1.5.11
Com a cabeça no lugar
Foi falando sobre a Toscana que chegamos a Assis e, assim, a São Francisco. Estava contando a ele, devoto do santo desde criança, como eu, atéia descrente, não tirava da cabeça a preocupação pelo meu pequeno Francisco ter ficado sem a dele.
A oração eu repetia desde pequena,mecanicamente, nas aulas de religião e musicas que cantávamos na hora da entrada no colégio – “é dando que se recebe, perdoando que se é perdoado...”. “Hi-lili Hi-lo’ e “Mariana conta um” eram hits bem mais apreciados pelos alunos nas filas. Foi em uma época ruim, péssima, que ganhei um daqueles papeis com a oração atrás de quem não tinha mais argumentos lógicos pra me convencer de que havia algo de bom em mim.
Francisco nasceu em uma família rica, era popular entre os amigos pelas extravagâncias e aventuras recheadas de bebida, indisciplinas de um garoto que só usava roupas da moda e queria ser famoso. Aí foi aquilo - o tempo trouxe uma imensa angústia, soubesse cantar ele sentiria doer qualquer coisa dentro de si ao ouvir os versos de Liberdade do Camelo ou “acho que não vai dar, tô cansado demais”. O que nos dias de hoje seria tratado com ansioliticos foi não-resolvido com apedrejamento público e gargalhadas, como não podia repor todos os tecidos que vendeu do pai para bancar a reconstrução de uma igreja entregou o que tinha no corpo e seguiu com o bispo local a fim de espalhar compreensão, simplicidade e amor.
Por discordar do modo de vida da Igreja Catolica Francisco fundou sua própria Ordem, ao lado de amigos fieis que compartilhavam a visão de que todas as pessoas são iguais independentemente de raça, sexo, credo ou classe. Poucos anos depois juntou-se aos franciscanos a primeira mulher, Clara d'Offreducci, e talvez por eu ser a última romantica nos litorais desse oceano atlantico ou ignorantemente desconhecer relação assim, imaginei o quanto ela sofreu por aquele louco ou santo homem e acrescentei Santa Clara à minha lista de Mulheres com letra maiúscula. Descontados os radicalismos e entendido o contexto historico, fiquei tão encantada pela vida e obra de Francisco que, já estando por ali, quis ir até Assis agradecer pelo conforto oferecido, e movida pelas tais coisas que existem e nem supõe a nossa vã filosofia ainda trouxe uma pequena imagem como lembrança.
Bem acomodados estávamos eu, a mini-estátua de Francisco e meu cãozinho até o dia em que abro a porta de casa e, entre outros indícios de destruição, avisto o corpo do santo no chão, ao lado do nada arrependido e saltitante cachorro, decapitado. Depois de inúmeras lágrimas, broncas e buscas, do temor de que a cabeça pudesse ter sido engolida pela fera sem coração, a tal foi encontrada! Só faltava Superbonder para que tudo voltasse à paz, e eis que num mistério que desconfio não poder ser classificado como milagre, a cabeça sumiu de novo. Sobrou na Caixinha da Fé o corpo, algumas medalhas, patuás e semelhantes objetos, e mais nenhum sinal do que seria recolocado no corpo. Era isso: vivendo comigo, até São Francisco perde a cabeça.
Então estavamos nós em uma noite comum naquele que é nosso santuário às sextas-feiras quando, falando sobre a Toscana, chegamos a Assis e assim a São Francisco quando ele, devoto do santo desde criança, revela que uma de suas imagens foi danificada durante a limpeza pela empregada e também ficou só com o corpo. E é por essas e outras que eu, ateia e descrente, irei novamente a Assis agradecer por mais essa mensagem de conforto: não acontecem coisas inexplicáveis comigo, não estou fadada a viver com homens sem a cabeça no lugar, não sou tão desesperadora a ponto de até um santo preferir magicamente desaparecer, e mesmo Francisco pode perder a cabeça por qualquer bobagem! Vida que segue.
A oração eu repetia desde pequena,mecanicamente, nas aulas de religião e musicas que cantávamos na hora da entrada no colégio – “é dando que se recebe, perdoando que se é perdoado...”. “Hi-lili Hi-lo’ e “Mariana conta um” eram hits bem mais apreciados pelos alunos nas filas. Foi em uma época ruim, péssima, que ganhei um daqueles papeis com a oração atrás de quem não tinha mais argumentos lógicos pra me convencer de que havia algo de bom em mim.
Francisco nasceu em uma família rica, era popular entre os amigos pelas extravagâncias e aventuras recheadas de bebida, indisciplinas de um garoto que só usava roupas da moda e queria ser famoso. Aí foi aquilo - o tempo trouxe uma imensa angústia, soubesse cantar ele sentiria doer qualquer coisa dentro de si ao ouvir os versos de Liberdade do Camelo ou “acho que não vai dar, tô cansado demais”. O que nos dias de hoje seria tratado com ansioliticos foi não-resolvido com apedrejamento público e gargalhadas, como não podia repor todos os tecidos que vendeu do pai para bancar a reconstrução de uma igreja entregou o que tinha no corpo e seguiu com o bispo local a fim de espalhar compreensão, simplicidade e amor.
Por discordar do modo de vida da Igreja Catolica Francisco fundou sua própria Ordem, ao lado de amigos fieis que compartilhavam a visão de que todas as pessoas são iguais independentemente de raça, sexo, credo ou classe. Poucos anos depois juntou-se aos franciscanos a primeira mulher, Clara d'Offreducci, e talvez por eu ser a última romantica nos litorais desse oceano atlantico ou ignorantemente desconhecer relação assim, imaginei o quanto ela sofreu por aquele louco ou santo homem e acrescentei Santa Clara à minha lista de Mulheres com letra maiúscula. Descontados os radicalismos e entendido o contexto historico, fiquei tão encantada pela vida e obra de Francisco que, já estando por ali, quis ir até Assis agradecer pelo conforto oferecido, e movida pelas tais coisas que existem e nem supõe a nossa vã filosofia ainda trouxe uma pequena imagem como lembrança.
Bem acomodados estávamos eu, a mini-estátua de Francisco e meu cãozinho até o dia em que abro a porta de casa e, entre outros indícios de destruição, avisto o corpo do santo no chão, ao lado do nada arrependido e saltitante cachorro, decapitado. Depois de inúmeras lágrimas, broncas e buscas, do temor de que a cabeça pudesse ter sido engolida pela fera sem coração, a tal foi encontrada! Só faltava Superbonder para que tudo voltasse à paz, e eis que num mistério que desconfio não poder ser classificado como milagre, a cabeça sumiu de novo. Sobrou na Caixinha da Fé o corpo, algumas medalhas, patuás e semelhantes objetos, e mais nenhum sinal do que seria recolocado no corpo. Era isso: vivendo comigo, até São Francisco perde a cabeça.
Então estavamos nós em uma noite comum naquele que é nosso santuário às sextas-feiras quando, falando sobre a Toscana, chegamos a Assis e assim a São Francisco quando ele, devoto do santo desde criança, revela que uma de suas imagens foi danificada durante a limpeza pela empregada e também ficou só com o corpo. E é por essas e outras que eu, ateia e descrente, irei novamente a Assis agradecer por mais essa mensagem de conforto: não acontecem coisas inexplicáveis comigo, não estou fadada a viver com homens sem a cabeça no lugar, não sou tão desesperadora a ponto de até um santo preferir magicamente desaparecer, e mesmo Francisco pode perder a cabeça por qualquer bobagem! Vida que segue.
20.4.11
18.4.11
17.4.11
Do ritual de passagem
Girino, eu fui à missa. Sábado de manhã, manhã de verão, verão carioca, eu e meu leque. Começou o padre (que não era padre, mas frei) explicando que inverteria um pouco a ordem do ato pra não acordarmos você, e decretou que poderíamos fazer o que quiséssemos naquela meia hora: crianças ficassem à vontade para andar, adultos para fotografar, eu para mentalmente criticar as teorias de dominação católica, ninguém precisava se ater à coreografia de senta-levanta-repete-as-palavras conforme esperado. Bacana aquele padre. Frei. Ele calçava uma espécie de Birken e contou que era do convento de Santo Antônio.
Eu sempre conheci Antônio como sendo o santo casamenteiro, as meninas aprendem desde cedo mandingas para o apóstolo, deixam o pobre de castigo até conquistarem a pessoa amada, o célebre é solicitado! Até essa sua tia, cínica que só, instruiu seu avô a interceder por ela junto ao santo em nossa visita à Basílica de Pádua - já estávamos lá, mal não faria, não é? O que nos levou mesmo àquela igreja – que pra arrumar um par confio mais nas ações terrenas do que na boa santa vontade – foi saber que Antonio tinha sido discípulo de São Francisco, a quem tenho muita consideração e prefiro chamar de Francesco pra coisa ficar menos sacra e mais verossímil. Para Francesco todos eram iguais: cor, credo, raça, sexo, espécie, novo ou velho, certo ou errado, é o que entendo dizer o mandamento de “amar ao próximo como a si mesmo”. E lá estava eu no seu batizado, óculos escuros e olho no relógio, quando o frei de Birken inverteu a frase e me desafiou: como tenho amado a mim mesma para poder repetir o feito por aí? Glup... Veja bem, se somos todos iguais talvez eu venha pegando um pouco pesado comigo mesma.
Como se não bastasse ter jogado aquela bomba no meu colo, o religioso abriu parênteses para explicar sobre o sacramento que nos reunia ali. Contou ele, muito paciente com meu ateísmo, que nosso ato marcava o momento em que declararíamos a você nosso amor, prometeríamos protegê-lo, apresentaríamos a você esse mundo em que vivemos – e nos desculpe se não é lá muito fácil. O tal pecado original pra quem torci o nariz à primeira menção é tão somente a doutrina cristã que pretende explicar a origem da imperfeição humana, do sofrimento e da existência do mal. Veja você, Girininho, sobre o que já estamos tão solenemente lhe falando: as coisas podem ser ruins às vezes, nem todas as criaturas com quem você esbarrar terão esse seu sorriso franco, seus olhos azuis vão se encher de lágrimas por diversos motivos. Eu não sei por quê. Como não tem jeito de mudar, tente nunca duvidar, conte conosco, se apegue a qualquer coisa para seguir: vai passar. Há quem conte com Deus, outros contam mesmo é com alguns humanos, sozinho - garanto - costuma ser besteira.
Com meu Ray Ban escondendo olhos inundados e a cabeça se esforçando para segurar aquele coração disparado ainda ouvi o frei lhe dizer para não se preocupar com as suas falhas. “Deus não está nem aí pra elas!”. Num sobressalto ainda pensei em espiar se aquele salvo-conduto se aplicava também a mim, mas preferi sair de fininho e acreditar que sim. Bom mesmo, pequeno, é ser ovelha no meio do rebanho. Muito mais confortável.
Eu sempre conheci Antônio como sendo o santo casamenteiro, as meninas aprendem desde cedo mandingas para o apóstolo, deixam o pobre de castigo até conquistarem a pessoa amada, o célebre é solicitado! Até essa sua tia, cínica que só, instruiu seu avô a interceder por ela junto ao santo em nossa visita à Basílica de Pádua - já estávamos lá, mal não faria, não é? O que nos levou mesmo àquela igreja – que pra arrumar um par confio mais nas ações terrenas do que na boa santa vontade – foi saber que Antonio tinha sido discípulo de São Francisco, a quem tenho muita consideração e prefiro chamar de Francesco pra coisa ficar menos sacra e mais verossímil. Para Francesco todos eram iguais: cor, credo, raça, sexo, espécie, novo ou velho, certo ou errado, é o que entendo dizer o mandamento de “amar ao próximo como a si mesmo”. E lá estava eu no seu batizado, óculos escuros e olho no relógio, quando o frei de Birken inverteu a frase e me desafiou: como tenho amado a mim mesma para poder repetir o feito por aí? Glup... Veja bem, se somos todos iguais talvez eu venha pegando um pouco pesado comigo mesma.
Como se não bastasse ter jogado aquela bomba no meu colo, o religioso abriu parênteses para explicar sobre o sacramento que nos reunia ali. Contou ele, muito paciente com meu ateísmo, que nosso ato marcava o momento em que declararíamos a você nosso amor, prometeríamos protegê-lo, apresentaríamos a você esse mundo em que vivemos – e nos desculpe se não é lá muito fácil. O tal pecado original pra quem torci o nariz à primeira menção é tão somente a doutrina cristã que pretende explicar a origem da imperfeição humana, do sofrimento e da existência do mal. Veja você, Girininho, sobre o que já estamos tão solenemente lhe falando: as coisas podem ser ruins às vezes, nem todas as criaturas com quem você esbarrar terão esse seu sorriso franco, seus olhos azuis vão se encher de lágrimas por diversos motivos. Eu não sei por quê. Como não tem jeito de mudar, tente nunca duvidar, conte conosco, se apegue a qualquer coisa para seguir: vai passar. Há quem conte com Deus, outros contam mesmo é com alguns humanos, sozinho - garanto - costuma ser besteira.
Com meu Ray Ban escondendo olhos inundados e a cabeça se esforçando para segurar aquele coração disparado ainda ouvi o frei lhe dizer para não se preocupar com as suas falhas. “Deus não está nem aí pra elas!”. Num sobressalto ainda pensei em espiar se aquele salvo-conduto se aplicava também a mim, mas preferi sair de fininho e acreditar que sim. Bom mesmo, pequeno, é ser ovelha no meio do rebanho. Muito mais confortável.
Confessions on a dance floor
And I never wanted anything from you
Except everything you had and what was left after that too
11.4.11
9.4.11
Exercicio 2: a TV series
Chloe, Emma/Nat e X estão desempacotando objetos na sala que dá para a varanda da nova casa. O ambiente é de madeira escura, tem tecidos coloridos e uma pequena vista. Emma/Nat usa um lenço colorido na cabeça para prender os cabelos como arco. (Emma/Nat não se chamará Emma/Nat, é que não dá pra um casal ser Chloe e Zoey.)
- Do you like it here?
- It’s ok.
- Too much hanging on the same wall?
- Yeah, maybe.
- Will you ever talk to me again?
- I’m talking now.
Emma/Nat sai. Chloe aconselha X:
- Never marry a woman.
X (not in an angry way):
- You didn’t. ..
- That’s what it’s all about?
X smiles.
- Look at this place! There’s a balcony! Green plants facing a kitchen!
X ri e entrega um vaso da mini-horta e outro com azaleias.
- There are pink flowers also.
- She didn’t want to marry me.
- Because your reasons to get married were a little… non-romantic?
- What’s wrong about prevention? About avoiding problems? I was trying to keep forever what we have now: respect, balance, I don’t wanna see myself in the future fighting against the woman I love for that couch or those books! Now they are ours, memories filling a couch, sacred place, tomorrow they can become weapons. (silencio) Shouldn’t that be called protection? Isnt it romantic: never-ending plans? Taking care of your love?
X continua ajeitando livros na estante de madeira e fala tranquilamente.
- You could be a good lawyer.
- I don’t wanna need lawyers! I want us to be safe, that’s planning the future, not not-being-romantic.
- Very practical.
- See? She used to like that I’m practical, but now, out of the blue, that’s a bad, cruel thing and she doesn’t smile anymore. Who knows about tomorrow?
- That doesn’t work that way, Chlo. And nothing happened out of the blue, it was more out of the dark.
Chloe reage à ironia
X:
- You’re acting much more idealistic than she is. Who do you know that got divorced in a nice friendly way?
- Not here! Not those people around us, occidental junkie crapped people… Come on, our parents got married in the 70’s, they were too high to think properly!
X ri:
- And before that everybody was too attached to rules to separate and before that they were very pre-historic ... (tirando a poeira dos livros com as maos) Did you really read them all? I can see where all this ideas came from. You better stop it!
Chloe rouba os livros de X:
- See that name on it? She wrote it! Thats the same thing: prevention, lets keep things clear from chapter 1! Don’t you think once we created a new living style we should rethink all that surrounds it? I married a woman, shouldn’t we reinvent marriage? New relationship models?
- (provocando) you didn’t married her.
Chloe joga uma almofada em X, que ri alto.
X:
- So thats what it is all about, Che?
Chloe fica parada olhando.
X:
- Look at this place! There’s a balcony! Green plants facing a kitchen!
- There are pink flowers also.
Pausa, as duas em pé.
Chloe:
- I’m just afraid of the future.
- Except we are in the present, and there’s already a balcony and a couch full of memories. And you happy.
- Do you like it here?
- It’s ok.
- Too much hanging on the same wall?
- Yeah, maybe.
- Will you ever talk to me again?
- I’m talking now.
Emma/Nat sai. Chloe aconselha X:
- Never marry a woman.
X (not in an angry way):
- You didn’t. ..
- That’s what it’s all about?
X smiles.
- Look at this place! There’s a balcony! Green plants facing a kitchen!
X ri e entrega um vaso da mini-horta e outro com azaleias.
- There are pink flowers also.
- She didn’t want to marry me.
- Because your reasons to get married were a little… non-romantic?
- What’s wrong about prevention? About avoiding problems? I was trying to keep forever what we have now: respect, balance, I don’t wanna see myself in the future fighting against the woman I love for that couch or those books! Now they are ours, memories filling a couch, sacred place, tomorrow they can become weapons. (silencio) Shouldn’t that be called protection? Isnt it romantic: never-ending plans? Taking care of your love?
X continua ajeitando livros na estante de madeira e fala tranquilamente.
- You could be a good lawyer.
- I don’t wanna need lawyers! I want us to be safe, that’s planning the future, not not-being-romantic.
- Very practical.
- See? She used to like that I’m practical, but now, out of the blue, that’s a bad, cruel thing and she doesn’t smile anymore. Who knows about tomorrow?
- That doesn’t work that way, Chlo. And nothing happened out of the blue, it was more out of the dark.
Chloe reage à ironia
X:
- You’re acting much more idealistic than she is. Who do you know that got divorced in a nice friendly way?
- Not here! Not those people around us, occidental junkie crapped people… Come on, our parents got married in the 70’s, they were too high to think properly!
X ri:
- And before that everybody was too attached to rules to separate and before that they were very pre-historic ... (tirando a poeira dos livros com as maos) Did you really read them all? I can see where all this ideas came from. You better stop it!
Chloe rouba os livros de X:
- See that name on it? She wrote it! Thats the same thing: prevention, lets keep things clear from chapter 1! Don’t you think once we created a new living style we should rethink all that surrounds it? I married a woman, shouldn’t we reinvent marriage? New relationship models?
- (provocando) you didn’t married her.
Chloe joga uma almofada em X, que ri alto.
X:
- So thats what it is all about, Che?
Chloe fica parada olhando.
X:
- Look at this place! There’s a balcony! Green plants facing a kitchen!
- There are pink flowers also.
Pausa, as duas em pé.
Chloe:
- I’m just afraid of the future.
- Except we are in the present, and there’s already a balcony and a couch full of memories. And you happy.
1.4.11
keep walking
Não é mentira: voltarei a escrever. Apesar de ter mais medo que a Regina Duarte, após ter acreditado no blábláblá freudiano de que as coisas precisam ser ditas, mesmo tendo exposto mais segredos do que o Wikileaks e sobrevivido a ataques piores do que o de xiitas anti-blogueiros e governos totalitários capitaneados por minha própria mente, voltarei a escrever.
Porque um dia uma me mostrou, pálida, a mensagem no celular enviada no frio da madrugada pelo potencial amor da sua vida daquele mês onde ele pedia desculpa, “sou meio bobo de vez em quando, não todas as vezes”, e fez-se imprescindível um meio público de combinar com o cosmos que nas vezes em que um certo alguém não for meio bobo, que ligue. Que não mande mensagem: ligue. Que se lembre de como fazíamos antigamente, dedos indicadores e não polegares com L.E.R., quando não tínhamos firewall SMSético para nos proteger ou "facilitar" a vida. Quando falávamos, tete-a-tete ou voz-a-voz, e já havia ruídos de comunicação, e antes da Oi complicar um pouco mais as coisas contrariando seu slogan de “Simples assim”. Que junte a esse engodo publicitário o da Nike e “just do it”. Ou cantaremos Cee lo green: fuck you.
Porque um dia o outro chegou ao meu lado, olhou pra tela do meu computador e balançou a cabeça compaixonadamente, se houvesse essa palavra. O fluxograma que eu montava no power point comprovava minha ascensão na empresa. Nos refastelamos nas cadeiras de rodinhas que promoveriam uma corrida sensacional naquele corredor enorme e concluímos que quando se opta pelo caminho da criatividade o segredo é jamais exceder as metas no trabalho: fatalmente a recompensa será o seu orgulho e a administração dos novos criativos, a partir daí denominados de “subordinados”. Tal qual um rei você ficará sentado pensando que o bobo da corte se diverte muito mais, e ninguém entenderá por que quanto mais brilhante nas atuações mais ele te deprime. Cortem-lhe a cabeça – já que cortaram a nossa. E decididos a investir em planos B passamos a pensar na história do garoto loser que desconfia ser o único no planeta sem o dom de ler pensamentos alheios. Penso no roteiro, ele faz rabiscos de ilustrações, a jornada de oito horas acaba.
Porque iremos viajar no verão.
Porque aqui o mundo não será cão.
Porque um dia uma me mostrou, pálida, a mensagem no celular enviada no frio da madrugada pelo potencial amor da sua vida daquele mês onde ele pedia desculpa, “sou meio bobo de vez em quando, não todas as vezes”, e fez-se imprescindível um meio público de combinar com o cosmos que nas vezes em que um certo alguém não for meio bobo, que ligue. Que não mande mensagem: ligue. Que se lembre de como fazíamos antigamente, dedos indicadores e não polegares com L.E.R., quando não tínhamos firewall SMSético para nos proteger ou "facilitar" a vida. Quando falávamos, tete-a-tete ou voz-a-voz, e já havia ruídos de comunicação, e antes da Oi complicar um pouco mais as coisas contrariando seu slogan de “Simples assim”. Que junte a esse engodo publicitário o da Nike e “just do it”. Ou cantaremos Cee lo green: fuck you.
Porque um dia o outro chegou ao meu lado, olhou pra tela do meu computador e balançou a cabeça compaixonadamente, se houvesse essa palavra. O fluxograma que eu montava no power point comprovava minha ascensão na empresa. Nos refastelamos nas cadeiras de rodinhas que promoveriam uma corrida sensacional naquele corredor enorme e concluímos que quando se opta pelo caminho da criatividade o segredo é jamais exceder as metas no trabalho: fatalmente a recompensa será o seu orgulho e a administração dos novos criativos, a partir daí denominados de “subordinados”. Tal qual um rei você ficará sentado pensando que o bobo da corte se diverte muito mais, e ninguém entenderá por que quanto mais brilhante nas atuações mais ele te deprime. Cortem-lhe a cabeça – já que cortaram a nossa. E decididos a investir em planos B passamos a pensar na história do garoto loser que desconfia ser o único no planeta sem o dom de ler pensamentos alheios. Penso no roteiro, ele faz rabiscos de ilustrações, a jornada de oito horas acaba.
Porque iremos viajar no verão.
Porque aqui o mundo não será cão.
21.2.11
My lichia days
Não é sobre quem está do outro lado da rua.
E eu também nem sei se as histórias que lembramos realmente aconteceram. Provavelmente não.
Mas sair correndo entre os carros num impulso de impedir a partida do outro é bem diferente de atravessar a rua.
Leslie: (no poker) às vezes você perde o ritmo, lê a pessoa corretamente e ainda assim faz a coisa errada.
Elizabeth: Por que você acredita neles?
Leslie: Porque você não consegue nem mesmo acreditar em você.
My Blueberry Nights
E eu também nem sei se as histórias que lembramos realmente aconteceram. Provavelmente não.
Mas sair correndo entre os carros num impulso de impedir a partida do outro é bem diferente de atravessar a rua.
Leslie: (no poker) às vezes você perde o ritmo, lê a pessoa corretamente e ainda assim faz a coisa errada.
Elizabeth: Por que você acredita neles?
Leslie: Porque você não consegue nem mesmo acreditar em você.
My Blueberry Nights
14.2.11
O quesito evolução
Peguei a canoa andando e, se é essa a questão, quero sentar na janela sim. Quero inclusive falar com o remador, tenho umas idéias – que isso não é culpa minha, veio de fábrica, item de série. Carnaval eu conheço desde Petrópolis, do samba, por encantamento, me esforcei pra correr atrás, acrescente-se aí uma pitada de egoísmo e altas doses de carioquismo e temos argumentos suficientes pra um texto publicável.
Pra quem só conhecia a Sapucaí pela Globo e “pulava Carnaval” em bailes, atravessar a Rio Branco ensopada de chuva com o Bola Preta bradando Explode Coração foi um rito de passagem, liberdade abria as asas sobre nós! Antes disso fevereiro já era festa, cada um comprava uma fantasia pra ser usada em esquema de rodízio, os mais velhos nos enchiam de um gel chamado New Wave com purpurina que é capaz de estar até hoje entranhada nos tapetes seculares da casa da serra. Homens se vestiam de mulher, as fronhas velhas eram transformadas em máscaras que me davam um pouco de medo, o Petropolitano Football Club era o palco da algazarra. A banda descia do palco às 4 da manhã e arrastava até a rua os que já tinham idade pra estar no “Baile do Preto&Branco”.
Quando chovia muito (e desde aquela época Petrópolis já sofria com as águas de janeiro, fevereiro e março) o rádio virava a bateria e as serpentinas invadiam a biblioteca. Confete não! E espuma em spray, pro bem de todos, nem existia, no máximo o que saía dos tubinhos era um tal de lança-perfume, e os cartazes nas paredes dos salões que proibiam o uso me deixaram com a impressão de que as épocas passadas eram bem mais liberais do que a nossa - apesar dos meus pais insistirem que eles borrifavam lança no ar porque era geladinho...
A penca de crianças cresceu, a casa a família vendeu, e então quando o Escravos entoou que “quando eu fico triste o samba insiste em me levar” aquilo fez completo sentido – eco, como o do surdo. Dezenas de novas pessoas entraram na minha vida a partir dali: quatro dias de folia e brincadeira, nós pra lá e pra cá até quarta-feira. Se nenhuma cabrocha de velha guarda olhou torto pra lourinha desajeitada que caiu no huly-guly, que direito tenho eu agora de reclamar? O samba é democrático, querida! E o Carnaval é – ufa! - uma festa politicamente incorreta, vou botar no c* do trocador, dane-se o que ele tenha feito: eu quero botar meu bloco na rua e sambar com os garis e vassouras, arlequim nenhum tem coragem de chorar pelo amor da colombina no meio dessa multidão que pensa que Red Bull é água.
Se eu fosse sincera confessaria até que a banalização da coisa me faz olhar com enfado as ameaças de quem foi pago com traição por quem ele sempre deu a mão. Será que eu gostaria de ser um rei no meio dessa gente tão patrocinada, sem camisa, determinada a beijar o maior número de bocas possíveis que pensa que o Asa arreia e não entende quem é Monarco então “bora pro Chora me liga”? Não vai dar, não vai dar não. Ou vou não, quero não, posso não. Quando eu pude de novo me fantasiar de bailarina e atravessar o Leblon até o mar aquilo parecia tão ingênuo e seguro... Nunca mais vou cantar os versos lentos de Máscara Negra na Dias Ferreira? Nunca mais será um coro de foliões emocionados que não vão explodir na estrofe seguinte como micareteiros? Isso cria um déficit de poesia nos meus dias.
Ô Braguinha, essa gente que envelhece e torce o nariz pra molecada chama de insensatez um abadá... A vida passa, menina! O Monobloco já saiu da Gávea faz tempo, do 9 o Empolga foi pro 6 que em Ipanema não cabe mais a antes diminuta torcida americana do Odisséia. O bloco de hoje é daquele ator global mesmo, e não joga esse ar blasé pra cima do menino que coloca a mão na sua cintura porque os recém-grisalhos que compartilham da sua nostalgia um dia fizeram o mesmo em alguma colombina. Menina vai, com jeito vai, pra canoa não virar põe suas sapatilhas compradas no Saara e tira do armário as saias de filó.
Não leve nada a mal, apesar de tudo hoje é Carnaval.
Pra quem só conhecia a Sapucaí pela Globo e “pulava Carnaval” em bailes, atravessar a Rio Branco ensopada de chuva com o Bola Preta bradando Explode Coração foi um rito de passagem, liberdade abria as asas sobre nós! Antes disso fevereiro já era festa, cada um comprava uma fantasia pra ser usada em esquema de rodízio, os mais velhos nos enchiam de um gel chamado New Wave com purpurina que é capaz de estar até hoje entranhada nos tapetes seculares da casa da serra. Homens se vestiam de mulher, as fronhas velhas eram transformadas em máscaras que me davam um pouco de medo, o Petropolitano Football Club era o palco da algazarra. A banda descia do palco às 4 da manhã e arrastava até a rua os que já tinham idade pra estar no “Baile do Preto&Branco”.
Quando chovia muito (e desde aquela época Petrópolis já sofria com as águas de janeiro, fevereiro e março) o rádio virava a bateria e as serpentinas invadiam a biblioteca. Confete não! E espuma em spray, pro bem de todos, nem existia, no máximo o que saía dos tubinhos era um tal de lança-perfume, e os cartazes nas paredes dos salões que proibiam o uso me deixaram com a impressão de que as épocas passadas eram bem mais liberais do que a nossa - apesar dos meus pais insistirem que eles borrifavam lança no ar porque era geladinho...
A penca de crianças cresceu, a casa a família vendeu, e então quando o Escravos entoou que “quando eu fico triste o samba insiste em me levar” aquilo fez completo sentido – eco, como o do surdo. Dezenas de novas pessoas entraram na minha vida a partir dali: quatro dias de folia e brincadeira, nós pra lá e pra cá até quarta-feira. Se nenhuma cabrocha de velha guarda olhou torto pra lourinha desajeitada que caiu no huly-guly, que direito tenho eu agora de reclamar? O samba é democrático, querida! E o Carnaval é – ufa! - uma festa politicamente incorreta, vou botar no c* do trocador, dane-se o que ele tenha feito: eu quero botar meu bloco na rua e sambar com os garis e vassouras, arlequim nenhum tem coragem de chorar pelo amor da colombina no meio dessa multidão que pensa que Red Bull é água.
Se eu fosse sincera confessaria até que a banalização da coisa me faz olhar com enfado as ameaças de quem foi pago com traição por quem ele sempre deu a mão. Será que eu gostaria de ser um rei no meio dessa gente tão patrocinada, sem camisa, determinada a beijar o maior número de bocas possíveis que pensa que o Asa arreia e não entende quem é Monarco então “bora pro Chora me liga”? Não vai dar, não vai dar não. Ou vou não, quero não, posso não. Quando eu pude de novo me fantasiar de bailarina e atravessar o Leblon até o mar aquilo parecia tão ingênuo e seguro... Nunca mais vou cantar os versos lentos de Máscara Negra na Dias Ferreira? Nunca mais será um coro de foliões emocionados que não vão explodir na estrofe seguinte como micareteiros? Isso cria um déficit de poesia nos meus dias.
Ô Braguinha, essa gente que envelhece e torce o nariz pra molecada chama de insensatez um abadá... A vida passa, menina! O Monobloco já saiu da Gávea faz tempo, do 9 o Empolga foi pro 6 que em Ipanema não cabe mais a antes diminuta torcida americana do Odisséia. O bloco de hoje é daquele ator global mesmo, e não joga esse ar blasé pra cima do menino que coloca a mão na sua cintura porque os recém-grisalhos que compartilham da sua nostalgia um dia fizeram o mesmo em alguma colombina. Menina vai, com jeito vai, pra canoa não virar põe suas sapatilhas compradas no Saara e tira do armário as saias de filó.
Não leve nada a mal, apesar de tudo hoje é Carnaval.
12.2.11
28.1.11
Para manter o equílibrio*
Tudo ia bem. Sob controle, o que na maioria das situações é mais do que bem. Perder o controle, inclusive, passou a ser um dos meus piores pesadelos, loshermanamente eu diria “deixa o verão pra mais tarde”. É tempo de se estabilizar. Depois de dias turbulentos pude até – pasmem - sair de férias! Sem relógio, sem jornal, sem responsabilidades, vinte e um dias. Sim, eu chequei se as janelas estavam mesmo fechadas antes de sair, conferi o passaporte na bolsa, tive certeza de que as contas estavam pagas, funções delegadas, entrei naquele avião! No pior dos casos explodiria uma guerra civil no meu destino de descanso ou um vulcão entraria em erupção, o que quer que acontecesse só poderia ser resolvido na hora. Fui.
“Auguri!”, eles gritavam. Mesmo, gritavam, os decibéis italianos são um pouco incômodos aos meus ouvidos, mas desejavam essa felicidade com tal entusiasmo que além do “ciao” e “prego” acrescentei a palavra ao meu reduzido tradutor mental, e sem me preocupar obsessivamente em conquistá-la fui degustando os dias na Itália como aprendi a fazer com cada vinho e comida oferecida. Não é que isso é bom mesmo? Só na volta me dei conta de que tudo tinha sido tão bom, eu realmente tinha estado lá: minhas rabugentices, neuroses e medos viajaram junto com a curiosidade, as lembranças, palhaçadas e todos co-existiram bem. Tudo era parte do que eu sou e aceitar é um pequeno passo pra humanidade, mas gigantesco pra astronauta em questão.
Já estava esse calor quando saí? De novo a serra sofreu com as chuvas! Onde era mesmo que estávamos no projeto? Nossa, foi um mês, mas temos tanta coisa pra conversar! A Dilma, como está? E os dias foram passando com aquele clima de duas doses acima típico de pós-férias, nada era grave, um frescor. Até que... serpente? O quê?
“O Sol e a Terra estão se movendo lentamente e assim a estrela do seu signo não é mais a mesma de quando ele foi atribuído ao seu nascimento, milhares de anos atrás”. Enquanto eu me perdia nas estradinhas toscanas um certo astrônomo foi à TV proclamar mudanças no zodíaco, estava criado um novo signo. Então eu saio de cena por uns poucos dias e mudam tudo? Mudam eu? Já aceitei a mudança da gramática, minhas idéias perderam o acento, agora precisam perder o rumo? Por definição devo pensar em cálculos e não mais em arte, nunca fui metódica! Organização mental... Tivesse a mínima ordem na minha cabeça e não existiriam tantas palavras despejadas do meu cérebro atordoado nesse espaço. Eu já tomei decisões baseada em horóscopo, da Capricho ao último astrólogo-formado-em-psicologia consultado encarei muito Mercúrio retrógrado nessa vida. Perdoei capricorniano com ascendente em leão, devia ter mandado o garoto longe com fúria escorpiana! Perdi horas lendo o meu horóscopo e o dos alvos da ocasião pra saber como agir, me habituei a sorrir pra todos os arianos que cruzam meu torto caminho. Tudo errado? Então o problema estava aí desde 1930 e eu vagando de consultório em consultório buscando “me entender”?
Ninguém termina casamento da noite para o dia, não se inverte mão de rua sem prévia comunicação nem se abandona trabalho abruptamente, certas alterações requerem aviso prévio. Astrologia é coisa séria, sabe-se lá quantos cancerianos adorariam ser easy-rider, odeiam a vida em família, mas insistem só porque o mapa astral falou? Eu poderia ter me casado equivocadamente pressionada pelo retorno de Saturno! Quem banca isso agora, defensores do Butantã? Não. Libriana-indecisa ou virginiana-com-TOC, a decisão está tomada: não mudarei de personalidade. Tal qual Paulinho da Viola, eu sou assim. Ô astrônomo revolucionário, se quiser gostar de mim... me liga mais tarde. Rápido, que librianos mudam de idéia com as fases da lua. E ainda usam acento.
* Ou "Para a Lalol e o André"
“Auguri!”, eles gritavam. Mesmo, gritavam, os decibéis italianos são um pouco incômodos aos meus ouvidos, mas desejavam essa felicidade com tal entusiasmo que além do “ciao” e “prego” acrescentei a palavra ao meu reduzido tradutor mental, e sem me preocupar obsessivamente em conquistá-la fui degustando os dias na Itália como aprendi a fazer com cada vinho e comida oferecida. Não é que isso é bom mesmo? Só na volta me dei conta de que tudo tinha sido tão bom, eu realmente tinha estado lá: minhas rabugentices, neuroses e medos viajaram junto com a curiosidade, as lembranças, palhaçadas e todos co-existiram bem. Tudo era parte do que eu sou e aceitar é um pequeno passo pra humanidade, mas gigantesco pra astronauta em questão.
Já estava esse calor quando saí? De novo a serra sofreu com as chuvas! Onde era mesmo que estávamos no projeto? Nossa, foi um mês, mas temos tanta coisa pra conversar! A Dilma, como está? E os dias foram passando com aquele clima de duas doses acima típico de pós-férias, nada era grave, um frescor. Até que... serpente? O quê?
“O Sol e a Terra estão se movendo lentamente e assim a estrela do seu signo não é mais a mesma de quando ele foi atribuído ao seu nascimento, milhares de anos atrás”. Enquanto eu me perdia nas estradinhas toscanas um certo astrônomo foi à TV proclamar mudanças no zodíaco, estava criado um novo signo. Então eu saio de cena por uns poucos dias e mudam tudo? Mudam eu? Já aceitei a mudança da gramática, minhas idéias perderam o acento, agora precisam perder o rumo? Por definição devo pensar em cálculos e não mais em arte, nunca fui metódica! Organização mental... Tivesse a mínima ordem na minha cabeça e não existiriam tantas palavras despejadas do meu cérebro atordoado nesse espaço. Eu já tomei decisões baseada em horóscopo, da Capricho ao último astrólogo-formado-em-psicologia consultado encarei muito Mercúrio retrógrado nessa vida. Perdoei capricorniano com ascendente em leão, devia ter mandado o garoto longe com fúria escorpiana! Perdi horas lendo o meu horóscopo e o dos alvos da ocasião pra saber como agir, me habituei a sorrir pra todos os arianos que cruzam meu torto caminho. Tudo errado? Então o problema estava aí desde 1930 e eu vagando de consultório em consultório buscando “me entender”?
Ninguém termina casamento da noite para o dia, não se inverte mão de rua sem prévia comunicação nem se abandona trabalho abruptamente, certas alterações requerem aviso prévio. Astrologia é coisa séria, sabe-se lá quantos cancerianos adorariam ser easy-rider, odeiam a vida em família, mas insistem só porque o mapa astral falou? Eu poderia ter me casado equivocadamente pressionada pelo retorno de Saturno! Quem banca isso agora, defensores do Butantã? Não. Libriana-indecisa ou virginiana-com-TOC, a decisão está tomada: não mudarei de personalidade. Tal qual Paulinho da Viola, eu sou assim. Ô astrônomo revolucionário, se quiser gostar de mim... me liga mais tarde. Rápido, que librianos mudam de idéia com as fases da lua. E ainda usam acento.
* Ou "Para a Lalol e o André"
25.12.10
18.12.10
Tout ça m'est bien égal
Então, Cherie, isto é o ensaio aberto de linhas para você. Só nos veremos agora quase em fevereiro! Pelo mesmo motivo que não desejei feliz natal ou ano novo tampouco farei contas. Sei que você entende.
De tão entediada já dei banho no cachorro três vezes essa semana. Ele começa a me olhar com a mesma cara de quando eu torcia pra que a mania de morder tudo ao redor acabasse. Um dia o segurei no ar, mostrei os quilômetros de brinquedos pelo chão e perguntei: você tem tudo, por que diabos insiste em querer sempre alguma outra coisa? Percebi a armadilha e acho que ele fez “humpf”.
Como uma delinquente dei play na música sabendo que aquilo traria recordações. Queria sentir saudade dos emails bêbados, gargalhadas de dia seguinte, Something que não fosse Beatles. Sinto é uma coceira nas pernas e essa cigarra cantando até explodir. Coitada da cigarra. Será mesmo que o barulho é indício de calor ou a pobre só está agindo como sua natureza? Uma de nos checará no Google. É péssimo que em um dado dia você se pegue em um flashback e imediatamente se acuse de estar exatamente igual ao que estava há um ano. Ou a sempre.
Cobraram-me um texto noutro dia. “O texto de fim de ano”, ela disse. Uma querida! Não quis desapontá-la, ela deve entender. A música do teclado dá saudade quando não toca mais, vez ou outra forço uma tentativa de aplacar o incômodo desse blog não atualizado e vem uma vontade de dizer aos leitores “sua atenção é muito importante para mim, no momento todos os neurotransmissores estão ocupados, por favor volte mais tarde”. Ou vontade freudiana que às vezes é só uma vontade ou Duchamps caberia melhor? Humpf. Desejo, necessidade titânica, anestesiada, vira um pensamento-nuvem. Dissipa-se.
Quero dizer que não haverá retrospectivas? Perceberão, certo? Sem mais delongas a ausência delas dirá, com menos graça e redemoinhos, que seguimos. Sem fogos, mais uma folha arrancada no calendário de parede - não fosse o celular meu único recurso externo a marcar o tempo. Não começamos mais novas agendas da Company, no Outlook o último dia de dezembro é atualizado à meia-noite pelo primeiro de janeiro como se fosse abril, nenhum rito de passagem. Triste a vida dos que nada celebram, não? Entendo.
Fôlego é o que tomo todos os dias, brindemos no café da manhã!
Pour moi, croissant et fromage. A tout a l’heure.
De tão entediada já dei banho no cachorro três vezes essa semana. Ele começa a me olhar com a mesma cara de quando eu torcia pra que a mania de morder tudo ao redor acabasse. Um dia o segurei no ar, mostrei os quilômetros de brinquedos pelo chão e perguntei: você tem tudo, por que diabos insiste em querer sempre alguma outra coisa? Percebi a armadilha e acho que ele fez “humpf”.
Como uma delinquente dei play na música sabendo que aquilo traria recordações. Queria sentir saudade dos emails bêbados, gargalhadas de dia seguinte, Something que não fosse Beatles. Sinto é uma coceira nas pernas e essa cigarra cantando até explodir. Coitada da cigarra. Será mesmo que o barulho é indício de calor ou a pobre só está agindo como sua natureza? Uma de nos checará no Google. É péssimo que em um dado dia você se pegue em um flashback e imediatamente se acuse de estar exatamente igual ao que estava há um ano. Ou a sempre.
Cobraram-me um texto noutro dia. “O texto de fim de ano”, ela disse. Uma querida! Não quis desapontá-la, ela deve entender. A música do teclado dá saudade quando não toca mais, vez ou outra forço uma tentativa de aplacar o incômodo desse blog não atualizado e vem uma vontade de dizer aos leitores “sua atenção é muito importante para mim, no momento todos os neurotransmissores estão ocupados, por favor volte mais tarde”. Ou vontade freudiana que às vezes é só uma vontade ou Duchamps caberia melhor? Humpf. Desejo, necessidade titânica, anestesiada, vira um pensamento-nuvem. Dissipa-se.
Quero dizer que não haverá retrospectivas? Perceberão, certo? Sem mais delongas a ausência delas dirá, com menos graça e redemoinhos, que seguimos. Sem fogos, mais uma folha arrancada no calendário de parede - não fosse o celular meu único recurso externo a marcar o tempo. Não começamos mais novas agendas da Company, no Outlook o último dia de dezembro é atualizado à meia-noite pelo primeiro de janeiro como se fosse abril, nenhum rito de passagem. Triste a vida dos que nada celebram, não? Entendo.
Fôlego é o que tomo todos os dias, brindemos no café da manhã!
Pour moi, croissant et fromage. A tout a l’heure.
7.12.10
5.12.10
2.12.10
24.10.10
Um versinho
Faltou eu no vídeo. Tínhamos que gravar um depoimento contando como soubemos da sua existência, ficou uma graça. Faltando um mês pra você nascer, fizemos uma festa e demos de presente pra sua mãe. Mas eu não achei nada para dizer.
Sabe, pequenino, tenho fugido das minhas emoções. Tem tanta coisa que dói e gente que machuca, o jeito foi por um tempo não olhar pra dentro. Ênfase no “por um tempo”, tá? Não recomendo a você fechar os olhos pra nada, fingir que não existe ou esconder nunca dá certo, a gente sabe, em algum cantinho o sapato sempre aperta e uma hora o caldo entorna. Adianto que viver de verdades também vai te gerar um bocado de problemas, infinitas acusações, é estranho porém muito mais usual que se viva por aí com sorrisos falsos do que lágrimas verdadeiras. O povo tem pavor de lágrima mesmo depois da santa invenção do rímel à prova d’água! E eu, se for juntar tudo que chorei, girininho, haja lencinho de papel. Agora mesmo cá estou de novo assoando meu nariz vermelho, pronta pra enfim te contar a tal historia, que quando vi sua bisavó na TV dizendo coisas bonitas não me contive e mais uma vez me pus a chorar!
Eu tinha ido para São Paulo no fim de semana e ao pisar em casa de volta sua mãe ligou. Só sua mãe liga aqui pra casa, além da minha. Ela tinha ido a um casamento, anunciou novidades, eu obviamente esperava alguma fofoca da festa! “Estou grávida”. Igual à lembrança do que estávamos fazendo na hora da noticia da morte do Ayrton Senna, essa também jamais vai se apagar da memória. Diante do silêncio ela completou: “é, Gata”. Sua mãe costuma completar com “é, gata” as frases que ela solta e vê que nos causam espanto. Então comecei a chorar. Muito. Em pé na sala roxa, telefone azul na mão, um sentimento de felicidade tomou conta de mim e de repente eu tinha uma razão muito forte para viver até novembro: vinha uma pessoinha nova pro mundo! Um serzinho minúsculo, indefeso, inocente de quem eu precisaria cuidar. Nunca, como diria nosso atual presidente de quem um dia você ouvirá falar, nunca na história da minha vida senti um amor tão imenso e imediato por alguém. E nunca pensei que essas palavras pudessem ser mais do que cafonas e simples clichês.
Sobre as coisas por aqui, vou te contar a verdade: É, Gato, às vezes as pessoas mentem, magoam a gente, tanta gente, mesmo sem querer, abala nossa fé. Alguns dias sofridos, minutos mal-vividos, horas que nem os velhinhos contentes conseguem esquecer. Tem tanta miopia, banho de água fria, a gente até pensa se quer mesmo viver. Mas olha, girininho, quando o mundo ficar escuro, o jogo muito duro, se lembra que a sua chegada fez uma menina tão cansada reacreditar no bem querer.
Sabe, pequenino, tenho fugido das minhas emoções. Tem tanta coisa que dói e gente que machuca, o jeito foi por um tempo não olhar pra dentro. Ênfase no “por um tempo”, tá? Não recomendo a você fechar os olhos pra nada, fingir que não existe ou esconder nunca dá certo, a gente sabe, em algum cantinho o sapato sempre aperta e uma hora o caldo entorna. Adianto que viver de verdades também vai te gerar um bocado de problemas, infinitas acusações, é estranho porém muito mais usual que se viva por aí com sorrisos falsos do que lágrimas verdadeiras. O povo tem pavor de lágrima mesmo depois da santa invenção do rímel à prova d’água! E eu, se for juntar tudo que chorei, girininho, haja lencinho de papel. Agora mesmo cá estou de novo assoando meu nariz vermelho, pronta pra enfim te contar a tal historia, que quando vi sua bisavó na TV dizendo coisas bonitas não me contive e mais uma vez me pus a chorar!
Eu tinha ido para São Paulo no fim de semana e ao pisar em casa de volta sua mãe ligou. Só sua mãe liga aqui pra casa, além da minha. Ela tinha ido a um casamento, anunciou novidades, eu obviamente esperava alguma fofoca da festa! “Estou grávida”. Igual à lembrança do que estávamos fazendo na hora da noticia da morte do Ayrton Senna, essa também jamais vai se apagar da memória. Diante do silêncio ela completou: “é, Gata”. Sua mãe costuma completar com “é, gata” as frases que ela solta e vê que nos causam espanto. Então comecei a chorar. Muito. Em pé na sala roxa, telefone azul na mão, um sentimento de felicidade tomou conta de mim e de repente eu tinha uma razão muito forte para viver até novembro: vinha uma pessoinha nova pro mundo! Um serzinho minúsculo, indefeso, inocente de quem eu precisaria cuidar. Nunca, como diria nosso atual presidente de quem um dia você ouvirá falar, nunca na história da minha vida senti um amor tão imenso e imediato por alguém. E nunca pensei que essas palavras pudessem ser mais do que cafonas e simples clichês.
Sobre as coisas por aqui, vou te contar a verdade: É, Gato, às vezes as pessoas mentem, magoam a gente, tanta gente, mesmo sem querer, abala nossa fé. Alguns dias sofridos, minutos mal-vividos, horas que nem os velhinhos contentes conseguem esquecer. Tem tanta miopia, banho de água fria, a gente até pensa se quer mesmo viver. Mas olha, girininho, quando o mundo ficar escuro, o jogo muito duro, se lembra que a sua chegada fez uma menina tão cansada reacreditar no bem querer.
23.10.10
Lar, salgado lar (ou FormiguinhaZ)
Decidi sempre deixar duas formigas vivas. Uma seria muita carga para a pobre, três construiria uma relação triangular fadada a turbulências, dois garante um suporte emocional, a calma de olhar pro lado e ter quem já passou pelo mesmo, dividirão o peso.
Sempre evito matá-las, temos um acordo sobre limites, aceito que co-habitem meu espaço ainda que de graça, mas quando é inevitável costumava afogar todas ou Matoxiza-las. Mal-humorada dia desses, descobri a casa delas debaixo do mármore da pia e pronto, exterminei-as. Cuidei para que quem não estava em casa morresse também, assim a minha cozinha não viraria o antro das lamentações e eu não viveria com aquela energia pesada de formigas em luto. Dias depois, atraídas pela aguinha de um tomate, elas voltaram.
Não acredito que a tomada de novos territórios pelas formigas seja rápido como de morros por facções, então calculei que aquelas eram sobreviventes da população chacinada, os dias em que habitei sozinha o apartamento deve ter sido o tempo que elas levaram para se refazer da perda. Há muito que observo nas formigas essa capacidade de lidar com a perda, pense em como estão acostumadas com isso! Foi daí que instituí a lei própria de nunca deixar uma em pé para ser a arauta da desgraça, a que entra no formigueiro em horário inesperado, já causando apreensão, e dá a notícia. No entanto hoje de manhã, ao ver as poucas retornadas, pensei na dor das famílias sem notícias sobre seus entes desaparecidos e concluí que a dúvida é pior do que a mais cruel das certezas ainda que a primeira permita uma confortável ilusão, e julguei mais humano sempre poupar duas.
Não estou certa de que a chegada da noticia na comunidade cause drama, acredito na aceitação desse povo às baixas, imagino que sejam bem-resolvidas e sigam outros códigos, mas, baseada no relato de mães de soldados mortos em combate e nas cenas da Norah Walker em Brothers and Sisters, dentro dos meus domínios quero que o relato chegue àquelas sociedades. Seja para chorar uma ausência ou condecorar seus heróis, é preciso que haja um rito de passagem bem marcado para a vida seguir adiante, e assim anuncio que sempre pouparei duas formigas.
É como repetiu John Lennon: pense globalmente, aja localmente.
Sempre evito matá-las, temos um acordo sobre limites, aceito que co-habitem meu espaço ainda que de graça, mas quando é inevitável costumava afogar todas ou Matoxiza-las. Mal-humorada dia desses, descobri a casa delas debaixo do mármore da pia e pronto, exterminei-as. Cuidei para que quem não estava em casa morresse também, assim a minha cozinha não viraria o antro das lamentações e eu não viveria com aquela energia pesada de formigas em luto. Dias depois, atraídas pela aguinha de um tomate, elas voltaram.
Não acredito que a tomada de novos territórios pelas formigas seja rápido como de morros por facções, então calculei que aquelas eram sobreviventes da população chacinada, os dias em que habitei sozinha o apartamento deve ter sido o tempo que elas levaram para se refazer da perda. Há muito que observo nas formigas essa capacidade de lidar com a perda, pense em como estão acostumadas com isso! Foi daí que instituí a lei própria de nunca deixar uma em pé para ser a arauta da desgraça, a que entra no formigueiro em horário inesperado, já causando apreensão, e dá a notícia. No entanto hoje de manhã, ao ver as poucas retornadas, pensei na dor das famílias sem notícias sobre seus entes desaparecidos e concluí que a dúvida é pior do que a mais cruel das certezas ainda que a primeira permita uma confortável ilusão, e julguei mais humano sempre poupar duas.
Não estou certa de que a chegada da noticia na comunidade cause drama, acredito na aceitação desse povo às baixas, imagino que sejam bem-resolvidas e sigam outros códigos, mas, baseada no relato de mães de soldados mortos em combate e nas cenas da Norah Walker em Brothers and Sisters, dentro dos meus domínios quero que o relato chegue àquelas sociedades. Seja para chorar uma ausência ou condecorar seus heróis, é preciso que haja um rito de passagem bem marcado para a vida seguir adiante, e assim anuncio que sempre pouparei duas formigas.
É como repetiu John Lennon: pense globalmente, aja localmente.
15.10.10
Como nossos pais
Imagina se sua empresa tivesse promovido um Dia das Crianças no escritório. Seu escritório ficasse em um prédio com nove andares e em cada um você tivesse contabilizado cerca de 100 pessoas. 100 porque viu uma multidão sentada em baias olhando para computadores, nem enxergou o final da sala então pensou logo na centena, parâmetro numérico possível pra quem só sabe que um metro é menos do que sua altura, dois equivalem a um homem enorme, a ciclovia da Lagoa tem oito quilômetros, entre um posto e outro na orla são oitocentos metros e a régua da escola tinha trinta centímetros.
Digamos que no tal dia os colaboradores levassem seus filhos, então atrações seriam organizadas para diverti-los, pipoca, sorvete e flores fossem distribuídos (e você logo desconfiaria que as flores envolviam algum clichê cafona). Enquanto você estivesse lendo os emails do dia, garotinhos louros e meninas de cabelos cacheados correriam pelo corredor gritando porque crianças não andam nem falam baixo. Como idéia genial para diminuir os decibéis você organizasse uma sessão de Lua Nova, convocasse o publico mirim e saisse como o flautista de Hamelin guiando todos até a distante sala de TV proporcionando a volta à normalidade antes da primeira telespectadora sair gritando “mãe, sangueeeee!”.
Digamos que inicialmente você sugerisse aproveitar a mão-de-obra extra e distribuir tarefas atrasadas entre eles como uma gincana: quem arrumar o arquivo primeiro ganha um calendário! A melhor resposta para idéias inúteis vale um porta-crachá! – mas no meio do dia admitisse que as crianças até dão um clima de humanidade ao ambiente.
Digamos que ao tirar os tampões de ouvido, melhor mimo oferecido pela TAM, ouvisse o espanto provocado pela visão de uma máquina de biscoitos na saída do elevador: “papai, você come isso o dia todo?”, que é diferente de dizer que isso é tudo que papai come em quase todos os dias.
Digamos que o encantamento dos filhos por desvendar o tão famoso “trabalho dos pais’ fizesse você se lembrar do que representava ir trabalhar com seu pai na cidade anos atrás. O Centro era um vai e vem de pernas cinzas onde você tinha que dar muitos passinhos rápidos segurando a mão dos adultos, pessoas se abaixavam para te olhar e davam papeis de rascunho para você desenhar em mesas por onde era levada de uma em uma para ser apresentada, sempre fascinada pelas maquinas enormes de escrever que eram terminantemente proibidas para menores porque acabava a fita.
Digamos que apesar de considerar aqueles papéis-carbono muito glamourosos você ficasse observando o cenário e decidindo que quando crescesse não queria nada daquilo, planejasse um futuro colorido, pessoas em movimento, imaginasse um trabalho em que cada dia fosse diferente do outro e não houvesse paredes sem janelas.
Digamos que um dia você se visse trabalhando com sono por ter passado a noite tentando comprar ingresso pro show de um Beatle, depois de duas Neosaldinas se rendesse, recostasse na cadeira e ficasse vendo as crianças brincando de aviãozinho. Ainda insistiria em falar das coisas que aprendeu nos discos ou essa lembrança seria o quadro que dói mais?
Digamos que no tal dia os colaboradores levassem seus filhos, então atrações seriam organizadas para diverti-los, pipoca, sorvete e flores fossem distribuídos (e você logo desconfiaria que as flores envolviam algum clichê cafona). Enquanto você estivesse lendo os emails do dia, garotinhos louros e meninas de cabelos cacheados correriam pelo corredor gritando porque crianças não andam nem falam baixo. Como idéia genial para diminuir os decibéis você organizasse uma sessão de Lua Nova, convocasse o publico mirim e saisse como o flautista de Hamelin guiando todos até a distante sala de TV proporcionando a volta à normalidade antes da primeira telespectadora sair gritando “mãe, sangueeeee!”.
Digamos que inicialmente você sugerisse aproveitar a mão-de-obra extra e distribuir tarefas atrasadas entre eles como uma gincana: quem arrumar o arquivo primeiro ganha um calendário! A melhor resposta para idéias inúteis vale um porta-crachá! – mas no meio do dia admitisse que as crianças até dão um clima de humanidade ao ambiente.
Digamos que ao tirar os tampões de ouvido, melhor mimo oferecido pela TAM, ouvisse o espanto provocado pela visão de uma máquina de biscoitos na saída do elevador: “papai, você come isso o dia todo?”, que é diferente de dizer que isso é tudo que papai come em quase todos os dias.
Digamos que o encantamento dos filhos por desvendar o tão famoso “trabalho dos pais’ fizesse você se lembrar do que representava ir trabalhar com seu pai na cidade anos atrás. O Centro era um vai e vem de pernas cinzas onde você tinha que dar muitos passinhos rápidos segurando a mão dos adultos, pessoas se abaixavam para te olhar e davam papeis de rascunho para você desenhar em mesas por onde era levada de uma em uma para ser apresentada, sempre fascinada pelas maquinas enormes de escrever que eram terminantemente proibidas para menores porque acabava a fita.
Digamos que apesar de considerar aqueles papéis-carbono muito glamourosos você ficasse observando o cenário e decidindo que quando crescesse não queria nada daquilo, planejasse um futuro colorido, pessoas em movimento, imaginasse um trabalho em que cada dia fosse diferente do outro e não houvesse paredes sem janelas.
Digamos que um dia você se visse trabalhando com sono por ter passado a noite tentando comprar ingresso pro show de um Beatle, depois de duas Neosaldinas se rendesse, recostasse na cadeira e ficasse vendo as crianças brincando de aviãozinho. Ainda insistiria em falar das coisas que aprendeu nos discos ou essa lembrança seria o quadro que dói mais?
4.10.10
1.10.10
27.9.10
Life In A Day
O item mais estranho é um gel higienizador de mãos que passou a fazer parte da minha vida desde que calculei a quantidade de pessoas que seguram os postezinhos do metrô (os que me fazem pensar em como seria legal se alguém fizesse um pole dance inesperado). Tem sempre papéis, odeio-os, não é possível que eu precise receber tantos. Os óbvios: carteira, telefone, chaves de casa, cada vez mais raramente chaves e documento do carro, corretivo pras inseparáveis olheiras e moleskine pras inseparáveis inspirações, o crachá do trabalho – objeto inversamente proporcional ao moleskine – duas ou três canetas sei lá por que, guarda-chuva devido à quantidade de dias nublados e um floral devido à quantidade de dias em que eu estive nublada recentemente.
Rio muito do politicamente incorreto, você mesmo diz que sem sarcasmo não sou eu. A rotina na lente de aumento comentada por quem tem sinapses rápidas e línguas mordazes me faz virar o Flipper dando piruetas , eu poderia viver com o Fabio Porchat. Tenho medo de ficar sozinha. Não em casa ou nos sábados à noite, na vida. Velhinha. Mais velha ou amanhã. Amo filhotes. Cachorros em geral, praia e talvez você. Amar você e ficar sozinha podem estar relacionados – eu poderia estar sozinha por amar você ou inventar de amar você pra não ficar sozinha - mas acho que não é isso não, nem tenho me sentido sozinha e se o arrebatamento de alegria por ter você por perto é amar eu te amo, senão é só bom mesmo e o que amo com certeza são os filhotes. E vento! Amo vento. Entendo bem cachorros nas janelas dos carros.
Agora vem o snapshot do meu dia, escolhi hoje porque em 24/07/2010 não me lembrei de você, ontem foi bom, anteontem ótimo, mas estou num momento presente e acabei de saber do filme, vai ser hoje. Eu deveria explicar sobre o filme antes: Ridley Scott e Kevin Macdonald pediram no You Tube vídeos sobre um dia na Terra, uma passagem qualquer de 24 de julho de 2010. Receberam 80 mil e vão montar um longa-metragem, registro histórico, trabalho colaborativo, lançamento em Sundance 2011. Fizeram as perguntas acima: o que tem no seu bolso, o que faz você rir, do que tem medo e o que ama.
Gravando: (trilha a definir)
Espreguiço-Nescau-caminho-escritório-conversinhas-email pra você (“já desistiu de ficar sem mim? carinha feliz”)- power points banais-plano geral da sala gigante.
Enquanto você não responder continuará um dia feliz, depois volta ao normal ou fica muito mais feliz por mais tempo.
I just did it.
Fim.
Rio muito do politicamente incorreto, você mesmo diz que sem sarcasmo não sou eu. A rotina na lente de aumento comentada por quem tem sinapses rápidas e línguas mordazes me faz virar o Flipper dando piruetas , eu poderia viver com o Fabio Porchat. Tenho medo de ficar sozinha. Não em casa ou nos sábados à noite, na vida. Velhinha. Mais velha ou amanhã. Amo filhotes. Cachorros em geral, praia e talvez você. Amar você e ficar sozinha podem estar relacionados – eu poderia estar sozinha por amar você ou inventar de amar você pra não ficar sozinha - mas acho que não é isso não, nem tenho me sentido sozinha e se o arrebatamento de alegria por ter você por perto é amar eu te amo, senão é só bom mesmo e o que amo com certeza são os filhotes. E vento! Amo vento. Entendo bem cachorros nas janelas dos carros.
Agora vem o snapshot do meu dia, escolhi hoje porque em 24/07/2010 não me lembrei de você, ontem foi bom, anteontem ótimo, mas estou num momento presente e acabei de saber do filme, vai ser hoje. Eu deveria explicar sobre o filme antes: Ridley Scott e Kevin Macdonald pediram no You Tube vídeos sobre um dia na Terra, uma passagem qualquer de 24 de julho de 2010. Receberam 80 mil e vão montar um longa-metragem, registro histórico, trabalho colaborativo, lançamento em Sundance 2011. Fizeram as perguntas acima: o que tem no seu bolso, o que faz você rir, do que tem medo e o que ama.
Gravando: (trilha a definir)
Espreguiço-Nescau-caminho-escritório-conversinhas-email pra você (“já desistiu de ficar sem mim? carinha feliz”)- power points banais-plano geral da sala gigante.
Enquanto você não responder continuará um dia feliz, depois volta ao normal ou fica muito mais feliz por mais tempo.
I just did it.
Fim.
23.9.10
*Miss that plane
Expresso Darjeeling, identificado por mim como “tenembaums”, não vi, assim como não vi I´m not there, “Death Proof-Tarantino”, O outro lado da cama, A Captura dos Friedman nem Fay Grim, traduzido como “henry fool”. Eram tantos filmes selecionados que às vezes nem eu mesma sabia por que tinha marcado aquele se não rabiscasse uma dica ao lado. O disputadíssimo Paranoid Park, do famooooso Gus van Sant, nunca nem procurei na locadora. Tem filme que é de cinema, e essa opinião não mudou.
Encantada por Albergue Espanhol, me enfiei no São Luiz no meio de uma tarde pra ver Bonecas Russas, só tinha lá, estava esgotado em todos os outros lugares. Esgotado como Os Sonhadores, Aos Treze, Pieces of April, só Encontros e Desencontros consegui comprar com a antecedência precavida que revelava a solenidade da ocasião. E Antes do Pôr-do-Sol. Pra explicar o calafrio que a perda daquele avião no final causou seria preciso revelar a Teoria do Elástico, e se já nem me lembro mais às voltas com qual fantasma eu andava posso deixar essa memória pra trás. Já exorcizei Caché, que até hoje não entendi, e fique à vontade quem quiser explicar tanto entusiasmo por aquela galinha.
O suplemento do Globo publicado na véspera da abertura ajudava muito, mas antes disso já começávamos a confecção e comparação das planilhas com opções de lugares, dias e as cores indicando o grau de preferência de cada filme que queríamos assistir. Era legal dizer “o do Almodovar” ao invés de “Má Educação”, sendo que “La Mala Educacion” no original também valia. Ou vale ainda, não sei mais.
Esse ano eu vou. Vai começar o festival. Festival do Rio.
Sempre tinha um Almodovar pra causar rebuliço e os novatos poderem dizer que foram ao Festival. Ok, e os veteranos também, que não se contentavam em assistir à estréia massificada em circuito oficial uma semana depois. Como se Almodovar fosse massificavel... Era glamouroso depois dizer “é bom, vi no Festival”. E sempre tinha o Gael. Gael num filme do Gondry é uma combinação como morango e chocolate, tão delicioso, isso ficou. “Super-fine” é como ele definia se sentir em Science of Sleep, e a expressão virou uma piada interna. Ficou a lembrança tristonha daquela gargalhada a dois no escuro e uma rápida boa herança para espantar o saudosismo – Maggie May ainda toca! E sem danos que nem tudo é tão difícil, desde Lords of Dogtown, agradável surpresa apresentada pela companhia da época no finado Paissandu. Para completar o parágrafo-cemitério ele termina com caipirinha na fila do Odeon esperando a premiere de Noiva Cadáver de Tim Burton. Premiere no Odeon transforma um filme.
Um dia descobrimos que legenda queimada na tela indicava que o filme entraria em circuito depois, e até um site oficial com as estréias do ano era repassado para tranqüilizar quem não tivesse comprado ingresso a tempo na interminável e tensa fila do Estação. Acho que não precisa mais mofar na fila. Não sei.
Foi no Estação que conheci o cinema argentino e aprendi a dizer que, como o italiano, ele é diferente. Bom. Um inteligente, o outro sublime. Com os anos las películas ganharam uma platéia menos uniforme, figurinos além das camisas xadrez e tênis estilosos dos homens e das mulheres de saias largas e blusas sobrepostas fumando na porta. Já se pode tomar banho e fazer a barba antes de ver um filme do Festival. Eu acho.
Pra mim passou a fase de filmes raros com direito a perguntas para cineastas iranianas depois da exibição, uma vez presa em uma sala mínima com uma delas e superei essa necessidade de “coolzice-intelectual”, me permiti admitir que acho chato. Chato é bem diferente de interessante, mesmo em festival. Filme interessante no festival tem avant-premiere nas conversas prévias e só termina nos debates posteriores. Tem que cutucar.
Nunca consegui ver milhares de filmes seguidos e depois de um tempo aceitei nem marcar sessões antes das três da tarde, me tornei sincera e segura. Entrar de sala em sala é como excursão à Europa com dez capitais em sete dias, na volta o turista coloca Notre Dame em Roma e cinema no festival tem que ser a maior imersão, precisa de tempo para assentar.
Pra retrospectiva ficar completa falta preencher as reticências depois do verbo que define Ricardo Darin. Ricardo Darin é... meu “Un certain regard hors-concours”, e essa é a frase mais metida a cinéfila besta desse festival de "era assim". Esse ano ele está lá, talvez com Gael e um Almodóvar? Esse ano eu vou. Sair diferente, quem sabe um pouquinho mais reflexiva ou mais terna por uns pouquinhos minutos. Do cinema, é de onde vou sair diferente, e como se não fosse óbvio só então me dou conta de que ali é o lugar onde realmente estou quando estou em um lugar. Principalmente se tiver Ricardo Darin.
Esse ano quero ver José e Pilar. Porque o festival tem que me lembrar de uma beleza e talvez eu só a absorva ao me trancar em uma sala escura onde nada mais acontece. Por cerca de duas horas não há onde ir. Olhar e ouvir. E reparo na mesa ao lado do livro sobre os quinhentos filmes a serem vistos a gravura com frase do Warhol - “Art is what you can get away with.”.
Eu vou.
Preciso reaprender a ir embora sem medo de nunca mais voltar.
* Antes do pôr-do-sol, cinema Leblon, Festival do Rio 2004
Encantada por Albergue Espanhol, me enfiei no São Luiz no meio de uma tarde pra ver Bonecas Russas, só tinha lá, estava esgotado em todos os outros lugares. Esgotado como Os Sonhadores, Aos Treze, Pieces of April, só Encontros e Desencontros consegui comprar com a antecedência precavida que revelava a solenidade da ocasião. E Antes do Pôr-do-Sol. Pra explicar o calafrio que a perda daquele avião no final causou seria preciso revelar a Teoria do Elástico, e se já nem me lembro mais às voltas com qual fantasma eu andava posso deixar essa memória pra trás. Já exorcizei Caché, que até hoje não entendi, e fique à vontade quem quiser explicar tanto entusiasmo por aquela galinha.
O suplemento do Globo publicado na véspera da abertura ajudava muito, mas antes disso já começávamos a confecção e comparação das planilhas com opções de lugares, dias e as cores indicando o grau de preferência de cada filme que queríamos assistir. Era legal dizer “o do Almodovar” ao invés de “Má Educação”, sendo que “La Mala Educacion” no original também valia. Ou vale ainda, não sei mais.
Esse ano eu vou. Vai começar o festival. Festival do Rio.
Sempre tinha um Almodovar pra causar rebuliço e os novatos poderem dizer que foram ao Festival. Ok, e os veteranos também, que não se contentavam em assistir à estréia massificada em circuito oficial uma semana depois. Como se Almodovar fosse massificavel... Era glamouroso depois dizer “é bom, vi no Festival”. E sempre tinha o Gael. Gael num filme do Gondry é uma combinação como morango e chocolate, tão delicioso, isso ficou. “Super-fine” é como ele definia se sentir em Science of Sleep, e a expressão virou uma piada interna. Ficou a lembrança tristonha daquela gargalhada a dois no escuro e uma rápida boa herança para espantar o saudosismo – Maggie May ainda toca! E sem danos que nem tudo é tão difícil, desde Lords of Dogtown, agradável surpresa apresentada pela companhia da época no finado Paissandu. Para completar o parágrafo-cemitério ele termina com caipirinha na fila do Odeon esperando a premiere de Noiva Cadáver de Tim Burton. Premiere no Odeon transforma um filme.
Um dia descobrimos que legenda queimada na tela indicava que o filme entraria em circuito depois, e até um site oficial com as estréias do ano era repassado para tranqüilizar quem não tivesse comprado ingresso a tempo na interminável e tensa fila do Estação. Acho que não precisa mais mofar na fila. Não sei.
Foi no Estação que conheci o cinema argentino e aprendi a dizer que, como o italiano, ele é diferente. Bom. Um inteligente, o outro sublime. Com os anos las películas ganharam uma platéia menos uniforme, figurinos além das camisas xadrez e tênis estilosos dos homens e das mulheres de saias largas e blusas sobrepostas fumando na porta. Já se pode tomar banho e fazer a barba antes de ver um filme do Festival. Eu acho.
Pra mim passou a fase de filmes raros com direito a perguntas para cineastas iranianas depois da exibição, uma vez presa em uma sala mínima com uma delas e superei essa necessidade de “coolzice-intelectual”, me permiti admitir que acho chato. Chato é bem diferente de interessante, mesmo em festival. Filme interessante no festival tem avant-premiere nas conversas prévias e só termina nos debates posteriores. Tem que cutucar.
Nunca consegui ver milhares de filmes seguidos e depois de um tempo aceitei nem marcar sessões antes das três da tarde, me tornei sincera e segura. Entrar de sala em sala é como excursão à Europa com dez capitais em sete dias, na volta o turista coloca Notre Dame em Roma e cinema no festival tem que ser a maior imersão, precisa de tempo para assentar.
Pra retrospectiva ficar completa falta preencher as reticências depois do verbo que define Ricardo Darin. Ricardo Darin é... meu “Un certain regard hors-concours”, e essa é a frase mais metida a cinéfila besta desse festival de "era assim". Esse ano ele está lá, talvez com Gael e um Almodóvar? Esse ano eu vou. Sair diferente, quem sabe um pouquinho mais reflexiva ou mais terna por uns pouquinhos minutos. Do cinema, é de onde vou sair diferente, e como se não fosse óbvio só então me dou conta de que ali é o lugar onde realmente estou quando estou em um lugar. Principalmente se tiver Ricardo Darin.
Esse ano quero ver José e Pilar. Porque o festival tem que me lembrar de uma beleza e talvez eu só a absorva ao me trancar em uma sala escura onde nada mais acontece. Por cerca de duas horas não há onde ir. Olhar e ouvir. E reparo na mesa ao lado do livro sobre os quinhentos filmes a serem vistos a gravura com frase do Warhol - “Art is what you can get away with.”.
Eu vou.
Preciso reaprender a ir embora sem medo de nunca mais voltar.
* Antes do pôr-do-sol, cinema Leblon, Festival do Rio 2004
15.9.10
Bebo
(...)
Mas o texto que fez a amiga se lembrar de mim falava sobre ansiedade - algo totalmente aplicável à minha pessoa e, ao que parece, à Fernanda Young.
(...)
Em pé na areia escaldante do Leblon, música alta, sal secando ao sol, um garotinho se aproxima de mim, típico personagem. Ele me oferece a cerveja que segura, eu faço que não com a cabeça, ele começa a mexer os lábios, eu tiro um fone do ouvido: Você não bebe? Não, sorriso amarelo de ponto final. Mas posso lhe conhicê? - me estende a mão - eu sou Rénan. Olhei ao redor - não tinha uma gangue por perto, não era para me distrair. Não tinham câmeras por perto, não era uma pegadinha. Há tanto tempo não ouvia alguém usar o pronome “lhe” que chacoalhei a mão de Renan e quase invejei aquele estufar de peito nordestino do conquistador neo-carioca. Como carioca-com-muitos-anos-de-praia, rapidinho recolhi minhas coisas e fui embora meditar em outro canto sobre a minha condição de pior que Fernanda Young.
Voltei para casa derretendo, pensando que até em avião os conversadores respeitam fones de música, agora nem controlar a ansiedade em paz é possível. E de repente ri da cara-de-pau do jaguncinho. Rénan podia achar que é numa dessas que se começa uma grande amizade, que assim nasce um romance, que não há melhor companhia para uma tarde na praia. Ele podia estar deprimido e resolveu chutar o balde, podia estar feliz da vida e quis compartilhar, podia estar numa terça-feira na praia sozinho tomando uma cerveja e resolveu puxar papo com a menina sozinha ao lado que ouvia música. Simples assim. Mas para alcançar essa simplicidade ele precisou de um desapego, de uma esperança, uma ingenuidade, uma segurança, uma tranqüilidade, uma determinação! Ou não, precisou de um gole, um mergulho e nada a perder.
A Fernanda Young otimista tem razão. Por causa dessa interminável agonia nem perdemos só pessoas e oportunidades, perdemos tempo. Desperdiçamos muita energia com uma obstinação às vezes desmedida. Uma coisa é correr atrás, a outra é rastejar, se esgoelar, achar que a vida não tem sentido sem aquilo. Tem. A vida só não tem sentido sem graça. E para ter graça, é preciso leveza de espírito. Para o resto dar-se-á um jeito.
****************
(recorte dos tempos Tribuneiros, e terças de sol.)
Mas o texto que fez a amiga se lembrar de mim falava sobre ansiedade - algo totalmente aplicável à minha pessoa e, ao que parece, à Fernanda Young.
(...)
Em pé na areia escaldante do Leblon, música alta, sal secando ao sol, um garotinho se aproxima de mim, típico personagem. Ele me oferece a cerveja que segura, eu faço que não com a cabeça, ele começa a mexer os lábios, eu tiro um fone do ouvido: Você não bebe? Não, sorriso amarelo de ponto final. Mas posso lhe conhicê? - me estende a mão - eu sou Rénan. Olhei ao redor - não tinha uma gangue por perto, não era para me distrair. Não tinham câmeras por perto, não era uma pegadinha. Há tanto tempo não ouvia alguém usar o pronome “lhe” que chacoalhei a mão de Renan e quase invejei aquele estufar de peito nordestino do conquistador neo-carioca. Como carioca-com-muitos-anos-de-praia, rapidinho recolhi minhas coisas e fui embora meditar em outro canto sobre a minha condição de pior que Fernanda Young.
Voltei para casa derretendo, pensando que até em avião os conversadores respeitam fones de música, agora nem controlar a ansiedade em paz é possível. E de repente ri da cara-de-pau do jaguncinho. Rénan podia achar que é numa dessas que se começa uma grande amizade, que assim nasce um romance, que não há melhor companhia para uma tarde na praia. Ele podia estar deprimido e resolveu chutar o balde, podia estar feliz da vida e quis compartilhar, podia estar numa terça-feira na praia sozinho tomando uma cerveja e resolveu puxar papo com a menina sozinha ao lado que ouvia música. Simples assim. Mas para alcançar essa simplicidade ele precisou de um desapego, de uma esperança, uma ingenuidade, uma segurança, uma tranqüilidade, uma determinação! Ou não, precisou de um gole, um mergulho e nada a perder.
A Fernanda Young otimista tem razão. Por causa dessa interminável agonia nem perdemos só pessoas e oportunidades, perdemos tempo. Desperdiçamos muita energia com uma obstinação às vezes desmedida. Uma coisa é correr atrás, a outra é rastejar, se esgoelar, achar que a vida não tem sentido sem aquilo. Tem. A vida só não tem sentido sem graça. E para ter graça, é preciso leveza de espírito. Para o resto dar-se-á um jeito.
****************
(recorte dos tempos Tribuneiros, e terças de sol.)
2.9.10
Sobre chineses e fadas
Aquele chinesinho me apaixonou. Era um momento em que eu estava muito propícia a me apaixonar por coisas que se fossem pessoas seriam descritas como “as que não fazem mal a uma mosca”, ainda que classificasse moscas como criaturas de nível 4 na escala de potenciais alvos de maus tratos. Não fazer mal a uma barata na pia de mármore do banheiro é indicativo de extrema bondade, moscas só ultrapassam os limites quando zumbem nos ouvidos de quem dorme ou pousam em nossas comidas, e quem dorme ou come em um lugar com moscas deveria repensar seus hábitos. Logo, não fazer mal a moscas não me dizia muito, quero ver alguém tratar com delicadeza um sujeito que conversa em excessivos decibéis no banco de trás.
Entre uma frase e outra o sujeito coçava a garganta fazendo aquele barulho de porco, e foram quarenta e sete minutos de ligações até chegar ao nosso destino: “Faaaala, Menoti!”, e nenhuma pessoa sã poderia corresponder àquela agitação tão cedo de manhã, independentemente de estar acordando ou prestes a dormir. O sujeito no entanto não se abalava. “Quinta-feira tem aquela gravação do DVD, como é aquele lugar na Barra? Sertanejo bomba, muita mulé, se bem que nem rola muita pegação, mas po%$@ 5 mil pessoas naquele lugar da Barra! É, Hard Rock.” Deveras heavy, pensei eu, e apesar de ter tido o olhar percebido somente pelos demais espectadores daquele cena no coletivo, e cem porcento ignorado pelo amigo do Menoti, não quis evitá-lo. Era a minha contribuição a um mundo melhor do dia. Há quem se imponha a meta de três elogios a cada duas dúzias de horas, atenho-me a ações menos forçadas como olhares de reprovação.
Ela insistia em provar que sua teoria não incentivava a mentira, e baseada na reação satisfeita do elogiado seguia com a técnica, sempre acompanhada de um sorrisinho na minha direção a fim de enfatizar seu ponto. "Fazer três elogios por dia melhora o clima do ambiente", pregava.
Começamos a conversar porque ambas admitiram, depois do ataque do touro à platéia em Navarra, que sentíamos mais pena dos bichos do que das crianças. Não é lá algo que se revele assim sem medo de retaliações, e nenhuma das duas dava de ombros para os pequenos com barriga estufada e insetos ao redor de si estampados nos jornais, só tinham apertos no coração em comerciais da Suipa e ímpetos de revolta contra os que culpavam a baleia que atacou a treinadora no parque aquático.
O nome dela era Carol, feminino de Zé. Nutria certo ódio por porteiros e zeladores que a chamavam de Caroline, e não por errarem o nome mas porque a troca da última letra alterava completamente a cor da sua aura, que assim passava de lilás para amarela. Quando pequena, para incômodo da mãe, Carol queria ser caixa de supermercado. Não qualquer supermercado, queria trabalhar nas Casas da Banha. Era muito pequena para entender a relação com o tal de bacalhau que Chacrinha lançava na platéia, tinha medo do Arnaldo Antunes e, orientada pelos pais, colocava seus dentinhos debaixo do travesseiro a fim de serem levados pela fada.
Além de sentirmos mais penas dos bichos do que das crianças também compartilhávamos o título de doadoras de dentes para fadas - eu, os que não engolia, e ela, os que a avó arrancava amarrando-os com um barbante à porta. Várias vezes temi que os engolidos gerassem uma plantação de dentes na minha barriga, mas para jamais alarmar os pais sobre o perigo preferia nem perguntar. Ocupada em disfarçar a questão, nunca parei para pensar no que a fada fazia com tantos dentes!
Carol pensava bastante sobre o espaço livre no mundo das fadas, e como além de nós mais gente acreditava na tradição mas nem todos questionavam tudo enquanto esperavam seus dentes cairem uma delas, ao crescer, montou uma história, e como era um momento em que eu estava muito propícia a me apaixonar por coisas esbarrei com a história e aqueles dentinhos me apaixonaram.
Deixei-me assim, por um tempo só me apaixonando por coisas que se fossem pessoas seriam descritas como “as que não fazem mal a uma mosca”. Como um inseto viveria voando por aí, fazendo meu trabalho, e isso não causaria mal a mim, à minha barriga, ao mundo da fada, à Carol, platéia, touro, passageiros de transportes coletivos ou ao amigo do Menotti. Das coisas voltaria para as pessoas e um dia esbarraria com mais gente que ao invés de questionar cria historias, e eu viraria o chinesinho.
Entre uma frase e outra o sujeito coçava a garganta fazendo aquele barulho de porco, e foram quarenta e sete minutos de ligações até chegar ao nosso destino: “Faaaala, Menoti!”, e nenhuma pessoa sã poderia corresponder àquela agitação tão cedo de manhã, independentemente de estar acordando ou prestes a dormir. O sujeito no entanto não se abalava. “Quinta-feira tem aquela gravação do DVD, como é aquele lugar na Barra? Sertanejo bomba, muita mulé, se bem que nem rola muita pegação, mas po%$@ 5 mil pessoas naquele lugar da Barra! É, Hard Rock.” Deveras heavy, pensei eu, e apesar de ter tido o olhar percebido somente pelos demais espectadores daquele cena no coletivo, e cem porcento ignorado pelo amigo do Menoti, não quis evitá-lo. Era a minha contribuição a um mundo melhor do dia. Há quem se imponha a meta de três elogios a cada duas dúzias de horas, atenho-me a ações menos forçadas como olhares de reprovação.
Ela insistia em provar que sua teoria não incentivava a mentira, e baseada na reação satisfeita do elogiado seguia com a técnica, sempre acompanhada de um sorrisinho na minha direção a fim de enfatizar seu ponto. "Fazer três elogios por dia melhora o clima do ambiente", pregava.
Começamos a conversar porque ambas admitiram, depois do ataque do touro à platéia em Navarra, que sentíamos mais pena dos bichos do que das crianças. Não é lá algo que se revele assim sem medo de retaliações, e nenhuma das duas dava de ombros para os pequenos com barriga estufada e insetos ao redor de si estampados nos jornais, só tinham apertos no coração em comerciais da Suipa e ímpetos de revolta contra os que culpavam a baleia que atacou a treinadora no parque aquático.
O nome dela era Carol, feminino de Zé. Nutria certo ódio por porteiros e zeladores que a chamavam de Caroline, e não por errarem o nome mas porque a troca da última letra alterava completamente a cor da sua aura, que assim passava de lilás para amarela. Quando pequena, para incômodo da mãe, Carol queria ser caixa de supermercado. Não qualquer supermercado, queria trabalhar nas Casas da Banha. Era muito pequena para entender a relação com o tal de bacalhau que Chacrinha lançava na platéia, tinha medo do Arnaldo Antunes e, orientada pelos pais, colocava seus dentinhos debaixo do travesseiro a fim de serem levados pela fada.
Além de sentirmos mais penas dos bichos do que das crianças também compartilhávamos o título de doadoras de dentes para fadas - eu, os que não engolia, e ela, os que a avó arrancava amarrando-os com um barbante à porta. Várias vezes temi que os engolidos gerassem uma plantação de dentes na minha barriga, mas para jamais alarmar os pais sobre o perigo preferia nem perguntar. Ocupada em disfarçar a questão, nunca parei para pensar no que a fada fazia com tantos dentes!
Carol pensava bastante sobre o espaço livre no mundo das fadas, e como além de nós mais gente acreditava na tradição mas nem todos questionavam tudo enquanto esperavam seus dentes cairem uma delas, ao crescer, montou uma história, e como era um momento em que eu estava muito propícia a me apaixonar por coisas esbarrei com a história e aqueles dentinhos me apaixonaram.
Deixei-me assim, por um tempo só me apaixonando por coisas que se fossem pessoas seriam descritas como “as que não fazem mal a uma mosca”. Como um inseto viveria voando por aí, fazendo meu trabalho, e isso não causaria mal a mim, à minha barriga, ao mundo da fada, à Carol, platéia, touro, passageiros de transportes coletivos ou ao amigo do Menotti. Das coisas voltaria para as pessoas e um dia esbarraria com mais gente que ao invés de questionar cria historias, e eu viraria o chinesinho.
15.8.10
12.8.10
The office
Quarta-feira. Frio. Feeling like Monday but someday I´ll be Saturday night. Escova dentes, come torrada, anda até o ônibus, desce no metrô, repara em como tem gente feia no subterrâneo carioca, anda mais, passa o crachá, liga o computador, perturba as pessoas mais legais do escritório que ainda estão com remelas nos olhos, pensa que não existe em português a palavra “inicializando” e que já era tempo da Microsoft mudá-la, coloca o celular no vibra-call para ser diferente de quem tem toques personalizados insuportáveis e compra um passeio de barco no Tahiti. É mais um presente de casamento, esses sites de cotas de lua-de-mel deveriam ser fiscalizados pelo Conar.
Uma van passa a centímetros do seu nariz e a metade de um homem pendurado pela janela grita: “Santa Cruz?”. Na velocidade em que vinha continuou e ela pensa que se quisesse ir para Santa Cruz teria que correr pelo meio da rua e entrar no veículo em movimento tal qual Pequena Miss Sunshine. Sendo honesta confessa intimamente que isso aconteceu logo depois, no primeiro instante o pensamento foi – eu estou com cara de quem sai do Centro às oito da noite a caminho de Santa Cruz? Ainda que fosse verdade, gostaria de estar parada na calçada com jeito de quem vai tomar um drink no Fasano. A produtividade feminina nas grandes empresas subiria se nos benefícios fosse incluído um maquiador. O terceiro pensamento é reescrever os direitos humanos.
Senhora, cuidado! Sua barriga está escorrendo entre a calça esturricada e a blusa de lycra. Pede aos garotos a seu lado para, por favor, falar um pouco menos alto? Condutor, saia. Exija treinamento para que os trens se movimentem da forma como foram planejados e não engasguem a cada duas estações – as freadas promovem um contato físico forçado entre os passageiros que viajam em pé e podem derrubar os mais frágeis, o que geraria uma cena bem engraçada no entanto incorreta. Vocês – todos – parados na porta do vagão: se não pretendem descer na próxima estação desocupem imediatamente o caminho ou os empurrarei. Senhor, sem puns. Calcula que os usuários de transporte público sofrem um problema crônico de gases na mesma proporção que motoristas com insufilm produzem muita meleca e reconhece que precisa criar a playlist “manhã” para evitar raciocínios desse tipo.
Coloca Pixies no Ipod e na chegada à Carioca a massa sobe as escadas batendo palmas e dançando à la eighties, segue pela Avenida Chile, os grupos dividem-se para caber nos elevadores do prédio e correm para suas baias pulando nas cadeiras de rodinhas.
Desliga o Ipod. A fantasia é brutalmente esmagada pela rotina assalariada.
*******************
Uma van passa a centímetros do seu nariz e a metade de um homem pendurado pela janela grita: “Santa Cruz?”. Na velocidade em que vinha continuou e ela pensa que se quisesse ir para Santa Cruz teria que correr pelo meio da rua e entrar no veículo em movimento tal qual Pequena Miss Sunshine. Sendo honesta confessa intimamente que isso aconteceu logo depois, no primeiro instante o pensamento foi – eu estou com cara de quem sai do Centro às oito da noite a caminho de Santa Cruz? Ainda que fosse verdade, gostaria de estar parada na calçada com jeito de quem vai tomar um drink no Fasano. A produtividade feminina nas grandes empresas subiria se nos benefícios fosse incluído um maquiador. O terceiro pensamento é reescrever os direitos humanos.
*******************
Senhora, cuidado! Sua barriga está escorrendo entre a calça esturricada e a blusa de lycra. Pede aos garotos a seu lado para, por favor, falar um pouco menos alto? Condutor, saia. Exija treinamento para que os trens se movimentem da forma como foram planejados e não engasguem a cada duas estações – as freadas promovem um contato físico forçado entre os passageiros que viajam em pé e podem derrubar os mais frágeis, o que geraria uma cena bem engraçada no entanto incorreta. Vocês – todos – parados na porta do vagão: se não pretendem descer na próxima estação desocupem imediatamente o caminho ou os empurrarei. Senhor, sem puns. Calcula que os usuários de transporte público sofrem um problema crônico de gases na mesma proporção que motoristas com insufilm produzem muita meleca e reconhece que precisa criar a playlist “manhã” para evitar raciocínios desse tipo.
Coloca Pixies no Ipod e na chegada à Carioca a massa sobe as escadas batendo palmas e dançando à la eighties, segue pela Avenida Chile, os grupos dividem-se para caber nos elevadores do prédio e correm para suas baias pulando nas cadeiras de rodinhas.
Desliga o Ipod. A fantasia é brutalmente esmagada pela rotina assalariada.
9.8.10
26.7.10
Patchwork (vol. I)
Eu fico pensando se ali na frente vou olhar pra trás e dizer que valeu a pena. Se um dia vou contar a minha historia incentivando alguém a persistir. É difícil. Menos que isso aconteça, mais o persistir.
Ontem vi nuvens. Na verdade ontem olhei nuvens, possivelmente as vejo todos os dias a não ser que em algum dia eu nem levante os olhos de modo que caiba em cena o céu. Pensando bem, quando não saio do quarto não vejo o céu, e está aí uma boa razão para não repetir esse ato: decidi que é inadmissível uma pessoa passar todo um dia sem avistar o céu, e então levantarei da cama.
Ontem quando vi nuvens pensei que olhá-las seria uma estratégia para o pensamento estar ali. Não olhá-las imaginando formas, mas tirando fotos. De um tempo pra cá tirar fotos me obrigou a procurar detalhes e buscar pontos de vista, montar composições, é mais fácil com câmera. Win Wenders falou que há tantos anos usa óculos que se habituou a ver o mundo emoldurado. Às vezes eu vivo pensando naquilo como um texto. Tomara que seja de uma historia feliz.
*******
Ia se chamar pedaços. Ou vestígios? De pedaços virou uma colcha, de retalhos. Da colcha a cadeira, a lareira e o cachorro. O copo de leite, a madeira escura e o orvalho. A manhã gelada, o sol pro meio-dia e o saco de pães. A casa acordando, a mesa completa. Ponto.
Em frangalhos. O joio e o trigo. O branco do leite, do casaco novinho, da neve no parque. Branco bom. A tranqüilidade. A inspiração. A mão estendida sorriso no rosto. Essa vida se fosse minha logo mandava colorir, mas os momentos em preto e branco parecem imortalizados, historias de castelos, melancolia que não é tristeza. Retratos de um tempo feliz. Vestígios. Vestígios não doem.
*******
E você... será que um dia eu vou descobrir que não é nada perto da minha imaginação? Nós seremos muito felizes nas minhas histórias. Até... .
Ontem vi nuvens. Na verdade ontem olhei nuvens, possivelmente as vejo todos os dias a não ser que em algum dia eu nem levante os olhos de modo que caiba em cena o céu. Pensando bem, quando não saio do quarto não vejo o céu, e está aí uma boa razão para não repetir esse ato: decidi que é inadmissível uma pessoa passar todo um dia sem avistar o céu, e então levantarei da cama.
Ontem quando vi nuvens pensei que olhá-las seria uma estratégia para o pensamento estar ali. Não olhá-las imaginando formas, mas tirando fotos. De um tempo pra cá tirar fotos me obrigou a procurar detalhes e buscar pontos de vista, montar composições, é mais fácil com câmera. Win Wenders falou que há tantos anos usa óculos que se habituou a ver o mundo emoldurado. Às vezes eu vivo pensando naquilo como um texto. Tomara que seja de uma historia feliz.
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Ia se chamar pedaços. Ou vestígios? De pedaços virou uma colcha, de retalhos. Da colcha a cadeira, a lareira e o cachorro. O copo de leite, a madeira escura e o orvalho. A manhã gelada, o sol pro meio-dia e o saco de pães. A casa acordando, a mesa completa. Ponto.
Em frangalhos. O joio e o trigo. O branco do leite, do casaco novinho, da neve no parque. Branco bom. A tranqüilidade. A inspiração. A mão estendida sorriso no rosto. Essa vida se fosse minha logo mandava colorir, mas os momentos em preto e branco parecem imortalizados, historias de castelos, melancolia que não é tristeza. Retratos de um tempo feliz. Vestígios. Vestígios não doem.
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E você... será que um dia eu vou descobrir que não é nada perto da minha imaginação? Nós seremos muito felizes nas minhas histórias. Até... .
18.7.10
As preparadas (ou "lições do Bonde para o baile todo")
Quantas horas por dia você faz ginástica?, ele perguntou. Não são bem horas por dia, eu teria que fazer um cálculo para dividir duas vezes irregulares por semana por sete dias inteiros para achar o inexpressivo decimal que representa minha ocupação de tempo com exercícios físicos. E trabalho? Leitura, cinema, amigos? Aparentemente estava comprovado que eu não sei dizer adeus porque passo meus dias fazendo nada. Lamentável. Ele não considerou as horas na terapia, naquela filosofia tempo gasto falando sobre o assunto não é considerado “ocupar a mente com outras coisas”.
Masculinamente diagnosticado, meu problema era “inventar problema”. Não há mensagens ocultas por trás de Crepúsculo nem Woody Allen é um bom parâmetro, as musicas não dizem o que eu sinto - como os hipocondríacos sou eu que começo a sentir o que dizem as letras - ninguém insinuou nada quando perguntou como eu estava, isso é parte das normas de educação ocidental, “vai pegar alguém”, prescreveu.
Como no universo de seres aparentemente tão parecidos comigo a solução para uma gigantesca disfunção amorosa pode ser “vai-pegar-alguém”? E meu histórico familiar? Instinto de defesa, necessidade de auto-suficiência, programação cerebral constituída há mais de três décadas? Ele sugeriu trocar a meia-calça fashion por um jeans que aperta até meu útero e “partir pra night”. Maquiagem não faria mal, eu pareceria "menos chata".
Eu pensando que me desconectar do problema sem perder a ligação comigo mesma para tudo voltar ao lugar – ou ir pra lá pela primeira vez – indicava que viver havia se tornado tão complexo que a matrícula em uma aula de respiração seria o primeiro passo para a cura. “Depois alguém gosta de você como você é, primeiro deixa nego te chamar de gostosa”.
E foi nessa hora que Simone espichou os olhos do livro e sussurrou pra mim: "vai que é tua, Taffarel".
De Beauvoir. Simone de Beauvoir.
Masculinamente diagnosticado, meu problema era “inventar problema”. Não há mensagens ocultas por trás de Crepúsculo nem Woody Allen é um bom parâmetro, as musicas não dizem o que eu sinto - como os hipocondríacos sou eu que começo a sentir o que dizem as letras - ninguém insinuou nada quando perguntou como eu estava, isso é parte das normas de educação ocidental, “vai pegar alguém”, prescreveu.
Como no universo de seres aparentemente tão parecidos comigo a solução para uma gigantesca disfunção amorosa pode ser “vai-pegar-alguém”? E meu histórico familiar? Instinto de defesa, necessidade de auto-suficiência, programação cerebral constituída há mais de três décadas? Ele sugeriu trocar a meia-calça fashion por um jeans que aperta até meu útero e “partir pra night”. Maquiagem não faria mal, eu pareceria "menos chata".
Eu pensando que me desconectar do problema sem perder a ligação comigo mesma para tudo voltar ao lugar – ou ir pra lá pela primeira vez – indicava que viver havia se tornado tão complexo que a matrícula em uma aula de respiração seria o primeiro passo para a cura. “Depois alguém gosta de você como você é, primeiro deixa nego te chamar de gostosa”.
E foi nessa hora que Simone espichou os olhos do livro e sussurrou pra mim: "vai que é tua, Taffarel".
De Beauvoir. Simone de Beauvoir.
12.7.10
Saudade, amor, que saudade
Chamei de saudade instalada, aquela que realmente é.
Não é a falta cotidiana, o não estar mais, é o nunca. O não estar e reticências (porque saber se é um ponto final não temos como, mas sempre parece).
Tem a saudade do não saber cadê, diferente dessa saudade do vão. É a saudade birrenta, do lugar vazio no carro, não tocar do telefone, mas a que dói mesmo é a do não abraço, do não sorriso cúmplice, do não carinho no cabelo. Parece maior. Pior. Não é a saudade que bate o pé, é a que suspira.
Tem a saudade antecipada, quando você realiza o quanto é feliz, mas entende que vai mudar. É quando já dá para ver o fim da linha, bola pra frente, e você saboreia cada minutinho restante. O cãozinho já cego que não sobe mais na cama mas ainda abana o rabo quando você chega. O sussurro no escuro da madrugada - “mãe, cheguei, boa noite” – que na casa nova vai virar só lembrança. O olhar registrador a caminho do aeroporto.
Tem a saudade ingênua, que adoraria não pintar o cabelo nem cuidar do marido péssimo de febre de 37 graus. Saudade daqueles tempos, ah, aquele Rio de Janeiro, Co-pa-ca-ba-na. É a saudade que diz falsamente indignada “onde já se viu?”. Que pode ser sacana – lembra da Lalinha? Hehe, Lalinha, que pedaço de mulher! E Lalinha nem nunca olhou para o saudoso.
Saudade do que nunca foi. Saudade dos ideais que a vida insistiu em provar não passarem disso.
Tem ela – se todos fossem iguais a você - a saudade bem resolvida, aquela certa nostalgia que sorri com o canto do lábio. A das fotos das férias de verão quando duravam três meses. Dos banhos de mangueira, waffle com mel e calça Fiorucci.
Tem o bichinho esperando na porta. Um par de sobrancelhas arqueadas. Braços ao redor de um travesseiro. Orvalho. Jangada a seco. Estalar da cadeira de balanço. Fim do Fantástico. Canção de marinheiro. Flor de viúva. Incompletude ou o que fica quando a gente sabe que é hora de partir.
Tem tanta saudade na vida, mas a saudade instalada é aquela que já entendeu que não adianta gritar, então chora baixinho mesmo.
Saudade é o registro do amor que só pôde ir porque um dia pôde ficar.
Tribuneiros.com é o site que se despede hoje, mesmo que nunca vá pra longe de mim.
Não é a falta cotidiana, o não estar mais, é o nunca. O não estar e reticências (porque saber se é um ponto final não temos como, mas sempre parece).
Tem a saudade do não saber cadê, diferente dessa saudade do vão. É a saudade birrenta, do lugar vazio no carro, não tocar do telefone, mas a que dói mesmo é a do não abraço, do não sorriso cúmplice, do não carinho no cabelo. Parece maior. Pior. Não é a saudade que bate o pé, é a que suspira.
Tem a saudade antecipada, quando você realiza o quanto é feliz, mas entende que vai mudar. É quando já dá para ver o fim da linha, bola pra frente, e você saboreia cada minutinho restante. O cãozinho já cego que não sobe mais na cama mas ainda abana o rabo quando você chega. O sussurro no escuro da madrugada - “mãe, cheguei, boa noite” – que na casa nova vai virar só lembrança. O olhar registrador a caminho do aeroporto.
Tem a saudade ingênua, que adoraria não pintar o cabelo nem cuidar do marido péssimo de febre de 37 graus. Saudade daqueles tempos, ah, aquele Rio de Janeiro, Co-pa-ca-ba-na. É a saudade que diz falsamente indignada “onde já se viu?”. Que pode ser sacana – lembra da Lalinha? Hehe, Lalinha, que pedaço de mulher! E Lalinha nem nunca olhou para o saudoso.
Saudade do que nunca foi. Saudade dos ideais que a vida insistiu em provar não passarem disso.
Tem ela – se todos fossem iguais a você - a saudade bem resolvida, aquela certa nostalgia que sorri com o canto do lábio. A das fotos das férias de verão quando duravam três meses. Dos banhos de mangueira, waffle com mel e calça Fiorucci.
Tem o bichinho esperando na porta. Um par de sobrancelhas arqueadas. Braços ao redor de um travesseiro. Orvalho. Jangada a seco. Estalar da cadeira de balanço. Fim do Fantástico. Canção de marinheiro. Flor de viúva. Incompletude ou o que fica quando a gente sabe que é hora de partir.
Tem tanta saudade na vida, mas a saudade instalada é aquela que já entendeu que não adianta gritar, então chora baixinho mesmo.
Saudade é o registro do amor que só pôde ir porque um dia pôde ficar.
Tribuneiros.com é o site que se despede hoje, mesmo que nunca vá pra longe de mim.
7.7.10
28.6.10
Da foto
"Está aqui, registrada em cores, a prova de que no fim do mundo tem uma possibilidade!"
Ufa, existe uma alternativa, ainda que ela desconfiasse que se precisasse ir até lá escolheria forma menos capitalista de vida. Depois de responder à brincadeira da amiga se deu conta de que, devagarzinho, voltava a ter esperança de que talvez existissem outros caminhos que levam a lugares mais perto. Ou fé, parente da esperança. Fé deve levar muitas pessoas a fins de mundo como aquele fotografado na viagem. Aquele pode ser o fim de um mundo que não serve mais para os que chegam ali e, por isso mesmo, o começo de outro diferente - possivelmente melhor pros que estavam gostando bem pouco do antigo e acreditaram que dava pra refazer.
Estava ali, em construção, uma casinha num canto qualquer da India sem nada em volta. Grama baixinha, pontas de pedras, um morro na frente, varias arvores à esquerda quase saindo de quadro, telhado verde, futura varanda, janelas de madeira e vidros e uma antena de TV via satélite. Em tom de brincadeira a amiga mostrava a ela que até nos lugares mais distantes do planeta seu ganha-pão estaria garantido! Aquela casinha lá nos cafundós lhe pareceu tão aconchegante quanto cobertor fofinho no inverno. Alguém no outro lado do mundo, por um detalhe imperceptível para os tantos turistas que passam por ali, se lembrou dela. Só aquela pessoa olharia praquela antena e pensaria naquela história. Talvez fosse isso a poção mágica, do fim do mundo veio uma pista.
Começou a cantarolar o verso que sempre lhe intrigou - tudo que a antena captar meu coração captura... E sorriu. Ela iria viver a vida ao vivo porque essa era a sua opção, e ao vivo a gente improvisa. Tudo bem.
Ufa, existe uma alternativa, ainda que ela desconfiasse que se precisasse ir até lá escolheria forma menos capitalista de vida. Depois de responder à brincadeira da amiga se deu conta de que, devagarzinho, voltava a ter esperança de que talvez existissem outros caminhos que levam a lugares mais perto. Ou fé, parente da esperança. Fé deve levar muitas pessoas a fins de mundo como aquele fotografado na viagem. Aquele pode ser o fim de um mundo que não serve mais para os que chegam ali e, por isso mesmo, o começo de outro diferente - possivelmente melhor pros que estavam gostando bem pouco do antigo e acreditaram que dava pra refazer.
Estava ali, em construção, uma casinha num canto qualquer da India sem nada em volta. Grama baixinha, pontas de pedras, um morro na frente, varias arvores à esquerda quase saindo de quadro, telhado verde, futura varanda, janelas de madeira e vidros e uma antena de TV via satélite. Em tom de brincadeira a amiga mostrava a ela que até nos lugares mais distantes do planeta seu ganha-pão estaria garantido! Aquela casinha lá nos cafundós lhe pareceu tão aconchegante quanto cobertor fofinho no inverno. Alguém no outro lado do mundo, por um detalhe imperceptível para os tantos turistas que passam por ali, se lembrou dela. Só aquela pessoa olharia praquela antena e pensaria naquela história. Talvez fosse isso a poção mágica, do fim do mundo veio uma pista.
Começou a cantarolar o verso que sempre lhe intrigou - tudo que a antena captar meu coração captura... E sorriu. Ela iria viver a vida ao vivo porque essa era a sua opção, e ao vivo a gente improvisa. Tudo bem.
24.6.10
Pra não dizer que não falei de Saramago
"Diz o refrão que não há bem que sempre dure nem mal que ature, o que vem assentar como uma luva no trabalho de escrita que acaba aqui e em quem o fez. Algo de bom se encontrará neste textos, e por eles, sem vaidade, me felicito, algo de mal terei feito noutros e por esse defeito me desculpo, mas só por não tê-los feito melhor, que diferentes, com perdão, não poderiam eles ser. Às despedidas sempre conveio que fossem breves. Não é isto uma ária de ópera para lhe meter agora um interminável adio, adio. Adeus, portanto. Até outro dia? Sinceramente, não creio. Comecei outro livro e quero dedicar-lhe todo o meu tempo. Já se verá porquê, se tudo correr bem."
*****
"O mais certo é ser a palavra o melhor que se pôde arranjar, a tentativa sempre frustrada para exprimir isso a que, por palavra, chamamos pensamento."
21.6.10
12.6.10
Uma porção de bolinhas de queijo
(Conversa de botas batidas)
Primeiro concluímos que o Leblon estava se transformando em Epcot Center. Japonês, árabe, espanhol, português, italiano, todos os povos estavam espremidos em não mais que um quarteirão, representado pela culinária um pedaço da cidade reunia todo o mundo: it’s a small world after all. Traduzido com o nome de bebidas até o lema foi copiado – “if you can dream it you can do it” é uma baboseira suicida sem fim. E como em um mini-mundo eles não poderiam faltar, identificamos imediatamente a Faixa de Gaza onde circulam livremente os terroristas, homens-bomba das origens do movimento pela libertação Hamas, a.k.a. Jamás se iluda com eles.
Tem problema não, nosso tabuleiro de War está armado em cima da mesa, vai jogando. Não temos pretensão nenhuma de conquistar o mundo, o objetivo é ter boas histórias para rir no final. No dialeto Jobi escreveu o poeta: tudo vale a pena se a alma não é pequena. Pequeno é só o orçamento desse filme com elenco reaproveitado, vambora, roteiro bom sustenta a obra.
Vou pra festa de dia dos namorados nenhuma, podem encher o Scala com dancinhas comemorativas que eu vou ver o jogo de um lugar seguro. Desculpe, slogan, “faz de conta que sou o primeiro” vai me fazer acreditar que é o único. Pfffff.... Sei lá se já fiz loucuras por amor, assumo todas as que já cometi por falta de amor próprio.
It’s time, diz a Jabulani.
Agora penso que a figura do quebra cabeça pode ser uma pintura surrealista e, se não soubermos logo, não vamos entender nada e ficar chorando porque não faz sentido. Faz assim: eu tento e te conto.
Primeiro concluímos que o Leblon estava se transformando em Epcot Center. Japonês, árabe, espanhol, português, italiano, todos os povos estavam espremidos em não mais que um quarteirão, representado pela culinária um pedaço da cidade reunia todo o mundo: it’s a small world after all. Traduzido com o nome de bebidas até o lema foi copiado – “if you can dream it you can do it” é uma baboseira suicida sem fim. E como em um mini-mundo eles não poderiam faltar, identificamos imediatamente a Faixa de Gaza onde circulam livremente os terroristas, homens-bomba das origens do movimento pela libertação Hamas, a.k.a. Jamás se iluda com eles.
Tem problema não, nosso tabuleiro de War está armado em cima da mesa, vai jogando. Não temos pretensão nenhuma de conquistar o mundo, o objetivo é ter boas histórias para rir no final. No dialeto Jobi escreveu o poeta: tudo vale a pena se a alma não é pequena. Pequeno é só o orçamento desse filme com elenco reaproveitado, vambora, roteiro bom sustenta a obra.
Vou pra festa de dia dos namorados nenhuma, podem encher o Scala com dancinhas comemorativas que eu vou ver o jogo de um lugar seguro. Desculpe, slogan, “faz de conta que sou o primeiro” vai me fazer acreditar que é o único. Pfffff.... Sei lá se já fiz loucuras por amor, assumo todas as que já cometi por falta de amor próprio.
It’s time, diz a Jabulani.
Agora penso que a figura do quebra cabeça pode ser uma pintura surrealista e, se não soubermos logo, não vamos entender nada e ficar chorando porque não faz sentido. Faz assim: eu tento e te conto.
4.6.10
Glossário da Copa
Se o Beckham vai à Africa só dar apoio moral eu também posso oferecer ajuda com minha perspectiva única! Não entramos em campo, mas entendemos do negócio.
Começa o jogo aqui no Tribuneiros.
Ke Nako!
Começa o jogo aqui no Tribuneiros.
Ke Nako!
2.6.10
Lixo
Se não consigo me concentrar, essas vozes, onde foi o chão, porta, estou em pânico. Pânico. Fome porque é impossível comer, vontade de morrer. Sair correndo se tivesse força, cair no chão, por favor, me deixa ir embora, fugir pra longe daqui, desaparece. Queima esses jornais, rasga fotos, nome, menções que são mísseis. Sou engolida por um monstro gigantesco ou ferida com um punhal no meio do peito, esse maldito ponto que lateja como se tivesse prendido o dedo na porta. Não, por favor, de joelhos em súplica: não. Me sinto zonza. Não foi assim que descreveram os poetas, se existe música é trilha de terror, mil tubarões engolindo barcos a um relance da sua mão na dela. Sai! E cresce um ódio, bateria em você até me cansar e dormir. Rasgaria sua pele, exporia sua carne para mostrar um pouquinho do que corrói em mim. Se não precisasse depois acordar.
Se chorar adiantasse choraria por horas, dias, noites, gritos. Conversar, escolheria com cuidado entre todas as palavras do dicionário as que trouxessem você pra mim. Imploraria. Desenharia o tamanho do gostar e prometeria nunca te ferir. É isso? Tanta dor. Quando é bom? Se te trancasse em uma gaiola e alimentasse como meu você fugiria, eu temeria constantemente. Viveria em vigília, soldado a postos em guerra - contra quem? é em mim. Conseguisse, eu me mataria. Berraria até catapultar a parte tão infeliz. Fraca. Sem vergonha. Exterminaria cirurgicamente a sangue frio cada neurônio que reage a você nessa doença.
Engole esse choro e levanta a cabeça. Já. Não é ninguém, nada, não tem. Chega.
Não dá.
Um dia vai passar. Um novo dia.
Recolham esse trapo.
Se chorar adiantasse choraria por horas, dias, noites, gritos. Conversar, escolheria com cuidado entre todas as palavras do dicionário as que trouxessem você pra mim. Imploraria. Desenharia o tamanho do gostar e prometeria nunca te ferir. É isso? Tanta dor. Quando é bom? Se te trancasse em uma gaiola e alimentasse como meu você fugiria, eu temeria constantemente. Viveria em vigília, soldado a postos em guerra - contra quem? é em mim. Conseguisse, eu me mataria. Berraria até catapultar a parte tão infeliz. Fraca. Sem vergonha. Exterminaria cirurgicamente a sangue frio cada neurônio que reage a você nessa doença.
Engole esse choro e levanta a cabeça. Já. Não é ninguém, nada, não tem. Chega.
Não dá.
Um dia vai passar. Um novo dia.
Recolham esse trapo.
1.6.10
Thank you
De tanto acertar nos convenceram da nossa capacidade, ninguém prestou atenção ao esforço. E se baixássemos as armas? Com tanto acerto mal conhecemos o erro, não nos arrependeremos deles.
As fotografias de apartamentos pasteurizadamente decorados, quadros de Hopper, violinos cortantes. Juro que queria algumas palavras, quais são? E se por um momento elas me faltarem? Fica essa mensagem estranha, não entende como vazia, está repleta, só embaçada. Ecos em uma caverna, água gelada que nem dói. E se superarmos a anestesia?
Tem muito branco, pérola, superfícies lisas. Três goles da bebida mais cor de sangue na taça mais fina para despertar o que adormece. O que se embala com os sons dos carros cortando a larga avenida e aqui ao lado tem uma pequena rua, vou pintá-la. Como se a caixinha de música na mesa de mármore tocasse a melodia do bosque que se chama solidão. E se não tivermos medo de lobo mau?
Agora que sorriu não se esqueça de trazer as cores, respirar fundo para renovar o ar. Presta atenção. Tira o sapato, escuta o vento. Aceita, mas não desiste. Se entrega, não se entrega, permite. Esteja lá, só, lá. Naquele momento. Não tire fotos, guarde lembranças e seja capaz de recontar as histórias, desenhe em aquarelas ou grafite paredes, faça viver. Toque a pele encardida das mulheres, os enfeites que as fazem tão sagradas, as sedas e crenças, busque a força que os faz tão ingênuos. Espertas somos nós construindo fortalezas que nos trancam do lado de dentro. Faça parte. Depois me conta como querer sem se quebrar, que nunca entendi como não desejar não é morrer.
E se não for nada disso, recomece. Não se esqueça. De tanto errar perderemos o medo.
Boa viagem, aproveita o caminho. Um dia componho uma canção, um dia entenderemos tudo melhor.
Leva Alanis no Ipod.
As fotografias de apartamentos pasteurizadamente decorados, quadros de Hopper, violinos cortantes. Juro que queria algumas palavras, quais são? E se por um momento elas me faltarem? Fica essa mensagem estranha, não entende como vazia, está repleta, só embaçada. Ecos em uma caverna, água gelada que nem dói. E se superarmos a anestesia?
Tem muito branco, pérola, superfícies lisas. Três goles da bebida mais cor de sangue na taça mais fina para despertar o que adormece. O que se embala com os sons dos carros cortando a larga avenida e aqui ao lado tem uma pequena rua, vou pintá-la. Como se a caixinha de música na mesa de mármore tocasse a melodia do bosque que se chama solidão. E se não tivermos medo de lobo mau?
Agora que sorriu não se esqueça de trazer as cores, respirar fundo para renovar o ar. Presta atenção. Tira o sapato, escuta o vento. Aceita, mas não desiste. Se entrega, não se entrega, permite. Esteja lá, só, lá. Naquele momento. Não tire fotos, guarde lembranças e seja capaz de recontar as histórias, desenhe em aquarelas ou grafite paredes, faça viver. Toque a pele encardida das mulheres, os enfeites que as fazem tão sagradas, as sedas e crenças, busque a força que os faz tão ingênuos. Espertas somos nós construindo fortalezas que nos trancam do lado de dentro. Faça parte. Depois me conta como querer sem se quebrar, que nunca entendi como não desejar não é morrer.
E se não for nada disso, recomece. Não se esqueça. De tanto errar perderemos o medo.
Boa viagem, aproveita o caminho. Um dia componho uma canção, um dia entenderemos tudo melhor.
Leva Alanis no Ipod.
27.5.10
How's “this” for muchness?
O assunto do email dizia algo como “velha, mas boa”.
“Durante a visita a um hospital psiquiátrico, um dos visitantes perguntou ao diretor:
- Qual é o critério pelo qual vocês decidem quem precisa ser hospitalizado aqui?
- Nós enchemos uma banheira com água e oferecemos ao doente uma colher, um copo e um balde e pedimos que a esvazie. De acordo com a forma que ele decida realizar a missão, nós decidimos se o hospitalizamos ou não.
- Entendi - disse o visitante. Uma pessoa normal usaria o balde, que é maior que o copo e a colher.
Não - respondeu o diretor - uma pessoa normal tiraria a tampa do ralo. O que o senhor prefere? Quarto particular ou enfermaria?”
E terminava com a frase “dedicado a todos que escolheram o balde”.
Danou-se. A palavra que pensei foi uma pouco mais agressiva, mas com o mesmo significado – não me encaixo nem em hospital psiquiátrico. Talvez no circo.
Eu pensei em pular na banheira. Dar uma bomba como fazíamos na piscina durante as férias de verão e depois provocar ondas até toda a água transbordar. Ainda gosto de fazer isso no terraço dos meus pais, não a bomba porque com tamanha profundidade eu quebraria o coccix, mas o maremoto: com os braços e as pernas esticadas vou e volto de uma borda à outra e com meus impulsos crio um Wet and Wild! Quando chove é mais legal, tempestade no mar revolto! Mas o normal é tirar a tampa do ralo.
Em mais uma manhã incomodamente sonolenta me arrastei para ligar a TV e assim algum barulho me manter acordada, e notei que o apresentador começou o jornal animado: “faltam quinze dias para a grande festa do futebol!”. Vi os jogadores saindo do avião, entrando no ônibus e o repórter em frente ao tapume que cobre o hotel, o piloto que tirou uma foto de dentro da cabine ao aterrissar, o ônibus não adesivado, nas ruas vizinhas ninguém circula. Como o homem pilota um vôo desses e não tira foto com os jogadores? Nenhum tinha pandeiro pra puxar um samba no caminho? Foi em 2002 ou 2006 que eles cantavam “Deixa a vida me levar”?
Lá nas férias de verão eu gostava de fazer concurso de pulos: nos jogávamos na água em pé como prego, girando como parafuso, de barriga, cambalhota, correndo de longe, no final do dia era um tal de pingar álcool nos ouvidos das crianças que não duvido que a prática tenha causado danos à nossa audição. Eu nunca mergulhei de cabeça. Não aprendi. Sempre achei lindo quem chega embalado, rasgua a água com as mãos e aparece lá do outro lado com um ar de refrescância. Eu sempre achei que não conseguiria, e parei de tentar.
O mais óbvio é tirar a tampa do ralo. Qualquer ser cerebrado pode tirar a tampa do ralo depois de arregaçar as mangas para não se molhar. Tirar a tampa é o esperado, óbvio. Sem graça pra quem acha que quando conhecemos alguém especial o mundo pára, que a felicidade é como um bode tocando violino. Quem quer de qualquer forma vibrar na Copa do Mundo então passa a seguir os convocados no Twitter, colecionar as figurinhas do álbum mesmo que todos já o tenham completado e marca uma visita-guiada ao Maracanã pra ver se isso desperta algum sentimento incontrolável que não seja medo. Quer sentir arrepios, teima que a vida é assim. Que precisamos nos afeiçoar a esses jogadores, torcer, é Copa do Mundo!
Futebol é legal por ser uma caixinha de surpresas.
Essa é velha, mas boa.
The Mad Hatter: Have I gone mad?
Alice checks Hatter's temperature.
Alice Kingsley: I'm afraid so. You're entirely bonkers. But I'll tell you a secret: all the best people are.
(Alice in Wonderland, de Tim Burton)
“Durante a visita a um hospital psiquiátrico, um dos visitantes perguntou ao diretor:
- Qual é o critério pelo qual vocês decidem quem precisa ser hospitalizado aqui?
- Nós enchemos uma banheira com água e oferecemos ao doente uma colher, um copo e um balde e pedimos que a esvazie. De acordo com a forma que ele decida realizar a missão, nós decidimos se o hospitalizamos ou não.
- Entendi - disse o visitante. Uma pessoa normal usaria o balde, que é maior que o copo e a colher.
Não - respondeu o diretor - uma pessoa normal tiraria a tampa do ralo. O que o senhor prefere? Quarto particular ou enfermaria?”
E terminava com a frase “dedicado a todos que escolheram o balde”.
Danou-se. A palavra que pensei foi uma pouco mais agressiva, mas com o mesmo significado – não me encaixo nem em hospital psiquiátrico. Talvez no circo.
Eu pensei em pular na banheira. Dar uma bomba como fazíamos na piscina durante as férias de verão e depois provocar ondas até toda a água transbordar. Ainda gosto de fazer isso no terraço dos meus pais, não a bomba porque com tamanha profundidade eu quebraria o coccix, mas o maremoto: com os braços e as pernas esticadas vou e volto de uma borda à outra e com meus impulsos crio um Wet and Wild! Quando chove é mais legal, tempestade no mar revolto! Mas o normal é tirar a tampa do ralo.
Em mais uma manhã incomodamente sonolenta me arrastei para ligar a TV e assim algum barulho me manter acordada, e notei que o apresentador começou o jornal animado: “faltam quinze dias para a grande festa do futebol!”. Vi os jogadores saindo do avião, entrando no ônibus e o repórter em frente ao tapume que cobre o hotel, o piloto que tirou uma foto de dentro da cabine ao aterrissar, o ônibus não adesivado, nas ruas vizinhas ninguém circula. Como o homem pilota um vôo desses e não tira foto com os jogadores? Nenhum tinha pandeiro pra puxar um samba no caminho? Foi em 2002 ou 2006 que eles cantavam “Deixa a vida me levar”?
Lá nas férias de verão eu gostava de fazer concurso de pulos: nos jogávamos na água em pé como prego, girando como parafuso, de barriga, cambalhota, correndo de longe, no final do dia era um tal de pingar álcool nos ouvidos das crianças que não duvido que a prática tenha causado danos à nossa audição. Eu nunca mergulhei de cabeça. Não aprendi. Sempre achei lindo quem chega embalado, rasgua a água com as mãos e aparece lá do outro lado com um ar de refrescância. Eu sempre achei que não conseguiria, e parei de tentar.
O mais óbvio é tirar a tampa do ralo. Qualquer ser cerebrado pode tirar a tampa do ralo depois de arregaçar as mangas para não se molhar. Tirar a tampa é o esperado, óbvio. Sem graça pra quem acha que quando conhecemos alguém especial o mundo pára, que a felicidade é como um bode tocando violino. Quem quer de qualquer forma vibrar na Copa do Mundo então passa a seguir os convocados no Twitter, colecionar as figurinhas do álbum mesmo que todos já o tenham completado e marca uma visita-guiada ao Maracanã pra ver se isso desperta algum sentimento incontrolável que não seja medo. Quer sentir arrepios, teima que a vida é assim. Que precisamos nos afeiçoar a esses jogadores, torcer, é Copa do Mundo!
Futebol é legal por ser uma caixinha de surpresas.
Essa é velha, mas boa.
The Mad Hatter: Have I gone mad?
Alice checks Hatter's temperature.
Alice Kingsley: I'm afraid so. You're entirely bonkers. But I'll tell you a secret: all the best people are.
(Alice in Wonderland, de Tim Burton)
23.5.10
O vírus da pressão (um dedinho de prosa)

Sobre gripe suína e Lulu Santos, lá no Tribuneiros. E algumas mudanças por aqui para help me get my feet back on the ground.
12.5.10
30.4.10
Msg para @girino
Recorde histórico: surgimento de uma nova pessoa faz Bruna ter crise de ansiedade em menos de 4 semanas. Leia hoje no Tribuneiros.com.
28.4.10
19.4.10
Cartas a um girino (volume I)
Era uma vez meninas que brincavam de princesas. Um dia elas descobriram que os sapos eram bem mais legais do que os principes, e começaram até a conversar com girinos.
Abra aqui a correspondência alheia.
Abra aqui a correspondência alheia.
15.4.10
Remington & Sons
Há muito tempo, em um mundo nem tão distante, não existia o verbo deletar. Não existia nem o "Delete". A menininha colocava a máquina em cima da mesa de jantar, encaixava o papel com cuidado pra não ficar torto e assim as histórias não parecerem que cairiam da folha e ia empurrando com os dedinhos as letras até o fundo, para que as hastes subissem com força e carimbassem o simbolo correspondente à imaginação. No final puxava a obra com orgulho e guardava numa pastinha de elástico.
Um dia eu escrevo sobre a máquina automática que as crianças não podiam usar: "vocês vão acabar com a fita de apagar". E um dia eu aprendo a fotografar.
Um dia eu escrevo sobre a máquina automática que as crianças não podiam usar: "vocês vão acabar com a fita de apagar". E um dia eu aprendo a fotografar.
7.4.10
10 lições que você aprende ao ficar presa no temporal
1. Os vizinhos do andar de cima criam hipopótamos no apartamento. Só isso explica os barulhos.
2. A cobertura da Globonews é mais legal enquanto os repórteres estão alagados na rua.
3. Mamãe não quero ser prefeito.
4. É bom que sobrem alguns ovos de Páscoa.
5. Para o caso de faltar luz, tenha livros e Rivotril em casa. Ou banheira e vinho, assim você faz sonoterapia.
6. Internet no celular é tão importante quanto um par de galochas
7. Não tente roubar os pedalinhos desgarrados da Lagoa para passear pela cidade, algumas pessoas não tem seu humor negro e estão realmente em apuros.
8. Seja o primeiro a correr pro supermercado. Zombar dos desesperados que começam a estocar alimentos não perecíveis fará com que você passe fome depois de 30 horas de temporal.
9. Lave ao menos um casaco a cada quinze dias. Depois de meses de verão inclemente eles te matarão de alergia se a temperatura cair e você não vai querer perder a grande chance de passar a tarde enroscada no sofá só ouvindo a chuva, como na infância.
10. Monte com amigos uma playlist temática sobre chuva. Se eles não forem completamente surtados se ocuparão por mais de 5 minutos com a brincadeira e chegarão ao seguinte resultado:
1. Chove, chuva (Grammy de piadinha mais infame da semana)
2. Aguas de março (em versão abril)
3. Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
4. Purple rain, do Prince
5. Chove lá fora e aqui (no meu caso, também chove)
6. Eu quero que chova uma chuva bem fininha
7. Rain da Madonna
8. Rain dos Beatles
9. The rain do Roxette
10. Queen of Rain da mesma dupla
11. Raindrops keep falling on my head, Burt Bacharach
12. Have you ever seen the rain – não como essa, Credence Clearwater
13. Black Rain, do Ben Harper, em São Paulo
14. Singing in the Rain, com Gene Kelly em uma cidade onde a água escoa pelos ralos e as encostas não desabam
15. November Rain, do Guns n' Roses, que ganhou prêmios nos quesitos merchan (cabelo de anúncio de xampu do Axl), figurino (terno azul cintilante, o vestido de noiva e as backing vocals vestidas como Madonna em Like A Virgin), actor in a suporting role (Slash quando não encontra as alianças do casamento e num solo de guitarra de pernas abertas em frente à igrejinha do deserto) e momento “não faça isso em casa” (um convidado infeliz se joga em cima do bolo de casamento pra escapar de uns pingos d'água)
16. Come Rain or come Shine, do Ray Charles
17. Dry the Rain - The Beta Band
18. No rain - Blind Melon (sim, eu também adorava esse clipe da abelhinha no Disk MTV com a Astrid!)
19. It's raining men (vai que cai um do céu)
20. I'm only happy when it rains, que o Garbage compôs numa tarde como a de ontem
21. Right as Rain, da Adele
22. Rainy Days, do Ja Rule
23. Why does it always rain on me, da época em que o Green Day Morava numa casa com goteiras
24. The Rain Song, do Led Zeppelin (recomendada por nossos especialistas como “linda de doer”)
25. Fool in the Rain, que o mesmo Led Zeppelin compôs ao te ver andando no atoleiro pensando em roubar um pedalinho
Bonus track: O Rio de Janeiro continua lindo.
Agradecimentos especiais: Dear Juliet (que não é a de A Rainy Day Song!)
2. A cobertura da Globonews é mais legal enquanto os repórteres estão alagados na rua.
3. Mamãe não quero ser prefeito.
4. É bom que sobrem alguns ovos de Páscoa.
5. Para o caso de faltar luz, tenha livros e Rivotril em casa. Ou banheira e vinho, assim você faz sonoterapia.
6. Internet no celular é tão importante quanto um par de galochas
7. Não tente roubar os pedalinhos desgarrados da Lagoa para passear pela cidade, algumas pessoas não tem seu humor negro e estão realmente em apuros.
8. Seja o primeiro a correr pro supermercado. Zombar dos desesperados que começam a estocar alimentos não perecíveis fará com que você passe fome depois de 30 horas de temporal.
9. Lave ao menos um casaco a cada quinze dias. Depois de meses de verão inclemente eles te matarão de alergia se a temperatura cair e você não vai querer perder a grande chance de passar a tarde enroscada no sofá só ouvindo a chuva, como na infância.
10. Monte com amigos uma playlist temática sobre chuva. Se eles não forem completamente surtados se ocuparão por mais de 5 minutos com a brincadeira e chegarão ao seguinte resultado:
1. Chove, chuva (Grammy de piadinha mais infame da semana)
2. Aguas de março (em versão abril)
3. Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
4. Purple rain, do Prince
5. Chove lá fora e aqui (no meu caso, também chove)
6. Eu quero que chova uma chuva bem fininha
7. Rain da Madonna
8. Rain dos Beatles
9. The rain do Roxette
10. Queen of Rain da mesma dupla
11. Raindrops keep falling on my head, Burt Bacharach
12. Have you ever seen the rain – não como essa, Credence Clearwater
13. Black Rain, do Ben Harper, em São Paulo
14. Singing in the Rain, com Gene Kelly em uma cidade onde a água escoa pelos ralos e as encostas não desabam
15. November Rain, do Guns n' Roses, que ganhou prêmios nos quesitos merchan (cabelo de anúncio de xampu do Axl), figurino (terno azul cintilante, o vestido de noiva e as backing vocals vestidas como Madonna em Like A Virgin), actor in a suporting role (Slash quando não encontra as alianças do casamento e num solo de guitarra de pernas abertas em frente à igrejinha do deserto) e momento “não faça isso em casa” (um convidado infeliz se joga em cima do bolo de casamento pra escapar de uns pingos d'água)
16. Come Rain or come Shine, do Ray Charles
17. Dry the Rain - The Beta Band
18. No rain - Blind Melon (sim, eu também adorava esse clipe da abelhinha no Disk MTV com a Astrid!)
19. It's raining men (vai que cai um do céu)
20. I'm only happy when it rains, que o Garbage compôs numa tarde como a de ontem
21. Right as Rain, da Adele
22. Rainy Days, do Ja Rule
23. Why does it always rain on me, da época em que o Green Day Morava numa casa com goteiras
24. The Rain Song, do Led Zeppelin (recomendada por nossos especialistas como “linda de doer”)
25. Fool in the Rain, que o mesmo Led Zeppelin compôs ao te ver andando no atoleiro pensando em roubar um pedalinho
Bonus track: O Rio de Janeiro continua lindo.
Agradecimentos especiais: Dear Juliet (que não é a de A Rainy Day Song!)
3.4.10
Exercício (eu, o Cazuza e pessoas de cabelos enrolados adoramos um amor inventado)
Que estranho seu Cristo, Rio
De braços abertos sem proteger ninguém
Do frio do abandono, solidão, pensamentos soltos
e eu já não sei onde terminam ou começam histórias
se coloco palavras por ser ou pra rimar
Eu preciso dizer que não te amo
Passageiro
Essa tristeza existe só pra depois a gente medir o amor feliz
Como eu vou saber?
Você vai saber
Não tem mentira, não
Tá tudo aqui, embrulhei numa trouxinha pra despejar na sua cama
Encaixa aí
Essa marra, minha raiva, pecinha por pecinha de um quebra-cabeça imperfeito de quebra coração, quebra ilusão
Com a gente não é assim não, amor
Desculpe dizer: esses versinhos são pra mim, nenhum pra você
De braços abertos sem proteger ninguém
Do frio do abandono, solidão, pensamentos soltos
e eu já não sei onde terminam ou começam histórias
se coloco palavras por ser ou pra rimar
Eu preciso dizer que não te amo
Passageiro
Essa tristeza existe só pra depois a gente medir o amor feliz
Como eu vou saber?
Você vai saber
Não tem mentira, não
Tá tudo aqui, embrulhei numa trouxinha pra despejar na sua cama
Encaixa aí
Essa marra, minha raiva, pecinha por pecinha de um quebra-cabeça imperfeito de quebra coração, quebra ilusão
Com a gente não é assim não, amor
Desculpe dizer: esses versinhos são pra mim, nenhum pra você
26.3.10
24.3.10
Caio
"Porto, 22 de dezembro de 1979
Zézim,
cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tUa carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quietO e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portantO, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudo-inteligente.
Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace al andar”.
Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.
Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentem ente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.
Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tUdo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.
Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.
(...)
Ler é alimento de quem escreve.
Caio Fernando Abreu
Zézim,
cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tUa carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quietO e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portantO, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudo-inteligente.
Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace al andar”.
Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.
Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentem ente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.
Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tUdo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.
Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.
(...)
Ler é alimento de quem escreve.
Caio Fernando Abreu
17.3.10
16.3.10
7.3.10
Os poderes de Greyskull
Você pode acordar para ir trabalhar ou faltar e ver todas as estréias da semana. Pode vestir um terno ou decidir que hoje vai casual, mesmo que não seja friday. Pode almoçar no restaurante ali da esquina ou andar mais um pouco e arriscar um novo, ir regularmente à academia ou caminhar no parque ouvindo música. Pode dormir com a TV ligada ou ligar para alguém com quem não fala há tempos, arriscar outro caminho ou seguir naquele já conhecido, pode fazer Administração, Direito, Economia ou passar um ano a quilômetros da faculdade só para estudar línguas, arte e viajar por aí.
Você pode se formar e imediatamente começar uma pós-graduação ou confessar abertamente que não tem a mínima idéia do que quer ser quando crescer. Pode nunca sair de casa sem camadas e camadas de protetor solar ou torrar no sol e usar biquíni branco no inverno, pode ficar com todos os caras que te olham ou não estar nunca satisfeita com ninguém. Pode reclamar do que te incomoda ou esperar para ver se passa, guardar dinheiro para ter um carro zero ou andar de ônibus e ter mais sapatos que Imelda Marcos. Pode tocar vários instrumentos ou entender sobre musica tanto quanto o I-Tunes permite, insistir para ver se volta ou acreditar que acabou.
Pode saber de cor quantas calorias tem em cada alimento ou fechar a boca sempre que a calca jeans apertar, ler todos os clássicos ou os quadrinhos do jornal, sair todas as noites ou dormir oito horas por dia. Pode falar com seus amigos toda hora ou curtir os status nas redes sociais, viver num apartamento onde, se entrar correndo, cai pela janela ou se lembrar de avisar aos pais quando não dormir em casa. Pode anular seu voto ou se esforçar para entender os projetos de cada candidato, conversar para chegar a um acordo ou desistir porque não vale a pena.
Você não pode não se lembrar do que queria quando criança, não pode não saber se quem importa está bem, não pode não conhecer o lugar com o qual sempre sonhou ou não dar uma chance se existir uma mínima possibilidade. Não pode não saber quais musicas e filmes te fazem chorar e quais te fazem sorrir, não pode não descobrir por que está se sentindo mal há tanto tempo nem não ter algo só seu. Não pode não ter alguém com quem contar nem um motivo para continuar.
Você não pode um dia acordar e ver que não se lembra como tudo ficou assim. Pelo menos não deve.
Seu Martin 1, 10/09/2006
Você pode se formar e imediatamente começar uma pós-graduação ou confessar abertamente que não tem a mínima idéia do que quer ser quando crescer. Pode nunca sair de casa sem camadas e camadas de protetor solar ou torrar no sol e usar biquíni branco no inverno, pode ficar com todos os caras que te olham ou não estar nunca satisfeita com ninguém. Pode reclamar do que te incomoda ou esperar para ver se passa, guardar dinheiro para ter um carro zero ou andar de ônibus e ter mais sapatos que Imelda Marcos. Pode tocar vários instrumentos ou entender sobre musica tanto quanto o I-Tunes permite, insistir para ver se volta ou acreditar que acabou.
Pode saber de cor quantas calorias tem em cada alimento ou fechar a boca sempre que a calca jeans apertar, ler todos os clássicos ou os quadrinhos do jornal, sair todas as noites ou dormir oito horas por dia. Pode falar com seus amigos toda hora ou curtir os status nas redes sociais, viver num apartamento onde, se entrar correndo, cai pela janela ou se lembrar de avisar aos pais quando não dormir em casa. Pode anular seu voto ou se esforçar para entender os projetos de cada candidato, conversar para chegar a um acordo ou desistir porque não vale a pena.
Você não pode não se lembrar do que queria quando criança, não pode não saber se quem importa está bem, não pode não conhecer o lugar com o qual sempre sonhou ou não dar uma chance se existir uma mínima possibilidade. Não pode não saber quais musicas e filmes te fazem chorar e quais te fazem sorrir, não pode não descobrir por que está se sentindo mal há tanto tempo nem não ter algo só seu. Não pode não ter alguém com quem contar nem um motivo para continuar.
Você não pode um dia acordar e ver que não se lembra como tudo ficou assim. Pelo menos não deve.
Seu Martin 1, 10/09/2006
24.2.10
Juliet, naked
Quando a segunda-feira começou, ela não. Dormiu mais meia-hora no dia em que o ano começava porque ela já tinha começado, mesmo que da forma mais atrapalhada possível. Foi a possível, e odiaria começar qualquer coisa em uma segunda-feira, seria banal.
Enquanto todos se moviam para seus trabalhos ela comprou um suco de laranja e caminhou na direção contrária para olhar as revistas da livraria que tinham sido substituídas por livros enormes e desinteressantes que obviamente estavam ali só para disfarçar o vazio. “Que merda!”. Então foi para a praia. Não pensou “que merda” com raiva, até chegou a olhar para o livreiro a fim de dizer que estava ruim, mas desistiu. “Ele deve saber”.
O cara mais interessante da areia tirou os óculos Ray Ban e deu um mergulho enquanto ela se deliciava com o espaço, o calor e o barulho das ondas. Na volta ele pegou uma toalha na sacola ecologicamente correta de supermercado e se deitou de bruços. Ela achou ruim, mas não lamentou. "Ele deve ser gringo".
A amiga voltou da tomografia de seios da face e tirou a roupa depois de tirar da bolsa o mesmo livro que ela estava lendo, e nenhuma das duas queria ver o filme apesar de adorarem cinema. Ficaram uma meia-hora considerando a vida sexual dos outros para concluir que todos mentem, decidiram que a tecnologia era culpada pelo aumento da ansiedade, se espantaram que em 2010 uma mulher não pudesse só querer sexo e desconfiaram da certeza dos que prometem ficar juntos até que a morte os separe. Cogitaram maconha como tranquilizante, mas acabaram se conformando em ver obras de arte. Acordaram que poderiam fazer a comida para o amado exausto, se conseguissem um amado e isso não as deixasse exaustas.
Enquanto o sol se escondia atrás da montanha escurecendo o Leblon, os créditos subiam ao som de Silly Love Songs. Roteiro, direção, figurino, trilha, tudo era assinado por elas, mesmo que às vezes errassem no casting. Eram boas personagens, só não gostavam de tanta reality no show.
Enquanto todos se moviam para seus trabalhos ela comprou um suco de laranja e caminhou na direção contrária para olhar as revistas da livraria que tinham sido substituídas por livros enormes e desinteressantes que obviamente estavam ali só para disfarçar o vazio. “Que merda!”. Então foi para a praia. Não pensou “que merda” com raiva, até chegou a olhar para o livreiro a fim de dizer que estava ruim, mas desistiu. “Ele deve saber”.
O cara mais interessante da areia tirou os óculos Ray Ban e deu um mergulho enquanto ela se deliciava com o espaço, o calor e o barulho das ondas. Na volta ele pegou uma toalha na sacola ecologicamente correta de supermercado e se deitou de bruços. Ela achou ruim, mas não lamentou. "Ele deve ser gringo".
A amiga voltou da tomografia de seios da face e tirou a roupa depois de tirar da bolsa o mesmo livro que ela estava lendo, e nenhuma das duas queria ver o filme apesar de adorarem cinema. Ficaram uma meia-hora considerando a vida sexual dos outros para concluir que todos mentem, decidiram que a tecnologia era culpada pelo aumento da ansiedade, se espantaram que em 2010 uma mulher não pudesse só querer sexo e desconfiaram da certeza dos que prometem ficar juntos até que a morte os separe. Cogitaram maconha como tranquilizante, mas acabaram se conformando em ver obras de arte. Acordaram que poderiam fazer a comida para o amado exausto, se conseguissem um amado e isso não as deixasse exaustas.
Enquanto o sol se escondia atrás da montanha escurecendo o Leblon, os créditos subiam ao som de Silly Love Songs. Roteiro, direção, figurino, trilha, tudo era assinado por elas, mesmo que às vezes errassem no casting. Eram boas personagens, só não gostavam de tanta reality no show.
18.2.10
Da jardineira
Era o calor que subia do asfalto ou havia uma névoa na avenida. O trombone pesava no velhinho, parceiro de tantos Carnavais. Na banda tocava-se cada um a seu tempo, e aquilo era tudo o que não podia me faltar na vida. As marchinhas estavam no acorde errado, ou era eu.
Os três dias de folia e brincadeira, eu pra cá e você pra lá, era só até quarta-feira. Aquela máscara negra que esconde do rosto a saudade nem saiu do armário, arlequim mal sabia por que chorava. No balancê tantos passavam sem despedaçar um coração, só restavam os mais de mil palhaços, cada qual segurando uma camélia, a sorrir no salão. Se fossem sinceros pulavam? Valsavam.
As cinzas vieram antes. Não posso mais.
Naquela esquina em frente à livraria não se cantou As Pastorinhas. Nem vi a livraria, confete ou serpentina, não ouvi o Abre alas. Eu devia ter puxado que “esse ano, meu bem, está combinado”, mas precisaríamos ter nos falado antes pra você perceber o recado. Então quando notei inventei uma coreografia solo não para revolucionar a festa, mas por não ter par. E a turma toda grita, que no barulho não se ouve nada mesmo - colombina, onde vai você? E ao me ver já estava dando a volta na praça, tamborim de um lado, o surdo a bater, cantando o refrão até o amanhecer: “gentileza é assim, eu cuido de você e você cuida de mim.”
Foi um último gole. Foi bom te ver outra vez, só não posso beijar-te agora. Não me leve a mal. Quero cantar até decorar que esse mundo é todo meu para de novo poder pular o Carnaval.
Lala-iá lala-iá, lala-iá lala-iá, lala-lalala-laiá. Hey!
Os três dias de folia e brincadeira, eu pra cá e você pra lá, era só até quarta-feira. Aquela máscara negra que esconde do rosto a saudade nem saiu do armário, arlequim mal sabia por que chorava. No balancê tantos passavam sem despedaçar um coração, só restavam os mais de mil palhaços, cada qual segurando uma camélia, a sorrir no salão. Se fossem sinceros pulavam? Valsavam.
As cinzas vieram antes. Não posso mais.
Naquela esquina em frente à livraria não se cantou As Pastorinhas. Nem vi a livraria, confete ou serpentina, não ouvi o Abre alas. Eu devia ter puxado que “esse ano, meu bem, está combinado”, mas precisaríamos ter nos falado antes pra você perceber o recado. Então quando notei inventei uma coreografia solo não para revolucionar a festa, mas por não ter par. E a turma toda grita, que no barulho não se ouve nada mesmo - colombina, onde vai você? E ao me ver já estava dando a volta na praça, tamborim de um lado, o surdo a bater, cantando o refrão até o amanhecer: “gentileza é assim, eu cuido de você e você cuida de mim.”
Foi um último gole. Foi bom te ver outra vez, só não posso beijar-te agora. Não me leve a mal. Quero cantar até decorar que esse mundo é todo meu para de novo poder pular o Carnaval.
Lala-iá lala-iá, lala-iá lala-iá, lala-lalala-laiá. Hey!
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