Aquele chinesinho me apaixonou. Era um momento em que eu estava muito propícia a me apaixonar por coisas que se fossem pessoas seriam descritas como “as que não fazem mal a uma mosca”, ainda que classificasse moscas como criaturas de nível 4 na escala de potenciais alvos de maus tratos. Não fazer mal a uma barata na pia de mármore do banheiro é indicativo de extrema bondade, moscas só ultrapassam os limites quando zumbem nos ouvidos de quem dorme ou pousam em nossas comidas, e quem dorme ou come em um lugar com moscas deveria repensar seus hábitos. Logo, não fazer mal a moscas não me dizia muito, quero ver alguém tratar com delicadeza um sujeito que conversa em excessivos decibéis no banco de trás.
Entre uma frase e outra o sujeito coçava a garganta fazendo aquele barulho de porco, e foram quarenta e sete minutos de ligações até chegar ao nosso destino: “Faaaala, Menoti!”, e nenhuma pessoa sã poderia corresponder àquela agitação tão cedo de manhã, independentemente de estar acordando ou prestes a dormir. O sujeito no entanto não se abalava. “Quinta-feira tem aquela gravação do DVD, como é aquele lugar na Barra? Sertanejo bomba, muita mulé, se bem que nem rola muita pegação, mas po%$@ 5 mil pessoas naquele lugar da Barra! É, Hard Rock.” Deveras heavy, pensei eu, e apesar de ter tido o olhar percebido somente pelos demais espectadores daquele cena no coletivo, e cem porcento ignorado pelo amigo do Menoti, não quis evitá-lo. Era a minha contribuição a um mundo melhor do dia. Há quem se imponha a meta de três elogios a cada duas dúzias de horas, atenho-me a ações menos forçadas como olhares de reprovação.
Ela insistia em provar que sua teoria não incentivava a mentira, e baseada na reação satisfeita do elogiado seguia com a técnica, sempre acompanhada de um sorrisinho na minha direção a fim de enfatizar seu ponto. "Fazer três elogios por dia melhora o clima do ambiente", pregava.
Começamos a conversar porque ambas admitiram, depois do ataque do touro à platéia em Navarra, que sentíamos mais pena dos bichos do que das crianças. Não é lá algo que se revele assim sem medo de retaliações, e nenhuma das duas dava de ombros para os pequenos com barriga estufada e insetos ao redor de si estampados nos jornais, só tinham apertos no coração em comerciais da Suipa e ímpetos de revolta contra os que culpavam a baleia que atacou a treinadora no parque aquático.
O nome dela era Carol, feminino de Zé. Nutria certo ódio por porteiros e zeladores que a chamavam de Caroline, e não por errarem o nome mas porque a troca da última letra alterava completamente a cor da sua aura, que assim passava de lilás para amarela. Quando pequena, para incômodo da mãe, Carol queria ser caixa de supermercado. Não qualquer supermercado, queria trabalhar nas Casas da Banha. Era muito pequena para entender a relação com o tal de bacalhau que Chacrinha lançava na platéia, tinha medo do Arnaldo Antunes e, orientada pelos pais, colocava seus dentinhos debaixo do travesseiro a fim de serem levados pela fada.
Além de sentirmos mais penas dos bichos do que das crianças também compartilhávamos o título de doadoras de dentes para fadas - eu, os que não engolia, e ela, os que a avó arrancava amarrando-os com um barbante à porta. Várias vezes temi que os engolidos gerassem uma plantação de dentes na minha barriga, mas para jamais alarmar os pais sobre o perigo preferia nem perguntar. Ocupada em disfarçar a questão, nunca parei para pensar no que a fada fazia com tantos dentes!
Carol pensava bastante sobre o espaço livre no mundo das fadas, e como além de nós mais gente acreditava na tradição mas nem todos questionavam tudo enquanto esperavam seus dentes cairem uma delas, ao crescer, montou uma história, e como era um momento em que eu estava muito propícia a me apaixonar por coisas esbarrei com a história e aqueles dentinhos me apaixonaram.
Deixei-me assim, por um tempo só me apaixonando por coisas que se fossem pessoas seriam descritas como “as que não fazem mal a uma mosca”. Como um inseto viveria voando por aí, fazendo meu trabalho, e isso não causaria mal a mim, à minha barriga, ao mundo da fada, à Carol, platéia, touro, passageiros de transportes coletivos ou ao amigo do Menotti. Das coisas voltaria para as pessoas e um dia esbarraria com mais gente que ao invés de questionar cria historias, e eu viraria o chinesinho.
15.8.10
12.8.10
The office
Quarta-feira. Frio. Feeling like Monday but someday I´ll be Saturday night. Escova dentes, come torrada, anda até o ônibus, desce no metrô, repara em como tem gente feia no subterrâneo carioca, anda mais, passa o crachá, liga o computador, perturba as pessoas mais legais do escritório que ainda estão com remelas nos olhos, pensa que não existe em português a palavra “inicializando” e que já era tempo da Microsoft mudá-la, coloca o celular no vibra-call para ser diferente de quem tem toques personalizados insuportáveis e compra um passeio de barco no Tahiti. É mais um presente de casamento, esses sites de cotas de lua-de-mel deveriam ser fiscalizados pelo Conar.
Uma van passa a centímetros do seu nariz e a metade de um homem pendurado pela janela grita: “Santa Cruz?”. Na velocidade em que vinha continuou e ela pensa que se quisesse ir para Santa Cruz teria que correr pelo meio da rua e entrar no veículo em movimento tal qual Pequena Miss Sunshine. Sendo honesta confessa intimamente que isso aconteceu logo depois, no primeiro instante o pensamento foi – eu estou com cara de quem sai do Centro às oito da noite a caminho de Santa Cruz? Ainda que fosse verdade, gostaria de estar parada na calçada com jeito de quem vai tomar um drink no Fasano. A produtividade feminina nas grandes empresas subiria se nos benefícios fosse incluído um maquiador. O terceiro pensamento é reescrever os direitos humanos.
Senhora, cuidado! Sua barriga está escorrendo entre a calça esturricada e a blusa de lycra. Pede aos garotos a seu lado para, por favor, falar um pouco menos alto? Condutor, saia. Exija treinamento para que os trens se movimentem da forma como foram planejados e não engasguem a cada duas estações – as freadas promovem um contato físico forçado entre os passageiros que viajam em pé e podem derrubar os mais frágeis, o que geraria uma cena bem engraçada no entanto incorreta. Vocês – todos – parados na porta do vagão: se não pretendem descer na próxima estação desocupem imediatamente o caminho ou os empurrarei. Senhor, sem puns. Calcula que os usuários de transporte público sofrem um problema crônico de gases na mesma proporção que motoristas com insufilm produzem muita meleca e reconhece que precisa criar a playlist “manhã” para evitar raciocínios desse tipo.
Coloca Pixies no Ipod e na chegada à Carioca a massa sobe as escadas batendo palmas e dançando à la eighties, segue pela Avenida Chile, os grupos dividem-se para caber nos elevadores do prédio e correm para suas baias pulando nas cadeiras de rodinhas.
Desliga o Ipod. A fantasia é brutalmente esmagada pela rotina assalariada.
*******************
Uma van passa a centímetros do seu nariz e a metade de um homem pendurado pela janela grita: “Santa Cruz?”. Na velocidade em que vinha continuou e ela pensa que se quisesse ir para Santa Cruz teria que correr pelo meio da rua e entrar no veículo em movimento tal qual Pequena Miss Sunshine. Sendo honesta confessa intimamente que isso aconteceu logo depois, no primeiro instante o pensamento foi – eu estou com cara de quem sai do Centro às oito da noite a caminho de Santa Cruz? Ainda que fosse verdade, gostaria de estar parada na calçada com jeito de quem vai tomar um drink no Fasano. A produtividade feminina nas grandes empresas subiria se nos benefícios fosse incluído um maquiador. O terceiro pensamento é reescrever os direitos humanos.
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Senhora, cuidado! Sua barriga está escorrendo entre a calça esturricada e a blusa de lycra. Pede aos garotos a seu lado para, por favor, falar um pouco menos alto? Condutor, saia. Exija treinamento para que os trens se movimentem da forma como foram planejados e não engasguem a cada duas estações – as freadas promovem um contato físico forçado entre os passageiros que viajam em pé e podem derrubar os mais frágeis, o que geraria uma cena bem engraçada no entanto incorreta. Vocês – todos – parados na porta do vagão: se não pretendem descer na próxima estação desocupem imediatamente o caminho ou os empurrarei. Senhor, sem puns. Calcula que os usuários de transporte público sofrem um problema crônico de gases na mesma proporção que motoristas com insufilm produzem muita meleca e reconhece que precisa criar a playlist “manhã” para evitar raciocínios desse tipo.
Coloca Pixies no Ipod e na chegada à Carioca a massa sobe as escadas batendo palmas e dançando à la eighties, segue pela Avenida Chile, os grupos dividem-se para caber nos elevadores do prédio e correm para suas baias pulando nas cadeiras de rodinhas.
Desliga o Ipod. A fantasia é brutalmente esmagada pela rotina assalariada.
9.8.10
26.7.10
Patchwork (vol. I)
Eu fico pensando se ali na frente vou olhar pra trás e dizer que valeu a pena. Se um dia vou contar a minha historia incentivando alguém a persistir. É difícil. Menos que isso aconteça, mais o persistir.
Ontem vi nuvens. Na verdade ontem olhei nuvens, possivelmente as vejo todos os dias a não ser que em algum dia eu nem levante os olhos de modo que caiba em cena o céu. Pensando bem, quando não saio do quarto não vejo o céu, e está aí uma boa razão para não repetir esse ato: decidi que é inadmissível uma pessoa passar todo um dia sem avistar o céu, e então levantarei da cama.
Ontem quando vi nuvens pensei que olhá-las seria uma estratégia para o pensamento estar ali. Não olhá-las imaginando formas, mas tirando fotos. De um tempo pra cá tirar fotos me obrigou a procurar detalhes e buscar pontos de vista, montar composições, é mais fácil com câmera. Win Wenders falou que há tantos anos usa óculos que se habituou a ver o mundo emoldurado. Às vezes eu vivo pensando naquilo como um texto. Tomara que seja de uma historia feliz.
*******
Ia se chamar pedaços. Ou vestígios? De pedaços virou uma colcha, de retalhos. Da colcha a cadeira, a lareira e o cachorro. O copo de leite, a madeira escura e o orvalho. A manhã gelada, o sol pro meio-dia e o saco de pães. A casa acordando, a mesa completa. Ponto.
Em frangalhos. O joio e o trigo. O branco do leite, do casaco novinho, da neve no parque. Branco bom. A tranqüilidade. A inspiração. A mão estendida sorriso no rosto. Essa vida se fosse minha logo mandava colorir, mas os momentos em preto e branco parecem imortalizados, historias de castelos, melancolia que não é tristeza. Retratos de um tempo feliz. Vestígios. Vestígios não doem.
*******
E você... será que um dia eu vou descobrir que não é nada perto da minha imaginação? Nós seremos muito felizes nas minhas histórias. Até... .
Ontem vi nuvens. Na verdade ontem olhei nuvens, possivelmente as vejo todos os dias a não ser que em algum dia eu nem levante os olhos de modo que caiba em cena o céu. Pensando bem, quando não saio do quarto não vejo o céu, e está aí uma boa razão para não repetir esse ato: decidi que é inadmissível uma pessoa passar todo um dia sem avistar o céu, e então levantarei da cama.
Ontem quando vi nuvens pensei que olhá-las seria uma estratégia para o pensamento estar ali. Não olhá-las imaginando formas, mas tirando fotos. De um tempo pra cá tirar fotos me obrigou a procurar detalhes e buscar pontos de vista, montar composições, é mais fácil com câmera. Win Wenders falou que há tantos anos usa óculos que se habituou a ver o mundo emoldurado. Às vezes eu vivo pensando naquilo como um texto. Tomara que seja de uma historia feliz.
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Ia se chamar pedaços. Ou vestígios? De pedaços virou uma colcha, de retalhos. Da colcha a cadeira, a lareira e o cachorro. O copo de leite, a madeira escura e o orvalho. A manhã gelada, o sol pro meio-dia e o saco de pães. A casa acordando, a mesa completa. Ponto.
Em frangalhos. O joio e o trigo. O branco do leite, do casaco novinho, da neve no parque. Branco bom. A tranqüilidade. A inspiração. A mão estendida sorriso no rosto. Essa vida se fosse minha logo mandava colorir, mas os momentos em preto e branco parecem imortalizados, historias de castelos, melancolia que não é tristeza. Retratos de um tempo feliz. Vestígios. Vestígios não doem.
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E você... será que um dia eu vou descobrir que não é nada perto da minha imaginação? Nós seremos muito felizes nas minhas histórias. Até... .
18.7.10
As preparadas (ou "lições do Bonde para o baile todo")
Quantas horas por dia você faz ginástica?, ele perguntou. Não são bem horas por dia, eu teria que fazer um cálculo para dividir duas vezes irregulares por semana por sete dias inteiros para achar o inexpressivo decimal que representa minha ocupação de tempo com exercícios físicos. E trabalho? Leitura, cinema, amigos? Aparentemente estava comprovado que eu não sei dizer adeus porque passo meus dias fazendo nada. Lamentável. Ele não considerou as horas na terapia, naquela filosofia tempo gasto falando sobre o assunto não é considerado “ocupar a mente com outras coisas”.
Masculinamente diagnosticado, meu problema era “inventar problema”. Não há mensagens ocultas por trás de Crepúsculo nem Woody Allen é um bom parâmetro, as musicas não dizem o que eu sinto - como os hipocondríacos sou eu que começo a sentir o que dizem as letras - ninguém insinuou nada quando perguntou como eu estava, isso é parte das normas de educação ocidental, “vai pegar alguém”, prescreveu.
Como no universo de seres aparentemente tão parecidos comigo a solução para uma gigantesca disfunção amorosa pode ser “vai-pegar-alguém”? E meu histórico familiar? Instinto de defesa, necessidade de auto-suficiência, programação cerebral constituída há mais de três décadas? Ele sugeriu trocar a meia-calça fashion por um jeans que aperta até meu útero e “partir pra night”. Maquiagem não faria mal, eu pareceria "menos chata".
Eu pensando que me desconectar do problema sem perder a ligação comigo mesma para tudo voltar ao lugar – ou ir pra lá pela primeira vez – indicava que viver havia se tornado tão complexo que a matrícula em uma aula de respiração seria o primeiro passo para a cura. “Depois alguém gosta de você como você é, primeiro deixa nego te chamar de gostosa”.
E foi nessa hora que Simone espichou os olhos do livro e sussurrou pra mim: "vai que é tua, Taffarel".
De Beauvoir. Simone de Beauvoir.
Masculinamente diagnosticado, meu problema era “inventar problema”. Não há mensagens ocultas por trás de Crepúsculo nem Woody Allen é um bom parâmetro, as musicas não dizem o que eu sinto - como os hipocondríacos sou eu que começo a sentir o que dizem as letras - ninguém insinuou nada quando perguntou como eu estava, isso é parte das normas de educação ocidental, “vai pegar alguém”, prescreveu.
Como no universo de seres aparentemente tão parecidos comigo a solução para uma gigantesca disfunção amorosa pode ser “vai-pegar-alguém”? E meu histórico familiar? Instinto de defesa, necessidade de auto-suficiência, programação cerebral constituída há mais de três décadas? Ele sugeriu trocar a meia-calça fashion por um jeans que aperta até meu útero e “partir pra night”. Maquiagem não faria mal, eu pareceria "menos chata".
Eu pensando que me desconectar do problema sem perder a ligação comigo mesma para tudo voltar ao lugar – ou ir pra lá pela primeira vez – indicava que viver havia se tornado tão complexo que a matrícula em uma aula de respiração seria o primeiro passo para a cura. “Depois alguém gosta de você como você é, primeiro deixa nego te chamar de gostosa”.
E foi nessa hora que Simone espichou os olhos do livro e sussurrou pra mim: "vai que é tua, Taffarel".
De Beauvoir. Simone de Beauvoir.
12.7.10
Saudade, amor, que saudade
Chamei de saudade instalada, aquela que realmente é.
Não é a falta cotidiana, o não estar mais, é o nunca. O não estar e reticências (porque saber se é um ponto final não temos como, mas sempre parece).
Tem a saudade do não saber cadê, diferente dessa saudade do vão. É a saudade birrenta, do lugar vazio no carro, não tocar do telefone, mas a que dói mesmo é a do não abraço, do não sorriso cúmplice, do não carinho no cabelo. Parece maior. Pior. Não é a saudade que bate o pé, é a que suspira.
Tem a saudade antecipada, quando você realiza o quanto é feliz, mas entende que vai mudar. É quando já dá para ver o fim da linha, bola pra frente, e você saboreia cada minutinho restante. O cãozinho já cego que não sobe mais na cama mas ainda abana o rabo quando você chega. O sussurro no escuro da madrugada - “mãe, cheguei, boa noite” – que na casa nova vai virar só lembrança. O olhar registrador a caminho do aeroporto.
Tem a saudade ingênua, que adoraria não pintar o cabelo nem cuidar do marido péssimo de febre de 37 graus. Saudade daqueles tempos, ah, aquele Rio de Janeiro, Co-pa-ca-ba-na. É a saudade que diz falsamente indignada “onde já se viu?”. Que pode ser sacana – lembra da Lalinha? Hehe, Lalinha, que pedaço de mulher! E Lalinha nem nunca olhou para o saudoso.
Saudade do que nunca foi. Saudade dos ideais que a vida insistiu em provar não passarem disso.
Tem ela – se todos fossem iguais a você - a saudade bem resolvida, aquela certa nostalgia que sorri com o canto do lábio. A das fotos das férias de verão quando duravam três meses. Dos banhos de mangueira, waffle com mel e calça Fiorucci.
Tem o bichinho esperando na porta. Um par de sobrancelhas arqueadas. Braços ao redor de um travesseiro. Orvalho. Jangada a seco. Estalar da cadeira de balanço. Fim do Fantástico. Canção de marinheiro. Flor de viúva. Incompletude ou o que fica quando a gente sabe que é hora de partir.
Tem tanta saudade na vida, mas a saudade instalada é aquela que já entendeu que não adianta gritar, então chora baixinho mesmo.
Saudade é o registro do amor que só pôde ir porque um dia pôde ficar.
Tribuneiros.com é o site que se despede hoje, mesmo que nunca vá pra longe de mim.
Não é a falta cotidiana, o não estar mais, é o nunca. O não estar e reticências (porque saber se é um ponto final não temos como, mas sempre parece).
Tem a saudade do não saber cadê, diferente dessa saudade do vão. É a saudade birrenta, do lugar vazio no carro, não tocar do telefone, mas a que dói mesmo é a do não abraço, do não sorriso cúmplice, do não carinho no cabelo. Parece maior. Pior. Não é a saudade que bate o pé, é a que suspira.
Tem a saudade antecipada, quando você realiza o quanto é feliz, mas entende que vai mudar. É quando já dá para ver o fim da linha, bola pra frente, e você saboreia cada minutinho restante. O cãozinho já cego que não sobe mais na cama mas ainda abana o rabo quando você chega. O sussurro no escuro da madrugada - “mãe, cheguei, boa noite” – que na casa nova vai virar só lembrança. O olhar registrador a caminho do aeroporto.
Tem a saudade ingênua, que adoraria não pintar o cabelo nem cuidar do marido péssimo de febre de 37 graus. Saudade daqueles tempos, ah, aquele Rio de Janeiro, Co-pa-ca-ba-na. É a saudade que diz falsamente indignada “onde já se viu?”. Que pode ser sacana – lembra da Lalinha? Hehe, Lalinha, que pedaço de mulher! E Lalinha nem nunca olhou para o saudoso.
Saudade do que nunca foi. Saudade dos ideais que a vida insistiu em provar não passarem disso.
Tem ela – se todos fossem iguais a você - a saudade bem resolvida, aquela certa nostalgia que sorri com o canto do lábio. A das fotos das férias de verão quando duravam três meses. Dos banhos de mangueira, waffle com mel e calça Fiorucci.
Tem o bichinho esperando na porta. Um par de sobrancelhas arqueadas. Braços ao redor de um travesseiro. Orvalho. Jangada a seco. Estalar da cadeira de balanço. Fim do Fantástico. Canção de marinheiro. Flor de viúva. Incompletude ou o que fica quando a gente sabe que é hora de partir.
Tem tanta saudade na vida, mas a saudade instalada é aquela que já entendeu que não adianta gritar, então chora baixinho mesmo.
Saudade é o registro do amor que só pôde ir porque um dia pôde ficar.
Tribuneiros.com é o site que se despede hoje, mesmo que nunca vá pra longe de mim.
7.7.10
28.6.10
Da foto
"Está aqui, registrada em cores, a prova de que no fim do mundo tem uma possibilidade!"
Ufa, existe uma alternativa, ainda que ela desconfiasse que se precisasse ir até lá escolheria forma menos capitalista de vida. Depois de responder à brincadeira da amiga se deu conta de que, devagarzinho, voltava a ter esperança de que talvez existissem outros caminhos que levam a lugares mais perto. Ou fé, parente da esperança. Fé deve levar muitas pessoas a fins de mundo como aquele fotografado na viagem. Aquele pode ser o fim de um mundo que não serve mais para os que chegam ali e, por isso mesmo, o começo de outro diferente - possivelmente melhor pros que estavam gostando bem pouco do antigo e acreditaram que dava pra refazer.
Estava ali, em construção, uma casinha num canto qualquer da India sem nada em volta. Grama baixinha, pontas de pedras, um morro na frente, varias arvores à esquerda quase saindo de quadro, telhado verde, futura varanda, janelas de madeira e vidros e uma antena de TV via satélite. Em tom de brincadeira a amiga mostrava a ela que até nos lugares mais distantes do planeta seu ganha-pão estaria garantido! Aquela casinha lá nos cafundós lhe pareceu tão aconchegante quanto cobertor fofinho no inverno. Alguém no outro lado do mundo, por um detalhe imperceptível para os tantos turistas que passam por ali, se lembrou dela. Só aquela pessoa olharia praquela antena e pensaria naquela história. Talvez fosse isso a poção mágica, do fim do mundo veio uma pista.
Começou a cantarolar o verso que sempre lhe intrigou - tudo que a antena captar meu coração captura... E sorriu. Ela iria viver a vida ao vivo porque essa era a sua opção, e ao vivo a gente improvisa. Tudo bem.
Ufa, existe uma alternativa, ainda que ela desconfiasse que se precisasse ir até lá escolheria forma menos capitalista de vida. Depois de responder à brincadeira da amiga se deu conta de que, devagarzinho, voltava a ter esperança de que talvez existissem outros caminhos que levam a lugares mais perto. Ou fé, parente da esperança. Fé deve levar muitas pessoas a fins de mundo como aquele fotografado na viagem. Aquele pode ser o fim de um mundo que não serve mais para os que chegam ali e, por isso mesmo, o começo de outro diferente - possivelmente melhor pros que estavam gostando bem pouco do antigo e acreditaram que dava pra refazer.
Estava ali, em construção, uma casinha num canto qualquer da India sem nada em volta. Grama baixinha, pontas de pedras, um morro na frente, varias arvores à esquerda quase saindo de quadro, telhado verde, futura varanda, janelas de madeira e vidros e uma antena de TV via satélite. Em tom de brincadeira a amiga mostrava a ela que até nos lugares mais distantes do planeta seu ganha-pão estaria garantido! Aquela casinha lá nos cafundós lhe pareceu tão aconchegante quanto cobertor fofinho no inverno. Alguém no outro lado do mundo, por um detalhe imperceptível para os tantos turistas que passam por ali, se lembrou dela. Só aquela pessoa olharia praquela antena e pensaria naquela história. Talvez fosse isso a poção mágica, do fim do mundo veio uma pista.
Começou a cantarolar o verso que sempre lhe intrigou - tudo que a antena captar meu coração captura... E sorriu. Ela iria viver a vida ao vivo porque essa era a sua opção, e ao vivo a gente improvisa. Tudo bem.
24.6.10
Pra não dizer que não falei de Saramago
"Diz o refrão que não há bem que sempre dure nem mal que ature, o que vem assentar como uma luva no trabalho de escrita que acaba aqui e em quem o fez. Algo de bom se encontrará neste textos, e por eles, sem vaidade, me felicito, algo de mal terei feito noutros e por esse defeito me desculpo, mas só por não tê-los feito melhor, que diferentes, com perdão, não poderiam eles ser. Às despedidas sempre conveio que fossem breves. Não é isto uma ária de ópera para lhe meter agora um interminável adio, adio. Adeus, portanto. Até outro dia? Sinceramente, não creio. Comecei outro livro e quero dedicar-lhe todo o meu tempo. Já se verá porquê, se tudo correr bem."
*****
"O mais certo é ser a palavra o melhor que se pôde arranjar, a tentativa sempre frustrada para exprimir isso a que, por palavra, chamamos pensamento."
21.6.10
12.6.10
Uma porção de bolinhas de queijo
(Conversa de botas batidas)
Primeiro concluímos que o Leblon estava se transformando em Epcot Center. Japonês, árabe, espanhol, português, italiano, todos os povos estavam espremidos em não mais que um quarteirão, representado pela culinária um pedaço da cidade reunia todo o mundo: it’s a small world after all. Traduzido com o nome de bebidas até o lema foi copiado – “if you can dream it you can do it” é uma baboseira suicida sem fim. E como em um mini-mundo eles não poderiam faltar, identificamos imediatamente a Faixa de Gaza onde circulam livremente os terroristas, homens-bomba das origens do movimento pela libertação Hamas, a.k.a. Jamás se iluda com eles.
Tem problema não, nosso tabuleiro de War está armado em cima da mesa, vai jogando. Não temos pretensão nenhuma de conquistar o mundo, o objetivo é ter boas histórias para rir no final. No dialeto Jobi escreveu o poeta: tudo vale a pena se a alma não é pequena. Pequeno é só o orçamento desse filme com elenco reaproveitado, vambora, roteiro bom sustenta a obra.
Vou pra festa de dia dos namorados nenhuma, podem encher o Scala com dancinhas comemorativas que eu vou ver o jogo de um lugar seguro. Desculpe, slogan, “faz de conta que sou o primeiro” vai me fazer acreditar que é o único. Pfffff.... Sei lá se já fiz loucuras por amor, assumo todas as que já cometi por falta de amor próprio.
It’s time, diz a Jabulani.
Agora penso que a figura do quebra cabeça pode ser uma pintura surrealista e, se não soubermos logo, não vamos entender nada e ficar chorando porque não faz sentido. Faz assim: eu tento e te conto.
Primeiro concluímos que o Leblon estava se transformando em Epcot Center. Japonês, árabe, espanhol, português, italiano, todos os povos estavam espremidos em não mais que um quarteirão, representado pela culinária um pedaço da cidade reunia todo o mundo: it’s a small world after all. Traduzido com o nome de bebidas até o lema foi copiado – “if you can dream it you can do it” é uma baboseira suicida sem fim. E como em um mini-mundo eles não poderiam faltar, identificamos imediatamente a Faixa de Gaza onde circulam livremente os terroristas, homens-bomba das origens do movimento pela libertação Hamas, a.k.a. Jamás se iluda com eles.
Tem problema não, nosso tabuleiro de War está armado em cima da mesa, vai jogando. Não temos pretensão nenhuma de conquistar o mundo, o objetivo é ter boas histórias para rir no final. No dialeto Jobi escreveu o poeta: tudo vale a pena se a alma não é pequena. Pequeno é só o orçamento desse filme com elenco reaproveitado, vambora, roteiro bom sustenta a obra.
Vou pra festa de dia dos namorados nenhuma, podem encher o Scala com dancinhas comemorativas que eu vou ver o jogo de um lugar seguro. Desculpe, slogan, “faz de conta que sou o primeiro” vai me fazer acreditar que é o único. Pfffff.... Sei lá se já fiz loucuras por amor, assumo todas as que já cometi por falta de amor próprio.
It’s time, diz a Jabulani.
Agora penso que a figura do quebra cabeça pode ser uma pintura surrealista e, se não soubermos logo, não vamos entender nada e ficar chorando porque não faz sentido. Faz assim: eu tento e te conto.
4.6.10
Glossário da Copa
Se o Beckham vai à Africa só dar apoio moral eu também posso oferecer ajuda com minha perspectiva única! Não entramos em campo, mas entendemos do negócio.
Começa o jogo aqui no Tribuneiros.
Ke Nako!
Começa o jogo aqui no Tribuneiros.
Ke Nako!
2.6.10
Lixo
Se não consigo me concentrar, essas vozes, onde foi o chão, porta, estou em pânico. Pânico. Fome porque é impossível comer, vontade de morrer. Sair correndo se tivesse força, cair no chão, por favor, me deixa ir embora, fugir pra longe daqui, desaparece. Queima esses jornais, rasga fotos, nome, menções que são mísseis. Sou engolida por um monstro gigantesco ou ferida com um punhal no meio do peito, esse maldito ponto que lateja como se tivesse prendido o dedo na porta. Não, por favor, de joelhos em súplica: não. Me sinto zonza. Não foi assim que descreveram os poetas, se existe música é trilha de terror, mil tubarões engolindo barcos a um relance da sua mão na dela. Sai! E cresce um ódio, bateria em você até me cansar e dormir. Rasgaria sua pele, exporia sua carne para mostrar um pouquinho do que corrói em mim. Se não precisasse depois acordar.
Se chorar adiantasse choraria por horas, dias, noites, gritos. Conversar, escolheria com cuidado entre todas as palavras do dicionário as que trouxessem você pra mim. Imploraria. Desenharia o tamanho do gostar e prometeria nunca te ferir. É isso? Tanta dor. Quando é bom? Se te trancasse em uma gaiola e alimentasse como meu você fugiria, eu temeria constantemente. Viveria em vigília, soldado a postos em guerra - contra quem? é em mim. Conseguisse, eu me mataria. Berraria até catapultar a parte tão infeliz. Fraca. Sem vergonha. Exterminaria cirurgicamente a sangue frio cada neurônio que reage a você nessa doença.
Engole esse choro e levanta a cabeça. Já. Não é ninguém, nada, não tem. Chega.
Não dá.
Um dia vai passar. Um novo dia.
Recolham esse trapo.
Se chorar adiantasse choraria por horas, dias, noites, gritos. Conversar, escolheria com cuidado entre todas as palavras do dicionário as que trouxessem você pra mim. Imploraria. Desenharia o tamanho do gostar e prometeria nunca te ferir. É isso? Tanta dor. Quando é bom? Se te trancasse em uma gaiola e alimentasse como meu você fugiria, eu temeria constantemente. Viveria em vigília, soldado a postos em guerra - contra quem? é em mim. Conseguisse, eu me mataria. Berraria até catapultar a parte tão infeliz. Fraca. Sem vergonha. Exterminaria cirurgicamente a sangue frio cada neurônio que reage a você nessa doença.
Engole esse choro e levanta a cabeça. Já. Não é ninguém, nada, não tem. Chega.
Não dá.
Um dia vai passar. Um novo dia.
Recolham esse trapo.
1.6.10
Thank you
De tanto acertar nos convenceram da nossa capacidade, ninguém prestou atenção ao esforço. E se baixássemos as armas? Com tanto acerto mal conhecemos o erro, não nos arrependeremos deles.
As fotografias de apartamentos pasteurizadamente decorados, quadros de Hopper, violinos cortantes. Juro que queria algumas palavras, quais são? E se por um momento elas me faltarem? Fica essa mensagem estranha, não entende como vazia, está repleta, só embaçada. Ecos em uma caverna, água gelada que nem dói. E se superarmos a anestesia?
Tem muito branco, pérola, superfícies lisas. Três goles da bebida mais cor de sangue na taça mais fina para despertar o que adormece. O que se embala com os sons dos carros cortando a larga avenida e aqui ao lado tem uma pequena rua, vou pintá-la. Como se a caixinha de música na mesa de mármore tocasse a melodia do bosque que se chama solidão. E se não tivermos medo de lobo mau?
Agora que sorriu não se esqueça de trazer as cores, respirar fundo para renovar o ar. Presta atenção. Tira o sapato, escuta o vento. Aceita, mas não desiste. Se entrega, não se entrega, permite. Esteja lá, só, lá. Naquele momento. Não tire fotos, guarde lembranças e seja capaz de recontar as histórias, desenhe em aquarelas ou grafite paredes, faça viver. Toque a pele encardida das mulheres, os enfeites que as fazem tão sagradas, as sedas e crenças, busque a força que os faz tão ingênuos. Espertas somos nós construindo fortalezas que nos trancam do lado de dentro. Faça parte. Depois me conta como querer sem se quebrar, que nunca entendi como não desejar não é morrer.
E se não for nada disso, recomece. Não se esqueça. De tanto errar perderemos o medo.
Boa viagem, aproveita o caminho. Um dia componho uma canção, um dia entenderemos tudo melhor.
Leva Alanis no Ipod.
As fotografias de apartamentos pasteurizadamente decorados, quadros de Hopper, violinos cortantes. Juro que queria algumas palavras, quais são? E se por um momento elas me faltarem? Fica essa mensagem estranha, não entende como vazia, está repleta, só embaçada. Ecos em uma caverna, água gelada que nem dói. E se superarmos a anestesia?
Tem muito branco, pérola, superfícies lisas. Três goles da bebida mais cor de sangue na taça mais fina para despertar o que adormece. O que se embala com os sons dos carros cortando a larga avenida e aqui ao lado tem uma pequena rua, vou pintá-la. Como se a caixinha de música na mesa de mármore tocasse a melodia do bosque que se chama solidão. E se não tivermos medo de lobo mau?
Agora que sorriu não se esqueça de trazer as cores, respirar fundo para renovar o ar. Presta atenção. Tira o sapato, escuta o vento. Aceita, mas não desiste. Se entrega, não se entrega, permite. Esteja lá, só, lá. Naquele momento. Não tire fotos, guarde lembranças e seja capaz de recontar as histórias, desenhe em aquarelas ou grafite paredes, faça viver. Toque a pele encardida das mulheres, os enfeites que as fazem tão sagradas, as sedas e crenças, busque a força que os faz tão ingênuos. Espertas somos nós construindo fortalezas que nos trancam do lado de dentro. Faça parte. Depois me conta como querer sem se quebrar, que nunca entendi como não desejar não é morrer.
E se não for nada disso, recomece. Não se esqueça. De tanto errar perderemos o medo.
Boa viagem, aproveita o caminho. Um dia componho uma canção, um dia entenderemos tudo melhor.
Leva Alanis no Ipod.
27.5.10
How's “this” for muchness?
O assunto do email dizia algo como “velha, mas boa”.
“Durante a visita a um hospital psiquiátrico, um dos visitantes perguntou ao diretor:
- Qual é o critério pelo qual vocês decidem quem precisa ser hospitalizado aqui?
- Nós enchemos uma banheira com água e oferecemos ao doente uma colher, um copo e um balde e pedimos que a esvazie. De acordo com a forma que ele decida realizar a missão, nós decidimos se o hospitalizamos ou não.
- Entendi - disse o visitante. Uma pessoa normal usaria o balde, que é maior que o copo e a colher.
Não - respondeu o diretor - uma pessoa normal tiraria a tampa do ralo. O que o senhor prefere? Quarto particular ou enfermaria?”
E terminava com a frase “dedicado a todos que escolheram o balde”.
Danou-se. A palavra que pensei foi uma pouco mais agressiva, mas com o mesmo significado – não me encaixo nem em hospital psiquiátrico. Talvez no circo.
Eu pensei em pular na banheira. Dar uma bomba como fazíamos na piscina durante as férias de verão e depois provocar ondas até toda a água transbordar. Ainda gosto de fazer isso no terraço dos meus pais, não a bomba porque com tamanha profundidade eu quebraria o coccix, mas o maremoto: com os braços e as pernas esticadas vou e volto de uma borda à outra e com meus impulsos crio um Wet and Wild! Quando chove é mais legal, tempestade no mar revolto! Mas o normal é tirar a tampa do ralo.
Em mais uma manhã incomodamente sonolenta me arrastei para ligar a TV e assim algum barulho me manter acordada, e notei que o apresentador começou o jornal animado: “faltam quinze dias para a grande festa do futebol!”. Vi os jogadores saindo do avião, entrando no ônibus e o repórter em frente ao tapume que cobre o hotel, o piloto que tirou uma foto de dentro da cabine ao aterrissar, o ônibus não adesivado, nas ruas vizinhas ninguém circula. Como o homem pilota um vôo desses e não tira foto com os jogadores? Nenhum tinha pandeiro pra puxar um samba no caminho? Foi em 2002 ou 2006 que eles cantavam “Deixa a vida me levar”?
Lá nas férias de verão eu gostava de fazer concurso de pulos: nos jogávamos na água em pé como prego, girando como parafuso, de barriga, cambalhota, correndo de longe, no final do dia era um tal de pingar álcool nos ouvidos das crianças que não duvido que a prática tenha causado danos à nossa audição. Eu nunca mergulhei de cabeça. Não aprendi. Sempre achei lindo quem chega embalado, rasgua a água com as mãos e aparece lá do outro lado com um ar de refrescância. Eu sempre achei que não conseguiria, e parei de tentar.
O mais óbvio é tirar a tampa do ralo. Qualquer ser cerebrado pode tirar a tampa do ralo depois de arregaçar as mangas para não se molhar. Tirar a tampa é o esperado, óbvio. Sem graça pra quem acha que quando conhecemos alguém especial o mundo pára, que a felicidade é como um bode tocando violino. Quem quer de qualquer forma vibrar na Copa do Mundo então passa a seguir os convocados no Twitter, colecionar as figurinhas do álbum mesmo que todos já o tenham completado e marca uma visita-guiada ao Maracanã pra ver se isso desperta algum sentimento incontrolável que não seja medo. Quer sentir arrepios, teima que a vida é assim. Que precisamos nos afeiçoar a esses jogadores, torcer, é Copa do Mundo!
Futebol é legal por ser uma caixinha de surpresas.
Essa é velha, mas boa.
The Mad Hatter: Have I gone mad?
Alice checks Hatter's temperature.
Alice Kingsley: I'm afraid so. You're entirely bonkers. But I'll tell you a secret: all the best people are.
(Alice in Wonderland, de Tim Burton)
“Durante a visita a um hospital psiquiátrico, um dos visitantes perguntou ao diretor:
- Qual é o critério pelo qual vocês decidem quem precisa ser hospitalizado aqui?
- Nós enchemos uma banheira com água e oferecemos ao doente uma colher, um copo e um balde e pedimos que a esvazie. De acordo com a forma que ele decida realizar a missão, nós decidimos se o hospitalizamos ou não.
- Entendi - disse o visitante. Uma pessoa normal usaria o balde, que é maior que o copo e a colher.
Não - respondeu o diretor - uma pessoa normal tiraria a tampa do ralo. O que o senhor prefere? Quarto particular ou enfermaria?”
E terminava com a frase “dedicado a todos que escolheram o balde”.
Danou-se. A palavra que pensei foi uma pouco mais agressiva, mas com o mesmo significado – não me encaixo nem em hospital psiquiátrico. Talvez no circo.
Eu pensei em pular na banheira. Dar uma bomba como fazíamos na piscina durante as férias de verão e depois provocar ondas até toda a água transbordar. Ainda gosto de fazer isso no terraço dos meus pais, não a bomba porque com tamanha profundidade eu quebraria o coccix, mas o maremoto: com os braços e as pernas esticadas vou e volto de uma borda à outra e com meus impulsos crio um Wet and Wild! Quando chove é mais legal, tempestade no mar revolto! Mas o normal é tirar a tampa do ralo.
Em mais uma manhã incomodamente sonolenta me arrastei para ligar a TV e assim algum barulho me manter acordada, e notei que o apresentador começou o jornal animado: “faltam quinze dias para a grande festa do futebol!”. Vi os jogadores saindo do avião, entrando no ônibus e o repórter em frente ao tapume que cobre o hotel, o piloto que tirou uma foto de dentro da cabine ao aterrissar, o ônibus não adesivado, nas ruas vizinhas ninguém circula. Como o homem pilota um vôo desses e não tira foto com os jogadores? Nenhum tinha pandeiro pra puxar um samba no caminho? Foi em 2002 ou 2006 que eles cantavam “Deixa a vida me levar”?
Lá nas férias de verão eu gostava de fazer concurso de pulos: nos jogávamos na água em pé como prego, girando como parafuso, de barriga, cambalhota, correndo de longe, no final do dia era um tal de pingar álcool nos ouvidos das crianças que não duvido que a prática tenha causado danos à nossa audição. Eu nunca mergulhei de cabeça. Não aprendi. Sempre achei lindo quem chega embalado, rasgua a água com as mãos e aparece lá do outro lado com um ar de refrescância. Eu sempre achei que não conseguiria, e parei de tentar.
O mais óbvio é tirar a tampa do ralo. Qualquer ser cerebrado pode tirar a tampa do ralo depois de arregaçar as mangas para não se molhar. Tirar a tampa é o esperado, óbvio. Sem graça pra quem acha que quando conhecemos alguém especial o mundo pára, que a felicidade é como um bode tocando violino. Quem quer de qualquer forma vibrar na Copa do Mundo então passa a seguir os convocados no Twitter, colecionar as figurinhas do álbum mesmo que todos já o tenham completado e marca uma visita-guiada ao Maracanã pra ver se isso desperta algum sentimento incontrolável que não seja medo. Quer sentir arrepios, teima que a vida é assim. Que precisamos nos afeiçoar a esses jogadores, torcer, é Copa do Mundo!
Futebol é legal por ser uma caixinha de surpresas.
Essa é velha, mas boa.
The Mad Hatter: Have I gone mad?
Alice checks Hatter's temperature.
Alice Kingsley: I'm afraid so. You're entirely bonkers. But I'll tell you a secret: all the best people are.
(Alice in Wonderland, de Tim Burton)
23.5.10
O vírus da pressão (um dedinho de prosa)

Sobre gripe suína e Lulu Santos, lá no Tribuneiros. E algumas mudanças por aqui para help me get my feet back on the ground.
12.5.10
30.4.10
Msg para @girino
Recorde histórico: surgimento de uma nova pessoa faz Bruna ter crise de ansiedade em menos de 4 semanas. Leia hoje no Tribuneiros.com.
28.4.10
19.4.10
Cartas a um girino (volume I)
Era uma vez meninas que brincavam de princesas. Um dia elas descobriram que os sapos eram bem mais legais do que os principes, e começaram até a conversar com girinos.
Abra aqui a correspondência alheia.
Abra aqui a correspondência alheia.
15.4.10
Remington & Sons
Há muito tempo, em um mundo nem tão distante, não existia o verbo deletar. Não existia nem o "Delete". A menininha colocava a máquina em cima da mesa de jantar, encaixava o papel com cuidado pra não ficar torto e assim as histórias não parecerem que cairiam da folha e ia empurrando com os dedinhos as letras até o fundo, para que as hastes subissem com força e carimbassem o simbolo correspondente à imaginação. No final puxava a obra com orgulho e guardava numa pastinha de elástico.
Um dia eu escrevo sobre a máquina automática que as crianças não podiam usar: "vocês vão acabar com a fita de apagar". E um dia eu aprendo a fotografar.
Um dia eu escrevo sobre a máquina automática que as crianças não podiam usar: "vocês vão acabar com a fita de apagar". E um dia eu aprendo a fotografar.
7.4.10
10 lições que você aprende ao ficar presa no temporal
1. Os vizinhos do andar de cima criam hipopótamos no apartamento. Só isso explica os barulhos.
2. A cobertura da Globonews é mais legal enquanto os repórteres estão alagados na rua.
3. Mamãe não quero ser prefeito.
4. É bom que sobrem alguns ovos de Páscoa.
5. Para o caso de faltar luz, tenha livros e Rivotril em casa. Ou banheira e vinho, assim você faz sonoterapia.
6. Internet no celular é tão importante quanto um par de galochas
7. Não tente roubar os pedalinhos desgarrados da Lagoa para passear pela cidade, algumas pessoas não tem seu humor negro e estão realmente em apuros.
8. Seja o primeiro a correr pro supermercado. Zombar dos desesperados que começam a estocar alimentos não perecíveis fará com que você passe fome depois de 30 horas de temporal.
9. Lave ao menos um casaco a cada quinze dias. Depois de meses de verão inclemente eles te matarão de alergia se a temperatura cair e você não vai querer perder a grande chance de passar a tarde enroscada no sofá só ouvindo a chuva, como na infância.
10. Monte com amigos uma playlist temática sobre chuva. Se eles não forem completamente surtados se ocuparão por mais de 5 minutos com a brincadeira e chegarão ao seguinte resultado:
1. Chove, chuva (Grammy de piadinha mais infame da semana)
2. Aguas de março (em versão abril)
3. Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
4. Purple rain, do Prince
5. Chove lá fora e aqui (no meu caso, também chove)
6. Eu quero que chova uma chuva bem fininha
7. Rain da Madonna
8. Rain dos Beatles
9. The rain do Roxette
10. Queen of Rain da mesma dupla
11. Raindrops keep falling on my head, Burt Bacharach
12. Have you ever seen the rain – não como essa, Credence Clearwater
13. Black Rain, do Ben Harper, em São Paulo
14. Singing in the Rain, com Gene Kelly em uma cidade onde a água escoa pelos ralos e as encostas não desabam
15. November Rain, do Guns n' Roses, que ganhou prêmios nos quesitos merchan (cabelo de anúncio de xampu do Axl), figurino (terno azul cintilante, o vestido de noiva e as backing vocals vestidas como Madonna em Like A Virgin), actor in a suporting role (Slash quando não encontra as alianças do casamento e num solo de guitarra de pernas abertas em frente à igrejinha do deserto) e momento “não faça isso em casa” (um convidado infeliz se joga em cima do bolo de casamento pra escapar de uns pingos d'água)
16. Come Rain or come Shine, do Ray Charles
17. Dry the Rain - The Beta Band
18. No rain - Blind Melon (sim, eu também adorava esse clipe da abelhinha no Disk MTV com a Astrid!)
19. It's raining men (vai que cai um do céu)
20. I'm only happy when it rains, que o Garbage compôs numa tarde como a de ontem
21. Right as Rain, da Adele
22. Rainy Days, do Ja Rule
23. Why does it always rain on me, da época em que o Green Day Morava numa casa com goteiras
24. The Rain Song, do Led Zeppelin (recomendada por nossos especialistas como “linda de doer”)
25. Fool in the Rain, que o mesmo Led Zeppelin compôs ao te ver andando no atoleiro pensando em roubar um pedalinho
Bonus track: O Rio de Janeiro continua lindo.
Agradecimentos especiais: Dear Juliet (que não é a de A Rainy Day Song!)
2. A cobertura da Globonews é mais legal enquanto os repórteres estão alagados na rua.
3. Mamãe não quero ser prefeito.
4. É bom que sobrem alguns ovos de Páscoa.
5. Para o caso de faltar luz, tenha livros e Rivotril em casa. Ou banheira e vinho, assim você faz sonoterapia.
6. Internet no celular é tão importante quanto um par de galochas
7. Não tente roubar os pedalinhos desgarrados da Lagoa para passear pela cidade, algumas pessoas não tem seu humor negro e estão realmente em apuros.
8. Seja o primeiro a correr pro supermercado. Zombar dos desesperados que começam a estocar alimentos não perecíveis fará com que você passe fome depois de 30 horas de temporal.
9. Lave ao menos um casaco a cada quinze dias. Depois de meses de verão inclemente eles te matarão de alergia se a temperatura cair e você não vai querer perder a grande chance de passar a tarde enroscada no sofá só ouvindo a chuva, como na infância.
10. Monte com amigos uma playlist temática sobre chuva. Se eles não forem completamente surtados se ocuparão por mais de 5 minutos com a brincadeira e chegarão ao seguinte resultado:
1. Chove, chuva (Grammy de piadinha mais infame da semana)
2. Aguas de março (em versão abril)
3. Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
4. Purple rain, do Prince
5. Chove lá fora e aqui (no meu caso, também chove)
6. Eu quero que chova uma chuva bem fininha
7. Rain da Madonna
8. Rain dos Beatles
9. The rain do Roxette
10. Queen of Rain da mesma dupla
11. Raindrops keep falling on my head, Burt Bacharach
12. Have you ever seen the rain – não como essa, Credence Clearwater
13. Black Rain, do Ben Harper, em São Paulo
14. Singing in the Rain, com Gene Kelly em uma cidade onde a água escoa pelos ralos e as encostas não desabam
15. November Rain, do Guns n' Roses, que ganhou prêmios nos quesitos merchan (cabelo de anúncio de xampu do Axl), figurino (terno azul cintilante, o vestido de noiva e as backing vocals vestidas como Madonna em Like A Virgin), actor in a suporting role (Slash quando não encontra as alianças do casamento e num solo de guitarra de pernas abertas em frente à igrejinha do deserto) e momento “não faça isso em casa” (um convidado infeliz se joga em cima do bolo de casamento pra escapar de uns pingos d'água)
16. Come Rain or come Shine, do Ray Charles
17. Dry the Rain - The Beta Band
18. No rain - Blind Melon (sim, eu também adorava esse clipe da abelhinha no Disk MTV com a Astrid!)
19. It's raining men (vai que cai um do céu)
20. I'm only happy when it rains, que o Garbage compôs numa tarde como a de ontem
21. Right as Rain, da Adele
22. Rainy Days, do Ja Rule
23. Why does it always rain on me, da época em que o Green Day Morava numa casa com goteiras
24. The Rain Song, do Led Zeppelin (recomendada por nossos especialistas como “linda de doer”)
25. Fool in the Rain, que o mesmo Led Zeppelin compôs ao te ver andando no atoleiro pensando em roubar um pedalinho
Bonus track: O Rio de Janeiro continua lindo.
Agradecimentos especiais: Dear Juliet (que não é a de A Rainy Day Song!)
3.4.10
Exercício (eu, o Cazuza e pessoas de cabelos enrolados adoramos um amor inventado)
Que estranho seu Cristo, Rio
De braços abertos sem proteger ninguém
Do frio do abandono, solidão, pensamentos soltos
e eu já não sei onde terminam ou começam histórias
se coloco palavras por ser ou pra rimar
Eu preciso dizer que não te amo
Passageiro
Essa tristeza existe só pra depois a gente medir o amor feliz
Como eu vou saber?
Você vai saber
Não tem mentira, não
Tá tudo aqui, embrulhei numa trouxinha pra despejar na sua cama
Encaixa aí
Essa marra, minha raiva, pecinha por pecinha de um quebra-cabeça imperfeito de quebra coração, quebra ilusão
Com a gente não é assim não, amor
Desculpe dizer: esses versinhos são pra mim, nenhum pra você
De braços abertos sem proteger ninguém
Do frio do abandono, solidão, pensamentos soltos
e eu já não sei onde terminam ou começam histórias
se coloco palavras por ser ou pra rimar
Eu preciso dizer que não te amo
Passageiro
Essa tristeza existe só pra depois a gente medir o amor feliz
Como eu vou saber?
Você vai saber
Não tem mentira, não
Tá tudo aqui, embrulhei numa trouxinha pra despejar na sua cama
Encaixa aí
Essa marra, minha raiva, pecinha por pecinha de um quebra-cabeça imperfeito de quebra coração, quebra ilusão
Com a gente não é assim não, amor
Desculpe dizer: esses versinhos são pra mim, nenhum pra você
26.3.10
24.3.10
Caio
"Porto, 22 de dezembro de 1979
Zézim,
cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tUa carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quietO e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portantO, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudo-inteligente.
Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace al andar”.
Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.
Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentem ente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.
Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tUdo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.
Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.
(...)
Ler é alimento de quem escreve.
Caio Fernando Abreu
Zézim,
cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tUa carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quietO e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portantO, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudo-inteligente.
Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace al andar”.
Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.
Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentem ente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.
Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tUdo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.
Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.
(...)
Ler é alimento de quem escreve.
Caio Fernando Abreu
17.3.10
16.3.10
7.3.10
Os poderes de Greyskull
Você pode acordar para ir trabalhar ou faltar e ver todas as estréias da semana. Pode vestir um terno ou decidir que hoje vai casual, mesmo que não seja friday. Pode almoçar no restaurante ali da esquina ou andar mais um pouco e arriscar um novo, ir regularmente à academia ou caminhar no parque ouvindo música. Pode dormir com a TV ligada ou ligar para alguém com quem não fala há tempos, arriscar outro caminho ou seguir naquele já conhecido, pode fazer Administração, Direito, Economia ou passar um ano a quilômetros da faculdade só para estudar línguas, arte e viajar por aí.
Você pode se formar e imediatamente começar uma pós-graduação ou confessar abertamente que não tem a mínima idéia do que quer ser quando crescer. Pode nunca sair de casa sem camadas e camadas de protetor solar ou torrar no sol e usar biquíni branco no inverno, pode ficar com todos os caras que te olham ou não estar nunca satisfeita com ninguém. Pode reclamar do que te incomoda ou esperar para ver se passa, guardar dinheiro para ter um carro zero ou andar de ônibus e ter mais sapatos que Imelda Marcos. Pode tocar vários instrumentos ou entender sobre musica tanto quanto o I-Tunes permite, insistir para ver se volta ou acreditar que acabou.
Pode saber de cor quantas calorias tem em cada alimento ou fechar a boca sempre que a calca jeans apertar, ler todos os clássicos ou os quadrinhos do jornal, sair todas as noites ou dormir oito horas por dia. Pode falar com seus amigos toda hora ou curtir os status nas redes sociais, viver num apartamento onde, se entrar correndo, cai pela janela ou se lembrar de avisar aos pais quando não dormir em casa. Pode anular seu voto ou se esforçar para entender os projetos de cada candidato, conversar para chegar a um acordo ou desistir porque não vale a pena.
Você não pode não se lembrar do que queria quando criança, não pode não saber se quem importa está bem, não pode não conhecer o lugar com o qual sempre sonhou ou não dar uma chance se existir uma mínima possibilidade. Não pode não saber quais musicas e filmes te fazem chorar e quais te fazem sorrir, não pode não descobrir por que está se sentindo mal há tanto tempo nem não ter algo só seu. Não pode não ter alguém com quem contar nem um motivo para continuar.
Você não pode um dia acordar e ver que não se lembra como tudo ficou assim. Pelo menos não deve.
Seu Martin 1, 10/09/2006
Você pode se formar e imediatamente começar uma pós-graduação ou confessar abertamente que não tem a mínima idéia do que quer ser quando crescer. Pode nunca sair de casa sem camadas e camadas de protetor solar ou torrar no sol e usar biquíni branco no inverno, pode ficar com todos os caras que te olham ou não estar nunca satisfeita com ninguém. Pode reclamar do que te incomoda ou esperar para ver se passa, guardar dinheiro para ter um carro zero ou andar de ônibus e ter mais sapatos que Imelda Marcos. Pode tocar vários instrumentos ou entender sobre musica tanto quanto o I-Tunes permite, insistir para ver se volta ou acreditar que acabou.
Pode saber de cor quantas calorias tem em cada alimento ou fechar a boca sempre que a calca jeans apertar, ler todos os clássicos ou os quadrinhos do jornal, sair todas as noites ou dormir oito horas por dia. Pode falar com seus amigos toda hora ou curtir os status nas redes sociais, viver num apartamento onde, se entrar correndo, cai pela janela ou se lembrar de avisar aos pais quando não dormir em casa. Pode anular seu voto ou se esforçar para entender os projetos de cada candidato, conversar para chegar a um acordo ou desistir porque não vale a pena.
Você não pode não se lembrar do que queria quando criança, não pode não saber se quem importa está bem, não pode não conhecer o lugar com o qual sempre sonhou ou não dar uma chance se existir uma mínima possibilidade. Não pode não saber quais musicas e filmes te fazem chorar e quais te fazem sorrir, não pode não descobrir por que está se sentindo mal há tanto tempo nem não ter algo só seu. Não pode não ter alguém com quem contar nem um motivo para continuar.
Você não pode um dia acordar e ver que não se lembra como tudo ficou assim. Pelo menos não deve.
Seu Martin 1, 10/09/2006
24.2.10
Juliet, naked
Quando a segunda-feira começou, ela não. Dormiu mais meia-hora no dia em que o ano começava porque ela já tinha começado, mesmo que da forma mais atrapalhada possível. Foi a possível, e odiaria começar qualquer coisa em uma segunda-feira, seria banal.
Enquanto todos se moviam para seus trabalhos ela comprou um suco de laranja e caminhou na direção contrária para olhar as revistas da livraria que tinham sido substituídas por livros enormes e desinteressantes que obviamente estavam ali só para disfarçar o vazio. “Que merda!”. Então foi para a praia. Não pensou “que merda” com raiva, até chegou a olhar para o livreiro a fim de dizer que estava ruim, mas desistiu. “Ele deve saber”.
O cara mais interessante da areia tirou os óculos Ray Ban e deu um mergulho enquanto ela se deliciava com o espaço, o calor e o barulho das ondas. Na volta ele pegou uma toalha na sacola ecologicamente correta de supermercado e se deitou de bruços. Ela achou ruim, mas não lamentou. "Ele deve ser gringo".
A amiga voltou da tomografia de seios da face e tirou a roupa depois de tirar da bolsa o mesmo livro que ela estava lendo, e nenhuma das duas queria ver o filme apesar de adorarem cinema. Ficaram uma meia-hora considerando a vida sexual dos outros para concluir que todos mentem, decidiram que a tecnologia era culpada pelo aumento da ansiedade, se espantaram que em 2010 uma mulher não pudesse só querer sexo e desconfiaram da certeza dos que prometem ficar juntos até que a morte os separe. Cogitaram maconha como tranquilizante, mas acabaram se conformando em ver obras de arte. Acordaram que poderiam fazer a comida para o amado exausto, se conseguissem um amado e isso não as deixasse exaustas.
Enquanto o sol se escondia atrás da montanha escurecendo o Leblon, os créditos subiam ao som de Silly Love Songs. Roteiro, direção, figurino, trilha, tudo era assinado por elas, mesmo que às vezes errassem no casting. Eram boas personagens, só não gostavam de tanta reality no show.
Enquanto todos se moviam para seus trabalhos ela comprou um suco de laranja e caminhou na direção contrária para olhar as revistas da livraria que tinham sido substituídas por livros enormes e desinteressantes que obviamente estavam ali só para disfarçar o vazio. “Que merda!”. Então foi para a praia. Não pensou “que merda” com raiva, até chegou a olhar para o livreiro a fim de dizer que estava ruim, mas desistiu. “Ele deve saber”.
O cara mais interessante da areia tirou os óculos Ray Ban e deu um mergulho enquanto ela se deliciava com o espaço, o calor e o barulho das ondas. Na volta ele pegou uma toalha na sacola ecologicamente correta de supermercado e se deitou de bruços. Ela achou ruim, mas não lamentou. "Ele deve ser gringo".
A amiga voltou da tomografia de seios da face e tirou a roupa depois de tirar da bolsa o mesmo livro que ela estava lendo, e nenhuma das duas queria ver o filme apesar de adorarem cinema. Ficaram uma meia-hora considerando a vida sexual dos outros para concluir que todos mentem, decidiram que a tecnologia era culpada pelo aumento da ansiedade, se espantaram que em 2010 uma mulher não pudesse só querer sexo e desconfiaram da certeza dos que prometem ficar juntos até que a morte os separe. Cogitaram maconha como tranquilizante, mas acabaram se conformando em ver obras de arte. Acordaram que poderiam fazer a comida para o amado exausto, se conseguissem um amado e isso não as deixasse exaustas.
Enquanto o sol se escondia atrás da montanha escurecendo o Leblon, os créditos subiam ao som de Silly Love Songs. Roteiro, direção, figurino, trilha, tudo era assinado por elas, mesmo que às vezes errassem no casting. Eram boas personagens, só não gostavam de tanta reality no show.
18.2.10
Da jardineira
Era o calor que subia do asfalto ou havia uma névoa na avenida. O trombone pesava no velhinho, parceiro de tantos Carnavais. Na banda tocava-se cada um a seu tempo, e aquilo era tudo o que não podia me faltar na vida. As marchinhas estavam no acorde errado, ou era eu.
Os três dias de folia e brincadeira, eu pra cá e você pra lá, era só até quarta-feira. Aquela máscara negra que esconde do rosto a saudade nem saiu do armário, arlequim mal sabia por que chorava. No balancê tantos passavam sem despedaçar um coração, só restavam os mais de mil palhaços, cada qual segurando uma camélia, a sorrir no salão. Se fossem sinceros pulavam? Valsavam.
As cinzas vieram antes. Não posso mais.
Naquela esquina em frente à livraria não se cantou As Pastorinhas. Nem vi a livraria, confete ou serpentina, não ouvi o Abre alas. Eu devia ter puxado que “esse ano, meu bem, está combinado”, mas precisaríamos ter nos falado antes pra você perceber o recado. Então quando notei inventei uma coreografia solo não para revolucionar a festa, mas por não ter par. E a turma toda grita, que no barulho não se ouve nada mesmo - colombina, onde vai você? E ao me ver já estava dando a volta na praça, tamborim de um lado, o surdo a bater, cantando o refrão até o amanhecer: “gentileza é assim, eu cuido de você e você cuida de mim.”
Foi um último gole. Foi bom te ver outra vez, só não posso beijar-te agora. Não me leve a mal. Quero cantar até decorar que esse mundo é todo meu para de novo poder pular o Carnaval.
Lala-iá lala-iá, lala-iá lala-iá, lala-lalala-laiá. Hey!
Os três dias de folia e brincadeira, eu pra cá e você pra lá, era só até quarta-feira. Aquela máscara negra que esconde do rosto a saudade nem saiu do armário, arlequim mal sabia por que chorava. No balancê tantos passavam sem despedaçar um coração, só restavam os mais de mil palhaços, cada qual segurando uma camélia, a sorrir no salão. Se fossem sinceros pulavam? Valsavam.
As cinzas vieram antes. Não posso mais.
Naquela esquina em frente à livraria não se cantou As Pastorinhas. Nem vi a livraria, confete ou serpentina, não ouvi o Abre alas. Eu devia ter puxado que “esse ano, meu bem, está combinado”, mas precisaríamos ter nos falado antes pra você perceber o recado. Então quando notei inventei uma coreografia solo não para revolucionar a festa, mas por não ter par. E a turma toda grita, que no barulho não se ouve nada mesmo - colombina, onde vai você? E ao me ver já estava dando a volta na praça, tamborim de um lado, o surdo a bater, cantando o refrão até o amanhecer: “gentileza é assim, eu cuido de você e você cuida de mim.”
Foi um último gole. Foi bom te ver outra vez, só não posso beijar-te agora. Não me leve a mal. Quero cantar até decorar que esse mundo é todo meu para de novo poder pular o Carnaval.
Lala-iá lala-iá, lala-iá lala-iá, lala-lalala-laiá. Hey!
4.2.10
Quem te viu, quem te vê
"Oi Bruna,
Como se dizia naquele programa humorístico: “Olha o coração do velho!”
Fico muito lisonjeado e emocionado por ter dado uma pequena contribuição ao seu belo texto. É lindo ver que palavras que escrevi sem muito cuidado se transformam em ótimas colocações para sugerir uma conduta de vida. Parabéns. Tenho certeza que você se saiu muito bem na palestra.
Quanto à autorização, os direitos autorais daquele texto são seus. Eu o escrevi para você.
Um beijo,
F."
E eu publiquei aqui, para arrumar as coisas e termos todos um bom Carnaval.
Como se dizia naquele programa humorístico: “Olha o coração do velho!”
Fico muito lisonjeado e emocionado por ter dado uma pequena contribuição ao seu belo texto. É lindo ver que palavras que escrevi sem muito cuidado se transformam em ótimas colocações para sugerir uma conduta de vida. Parabéns. Tenho certeza que você se saiu muito bem na palestra.
Quanto à autorização, os direitos autorais daquele texto são seus. Eu o escrevi para você.
Um beijo,
F."
E eu publiquei aqui, para arrumar as coisas e termos todos um bom Carnaval.
26.1.10
Landing
NATALIE
When I was 16 I thought by 23 I would be married, maybe have a kid… corner office by day, entertaining at night. I was supposed to be driving a Grand Cherokee by now.
ALEX
Life can underwhelm you that way.
NATALIE
Now I have my sights on 29 because 30 is just way too… apocalyptic. I mean where did you think you’d be by…
ALEX
It doesn’t work that way.
RYAN
At a certain point, you stop with the deadlines.
ALEX
They can be a little counterproductive.
(...)
ALEX
You really thought this guy was the one.
NATALIE
I guess. I don’t know. I could have made it work. He just really fit the bill.
RYAN
The bill?
NATALIE
My type. You know. White collar. College grad. Loves dogs. Likes funny movies. Six foot one. Brown hair. Kind eyes. Works in finance, but is outdoorsy, you know on the “weekends.” I always imagined he’d have a single syllable name like Matt or John or… Dave. In a perfect world, he drives a Four Runner and the only thing he loves more than me is his golden lab.
Oh… and a nice smile.
What about you?
ALEX
Well… by the time you’re 34, all the physical requirements are pretty much out the window.
You secretly pray he’ll be taller than you. Not an asshole would be nice. Just someone who enjoys my company. Comes from a good family- you don’t think that when you’re younger. Wants kids… likes kids… wants kids. Healthy enough to play catch with his future son one day. Please let him earn more than I do - that doesn’t make sense now, but believe me, it will one day. Otherwise it’s just a recipe for disaster. Hopefully some hair on his head… but it’s not exactly a deal breaker anymore. Nice smile. Yep. A nice smile just might do it.
NATALIE
Wow. That was depressing.
Up in the air
When I was 16 I thought by 23 I would be married, maybe have a kid… corner office by day, entertaining at night. I was supposed to be driving a Grand Cherokee by now.
ALEX
Life can underwhelm you that way.
NATALIE
Now I have my sights on 29 because 30 is just way too… apocalyptic. I mean where did you think you’d be by…
ALEX
It doesn’t work that way.
RYAN
At a certain point, you stop with the deadlines.
ALEX
They can be a little counterproductive.
(...)
ALEX
You really thought this guy was the one.
NATALIE
I guess. I don’t know. I could have made it work. He just really fit the bill.
RYAN
The bill?
NATALIE
My type. You know. White collar. College grad. Loves dogs. Likes funny movies. Six foot one. Brown hair. Kind eyes. Works in finance, but is outdoorsy, you know on the “weekends.” I always imagined he’d have a single syllable name like Matt or John or… Dave. In a perfect world, he drives a Four Runner and the only thing he loves more than me is his golden lab.
Oh… and a nice smile.
What about you?
ALEX
Well… by the time you’re 34, all the physical requirements are pretty much out the window.
You secretly pray he’ll be taller than you. Not an asshole would be nice. Just someone who enjoys my company. Comes from a good family- you don’t think that when you’re younger. Wants kids… likes kids… wants kids. Healthy enough to play catch with his future son one day. Please let him earn more than I do - that doesn’t make sense now, but believe me, it will one day. Otherwise it’s just a recipe for disaster. Hopefully some hair on his head… but it’s not exactly a deal breaker anymore. Nice smile. Yep. A nice smile just might do it.
NATALIE
Wow. That was depressing.
Up in the air
24.1.10
Lost in translation
Aceito, é difícil ser brilhante todas as vezes. São muitos lançamentos que exigem diversos processos de rotina em uma equipe que não necessariamente está super envolvida com aquilo e um deles, só mais um na lista de coisas a serem feitas, é criar título em português. Se o filme tem nome de gente, danou-se, na melhor das hipóteses acrescentam um complemento explicativo para mongol, mas normalmente avacalham tudo.
Eles mudam os cartazes. Obviamente por trás dessa decisão existe um estudo de marketing provando a necessidade de se adaptar a imagem do filme à cultura local e eu não sei se são criadas varias opções de cartazes ou cada escritório regional tem carta branca para adaptar a seu gosto, mas pessoalmente gostaria de sempre olhar um cartaz aprovado pelo diretor - quem imaginou aponta a figurinha. É dar tiro no meu próprio pé pregar a liberdade artística em prol das decisões executivas visto que parte do meu trabalho consiste em meter o bedelho na obra alheia, mas aqui sou só uma menina sentada na frente de um computador pedindo aos distribuidores de filmes mais atenção.
Não são monstros (inclusive, achei-os fofinhos!). É “onde estão as coisas selvagens”. Não entendeu o tag line? (o slogan do filme) Não entendeu o filme? Como se não bastasse tudo o mais, percebo que tradução também é complicado.
Você pode colocar seres azuis correndo em uma floresta em 3D para pregar o bem, pode filmar a história de um menino abandonado que se torna rei de seres peludos e grandes com medo da solidão, ou simplesmente andar com um cartaz na rua escrito: eu estou te vendo, está tudo bem. É o que as pessoas sentadas naquela sala escura precisam, mesmo as que só vão ao cinema ver Velozes e Furiosos. Mas algumas não vêem tão claramente. Ou vêem e saem correndo (o “monstro” explicou, nem sempre reagimos como queremos).
Encontro-me em uma fase complicada com as palavras, dificuldade de exatidão. Sofrer em inglês é quase mais fácil se você já passou maior número de horas assistindo a produções made in Hollywood do que ficção na TV aberta, porém é preciso um esforço extra por parte dos encarregados na função de encontrar o nome certo para o que está ali. Se você errar a palavra que define a coisa o outro pode não entender, e aí a historia foi em vão. Se é que existem histórias em vão.
Existem em cartaz Where the wild things are e Up in the air. Don’t miss it.
Eles mudam os cartazes. Obviamente por trás dessa decisão existe um estudo de marketing provando a necessidade de se adaptar a imagem do filme à cultura local e eu não sei se são criadas varias opções de cartazes ou cada escritório regional tem carta branca para adaptar a seu gosto, mas pessoalmente gostaria de sempre olhar um cartaz aprovado pelo diretor - quem imaginou aponta a figurinha. É dar tiro no meu próprio pé pregar a liberdade artística em prol das decisões executivas visto que parte do meu trabalho consiste em meter o bedelho na obra alheia, mas aqui sou só uma menina sentada na frente de um computador pedindo aos distribuidores de filmes mais atenção.
Não são monstros (inclusive, achei-os fofinhos!). É “onde estão as coisas selvagens”. Não entendeu o tag line? (o slogan do filme) Não entendeu o filme? Como se não bastasse tudo o mais, percebo que tradução também é complicado.
Você pode colocar seres azuis correndo em uma floresta em 3D para pregar o bem, pode filmar a história de um menino abandonado que se torna rei de seres peludos e grandes com medo da solidão, ou simplesmente andar com um cartaz na rua escrito: eu estou te vendo, está tudo bem. É o que as pessoas sentadas naquela sala escura precisam, mesmo as que só vão ao cinema ver Velozes e Furiosos. Mas algumas não vêem tão claramente. Ou vêem e saem correndo (o “monstro” explicou, nem sempre reagimos como queremos).
Encontro-me em uma fase complicada com as palavras, dificuldade de exatidão. Sofrer em inglês é quase mais fácil se você já passou maior número de horas assistindo a produções made in Hollywood do que ficção na TV aberta, porém é preciso um esforço extra por parte dos encarregados na função de encontrar o nome certo para o que está ali. Se você errar a palavra que define a coisa o outro pode não entender, e aí a historia foi em vão. Se é que existem histórias em vão.
Existem em cartaz Where the wild things are e Up in the air. Don’t miss it.
13.1.10
Receita para tempos bons
Para se ter um bom ano é preciso Carnaval. E poesia. É preciso barraca de praia, biquíni novo e Sundown. É preciso uma mesa de bar com amigos, histórias inacreditáveis de se ouvir, e questões.
Para se ter um bom ano é aconselhável dois Ipods, se roubarem um ainda sobra outro. (Para se ter uma boa cidade seria preciso menos violência, mas para acreditar nisso seria preciso algo que já perdi). Para se ter um bom ano é preciso internet rápida para baixar músicas novas e pessoas velhas que conhecem músicas. É preciso que alguém veja o que eu vi, por mais surreal que pareça. E que alguém se lembre do pedaço da noite que esquecemos (mas como assim)?
O ano melhora com um mergulho, piscina, mar ou a cachoeira se você encontrar. Um bom ano tem noites em que uma cama menor bastaria praquelas duas pessoas, é mais fácil com muitas pessoas mesmo que só exista uma, mais carinhoso com cachorro abanando o rabo mesmo que não seja seu e mais garantido com algum trocado. É preciso vento.
Para se ter um bom ano é preciso bons livros, filmes e séries, alguma comida, e pedaços de morango com chocolate. É preciso um entorpecente qualquer, alguém que chegue perto e te bote tonta, que venha dançar assim pertinho e você pense que seria prudente sair. É preciso imprudência, imaturidade e um tiquinho de irresponsabilidade. Para se ter um bom ano é preciso dormir no sofá.
Um bom ano melhora com torcida, na arquibancada ou na cadeira. É bom um ano com Copa do Mundo. É inútil um ano sem beijo. Para se ter um bom ano é preciso ver o sol nascer, o sol se por e tomar chuva. É preciso cantar. Dançar. Surpresa. É preciso chorar, aprender o nome de uma flor diferente e usar uma roupa linda.
É bom que tenha avião, que se faça malas e planos e roteiros de viagem. É fundamental viajar, mesmo que sem tirar os pés do chão. É preciso tirar os pés do chão mesmo que em quadrilha de festa junina e é preciso fantasia, o ano inteiro. É preciso que se libere o Matte de galão e batucar na mesa, liberar ajuda.
Para se ter um bom ano, é preciso Vinicius: a vida só se dá pra quem se deu. É preciso tentar.
Para se ter um bom ano é aconselhável dois Ipods, se roubarem um ainda sobra outro. (Para se ter uma boa cidade seria preciso menos violência, mas para acreditar nisso seria preciso algo que já perdi). Para se ter um bom ano é preciso internet rápida para baixar músicas novas e pessoas velhas que conhecem músicas. É preciso que alguém veja o que eu vi, por mais surreal que pareça. E que alguém se lembre do pedaço da noite que esquecemos (mas como assim)?
O ano melhora com um mergulho, piscina, mar ou a cachoeira se você encontrar. Um bom ano tem noites em que uma cama menor bastaria praquelas duas pessoas, é mais fácil com muitas pessoas mesmo que só exista uma, mais carinhoso com cachorro abanando o rabo mesmo que não seja seu e mais garantido com algum trocado. É preciso vento.
Para se ter um bom ano é preciso bons livros, filmes e séries, alguma comida, e pedaços de morango com chocolate. É preciso um entorpecente qualquer, alguém que chegue perto e te bote tonta, que venha dançar assim pertinho e você pense que seria prudente sair. É preciso imprudência, imaturidade e um tiquinho de irresponsabilidade. Para se ter um bom ano é preciso dormir no sofá.
Um bom ano melhora com torcida, na arquibancada ou na cadeira. É bom um ano com Copa do Mundo. É inútil um ano sem beijo. Para se ter um bom ano é preciso ver o sol nascer, o sol se por e tomar chuva. É preciso cantar. Dançar. Surpresa. É preciso chorar, aprender o nome de uma flor diferente e usar uma roupa linda.
É bom que tenha avião, que se faça malas e planos e roteiros de viagem. É fundamental viajar, mesmo que sem tirar os pés do chão. É preciso tirar os pés do chão mesmo que em quadrilha de festa junina e é preciso fantasia, o ano inteiro. É preciso que se libere o Matte de galão e batucar na mesa, liberar ajuda.
Para se ter um bom ano, é preciso Vinicius: a vida só se dá pra quem se deu. É preciso tentar.
4.1.10
Gentle people with flowers in their hair
Fui chamada no meio da noite, o prefeito batia à minha porta. Não sei se mais pelos efeitos dos remédios para dormir, pela hora ou pelo inesperado, estava completamente zonza, eram tantos oficiais do Choque de Ordem que mal cabiam na minha pequena sala. Queriam me levar para a praia antes que amanhecesse. Tenho levantado a hipótese da cidade não poder sediar eventos internacionais, me enfureço com a proibição do Matte de galão na orla e não dos flanelinhas, mas a razão da urgência não era censura: dezenas de leões-marinhos ocupavam as águas do Leblon.
Era a terceira vez no repeat, volume máximo. Estava com essa mania de ouvir música aos berros para que me desligasse das baboseiras cuspidas, dos meus pensamentos, tinha que ser mais alto. Fosse mais alto talvez eu berrasse e se berrasse no meio do escritório talvez fosse internada, ou libertasse aquelas almas excelianas que lutam pelo nada. Na ida, a cada relógio-termômetro a taquicardia aumentava e com ela o calor e aquele engarrafamento de idéias e palavrões e era apenas uma manhã qualquer de uma vida, existia a promessa de um verão inteiro pela frente e a visão de um mar lindo à direita e nada parecia suficiente, pior, tudo parecia motivo óbvio para que aquele tradicional trajeto fosse interrompido e coisas absolutamente sem sentido fossem feitas porque nenhum sentido mais havia em chegar onde eu estava indo. Não era mais try a little harder, era parar. No mais barato dos clichês, deixar a vela panejando porque não existe pressa e à noite no mar ecoam os versos de que o céu de Icaro tem mais poesia que o de Galileu.
Peguei um avião, “tira umas férias!”. Exausta, me vi ali sentada, caveiras e monstros correndo felizes pelo Pier 39 no sábado pré-Halloween, olhos ardendo por causa do fedor que os cartões postais não mostram, hipnotizada por leões-marinhos que se derrubavam uns aos outros por um cantinho no sol. Hilário. Eles são bem parecidos com focas e tão gordos! São da família das “otters”? “Otters” são tão bonitinhas, quando pensava em lontra imaginava uma coisa meio capivara. Eu queria ter uma lontra. Não tomei nenhuma grande decisão nas tardes ali sentada, não refleti sobre minhas angústias, fiquei parada automaticamente respirando e achando graça dos gorduchos barulhentos. Me afeiçoei a eles.
A visão na praia era linda. A Niemeyer amanhecendo, eu e o prefeito, milhares de leões marinhos. Vieram me dar um abraço. Acho que choramos um pouco, mostrei o Arpoador, pegamos uns jacarés e eles partiram. O prefeito se acalmou, nos jornais cariocas não foi publicada uma linha, só uma nota sobre os folclóricos leões-marinhos terem desaparecido de San Francisco.
Às vezes tudo o que precisamos é de amigos que acreditem em nós.
Be a good boy
Push a little farther now
That wasn't fast enough to make us happy
We'll love you just the way you are
if you're perfect
Era a terceira vez no repeat, volume máximo. Estava com essa mania de ouvir música aos berros para que me desligasse das baboseiras cuspidas, dos meus pensamentos, tinha que ser mais alto. Fosse mais alto talvez eu berrasse e se berrasse no meio do escritório talvez fosse internada, ou libertasse aquelas almas excelianas que lutam pelo nada. Na ida, a cada relógio-termômetro a taquicardia aumentava e com ela o calor e aquele engarrafamento de idéias e palavrões e era apenas uma manhã qualquer de uma vida, existia a promessa de um verão inteiro pela frente e a visão de um mar lindo à direita e nada parecia suficiente, pior, tudo parecia motivo óbvio para que aquele tradicional trajeto fosse interrompido e coisas absolutamente sem sentido fossem feitas porque nenhum sentido mais havia em chegar onde eu estava indo. Não era mais try a little harder, era parar. No mais barato dos clichês, deixar a vela panejando porque não existe pressa e à noite no mar ecoam os versos de que o céu de Icaro tem mais poesia que o de Galileu.
Peguei um avião, “tira umas férias!”. Exausta, me vi ali sentada, caveiras e monstros correndo felizes pelo Pier 39 no sábado pré-Halloween, olhos ardendo por causa do fedor que os cartões postais não mostram, hipnotizada por leões-marinhos que se derrubavam uns aos outros por um cantinho no sol. Hilário. Eles são bem parecidos com focas e tão gordos! São da família das “otters”? “Otters” são tão bonitinhas, quando pensava em lontra imaginava uma coisa meio capivara. Eu queria ter uma lontra. Não tomei nenhuma grande decisão nas tardes ali sentada, não refleti sobre minhas angústias, fiquei parada automaticamente respirando e achando graça dos gorduchos barulhentos. Me afeiçoei a eles.
A visão na praia era linda. A Niemeyer amanhecendo, eu e o prefeito, milhares de leões marinhos. Vieram me dar um abraço. Acho que choramos um pouco, mostrei o Arpoador, pegamos uns jacarés e eles partiram. O prefeito se acalmou, nos jornais cariocas não foi publicada uma linha, só uma nota sobre os folclóricos leões-marinhos terem desaparecido de San Francisco.
Às vezes tudo o que precisamos é de amigos que acreditem em nós.
Be a good boy
Push a little farther now
That wasn't fast enough to make us happy
We'll love you just the way you are
if you're perfect
31.12.09
The October issue
Tínhamos acabado nos conhecer, Catarina e eu, e almoçávamos em Napa, quatro taças mais leve – três e meia, que do Zinfandel não gostei. Ainda ríamos do simpático responsável pela vinícola que defendia a idéia de que uma garrafa de vinho aberta deveria ser consumida naquela mesma noite, no máximo duas depois, e quem não é capaz de fazer isso que beba Bud Light. Foi logo após essa lição que Catarina veio ver minhas anotações: “você está estudando vinhos?” De certa forma sim, mas na verdade só entendo o que escrevo então à medida que nosso guia ia falando eu ia anotando – e bebendo.
Então eu era brasileira, férias na Califórnia, e ela, o que fazia? “Nada. Vou morar na Toscana.”
Saímos andando até a área permitida para cigarros, onde estava Patrycia. Em Wine County se pode beber dentro dos lugares e fumar fora deles, jamais os dois juntos. Patrycia também não fumava, mas ali estava para conversar. Havia tirado três meses dos seus oitenta anos para dar uma voltinha, gostou muito de Salvador e Havana, aquela era a última parada antes de retornar a Sidney, Austrália. Com um inglês enrolado nos contou que viajar era o passatempo preferido dela e do marido, falecido oito meses antes. Passado o luto ela manteve o hábito, é o que gosta de fazer. Agora ia sozinha com seu casaco de nylon branco e cabelos no mesmo tom.
Catarina se mudaria para a Toscana com o namorado. A filha estava criada tentando superar a crise econômica na Flórida, nasceu quando ela tinha vinte e poucos anos e trocou a idéia de trabalhar na ONU por uma paixão mexicana. A nova paixão era do ramo de turismo e quicava pelo globo, quanto tempo mais ela se prenderia a estafantes reuniões de apresentação de resultados e análise de riscos em multinacionais? “Descobri que mais da metade do meu dia eu passava resolvendo problemas que para mim não representavam ameaça alguma. E que a Toscana é extremamente agradável”.
A nova cidadã italiana terminou seu cigarro, passamos em mais alguns oásis de Baco e voltamos a San Francisco. Ao descer do ônibus, Patrycia se despediu: “girls, stay safe.”
À noite achei, jogada dentro da mochila, a bateria da câmera que pensei ter deixado no hotel. Não tenho uma só foto dos intermináveis vinhedos e suas rosas! Alguns momentos são irretratáveis e inesquecíveis. Preste atenção.
You too, Patrycia.
Então eu era brasileira, férias na Califórnia, e ela, o que fazia? “Nada. Vou morar na Toscana.”
Saímos andando até a área permitida para cigarros, onde estava Patrycia. Em Wine County se pode beber dentro dos lugares e fumar fora deles, jamais os dois juntos. Patrycia também não fumava, mas ali estava para conversar. Havia tirado três meses dos seus oitenta anos para dar uma voltinha, gostou muito de Salvador e Havana, aquela era a última parada antes de retornar a Sidney, Austrália. Com um inglês enrolado nos contou que viajar era o passatempo preferido dela e do marido, falecido oito meses antes. Passado o luto ela manteve o hábito, é o que gosta de fazer. Agora ia sozinha com seu casaco de nylon branco e cabelos no mesmo tom.
Catarina se mudaria para a Toscana com o namorado. A filha estava criada tentando superar a crise econômica na Flórida, nasceu quando ela tinha vinte e poucos anos e trocou a idéia de trabalhar na ONU por uma paixão mexicana. A nova paixão era do ramo de turismo e quicava pelo globo, quanto tempo mais ela se prenderia a estafantes reuniões de apresentação de resultados e análise de riscos em multinacionais? “Descobri que mais da metade do meu dia eu passava resolvendo problemas que para mim não representavam ameaça alguma. E que a Toscana é extremamente agradável”.
A nova cidadã italiana terminou seu cigarro, passamos em mais alguns oásis de Baco e voltamos a San Francisco. Ao descer do ônibus, Patrycia se despediu: “girls, stay safe.”
À noite achei, jogada dentro da mochila, a bateria da câmera que pensei ter deixado no hotel. Não tenho uma só foto dos intermináveis vinhedos e suas rosas! Alguns momentos são irretratáveis e inesquecíveis. Preste atenção.
You too, Patrycia.
23.12.09
21.12.09
17.12.09
Laughing all the way
Você descobre que é hora de acabar o ano quando passageiros de um avião se rebelam e começam a berrar com os comissários porque a neblina impediu o pouso em São Paulo. Vindos de Londres, os viajantes não queriam descer no Rio de Janeiro: “vamos nos assustar com aqueles presépios! Toca pra Viracopos!”. Semanas antes, no dia da final do Brasileirão, Herbert Vianna assumiu o microfone da aeronave na qual voava e puxou à capela o hino do Flamengo, transformando a ponte aérea em uma jam session. Dezembro estressa.
No mais perfeito clima Al Gore falou, Al Gore avisou, a estufa carioca não tem mais sol, uma lama provocada pelas chuvas semanais cobre os caminhos por onde Madonna pisou e o choque de ordem previsto para as praias faz aumentar o preço das cadeiras que não estão sendo usadas. As garotas de Ipanema não tem marca de biquíni (ou essa garota cresceu e trocou as areias nubladas por um escritório com ar condicionado quebrado?).
A década vai acabando e só me dou conta de que o bug do milênio é passado distante quando a playlist que mais anima as festas tem o nome de “músicas anos 90”, nostalgia indicadora de que aqueles adultos viveram bem suas adolescências. Correm na web listas de retrospectiva, “os dez mais de qualquer tema”, e nem sei se o Cold Play é coisa de agora ou tempos remotos, aqueles onde líamos jornais em papel. É melhor parar o texto por aqui, resistir à pressão de refletir e avaliar e planejar – depois do dia 31 vem o dia 1 como em qualquer outro mês.
Ao contrario do que diz um estudo de saúde pública da Austrália, Papai Noel não precisa perder peso nem trocar o trenó por bicicletas para servir de exemplo para as crianças. Deixem o velhuxo beber sua Coca-Cola, delegar as funções aos duendes e continuar com o olhar condescendente que só alcança quem já chutou o balde. Ele tem um sorriso feliz.
Tente se manter são nesse Natal.
No mais perfeito clima Al Gore falou, Al Gore avisou, a estufa carioca não tem mais sol, uma lama provocada pelas chuvas semanais cobre os caminhos por onde Madonna pisou e o choque de ordem previsto para as praias faz aumentar o preço das cadeiras que não estão sendo usadas. As garotas de Ipanema não tem marca de biquíni (ou essa garota cresceu e trocou as areias nubladas por um escritório com ar condicionado quebrado?).
A década vai acabando e só me dou conta de que o bug do milênio é passado distante quando a playlist que mais anima as festas tem o nome de “músicas anos 90”, nostalgia indicadora de que aqueles adultos viveram bem suas adolescências. Correm na web listas de retrospectiva, “os dez mais de qualquer tema”, e nem sei se o Cold Play é coisa de agora ou tempos remotos, aqueles onde líamos jornais em papel. É melhor parar o texto por aqui, resistir à pressão de refletir e avaliar e planejar – depois do dia 31 vem o dia 1 como em qualquer outro mês.
Ao contrario do que diz um estudo de saúde pública da Austrália, Papai Noel não precisa perder peso nem trocar o trenó por bicicletas para servir de exemplo para as crianças. Deixem o velhuxo beber sua Coca-Cola, delegar as funções aos duendes e continuar com o olhar condescendente que só alcança quem já chutou o balde. Ele tem um sorriso feliz.
Tente se manter são nesse Natal.
15.12.09
Capítulo 4
Todos os dias, às vezes pela manhã, ou entre uma coisa e outra, algumas logo antes de adormecer, lembrava-se dele. Contasse para diferentes pessoas sobre espontânea rotina perceberia reações diversas - os poetas sorririam, psiquiatras receitariam, ele a abraçaria com carinho.
Ali do alto, procurando por de cima da nuvem, desconfiou que talvez ele não existisse - fosse construção de lembranças dele com delírios dela, contos de fada, finais felizes e sobrancelhas arqueadas num suspiro. Queria tanto. Mas entre o tanto e o mesmo havia uma névoa, emaranhado de fios intransponíveis.
Como tinha tempo, puxou uma pontinha. Continuou puxando. E enquanto cantava percebeu que estava desembaraçando, precisava colocar aquela fiarada em algum lugar, e enquanto desembaraçava percebeu que estava cantando. Ficou estupefata. Se conseguisse guardar um punhado daquela sensação em um potinho seria o suficiente para ter fôlego e descer. Se soubesse o que fazer com a fiarada poderia tentar.
Começava a acreditar que na história da cigarra e da formiga uma tinha casa para o inverno, mas a outra tinha histórias de verão.
Ali do alto, procurando por de cima da nuvem, desconfiou que talvez ele não existisse - fosse construção de lembranças dele com delírios dela, contos de fada, finais felizes e sobrancelhas arqueadas num suspiro. Queria tanto. Mas entre o tanto e o mesmo havia uma névoa, emaranhado de fios intransponíveis.
Como tinha tempo, puxou uma pontinha. Continuou puxando. E enquanto cantava percebeu que estava desembaraçando, precisava colocar aquela fiarada em algum lugar, e enquanto desembaraçava percebeu que estava cantando. Ficou estupefata. Se conseguisse guardar um punhado daquela sensação em um potinho seria o suficiente para ter fôlego e descer. Se soubesse o que fazer com a fiarada poderia tentar.
Começava a acreditar que na história da cigarra e da formiga uma tinha casa para o inverno, mas a outra tinha histórias de verão.
6.12.09
25.11.09
Capítulo 3
“Não quero torturá-lo e menos ainda aborrecê-lo, mas se acaso em um dia desses você descobrir que me quer mais perto do que tem hoje, por favor não deixe de me procurar. Caso isso aconteça daqui a cinqüenta anos não se preocupe com a minha beleza, a vida terá trocado, com nós dois, ela por serenidade.”
Vista de longe a carta parecia... bem, a carta parecia um telegrama, e quase o era. Telegramas remetem a urgências e aquela definitivamente era uma. Ações impetuosas são de extrema urgência no coração escalpelado do ator e aquilo deveria ficar claro. Debatia-se dentro de si um terror de desperdiçar qualquer chance do amor acontecer, mesmo quando ela desconfiava que o sentimento não passaria num desses testes de ourives para confirmar a pureza. Costumava colocar em um gráfico amor e carência para avaliar o desenho, como se preciso fosse.
Também estava consciente de que o tempo, sempre ele, poderia interferir no desfecho. Ela não tinha como garantir ao rapaz daqui a cinquenta anos resposta diferente da que vinha recebendo nos últimos porque todas as promessas de amor tem prazo de validade, mas ainda assim não gostaria de deixar escapar nenhuma possibilidade de ser feliz por falta de comunicação.
Vista de longe a carta parecia... bem, a carta parecia um telegrama, e quase o era. Telegramas remetem a urgências e aquela definitivamente era uma. Ações impetuosas são de extrema urgência no coração escalpelado do ator e aquilo deveria ficar claro. Debatia-se dentro de si um terror de desperdiçar qualquer chance do amor acontecer, mesmo quando ela desconfiava que o sentimento não passaria num desses testes de ourives para confirmar a pureza. Costumava colocar em um gráfico amor e carência para avaliar o desenho, como se preciso fosse.
Também estava consciente de que o tempo, sempre ele, poderia interferir no desfecho. Ela não tinha como garantir ao rapaz daqui a cinquenta anos resposta diferente da que vinha recebendo nos últimos porque todas as promessas de amor tem prazo de validade, mas ainda assim não gostaria de deixar escapar nenhuma possibilidade de ser feliz por falta de comunicação.
19.11.09
Primavera
“A maioria dos dias do ano são indiferentes. Eles começam e eles terminam, sem nenhuma grande lembrança para marcar. A maioria dos dias não tem nenhum impacto sobre o curso de uma vida. 23 de maio foi uma quarta-feira."
Anos depois ela estava novamente escrevendo sobre filmes. Não porque aquele fosse sensacional, era uma bobagem - como todos os nossos tropeços. Mas ele disse que a história era triste.
(arte de relógio digital volta 4710 dias)
O Uno Mille não subia a ladeira do Fashion Mall. Subiria, se ela soubesse soltar com o pé esquerdo a embreagem à medida em que pressionasse com o direito o acelerador e no meio dessa manobra minimamente calculada o infeliz da frente não parasse o carro, pondo tudo a perder. “Eu nunca vou conseguir fazer isso”. E outros motoristas até cantavam enquanto passavam a primeira, segunda, terceira, reduziam da quinta para a quarta, “é automático!”. “Eu nunca vou conseguir fazer isso”. Esgotada na poltrona, vivia a retomada do cinema nacional em épocas pré-lei seca e arrastão no túnel assistindo à Andrea Beltrão e Daniel Dantas desfilarem o alfabeto em uma tórrida paixão. Não bastasse o desgaste no estacionamento, tudo flutuava na tela até que o casal termina. E não volta no final! Se cruzaram na praia como dois conhecidos, mãos dadas com novas pessoas que – quem são aqueles? Você amava aquela mulher! De quem é esse filho? Filme brasileiro é uma droga.
(arte de relógio digital anda 4710 dias para frente)
Se ela concordasse que o filme é triste atestaria não ter aprendido nada com os tantos perturbados e descrentes que a deixaram por incapacidade de se comprometer, os tais que sempre voltam ao parque para lhe dizer o quanto ela é especial. Os tais de aliança no dedo e medo nenhum, dúvida nenhuma, questão resolvida, pós-ela. Os que gostavam, mas faltava alguma coisa, que na melhor das hipóteses buscam justificativa para remover a ponta de culpa que nem existe, ou desejam tudo de bom ainda estupefatos com a nova rotação da Terra depois do encontro certo, o que pôs tudo nos eixos. Ou o que tirou todas as certezas e preconceitos do lugar como que por mágica. Os que passam de mãos dadas na praia.
Se a mocinha não estivesse lendo Dorian Grey na deli, se tivesse ido ao cinema, se estivesse de mau humor na hora em que o outro entrou, continuaria acreditando mais em Papai Noel do que no amor. E ele... Se Summer não tivesse gostado tanto, mas achado que faltava alguma coisa, estaria de mau humor em outra hora em qualquer deli lendo Dorian Grey. Se ela realmente acreditasse menos no "algo a mais" do que em Papai Noel nem teria visto outras pessoas na deli. E ele...
Salvo masoquistas, adeptos do auto-flagelo, quem, ó céus, escolheria passar por tudo de novo, permitiria que tamanho mal o acometesse? Ele. É uma opção? Pode ser esse o grande castigo por Eva ter mordido a bendita maçã: padecereis de taquicardia por toda a eternidade ainda que pregue pelos quatro cantos a debilidade da paixão. Ou o mal foi a causa – o que essa moça tinha na cabeça? Adão. E um creme da Lanza que prometia deixar os cabelos mais sedosos e sedutores, logo ela que achava isso submissão. E ele vai passar por tudo de novo, e o pior: não há garantia alguma de que um dia vá achar que é isso e ser isso.
Vai ver ele acha que 500 dias são melhor que nada. Senão são só dias. Senão não tem filme, e é um depois do outro que faz com que ela aprenda a subir ladeira. Uns quatro mil depois, até cantando.
Anos depois ela estava novamente escrevendo sobre filmes. Não porque aquele fosse sensacional, era uma bobagem - como todos os nossos tropeços. Mas ele disse que a história era triste.
(arte de relógio digital volta 4710 dias)
O Uno Mille não subia a ladeira do Fashion Mall. Subiria, se ela soubesse soltar com o pé esquerdo a embreagem à medida em que pressionasse com o direito o acelerador e no meio dessa manobra minimamente calculada o infeliz da frente não parasse o carro, pondo tudo a perder. “Eu nunca vou conseguir fazer isso”. E outros motoristas até cantavam enquanto passavam a primeira, segunda, terceira, reduziam da quinta para a quarta, “é automático!”. “Eu nunca vou conseguir fazer isso”. Esgotada na poltrona, vivia a retomada do cinema nacional em épocas pré-lei seca e arrastão no túnel assistindo à Andrea Beltrão e Daniel Dantas desfilarem o alfabeto em uma tórrida paixão. Não bastasse o desgaste no estacionamento, tudo flutuava na tela até que o casal termina. E não volta no final! Se cruzaram na praia como dois conhecidos, mãos dadas com novas pessoas que – quem são aqueles? Você amava aquela mulher! De quem é esse filho? Filme brasileiro é uma droga.
(arte de relógio digital anda 4710 dias para frente)
Se ela concordasse que o filme é triste atestaria não ter aprendido nada com os tantos perturbados e descrentes que a deixaram por incapacidade de se comprometer, os tais que sempre voltam ao parque para lhe dizer o quanto ela é especial. Os tais de aliança no dedo e medo nenhum, dúvida nenhuma, questão resolvida, pós-ela. Os que gostavam, mas faltava alguma coisa, que na melhor das hipóteses buscam justificativa para remover a ponta de culpa que nem existe, ou desejam tudo de bom ainda estupefatos com a nova rotação da Terra depois do encontro certo, o que pôs tudo nos eixos. Ou o que tirou todas as certezas e preconceitos do lugar como que por mágica. Os que passam de mãos dadas na praia.
Se a mocinha não estivesse lendo Dorian Grey na deli, se tivesse ido ao cinema, se estivesse de mau humor na hora em que o outro entrou, continuaria acreditando mais em Papai Noel do que no amor. E ele... Se Summer não tivesse gostado tanto, mas achado que faltava alguma coisa, estaria de mau humor em outra hora em qualquer deli lendo Dorian Grey. Se ela realmente acreditasse menos no "algo a mais" do que em Papai Noel nem teria visto outras pessoas na deli. E ele...
Salvo masoquistas, adeptos do auto-flagelo, quem, ó céus, escolheria passar por tudo de novo, permitiria que tamanho mal o acometesse? Ele. É uma opção? Pode ser esse o grande castigo por Eva ter mordido a bendita maçã: padecereis de taquicardia por toda a eternidade ainda que pregue pelos quatro cantos a debilidade da paixão. Ou o mal foi a causa – o que essa moça tinha na cabeça? Adão. E um creme da Lanza que prometia deixar os cabelos mais sedosos e sedutores, logo ela que achava isso submissão. E ele vai passar por tudo de novo, e o pior: não há garantia alguma de que um dia vá achar que é isso e ser isso.
Vai ver ele acha que 500 dias são melhor que nada. Senão são só dias. Senão não tem filme, e é um depois do outro que faz com que ela aprenda a subir ladeira. Uns quatro mil depois, até cantando.
15.11.09
Capítulo 2
Tinha vontades – uma caixa de Caran d’Ache, relógio Cuco, sanduíche de carne assada no pão de forma, sino. Vestia uma calça de moletom, considerava calças de moletom sinônimo de conforto como pantufas (ninguém tem pressa de pantufas) e tinha acima de tudo vontade de não ter pressa. Para não ter pressa tinha vontade de ter tempo, e desde que começou a prestar atenção nos que exclamavam como era possível já ser novembro considerou ser tempo substantivo masculino subjetivo. Era novembro porque acontecera outubro, e antes setembro e agosto e assim o contrário de sucessivamente e só causa desconfiança essa contagem em quem não esteve ali, o que acontece com bem mais freqüência do que dizem os cartões de ponto das indústrias fedorentas. Antes ela própria não estava, e quando esteve estava tudo tão estranho que escolheu se sentar na nuvem.
De lá viu o cantor cantando na beira do palco. Ele também estava sentado quando engasgou com as palavras e num soluço a lembrou do tanto de amor que há. Alguém no palco tem uma platéia e um disco e curumins e um amor e canta, e ela sentiu vontade de cantar. Juntou à caixa de Caran d’Ache, ao relógio Cuco, sanduíche de carne assada no pão de forma e ao sino mais essa, sem saber se era também lembrança boa ou promessa de felicidade possível. Pensou se essa seria uma vontade-chave, e deu-se conta de que chaves na língua portuguesa abrem portas.
De lá viu o cantor cantando na beira do palco. Ele também estava sentado quando engasgou com as palavras e num soluço a lembrou do tanto de amor que há. Alguém no palco tem uma platéia e um disco e curumins e um amor e canta, e ela sentiu vontade de cantar. Juntou à caixa de Caran d’Ache, ao relógio Cuco, sanduíche de carne assada no pão de forma e ao sino mais essa, sem saber se era também lembrança boa ou promessa de felicidade possível. Pensou se essa seria uma vontade-chave, e deu-se conta de que chaves na língua portuguesa abrem portas.
13.11.09
Agora eu já sei
"Restaram pela casa três corpos a serem recolhidos em cena que lembrava o dia seguinte de uma chacina. Estavam ali, jogados no chão faltando só aquela marca em volta do defunto, duas baratas e um besouro. Ela, de galochas, com as mãos em luvas, armada de pá de lixo e vassoura, rezava para nenhum morto ressuscitar. Besouros são legais se comparados a baratas, as cascudas cheias de patas não são tão terríveis quanto lagartixas, catar aquilo seria melhor do que desentupir ralos e um parágrafo desses só poderia descrever punições."
E só poderá ser lido no Tribuneiros.com
E só poderá ser lido no Tribuneiros.com
6.11.09
Capítulo 1
Depois de selar a carta à moda antiga, não usando a língua e sim aquela cola de pincel que ainda existe nos Correios, entregou ao atendente e pediu licença. Não licença ao atendente, que para sair dos Correios basta atravessar a porta, mas à vida mesmo. Ficaria ali no alto por um tempo. É um lugar entre a terra e o céu, como se estivesse sentada em uma nuvem, sabe? Uma pausa. Você pode pensar que ficar sentada por muito tempo dói a coluna como nos vôos muito longos onde não se dorme, mas nesse caso isso não acontece, e não sei por quê. Precisava de tempo, e não esse dos casais sem coragem ou com muita dor no coração, mas o dos cansados, daqueles que não sabem em que direção seguir. Já tinha passado por maus bocados antes, e bota maus nisso! Os atuais nem eram assim tão ruins, havia solução, qualquer um apontaria uma dezena delas, mas as instruções não funcionavam, inicializar não lhe parecia palavra em português, faltava até metáfora para ilustrar, e a pausa prescindia de razões, explicações, desculpas, respostas confortáveis para os ouvidos dos que perguntavam. Foi por isso que puxou-se pela gola e lá em cima se sentou.
9.10.09
Passagem
"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida*."
Participe do programa de milhagens do Tribuneiros.com. O primeiro com a garantia de vôos turbulentos, além da certeza da chegada.
*Drummond
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida*."
Participe do programa de milhagens do Tribuneiros.com. O primeiro com a garantia de vôos turbulentos, além da certeza da chegada.
*Drummond
5.10.09
27.9.09
Carta a J.
Chérie,
Não consegui responder de imediato, sua carta ficou me incomodando. Na verdade eu nem precisaria responder porque não foi endereçada a mim, mas você deixou espalhada então li, foi irresistível.
Nem sei direito se me lembro bem das palavras porque tem sido tantas coisas que... tão inúteis. Eu deveria me lembrar de cor e repetir até esclarecer aqui dentro, mas... tanta perda de tempo. E enquanto isso meu caderno está ali, em branco, dizendo que não sou obrigada a dizer nada: se não sei, posso calar-me. Já há besteiras demais no mundo, agora ainda incessantemente propagandeadas pela internet. As coisas têm feito barulho demais? Isso deve ser o segundo sinal da velhice, precisa ver como minhas pernas doem.
Não tenho entendido as aulas, sei que são discutidos assuntos fabulosos, prendo os olhos no professor a cada vez que pronuncia Matisse, é em vão. Desconfio que falavam na língua do pê ontem só para me provocar, tudo o que consegui fazer foi retirar-me e usar dos limpadores de para-brisas e lenços do porta-luvas para chegar até em casa consciente de que minha presença física ali não evitava minha ausência. Estou completamente exausta, não sei se mais cansada por ser quarta-feira ou por tanta precaução. Arrisco o segundo, sinto-me existencialistamente esgotada e isso é o máximo de beleza que eu enxergaria em algum lugar. O meu caso requer um reprocessamento cerebral.
Já o seu caso, minha querida, ah... As coisas são repetitivas sim, você é que não é. É tão bom deixar pra trás o que já não é mais, recomendo veementemente. Meu único medo em relação a isso é não ter fôlego para convencer os outros, eles lhe parecem muito acomodados onde estão? Vontade que tenho de sacudir pessoas, mas por que desejar a elas o incômodo que me assombra? Felizes os outros, na sala de jantar. Os outros não se tornam, eles sempre foram. O que acontece quando nos tornamos o que queríamos ser? Adoraria culpá-los, gritar com eles, expulsá-los daqui! Seguiria com tudo que joguei em cima deles berrando para o espelho. Se eu fosse burra nem perceberia, droga.
Vi que ele respondeu a sua carta e meu conselho de leitora intrusa é que você dê atenção às palavras dele – poder constatar que não mais ou não agora é um crescimento, não tivesse você vivido até aqui não teria discernimento para apreciar ou rejeitar o que lhe é oferecido, mesmo que tenha sangrentamente lutado por aquilo. Só alcançando somos capazes de não querer mais, sem birra ou ansiedade juvenil.
Calma, em breve voltaremos à mesa lotada. Nos juntaremos ao resto na pista de dança e de longe nem dará pra perceber que não estivemos ali o tempo todo. Por ora ficarei por aqui, estas poucas linhas já me causam dúvidas e só não as amasso porque me ajudaram a localizar o norte de novo. Nós estamos mesmo sozinhos. Eu só queria alguém que dissesse “estou aqui”. E sorrisse.
A tout a l'heure.
Não consegui responder de imediato, sua carta ficou me incomodando. Na verdade eu nem precisaria responder porque não foi endereçada a mim, mas você deixou espalhada então li, foi irresistível.
Nem sei direito se me lembro bem das palavras porque tem sido tantas coisas que... tão inúteis. Eu deveria me lembrar de cor e repetir até esclarecer aqui dentro, mas... tanta perda de tempo. E enquanto isso meu caderno está ali, em branco, dizendo que não sou obrigada a dizer nada: se não sei, posso calar-me. Já há besteiras demais no mundo, agora ainda incessantemente propagandeadas pela internet. As coisas têm feito barulho demais? Isso deve ser o segundo sinal da velhice, precisa ver como minhas pernas doem.
Não tenho entendido as aulas, sei que são discutidos assuntos fabulosos, prendo os olhos no professor a cada vez que pronuncia Matisse, é em vão. Desconfio que falavam na língua do pê ontem só para me provocar, tudo o que consegui fazer foi retirar-me e usar dos limpadores de para-brisas e lenços do porta-luvas para chegar até em casa consciente de que minha presença física ali não evitava minha ausência. Estou completamente exausta, não sei se mais cansada por ser quarta-feira ou por tanta precaução. Arrisco o segundo, sinto-me existencialistamente esgotada e isso é o máximo de beleza que eu enxergaria em algum lugar. O meu caso requer um reprocessamento cerebral.
Já o seu caso, minha querida, ah... As coisas são repetitivas sim, você é que não é. É tão bom deixar pra trás o que já não é mais, recomendo veementemente. Meu único medo em relação a isso é não ter fôlego para convencer os outros, eles lhe parecem muito acomodados onde estão? Vontade que tenho de sacudir pessoas, mas por que desejar a elas o incômodo que me assombra? Felizes os outros, na sala de jantar. Os outros não se tornam, eles sempre foram. O que acontece quando nos tornamos o que queríamos ser? Adoraria culpá-los, gritar com eles, expulsá-los daqui! Seguiria com tudo que joguei em cima deles berrando para o espelho. Se eu fosse burra nem perceberia, droga.
Vi que ele respondeu a sua carta e meu conselho de leitora intrusa é que você dê atenção às palavras dele – poder constatar que não mais ou não agora é um crescimento, não tivesse você vivido até aqui não teria discernimento para apreciar ou rejeitar o que lhe é oferecido, mesmo que tenha sangrentamente lutado por aquilo. Só alcançando somos capazes de não querer mais, sem birra ou ansiedade juvenil.
Calma, em breve voltaremos à mesa lotada. Nos juntaremos ao resto na pista de dança e de longe nem dará pra perceber que não estivemos ali o tempo todo. Por ora ficarei por aqui, estas poucas linhas já me causam dúvidas e só não as amasso porque me ajudaram a localizar o norte de novo. Nós estamos mesmo sozinhos. Eu só queria alguém que dissesse “estou aqui”. E sorrisse.
A tout a l'heure.
20.9.09
Keep Walking
É quase sempre assim: ali no cantinho direito o relógio avisa que se eu não for dormir agora amanhã vou me arrepender, e o silêncio da madrugada coloca as roldanas das minhocas para funcionar. O registro escrito é pura conseqüência. O amanhã chega sonado, mas a cada par de olhos que sorri ou se inunda ao compartilhar as palavras o arrependimento tem menos chance de existir. Ele nunca existiu.
Ouvi dizer que as comemorações são importantes para marcarmos nossos passos e interiorizarmos os feitos. São 4 anos hoje, e por mais bobo que às vezes meu cinismo faça parecer seria um desperdício não aproveitar a data para celebrar por termos vindo até aqui.
É mesmo uma exposição, as pessoas acham que tudo aconteceu. Não sei bem o que realmente aconteceu e o que invento, mas isso já é assim há mais anos do que completa agora essa idéia engraçada de publicar, então tudo bem. Minha cabeça insiste em criar histórias, é a realidade quem falha ao ser incapaz de acompanhá-las.
Estamos comemorando também o Ano Novo, e qualquer idéia de renovação ou pretexto para ajeitar o que está ruim me parece bem-vinda independente do mês e dos fogos. Com seu quipá na cabeça, da cabeceira da mesa, ele ensinou que parássemos para pensar no que temos feito, e brindou. Shaná Tová, que você seja inscrito no livro da vida.
Na minha história continuo achando que a felicidade é mais completa com um bode tocando violino, volta e meia há pausas para conversas de Brunas ao som de Strokes porque são muitos hard and twisted thoughts that spin round my head. Saio provocando quem estiver por perto para sermos todos loucos nesse hospício de portas abertas, assumo verdades que não são fraquezas e quando são tento me lembrar de pedir socorro. Cantando em verso e prosa amores e desamores e pulando tantos carnavais ficam mais leves e ricas as centenas de dúvidas e questões que mostram que a vida é para ser vivida com paixão para que até a saudade valha a pena.
Continuo andando, mesmo tendo percebido que o titulo original sumiu do blog. Foi uma evolução natural, quando reparei já tinha acontecido, vai ver a mensagem está tão presente em cada linha que seria redundante colocar uma faixa lá em cima. Mas não se preocupe, as pessoas comuns aqui retratadas continuam determinadas a terem vidas extraordinárias e fazerem seus próprios caminhos. Sabem que acontecimentos não fazem escolhas como se fossem extrínsecos a nós, como se a vida fosse indo tal qual um barco levado pela maré sem que tomássemos o leme. Somos a soma das nossas escolhas – não as grandes, enormes, que parecem definitivas, mas as pequenas e diárias, aqueles percursos que traçamos todos os dias e que só passam a existir no momento em que os criamos. Somos protagonistas, roteiristas e diretores desse filme (preciso, inclusive, renegociar o orçamento).
É dessa mesa, desse lado da tela, às vezes mera espectadora desse mundo, que vasculho um jeito de tornar tudo mais fácil. A solidão não é uma ameaça, é condição e até opção, mesmo que não pareça. A minha história não é um monólogo.
Puxa essa cadeira. Você mesmo! Como no jogo de buraco que a vez é sempre de quem pergunta “quem é agora?”, é exatamente você. Pede um Johnnie Walker para brindar.
Feliz ano novo!
Ouvi dizer que as comemorações são importantes para marcarmos nossos passos e interiorizarmos os feitos. São 4 anos hoje, e por mais bobo que às vezes meu cinismo faça parecer seria um desperdício não aproveitar a data para celebrar por termos vindo até aqui.
É mesmo uma exposição, as pessoas acham que tudo aconteceu. Não sei bem o que realmente aconteceu e o que invento, mas isso já é assim há mais anos do que completa agora essa idéia engraçada de publicar, então tudo bem. Minha cabeça insiste em criar histórias, é a realidade quem falha ao ser incapaz de acompanhá-las.
Estamos comemorando também o Ano Novo, e qualquer idéia de renovação ou pretexto para ajeitar o que está ruim me parece bem-vinda independente do mês e dos fogos. Com seu quipá na cabeça, da cabeceira da mesa, ele ensinou que parássemos para pensar no que temos feito, e brindou. Shaná Tová, que você seja inscrito no livro da vida.
Na minha história continuo achando que a felicidade é mais completa com um bode tocando violino, volta e meia há pausas para conversas de Brunas ao som de Strokes porque são muitos hard and twisted thoughts that spin round my head. Saio provocando quem estiver por perto para sermos todos loucos nesse hospício de portas abertas, assumo verdades que não são fraquezas e quando são tento me lembrar de pedir socorro. Cantando em verso e prosa amores e desamores e pulando tantos carnavais ficam mais leves e ricas as centenas de dúvidas e questões que mostram que a vida é para ser vivida com paixão para que até a saudade valha a pena.
Continuo andando, mesmo tendo percebido que o titulo original sumiu do blog. Foi uma evolução natural, quando reparei já tinha acontecido, vai ver a mensagem está tão presente em cada linha que seria redundante colocar uma faixa lá em cima. Mas não se preocupe, as pessoas comuns aqui retratadas continuam determinadas a terem vidas extraordinárias e fazerem seus próprios caminhos. Sabem que acontecimentos não fazem escolhas como se fossem extrínsecos a nós, como se a vida fosse indo tal qual um barco levado pela maré sem que tomássemos o leme. Somos a soma das nossas escolhas – não as grandes, enormes, que parecem definitivas, mas as pequenas e diárias, aqueles percursos que traçamos todos os dias e que só passam a existir no momento em que os criamos. Somos protagonistas, roteiristas e diretores desse filme (preciso, inclusive, renegociar o orçamento).
É dessa mesa, desse lado da tela, às vezes mera espectadora desse mundo, que vasculho um jeito de tornar tudo mais fácil. A solidão não é uma ameaça, é condição e até opção, mesmo que não pareça. A minha história não é um monólogo.
Puxa essa cadeira. Você mesmo! Como no jogo de buraco que a vez é sempre de quem pergunta “quem é agora?”, é exatamente você. Pede um Johnnie Walker para brindar.
Feliz ano novo!
5.9.09
Programa de aceleração do crescimento pessoal
A Light acha que eu sou pobre. Educadamente falando, que pertenço à classe de baixa renda. Sábado à noite, planilha de orçamento nas mãos e ouço da atendente da empresa a sugestão de me cadastrar no Bolsa Família para conseguir novamente pagar quinze reais por mês de luz, e não mais trinta como vem acontecendo. Gisele, muito simpática, recomendou fortemente os benefícios do projeto do governo que visa ajudar meus semelhantes pobrinhos e explicou que a Light poderia me dar uma mãozinha se eu conseguisse me manter dentro da faixa de consumo que eles entendem como boa para mim, mas não o fazem para me punir pela oscilação no meu comportamento. Eles analisaram meu histórico, me incluíram nessa classificação econômico-social e me consideram muito instável. Às vezes enlouqueço e extrapolo, mas conta de luz não é crediário da Marisa. Achei que Gisele fosse recomendar outras ações que reforçassem meu voto de pobreza, mas ela se ateve ao quesito energia. Pelo menos, na hora, pareceu fazer isso.
A Light não desaprovou o fato de uma moça bem apessoada de 30 anos, de posse de suas faculdades mentais e possuidora de um circulo razoável de amigos passar a noite de sábado questionando os reajustes de preço aprovados pela Aneel, mas eu sei que acrescentou à minha ficha o dado de que preferi conversar com a Gisele a ver a Yvone levar mais uns tapas da Silvia na reta final de Caminho das Índias. Talvez isso represente um ponto a meu favor, afinal, TV consome muito. Talvez a moça tenha ficado com pena de mim por não ter dinheiro nem pra ir a um pagode tipo damas grátis até a meia noite e só me restado a companhia de um atendimento 24 horas. Gisele me deu o nome do Valdecir, um colega dela que trabalha no call center da CEG, e na hora não entendi, mas pensando agora vejo que foi bonito de sua parte essa outra dica. Ela poderia ter sugerido que eu passasse meus sábados na Bola de Neve Church ou recomendado livros de auto-ajuda. Se bem que ler gasta luz, reprovável.
Quando desliguei o telefone levei horas pensando sobre o parâmetro usado para consumo de luz pela baixa renda. Se uma pessoa solteira que basicamente só vai em casa para dormir gasta muita energia, como se economiza nos lares onde a renda per capita não supera um quarto de salário mínimo e há em média cinco filhos? Eles têm Net gato e painéis solares no teto? Fazem aproveitamento de energia eólica?
Que mau uso de massa cinzenta, Bruna! O importante é estarmos sempre atentos às coisas boas que nos aparecem e às mãos estendidas quando menos esperamos, identificar as oportunidades de melhoria e crescimento. A Light está me doutrinando, o desperdício é uma atitude incorreta em qualquer área. Sobre a minha incapacidade de permanecer estável até na conta de luz, prefiro não comentar aqui. Isso é entre mim e, quem sabe, o Valdecir – não posso desperdiçar um amigo da amiga assim, certo? Se casarmos a conta sobe, mas ganho alguém para pagar a metade dela.
A Light não desaprovou o fato de uma moça bem apessoada de 30 anos, de posse de suas faculdades mentais e possuidora de um circulo razoável de amigos passar a noite de sábado questionando os reajustes de preço aprovados pela Aneel, mas eu sei que acrescentou à minha ficha o dado de que preferi conversar com a Gisele a ver a Yvone levar mais uns tapas da Silvia na reta final de Caminho das Índias. Talvez isso represente um ponto a meu favor, afinal, TV consome muito. Talvez a moça tenha ficado com pena de mim por não ter dinheiro nem pra ir a um pagode tipo damas grátis até a meia noite e só me restado a companhia de um atendimento 24 horas. Gisele me deu o nome do Valdecir, um colega dela que trabalha no call center da CEG, e na hora não entendi, mas pensando agora vejo que foi bonito de sua parte essa outra dica. Ela poderia ter sugerido que eu passasse meus sábados na Bola de Neve Church ou recomendado livros de auto-ajuda. Se bem que ler gasta luz, reprovável.
Quando desliguei o telefone levei horas pensando sobre o parâmetro usado para consumo de luz pela baixa renda. Se uma pessoa solteira que basicamente só vai em casa para dormir gasta muita energia, como se economiza nos lares onde a renda per capita não supera um quarto de salário mínimo e há em média cinco filhos? Eles têm Net gato e painéis solares no teto? Fazem aproveitamento de energia eólica?
Que mau uso de massa cinzenta, Bruna! O importante é estarmos sempre atentos às coisas boas que nos aparecem e às mãos estendidas quando menos esperamos, identificar as oportunidades de melhoria e crescimento. A Light está me doutrinando, o desperdício é uma atitude incorreta em qualquer área. Sobre a minha incapacidade de permanecer estável até na conta de luz, prefiro não comentar aqui. Isso é entre mim e, quem sabe, o Valdecir – não posso desperdiçar um amigo da amiga assim, certo? Se casarmos a conta sobe, mas ganho alguém para pagar a metade dela.
27.8.09
O casamento da minha melhor amiga
Lá vem a noiva toda de branco e sua amiga enxugando o seu pranto.Ele aceitou, ele aceitou, terão mil bem-casadinhos e a madrinha vai surtar.
Já começou, já começou, ela está fazendo riminhas que CA e Pim vão publicar.
Tribuneiros.com não coube na música. Mas continua aqui.
17.8.09
Baile de máscaras
Eu menti sim. Editei a verdade a meu favor. Em um exercício de futurologia imaginei como você reagiria a todas as histórias e escolhi a que melhor me pareceu. Tenho um crédito pelo trabalho! Deveria sim ter economizado tanta especulação e sido simplesmente eu, mas garanto que foi bem mais fácil ter criado tantas hipóteses e investido em uma. Não por eu ser uma pessoa ruim, absolutamente, mas por já estar de tal forma acostumada a esse exercício que naturalmente ser é desgastante, exaustivo. Talvez você gostasse de mim sim, mas não dá. Achou que viesse aí uma explicação psicológica do motivo? Está vendo como sou surpreendente? E isso nem foi calculado, essa sou eu sendo bastante espontânea.
Ao pouco que você falou acrescentei o muito que percebi por aí e montei essa personagem, criatura bem legal, confessa. Adorável. São anos de estudo: livros, filmes, revistas, campanhas publicitárias, conversas abertas e entreouvidas, músicas, tentativas e erros de quando eu ainda arriscava, quase uma tese com extensa bibliografia! Deu em nada, não é? Só mais uma em vão.
Não foi por mal. Nunca tive a intenção malévola de enganá-lo, pelo contrário. Queria que você encontrasse tudo aquilo que sempre buscou na vida. Olha que presente! Queria ser sua mãe, a ausente que não impôs limites, sua amiga a te incentivar e dar mil motivos para rir, sua amante mais atenta, a filha desprotegida e mulher da qual se orgulhar. Acabei sendo nada, alguém que você nem sabe quem é. É ninguém, um pedaço de carne, coração dilacerado implorando atenção.
Não vou ficar muito tempo por aqui. Invento uma nova, me dá cinco minutos para retocar a maquiagem e pode chamar o público. O show tem que continuar.
Ao pouco que você falou acrescentei o muito que percebi por aí e montei essa personagem, criatura bem legal, confessa. Adorável. São anos de estudo: livros, filmes, revistas, campanhas publicitárias, conversas abertas e entreouvidas, músicas, tentativas e erros de quando eu ainda arriscava, quase uma tese com extensa bibliografia! Deu em nada, não é? Só mais uma em vão.
Não foi por mal. Nunca tive a intenção malévola de enganá-lo, pelo contrário. Queria que você encontrasse tudo aquilo que sempre buscou na vida. Olha que presente! Queria ser sua mãe, a ausente que não impôs limites, sua amiga a te incentivar e dar mil motivos para rir, sua amante mais atenta, a filha desprotegida e mulher da qual se orgulhar. Acabei sendo nada, alguém que você nem sabe quem é. É ninguém, um pedaço de carne, coração dilacerado implorando atenção.
Não vou ficar muito tempo por aqui. Invento uma nova, me dá cinco minutos para retocar a maquiagem e pode chamar o público. O show tem que continuar.
10.8.09
Ligeiramente à toa
Digite 1 para promoções de fraldas.
Digite 2 para aulas de carpintaria.
Digite 3 para idéééias.
Digite 4 para a banda passar.
Digite Tribuneiros.com para tudo fazer mais sentido. Ou não.
Digite 2 para aulas de carpintaria.
Digite 3 para idéééias.
Digite 4 para a banda passar.
Digite Tribuneiros.com para tudo fazer mais sentido. Ou não.
6.8.09
31.7.09
Ligeiramente feliz
Eu estou grávida.
Corta pro flashback. Porão da casa de cultura Laura Alvim. “Não saber que camisinha estoura é como não saber que carro atropela!”. E tinha a cena da Ingrid que saiu com uma toalha na cabeça por culpa de um baseado e uma parte chatíssima onde a Maria Mariana dizia que duas simples bocas podem fazer maravilhas por duas simples almas. A gente ria quando elas diziam que o primeiro beijo tinha sido bom, mas aquela língua atrapalhava um pouco. Primeiro beijo da vida. Era bem próximo.
Eu estou grávida.
Ser surpreendida por uma gravidez aos trinta é como bater o carro na garagem? Você já relaxou, acha que domina as técnicas de baliza, em um dia ruim manobra até pensando em outras coisas, não tem mais alarmes e sinais luminosos indicando a cartela de pílulas, adultos acenando com preservativos, os homens que reclamam que aquilo atrapalha não são mais moleques querendo contar vantagem (será?). Sendo bem sincera você sabe que consegue ter um filho ainda que converse melhor com o garçom do Bracarense do que com o pediatra.
Ela está grávida.
Em homenagem ao aniversário da chegada do homem na lua ela resolveu dar seu grande passo – apesar de pequeno para a humanidade. Cancelou a prova de docinhos que faria com a irmã noiva, prendeu o cabelo besuntado de formol contrariando as recomendações da cabeleireira e saiu com ele. Um cara tão romântico, eles e o oceano Atlântico, ele não sabe quem é Bahuan, ela usa um lindo sutiã e as coisas mais sérias a gente conversa amanhã.
De repente, no amanhã, ela está grávida. Que merda.
E ele sorri. Ela chora. Chora mais ainda. Ele encosta na barriga dela onde cresce um serzinho de treze milímetros. Ele não acha bom que ela fique em lugares fechados por causa da gripe suína, mas pergunta se podem viajar nos próximos meses. Antes do sétimo ele quer que ela conheça seu país preferido.
Ela está grávida e algumas pessoas simplesmente não nasceram para o comercial de margarina. Elas escolheriam Bob Dylan para a trilha. E tudo bem.
You've gone to the finest school all right, Miss Lonely
But you know you only used to get juiced in it
And nobody's ever taught you how to live on the street
And now you're gonna have to get used to it
You said you'd never compromise
Corta pro flashback. Porão da casa de cultura Laura Alvim. “Não saber que camisinha estoura é como não saber que carro atropela!”. E tinha a cena da Ingrid que saiu com uma toalha na cabeça por culpa de um baseado e uma parte chatíssima onde a Maria Mariana dizia que duas simples bocas podem fazer maravilhas por duas simples almas. A gente ria quando elas diziam que o primeiro beijo tinha sido bom, mas aquela língua atrapalhava um pouco. Primeiro beijo da vida. Era bem próximo.
Eu estou grávida.
Ser surpreendida por uma gravidez aos trinta é como bater o carro na garagem? Você já relaxou, acha que domina as técnicas de baliza, em um dia ruim manobra até pensando em outras coisas, não tem mais alarmes e sinais luminosos indicando a cartela de pílulas, adultos acenando com preservativos, os homens que reclamam que aquilo atrapalha não são mais moleques querendo contar vantagem (será?). Sendo bem sincera você sabe que consegue ter um filho ainda que converse melhor com o garçom do Bracarense do que com o pediatra.
Ela está grávida.
Em homenagem ao aniversário da chegada do homem na lua ela resolveu dar seu grande passo – apesar de pequeno para a humanidade. Cancelou a prova de docinhos que faria com a irmã noiva, prendeu o cabelo besuntado de formol contrariando as recomendações da cabeleireira e saiu com ele. Um cara tão romântico, eles e o oceano Atlântico, ele não sabe quem é Bahuan, ela usa um lindo sutiã e as coisas mais sérias a gente conversa amanhã.
De repente, no amanhã, ela está grávida. Que merda.
E ele sorri. Ela chora. Chora mais ainda. Ele encosta na barriga dela onde cresce um serzinho de treze milímetros. Ele não acha bom que ela fique em lugares fechados por causa da gripe suína, mas pergunta se podem viajar nos próximos meses. Antes do sétimo ele quer que ela conheça seu país preferido.
Ela está grávida e algumas pessoas simplesmente não nasceram para o comercial de margarina. Elas escolheriam Bob Dylan para a trilha. E tudo bem.
You've gone to the finest school all right, Miss Lonely
But you know you only used to get juiced in it
And nobody's ever taught you how to live on the street
And now you're gonna have to get used to it
You said you'd never compromise
29.7.09
Quando eu estou aqui
Pra quem vai fazer as ilustrações do próximo e pra quem mais uma vez manteve os batimentos cardíacos controlados a noite toda.
Pra estopa que deve estar rodopiando de alegria e se estabacando no chão.
Pra quem, de algum lugar, acompanhou meu vinho com um whisky porque são determinadas coisas que nunca mudam.
Pra quem apesar dos tantos presentes em todas as datas devia saber que o maior deles foi o imenso carinho, e pra quem depois me levaria pra andar de bodinho.
Pra bridezilla que comportadamente ontem não ficou desenvolvendo teorias etílicas infinitas sobre qualquer coisa, e pra quem traiu o movimento punk.
Pra quem pode ouvir Lulu Santos no repeat sem traumas – o seu destino é ser star.
Pra quem, uhn, acho que engordou mais um pouco, mas a roupa de business man disfarça.
Pra quem me enganava colocando ovo no Nescau! E hoje me esclarece tanta coisa.
Pra quem ontem estaria vestida toda fofinha com os cabelos azuis (e talvez me emprestasse seus casacos de pele mesmo que não fôssemos a um baile).
Pra quem colocou um caracol na minha cabeceira para eu não me esquecer de levar a vida devagar.
Pra quem nem nas suas apostas mais altas devia imaginar que aquela coleção de livros geraria dois!
Pra quem é báááárbara.
Pra minha parceira no Jogo da Vida.
Pra quem começou essa brincadeira virtual e tornou tudo tão real.
Pra quem pinta, borda, escreve, esculpe, viaja, se muda e encanta, e para seu príncipe bem real.
Pra quem comprava de uma vez só todas as figurinhas do álbum e para suas novas figurinhas.
Pra my person, again, e isso não vai passar.
Pra meu 911, mesmo quando pede pra aguardar um momento, senhora, sua ligação é muito importante para nós.
Pra quem agora voa porque pular era pouco.
Pra dona do meu spa particular – mesmo que ele fique em SP.
Pra quem daqui a pouco volta não só a passar a mão na bunda da vida, mas a agarrar com vontade - e ainda vai ganhar a tal.
Pra quem eu sei que nunca vai faltar nosso almoço de domingo mesmo que nem se lembre mais que diabos é isso.
Pros que aprenderam que não há nada tão ruim que não possa melhorar - muito.
Pra quem talvez não fosse tão parte da família se realmente tivesse nascido nela.
Pra quem – sim – tem o mesmo sobrenome, é minha tia (como ela pode conhecer tanta gente?).
Pra quem cuida de mim mesmo perdido pelo mundo.
Pra minha roommate que gosta de gente bonita.
Pros meus mestres, com carinho. Eles ensinam que hay que endurecer sin perder la ternura jamás.
Pra quem destrói carrinhos, mas constrói amizades – e eu saí ganhando nessa!
Pra quem sabe que a vida é o resultado das nossas decisões, mas sopra um ventinho ali na praia e sempre é tempo de aprender kitesurf.
Pra quem teve batizado coletivo, mas é único.
Pra quem é muito mais bobo do que eu.
Pra quem me deu um chocolate lááá atrás.
Pra quem gira no chão porque... ah, normal, a música é boa.
Pra minha insensatez.
Pra keynote speaker dos seminários que ainda vou organizar.
Pra quem não quer the next best thing, mas the best thing ever.
Pra mãe das meninas.
Pra quem tem 13 milímetros.
Pra borboleta verde com diploma de Yale.
Pra quem elogiava tanto que me convenceu que era bom, e pra baleia da sua piscina.
Pra primeira princesa, ou Your Royal Highness.
Pros amigos que eu ganhei deles.
Pro sóbrio em Salvador.
Pros meus companheiros de aventuras.
Pra quem foi, e isso já foi tanto.
Pros que acham o Junior o melhor garçon do Jobi.
Praquele banquinho na parede que me rendeu tantas conversas, pros que conversam através dessa tela e até sem nenhum comentário.
Pra quem me deu um abraço.
Pra quem me desafiou a escrever e mostrou a medida da felicidade.
Pra quem me ensinou a ter certeza, e que reinventá-la não a transforma em dúvida.
Pra quem segue andando, e às vezes assobia feliz.
Pra estopa que deve estar rodopiando de alegria e se estabacando no chão.
Pra quem, de algum lugar, acompanhou meu vinho com um whisky porque são determinadas coisas que nunca mudam.
Pra quem apesar dos tantos presentes em todas as datas devia saber que o maior deles foi o imenso carinho, e pra quem depois me levaria pra andar de bodinho.
Pra bridezilla que comportadamente ontem não ficou desenvolvendo teorias etílicas infinitas sobre qualquer coisa, e pra quem traiu o movimento punk.
Pra quem pode ouvir Lulu Santos no repeat sem traumas – o seu destino é ser star.
Pra quem, uhn, acho que engordou mais um pouco, mas a roupa de business man disfarça.
Pra quem me enganava colocando ovo no Nescau! E hoje me esclarece tanta coisa.
Pra quem ontem estaria vestida toda fofinha com os cabelos azuis (e talvez me emprestasse seus casacos de pele mesmo que não fôssemos a um baile).
Pra quem colocou um caracol na minha cabeceira para eu não me esquecer de levar a vida devagar.
Pra quem nem nas suas apostas mais altas devia imaginar que aquela coleção de livros geraria dois!
Pra quem é báááárbara.
Pra minha parceira no Jogo da Vida.
Pra quem começou essa brincadeira virtual e tornou tudo tão real.
Pra quem pinta, borda, escreve, esculpe, viaja, se muda e encanta, e para seu príncipe bem real.
Pra quem comprava de uma vez só todas as figurinhas do álbum e para suas novas figurinhas.
Pra my person, again, e isso não vai passar.
Pra meu 911, mesmo quando pede pra aguardar um momento, senhora, sua ligação é muito importante para nós.
Pra quem agora voa porque pular era pouco.
Pra dona do meu spa particular – mesmo que ele fique em SP.
Pra quem daqui a pouco volta não só a passar a mão na bunda da vida, mas a agarrar com vontade - e ainda vai ganhar a tal.
Pra quem eu sei que nunca vai faltar nosso almoço de domingo mesmo que nem se lembre mais que diabos é isso.
Pros que aprenderam que não há nada tão ruim que não possa melhorar - muito.
Pra quem talvez não fosse tão parte da família se realmente tivesse nascido nela.
Pra quem – sim – tem o mesmo sobrenome, é minha tia (como ela pode conhecer tanta gente?).
Pra quem cuida de mim mesmo perdido pelo mundo.
Pra minha roommate que gosta de gente bonita.
Pros meus mestres, com carinho. Eles ensinam que hay que endurecer sin perder la ternura jamás.
Pra quem destrói carrinhos, mas constrói amizades – e eu saí ganhando nessa!
Pra quem sabe que a vida é o resultado das nossas decisões, mas sopra um ventinho ali na praia e sempre é tempo de aprender kitesurf.
Pra quem teve batizado coletivo, mas é único.
Pra quem é muito mais bobo do que eu.
Pra quem me deu um chocolate lááá atrás.
Pra quem gira no chão porque... ah, normal, a música é boa.
Pra minha insensatez.
Pra keynote speaker dos seminários que ainda vou organizar.
Pra quem não quer the next best thing, mas the best thing ever.
Pra mãe das meninas.
Pra quem tem 13 milímetros.
Pra borboleta verde com diploma de Yale.
Pra quem elogiava tanto que me convenceu que era bom, e pra baleia da sua piscina.
Pra primeira princesa, ou Your Royal Highness.
Pros amigos que eu ganhei deles.
Pro sóbrio em Salvador.
Pros meus companheiros de aventuras.
Pra quem foi, e isso já foi tanto.
Pros que acham o Junior o melhor garçon do Jobi.
Praquele banquinho na parede que me rendeu tantas conversas, pros que conversam através dessa tela e até sem nenhum comentário.
Pra quem me deu um abraço.
Pra quem me desafiou a escrever e mostrou a medida da felicidade.
Pra quem me ensinou a ter certeza, e que reinventá-la não a transforma em dúvida.
Pra quem segue andando, e às vezes assobia feliz.
28.7.09
There's no point to any of this!
It's all just a... a random lottery of meaningless tragedy and a series of near escapes. So I take pleasure in the details. You know... a Quarter-Pounder with cheese, those are good, the sky about ten minutes before it starts to rain, the moment where your laughter become a cackle... and I, I sit back and I smoke my Camel Straights and I ride my own melt.
Reality Bites, 1994
It's all just a... a random lottery of meaningless tragedy and a series of near escapes. So I take pleasure in the details. You know... a Quarter-Pounder with cheese, those are good, the sky about ten minutes before it starts to rain, the moment where your laughter become a cackle... and I, I sit back and I smoke my Camel Straights and I ride my own melt.
Reality Bites, 1994
20.7.09
19.7.09
As canções que eu faço para você
Pode ter sido o Rei debaixo de um temporal no Maracanã lotado ou a lembrança do receituário azul.
Quando a dor vem de algum lugar concreto, ufa, deixa vir. Se com ela vem uma vozinha amiga, parente da tal luz no fim do túnel, confia. Se traz uma torrente de lágrimas, deixa cair. Elas limpam a alma, levam embora, fazem cada sorriso ser mais bonito e cada ser ser mais humano.
Se a dor gera histórias de uma vida, são detalhes que eu conto aqui. Às vezes vou deixar você me ver chorar sorrindo.
O amor pode vir de um abraço amigo, do caso mais antigo, pode não vir como a gente queria, pode vir de um gesto inesperado, uma ligação bêbada no meio da noite, uma tarde com vinho em um vale, uma dedicatória em um livro, pode vir do outro lado do monitor. Aqui esse amor é uma canção composta por um pobre resto de esperança sentada à beira de uma estrada. Um olhar volta e meia tristonho que deixa sangrar no peito uma saudade, um sonho. Posts e posts que nos trouxeram até aqui - coisa que somente entre nós dois ficou - cicatrizes que falam em palavras que não calam o que eu não me esqueci.
Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada (do tempo que transforma
todo amor em quase nada), mas como "quase" também é mais um detalhe eu quero levar este canto amigo a quem o necessitar. Preciso do coro de passarinhos! Quero ter um milhão de amigos pra cantar em um estádio inundado e lotado.
A felicidade pode vir em capsulas e o futuro em drágeas, mas é melhor quando vem em forma de gente mesmo que gente provoque dor. Porque quando você está aqui eu vivo momentos lindos que me fazem lembrar que com tanto sentimento deve ter algum que sirva.
Qualquer coisa que se sinta é melhor do que um receituário azul. O importante é poder compartilhar as emoções que vivi.
No dia 28 de julho nos encontraremos no Associados. Vou pedindo o chopp.
Quando a dor vem de algum lugar concreto, ufa, deixa vir. Se com ela vem uma vozinha amiga, parente da tal luz no fim do túnel, confia. Se traz uma torrente de lágrimas, deixa cair. Elas limpam a alma, levam embora, fazem cada sorriso ser mais bonito e cada ser ser mais humano.
Se a dor gera histórias de uma vida, são detalhes que eu conto aqui. Às vezes vou deixar você me ver chorar sorrindo.
O amor pode vir de um abraço amigo, do caso mais antigo, pode não vir como a gente queria, pode vir de um gesto inesperado, uma ligação bêbada no meio da noite, uma tarde com vinho em um vale, uma dedicatória em um livro, pode vir do outro lado do monitor. Aqui esse amor é uma canção composta por um pobre resto de esperança sentada à beira de uma estrada. Um olhar volta e meia tristonho que deixa sangrar no peito uma saudade, um sonho. Posts e posts que nos trouxeram até aqui - coisa que somente entre nós dois ficou - cicatrizes que falam em palavras que não calam o que eu não me esqueci.
Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada (do tempo que transforma
todo amor em quase nada), mas como "quase" também é mais um detalhe eu quero levar este canto amigo a quem o necessitar. Preciso do coro de passarinhos! Quero ter um milhão de amigos pra cantar em um estádio inundado e lotado.
A felicidade pode vir em capsulas e o futuro em drágeas, mas é melhor quando vem em forma de gente mesmo que gente provoque dor. Porque quando você está aqui eu vivo momentos lindos que me fazem lembrar que com tanto sentimento deve ter algum que sirva.
Qualquer coisa que se sinta é melhor do que um receituário azul. O importante é poder compartilhar as emoções que vivi.
No dia 28 de julho nos encontraremos no Associados. Vou pedindo o chopp.
17.7.09
A few of my favorite things
An education, um roteiro de Nick Hornby. Em breve para as melhores platéias.
13.7.09
O que não tem critério nem nunca terá
Tribuneiros.com lança campanha contra a lisura!
Clique aqui para participar da homenagem a todos os pegadores que dizem que eu deveria estar na festa ao invés de ficar em casa redigindo textos. (Porque de vez em quando eles preferem jogar Wii a gastar mil reais no Baronetti).
Clique aqui para participar da homenagem a todos os pegadores que dizem que eu deveria estar na festa ao invés de ficar em casa redigindo textos. (Porque de vez em quando eles preferem jogar Wii a gastar mil reais no Baronetti).
7.7.09
Ctrl+Alt+Del
Todos em pé na calçada do bar. De novo.
O bar lotado. De novo.
Todos se divertindo, mesmo que preferindo estar em outro lugar. Todos adorando aquelas companhias, mas num beco escuro do peito um desejo imbecil de ter outra, e às vezes o desejo derrama e inunda. Se isso fosse um filme do Gondry a cena viraria uma piscina com todos brincando de Marco Polo.
Você pode pensar que se fosse uma obra de arte seria um quadro do Hopper, mas não. Na cidade colorida as dores não tocam blues, cantam samba, e pelo menos fica mais animado, aquele triste que a gente chama de bonito. É tão bonito que dói.
Na parede do bar o folheto de um curso que ensina a rir de si mesmo. É sério.
A música lá longe. De novo.
Todos vendo o mundo de uma redoma blindada, as pessoas em um plano etéreo. Se fossem risadas viriam do apartamento ao lado.
Você pode pensar que se eles voltassem no tempo fariam diferente, mas repetiriam.
Às vezes o mundo parece um manicômio lotado de gente com esparadrapo no coração.
Se fosse feita uma enquete no bar todos levantariam a mão.
Têm a banda calada, o tempo parado, comida no estômago, vontade de cair no sofá, pantufa e moletom, pálpebra pesando, um exército empurrando para sorrir. Sorriem. Superam. Suspiram.
Você conhece ela?
Conheço. Ela é quem eu queria ser se assim fosse ter você perto de mim.
Se fosse uma doença seria fibrilação.
Eles sabem que daqui a pouco vai aparecer alguém para deletar os itens excluídos de vez, mas antes têm que abrir espaço e a lixeira está ocupando toda a memória.
Se fosse um Mac a mensagem seria “the finder needs your attention”.
Se fosse fácil...
O bar lotado. De novo.
Todos se divertindo, mesmo que preferindo estar em outro lugar. Todos adorando aquelas companhias, mas num beco escuro do peito um desejo imbecil de ter outra, e às vezes o desejo derrama e inunda. Se isso fosse um filme do Gondry a cena viraria uma piscina com todos brincando de Marco Polo.
Você pode pensar que se fosse uma obra de arte seria um quadro do Hopper, mas não. Na cidade colorida as dores não tocam blues, cantam samba, e pelo menos fica mais animado, aquele triste que a gente chama de bonito. É tão bonito que dói.
Na parede do bar o folheto de um curso que ensina a rir de si mesmo. É sério.
A música lá longe. De novo.
Todos vendo o mundo de uma redoma blindada, as pessoas em um plano etéreo. Se fossem risadas viriam do apartamento ao lado.
Você pode pensar que se eles voltassem no tempo fariam diferente, mas repetiriam.
Às vezes o mundo parece um manicômio lotado de gente com esparadrapo no coração.
Se fosse feita uma enquete no bar todos levantariam a mão.
Têm a banda calada, o tempo parado, comida no estômago, vontade de cair no sofá, pantufa e moletom, pálpebra pesando, um exército empurrando para sorrir. Sorriem. Superam. Suspiram.
Você conhece ela?
Conheço. Ela é quem eu queria ser se assim fosse ter você perto de mim.
Se fosse uma doença seria fibrilação.
Eles sabem que daqui a pouco vai aparecer alguém para deletar os itens excluídos de vez, mas antes têm que abrir espaço e a lixeira está ocupando toda a memória.
Se fosse um Mac a mensagem seria “the finder needs your attention”.
Se fosse fácil...
25.6.09
Do outro lado do Pontal
"No restaurante em frente à praia o prato executivo custa doze reais. Você senta de cara para uma vista avassaladora e paga doze reais para o garçom falar uma língua incompreensível, onde “o seu Matte é diet” parece “tomate diet”, e trazer uma travessa de comida ao invés de um simples prato. Além de gigantesco, nunca é quiche com salada. No Leblon se come quiche com salada, no Leme só sai das panelas arroz à piamontese, batata frita, bifes e outras comidas que se servem com duas colheres, uma técnica que os garçons antigos aprenderam no La Mole."
O Leme é aquele bairro que só tem 5 ruas. Vai tooooda a vida pela praia e quando esbarrar na pedra olha pra esquerda. É ali. Siga por esse caminho: tribuneiros.com
O Leme é aquele bairro que só tem 5 ruas. Vai tooooda a vida pela praia e quando esbarrar na pedra olha pra esquerda. É ali. Siga por esse caminho: tribuneiros.com
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