30.4.10

Msg para @girino

Recorde histórico: surgimento de uma nova pessoa faz Bruna ter crise de ansiedade em menos de 4 semanas. Leia hoje no Tribuneiros.com.

28.4.10

Os Buchas

Assista aqui.

Porque eu até acredito em alma gêmea, mas morro de medo de espíritos.

19.4.10

Cartas a um girino (volume I)

Era uma vez meninas que brincavam de princesas. Um dia elas descobriram que os sapos eram bem mais legais do que os principes, e começaram até a conversar com girinos.
Abra aqui a correspondência alheia.

15.4.10

Remington & Sons

Há muito tempo, em um mundo nem tão distante, não existia o verbo deletar. Não existia nem o "Delete". A menininha colocava a máquina em cima da mesa de jantar, encaixava o papel com cuidado pra não ficar torto e assim as histórias não parecerem que cairiam da folha e ia empurrando com os dedinhos as letras até o fundo, para que as hastes subissem com força e carimbassem o simbolo correspondente à imaginação. No final puxava a obra com orgulho e guardava numa pastinha de elástico.
Um dia eu escrevo sobre a máquina automática que as crianças não podiam usar: "vocês vão acabar com a fita de apagar". E um dia eu aprendo a fotografar.


7.4.10

10 lições que você aprende ao ficar presa no temporal

1. Os vizinhos do andar de cima criam hipopótamos no apartamento. Só isso explica os barulhos.
2. A cobertura da Globonews é mais legal enquanto os repórteres estão alagados na rua.
3. Mamãe não quero ser prefeito.
4. É bom que sobrem alguns ovos de Páscoa.
5. Para o caso de faltar luz, tenha livros e Rivotril em casa. Ou banheira e vinho, assim você faz sonoterapia.
6. Internet no celular é tão importante quanto um par de galochas
7. Não tente roubar os pedalinhos desgarrados da Lagoa para passear pela cidade, algumas pessoas não tem seu humor negro e estão realmente em apuros.
8. Seja o primeiro a correr pro supermercado. Zombar dos desesperados que começam a estocar alimentos não perecíveis fará com que você passe fome depois de 30 horas de temporal.
9. Lave ao menos um casaco a cada quinze dias. Depois de meses de verão inclemente eles te matarão de alergia se a temperatura cair e você não vai querer perder a grande chance de passar a tarde enroscada no sofá só ouvindo a chuva, como na infância.
10. Monte com amigos uma playlist temática sobre chuva. Se eles não forem completamente surtados se ocuparão por mais de 5 minutos com a brincadeira e chegarão ao seguinte resultado:

1. Chove, chuva (Grammy de piadinha mais infame da semana)
2. Aguas de março (em versão abril)
3. Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
4. Purple rain, do Prince
5. Chove lá fora e aqui (no meu caso, também chove)
6. Eu quero que chova uma chuva bem fininha
7. Rain da Madonna
8. Rain dos Beatles
9. The rain do Roxette
10. Queen of Rain da mesma dupla
11. Raindrops keep falling on my head, Burt Bacharach
12. Have you ever seen the rain – não como essa, Credence Clearwater
13. Black Rain, do Ben Harper, em São Paulo
14. Singing in the Rain, com Gene Kelly em uma cidade onde a água escoa pelos ralos e as encostas não desabam
15. November Rain, do Guns n' Roses, que ganhou prêmios nos quesitos merchan (cabelo de anúncio de xampu do Axl), figurino (terno azul cintilante, o vestido de noiva e as backing vocals vestidas como Madonna em Like A Virgin), actor in a suporting role (Slash quando não encontra as alianças do casamento e num solo de guitarra de pernas abertas em frente à igrejinha do deserto) e momento “não faça isso em casa” (um convidado infeliz se joga em cima do bolo de casamento pra escapar de uns pingos d'água)
16. Come Rain or come Shine, do Ray Charles
17. Dry the Rain - The Beta Band
18. No rain - Blind Melon (sim, eu também adorava esse clipe da abelhinha no Disk MTV com a Astrid!)
19. It's raining men (vai que cai um do céu)
20. I'm only happy when it rains, que o Garbage compôs numa tarde como a de ontem
21. Right as Rain, da Adele
22. Rainy Days, do Ja Rule
23. Why does it always rain on me, da época em que o Green Day Morava numa casa com goteiras
24. The Rain Song, do Led Zeppelin (recomendada por nossos especialistas como “linda de doer”)
25. Fool in the Rain, que o mesmo Led Zeppelin compôs ao te ver andando no atoleiro pensando em roubar um pedalinho

Bonus track: O Rio de Janeiro continua lindo.

Agradecimentos especiais: Dear Juliet (que não é a de A Rainy Day Song!)

3.4.10

Exercício (eu, o Cazuza e pessoas de cabelos enrolados adoramos um amor inventado)

Que estranho seu Cristo, Rio
De braços abertos sem proteger ninguém
Do frio do abandono, solidão, pensamentos soltos
e eu já não sei onde terminam ou começam histórias
se coloco palavras por ser ou pra rimar

Eu preciso dizer que não te amo
Passageiro
Essa tristeza existe só pra depois a gente medir o amor feliz
Como eu vou saber?
Você vai saber

Não tem mentira, não
Tá tudo aqui, embrulhei numa trouxinha pra despejar na sua cama
Encaixa aí
Essa marra, minha raiva, pecinha por pecinha de um quebra-cabeça imperfeito de quebra coração, quebra ilusão
Com a gente não é assim não, amor
Desculpe dizer: esses versinhos são pra mim, nenhum pra você

24.3.10

Caio

"Porto, 22 de dezembro de 1979

Zézim,
cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tUa carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quietO e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portantO, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudo-inteligente.

Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace al andar”.

Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.

Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentem ente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.

Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tUdo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.

Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.

(...)

Ler é alimento de quem escreve.
Caio Fernando Abreu

16.3.10

She and him

Distribuição de Serenata do Amor aqui no Tribuneiros pra acabar com o estoque.
E uma música.


7.3.10

Os poderes de Greyskull

Você pode acordar para ir trabalhar ou faltar e ver todas as estréias da semana. Pode vestir um terno ou decidir que hoje vai casual, mesmo que não seja friday. Pode almoçar no restaurante ali da esquina ou andar mais um pouco e arriscar um novo, ir regularmente à academia ou caminhar no parque ouvindo música. Pode dormir com a TV ligada ou ligar para alguém com quem não fala há tempos, arriscar outro caminho ou seguir naquele já conhecido, pode fazer Administração, Direito, Economia ou passar um ano a quilômetros da faculdade só para estudar línguas, arte e viajar por aí.
Você pode se formar e imediatamente começar uma pós-graduação ou confessar abertamente que não tem a mínima idéia do que quer ser quando crescer. Pode nunca sair de casa sem camadas e camadas de protetor solar ou torrar no sol e usar biquíni branco no inverno, pode ficar com todos os caras que te olham ou não estar nunca satisfeita com ninguém. Pode reclamar do que te incomoda ou esperar para ver se passa, guardar dinheiro para ter um carro zero ou andar de ônibus e ter mais sapatos que Imelda Marcos. Pode tocar vários instrumentos ou entender sobre musica tanto quanto o I-Tunes permite, insistir para ver se volta ou acreditar que acabou.
Pode saber de cor quantas calorias tem em cada alimento ou fechar a boca sempre que a calca jeans apertar, ler todos os clássicos ou os quadrinhos do jornal, sair todas as noites ou dormir oito horas por dia. Pode falar com seus amigos toda hora ou curtir os status nas redes sociais, viver num apartamento onde, se entrar correndo, cai pela janela ou se lembrar de avisar aos pais quando não dormir em casa. Pode anular seu voto ou se esforçar para entender os projetos de cada candidato, conversar para chegar a um acordo ou desistir porque não vale a pena.

Você não pode não se lembrar do que queria quando criança, não pode não saber se quem importa está bem, não pode não conhecer o lugar com o qual sempre sonhou ou não dar uma chance se existir uma mínima possibilidade. Não pode não saber quais musicas e filmes te fazem chorar e quais te fazem sorrir, não pode não descobrir por que está se sentindo mal há tanto tempo nem não ter algo só seu. Não pode não ter alguém com quem contar nem um motivo para continuar.
Você não pode um dia acordar e ver que não se lembra como tudo ficou assim. Pelo menos não deve.

Seu Martin 1, 10/09/2006

24.2.10

Juliet, naked

Quando a segunda-feira começou, ela não. Dormiu mais meia-hora no dia em que o ano começava porque ela já tinha começado, mesmo que da forma mais atrapalhada possível. Foi a possível, e odiaria começar qualquer coisa em uma segunda-feira, seria banal.
Enquanto todos se moviam para seus trabalhos ela comprou um suco de laranja e caminhou na direção contrária para olhar as revistas da livraria que tinham sido substituídas por livros enormes e desinteressantes que obviamente estavam ali só para disfarçar o vazio. “Que merda!”. Então foi para a praia. Não pensou “que merda” com raiva, até chegou a olhar para o livreiro a fim de dizer que estava ruim, mas desistiu. “Ele deve saber”.
O cara mais interessante da areia tirou os óculos Ray Ban e deu um mergulho enquanto ela se deliciava com o espaço, o calor e o barulho das ondas. Na volta ele pegou uma toalha na sacola ecologicamente correta de supermercado e se deitou de bruços. Ela achou ruim, mas não lamentou. "Ele deve ser gringo".
A amiga voltou da tomografia de seios da face e tirou a roupa depois de tirar da bolsa o mesmo livro que ela estava lendo, e nenhuma das duas queria ver o filme apesar de adorarem cinema. Ficaram uma meia-hora considerando a vida sexual dos outros para concluir que todos mentem, decidiram que a tecnologia era culpada pelo aumento da ansiedade, se espantaram que em 2010 uma mulher não pudesse só querer sexo e desconfiaram da certeza dos que prometem ficar juntos até que a morte os separe. Cogitaram maconha como tranquilizante, mas acabaram se conformando em ver obras de arte. Acordaram que poderiam fazer a comida para o amado exausto, se conseguissem um amado e isso não as deixasse exaustas.
Enquanto o sol se escondia atrás da montanha escurecendo o Leblon, os créditos subiam ao som de Silly Love Songs. Roteiro, direção, figurino, trilha, tudo era assinado por elas, mesmo que às vezes errassem no casting. Eram boas personagens, só não gostavam de tanta reality no show.

18.2.10

Da jardineira

Era o calor que subia do asfalto ou havia uma névoa na avenida. O trombone pesava no velhinho, parceiro de tantos Carnavais. Na banda tocava-se cada um a seu tempo, e aquilo era tudo o que não podia me faltar na vida. As marchinhas estavam no acorde errado, ou era eu.

Os três dias de folia e brincadeira, eu pra cá e você pra lá, era só até quarta-feira. Aquela máscara negra que esconde do rosto a saudade nem saiu do armário, arlequim mal sabia por que chorava. No balancê tantos passavam sem despedaçar um coração, só restavam os mais de mil palhaços, cada qual segurando uma camélia, a sorrir no salão. Se fossem sinceros pulavam? Valsavam.

As cinzas vieram antes. Não posso mais.

Naquela esquina em frente à livraria não se cantou As Pastorinhas. Nem vi a livraria, confete ou serpentina, não ouvi o Abre alas. Eu devia ter puxado que “esse ano, meu bem, está combinado”, mas precisaríamos ter nos falado antes pra você perceber o recado. Então quando notei inventei uma coreografia solo não para revolucionar a festa, mas por não ter par. E a turma toda grita, que no barulho não se ouve nada mesmo - colombina, onde vai você? E ao me ver já estava dando a volta na praça, tamborim de um lado, o surdo a bater, cantando o refrão até o amanhecer: “gentileza é assim, eu cuido de você e você cuida de mim.”

Foi um último gole. Foi bom te ver outra vez, só não posso beijar-te agora. Não me leve a mal. Quero cantar até decorar que esse mundo é todo meu para de novo poder pular o Carnaval.

Lala-iá lala-iá, lala-iá lala-iá, lala-lalala-laiá. Hey!

4.2.10

Quem te viu, quem te vê

"Oi Bruna,
Como se dizia naquele programa humorístico: “Olha o coração do velho!”
Fico muito lisonjeado e emocionado por ter dado uma pequena contribuição ao seu belo texto. É lindo ver que palavras que escrevi sem muito cuidado se transformam em ótimas colocações para sugerir uma conduta de vida. Parabéns. Tenho certeza que você se saiu muito bem na palestra.
Quanto à autorização, os direitos autorais daquele texto são seus. Eu o escrevi para você.
Um beijo,
F."

E eu publiquei aqui, para arrumar as coisas e termos todos um bom Carnaval.

26.1.10

Landing

NATALIE
When I was 16 I thought by 23 I would be married, maybe have a kid… corner office by day, entertaining at night. I was supposed to be driving a Grand Cherokee by now.

ALEX
Life can underwhelm you that way.

NATALIE
Now I have my sights on 29 because 30 is just way too… apocalyptic. I mean where did you think you’d be by…

ALEX
It doesn’t work that way.

RYAN
At a certain point, you stop with the deadlines.

ALEX
They can be a little counterproductive.

(...)
ALEX
You really thought this guy was the one.

NATALIE
I guess. I don’t know. I could have made it work. He just really fit the bill.

RYAN
The bill?

NATALIE
My type. You know. White collar. College grad. Loves dogs. Likes funny movies. Six foot one. Brown hair. Kind eyes. Works in finance, but is outdoorsy, you know on the “weekends.” I always imagined he’d have a single syllable name like Matt or John or… Dave. In a perfect world, he drives a Four Runner and the only thing he loves more than me is his golden lab.
Oh… and a nice smile.
What about you?

ALEX
Well… by the time you’re 34, all the physical requirements are pretty much out the window.
You secretly pray he’ll be taller than you. Not an asshole would be nice. Just someone who enjoys my company. Comes from a good family- you don’t think that when you’re younger. Wants kids… likes kids… wants kids. Healthy enough to play catch with his future son one day. Please let him earn more than I do - that doesn’t make sense now, but believe me, it will one day. Otherwise it’s just a recipe for disaster. Hopefully some hair on his head… but it’s not exactly a deal breaker anymore. Nice smile. Yep. A nice smile just might do it.

NATALIE
Wow. That was depressing.

Up in the air

24.1.10

Lost in translation

Aceito, é difícil ser brilhante todas as vezes. São muitos lançamentos que exigem diversos processos de rotina em uma equipe que não necessariamente está super envolvida com aquilo e um deles, só mais um na lista de coisas a serem feitas, é criar título em português. Se o filme tem nome de gente, danou-se, na melhor das hipóteses acrescentam um complemento explicativo para mongol, mas normalmente avacalham tudo.
Eles mudam os cartazes. Obviamente por trás dessa decisão existe um estudo de marketing provando a necessidade de se adaptar a imagem do filme à cultura local e eu não sei se são criadas varias opções de cartazes ou cada escritório regional tem carta branca para adaptar a seu gosto, mas pessoalmente gostaria de sempre olhar um cartaz aprovado pelo diretor - quem imaginou aponta a figurinha. É dar tiro no meu próprio pé pregar a liberdade artística em prol das decisões executivas visto que parte do meu trabalho consiste em meter o bedelho na obra alheia, mas aqui sou só uma menina sentada na frente de um computador pedindo aos distribuidores de filmes mais atenção.
Não são monstros (inclusive, achei-os fofinhos!). É “onde estão as coisas selvagens”. Não entendeu o tag line? (o slogan do filme) Não entendeu o filme? Como se não bastasse tudo o mais, percebo que tradução também é complicado.
Você pode colocar seres azuis correndo em uma floresta em 3D para pregar o bem, pode filmar a história de um menino abandonado que se torna rei de seres peludos e grandes com medo da solidão, ou simplesmente andar com um cartaz na rua escrito: eu estou te vendo, está tudo bem. É o que as pessoas sentadas naquela sala escura precisam, mesmo as que só vão ao cinema ver Velozes e Furiosos. Mas algumas não vêem tão claramente. Ou vêem e saem correndo (o “monstro” explicou, nem sempre reagimos como queremos).
Encontro-me em uma fase complicada com as palavras, dificuldade de exatidão. Sofrer em inglês é quase mais fácil se você já passou maior número de horas assistindo a produções made in Hollywood do que ficção na TV aberta, porém é preciso um esforço extra por parte dos encarregados na função de encontrar o nome certo para o que está ali. Se você errar a palavra que define a coisa o outro pode não entender, e aí a historia foi em vão. Se é que existem histórias em vão.
Existem em cartaz Where the wild things are e Up in the air. Don’t miss it.

13.1.10

Receita para tempos bons

Para se ter um bom ano é preciso Carnaval. E poesia. É preciso barraca de praia, biquíni novo e Sundown. É preciso uma mesa de bar com amigos, histórias inacreditáveis de se ouvir, e questões.
Para se ter um bom ano é aconselhável dois Ipods, se roubarem um ainda sobra outro. (Para se ter uma boa cidade seria preciso menos violência, mas para acreditar nisso seria preciso algo que já perdi). Para se ter um bom ano é preciso internet rápida para baixar músicas novas e pessoas velhas que conhecem músicas. É preciso que alguém veja o que eu vi, por mais surreal que pareça. E que alguém se lembre do pedaço da noite que esquecemos (mas como assim)?
O ano melhora com um mergulho, piscina, mar ou a cachoeira se você encontrar. Um bom ano tem noites em que uma cama menor bastaria praquelas duas pessoas, é mais fácil com muitas pessoas mesmo que só exista uma, mais carinhoso com cachorro abanando o rabo mesmo que não seja seu e mais garantido com algum trocado. É preciso vento.
Para se ter um bom ano é preciso bons livros, filmes e séries, alguma comida, e pedaços de morango com chocolate. É preciso um entorpecente qualquer, alguém que chegue perto e te bote tonta, que venha dançar assim pertinho e você pense que seria prudente sair. É preciso imprudência, imaturidade e um tiquinho de irresponsabilidade. Para se ter um bom ano é preciso dormir no sofá.
Um bom ano melhora com torcida, na arquibancada ou na cadeira. É bom um ano com Copa do Mundo. É inútil um ano sem beijo. Para se ter um bom ano é preciso ver o sol nascer, o sol se por e tomar chuva. É preciso cantar. Dançar. Surpresa. É preciso chorar, aprender o nome de uma flor diferente e usar uma roupa linda.
É bom que tenha avião, que se faça malas e planos e roteiros de viagem. É fundamental viajar, mesmo que sem tirar os pés do chão. É preciso tirar os pés do chão mesmo que em quadrilha de festa junina e é preciso fantasia, o ano inteiro. É preciso que se libere o Matte de galão e batucar na mesa, liberar ajuda.
Para se ter um bom ano, é preciso Vinicius: a vida só se dá pra quem se deu. É preciso tentar.

4.1.10

Gentle people with flowers in their hair

Fui chamada no meio da noite, o prefeito batia à minha porta. Não sei se mais pelos efeitos dos remédios para dormir, pela hora ou pelo inesperado, estava completamente zonza, eram tantos oficiais do Choque de Ordem que mal cabiam na minha pequena sala. Queriam me levar para a praia antes que amanhecesse. Tenho levantado a hipótese da cidade não poder sediar eventos internacionais, me enfureço com a proibição do Matte de galão na orla e não dos flanelinhas, mas a razão da urgência não era censura: dezenas de leões-marinhos ocupavam as águas do Leblon.
Era a terceira vez no repeat, volume máximo. Estava com essa mania de ouvir música aos berros para que me desligasse das baboseiras cuspidas, dos meus pensamentos, tinha que ser mais alto. Fosse mais alto talvez eu berrasse e se berrasse no meio do escritório talvez fosse internada, ou libertasse aquelas almas excelianas que lutam pelo nada. Na ida, a cada relógio-termômetro a taquicardia aumentava e com ela o calor e aquele engarrafamento de idéias e palavrões e era apenas uma manhã qualquer de uma vida, existia a promessa de um verão inteiro pela frente e a visão de um mar lindo à direita e nada parecia suficiente, pior, tudo parecia motivo óbvio para que aquele tradicional trajeto fosse interrompido e coisas absolutamente sem sentido fossem feitas porque nenhum sentido mais havia em chegar onde eu estava indo. Não era mais try a little harder, era parar. No mais barato dos clichês, deixar a vela panejando porque não existe pressa e à noite no mar ecoam os versos de que o céu de Icaro tem mais poesia que o de Galileu.
Peguei um avião, “tira umas férias!”. Exausta, me vi ali sentada, caveiras e monstros correndo felizes pelo Pier 39 no sábado pré-Halloween, olhos ardendo por causa do fedor que os cartões postais não mostram, hipnotizada por leões-marinhos que se derrubavam uns aos outros por um cantinho no sol. Hilário. Eles são bem parecidos com focas e tão gordos! São da família das “otters”? “Otters” são tão bonitinhas, quando pensava em lontra imaginava uma coisa meio capivara. Eu queria ter uma lontra. Não tomei nenhuma grande decisão nas tardes ali sentada, não refleti sobre minhas angústias, fiquei parada automaticamente respirando e achando graça dos gorduchos barulhentos. Me afeiçoei a eles.
A visão na praia era linda. A Niemeyer amanhecendo, eu e o prefeito, milhares de leões marinhos. Vieram me dar um abraço. Acho que choramos um pouco, mostrei o Arpoador, pegamos uns jacarés e eles partiram. O prefeito se acalmou, nos jornais cariocas não foi publicada uma linha, só uma nota sobre os folclóricos leões-marinhos terem desaparecido de San Francisco.
Às vezes tudo o que precisamos é de amigos que acreditem em nós.

Be a good boy
Push a little farther now
That wasn't fast enough to make us happy
We'll love you just the way you are
if you're perfect