21.2.11

My lichia days

Não é sobre quem está do outro lado da rua.
E eu também nem sei se as histórias que lembramos realmente aconteceram. Provavelmente não.
Mas sair correndo entre os carros num impulso de impedir a partida do outro é bem diferente de atravessar a rua.



 
Leslie: (no poker) às vezes você perde o ritmo, lê a pessoa corretamente e ainda assim faz a coisa errada.
Elizabeth: Por que você acredita neles?
Leslie: Porque você não consegue nem mesmo acreditar em você.

My Blueberry Nights

14.2.11

O quesito evolução

Peguei a canoa andando e, se é essa a questão, quero sentar na janela sim. Quero inclusive falar com o remador, tenho umas idéias – que isso não é culpa minha, veio de fábrica, item de série. Carnaval eu conheço desde Petrópolis, do samba, por encantamento, me esforcei pra correr atrás, acrescente-se aí uma pitada de egoísmo e altas doses de carioquismo e temos argumentos suficientes pra um texto publicável.


Pra quem só conhecia a Sapucaí pela Globo e “pulava Carnaval” em bailes, atravessar a Rio Branco ensopada de chuva com o Bola Preta bradando Explode Coração foi um rito de passagem, liberdade abria as asas sobre nós! Antes disso fevereiro já era festa, cada um comprava uma fantasia pra ser usada em esquema de rodízio, os mais velhos nos enchiam de um gel chamado New Wave com purpurina que é capaz de estar até hoje entranhada nos tapetes seculares da casa da serra. Homens se vestiam de mulher, as fronhas velhas eram transformadas em máscaras que me davam um pouco de medo, o Petropolitano Football Club era o palco da algazarra. A banda descia do palco às 4 da manhã e arrastava até a rua os que já tinham idade pra estar no “Baile do Preto&Branco”.

Quando chovia muito (e desde aquela época Petrópolis já sofria com as águas de janeiro, fevereiro e março) o rádio virava a bateria e as serpentinas invadiam a biblioteca. Confete não! E espuma em spray, pro bem de todos, nem existia, no máximo o que saía dos tubinhos era um tal de lança-perfume, e os cartazes nas paredes dos salões que proibiam o uso me deixaram com a impressão de que as épocas passadas eram bem mais liberais do que a nossa - apesar dos meus pais insistirem que eles borrifavam lança no ar porque era geladinho...

A penca de crianças cresceu, a casa a família vendeu, e então quando o Escravos entoou que “quando eu fico triste o samba insiste em me levar” aquilo fez completo sentido – eco, como o do surdo. Dezenas de novas pessoas entraram na minha vida a partir dali: quatro dias de folia e brincadeira, nós pra lá e pra cá até quarta-feira. Se nenhuma cabrocha de velha guarda olhou torto pra lourinha desajeitada que caiu no huly-guly, que direito tenho eu agora de reclamar? O samba é democrático, querida! E o Carnaval é – ufa! - uma festa politicamente incorreta, vou botar no c* do trocador, dane-se o que ele tenha feito: eu quero botar meu bloco na rua e sambar com os garis e vassouras, arlequim nenhum tem coragem de chorar pelo amor da colombina no meio dessa multidão que pensa que Red Bull é água.

Se eu fosse sincera confessaria até que a banalização da coisa me faz olhar com enfado as ameaças de quem foi pago com traição por quem ele sempre deu a mão. Será que eu gostaria de ser um rei no meio dessa gente tão patrocinada, sem camisa, determinada a beijar o maior número de bocas possíveis que pensa que o Asa arreia e não entende quem é Monarco então “bora pro Chora me liga”? Não vai dar, não vai dar não. Ou vou não, quero não, posso não. Quando eu pude de novo me fantasiar de bailarina e atravessar o Leblon até o mar aquilo parecia tão ingênuo e seguro... Nunca mais vou cantar os versos lentos de Máscara Negra na Dias Ferreira? Nunca mais será um coro de foliões emocionados que não vão explodir na estrofe seguinte como micareteiros? Isso cria um déficit de poesia nos meus dias.

Ô Braguinha, essa gente que envelhece e torce o nariz pra molecada chama de insensatez um abadá... A vida passa, menina! O Monobloco já saiu da Gávea faz tempo, do 9 o Empolga foi pro 6 que em Ipanema não cabe mais a antes diminuta torcida americana do Odisséia. O bloco de hoje é daquele ator global mesmo, e não joga esse ar blasé pra cima do menino que coloca a mão na sua cintura porque os recém-grisalhos que compartilham da sua nostalgia um dia fizeram o mesmo em alguma colombina. Menina vai, com jeito vai, pra canoa não virar põe suas sapatilhas compradas no Saara e tira do armário as saias de filó.

Não leve nada a mal, apesar de tudo hoje é Carnaval.

28.1.11

Para manter o equílibrio*

Tudo ia bem. Sob controle, o que na maioria das situações é mais do que bem. Perder o controle, inclusive, passou a ser um dos meus piores pesadelos, loshermanamente eu diria “deixa o verão pra mais tarde”. É tempo de se estabilizar. Depois de dias turbulentos pude até – pasmem - sair de férias! Sem relógio, sem jornal, sem responsabilidades, vinte e um dias. Sim, eu chequei se as janelas estavam mesmo fechadas antes de sair, conferi o passaporte na bolsa, tive certeza de que as contas estavam pagas, funções delegadas, entrei naquele avião! No pior dos casos explodiria uma guerra civil no meu destino de descanso ou um vulcão entraria em erupção, o que quer que acontecesse só poderia ser resolvido na hora. Fui.

“Auguri!”, eles gritavam. Mesmo, gritavam, os decibéis italianos são um pouco incômodos aos meus ouvidos, mas desejavam essa felicidade com tal entusiasmo que além do “ciao” e “prego” acrescentei a palavra ao meu reduzido tradutor mental, e sem me preocupar obsessivamente em conquistá-la fui degustando os dias na Itália como aprendi a fazer com cada vinho e comida oferecida. Não é que isso é bom mesmo? Só na volta me dei conta de que tudo tinha sido tão bom, eu realmente tinha estado lá: minhas rabugentices, neuroses e medos viajaram junto com a curiosidade, as lembranças, palhaçadas e todos co-existiram bem. Tudo era parte do que eu sou e aceitar é um pequeno passo pra humanidade, mas gigantesco pra astronauta em questão.

Já estava esse calor quando saí? De novo a serra sofreu com as chuvas! Onde era mesmo que estávamos no projeto? Nossa, foi um mês, mas temos tanta coisa pra conversar! A Dilma, como está? E os dias foram passando com aquele clima de duas doses acima típico de pós-férias, nada era grave, um frescor. Até que... serpente? O quê?

“O Sol e a Terra estão se movendo lentamente e assim a estrela do seu signo não é mais a mesma de quando ele foi atribuído ao seu nascimento, milhares de anos atrás”. Enquanto eu me perdia nas estradinhas toscanas um certo astrônomo foi à TV proclamar mudanças no zodíaco, estava criado um novo signo. Então eu saio de cena por uns poucos dias e mudam tudo? Mudam eu? Já aceitei a mudança da gramática, minhas idéias perderam o acento, agora precisam perder o rumo? Por definição devo pensar em cálculos e não mais em arte, nunca fui metódica! Organização mental... Tivesse a mínima ordem na minha cabeça e não existiriam tantas palavras despejadas do meu cérebro atordoado nesse espaço. Eu já tomei decisões baseada em horóscopo, da Capricho ao último astrólogo-formado-em-psicologia consultado encarei muito Mercúrio retrógrado nessa vida. Perdoei capricorniano com ascendente em leão, devia ter mandado o garoto longe com fúria escorpiana! Perdi horas lendo o meu horóscopo e o dos alvos da ocasião pra saber como agir, me habituei a sorrir pra todos os arianos que cruzam meu torto caminho. Tudo errado? Então o problema estava aí desde 1930 e eu vagando de consultório em consultório buscando “me entender”?

Ninguém termina casamento da noite para o dia, não se inverte mão de rua sem prévia comunicação nem se abandona trabalho abruptamente, certas alterações requerem aviso prévio. Astrologia é coisa séria, sabe-se lá quantos cancerianos adorariam ser easy-rider, odeiam a vida em família, mas insistem só porque o mapa astral falou? Eu poderia ter me casado equivocadamente pressionada pelo retorno de Saturno! Quem banca isso agora, defensores do Butantã? Não. Libriana-indecisa ou virginiana-com-TOC, a decisão está tomada: não mudarei de personalidade. Tal qual Paulinho da Viola, eu sou assim. Ô astrônomo revolucionário, se quiser gostar de mim... me liga mais tarde. Rápido, que librianos mudam de idéia com as fases da lua. E ainda usam acento.

* Ou "Para a Lalol e o André"

18.12.10

Tout ça m'est bien égal

Então, Cherie, isto é o ensaio aberto de linhas para você. Só nos veremos agora quase em fevereiro! Pelo mesmo motivo que não desejei feliz natal ou ano novo tampouco farei contas. Sei que você entende.

De tão entediada já dei banho no cachorro três vezes essa semana. Ele começa a me olhar com a mesma cara de quando eu torcia pra que a mania de morder tudo ao redor acabasse. Um dia o segurei no ar, mostrei os quilômetros de brinquedos pelo chão e perguntei: você tem tudo, por que diabos insiste em querer sempre alguma outra coisa? Percebi a armadilha e acho que ele fez “humpf”.

Como uma delinquente dei play na música sabendo que aquilo traria recordações. Queria sentir saudade dos emails bêbados, gargalhadas de dia seguinte, Something que não fosse Beatles. Sinto é uma coceira nas pernas e essa cigarra cantando até explodir. Coitada da cigarra. Será mesmo que o barulho é indício de calor ou a pobre só está agindo como sua natureza? Uma de nos checará no Google. É péssimo que em um dado dia você se pegue em um flashback e imediatamente se acuse de estar exatamente igual ao que estava há um ano. Ou a sempre.

Cobraram-me um texto noutro dia. “O texto de fim de ano”, ela disse. Uma querida! Não quis desapontá-la, ela deve entender. A música do teclado dá saudade quando não toca mais, vez ou outra forço uma tentativa de aplacar o incômodo desse blog não atualizado e vem uma vontade de dizer aos leitores “sua atenção é muito importante para mim, no momento todos os neurotransmissores estão ocupados, por favor volte mais tarde”. Ou vontade freudiana que às vezes é só uma vontade ou Duchamps caberia melhor? Humpf. Desejo, necessidade titânica, anestesiada, vira um pensamento-nuvem. Dissipa-se.

Quero dizer que não haverá retrospectivas? Perceberão, certo? Sem mais delongas a ausência delas dirá, com menos graça e redemoinhos, que seguimos. Sem fogos, mais uma folha arrancada no calendário de parede - não fosse o celular meu único recurso externo a marcar o tempo. Não começamos mais novas agendas da Company, no Outlook o último dia de dezembro é atualizado à meia-noite pelo primeiro de janeiro como se fosse abril, nenhum rito de passagem. Triste a vida dos que nada celebram, não? Entendo.

Fôlego é o que tomo todos os dias, brindemos no café da manhã!
Pour moi, croissant et fromage. A tout a l’heure.

7.12.10

5.12.10

Os Buchas ep2

Porque sempre tem uma Erika que faz um Mark Zuckerberg se sentir um bucha.



2.12.10

Os Buchas

(enquanto as palavras não vem)




(continuação)

24.10.10

Um versinho

Faltou eu no vídeo. Tínhamos que gravar um depoimento contando como soubemos da sua existência, ficou uma graça. Faltando um mês pra você nascer, fizemos uma festa e demos de presente pra sua mãe. Mas eu não achei nada para dizer.

Sabe, pequenino, tenho fugido das minhas emoções. Tem tanta coisa que dói e gente que machuca, o jeito foi por um tempo não olhar pra dentro. Ênfase no “por um tempo”, tá? Não recomendo a você fechar os olhos pra nada, fingir que não existe ou esconder nunca dá certo, a gente sabe, em algum cantinho o sapato sempre aperta e uma hora o caldo entorna. Adianto que viver de verdades também vai te gerar um bocado de problemas, infinitas acusações, é estranho porém muito mais usual que se viva por aí com sorrisos falsos do que lágrimas verdadeiras. O povo tem pavor de lágrima mesmo depois da santa invenção do rímel à prova d’água! E eu, se for juntar tudo que chorei, girininho, haja lencinho de papel. Agora mesmo cá estou de novo assoando meu nariz vermelho, pronta pra enfim te contar a tal historia, que quando vi sua bisavó na TV dizendo coisas bonitas não me contive e mais uma vez me pus a chorar!

Eu tinha ido para São Paulo no fim de semana e ao pisar em casa de volta sua mãe ligou. Só sua mãe liga aqui pra casa, além da minha. Ela tinha ido a um casamento, anunciou novidades, eu obviamente esperava alguma fofoca da festa! “Estou grávida”. Igual à lembrança do que estávamos fazendo na hora da noticia da morte do Ayrton Senna, essa também jamais vai se apagar da memória. Diante do silêncio ela completou: “é, Gata”. Sua mãe costuma completar com “é, gata” as frases que ela solta e vê que nos causam espanto. Então comecei a chorar. Muito. Em pé na sala roxa, telefone azul na mão, um sentimento de felicidade tomou conta de mim e de repente eu tinha uma razão muito forte para viver até novembro: vinha uma pessoinha nova pro mundo! Um serzinho minúsculo, indefeso, inocente de quem eu precisaria cuidar. Nunca, como diria nosso atual presidente de quem um dia você ouvirá falar, nunca na história da minha vida senti um amor tão imenso e imediato por alguém. E nunca pensei que essas palavras pudessem ser mais do que cafonas e simples clichês.

Sobre as coisas por aqui, vou te contar a verdade: É, Gato, às vezes as pessoas mentem, magoam a gente, tanta gente, mesmo sem querer, abala nossa fé. Alguns dias sofridos, minutos mal-vividos, horas que nem os velhinhos contentes conseguem esquecer. Tem tanta miopia, banho de água fria, a gente até pensa se quer mesmo viver. Mas olha, girininho, quando o mundo ficar escuro, o jogo muito duro, se lembra que a sua chegada fez uma menina tão cansada reacreditar no bem querer.

23.10.10

Lar, salgado lar (ou FormiguinhaZ)

Decidi sempre deixar duas formigas vivas. Uma seria muita carga para a pobre, três construiria uma relação triangular fadada a turbulências, dois garante um suporte emocional, a calma de olhar pro lado e ter quem já passou pelo mesmo, dividirão o peso.
Sempre evito matá-las, temos um acordo sobre limites, aceito que co-habitem meu espaço ainda que de graça, mas quando é inevitável costumava afogar todas ou Matoxiza-las. Mal-humorada dia desses, descobri a casa delas debaixo do mármore da pia e pronto, exterminei-as. Cuidei para que quem não estava em casa morresse também, assim a minha cozinha não viraria o antro das lamentações e eu não viveria com aquela energia pesada de formigas em luto. Dias depois, atraídas pela aguinha de um tomate, elas voltaram.
Não acredito que a tomada de novos territórios pelas formigas seja rápido como de morros por facções, então calculei que aquelas eram sobreviventes da população chacinada, os dias em que habitei sozinha o apartamento deve ter sido o tempo que elas levaram para se refazer da perda. Há muito que observo nas formigas essa capacidade de lidar com a perda, pense em como estão acostumadas com isso! Foi daí que instituí a lei própria de nunca deixar uma em pé para ser a arauta da desgraça, a que entra no formigueiro em horário inesperado, já causando apreensão, e dá a notícia. No entanto hoje de manhã, ao ver as poucas retornadas, pensei na dor das famílias sem notícias sobre seus entes desaparecidos e concluí que a dúvida é pior do que a mais cruel das certezas ainda que a primeira permita uma confortável ilusão, e julguei mais humano sempre poupar duas.
Não estou certa de que a chegada da noticia na comunidade cause drama, acredito na aceitação desse povo às baixas, imagino que sejam bem-resolvidas e sigam outros códigos, mas, baseada no relato de mães de soldados mortos em combate e nas cenas da Norah Walker em Brothers and Sisters, dentro dos meus domínios quero que o relato chegue àquelas sociedades. Seja para chorar uma ausência ou condecorar seus heróis, é preciso que haja um rito de passagem bem marcado para a vida seguir adiante, e assim anuncio que sempre pouparei duas formigas.
É como repetiu John Lennon: pense globalmente, aja localmente.

15.10.10

Como nossos pais

Imagina se sua empresa tivesse promovido um Dia das Crianças no escritório. Seu escritório ficasse em um prédio com nove andares e em cada um você tivesse contabilizado cerca de 100 pessoas. 100 porque viu uma multidão sentada em baias olhando para computadores, nem enxergou o final da sala então pensou logo na centena, parâmetro numérico possível pra quem só sabe que um metro é menos do que sua altura, dois equivalem a um homem enorme, a ciclovia da Lagoa tem oito quilômetros, entre um posto e outro na orla são oitocentos metros e a régua da escola tinha trinta centímetros.
Digamos que no tal dia os colaboradores levassem seus filhos, então atrações seriam organizadas para diverti-los, pipoca, sorvete e flores fossem distribuídos (e você logo desconfiaria que as flores envolviam algum clichê cafona). Enquanto você estivesse lendo os emails do dia, garotinhos louros e meninas de cabelos cacheados correriam pelo corredor gritando porque crianças não andam nem falam baixo. Como idéia genial para diminuir os decibéis você organizasse uma sessão de Lua Nova, convocasse o publico mirim e saisse como o flautista de Hamelin guiando todos até a distante sala de TV proporcionando a volta à normalidade antes da primeira telespectadora sair gritando “mãe, sangueeeee!”.
Digamos que inicialmente você sugerisse aproveitar a mão-de-obra extra e distribuir tarefas atrasadas entre eles como uma gincana: quem arrumar o arquivo primeiro ganha um calendário! A melhor resposta para idéias inúteis vale um porta-crachá! – mas no meio do dia admitisse que as crianças até dão um clima de humanidade ao ambiente.
Digamos que ao tirar os tampões de ouvido, melhor mimo oferecido pela TAM, ouvisse o espanto provocado pela visão de uma máquina de biscoitos na saída do elevador: “papai, você come isso o dia todo?”, que é diferente de dizer que isso é tudo que papai come em quase todos os dias.
Digamos que o encantamento dos filhos por desvendar o tão famoso “trabalho dos pais’ fizesse você se lembrar do que representava ir trabalhar com seu pai na cidade anos atrás. O Centro era um vai e vem de pernas cinzas onde você tinha que dar muitos passinhos rápidos segurando a mão dos adultos, pessoas se abaixavam para te olhar e davam papeis de rascunho para você desenhar em mesas por onde era levada de uma em uma para ser apresentada, sempre fascinada pelas maquinas enormes de escrever que eram terminantemente proibidas para menores porque acabava a fita.
Digamos que apesar de considerar aqueles papéis-carbono muito glamourosos você ficasse observando o cenário e decidindo que quando crescesse não queria nada daquilo, planejasse um futuro colorido, pessoas em movimento, imaginasse um trabalho em que cada dia fosse diferente do outro e não houvesse paredes sem janelas.
Digamos que um dia você se visse trabalhando com sono por ter passado a noite tentando comprar ingresso pro show de um Beatle, depois de duas Neosaldinas se rendesse, recostasse na cadeira e ficasse vendo as crianças brincando de aviãozinho. Ainda insistiria em falar das coisas que aprendeu nos discos ou essa lembrança seria o quadro que dói mais?

4.10.10

Faxina


Brusse, "I clean today"

1.10.10

Publicação #301

Não inventei uma coreografia solo para revolucionar a dança, mas por não ter par.

27.9.10

Life In A Day

O item mais estranho é um gel higienizador de mãos que passou a fazer parte da minha vida desde que calculei a quantidade de pessoas que seguram os postezinhos do metrô (os que me fazem pensar em como seria legal se alguém fizesse um pole dance inesperado). Tem sempre papéis, odeio-os, não é possível que eu precise receber tantos. Os óbvios: carteira, telefone, chaves de casa, cada vez mais raramente chaves e documento do carro, corretivo pras inseparáveis olheiras e moleskine pras inseparáveis inspirações, o crachá do trabalho – objeto inversamente proporcional ao moleskine – duas ou três canetas sei lá por que, guarda-chuva devido à quantidade de dias nublados e um floral devido à quantidade de dias em que eu estive nublada recentemente.
Rio muito do politicamente incorreto, você mesmo diz que sem sarcasmo não sou eu. A rotina na lente de aumento comentada por quem tem sinapses rápidas e línguas mordazes me faz virar o Flipper dando piruetas , eu poderia viver com o Fabio Porchat. Tenho medo de ficar sozinha. Não em casa ou nos sábados à noite, na vida. Velhinha. Mais velha ou amanhã. Amo filhotes. Cachorros em geral, praia e talvez você. Amar você e ficar sozinha podem estar relacionados – eu poderia estar sozinha por amar você ou inventar de amar você pra não ficar sozinha - mas acho que não é isso não, nem tenho me sentido sozinha e se o arrebatamento de alegria por ter você por perto é amar eu te amo, senão é só bom mesmo e o que amo com certeza são os filhotes. E vento! Amo vento. Entendo bem cachorros nas janelas dos carros.
Agora vem o snapshot do meu dia, escolhi hoje porque em 24/07/2010 não me lembrei de você, ontem foi bom, anteontem ótimo, mas estou num momento presente e acabei de saber do filme, vai ser hoje. Eu deveria explicar sobre o filme antes: Ridley Scott e Kevin Macdonald pediram no You Tube vídeos sobre um dia na Terra, uma passagem qualquer de 24 de julho de 2010. Receberam 80 mil e vão montar um longa-metragem, registro histórico, trabalho colaborativo, lançamento em Sundance 2011. Fizeram as perguntas acima: o que tem no seu bolso, o que faz você rir, do que tem medo e o que ama.
Gravando: (trilha a definir)
Espreguiço-Nescau-caminho-escritório-conversinhas-email pra você (“já desistiu de ficar sem mim? carinha feliz”)- power points banais-plano geral da sala gigante.
Enquanto você não responder continuará um dia feliz, depois volta ao normal ou fica muito mais feliz por mais tempo.
I just did it.



Fim.

23.9.10

de Tim Burton

Perfect situation



Jorge Garcia canta com Weezer em um motel de Hollywood.

*Miss that plane

Expresso Darjeeling, identificado por mim como “tenembaums”, não vi, assim como não vi I´m not there, “Death Proof-Tarantino”, O outro lado da cama, A Captura dos Friedman nem Fay Grim, traduzido como “henry fool”. Eram tantos filmes selecionados que às vezes nem eu mesma sabia por que tinha marcado aquele se não rabiscasse uma dica ao lado. O disputadíssimo Paranoid Park, do famooooso Gus van Sant, nunca nem procurei na locadora. Tem filme que é de cinema, e essa opinião não mudou.

Encantada por Albergue Espanhol, me enfiei no São Luiz no meio de uma tarde pra ver Bonecas Russas, só tinha lá, estava esgotado em todos os outros lugares. Esgotado como Os Sonhadores, Aos Treze, Pieces of April, só Encontros e Desencontros consegui comprar com a antecedência precavida que revelava a solenidade da ocasião. E Antes do Pôr-do-Sol. Pra explicar o calafrio que a perda daquele avião no final causou seria preciso revelar a Teoria do Elástico, e se já nem me lembro mais às voltas com qual fantasma eu andava posso deixar essa memória pra trás. Já exorcizei Caché, que até hoje não entendi, e fique à vontade quem quiser explicar tanto entusiasmo por aquela galinha.

O suplemento do Globo publicado na véspera da abertura ajudava muito, mas antes disso já começávamos a confecção e comparação das planilhas com opções de lugares, dias e as cores indicando o grau de preferência de cada filme que queríamos assistir. Era legal dizer “o do Almodovar” ao invés de “Má Educação”, sendo que “La Mala Educacion” no original também valia. Ou vale ainda, não sei mais.

Esse ano eu vou. Vai começar o festival. Festival do Rio.

Sempre tinha um Almodovar pra causar rebuliço e os novatos poderem dizer que foram ao Festival. Ok, e os veteranos também, que não se contentavam em assistir à estréia massificada em circuito oficial uma semana depois. Como se Almodovar fosse massificavel... Era glamouroso depois dizer “é bom, vi no Festival”. E sempre tinha o Gael. Gael num filme do Gondry é uma combinação como morango e chocolate, tão delicioso, isso ficou. “Super-fine” é como ele definia se sentir em Science of Sleep, e a expressão virou uma piada interna. Ficou a lembrança tristonha daquela gargalhada a dois no escuro e uma rápida boa herança para espantar o saudosismo – Maggie May ainda toca! E sem danos que nem tudo é tão difícil, desde Lords of Dogtown, agradável surpresa apresentada pela companhia da época no finado Paissandu. Para completar o parágrafo-cemitério ele termina com caipirinha na fila do Odeon esperando a premiere de Noiva Cadáver de Tim Burton. Premiere no Odeon transforma um filme.

Um dia descobrimos que legenda queimada na tela indicava que o filme entraria em circuito depois, e até um site oficial com as estréias do ano era repassado para tranqüilizar quem não tivesse comprado ingresso a tempo na interminável e tensa fila do Estação. Acho que não precisa mais mofar na fila. Não sei.

Foi no Estação que conheci o cinema argentino e aprendi a dizer que, como o italiano, ele é diferente. Bom. Um inteligente, o outro sublime. Com os anos las películas ganharam uma platéia menos uniforme, figurinos além das camisas xadrez e tênis estilosos dos homens e das mulheres de saias largas e blusas sobrepostas fumando na porta. Já se pode tomar banho e fazer a barba antes de ver um filme do Festival. Eu acho.

Pra mim passou a fase de filmes raros com direito a perguntas para cineastas iranianas depois da exibição, uma vez presa em uma sala mínima com uma delas e superei essa necessidade de “coolzice-intelectual”, me permiti admitir que acho chato. Chato é bem diferente de interessante, mesmo em festival. Filme interessante no festival tem avant-premiere nas conversas prévias e só termina nos debates posteriores. Tem que cutucar.

Nunca consegui ver milhares de filmes seguidos e depois de um tempo aceitei nem marcar sessões antes das três da tarde, me tornei sincera e segura. Entrar de sala em sala é como excursão à Europa com dez capitais em sete dias, na volta o turista coloca Notre Dame em Roma e cinema no festival tem que ser a maior imersão, precisa de tempo para assentar.

Pra retrospectiva ficar completa falta preencher as reticências depois do verbo que define Ricardo Darin. Ricardo Darin é... meu “Un certain regard hors-concours”, e essa é a frase mais metida a cinéfila besta desse festival de "era assim". Esse ano ele está lá, talvez com Gael e um Almodóvar? Esse ano eu vou. Sair diferente, quem sabe um pouquinho mais reflexiva ou mais terna por uns pouquinhos minutos. Do cinema, é de onde vou sair diferente, e como se não fosse óbvio só então me dou conta de que ali é o lugar onde realmente estou quando estou em um lugar. Principalmente se tiver Ricardo Darin.

Esse ano quero ver José e Pilar. Porque o festival tem que me lembrar de uma beleza e talvez eu só a absorva ao me trancar em uma sala escura onde nada mais acontece. Por cerca de duas horas não há onde ir. Olhar e ouvir. E reparo na mesa ao lado do livro sobre os quinhentos filmes a serem vistos a gravura com frase do Warhol - “Art is what you can get away with.”.

Eu vou.
Preciso reaprender a ir embora sem medo de nunca mais voltar.

* Antes do pôr-do-sol, cinema Leblon, Festival do Rio 2004

15.9.10

Bebo

(...)
Mas o texto que fez a amiga se lembrar de mim falava sobre ansiedade - algo totalmente aplicável à minha pessoa e, ao que parece, à Fernanda Young.
(...)

Em pé na areia escaldante do Leblon, música alta, sal secando ao sol, um garotinho se aproxima de mim, típico personagem. Ele me oferece a cerveja que segura, eu faço que não com a cabeça, ele começa a mexer os lábios, eu tiro um fone do ouvido: Você não bebe? Não, sorriso amarelo de ponto final. Mas posso lhe conhicê? - me estende a mão - eu sou Rénan. Olhei ao redor - não tinha uma gangue por perto, não era para me distrair. Não tinham câmeras por perto, não era uma pegadinha. Há tanto tempo não ouvia alguém usar o pronome “lhe” que chacoalhei a mão de Renan e quase invejei aquele estufar de peito nordestino do conquistador neo-carioca. Como carioca-com-muitos-anos-de-praia, rapidinho recolhi minhas coisas e fui embora meditar em outro canto sobre a minha condição de pior que Fernanda Young.

Voltei para casa derretendo, pensando que até em avião os conversadores respeitam fones de música, agora nem controlar a ansiedade em paz é possível. E de repente ri da cara-de-pau do jaguncinho. Rénan podia achar que é numa dessas que se começa uma grande amizade, que assim nasce um romance, que não há melhor companhia para uma tarde na praia. Ele podia estar deprimido e resolveu chutar o balde, podia estar feliz da vida e quis compartilhar, podia estar numa terça-feira na praia sozinho tomando uma cerveja e resolveu puxar papo com a menina sozinha ao lado que ouvia música. Simples assim. Mas para alcançar essa simplicidade ele precisou de um desapego, de uma esperança, uma ingenuidade, uma segurança, uma tranqüilidade, uma determinação! Ou não, precisou de um gole, um mergulho e nada a perder.

A Fernanda Young otimista tem razão. Por causa dessa interminável agonia nem perdemos só pessoas e oportunidades, perdemos tempo. Desperdiçamos muita energia com uma obstinação às vezes desmedida. Uma coisa é correr atrás, a outra é rastejar, se esgoelar, achar que a vida não tem sentido sem aquilo. Tem. A vida só não tem sentido sem graça. E para ter graça, é preciso leveza de espírito. Para o resto dar-se-á um jeito.

****************
(recorte dos tempos Tribuneiros, e terças de sol.)

2.9.10

Sobre chineses e fadas

Aquele chinesinho me apaixonou. Era um momento em que eu estava muito propícia a me apaixonar por coisas que se fossem pessoas seriam descritas como “as que não fazem mal a uma mosca”, ainda que classificasse moscas como criaturas de nível 4 na escala de potenciais alvos de maus tratos. Não fazer mal a uma barata na pia de mármore do banheiro é indicativo de extrema bondade, moscas só ultrapassam os limites quando zumbem nos ouvidos de quem dorme ou pousam em nossas comidas, e quem dorme ou come em um lugar com moscas deveria repensar seus hábitos. Logo, não fazer mal a moscas não me dizia muito, quero ver alguém tratar com delicadeza um sujeito que conversa em excessivos decibéis no banco de trás.

Entre uma frase e outra o sujeito coçava a garganta fazendo aquele barulho de porco, e foram quarenta e sete minutos de ligações até chegar ao nosso destino: “Faaaala, Menoti!”, e nenhuma pessoa sã poderia corresponder àquela agitação tão cedo de manhã, independentemente de estar acordando ou prestes a dormir. O sujeito no entanto não se abalava. “Quinta-feira tem aquela gravação do DVD, como é aquele lugar na Barra? Sertanejo bomba, muita mulé, se bem que nem rola muita pegação, mas po%$@ 5 mil pessoas naquele lugar da Barra! É, Hard Rock.” Deveras heavy, pensei eu, e apesar de ter tido o olhar  percebido somente pelos demais espectadores daquele cena no coletivo, e cem porcento ignorado pelo amigo do Menoti, não quis evitá-lo. Era a minha contribuição a um mundo melhor do dia. Há quem se imponha a meta de três elogios a cada duas dúzias de horas, atenho-me a ações menos forçadas como olhares de reprovação.

Ela insistia em provar que sua teoria não incentivava a mentira, e baseada na reação satisfeita do elogiado seguia com a técnica, sempre acompanhada de um sorrisinho na minha direção a fim de enfatizar seu ponto. "Fazer três elogios por dia melhora o clima do ambiente", pregava.

Começamos a conversar porque ambas admitiram, depois do ataque do touro à platéia em Navarra, que sentíamos mais pena dos bichos do que das crianças. Não é lá algo que se revele assim sem medo de retaliações, e nenhuma das duas dava de ombros para os pequenos com barriga estufada e insetos ao redor de si estampados nos jornais, só tinham apertos no coração em comerciais da Suipa e ímpetos de revolta contra os que culpavam a baleia que atacou a treinadora no parque aquático.

O nome dela era Carol, feminino de Zé. Nutria certo ódio por porteiros e zeladores que a chamavam de Caroline, e não por errarem o nome mas porque a troca da última letra alterava completamente a cor da sua aura, que assim passava de lilás para amarela. Quando pequena, para incômodo da mãe, Carol queria ser caixa de supermercado. Não qualquer supermercado, queria trabalhar nas Casas da Banha. Era muito pequena para entender a relação com o tal de bacalhau que Chacrinha lançava na platéia, tinha medo do Arnaldo Antunes e, orientada pelos pais, colocava seus dentinhos debaixo do travesseiro a fim de serem levados pela fada.

Além de sentirmos mais penas dos bichos do que das crianças também compartilhávamos o título de doadoras de dentes para fadas - eu, os que não engolia, e ela, os que a avó arrancava amarrando-os com um barbante à porta. Várias vezes temi que os engolidos gerassem uma plantação de dentes na minha barriga, mas para jamais alarmar os pais sobre o perigo preferia nem perguntar. Ocupada em disfarçar a questão, nunca parei para pensar no que a fada fazia com tantos dentes!

Carol pensava bastante sobre o espaço livre no mundo das fadas, e como além de nós mais gente acreditava na tradição mas nem todos questionavam tudo enquanto esperavam seus dentes cairem uma delas, ao crescer, montou uma história, e como era um momento em que eu estava muito propícia a me apaixonar por coisas esbarrei com a história e aqueles dentinhos me apaixonaram.

Deixei-me assim, por um tempo só me apaixonando por coisas que se fossem pessoas seriam descritas como “as que não fazem mal a uma mosca”. Como um inseto viveria voando por aí, fazendo meu trabalho, e isso não causaria mal a mim, à minha barriga, ao mundo da fada, à Carol, platéia, touro, passageiros de transportes coletivos ou ao amigo do Menotti. Das coisas voltaria para as pessoas e um dia esbarraria com mais gente que ao invés de questionar cria historias, e eu viraria o chinesinho.