26.2.26

Tareco & Mariola (se eu morasse aqui pertinho)

Seu Osvaldo nos vê chegar pela janela de casa e sai para abrir o bar. Ajeita na mesa de plástico quatro cadeiras, traz a cerveja. No palco ainda vazio, ilustrações na parede em estilo de xilogravura que se repetem pelo lugar. Quando nos sentarmos na porta para olhar a paz da praça onde as crianças brincam de (cair de) bicicleta pedirei uma lapa de cana, aquela que aprendi a tomar com mel e limão. “Não dá ressaca isso?”. Nenhuma, deve ser a pureza do ar.

Ele conta que está juntando dinheiro para uma máquina de coxinhas de galinha que vai fazer com a esposa, merendeira na escola ali perto. Mais tarde tem futebol dos idosos no campo de terra em frente que separa uma fileira de casas da outra, onde nossos cavalos estão presos na árvore - Muriel e Tapioca. O diácono se junta a nós na prosa e conta que também voltou do Rio de Janeiro, assim como Osvaldo e Galego que moraram por lá. Gostaram não. Bom que tem trabalho ali agora, as crianças estudam, se formam e ninguém precisa mais sair para tentar viver melhor longe dos seus. Vive-se bem em Poço das Pedras, no Cariri paraibano. “Vocês querem ver a igreja?” Vou lá dentro do bar apanhar a chave’. Caminhamos devagar no fim da tarde fresquinha, passa o carro de boi levando o dia de volta. Ao entrar, o diácono me ensina que podemos fazer um pedido na primeira visita a um templo. Fecho os olhos, sorrio, peço uma benção a ele. Aquilo já é desejo realizado. A vida que eu escolhi.

 

Com um elenco tão grande e tanta pressa, como o a gente encontra as pessoas no mundo? Tenho um medo que a vida afaste. “Até aqui ela só juntou”.  


“Será que vai acabar?”, ele perguntou, olhando as inexplicáveis e lindas itacoatiaras no Ingá desgastadas pelo tempo, água e fungos. Ninguém sabe quem e como fez as inscrições na pedra e presto menos atenção às teorias e mais à beleza. Certamente vão, pensei, porque tudo um dia acaba. A gente só não sabe quando e assim vai vivendo.


Vive melhor comendo o cuscuz da Dona Lia e ouvindo suas histórias. Aquele sorriso não esteve sempre ali. “Me deitei em uma cama e pedi que me levassem. A vizinha veio me buscar, ofereceu oportunidade, tempo depois eu estava no programa da Eliana ganhando um prêmio que mudou minha vida. Agora estamos aqui! Fiz Cabeça Amarrada, tapioca, bode e uma goiabada que Ronaldo diz que vocês não vão esquecer”. Não vou esquecer é do abraço dela e daquele Memorial do Cuscuz cheio de relíquias de uma vida que ela narra como escolheu olhar e fazer. E a goiabada... Já reparou com queijo coalho é melhor por lá?

 

Foi depois do trio tocar mais um forró e comermos Cabeça de Galo. “É cabeça de galo mesmo, Pablo?  É. Galo-galo? Galo-galo.” Parecia um pouco mole, mas eu já tinha recusado experimentar o bode – tão gaiatos com aquele olhar 43 e seus sininhos trilha perfeita de felicidade dos meus dias. Vamos ao galo. “Vixe, muié, cabeça de galo é só o nome, que isso aqui é ovo cozido no caldo de farinha de mandioca!”. O alívio foi como achar sombra naquele calor. A incursão gastronômica ficou para o doce de umbu, o rubacão e os queijos de cabra da família Suassuna em Taperoá. Só sei que são assim... deliciosos do tamanho dos bois que eles acharam pelo mundo e aprenderam a criar na seca.


A Josi falava da anileira, mostrava como extraía a tintura da planta, nos levou pelo caminho mágico de cristais até a loca de Zabé e no meio disso falou que não tinha receio de passar adiante suas aprendizagens sobre a técnica que criou. Já perguntaram o que ela queria para ensinar: nada. A gente faz pelo mundo que acredita e quer e se não for acessível não funciona. E se ninguém souber que foi ela que fez ela sabe. Se não for para dar ao mundo eu nem venho.

Zabé era Isabel tocadora de pífano desde garotinha. Viveu na gruta lá no alto, onde nos falta fôlego para chegar, até ganhar casa no assentamento. A fama ganhou aos 79 anos e ainda insistia em subir até sua loca. Foi ao acompanhar Zabé nas excursões artísticas que Josi quis aprender a ler.

Foi criada por ela e hoje mantem o espaço em memória de Zabé. Conta que um dia a madrinha foi reverenciada por Gil em Brasília, ele se sentou aos seus pés e deitou a cabeça sobre suas pernas. “Quem é esse homem deitado no meu colo, Josi? É o ministro, Zabé, Gilberto Gil.’ O ministro só ria, não que dali tivesse levantado. Teve mais sorte do que Hermeto Paschoal, show interrompido por Zabé que, da coxia, queria saber quem era aquele homem cuja música não a agradava e de pífano em punho invadiu o palco e dele fez o seu lugar. Como foi isso direito eu não sei, só sei que foi tudo mais ou menos assim.

 

Como também não sei mais mexer no tear de tecer rede, mas juro que lá aprendi. Abaixa um pedal, joga a lançadeira para um lado, puxa a madeira, abaixa o outro pedal? Acho que eles vão fazendo ao ritmo daquela música, e rede e música e rede e o bordado que eu devia ter trazido de lá é o que dizia “Quando o olho brilhou entendi”.

Entendi quem é Flavio José. Entendi que para muita gente nesse país é festa junina o que em mim é Carnaval. Que quando chove o Cariri floresce inteirinho em poucos dias, fica verde onde antes tudo estava seco e igualmente lindo e nunca morto como desavisado pode supor. Que o xique xique é o cacto intrometido e espalhafatoso que corre rasteiro e a palma é alimento. Que antigamente os cactos tinham folhas, mas na evolução aprenderam que para se proteger seria melhor crescer espinhos. Que ainda assim até eles dão flor. Que mandacaru cresce para o alto e quando fulora é sinal que a chuva chega no sertão, mas a flor só abre à noite. Que chuva é benção (onde moro é risco).  Que tem muitos tipos de renda e mulheres que transformaram suas vidas ao aprender seus pontos. Entendi que as cooperativas revolucionaram o campo. Que a Roliude Nordestina de Cabaceiras tem sempre aquele céu azul sem uma gota de chuva e casinhas que parecem os estúdios por onde vivo, mas ali todo mundo é de verdade. Que Suassuna comprou 300 cabras porque ouviu que de arte a humanidade não precisava, só de pecuária, agricultura, pesca e talvez metalurgia. Que o Movimento Armorial uniu o erudito às raízes populares nordestinas para criar uma estética brasileira autêntica nas artes e como é que isso ninguém me ensinou na escola? Que a Pedagogia  do Encantamento diz que quem não se encanta não aprende e viajar é a minha escola. Que gaiola bonita não dá de comer a passarinho. Que quando chove vem as cobras, não é mentira! Mas não se assuste, fique calma. Quando abri a janela e vi os bois e bodes eu sorri e quis viver ali. Entendi que o mundo é tão imenso, meu país tão enorme, minha gente tão rica, e simples é só entender que eu sou parte deles e eles são parte de mim. Entendi que somos feitos de falta, onde há falta fazemos festa e a falta é o que nos move. Que enquanto tiver vida, tem.  Que “essa palavra saudade conheço desde criança, saudade de amor ausente não é saudade é lembrança e saudade só é saudade quando morre a esperança*”.

Que quando abri as asas voei. Quando fiz por mim tava aqui. Quando dei por mim, me apaixonei por isso.

 

 *Pinto de Monteiro

 

 

 

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