Os primeiros raios de sol surgiam e oito canoas nos esperavam, com um remador cada, para passearmos pelos igapós. Em uma medida rápida notei que, além de bastante estreita, a canoinha ficava a um palmo fechado acima da água. Treinada na paranóia que fui desde bem nova por minha mãe, sondei como que por curiosidade matinal: “Tem piranha nessa água? Tem sim. Jacaré? Tem sim”. Começou a remar, movendo suavemente o remo com desenho de jacaré no rio, e assim fomos passando pelas árvores da floresta inundada ouvindo só o deslizar da canoa, as aves do amanhecer, a calma de um universo tão distante do meu... Ouço um barulho de algo grande caindo na água, uma pessoa. Sem me mover ou olhar para trás para não ser a próxima, pergunto o que aconteceu. O remador faz uma volta com nossa canoa e vejo o coreano dentro do rio, com chapéu intacto, boiando com seu colete camuflado. “I lost my phone”, ele diz. As piranhas! Em pânico tento perguntar se ele está bem, “avisei a ele para não usar tripé”, “something hit me”, “como ele volta para a canoa?”, “are you ok?”, “eu disse a Neia que ele ir cair”, penso “Neia pelo amor das águas recolha o coreano”, alguém diz que ele não pode se apoiar na canoa sob o risco dela virar derrubando mais gente, deve nadar até uma árvore e subir nela. Nos vejo nos jornais, “coreano devorado na Amazonia”. As outras canoas se aproximam, levam o coreano a nado no igapó até uma árvore, ele sobe e volta para a dele com todos os dedos no lugar. “Quer voltar para a voadeira?”. A pergunta era para ele, quem quer sou eu, mas não digo nada e seguimos todos no suposto idílico passeio. Minha respiração vai retomando o fluxo, evito qualquer movimento brusco na finíssima embarcação. Não houve nada de grave, riremos disso. Splash de novo! “O que agora, deus! Calma, é só um pato mergulhando.”
Horas depois os remadores voltam
ao lugar, mergulham dois metros e meio e resgatam o celular do igapó, ligado e
funcionando. Nenhuma selfie de piranha. Josué brinca que àquela hora estavam
dormindo ainda.
Visitamos uma comunidade formada por cerca de trinta e cinco
habitantes de origem indígena que viviam nas margens do rio Purus, afluente do
Solimões, mas se estabeleceram ali fugindo da perseguição de brancos. A violência fez com que a cacique, falecida mês atrás, evitasse falar com os seus na língua nativa e deixasse de adotar os
costumes culturais do seu povo por medo de novas perseguições. São suas filhas as
responsáveis pelo grupo agora e que nos recebem para mostrar suas casas, artesanato,
a escola, casa de farinha e uma igreja evangélica. Contam que há alguns anos um pastor
aportou por ali e ‘gostou muito deles’ então, através de sua “missão
de Deus”, passou a ajudá-los com educação, ia até lá de vez em quando e os
ensinou a rezar. O homem foi embora, a igreja ficou, e a escola com uma
professora do governo e instalações da Katerre recebe as crianças locais. Uma
das moças nos leva em sua casa para vermos o artesanato exposto na varanda -
pinturas em madeira, objetos esculpidos em formato de casinhas, coração e
animais. No cômodo interno, dois sofás vermelhos pequenos e uma TV. “O que você
assiste?”, pergunto. “Novelas na Globo”, ela diz, “quando tenho tempo”.
De volta a bordo Josué me diz que
a voadeira vem me buscar às seis para me levar ao carro em Novo Airão e de lá
ir para o aeroporto em Manaus de volta para casa. Saber que só tenho mais duas
horas na floresta me faz querer abraçar as paredes da embarcação, as pessoas, levar em
mim aquelas árvores que por horas fiquei vendo passar do alto do barco. Guardar em mim aquele outro tempo do céu lotado de estrelas onde vemos
nitidamente o Cruzeiro do Sul, o tempo de ver voarem araras, tucanos e
papagaios soltos na sua natureza, do sobe desce dos botos, das águas cor de
café refletindo a floresta invertida, tempo do preparo da manioca, do amanhecer
cada dia de uma cor, do sorriso gentil da tripulação e da pergunta incessante
dos gringos: mas por que vocês não vem mais aqui?