio digital volta 4710 dias)
O Uno Mille não subia a ladeira do Fashion Mall. Subiria, se ela soubesse soltar com o pé esquerdo a embreagem à medida em que pressionasse com o direito o acelerador e no meio dessa manobra minimamente calculada o infeliz da frente não parasse o carro, pondo tudo a perder. “Eu nunca vou conseguir fazer isso”. E outros motoristas até cantavam enquanto passavam a primeira, segunda, terceira, reduziam da quinta para a quarta, “é automático!”. “Eu nunca vou conseguir fazer isso”. Esgotada na poltrona, vivia a retomada do cinema nacional em épocas pré-lei seca e arrastão no túnel assistindo à Andrea Beltrão e Daniel Dantas desfilarem o alfabeto em uma tórrida paixão. Não bastasse o desgaste no estacionamento, tudo flutuava na tela até que o casal termina. E não volta no final! Se cruzaram na praia como dois conhecidos, mãos dadas com novas pessoas que – quem são aqueles? Você amava aquela mulher! De quem é esse filho? Filme brasileiro é uma droga.
(arte de relógio digital anda 4710 dias para frente)
Se ela concordasse que o filme é triste atestaria não ter aprendido nada com os tantos perturbados e descrentes que a deixaram por incapacidade de se comprometer, os tais que sempre voltam ao parque para lhe dizer o quanto ela é especial. Os tais de aliança no dedo e medo nenhum, dúvida nenhuma, questão resolvida, pós-ela. Os que gostavam, mas faltava alguma coisa, que na melhor das hipóteses buscam justificativa para remover a ponta de culpa que nem existe, ou desejam tudo de bom ainda estupefatos com a nova rotação da Terra depois do encontro certo, o que pôs tudo nos eixos. Ou o que tirou todas as certezas e preconceitos do lugar como que por mágica. Os que passam de mãos dadas na praia.
Se a mocinha não estivesse lendo Dorian Grey na deli, se tivesse ido ao cinema, se estivesse de mau humor na hora em que o outro entrou, continuaria acreditando mais em Papai Noel do que no amor. E ele... Se Summer não tivesse gostado tanto, mas achado que faltava alguma coisa, estaria de mau humor em outra hora em qualquer deli lendo Dorian Grey. Se ela realmente acreditasse menos no "algo a mais" do que em Papai Noel nem teria visto outras pessoas na deli. E ele...
Salvo masoquistas, adeptos do auto-flagelo, quem, ó céus, escolheria passar por tudo de novo, permitiria que tamanho mal o acometesse? Ele. É uma opção? Pode ser esse o grande castigo por Eva ter mordido a bendita maçã: padecereis de taquicardia por toda a eternidade ainda que pregue pelos quatro cantos a debilidade da paixão. Ou o mal foi a causa – o que essa moça tinha na cabeça? Adão. E um creme da Lanza que prometia deixar os cabelos mais sedosos e sedutores, logo ela que achava isso submissão. E ele vai passar por tudo de novo, e o pior: não há garantia alguma de que um dia vá achar que é isso e ser isso.
Vai ver ele acha que 500 dias são melhor que nada. Senão são só dias. Senão não tem filme, e é um depois do outro que faz com que ela aprenda a subir ladeira. Uns quatro mil depois, até cantando.
15.11.09
Capítulo 2
Tinha vontades – uma caixa de Caran d’Ache, relógio Cuco, sanduíche de carne assada no pão de forma, sino. Vestia uma calça de moletom, considerava calças de moletom sinônimo de conforto como pantufas (ninguém tem pressa de pantufas) e tinha acima de tudo vontade de não ter pressa. Para não ter pressa tinha vontade de ter tempo, e desde que começou a prestar atenção nos que exclamavam como era possível já ser novembro considerou ser tempo substantivo masculino subjetivo. Era novembro porque acontecera outubro, e antes setembro e agosto e assim o contrário de sucessivamente e só causa desconfiança essa contagem em quem não esteve ali, o que acontece com bem mais freqüência do que dizem os cartões de ponto das indústrias fedorentas. Antes ela própria não estava, e quando esteve estava tudo tão estranho que escolheu se sentar na nuvem.
De lá viu o cantor cantando na beira do palco. Ele também estava sentado quando engasgou com as palavras e num soluço a lembrou do tanto de amor que há. Alguém no palco tem uma platéia e um disco e curumins e um amor e canta, e ela sentiu vontade de cantar. Juntou à caixa de Caran d’Ache, ao relógio Cuco, sanduíche de carne assada no pão de forma e ao sino mais essa, sem saber se era também lembrança boa ou promessa de felicidade possível. Pensou se essa seria uma vontade-chave, e deu-se conta de que chaves na língua portuguesa abrem portas.
De lá viu o cantor cantando na beira do palco. Ele também estava sentado quando engasgou com as palavras e num soluço a lembrou do tanto de amor que há. Alguém no palco tem uma platéia e um disco e curumins e um amor e canta, e ela sentiu vontade de cantar. Juntou à caixa de Caran d’Ache, ao relógio Cuco, sanduíche de carne assada no pão de forma e ao sino mais essa, sem saber se era também lembrança boa ou promessa de felicidade possível. Pensou se essa seria uma vontade-chave, e deu-se conta de que chaves na língua portuguesa abrem portas.
13.11.09
Agora eu já sei
"Restaram pela casa três corpos a serem recolhidos em cena que lembrava o dia seguinte de uma chacina. Estavam ali, jogados no chão faltando só aquela marca em volta do defunto, duas baratas e um besouro. Ela, de galochas, com as mãos em luvas, armada de pá de lixo e vassoura, rezava para nenhum morto ressuscitar. Besouros são legais se comparados a baratas, as cascudas cheias de patas não são tão terríveis quanto lagartixas, catar aquilo seria melhor do que desentupir ralos e um parágrafo desses só poderia descrever punições."
E só poderá ser lido no Tribuneiros.com
E só poderá ser lido no Tribuneiros.com
6.11.09
Capítulo 1
Depois de selar a carta à moda antiga, não usando a língua e sim aquela cola de pincel que ainda existe nos Correios, entregou ao atendente e pediu licença. Não licença ao atendente, que para sair dos Correios basta atravessar a porta, mas à vida mesmo. Ficaria ali no alto por um tempo. É um lugar entre a terra e o céu, como se estivesse sentada em uma nuvem, sabe? Uma pausa. Você pode pensar que ficar sentada por muito tempo dói a coluna como nos vôos muito longos onde não se dorme, mas nesse caso isso não acontece, e não sei por quê. Precisava de tempo, e não esse dos casais sem coragem ou com muita dor no coração, mas o dos cansados, daqueles que não sabem em que direção seguir. Já tinha passado por maus bocados antes, e bota maus nisso! Os atuais nem eram assim tão ruins, havia solução, qualquer um apontaria uma dezena delas, mas as instruções não funcionavam, inicializar não lhe parecia palavra em português, faltava até metáfora para ilustrar, e a pausa prescindia de razões, explicações, desculpas, respostas confortáveis para os ouvidos dos que perguntavam. Foi por isso que puxou-se pela gola e lá em cima se sentou.
9.10.09
Passagem
"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida*."
Participe do programa de milhagens do Tribuneiros.com. O primeiro com a garantia de vôos turbulentos, além da certeza da chegada.
*Drummond
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida*."
Participe do programa de milhagens do Tribuneiros.com. O primeiro com a garantia de vôos turbulentos, além da certeza da chegada.
*Drummond
5.10.09
27.9.09
Carta a J.
Chérie,
Não consegui responder de imediato, sua carta ficou me incomodando. Na verdade eu nem precisaria responder porque não foi endereçada a mim, mas você deixou espalhada então li, foi irresistível.
Nem sei direito se me lembro bem das palavras porque tem sido tantas coisas que... tão inúteis. Eu deveria me lembrar de cor e repetir até esclarecer aqui dentro, mas... tanta perda de tempo. E enquanto isso meu caderno está ali, em branco, dizendo que não sou obrigada a dizer nada: se não sei, posso calar-me. Já há besteiras demais no mundo, agora ainda incessantemente propagandeadas pela internet. As coisas têm feito barulho demais? Isso deve ser o segundo sinal da velhice, precisa ver como minhas pernas doem.
Não tenho entendido as aulas, sei que são discutidos assuntos fabulosos, prendo os olhos no professor a cada vez que pronuncia Matisse, é em vão. Desconfio que falavam na língua do pê ontem só para me provocar, tudo o que consegui fazer foi retirar-me e usar dos limpadores de para-brisas e lenços do porta-luvas para chegar até em casa consciente de que minha presença física ali não evitava minha ausência. Estou completamente exausta, não sei se mais cansada por ser quarta-feira ou por tanta precaução. Arrisco o segundo, sinto-me existencialistamente esgotada e isso é o máximo de beleza que eu enxergaria em algum lugar. O meu caso requer um reprocessamento cerebral.
Já o seu caso, minha querida, ah... As coisas são repetitivas sim, você é que não é. É tão bom deixar pra trás o que já não é mais, recomendo veementemente. Meu único medo em relação a isso é não ter fôlego para convencer os outros, eles lhe parecem muito acomodados onde estão? Vontade que tenho de sacudir pessoas, mas por que desejar a elas o incômodo que me assombra? Felizes os outros, na sala de jantar. Os outros não se tornam, eles sempre foram. O que acontece quando nos tornamos o que queríamos ser? Adoraria culpá-los, gritar com eles, expulsá-los daqui! Seguiria com tudo que joguei em cima deles berrando para o espelho. Se eu fosse burra nem perceberia, droga.
Vi que ele respondeu a sua carta e meu conselho de leitora intrusa é que você dê atenção às palavras dele – poder constatar que não mais ou não agora é um crescimento, não tivesse você vivido até aqui não teria discernimento para apreciar ou rejeitar o que lhe é oferecido, mesmo que tenha sangrentamente lutado por aquilo. Só alcançando somos capazes de não querer mais, sem birra ou ansiedade juvenil.
Calma, em breve voltaremos à mesa lotada. Nos juntaremos ao resto na pista de dança e de longe nem dará pra perceber que não estivemos ali o tempo todo. Por ora ficarei por aqui, estas poucas linhas já me causam dúvidas e só não as amasso porque me ajudaram a localizar o norte de novo. Nós estamos mesmo sozinhos. Eu só queria alguém que dissesse “estou aqui”. E sorrisse.
A tout a l'heure.
Não consegui responder de imediato, sua carta ficou me incomodando. Na verdade eu nem precisaria responder porque não foi endereçada a mim, mas você deixou espalhada então li, foi irresistível.
Nem sei direito se me lembro bem das palavras porque tem sido tantas coisas que... tão inúteis. Eu deveria me lembrar de cor e repetir até esclarecer aqui dentro, mas... tanta perda de tempo. E enquanto isso meu caderno está ali, em branco, dizendo que não sou obrigada a dizer nada: se não sei, posso calar-me. Já há besteiras demais no mundo, agora ainda incessantemente propagandeadas pela internet. As coisas têm feito barulho demais? Isso deve ser o segundo sinal da velhice, precisa ver como minhas pernas doem.
Não tenho entendido as aulas, sei que são discutidos assuntos fabulosos, prendo os olhos no professor a cada vez que pronuncia Matisse, é em vão. Desconfio que falavam na língua do pê ontem só para me provocar, tudo o que consegui fazer foi retirar-me e usar dos limpadores de para-brisas e lenços do porta-luvas para chegar até em casa consciente de que minha presença física ali não evitava minha ausência. Estou completamente exausta, não sei se mais cansada por ser quarta-feira ou por tanta precaução. Arrisco o segundo, sinto-me existencialistamente esgotada e isso é o máximo de beleza que eu enxergaria em algum lugar. O meu caso requer um reprocessamento cerebral.
Já o seu caso, minha querida, ah... As coisas são repetitivas sim, você é que não é. É tão bom deixar pra trás o que já não é mais, recomendo veementemente. Meu único medo em relação a isso é não ter fôlego para convencer os outros, eles lhe parecem muito acomodados onde estão? Vontade que tenho de sacudir pessoas, mas por que desejar a elas o incômodo que me assombra? Felizes os outros, na sala de jantar. Os outros não se tornam, eles sempre foram. O que acontece quando nos tornamos o que queríamos ser? Adoraria culpá-los, gritar com eles, expulsá-los daqui! Seguiria com tudo que joguei em cima deles berrando para o espelho. Se eu fosse burra nem perceberia, droga.
Vi que ele respondeu a sua carta e meu conselho de leitora intrusa é que você dê atenção às palavras dele – poder constatar que não mais ou não agora é um crescimento, não tivesse você vivido até aqui não teria discernimento para apreciar ou rejeitar o que lhe é oferecido, mesmo que tenha sangrentamente lutado por aquilo. Só alcançando somos capazes de não querer mais, sem birra ou ansiedade juvenil.
Calma, em breve voltaremos à mesa lotada. Nos juntaremos ao resto na pista de dança e de longe nem dará pra perceber que não estivemos ali o tempo todo. Por ora ficarei por aqui, estas poucas linhas já me causam dúvidas e só não as amasso porque me ajudaram a localizar o norte de novo. Nós estamos mesmo sozinhos. Eu só queria alguém que dissesse “estou aqui”. E sorrisse.
A tout a l'heure.
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