23.8.26

A Turista Aprendiz – Diário de Bordo no Rio Negro, dia 5

Os primeiros raios de sol surgiam e oito canoas nos esperavam, com um remador cada, para passearmos pelos igapós. Em uma medida rápida notei que, além de bastante estreita, a canoinha ficava a um palmo fechado acima da água. Treinada na paranóia que fui desde bem nova por minha mãe, sondei como que por curiosidade matinal: “Tem piranha nessa água?  Tem sim. Jacaré? Tem sim”.  Começou a remar, movendo suavemente o remo com desenho de jacaré no rio, e assim fomos passando pelas árvores da floresta inundada ouvindo só o deslizar da canoa, as aves do amanhecer, a calma de um universo tão distante do meu... Ouço um barulho de algo grande caindo na água, uma pessoa. Sem me mover ou olhar para trás para não ser a próxima, pergunto o que aconteceu. O remador faz uma volta com nossa canoa e vejo o coreano dentro do rio, com chapéu intacto, boiando com seu colete camuflado. “I lost my phone”, ele diz. As piranhas! Em pânico tento perguntar se ele está bem, “avisei a ele para não usar tripé”, “something hit me”, “como ele volta para a canoa?”, “are you ok?”, “eu disse a Neia que ele ir cair”, penso “Neia pelo amor das águas recolha o coreano”, alguém diz que ele não pode se apoiar na canoa sob o risco dela virar derrubando mais gente, deve nadar até uma árvore e subir nela. Nos vejo nos jornais, “coreano devorado na Amazonia”. As outras canoas se aproximam, levam o coreano a nado no igapó até uma árvore, ele sobe e volta para a dele com todos os dedos no lugar. “Quer voltar para a voadeira?”. A pergunta era para ele, quem quer sou eu, mas não digo nada e seguimos todos no suposto idílico passeio. Minha respiração vai retomando o fluxo, evito qualquer movimento brusco na finíssima embarcação. Não houve nada de grave, riremos disso. Splash de novo! “O que agora, deus! Calma, é só um pato mergulhando.”     

Horas depois os remadores voltam ao lugar, mergulham dois metros e meio e resgatam o celular do igapó, ligado e funcionando. Nenhuma selfie de piranha. Josué brinca que àquela hora estavam dormindo ainda.

Visitamos uma comunidade formada por cerca de trinta e cinco habitantes de origem indígena que viviam nas margens do rio Purus, afluente do Solimões, mas se estabeleceram ali fugindo da perseguição de brancos. A violência fez com que a cacique, falecida mês atrás, evitasse falar com os seus na língua nativa e deixasse de adotar os costumes culturais do seu povo por medo de novas perseguições. São suas filhas as responsáveis pelo grupo agora e que nos recebem para mostrar suas casas, artesanato, a escola, casa de farinha e uma igreja evangélica. Contam que há alguns anos um pastor aportou por ali e ‘gostou muito deles’ então, através de  sua “missão de Deus”, passou a ajudá-los com educação, ia até lá de vez em quando e os ensinou a rezar. O homem foi embora, a igreja ficou, e a escola com uma professora do governo e instalações da Katerre recebe as crianças locais. Uma das moças nos leva em sua casa para vermos o artesanato exposto na varanda - pinturas em madeira, objetos esculpidos em formato de casinhas, coração e animais. No cômodo interno, dois sofás vermelhos pequenos e uma TV. “O que você assiste?”, pergunto. “Novelas na Globo”, ela diz, “quando tenho tempo”.

De volta a bordo Josué me diz que a voadeira vem me buscar às seis para me levar ao carro em Novo Airão e de lá ir para o aeroporto em Manaus de volta para casa. Saber que só tenho mais duas horas na floresta me faz querer abraçar as paredes da embarcação, as pessoas, levar em mim aquelas árvores que por horas fiquei vendo passar do alto do barco. Guardar em mim aquele outro tempo do céu lotado de estrelas onde vemos nitidamente o Cruzeiro do Sul, o tempo de ver voarem araras, tucanos e papagaios soltos na sua natureza, do sobe desce dos botos, das águas cor de café refletindo a floresta invertida, tempo do preparo da manioca, do amanhecer cada dia de uma cor, do sorriso gentil da tripulação e da pergunta incessante dos gringos: mas por que vocês não vem mais aqui? 

 

 

A Turista Aprendiz – Diário de Bordo no Rio Negro, dia 4

A caminhada do dia nos leva a mais uma Sumaúma, “a rainha da floresta”. Josué conta que seriam necessárias mais de vinte pessoas de mãos dadas para dar a volta nela, e mostra que suas raízes não são profundas: o solo da Amazonia tem no máximo vinte centímetros. As raízes de árvores gigantescas espalham-se para os lados podendo chegar até a cem metros, essa rede de raízes e os fungos que existem debaixo da terra alimentam outras árvores e fazem o ecossistema que torna a floresta como ela é. Acredita-se que exista no mundo uma rede de fungos conectando tudo.

Chegamos à comunidade quilombola de Cachoeira, que tem esse nome por estar perto de mais uma queda d’água imperceptível pelo alto nível do rio. Saber que navegamos por cima de cachoeiras é muito curioso. Desembarcamos para conhecer o povoado onde vivem 35 pessoas e uma das 23 escolas que a Katerre mantem na região, em uma parceria público-privada.

A estrutura de madeira, suspensa como palafita igual às casas ao redor, tem duas salas de aula, um depósito, banheiro e cozinha muito novos e arrumados. Fica ao lado da casa da professora. Em outras comunidades eles não tem casa. Ou dormem na escola, improvisando cama, ou são abrigados pelos moradores.

Quem nos recebe é Dejane, a merendeira, que explica que estão em período de férias. A cozinha da escola é tão quente mesmo sem atividade que preciso sair e tomar um ar, penso ser impossível alguém estudar naquela temperatura e me dizem que por essa razão só tem aulas de manhã. Josué nos leva para uma das salas de aula para ouvi-lo contar como funciona o sistema. Ali as crianças só estudam até o 9º ano e todas tem aula juntas, independentemente da idade ou nível escolar. Cabe à professora dar conta dessa diversidade. No canto da leitura, Macunaíma, Vidas Secas, Flicts e um livro que me chama a atenção: O Outro Lado do Paraíso. Pergunto que percentual de jovens segue estudando depois do 9º ano, quando precisam ir para cidades maiores completar os estudos porque não existem professores para as séries mais avançadas. Josué não leva um segundo para responder: “Muito pequeno. Aí é aquilo, as meninas conhecem um menino, engravidam, por ali ficam. Eu segui.”. Conta que implementar a escola digital ajudaria a continuidade da educação pela possibilidade das aulas online, o projeto já acontece de maneira embrionária em outros espaços apesar das falhas de tecnologia.

Saímos para ver a casa de manioca, onde preparam a planta para consumo extraindo o cianeto. Ao saber que é preciso descascar, ralar, deixar de molho, passar na prensa para tirar o líquido tóxico e levar ao fogo antes de fazer farinha, tapioca, tucupi e ninguém morrer do veneno, o coreano pergunta em tom baixo – por que não simplesmente plantam batatas?

Como futebol é linguagem universal, os gringos puxam uma espécie de altinha com os meninos enquanto vejo os artesanatos.

De volta ao barco ancorado na beira da comunidade, sento na proa para escrever essas linhas, mas só até ver uma das mulheres arrastar para dentro do rio um estrado quadrado de madeira, levando um balde na mão e duas crianças na outra. Ela senta no estrado e passo a assistir a hora do banho dos meninos no anoitecer. E ela diz a exata mesma coisa de uma mãe na Gávea: ‘esfrega direito essa cabeça!’.

No jantar, além da costela de tambaqui reforçar a certeza de que voltaremos dez quilos acima dos nossos pesos, aprendemos que o metrô coreano tem vagões exclusivos para mulheres com assentos aquecidos reservados para as que sofrem com cólicas menstruais. Planejamos ir um dia à Coreia, onde nossos aviões aterrizarão na ilha perto de Seul e nossa bagagem chegará através de túneis subterrâneos.  Beijo meu bolo de tapioca sem cianeto antes de comê-lo. 

A Turista Aprendiz – Diário de Bordo no Rio Negro, dia 3

A equipe de cozinha tem o cuidado de fazer para mim as mesmas comidas dos outros passageiros apenas mudando a farinha de trigo. Uma pessoa celíaca dá outro valor a um pão delicioso de tapioca no café da manhã com geleia caseira e suco de taperebá.

Amanhecemos ancorados em Airão Velho. Acordamos às 5h, hábito que reservo às férias e ao Carnaval, para conhecer as ruínas. Para compensar o esforço do sono, o nascer do sol traz botos pulando tomando o seu café da manhã.

No fim do século dezenove aquela região viveu um período de grande riqueza com o ciclo da borracha. Manaus, por exemplo, foi a primeira cidade do Brasil a ter luz elétrica. A riqueza, claro, foi mal distribuída e deu origem a homens com poder como Francisco Bezerra, um português que tomou para si as terras onde estávamos e passou a atrair trabalhadores de diversas partes do país para a extração da seiva da seringueira. Contam que os indígenas produziam borracha para fazer brinquedos e utensílios e mostraram as árvores para os estrangeiros. Além de explorar o material e o conhecimento do povo local, Bezerra isolou a cidade que criou e vendia produtos a preços impagáveis, fazendo com que os trabalhadores se tornassem seus devedores e não conseguissem se libertar. Acredita-se que duas mil pessoas tenham vivido em Airão Velho, muitas em situação de escravidão.

Entramos no que restou pelo antigo mercado. Os destroços da cidade ainda permitem ver parte de pisos, azulejos, telhas e paredes que a floresta está encobrindo, formando um desenho de raízes e casas e troncos e janelas e galhos se emaranhando pelas ruínas. Pergunto se o abandono da cidade se deu pelo surgimento da borracha sintética ou concorrência de países como a Malásia, que passou a plantar seringueiras. Josué faz uma pausa dramática. Como sou capaz de uma imaginação tão rasa? Ele conta que um padre missionário foi proibido por Francisco Bezerra de entrar em Airão para catequisar e rogou uma praga de que algo terrível acontecesse! Pouco depois, formigas passaram a surgir nas casas, no que a população viu como o início de uma invasão fatal que dominaria todos os espaços, e fugiu em debandada. Pesquiso, mas não acho registros de que Bezerra tenha morrido comido por formigas gigantes.

 

Saímos do Rio Negro para adentrar a região do Jaú e passamos no posto de controle do Instituto Chico Mendes para fazer nosso cadastro de visitante. Encontramos 3 homens, dos dez, responsáveis pela fiscalização do parque. Cabe a esses dez reportar algo de errado para o Ibama, que é o braço armado de proteção, defendendo a área de aproximadamente 2,2 milhões de hectares, Patrimônio Mundial Natural pela UNESCO. Dez homens.

Ao passar por um barco a caminho da cachoeira sou avisada que aqueles são traficantes de tartarugas locais, conhecidos porque todos moram na mesma pequena cidade ali perto. Pergunto sobre a extensão de floresta queimada onde passamos e restaram apenas árvores incendiadas. “Incêndio criminoso”, é uma técnica de distração dos traficantes: os fiscais vão até o fogo e eles passam tranquilamente por outro lado com a carga.  

 

Vemos araras uma dupla voando sobre o rio e tento grudar essa imagem nos meus olhos para não esquecer.

 

Concordo com os gringos que não devíamos sair do Brasil antes de conhecer a Amazônia. Ou o Pantanal. Ou os Lençóis. Talvez mais lugares, ao menos um dos que o faz gigante pela própria natureza.

Vamos mergulhar em uma cachoeira onde só vejo rio e pedras, pergunto onde está a queda d’água. “Estamos nela”, Josué explica, “veríamos um rio lá embaixo, mas a água está oito metros acima pela época de cheia”. Tanta água sobe que o que era rio lá embaixo virou rio igual aqui em cima. Mergulhamos depois de desencalhar as voadeiras das pedras e os guias garantem que não esbarraremos com jacarés nem seremos devorados por piranhas. É tanto calor que eu talvez negociasse com os animais se preciso.

 

No jantar debatemos qual foi o primeiro lugar que cada um visitou onde se sentiu minúsculo.  

A Turista Aprendiz – Diário de Bordo no Rio Negro, dia 2

A filha da família inglesa não quer matar piranhas, compartilha esse desconforto enquanto comemos um delicioso sorvete de maracujá feito a bordo. Além da possível matança, passamos o almoço conversando sobre a família real e religiões, conto sobre a umbanda, concordamos que o rompimento de Harry com a monarquia é repleto de contradições. Tranquilizamos a menina de que devolveremos as piranhas ao rio com vida. 

O passeio da manhã é trilha na floresta e aprendemos como fazer corda de planta, amarrar ao redor dos pés para subir nas árvores, pegar frutas e escapar de animais, a fazer fogo e imitar sons de pássaros usando o facão e uma folha. “Aprendemos” não é o verbo mais correto, seria “Josué ensina”. Nascido e criado na Amazônia, descendente dos Tucunas, deu aula de sobrevivência na selva para militares por vários anos. Conto que também sou especialista em sobrevivência na selva - corporativa, a minha - e penso em um intercâmbio de vivências: eu viveria zero dias na dele, quantos ele aguentaria na minha? Por lá as coisas pegam fogo bastante rápido.

Uma das grandes maravilhas da vida: cochilar na sombra do deque do barco. Sou acordada por um trovão e ao olhar na direção das 10 horas vejo a chuva na margem direita - “um caju”, diria meu pai no mar. Em questão de minutos uma ventania que dispararia alertas da prefeitura carioca chega a nós e penso que os planos de sair para pescar piranhas está indo por água abaixo: praga da menina inglesa, aposto. Josué chega na proa, enxerga qualquer coisa que não leio no horizonte e decreta que em vinte minutos nossa embarcação atravessará a zona de chuva, teremos pescaria. Fico ali recebendo o vento que embaralha meus cabelos e um banho de chuva no rio tão abençoado que às gotas se misturam lágrimas de alegria e emoção. Só quem ama vento capta a força que ele traz.

Na margem esquerda, céu claro e sol. 

 

Onde tem boto não tem piranha, em correnteza não tem piranha, assim vamos pelo canal procurando o lugar certo para lançar nossas iscas de carne. Somos ensinados a sacudir a vara na água para chamar atenção dos peixes e então mergulhar as linhas, é através do movimento e da percepção de sangue que elas vêm atacar. A proposta é que eu puxe a vara logo que senti-las pegando a carne, mas são tão rápidas - ou eu tão má pescadora - que a atividade se transforma em self service para piranhas, um banquete. Camille grita entusiasmada a cada beliscada na isca e depois de algumas tentativas consegue fisgar um peixe. Rafael segura o bicho por trás para retirar o anzol preso na boca, todos se espantam com os dentinhos afiadíssimos da feiosa que tem mesmo cara pouquíssimo amigável, e, como em um filme B de terror, em slow motion vejo a entusiasmada suíça levar seus dedinhos suíços em direção à boca da piranha para, como as crianças, vê-los melhor tocando. A trilha sonora de Tubarão surge na minha cabeça. Mais rápido do que o peixe, Rafael intercepta a mão de Camille evitando o arrancamento de dedos que presenciaríamos. Para demonstração prática do poder destruidor da dita cuja mesmo fora da água, ele aproxima uma folha perto da boca dela. Nhac! A piranha dá uma dentada, nós damos um pulo para trás, os locais se divertem conosco e nós com os peixes.

Voltamos ao barco com duas piranhas para caldo – iguaria deliciosa - e esperamos anoitecer para a caça aos jacarés. Percebo na água um movimento diferente, um cardume de botos ao redor do La Jangada vem fazer nossa alegria. Eu poderia ficar a tarde toda olhando para eles.

 

Meus olhos de cidade não veem um palmo para fora da voadeira. Cesar vai entrando com a lancha nos canais enquanto Rafael, na proa com uma super lanterna, busca pontinhos brilhantes, olhinhos de animais noturnos. Avista dois na árvore, dá o comando para chegar mais perto, estica os braços em um galho e delicadamente traz entre as mãos um pequeno bacurau. É um pássaro parecido com a coruja, mas mais acinzentado e com olhar assustado de chinchila - foi o que me ocorreu tentando aproximá-lo de algo que já conheço para classificá-lo, esse bobo exercício da mente que se confunde com o diferente. O bacurauzinho esperto se solta das mãos dele e volta para as árvores, é bonitinho. Vamos atrás de jacarés. 

A luz da lanterna reflete pontos brilhantes nas margens e Cesar embica a lancha na mata. Rafael se deita na proa com meio corpo para fora e grita “pode puxar!”. O barco dá ré e escuto “Trouxe ele!”. Ele é um jacaré açu de vinte centímetros, entre nós. Com os dedos ao redor de seu pescoço e outra mão segurando a cauda, traz o bicho para vermos de perto. É gaiato em sua cara de desenho animado, os olhões tem membranas que se fecham para protegê-los quando entra na água e por isso pode viver dentro e fora dela. “Quer encostar nele?’, pergunta. “Estou confortável nessa distância. Acho que ele deve pensar o mesmo de mim.”. Os dedos ao redor do pescoço não apertam, são o cuidado que evita que o jacarezinho vire a cabeça e abra a boca para mordê-lo.

Jacaré de volta ao rio, depois de piranhas, botos e bacuraus vamos dormir cedo para acordar às 5. 

18.8.26

A Turista Aprendiz – Diário de Bordo no Rio Negro, dia 1

 Prólogo

Cismo com coisas na vida. Um dia li sobre uma cidade abandonada na Amazônia criada no auge do ciclo da borracha, final do século 19, que fora povoada por trabalhadores que extraíam das seringueiras a riqueza da região. Disso sobraram ruínas que a floresta está cobrindo com árvores se entrelaçando no que foram casas, mercados e igrejas. Airão Velho. Cismei de ir até lá. 

Em 1927 Mario de Andrade fez uma viagem de navio “pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia e por Marajó até dizer chega”. Registrou seus dias no livro O Turista Aprendiz. A edição que li traz a frase de Fernando Pessoa - “As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos”.

 

Chegar em Airão Velho só é possível de barco, e foi no La Jangada que embarquei por quatro dias para uma expedição pelo Rio Negro. Descobri que a cidade não foi abandonada pelo declínio da borracha como eu pensava, mas por uma praga rogada por um padre e um ataque de formigas. 

 

DIA 1

Embarcamos em Manaus. Um mexicano, um coreano, uma suíça, cinco ingleses, três franceses, sete brasileiros e a tripulação.

Diferente do Tapajós e do São Francisco, minhas experiências fluviais prévias, o Rio Negro tem cor – ó! - de café. A razão são os sedimentos das árvores. 

Logo que chegamos a bordo fomos reunidos no bar biblioteca com suco de acerola para apresentação da tripulação, 17 pessoas dedicadas à navegação, manutenção, cozinha, limpeza, por dirigir as voadeiras que nos levarão aos passeios pelos igapós onde o La Jangada não passa e os guias, que nos orientarão em trilhas, historias e visitas na mata e comunidades ribeirinhas. Rafael, chefe da expedição, dá as explicações em inglês, língua comum que todos entendem, por mais estranheza que me cause estar na Amazônia brasileira falando qualquer língua que não seja a nossa, e “nossa” seriam tantas por lá.

O quarto é impressionantemente espaçoso, muito confortável, com uma porta de vidro para a varanda do tamanho da parede permitindo uma vista a qual não me acostumei e espero nunca me acostumar, gosto do encanto das viagens. O banheiro tem uma garrafa de água mineral para escovarmos os dentes, tomaremos banho com a água do rio mas não é recomendável ingeri-la. Aprendi da pior forma. Há filtros pelo barco para mantermos nossa hidratação, suo em partes do corpo que nem no Carnaval.

Depois de comer um delicioso doce de cupuaçu com castanhas e sorvete de chocolate amargo de sobremesa, deito na cama olhando lá fora. Passava o rio. Ou passávamos nós por ele. “Estou aqui mesmo?” Eu estava deitada em um quarto flutuante olhando o Rio Negro e sabe uma parte excelente disso? Saber exatamente como tinha vindo parar ali. A sensação de inacreditável se repetiria todos os dias. 

Nos reunimos no andar superior do La Jangada para observar a floresta e tomar caipirinhas enquanto navegamos até Ariaú. Os estrangeiros me fazem perguntas sobre o lugar que não sei responder, também nunca estive aqui e tento, constrangida, explicar por quê. “Estou aprendendo de novo, me ensinaram errado as histórias na escola. Não aprendi sobre o Brasil.” O mexicano vem em meu socorro, solidário naquela cultura de valorizar americano e europeu. Economista professor universitário em Washington, usou conceitos que atenuaram um pouco a expressão de interrogação dos outros. “I know”, penso, “é estranho mesmo, mas não aconteceu por acaso."

Rafael avisa que sairemos para nossa primeira expedição. Recebemos nossos coletes salva vidas em verde e preto camuflado e me sinto uma verdadeira expedicionária.


Nos dividimos nas voadeiras, lanchinhas rápidas que cortam os rios, para observar árvores e animais. Na época de cheia do rio, como a que estamos, o avistamento da fauna se torna mais difícil porque os bichos ficam dentro da mata densa, com tudo alagado não tem necessidade de vir até a margem do rio Negro. Isso não nos impede de ver, pelo canal do Ariaú, macacos de cheiro, macacos prego, bugios. O calor é tanto que não sei se vejo certo a quantidade deles ou deliro, mais um pouco veria um boto rosa sobre as águas cantando forró.

Entre os canais avisto lá na frente a cúpula de uma gigantesca árvore que se destaca, lindíssima. A sumaúma é a árvore sagrada dos povos locais, uma das maiores espécies do mundo e a quem muitos pedem permissão antes de entrar na floresta para caçar ou qualquer outra coisa. Acreditam que nela vivam espíritos. Por via das dúvidas, faço a mesma coisa ao chegarmos perto: ‘com licença, Sumaúma’.

Rafael avista macacos de cheiro e pede que Cesar, condutor do barco, nos leve mais perto. “Não tão perto”, penso, traumatizada que sou com macacos balineses. Mas o barco para no meio das árvores onde o bando pula nos galhos e um deles  vem até nós, eu não sabia se pensando “quem são vocês e quem convidou” ou “turistas otários, vamos pegar esses celulares”. Por experiência, ajo como nas ruas do Rio de Janeiro: escondo itens de valor e ativo meu modo “sempre alerta”, que não adiantaria muito visto que a única opção de fuga seria me jogar no rio. Espantosamente nada de mal acontece, passam de galho em galho ao nosso redor e sobre nossas cabeças e não fazem a cara assustadora dos priminhos indonésios, se eu não estivesse preparada para gritar diante do bote de algum diria até que foram bem simpáticos. “São uma sociedade matriarcal”, explica o guia, “não tem macho alfa, são guiados pelas fêmeas”. A natureza é divina em seus ensinamentos. 

 

À noite nos reunimos para uma aula teórica. A Amazônia ocupa 9 países e a maior área está em território brasileiro, 7 milhões de quilômetros formam a bacia amazônica e em períodos de alta o ponto mais largo do rio chega a 30 quilômetros. Aprendo que em 2010 a pesquisadora Elizabeth Pimentel descobriu o rio Hamza, que corre o mesmo percurso do Amazonas, 6 mil quilômetros, mas subterrâneo, a mais de 2 mil metros debaixo da terra! Eu, que já era fascinada pelos rios voadores, ganho mais essa descoberta. 

 

Com o céu limpíssimo, sem poluição nem luz elétrica, lotado de estrelas, a floresta invertida me encanta. O rio Negro vira um espelho d´água cujo reflexo da vegetação aparece de cabeça para baixo. Para quem sofre de vertigem e cristais do ouvido fora do lugar fica menos poético, mas até assim deslumbra. 

Na infância eu também dormia no barco.

31.5.26

Bra-si-lei-ro, com muito or-gu-lhooo...

Salto do táxi em Copacabana e vejo pessoas com camisa do Brasil. “Ah, não, manifestação!”. Homens, mulheres, crianças, Narcisa Tamborindeguy... Lázaro Ramos? Eram torcedores indo para “o jogo”. Falavam assim como se mais explicações não fossem necessárias. Descubro que teria um amistoso da Seleção naquela tarde e o hotel onde estávamos era ponto de encontro para ida ao Maracanã. Mas o brasileiro não estava desacreditado da Copa?  

Não dá para dizer que parei de ver futebol por causa do 7X1. Foi humilhante aquilo, mas já vivi desilusões muito piores em relacionamentos e superei então não seria essa a razão do nosso término, eu e a Seleção. Também não é que ache insanidade depositar esperança em 11 homens, pessoalmente não faço isso com 1 mas há quem encare que fazer com vários seja diversificar investimento e não ampliar risco. O fato é que há tempos não sei nada sobre futebol e de repente todos ao meu redor estão concentrados no assunto.

“A maior Copa de todos os tempos”. Que eu sabia que aconteceria, acompanhei forçadamente a convocação, perguntei por que o técnico estava falando em uma língua estranha e recebi olhares estupefatos acompanhados de “ele é italiano” como se eu devesse saber. Claro que sei quem é Neymar (é o livramento da Bruna Marquezine), sei que o Vini Jr se livrou da Virginia, sei o que é impedimento (aprendi para calar quem usa isso como argumento de superioridade esportiva) e sei que a Copa vai acontecer em 3 países e #VaiTerCopa nos EUA apesar do Trump. O que descobri nesse domingo é que vai ter Copa no Brasil.

 As lojas tem vitrines em verde e amarelo, camisas e bandeiras estão em ambulantes pelas ruas, crianças até saíram das telas para montar álbum. Jogam bafo. Pais e mães pedem ajuda para montar planilhas de controle de figurinhas, amigas recém-solteiras dizem “temos que nos preparar para a Copa!”. Não entendi bem ao que se referiam, mas sorri e decidi me preparar também: fui me informar. 

Leio que Tom Brady sorteou o Brasil no Grupo C e sem confiar na sorte vinda de ex de Gisele  investigo nossas chances - os sites de apostas estimam em 97% a classificação nas eliminatórias. Vejo que mudaram o sistema de classificação. Que aumentaram o número de atletas, serão mais de 1200 em 48 seleções, não vai dar tempo de decorar essa gente toda nem se eu focar nos 40% de veteranos!  

Meus estudos não vão me salvar nas rodas de conversa do próximo mês, como vai brotar em mim uma empolgação genuína por um time que desconheço? Decido assistir ao “jogo”. Em menos de 15 minutos o Brasil leva um gol, penso nos meus sobrinhos no estádio pela primeira vez e pesquiso no Claude “métodos de conversar com crianças sobre frustração”. O locutor na TV fala tão acelerado que as batidas do meu coração começam a acompanhá-lo. Vini Jr faz um gol. Casemiro, Rayan, Paquetá, Igor Thiago, Danilo Santos, o Maracanã canta “sou brasileiro com muito orgulho com muito amor”, 6X2 e estou em pé na sala emocionada comprando a blusa de tricô verde amarela na Shopee.

Entendo que vai ter Copa. O Mundial desperta no Brasil o que de melhor nosso povo faz: festa e acreditar.   

 

26.2.26

Tareco & Mariola (se eu morasse aqui pertinho)

Seu Osvaldo nos vê chegar pela janela de casa e sai para abrir o bar. Ajeita na mesa de plástico quatro cadeiras, traz a cerveja. No palco ainda vazio, ilustrações na parede em estilo de xilogravura que se repetem pelo lugar. Quando nos sentarmos na porta para olhar a paz da praça onde as crianças brincam de (cair de) bicicleta pedirei uma lapa de cana, aquela que aprendi a tomar com mel e limão. “Não dá ressaca isso?”. Nenhuma, deve ser a pureza do ar.

Ele conta que está juntando dinheiro para uma máquina de coxinhas de galinha que vai fazer com a esposa, merendeira na escola ali perto. Mais tarde tem futebol dos idosos no campo de terra em frente que separa uma fileira de casas da outra, onde nossos cavalos estão presos na árvore - Muriel e Tapioca. O diácono se junta a nós na prosa e conta que também voltou do Rio de Janeiro, assim como Osvaldo e Galego que moraram por lá. Gostaram não. Bom que tem trabalho ali agora, as crianças estudam, se formam e ninguém precisa mais sair para tentar viver melhor longe dos seus. Vive-se bem em Poço das Pedras, no Cariri paraibano. “Vocês querem ver a igreja?” Vou lá dentro do bar apanhar a chave’. Caminhamos devagar no fim da tarde fresquinha, passa o carro de boi levando o dia de volta. Ao entrar, o diácono me ensina que podemos fazer um pedido na primeira visita a um templo. Fecho os olhos, sorrio, peço uma benção a ele. Aquilo já é desejo realizado. A vida que eu escolhi.

 

Com um elenco tão grande e tanta pressa, como o a gente encontra as pessoas no mundo? Tenho um medo que a vida afaste. “Até aqui ela só juntou”.  


“Será que vai acabar?”, ele perguntou, olhando as inexplicáveis e lindas itacoatiaras no Ingá desgastadas pelo tempo, água e fungos. Ninguém sabe quem e como fez as inscrições na pedra e presto menos atenção às teorias e mais à beleza. Certamente vão, pensei, porque tudo um dia acaba. A gente só não sabe quando e assim vai vivendo.


Vive melhor comendo o cuscuz da Dona Lia e ouvindo suas histórias. Aquele sorriso não esteve sempre ali. “Me deitei em uma cama e pedi que me levassem. A vizinha veio me buscar, ofereceu oportunidade, tempo depois eu estava no programa da Eliana ganhando um prêmio que mudou minha vida. Agora estamos aqui! Fiz Cabeça Amarrada, tapioca, bode e uma goiabada que Ronaldo diz que vocês não vão esquecer”. Não vou esquecer é do abraço dela e daquele Memorial do Cuscuz cheio de relíquias de uma vida que ela narra como escolheu olhar e fazer. E a goiabada... Já reparou com queijo coalho é melhor por lá?

 

Foi depois do trio tocar mais um forró e comermos Cabeça de Galo. “É cabeça de galo mesmo, Pablo?  É. Galo-galo? Galo-galo.” Parecia um pouco mole, mas eu já tinha recusado experimentar o bode – tão gaiatos com aquele olhar 43 e seus sininhos trilha perfeita de felicidade dos meus dias. Vamos ao galo. “Vixe, muié, cabeça de galo é só o nome, que isso aqui é ovo cozido no caldo de farinha de mandioca!”. O alívio foi como achar sombra naquele calor. A incursão gastronômica ficou para o doce de umbu, o rubacão e os queijos de cabra da família Suassuna em Taperoá. Só sei que são assim... deliciosos do tamanho dos bois que eles acharam pelo mundo e aprenderam a criar na seca.


A Josi falava da anileira, mostrava como extraía a tintura da planta, nos levou pelo caminho mágico de cristais até a loca de Zabé e no meio disso falou que não tinha receio de passar adiante suas aprendizagens sobre a técnica que criou. Já perguntaram o que ela queria para ensinar: nada. A gente faz pelo mundo que acredita e quer e se não for acessível não funciona. E se ninguém souber que foi ela que fez ela sabe. Se não for para dar ao mundo eu nem venho.

Zabé era Isabel tocadora de pífano desde garotinha. Viveu na gruta lá no alto, onde nos falta fôlego para chegar, até ganhar casa no assentamento. A fama ganhou aos 79 anos e ainda insistia em subir até sua loca. Foi ao acompanhar Zabé nas excursões artísticas que Josi quis aprender a ler.

Foi criada por ela e hoje mantem o espaço em memória de Zabé. Conta que um dia a madrinha foi reverenciada por Gil em Brasília, ele se sentou aos seus pés e deitou a cabeça sobre suas pernas. “Quem é esse homem deitado no meu colo, Josi? É o ministro, Zabé, Gilberto Gil.’ O ministro só ria, não que dali tivesse levantado. Teve mais sorte do que Hermeto Paschoal, show interrompido por Zabé que, da coxia, queria saber quem era aquele homem cuja música não a agradava e de pífano em punho invadiu o palco e dele fez o seu lugar. Como foi isso direito eu não sei, só sei que foi tudo mais ou menos assim.

 

Como também não sei mais mexer no tear de tecer rede, mas juro que lá aprendi. Abaixa um pedal, joga a lançadeira para um lado, puxa a madeira, abaixa o outro pedal? Acho que eles vão fazendo ao ritmo daquela música, e rede e música e rede e o bordado que eu devia ter trazido de lá é o que dizia “Quando o olho brilhou entendi”.

Entendi quem é Flavio José. Entendi que para muita gente nesse país é festa junina o que em mim é Carnaval. Que quando chove o Cariri floresce inteirinho em poucos dias, fica verde onde antes tudo estava seco e igualmente lindo e nunca morto como desavisado pode supor. Que o xique xique é o cacto intrometido e espalhafatoso que corre rasteiro e a palma é alimento. Que antigamente os cactos tinham folhas, mas na evolução aprenderam que para se proteger seria melhor crescer espinhos. Que ainda assim até eles dão flor. Que mandacaru cresce para o alto e quando fulora é sinal que a chuva chega no sertão, mas a flor só abre à noite. Que chuva é benção (onde moro é risco).  Que tem muitos tipos de renda e mulheres que transformaram suas vidas ao aprender seus pontos. Entendi que as cooperativas revolucionaram o campo. Que a Roliude Nordestina de Cabaceiras tem sempre aquele céu azul sem uma gota de chuva e casinhas que parecem os estúdios por onde vivo, mas ali todo mundo é de verdade. Que Suassuna comprou 300 cabras porque ouviu que de arte a humanidade não precisava, só de pecuária, agricultura, pesca e talvez metalurgia. Que o Movimento Armorial uniu o erudito às raízes populares nordestinas para criar uma estética brasileira autêntica nas artes e como é que isso ninguém me ensinou na escola? Que a Pedagogia  do Encantamento diz que quem não se encanta não aprende e viajar é a minha escola. Que gaiola bonita não dá de comer a passarinho. Que quando chove vem as cobras, não é mentira! Mas não se assuste, fique calma. Quando abri a janela e vi os bois e bodes eu sorri e quis viver ali. Entendi que o mundo é tão imenso, meu país tão enorme, minha gente tão rica, e simples é só entender que eu sou parte deles e eles são parte de mim. Entendi que somos feitos de falta, onde há falta fazemos festa e a falta é o que nos move. Que enquanto tiver vida, tem.  Que “essa palavra saudade conheço desde criança, saudade de amor ausente não é saudade é lembrança e saudade só é saudade quando morre a esperança*”.

Que quando abri as asas voei. Quando fiz por mim tava aqui. Quando dei por mim, me apaixonei por isso.

 

 *Pinto de Monteiro

 

 

 

22.2.26

Às Yabás, o balaio e o amor

Eu vi a vida pulsar como fosse canção

Chamei o povo daqui, juntei o povo de lá

Não esperamos a saudade pra cantar

Cantando, saudamos a nossa fé

Não tememos ataque algum

A rua ocupamos por direito

 

Quem rege a sua coroa, bará?

É mistério que incandeia

Pro batuque incorporar

É mistura de cultura

A sina de quem ama o idefá

 

Vai ter xirê no toque do tambor

Uma nação incorporada

O axé se espalha em cada canto, em cada olhar

 

Mestra, você me fez amar a festa

Que fez pouco a pouco uma chama acender

Encanto da gira, da roda de bamba

A flecha certeira de Oxossi na canção

 

Sou eu, mais uma batuqueira a pulsar por você

Somos todos um nessa avenida

Num furacão que nunca vai ter fim

Nossa história não encontra despedida

 

Mestre, se eu for morrer de amor, que não morra. Que eu viva.


*Trechos de sambas de enredo Grupo Especial do RJ 2026

25.12.25

Apenas contigo e migo

 - Você organiza a sua fileira de Elo Monsters e eu a minha, como se os bonequinhos fossem times de um jogo de Queimado na mesa. O objetivo é arremessar um bonequinho em direção à fileira da outra para derrubar os oponentes, quem conseguir ganha o bonequinho derrubado para a sua fileira.

- Só isso, petelecos para derrubar bonequinhos?  Como bolinhas de gude.

- Petelecos e não pensamos em mais nada. Zerinho ou um? Mamãe Noel começa.

- E eu faço o quê?

- Você vai entregar os presentes que já está na hora, o trenó está carregado lá fora com as renas.

- Cadê meus óculos? E os endereços das cartinhas?

- As duendes sabem. Calça sua botas, se alguém te vir de Havaianas vai dar um quiprocó danado e tenho mais o que fazer. Leva seu saco com água e mix nuts. Bom trabalho, Amor!

Papai Noel não está conseguindo comer nada. Monjaro.

- Mas o contrato com a Coca Cola não exige que ele seja gordinho?

- Mudei, quero bebidas funcionais agora, estou pensando em fechar com uma marca de sodas adaptógenas.

Fico em silêncio. Mamãe Noel está sempre tão atualizada nas tendências que me perco, começou a assistir microdramas nos anos 90 quando eu ainda achava que não poderia viver sem meu primeiro crush. Que não era crush.

- Cogumelos, Bruna. Cogumelos adaptógenos. Em NY só tomam isso em cápsulas, drinks, e maconha. Podemos usar uma luva para brincar de Elo Monsters? Esses petelecos vão acabar com a nossa unha, não tem biotina que salve.

- Você também está com as unhas fracas?

- Meu bem, se fosse só isso. Outro dia até lembrar a palavra “Lapônia” fiz mímica de todos os países nórdicos  para alguém descobrir, virei a sua mãe quando ficava “aquela atriz daquela novela daquele canal” ou soltava o nome de todos os filhos até acertar o seu.

- Sempre achei que um dia ela me chamaria pelo nome do cachorro. E achei também que esses efeitos de estrogênio desabando...

- O quê?

- Não posso perguntar quantos anos você tem.

- Não me sinto mal com isso, meu bem, meu colágeno e bunda caem na proporção que me liberto então olho o copo meio cheio. E o trabalho que me deu chegar até aqui? Quero mais é contar sobre cada ano, mas a verdade é que ninguém sabe ao certo minha idade. Ninguém nem sabe quando é o Natal, não é mesmo?

- Amanhã, dia 25.

- Isso é inventado, querida.

- Não, Mamãe Noel, Corpus Christi é que ninguém sabe o que é, quando cai. Natal é...

- Você acha que naquela manjedoura tinha um calendário? Se quiser acreditar no seu horário de nascimento para fazer mapa astral ainda vai, mas que Maria e José tiraram uma foto da chegada de Jesus e postaram com legenda “Vem, JHS!” exatamente na noite do dia 24 de dezembro é mais alucinação do que IA com prompt ruim.

- Eles não sabiam que dia era aquele? Não contavam as luas ou, sei lá, observavam o sol?

Mamãe Noel faz uma expressão de “sinto muito por te dizer isso”.

- Então tudo é inventado?

- Tudo.

Fico paralisada.

- Alguém inventou o Natal? Como criou a monogamia, a definição de sucesso, criou o tempo...

- Alguém criou tudo o que você entende por realidade, meu amor. E não é trecho de The Chosen, aqui é mais Sapiens mesmo. Seu smart watch contador de passos está indicando uma data que parte da humanidade concordou em definir que seguiria, mas o tempo pode ser ao mesmo tempo.

- Estou um pouco tonta, minha cabeça está latejando.

- Isso é bem real, é seu estrogênio. Toma um Dramin B6.

- Agora é merchan? Não sei mais no que acreditar.

- Ótimo! É a sua chance de criar, inventa o que for melhor para você. Quem topar embarcar junto virá junto, com quem não topar você inventa outra relação, relação nenhuma, o que funcionar, pode escolher. Vamos escolher, por exemplo, ligar o ar condicionado? Às vezes não sei se é verão, fogacho ou crise climática mas está mais quente e isso não é invenção, é sensação física.

- Tenho a sensação física de querer um abraço.

Mamãe Noel me abraça.

- Tantas coisas mudaram, não podia deixar o Natal no Natal?

- Não se chama mudança, meu amor, se chama Vida. É inerente a ela o movimento, o começo-meio-fim-começo, não são só seus hormônios que flutuam. Se te faz bem acreditar que o Natal é no dia 25, acredite, apenas saiba que é sua escolha e que você não controla o tempo. Você não controla nada. Não se dê tamanha importância, esteja aqui dando petelecos e tudo vai passar da mesma forma, fatiado em 24 horas ou não.  

- Vejo o tempo passar no envelhecimento. No que não é mais, não dá mais, não está mais.

 - Por que você me imaginou como uma velhinha? Olhe de novo. Como você quer que sejamos hoje com o que temos? Invente, meu bem. Ultrapasse o seu mundo físico, com tanto que há você quer ficar restrita a ele? Que desperdício! Que diferença faria se os Três Reis Magos tivessem chegado em fevereiro ao invés de janeiro? Não muda a história. A não ser que por lá também fosse Carnaval e ao invés da Estrela Guia eles tivessem seguido um estandarte de bloco qualquer, distribuído mirra para os foliões, passado ouro no corpo, perdido a fantasia no caminho...  

- Eles estariam pelo mundo atrás do Boitolo e essa história não existiria.

- Não sabemos. Por isso as pessoas criam e são feitas dessas histórias como são feitas do DNA dos pais e antepassados e das conversas que tiveram, do que aprenderam e viveram juntos e assim se moldaram. Olha o tempo aí: as pessoas que nós amamos não existem apenas no corpo delas mesmas, elas existem em nós e nisso seguem no nosso tempo. As memórias e a presença delas estão em você não como algo que passou, mas como o que são agora. É mais real e importante o presente embrulhado que  Papai Noel deixou na sua janela ou nós aqui brincando de Elo Monster e tendo essa conversa?     

- Talvez eu esteja só imaginando essa conversa.

- O que a faz existir para você. Você é uma criadora de histórias, todos somos. Qual história quer contar sobre esse tempo chamado de ‘seu ano’?

Passa para cá esse Monstro.

- O quê?

- Esse Monstro que derrubei com meu peteleco, não é assim o jogo? Ele não é mais seu, me dá. E vamos fazer uma pausa na brincadeira e rever a Paolla dançando Água de Chuva. Isso é ter um Feliz Natal.

   


Ainda assim acredito

Ser possível reunirmo-nos

Tempo, tempo, tempo, tempo

Num outro nível de vínculo

(Oração ao Tempo, Caetano Veloso)

 

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei

Transformai as velhas formas do viver

Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei

(Tempo Rei, Gilberto Gil)

 

 

19.9.25

Essa bendita felicidade

Para escrever cordel são sextilhas e redondilhas mas o que eu sei fazer é prosear.

Que três homens reuniram poeta, fotógrafo e raparigas e assim eu fui parar lá – no sertão de Alagoas.

 

“Tudo certo com a minha reserva para a volta?

Olha, até então tá ok sim.”

Fiquei olhando para o homem na recepção do hotel. Ele sustentava um sorriso de frase completa que desmanchou meu universo corporativo sempre planejado. Estávamos no ‘hoje’, como saberíamos sobre o depois de depois de amanhã?

Às seis saímos na van.

 

23 mil pessoas moram em Pão de Açúcar e seus povoados ao redor - Palestina, Niterói, Japão. A disposição do mundo mudou, foi? Um Cristo acima de nós lembrava o de perto da minha casa e era só isso mesmo que se assemelhava ali. De resto era o tempo ficando cada vez mais calmo e pirão. Uma tacinha de vinho branco?

 

“O sertão é verde? É que no livro de Geografia...

Deixa o livro de Geografia. Jogue fora o de História também. Olhe: aquele ali na foto é Virgulino, o Lampião. Tá vendo Curisco? Dadá, Maria Bonita.

Lampião afinal é herói ou bandido?

Você afinal vai definir tudo ou viver?

Mas a Ilha do Ferro não é ilha.

É isolada, é ilha.

Pronto.”

 

Foi de barco que Carmem chegou na ilha no começo dos anos 80. Não foi o começo da Ilha do Ferro, foi o começo da história que a Carmem começou pra Ilha do Ferro.

Fazer curadoria é que nem se apaixonar? No meio de um mundaréu de gente alguém de repente olha no fundo do nosso olho e o que já estava ali sendo desenhado sem que ninguém percebesse grande valor... muda. O curador enxerga a possibilidade de uma tradução do mundo que está diante de todo mundo, mas só alguns captam. A representação dele em uma língua própria, grafia, traço, cor, talhar, o mundo visto e esculpido pelo olhar de quem faz dele mais bonito, mais confortável, um olhar atento.  

Foi Seu Fernando quem abriu caminho para um povoado de artesãos ao entalhar móveis com tanto carisma quanto talento. Foi ele quem abriu também o portal por onde passamos naquele rio? O realismo mágico de cadeiras com cabeça de pássaros e bailarinos em paredes me faz não poder garantir que tudo o que vou contar aconteceu, mas foi assim.

 

Das obras do Seu Fernando brotaram nas casinhas coloridas de platibandas uma corrente de artistas, como o Petronio. Dos seus ex-votos iniciais às atuais caveiras, ele hoje planeja abrir uma escola. E não vender sua terra. Na cozinha da casa, Celia achava que não sabia fazer queijo, ela ‘ajudava’ o marido na pescaria, limpava o peixe, olhava a transformação do leite, criava os garotos, um dia Petronio comprou uma vaca tão boa que era ordenha de manhã, de tarde, de noite e era tanto leite que empenou a Celia que já tinha descoberto que também era capaz de produzir queijo mas tira essa vaca daqui e não traz cabrito que cabrito parece filho de Satanás! Comemos queijo, tomamos café com rapadura, chá de gengibre e ervas e aprendemos a esculpir madeira, ou quase. Teve passarinho esculpido na aula com jeito de tamanduá, mas reforcei mesmo foi a lição de que temos que educar os meninos para mudar a vida das Célias enquanto ela faz a contabilidade do marido.  

 

Depois dos quarenta anos, sete filhos crescidos, muita brita quebrada e rua varrida foi que Dona Roxinha começou a desenhar. Desenhava nos cadernos, dali passou pra tudo - parede, porta, placa, pedaço de madeira, banco, tampas de vaso, pilão, um dia um homem bateu em sua porta e ela abriu. Ele perguntou se ela vendia os trabalhos, comprou todos. Seus quadros passaram a ocupar galerias. “Nesses quatro anos você já se acostumou com a fama?  Eu me acostumo com tudo”, ela respondeu, e voltou a negociar o que vende e o que não sai dali de jeito nenhum porque é de Binga, seu marido primo. Mas isso ela não sabia quando ele botou reparo nela cinquenta anos atrás. Todo mundo desenha nessa casa? Na casa do lado também, que ela comprou com a renda das obras.  Deixa a porta aberta então que os visitantes vão entrando, vão gostando, vão voltando, a gente vai crescendo. O Binga teve ciúme, diz que é coisa de quem sente amor. Ô, Dona Roxinha, se eu soubesse desenhar e escrever como a senhora pintava que o amor não faz dono não, a gente fica porque ama, que todo mundo que sinta medo peça também ao rio para levar embora o seu e assim possa amar em paz.

 

É tanta paz que parece que consigo tocar. Como é isso de tempo aqui, é outro? A gente pode se demorar, pode estar, a gente até vê! Tanta tecnologia no mundo e a inteligência que eu quero é saber enxergar e ouvir. ‘A tecnologia do sertanejo é a fé e a reza’.

Ouve só a música que vem da caixa de som na calçada do músico, toma conta da noite na cidade. Se estiver calor demais traz esse colchão pra rua e dorme aí mesmo que nessa rua não passa mais vaca do seu Jorge, lugar da vaca não é junto com turista e ele levou as dele pra Mata da Onça onde não tem onça mas pode vaca. Naquele dia seu Jorge nem saiu de carro porque eram tantos outros que podia estragar, bater, a esposa alertou. Diz que tinha mais uns três circulando então ele foi de moto.

Nós saímos de barco para a casa do Clemilton e Amilton. Clemilton, pinta uma janela para eu olhar vocês sempre que precisar? Pinta nela uma menina de frente para a vida. Quem pinta bonequinhos de lado é o irmão, Amilton, e escultura nem tem mais ali que tá tudo pelo mundo. Galinha tem, uma pro almoço que eu vi os meninos correndo atrás para matar. A minha galinha vem da prateleira do mercado. Minha tilápia também. Tem galinha pro almoço e tem renda Boa Noite, mas não sei por quanto tempo ainda porque as crianças não querem aprender mais, estão no celular. Nem a TV está mais em frente aos bancos de cimento embaixo da árvore que mata os insetos. Eu reparei porque estava ali olhando quando choveu. Aprendi que é bonito chover no sertão, disseram que floreia rapidinho. Aprendi a ficar feliz com a chuva que cai sem medo que tudo desabe.

 

Já foi mais água. Já teve mais peixe. A água levou meu brinco, mas o barqueiro Dão mergulhou e me devolveu. “Posso aceitar? Vai que é oferenda, o rio levou. A gente tem um combinado: o que eu trago no barco, levo de volta.” Eu não sei até agora quem entregou ou como foi que ele achou, só aceitei. Quem cuida dessa gente desse rio, aqui tem sereia? Tem lendas, crenças? Reza pra quem? Tem Jesus por toda parte. Mas quem sou eu pra saber se esse Jesus é igual ao que imagino? Nem sei se todo mundo vê o mesmo que eu.

Eu vi o arco íris, dois! Vi o PC cantar no alto dos cânions a saudade dos pais. Vi o velho barqueiro levar o leme da canoa de tolda com as cascas dos pés que o sol faz couraça na pele desses homens e eles adoram gritar num barco, mas o coração paneja igual a vela em vento fraco. Vi as mãozinhas da bordadeirinha subindo e descendo a linha numa bainha aberta e Miguel misturando todos os pontos para criar um traçado só seu e mostrar pra mãe que foi melhor do que ele fazer Direito. Vi São Francisco, vários, a fé materializada em imagens de santos depositados nas fendas da rocha. Mergulhei nele e nadei até sentir silêncio e a água caindo do céu me envolvendo inteira na fluidez doce da natureza da qual sou parte, minúscula diante daquelas paredes e gigante perante quem um dia supus ser.

 

Sabia que não existia água ali? Essa água que subiu mais de cem metros quando criaram a hidrelétrica e a represa. Onde o pai do Brian, que era pescador, caiu e foi salvo pela rede. A água que passa corrente pelas gaiolas de tilápia que a dona Vilma pescou e fez na brasa com macaxeira e um coquinho bom demais pra gente comer. Ela me ensinou que carinho nos espinhos do cacto produz som de água. Ensinou sobre os quarenta anos que viveu naquela terra que conquistou na luta, na reforma agrária, dormindo em lona, criando filho, pescando peixe, tentando descobrir quem tinha feito os desenhos nas rochas e como aquela pedra enorme parou enviesada ali equilibrada. São pinturas rupestres. Foi tanta história que passou ali. A gente passou pelo assentamento onde a menina segurava balões de festa, os garotos jogavam sinuca, o velho deitava no sofá, eu vi tudo pelas portas na janela da van que passava e o Ney cantava “Se essa rua fosse minha”. Eu não mandava ladrilhar, deixava tudo colorido. Como as flores que a Maria Helena ajeitou nas almofadas pra gente sentar lá em cima e cantar. Porque cantar parece com não morrer, é igual a não se esquecer que a vida é que tem razão. Quando a gente sente “uau” tende a cuidar e aprende a gostar de se deixar cuidar.

 

Daqui a uns dias é aniversário de 80 anos da Carmen. No Carnaval tem Marmotas na Ilha e bloco “Filhinhos da Mamãe” em Maceió. O Andre, filho da Carmen, e a Patrícia me ofereceram leite do Gererê no Bar Macumba e eu quis saber se gererê era fruta. “Gererê é o rapaz que mora aqui perto, quem tirou esse leite pra nós hoje”. Leite com nata igual ao da infância para tomar com o Café do Renato, comer com queijo da Célia ouvindo a música da Baby Consuelo do disco do Sitio do Pica Pau Amarelo. Era manhã em um mundo mágico. Para o aniversário da Carmem, sua esposa Cintia comprou um megafone e elas vão sair pelas ruas convidando toda a Ilha! Eu queria ver as Marmotas e comemorar com elas a Carmem porque ela e Cintia moram em uma casa verde e rosa com bandeira na cama e ímã na geladeira escrito “Toda mulher merece amar outra mulher”. Eram tantas mulheres comigo, tanto amor. O material do amor é a pessoa ou o que vemos em nós a partir dela? O tempo que vai passando no tempo dele e nos transformando em nós mesmas, mesmo naqueles poucos dias. Talvez com mais tempo não consigamos mais seguir um bloco de salto alto, talvez os hormônios caiam, o cabelo embranqueça, doenças apareçam, talvez a gente perca alguém, mas aí descobre que o material não é o que dá o valor. Em alvenaria, cimento queimado e maçanetas da loja de ferragem é tudo muito mais simples e lindo por estar ali inteiro pertencendo presente.

 

Edilene, desce desse pole dance e vem mergulhar comigo! Bota uma cadeira aqui ao lado da minha e venha ver Sergipe ali do outro lado do São Francisco, vem velejar! Vem visitar a Dani e a Valeria no São Chico e comer outro milho cozido no fogo de tijolo com suco de jenipapo naquele quintal. Ou quintéo. Vem olhar as diferenças pelo afeto e fugir gargalhando de uma invasão alienígena da CVC, os tubarões de Pernambuco não toleram surfistas. Quando a realidade prescinde de qualquer alucinógeno por já ser tudo o que precisa de maravilhosa para alucinar, se entregue ao rio, Edilene, e deixe que ele transborde o que entender necessário e bonito em você. Também o desencaminharam e nem assim conseguiram tirar dele a força e os encantos existentes.

 

Eu não sou de despedida então digo até breve como os peruanos e com o sorriso comovido de quem admira o pôr do sol com calma por saber que ele volta pra gente no dia seguinte. No dia seguinte saberemos sentir de novo essa bendita felicidade. É só lembrar.


--- Para Thiago, Pablo, Ronaldo e, claro, Edilene. E para essas mulheres lindas que viveram comigo esses dias


Músicas: 

Enquanto Engoma a Calça,  Ednardo

Nhem nhem nhem

Meu Amorzim, PC Silva

Edilene

9.3.25

Acenda tudo o que for de acender

Na frisa você é obrigada a olhar para o céu quando passam os carros alegóricos, é bom para entender nosso tamanho debaixo daqueles Exus e Oxalás. ‘Passa esse defumador aqui mais perto, por favor’. 

“Vamos pra Sapucaí, seu João?” “Vou esse ano não, senhora, agora tem muita macumba no Carnaval, eu gostava antes, pra quê isso?”.

 

Tem erva pra defumar, carrego o meu patuá / Adorei as almas que conduzem meu caminho / É mojubá, marabô, invoque a Lua / Que o povo da encruza não vai me deixar sozinho  


Disse que era o primeiro ano dele no Carnaval. “Mas você é de onde?” “Aqui do Rio mesmo.” “E estava onde até hoje?” “Perto da Praça Onze, mas eu era da igreja. Se minha mãe souber que estou aqui cantando essas macumbas ela me mata.” “Você saiu da igreja e agora vem?” “Eu venho com ele, meu namorado. Porque ele é do Salgueiro”. O namorado sorriu para mim, ofereceu um pacote de Doritos, nós da arquibancada vendo o ensaio do Tuiuti e lá embaixo Markinhos, mestre de chocalho da escola, montado de salto alto à frente da bateria comandava “Quem Tem Medo de Xica Manicongo?”, a primeira travesti do Brasil.

 

Só não venha me julgar, ô-ô / Pela boca que eu beijo (...) E a fé que eu professar / Não venha me julgar / Eu conheço o meu desejo / Este dedo que acusa / Não vai me fazer parar

 

Sempre alguém chora. Eu choro cachoeiras e acho mesmo que o samba é para lavar então deixo chorar. A gente que chora no samba se entende, só se olha, oferece a mão, jamais diz ‘não chora’. Ontem era a Paola. A cada vez que ela batia o pé no chão da avenida parecia trovejar. Ela parava, chorava, voltava. A plateia respondia com palmas, gritos e celulares. “Três princesas turcas vieram pro Pará? Erundina?”

 

É força de caboclo, vodum e orixá / Meu povo faz a curva como faz na gira  / Chama Jarina, Herondina e Mariana / Grande Rio firma o samba no Tambor de Mina

 

O vestido devia pesar uns vinte quilos mais o adereço da cabeça e ela pequenininha desfilando devagarzinho. O rapaz do apoio a abanava com um leque que fazia seus cílios postiços enormes dourados voarem, ela se secava com um lenço e sorria, olhava pra gente, buscava fôlego, dava mais uns passinhos em direção à Apoteose. Talvez pelos nossos olhares encantados derramando admiração e respeito, uma diretora de Harmonia me puxou e disse “87 anos.” Dona Vilma Nascimento estreou aos 13 como porta-bandeira naquela Portela e se tornou baluarte, o “Cisne da Passarela”. E eu considerei não ir por gripe?

 

E foi assim (...) / Novos destinos no mesmo poema / E nos terreiros, perfume de patchouli / Acende a brasa do defumador / Pro mestre batucar a sua fé

 

“Não fazem mais sambas que duram, que samba que você canta depois que acaba o Carnaval?” Fala, Majeté a cada 15 dias ou quando necessário.  

 

Em 2019 a Mangueira compôs o argumento “a História que a história não conta”. Foi ali que me dei conta de que deveria estudar os enredos mais profundamente, que tudo aquilo que ia assimilando desde criança nas letras e alegorias eram a aula que minhas escolas particulares e ciclo social não passariam. Levei a vida sem entender que o chamado daquela batida que me puxava por dentro e jogava no tambor era o toque de uma bateria para um orixá. Quando cheguei no mundo me apresentaram Deus, santos, até Buda veio antes de Oxum, foi esse outro mundo que os trouxe. Aos poucos fui levando mais fevereiro para o resto dos dias, não mais me guardando para quando o Carnaval chegasse, Chico. Foi o Carnaval quem me ensinou que o país onde nasci tinha uma religião e uma cultura, outra História. E foi o Carnaval quem fez bater vida dentro de mim quando ela não pulsava mais, e eu não entendia.

 

Toca o adarrum / que meu orixá responde

 

Quando desço as escadas da estação Maracanã e vejo a bateria da Mangueira formada para o ensaio de rua. Quando me torno corda de um bloco qualquer só para estar o mais perto possível e me perder (“você sumiu! Estava sozinha?”). Quando os empurradores de carro alegórico fazem suas performances para o público em um riso solto no estrelato de uma rua. Liberto na senzala social / Malandro, arengueiro, marginal. Quando o puxador comanda “Agora é a hora, pé direito, muita sorte, arrepia”. Quando o cortejo passa por um túnel. Quando desce ladeira. Quando a cidade é tomada por gente fantasiada. Quando essa gente embarca na fantasia. Quando se rasga a fantasia. Quando se forma uma roda de gente ao redor de uma mesa cantando com os braços pra cima e pulando porque passou o VLT. Quando eu pulo a grade e vou atrás da escola sem que meus pés sequer encostem no chão. Quando entendo que é preciso pedir licença para entrar. Quando eu era uma criança vendo na TV da sala de madrugada o Cristo proibido de Joãosinho Trinta, equilibrando o medo das fotos em sépia dos meus antepassados nos quadros daquela casa enorme onde fazíamos bailes e um amor por uma festa que nasceu em mim e me aceitou. Quando preciso defender que não é tudo igual e entende quem quer.

 

De tudo que aprendi / O todo que reuni / Fez imbatível a força do meu axé


Não acaba na Quarta-feira.


Eu vou seguir sem esquecer nossa jornada, emocionada.