26.3.12
23.3.12
Pra você
A dedicada equipe entrou, em
frente à mesa se sentou e com tom de salvação do horário nobre disparou:
“chefe, queremos que você namore aquele garoto”. A chefe caiu na gargalhada
aliviada pela razão da convocação ser a possibilidade do colega ao lado
tornar-se uma possível união, agradeceu imensamente a boa intenção. O candidato era um tanto equivocado, mas havia razão naquela questão -
já era hora de acabar com tanta solidão. Bastava de tanto penar! Como reverter
a situação é no que ela deveria pensar.
Ela sabia que estava
diante de uma inédita, intrépida, romântica missão - encantar-se por qualquer
um não era a saída, existia um certo moço e ela o traria de volta à sua vida.
Ex-namorados até ofereceram cartas de recomendação, mas essa estratégia não parecia uma boa solução. Precisava de um plano que convencesse o homem desavisado em seu viver despreocupado
que o melhor lugar era ao seu lado.
A tarefa não parecia fácil ainda
que com sua força de vontade ela fosse capaz de desencalhar o mais pesado
cetáceo. Outras moças piscariam demoradamente e largariam ao vento lencinhos
brancos, dançariam até o chão o mais sexy pancadão, desafiariam para um duelo a
rival – uma tal que ele namora e com quem esteve no Carnaval. Há as que invadam
prédios, mas isso, juro, ela não considera um bom remédio. Há as que esperam,
as que olham para o lado, logo beijam outro e prosperam, as espertas que
detectam uma oportunidade e certeiramente agem na maldade, as que desistem, nem
insistem, pra que tanta teimosia, isso só traz agonia, segue em frente, olha
nesse mundo quanta gente, você arruma rapidinho um outro pretendente. E há ela.
Ela não entrou nessa história para
ser passiva donzela, quem dera! Também pudera, desde tão cedo viveu com tanto
medo, prefere rio com crocodilo e vilã com serpente a ter que lidar com gente.
Não qualquer gente, claro, só essas que quando aparecem o coração sente, as que
conversam até tarde, falam de praia,
campo e cidade, as que quando saem de perto ela quase chora, que tem livro
espalhado pela casa para ler para ela a qualquer hora. As que quando chegam
perto dão aquela olhada maliciosa que a devora (ela adora). Que começam
beijando devagarinho, gosto de champagne com uva, bem
docinho, que vão esquentando, o corpo dela apertando e dissolvendo,
que quando suspiram por trás da nuca... alguém acode, ela está morrendo! Que
mordem a boca e dão calafrio, falam baixinho, arrepio, confessam desejo e
ela agarra forte num beijo já que vontade não tem juízo não. Então por que,
céus, abrir mão? Que bom seria viver sem pensar uma paixão.
Mas o tal alvo é ocupado, sério,
decidido, moço já tomado. Fica ressabiado com o que ela pode querer, vai que é
mais do que ele pode prometer? O que talvez ele não saiba é que ela mandaria às
favas a precaução, pagaria para ver porque o futuro nem ela, nem ele, ninguém
nesse mundo pode prever. Então ela decidiu escrever essas
rimas, ô rapaz, só pra dizer - joga tudo pro alto, larga tudo pra trás! Não
perde a menina na história, depois vai viver de memória? Não se esquece que a
vida é do jeito que a gente faz.
22.3.12
Os moços do meu tempo (ou do tempo do Tribuneiros)
Para Nanda, Lalol, Olga e Pinha. CA e Pim, para Pian, Bruno Menezes e João Paulo Duarte.
De 2006.
Isso não é uma revanche. Os moços do meu tempo, Dondon, ainda gostam
muito de competir, mas hoje vamos aplicar uma lição de antes do seu tempo.
Porque olha o que encontrei nas conversas do Jobi, moços querendo um amor! Olha
esses rapazes tão vaidosos malhando os braços e esquecendo-se das pernas,
falando das “mulezinha” e tirando onda com os “muleque”, quem diria que andam
sonhando com um beijo gostoso, um abraço apertado daqueles que tira os pés do
chão mas que não acabe depois da noitada. Andam muito intransigentes nessa
escolha, pior do que donzelas à procura do príncipe encantado, não perdoam um
deslize e chamam tudo de deslize! É, Dondon, os moços do meu tempo não mudaram
muito desde sua época não, são sempre os mesmos sonhos de quantidade e tamanho.
Mas evoluíram, quase acreditam que podem chorar. Ainda não debatem
relacionamento mas já aceitam conversar se lhes interessar que tudo acabe bem.
Então vamos aplicar nessa conversa a teoria dos jogos, porque falta a eles um
manual de instruções. Virou uma guerra o relacionamento entre damas e
cavalheiros, e os dois só querem um olho no olho, dançar junto e serem felizes
para sempre.
Os moços do meu tempo esperam um dia ser pais de família, um dia... Só não sabem ao certo onde guardar as fotos das micaretas que a musa curtiu com as amigas, e engatinham na arte de fazer o papel de marido nas festas do trabalho dela. Esses moços têm uma sorte: se não quiserem, nunca precisam amadurecer porque o relógio biológico não está em contagem regressiva e não lhes impõe decisões fundamentais bem cedo. Dizem-se confusos, não sabem o que fazer com meninas tão loucas para provar que são capazes de viver sem eles. Diz o Xico Sá, para quem homem que é homem não sabe a diferença entre estria e celulite, que o primo lá da zona leste de São Paulo não anda perdido diante da mina gostosa que ele conduz até o terminal. Por aqui elas bradam que não querem o dinheiro deles, que não precisam de cuidados e agora inventaram de experimentar antes de decidir, mas dão chilique se não são tratadas como princesas. Não entendem nada, esses moços, e ficam ali babando enquanto elas dançam até o chão. Troço tão simples: elas querem que eles reparem na unha feita mas não a ponto de elogiar a mistura de Café com Rebu! (E se algum moço perguntou o que é isso, salvou-se uma alma no purgatório). Estão muito perdidos esses moços, não conseguem acompanhar os vários assuntos que elas falam ao mesmo tempo, não sabem se passam creme ou cospem no chão, se preferem um terno do Ricardo Almeida ou a camisa furada de ontem, se pedem caipirinha com adoçante ou saem por aí pegando geral fingindo que o descartável preenche o buraco no peito.
Juram que têm pavor de aliança, mas quando as moças decidem viver tribalisticamente sem pensar no casamento dizem que elas são descontroladas. Eles não sabem se quando crescerem serão machos-provedores ou coadjuvantes da pós-revolução feminista. Acreditam em todas as façanhas contadas depois do futebol e nunca conseguem fazer em casa o que vêem na TV. Aí perdem a paciência, em Salvador tudo é mais fácil. Para eles tudo tem que ser simples, e quase sempre é, Dondon, graças a uma enorme e invejável capacidade de abstração. Mas as moças adotaram o discurso que por séculos ouviram deles, e aí eles chamam de arrogância o certo ar cruel de quem sabe o que quer que elas têm ensaiado para conquistá-los. Deram para dizer até que elas não prestam! Moças, hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás, eles ainda querem uma lady na mesa. Ora veja bem, se são as mulheres que têm o dom de iludir nessa enchente de canalhas líricos ou mesmo de malandros banais. Não sabem perder, Dondon, eles não aprenderam o que fazer quando desiludidos. Por isso saem pela vida com suas quadrilhas, cheios de hormônios adolescentes, caminhando na ponta dos pés como quem pisa nos corações. São todos ótimos em despertar sentimentos com os quais depois não sabem lidar.
Os moços do meu tempo, Dondon, são eternas crianças. Ainda não pedem informação quando perdidos, não conseguem guardar as roupas e sempre tentam driblar a camisinha. Jogam Playstation no sábado à noite enquanto deixam as moças cheias de caraminholas na cabeça especulando onde andará o meu amor. De resto é balela, eles sabem de cor o número para ligar no dia seguinte, pagam o jantar com um prazer que pula dos olhos, esperam pacientemente e não se desencantam com a tórrida noite por mais precoce que ela tenha sido. Desde que, bem entendido, eles queiram mais. Porque, caso contrário, eles simplesmente “não estão a fim de você”. Mas quando estão, coisa mais linda, Dondon, um moço deitado no colo da moça nem aí para a inveja dos camaradas.
Os moços do meu tempo esperam um dia ser pais de família, um dia... Só não sabem ao certo onde guardar as fotos das micaretas que a musa curtiu com as amigas, e engatinham na arte de fazer o papel de marido nas festas do trabalho dela. Esses moços têm uma sorte: se não quiserem, nunca precisam amadurecer porque o relógio biológico não está em contagem regressiva e não lhes impõe decisões fundamentais bem cedo. Dizem-se confusos, não sabem o que fazer com meninas tão loucas para provar que são capazes de viver sem eles. Diz o Xico Sá, para quem homem que é homem não sabe a diferença entre estria e celulite, que o primo lá da zona leste de São Paulo não anda perdido diante da mina gostosa que ele conduz até o terminal. Por aqui elas bradam que não querem o dinheiro deles, que não precisam de cuidados e agora inventaram de experimentar antes de decidir, mas dão chilique se não são tratadas como princesas. Não entendem nada, esses moços, e ficam ali babando enquanto elas dançam até o chão. Troço tão simples: elas querem que eles reparem na unha feita mas não a ponto de elogiar a mistura de Café com Rebu! (E se algum moço perguntou o que é isso, salvou-se uma alma no purgatório). Estão muito perdidos esses moços, não conseguem acompanhar os vários assuntos que elas falam ao mesmo tempo, não sabem se passam creme ou cospem no chão, se preferem um terno do Ricardo Almeida ou a camisa furada de ontem, se pedem caipirinha com adoçante ou saem por aí pegando geral fingindo que o descartável preenche o buraco no peito.
Juram que têm pavor de aliança, mas quando as moças decidem viver tribalisticamente sem pensar no casamento dizem que elas são descontroladas. Eles não sabem se quando crescerem serão machos-provedores ou coadjuvantes da pós-revolução feminista. Acreditam em todas as façanhas contadas depois do futebol e nunca conseguem fazer em casa o que vêem na TV. Aí perdem a paciência, em Salvador tudo é mais fácil. Para eles tudo tem que ser simples, e quase sempre é, Dondon, graças a uma enorme e invejável capacidade de abstração. Mas as moças adotaram o discurso que por séculos ouviram deles, e aí eles chamam de arrogância o certo ar cruel de quem sabe o que quer que elas têm ensaiado para conquistá-los. Deram para dizer até que elas não prestam! Moças, hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás, eles ainda querem uma lady na mesa. Ora veja bem, se são as mulheres que têm o dom de iludir nessa enchente de canalhas líricos ou mesmo de malandros banais. Não sabem perder, Dondon, eles não aprenderam o que fazer quando desiludidos. Por isso saem pela vida com suas quadrilhas, cheios de hormônios adolescentes, caminhando na ponta dos pés como quem pisa nos corações. São todos ótimos em despertar sentimentos com os quais depois não sabem lidar.
Os moços do meu tempo, Dondon, são eternas crianças. Ainda não pedem informação quando perdidos, não conseguem guardar as roupas e sempre tentam driblar a camisinha. Jogam Playstation no sábado à noite enquanto deixam as moças cheias de caraminholas na cabeça especulando onde andará o meu amor. De resto é balela, eles sabem de cor o número para ligar no dia seguinte, pagam o jantar com um prazer que pula dos olhos, esperam pacientemente e não se desencantam com a tórrida noite por mais precoce que ela tenha sido. Desde que, bem entendido, eles queiram mais. Porque, caso contrário, eles simplesmente “não estão a fim de você”. Mas quando estão, coisa mais linda, Dondon, um moço deitado no colo da moça nem aí para a inveja dos camaradas.
20.3.12
18.3.12
Partes
2012, parte 1
Não sei se a
conversa começou pelo fim do casamento, pelo suicídio relatado no último dia feliz
dos cônjuges ou pela disputa de stand up paddle ali realizada. Ouvíamos as mais recentes descobertas psicanalíticas de um inquieto e no final do dia o que teríamos
aprendido é que a Holanda é na verdade uma província dos Países Baixos e a rua
Rainha Elizabeth homenageia a monarca da Bélgica, não da Inglaterra. Ele
continuava tendo nascido em São Paulo, filho de um pai ausente que foi o primeiro
judeu hippie dos arredores mundiais de Ashton-Heights. Por mais estranho que
seja imaginar em uma comunidade Flor, Pepeu, Baby e Jacob isso aconteceu e
eles andavam nus, diziam-se artistas e provavelmente não tinham rumo nem renda.
Foi assim que o menino aos quatro anos acabou catatônico por vinte e três horas
sentado na entrada do apartamento incensado.
2001, parte única
Àquela altura eu
já tinha montado uma tabela com valores convertidos de korona para euro, não
precisava mais fazer conta a cada produto, mas continuava vivendo como se o
próximo passo fosse a falência. Era o quarto dia de uma viagem de trinta e não
tenho a menor ideia de por que não acreditei que, me mantendo dentro do
orçamento diário, as refeições e compras inerentes ao passeio estavam
garantidas. Vai ver eu não acreditava em nada que saísse de mim ou temia que
algo inesperado surgisse e eu não soubesse como lidar. Sempre achei melhor me
prevenir.
2012, parte 2
Durou de abril a
dezembro a tentativa de reconciliação e ele recomenda que não se perca tempo
com terapia de casal nem se conte historias de suicidas a pessoas que não falam
sobre seus incômodos. Ela o abandonou, não virou hippie nem ele – ao menos pelo
que incluiu no relato – catatônico.
Continuava na
nossa frente a disputa de stand up paddle e eu pensava que aquele esporte era
novo, tempos atrás era só surf. A areia com os pombos continuava igual, o morro
com as casas, prédios com vista para o mar, barracas, cadeiras, turistas, automóveis,
biscoitos, bebidas, sudoestes, sujeiras, salvamentos e eu.
2012, parte 3
Sempre
vem o pensamento de que deveríamos estar gratos pela vida que temos quando um poeta
não a tem mais. Em um dia ele surgia pelo meio das plantas, no outro morria de
pancreatite, nem ao menos entendi o que faz o pâncreas.
Tenho
e-mails sem resposta, problemas sem resposta e textos sem final. Mais um
diálogo na praia, novidades sobre a Holanda e
problemas de conexão inter-assúntica. Vivo fragmentos, breve em frangalhos.
Vivo entre os amigos que declamavam nomes ao jazigo para cada qual dizer-se
“presente”. Entre tantas pessoas uma ausência, jogassem na cova os vazios de si
e a sepultura viraria montanha que subiriam escalando para descobrir lá no alto
que chegou-se ao final.
Ausências,
demências, carências, problemas sem resposta e textos sem moral. E assim vão se
entorpecendo para não sentir o que dói lá dentro e um dia com tanto analgésico
morre-se de um pâncreas em silêncio.
Morre-se
de silêncio todos os dias.
Morre-se
todos os dias.
Silêncio.
2012, parte 4
Os olhos dele não
abriram mais, e ela ficou para sempre com aquela indefinição e eu fiquei com os
meus cheios de lágrimas e milhares de indefinições e uma vontade poética de
viver com elas. Ou sem elas. Viver apesar delas, à margem delas, na companhia,
da forma que for só não mais à mercê de solucioná-las – não há solução. Nem
para tudo existe resposta.
Então, inquieto, o
que agora lhe digo é para interromper as perguntas. Eu sei, há que se acalmar
isso aí dentro – e, por favor, não com tantos analgésicos. Busquemos, pois, distrações
diversas, ocupemos a mente, façamos com as minhocas o mesmo que com as crianças à
mesa - distraia-as com aviões imaginários. Brinque. Leve, vai.
Já arrumei
gavetas e sei que às vezes nem tudo cabe.
7.3.12
Quase tudo
“Todo mundo desmaia agora!” Aproximava-se
uma pessoa chata. Eles tem essa mania de que as pessoas ficam chatas, é
dificílimo acompanhar os status e morro de medo de um dia a maldição cair sobre
mim. À ordem dela desmaiamos imediatamente soltando nossos braços e cabeças sobre
as cadeiras da praia, fechando os olhos e acho que entreabrindo um pouco a boca
– não deu para reparar bem, mas a minha interpretação desconfio que tenha sido
assim. Quando autorizada nossa volta soubemos que o representante do perigo
voltaria à beira-mar pelo mesmo caminho, precisávamos de atenção. Ela conhecia
o itinerário porque foi assim que os dois haviam se encontrado semanas antes,
quando a visão dele ainda trazia felicidade – ele ainda não era chato e, ela
insiste, era malhado.
Desconfio de poetas sarados, não tanto
por preconceito, mais por estereótipo mesmo, e argumentei que um corpo não
decairia em tão pouco tempo, mas ela estava certa de que as costas do menino
estavam agora flácidas e a decadência corporal não tinha a ver com a quase-desilusão
amorosa. "Quase" não por ter sido pequena, mas por pertencer à sua quase-vida
amorosa. Não nos restou outra alternativa além de aguardarmos o retorno do corpo
para análise durante um re-desmaio.
Além de ter sido personagem da
quase-vida amorosa dela o moço tinha adotado uma estratégia duvidosa durante a
noite anterior. Um poeta sarado na mesa de um bar movimentado que levanta a
camisa e acaricia a barriga para chamar a atenção de sua presa depois de
falidas tentativas de jogar saquinhos de sal na cabeça dela não parece expert
em sedução. Não parece originalmente sedutor. Não parece nem legal. Não que esperássemos
frases bonitas ou textos rebuscados, essa era a tática de outro personagem da
quase-vida amorosa dela, apenas consideramos auto-acariciamento e brincadeiras
ginasiais esquisito. Acontece que o ato não funcionou como conquista, mas foi imbatível
como diversão e passamos a tarde interrompendo diálogos com rápidas imitações da
cena, em um estilo Latino featuring
Ricky Martin. Quase compensou perder o pretendente.
Apesar de ter uma quase-vida
amorosa temos pretendentes, o que é melhor do que nada. Os pretendentes não geram
passarinhos de animação voando ao nosso redor em dias ensolarados ou meios que
produzam finais felizes, na verdade mal geram as doses diárias mínimas recomendadas
de serotonina e por uma infeliz equação de erros + memória quase achamos isso
bom, mas geram tardes divertidas. Falando sobre eles, não com eles. Às vezes nós
quase preferimos que um desses acerte o alvo e mude o jogo.
Antes que passássemos a preferir ela
avisou que o poeta chato já tinha voltado como previsto e não tínhamos
percebido. Só nos restou então fazer mais uma vez a imitação de Latino featuring Ricky Martin e revermos nossa
opinião sobre comportamentos bizarros: viva os sedutores desastrados e artistas
inofensivos.
É normalmente assim meus sábados com
eles. Às vezes damos uns furos, analisamos sarcasticamente nossos quase-relacionamentos
mantendo a certeza de que todos os esforços devem ser empenhados em prol de
boas histórias. Eles são o que ela um dia definiu como “pessoas em quem podemos
nos refastelar”. Um quase preenche totalmente o buraco no peito do outro.
23.2.12
Das cinzas, coração
Ele disse que já não se fazem
mais crônicas de quarta-feira de cinzas, que não há mais Adalgisa enfezada esperando
marido no portão. Que este foi engolido pelo tempo e pela irrelevância. Que isso
é coisa do tempo antigo. De outros pós-carnavais.
Talvez daqueles em que pela casa
ficava uma purpurina, plumas rosas, no tanque uma sapatilha dourada e botas
brancas. De quando ele perguntou o que era meia-arrastão e apontei para suas próprias
pernas cabeludas sob o vestido de bolinha. Do tempo em que pagávamos para usar
calças, jaquetas e chapéus de soldado em amenas noites de trinta e muitos graus.
Esperávamos umas duas horas tomando cerveja no meio da rua em frente à Central
do Brasil sem nos preocuparmos com a pouca quantidade de banheiros químicos disponíveis,
levávamos mais broncas de um desconhecido do que suportaria a mais elevada autoestima
para atravessarmos uma avenida em trinta minutos dançando ao som de uma música
que mal conhecíamos sob os olhos de uma platéia indiferente aos nossos esforços
e sede. Como não estaríamos felizes? Alcançando o final, suados e famintos, andaríamos
um bocado torcendo para que o ônibus estivesse no lugar marcado e, dando certo,
passaríamos toda a volta implicando com os bêbados, os sonolentos, casados e
solteiros, os inteiros ou semi-mortos. Desse errado agiríamos da mesma forma,
por mais tempo. No dia seguinte acordaríamos cedo porque bloco bom é na
concentração. E por que andar?, perguntaria Adalgisa. Porque assim a gente
chega lá, chega até no mar. E de bloco em bloco acabaríamos de bar em bar. De
pirata, marinheiro, de coração partido ou inteiro. De repente, cantando pelos
bairros no meio de toda aquela gente. Normalmente. Até nunca cansar. Até a
quarta-feira chegar. Até a vida real mandar a gente voltar.
Ele disse que como gênero
literário as crônicas da Quarta-feira de Cinzas perderam toda a legitimidade.
Viraram anacrônicas. Talvez como uma colombina que cisma em achar mais graça no
pierrot mesmo sendo tão bonzinho o arlequim. Como uma coleção de máscaras.
Saias de filó. Como quem tem tanta alegria adiada, abafada, quem dera gritar, e
está se guardando pra quando o carnaval chegar.
19.1.12
*That smile on your face
Ah, admirador! Lembro de quando a Radical Chic ainda fazia sucesso e se comparou ao Rio de Janeiro: de longe um espetáculo inigualável, de perto uma colcha de retalhos. Até gosto bastante de patchwork, mas não foi no bom sentido que a balzaquiana fictícia se descreveu – estava mais para “meu coração e minha bunda tem mais crateras do que as ruas da cidade”. Eu continuo achando-a maravilhosa, mas daí à perfeição... cantamos os encantos mil, mas quando estamos a sós entre compadres cariocas confessamos os sacrifícios que a musa nos exige.
Pode confessar, mãe, foi uma boa tentativa de elevar minha auto-estima, me fazer reencontrar a esperança de haver um alguém romântico na multidão, alguém que se tivesse uma rua mandaria ladrilhá-la para eu passar, não funcionou. (Minha mãe nunca entendeu que quando o obstetra anunciou "ela é perfeita" se referia aos meus vinte dedos, dois olhos, nariz e boca.) Aliás, mãe, não precisa ficar com pena de mim não, tá, já conheço os conselhos de exigir e temer menos, blablabla, vão você e papai conversar com Freud e por favor só retornem com um plano de ação e a conta da sessão paga que há pouco redirecionei a verba da terapia para massagem modeladora com ultrassom.
Onze da noite, véspera de feriado, uma hora e treze de transito pós-trabalho e chega o recado dele - "Admirador Secreto"- no blog para mim: “você é perfeita”. Ô, coração, faz isso não, isso aqui é um poço de desilusão. Na segunda série cheguei do recreio e encontrei sobre o estojo três chocolates. Era dia dos namorados, 12 de junho de 1987, o paulistinha gostava de mim e fez essa surpresa, minhas amigas viram, eu congelei, segundo dia mais nervoso da minha vida que no primeiro um outro entrou no play carregando buquê de rosas dez vezes o pequeno tamanho dele. 5 de outubro de 1985. Minha festinha parou, os primos mais velhos adoraram, nossos pais nos obrigaram os dois beijinhos e tenho certeza de que pensei em furar meus olhos nos espinhos para não precisar encarar mais ninguém dali em diante. Essa Perfeição não sabe lidar com galanteios.
Perfeição é uma carga tão pesada, desafio tão intransponível que vou não. Não vou conseguir completar a Travessia dos Fortes, escalar o Pão de Açucar nem dançar balé. Perfeição é chato, um estado de alerta, precaução infinita, é tanto medo que prefiro calculadora financeira, é até mais atraente! Perfeição é pra quem não tem coração, quando ele assume fica tão mais genial.
Escreve “você é uma menina legal”? Aí eu nem gargalho, dou um sorriso, ganho o dia, penso que até pode ser, sem muitos dramas, e ponto final. Imperfeitamente felizes para sempre.
*How long before you screw it up
How many times do I have to tell you to hurry up
With everything I do for you
The least you can do is keep quiet
Pode confessar, mãe, foi uma boa tentativa de elevar minha auto-estima, me fazer reencontrar a esperança de haver um alguém romântico na multidão, alguém que se tivesse uma rua mandaria ladrilhá-la para eu passar, não funcionou. (Minha mãe nunca entendeu que quando o obstetra anunciou "ela é perfeita" se referia aos meus vinte dedos, dois olhos, nariz e boca.) Aliás, mãe, não precisa ficar com pena de mim não, tá, já conheço os conselhos de exigir e temer menos, blablabla, vão você e papai conversar com Freud e por favor só retornem com um plano de ação e a conta da sessão paga que há pouco redirecionei a verba da terapia para massagem modeladora com ultrassom.
Onze da noite, véspera de feriado, uma hora e treze de transito pós-trabalho e chega o recado dele - "Admirador Secreto"- no blog para mim: “você é perfeita”. Ô, coração, faz isso não, isso aqui é um poço de desilusão. Na segunda série cheguei do recreio e encontrei sobre o estojo três chocolates. Era dia dos namorados, 12 de junho de 1987, o paulistinha gostava de mim e fez essa surpresa, minhas amigas viram, eu congelei, segundo dia mais nervoso da minha vida que no primeiro um outro entrou no play carregando buquê de rosas dez vezes o pequeno tamanho dele. 5 de outubro de 1985. Minha festinha parou, os primos mais velhos adoraram, nossos pais nos obrigaram os dois beijinhos e tenho certeza de que pensei em furar meus olhos nos espinhos para não precisar encarar mais ninguém dali em diante. Essa Perfeição não sabe lidar com galanteios.
Perfeição é uma carga tão pesada, desafio tão intransponível que vou não. Não vou conseguir completar a Travessia dos Fortes, escalar o Pão de Açucar nem dançar balé. Perfeição é chato, um estado de alerta, precaução infinita, é tanto medo que prefiro calculadora financeira, é até mais atraente! Perfeição é pra quem não tem coração, quando ele assume fica tão mais genial.
Escreve “você é uma menina legal”? Aí eu nem gargalho, dou um sorriso, ganho o dia, penso que até pode ser, sem muitos dramas, e ponto final. Imperfeitamente felizes para sempre.
How many times do I have to tell you to hurry up
With everything I do for you
The least you can do is keep quiet
6.1.12
1.1.12
@Noel
E aí, gorducho fofinho? Teve um #felizNatal?
Essa história das festas terem caído em fins de semana atrapalhou mais do que a
chuva, não achou? Não percebi que era Natal nem na Leader Magazine! O lado bom
é que quase consegui escapar da tradicional angústia de final de ano – e digo
quase porque hoje, sem querer, ouvi a Árvore tocar Noite Feliz, aí é um golpe
muito baixo. Ela já está linda com presentes iluminados ao redor e ainda
inventaram de colocar músicas instrumentais a cada hora, fui pega de surpresa
aos quarenta e cinco do segundo tempo! É um certo delay se emocionar no dia
primeiro de janeiro, mas fazer o quê? Pude evitar a longa apreciação dos fogos
e fui surpreendida pelo efeito caixinha de música ecoando por toda a Lagoa,
quando digo que se existe um Deus ele tem um certo humor negro você se zanga.
Enfim, sobrevivi a mais um reveillon,
consegui até me divertir bastante em uma festa fortunosa que parecia último capítulo de
novela e agora tudo volta ao normal: os turistas que andam de biquíni no calçadão
e dirigem como bêbados sumirão, podemos encontrar com os amigos a qualquer dia
de qualquer mês sem sentir a pressão de um prazo se esgotando, os planos devem ser
colocados em prática porque não cabe mais a desculpa de que em dezembro não adianta
começar nada (vai malhar!). Quanto aos turistas, confesso, não sei por quantos sábados e
domingos até o Carnaval teremos folga deles – eu que tanto torci pelo
desenvolvimento do potencial turístico da cidade me vejo inventando estratégias
para espantá-los (e nem assim ouso pensar em preços abusivos como estão, vou
pelo caminho de plantar notícias falsas envolvendo as UPPs ou fotografar os
miquinhos nas ruas e associá-los ao Planeta dos Macacos). É que não
cabe, Noel! Não cabe no meu bolso essa moda de Cidade Olímpica nem nas ruas
espremidas entre a montanha, mar e Lagoa. Não cabe nos blocos, nas praias, nos
bares, no glamourizado Leblon televisionado pelo Manoel Carlos. Se ao menos os garçons se tornassem mais bem educados... Como
será que fazem os parisienses? Uhn, verdade, ficam mal-humorados como estou.
O mau humor é só por esse ponto,
Noel, em todo o resto sou só sorrisos para o ano que passou, tanto que por mim
ele nem precisava passar. Nem Susan Miller leio mais, acredita? O que tem
vindo, de bom ou nem tanto assim, tenho encarado, bem ou nem tanto assim, mas
conseguindo. Adoraria não ter essa dor nas costas e acreditar um pouco mais que
toda forma de amor vale a pena, por enquanto sigo alternando compressas de água
quente e Tandrilax e letras de música e cinema independente, um cachorro que
parece urso panda é mais útil para quem vive sozinha do que abridor de potes
(anota essa dica).
É isso, bom velhinho, não poderia
deixar de escrever essa nossa já tradicional carta, não prometerei aparecer tão
assiduamente nesse blog quanto outrora por ter percebido que foi o que mais
pensei em 2011 e não executei . Só deixo aqui registrado que apesar de não saber
uma música da Paula Fernandes, ter visto apenas um filme da lista dos melhores e
ter sentado raras vezes no Jobi fiz muito bom proveito desse ano
arrumando minha casa. O astrólogo recomendou que eu recebesse mais, quem sabe o
que vem por aí? Sem pressa, vamos (vi)vendo.
Como aprendi deliciosamente na Italia: tanti auguri per te! E pra não dizer que não falei de Londres, seja exatamente como você quiser – feliz (em) 2012.
Como aprendi deliciosamente na Italia: tanti auguri per te! E pra não dizer que não falei de Londres, seja exatamente como você quiser – feliz (em) 2012.
30.12.11
26.12.11
As monções
Foi em dezembro de 2011, quando
um especial de música evangélica substituiu o Rei no horário nobre que tudo começou. Ne verdade
deve ter sido um pouco antes, mudanças assim não acontecem em um estalar de
dedos, mas estávamos todos checando o Facebook então só ali nos demos conta de
que Suzana Vieira andava quieta, e ainda
vinha mais chumbo grosso.
Anos antes já existia a brincadeira de que o
El Nino faria o mar transbordar, Petrópolis seria a nova orla, achamos fashion
os cachecóis passarem a integrar o vestuário feminino metro-paulista –me-acho-cool-sexual, foi
ótimo poder usar botas de cano alto sem precisar sorrir monalisamente a cada
piadinha estilo “deixou o cavalo lá fora?”. A garota de Ipanema ainda tinha
marcas de sol, bronzeamento artificial era coisa de ex-BBB e simpatizantes ou
tema de episodio de Friends, até que naquele ano o Natal chegou e Papai Noel não.
Dias depois, diante de um povo incrédulo de guarda-chuva, o bom velhinho surge de bicicleta explicando que também tem problemas com GPS e precisou parar para comprar um mapa. Não foram as obras nas ruas nem os valores abusivos que o confundiram, aquela terra nublada de gente desbotada é que não podia ser o balneário carioca de sempre! Onde estava o verão?
Dias depois, diante de um povo incrédulo de guarda-chuva, o bom velhinho surge de bicicleta explicando que também tem problemas com GPS e precisou parar para comprar um mapa. Não foram as obras nas ruas nem os valores abusivos que o confundiram, aquela terra nublada de gente desbotada é que não podia ser o balneário carioca de sempre! Onde estava o verão?
Alguns apontaram as baixas
temperaturas como mais um indício de desenvolvimento, outros quiseram colocar panos
quentes sobre a situação alegando ser decorrência do fortalecimento da classe C,
mas nem os ambulantes do Centro aguentavam mais vender guarda-chuva nem as UPAs tinham mais remédios para as micoses
causadas pelas poças pisadas pelas sandálias das moças. Chico abriu a turnê
apontando para as nuvens nos versos “o que eu quero é lhe dizer que a coisa
aqui tá preta” e temeu ter que trocar o patrocínio da cervejaria por vitamina C.
Enquanto Caetano opinava sobre a situação Gil achava tudo uma coisa linda, o
poder daquela transformação do ser. Com uma enorme preguiça de tocar samba as
rodas pós-praia se dedicaram ao chorinho, das areias eternamente úmidas
chegavam desolados cidadãos desorientados com quarenta e oito horas por semana
para preencher sem mar (o pior que podia acontecer seria virarem paulistas, dia
e noite só com uma breja no bar). Elas continuavam batendo nas pedras, as
ondas, mas já pareciam os estranhos porta-retratos digitais - um shuffle de
bons momentos em imagens do passado. Até quando fazia calor não aquecia
vontade.
Foi então que Eike decidiu tomar providências, Nizan Guanaes montou um roteiro, ao Ronaldo entregaram dúzias de ovos, uma verba X e o Beltrame em sacrifício. Sob as câmeras do Luciano Huck lá foi o gorducho como embaixador da cidade enquanto de seu apartamento no Leblon o governador Cabral preparava o Bope para invadir a Fifa, o COI e quem mais ousasse interromper a festa na floresta. Nunca ficou claro se houve uma falha no sistema ou os responsáveis pelo clima estavam mesmo ocupados aprendendo a dancinha do Michel Teló, fato é que ainda a tempo de ter suas famosas areias entupidas de frango para macumba ou consumo próprio na noite de réveillon Copacabana recebeu o sol. O gorducho voltou para sua cobertura na Barra, as demais praias sempre poluídas voltaram a ser passarela do bom e do mau gosto, aparelhos de ar condicionado voltaram a não dar vazão, chuvas torrenciais só no fim do dia, todo mundo tentando tirar o atraso na academia, toda aquela gente suada e malhada voltou a tomar sua cerveja de Havaianas e regata às oito da noite em pé no balcão do bar. Reclamando do calor todos voltaram a ser felizes, e aos 40 graus o Rio de Janeiro continuou sendo.
25.12.11
4.12.11
O descompasso do criador
O que aconteceu? Isso lá é época
de falar em Belo Monte? A revista de domingo lista cinquenta tendências do
verão e sobre a metade delas nunca ouvi falar, a própria estação parece
distante como Copa e Olimpiadas - vai acontecer, mas no futuro, medida de tempo
que não consigo dimensionar como também não visualizo bilhão. Distância sempre
foi uma referência complicada para mim, só passei a calcular um quilômetro quando
descobri que entre dois postos da orla tem oitocentos metros. Mas os verões,
esses eram fáceis! Estavam sempre a um palmo. Passados, bastava recordar os fatos
mais marcantes, futuros, era só contar os fins-de-semana: esse é o da festa, o
próximo o do show, depois tem amigo oculto, no seguinte é a escolha do samba, pronto,
movimentos circulares, zona sul de bar em bar. E agora cadê o bar? Cadê as
pessoas do bar? Cadê o verão?
Lamentando não ter casaco e uma
garrafa de vinho nos sentamos no estacionamento do cinema para admirar a Árvore
da Lagoa. Não houve problema na dublagem, estávamos mesmo em um sábado à noite,
começo de dezembro, embevecidos com a árvore. Achamos um pouco invasivas as
luzes que adentram as janelas da Epitácio Pessoa, e já que era para reclamar meus
companheiros desligariam o barulho que vinha do espaço ao lado. O barulho era o
samba do bloco do bairro, de onde estávamos víamos o primeiro ensaio onde muita
gente se espremia no escuro então saímos dali para jantar no restaurante que
vivia lotado, mas agora sobra mesa porque o dono abriu um com mais drinks na
redondeza.
Estava cheio de “lher-mu”, ele
disse sobre o evento barulhento, ao que rebati de imediato com um “não
frequento lugares com “lher-mus”” e ainda complementei que no ultimo ensaio fiquei
horrorizada com a falta de respeito dos que conversavam alheios à presença do
Monarco no palco. Eu mesma não acreditei nas minhas palavras. Virei praticamente
um João Gilberto, fevereiro me aguarda no Municipal! “Eu ainda não cresci”, ele
explicou sorrindo, notavelmente a léguas do meu mau-humor, e passei o resto do
dia pensando que não existe pressa nenhuma para que isso aconteça. Eu ainda não
envelheci.
Dia desses alguém brincou que o
Brasil está tão desenvolvido que atualmente faz frio em dezembro, mais dois
anos e montaremos bonecos de neve no Natal. Outra explicação cogitou estar o
tempo passando tão rápido que as estações não conseguiriam mais acompanhar, viveríamos
um problema grave de falta de sincronização. Pode acontecer. Quem garante que o
tempo das coisas deve ser absolutamente cartesiano e previsível? Vai ver o
ritmo do mundo desandou, sei lá, do meu ponto de vista as coisas parecem
bastante paradas. Acontece que pode começar uma guerra de vídeos com fundo
branco sobre a construção de hidrelétricas, a Fatima Bernardes deixar o Jornal
Nacional para entrar no BBB, não sobrar um ministro no governo Dilma e na praça
Tahir começarem a cantar Michel Teló, preciso que foquemos no que realmente importa
porque não estou pronta para viver de outono. Não adotei estratégia de
pacificação então, a quem de direito, peço o favor de soprar essas nuvens,
vamos empurrar essas cadeiras para o canto e abrir espaço no salão.
Como tocava na falecida Rádio Cidade: é verão no Brasil e a cidade ferve!
Como tocava na falecida Rádio Cidade: é verão no Brasil e a cidade ferve!
17.11.11
Em palavras
É pior do que morrer porque ao
morrer - considerando que até agora ninguém voltou para desmentir - acabou.
Ruim é continuar preenchendo todas aquelas horas cheias de minutos, dias
inteiros, todos os dias em que nasce o sol, fica tudo colorido lá fora, muitos
sons, e anoitece noites enormes, compridas. Noites que emendarão em dias em que
você tem que se levantar mesmo tão cansada, decidir se pior é engolir comida em
um esforço semelhante a ruminar papelão ou manter-se um pouco mais sem nada, e
encarar pessoas. Poucas pessoas ainda distraem, você ri, se ninguém comenta
sobre o nariz vermelho ou olhos marejados é porque nem notaram a escapada
discreta ao banheiro, pausa momentânea para chorar. Qualquer porta que se fecha
dispara o gatilho de lágrimas, ao dirigir elas vertem tão habitual e
automaticamente que nem devem ser classificadas como choro – são só seus olhos
que escorrem. Uma sobrevida onde quase não há movimentos, não existe o brusco.
Tudo vai sendo porque deixa ser, deve ser, mar antes da arrebentação, aquela água que vem e vai,
vai, vem. Você nem transborda.
Fúria, um grito, socos, aos
berros, louças quebradas, roupas rasgadas, nada. O único rompante de euforia
vem do álcool porque você está ali, vestida, acordada, as pessoas ao redor riem
e pulam, festejam, há música, luzes mas não essa fumaça, como se dissipa? Se
tudo parece meio distante é porque aquilo não é um sonho, é real, estão todos
ali mesmo parecendo impossível tocá-los, as vozes estão aqui, você é quem não
está. Você não pertence. É um feitiço, sonambulismo. E daquelas garrafas sai a
cura que aproxima as pessoas e afasta as memorias então é mais um copo, outra
dose, cuidado, não pára pra isso não acabar, e você está se misturando, olha
quanta alegria e de repente uma coisa, qualquer coisa, estala. O encanto se
rompe. Não vai, se esforça, disfarça! A raiva que cresce do fundo do fígado
chega à goela na forma de dor, e aí sim você chora. Chora. Se contorce. Se
assusta e apavora porque escancara, se afasta, vai se trancar – quem colocou
essa aqui? E a culpa te espreme na cama, não abre essa cortina que todo esse
sol vai apontar um dedo indicando que esse mundo lá fora não foi feito para
você. Você não o merece. Ele não te entende. Quase ninguém entende, só te
defende quem repete que vai passar e é claro que mente. Passa. Dia a dia você
se entende porque quer viver, viver é muito melhor do que morrer. Eu sei.
6.11.11
Testemunho
Um dia perguntei se não o
incomodava ver a mãe beijando outra mulher. Ele riu, daquele jeito indicativo
de que algo mais forte vem a seguir, e disse que já a tinha visto amarrada em
uma cadeira sob a ameaça de ter uma faca enfiada entre as pernas. Pensei que eu
não saberia lidar com uma mãe atriz.
O sol de sábado com o trânsito
insuportável da rua Jardim Botânico mais o deslumbre por cada canto do
Instituto Moreira Salles fizeram meu atraso perder o começo do filme, quando
sentei não sabia o que as pessoas ao meu redor já sabiam sobre aquelas que se amparavam
entre lágrimas na tela. Eu já sabia que seria algo pesado e que o documentário
acompanhava uma atriz em sua personagem durante a encenação de uma peça sobre o
Holocausto.
Logo alguém diz para a
protagonista completamente abalada: “isso é só teatro, não pira!”. Ela continua
chorando, Carla Ribas. Anos atrás uma amiga comentava sobre os tantos prêmios
que Carla Ribas ganhara em seu filme de estréia, mas desde que essa amiga me
apresentou a ele – o filho da Carla Ribas – até o dia da resposta da faca entre
as pernas eu nunca tinha pensado muito
sobre fato do Grabo ser filho de uma atriz. O Grabo era um amigo meu, fazia
cinema, três refeições ao dia e sucesso no karaokê.
Eu tenho uma teoria de que se
alguém responde que um filme é bom porque a luz é incrível é porque o filme é
ruim. Resposta positiva para “você gostou, o filme é bom?” só pode ser “é”, se
precisa de explicação são ressalvas. Depois do “é” permito vir elogios à
técnica, atuação impecável, trilha genial, direção segura, etc. O filme do
Grabo é foda. Personificando mais um palavrão estava eu desejando poder
desmoronar de chorar enquanto o silêncio sepulcral da plateia transformava a
dúvida do funcionário em abrir a porta ou não em comédia, ninguém falava, os
créditos subiam sem música, os aplausos não começavam e o homem ao meu lado,
que havia acabado de entrar na sala, pergunta baixinho: “é de se emocionar?” Meu
indiscreto nariz vermelho se vira para ele acompanhando o resto da cabeça num
sim que não satisfaz o interrogador: “por quê?”. Que diabos faz um homem que
acabou de chegar me perguntando coisas assim? É porque é, não sei, você é meu
terapeuta, meu consciente? É tudo tão doído, doente, estafante, eu torcendo
para aquela câmera mostrar uma luz, cadê o dia, que horas são que já faz mais
de doze que aqueles atores estão entrando e saindo de cena e repetindo aquele
texto horripilante e quando finalmente acaba em um mergulho na praia e os
braços são jogados para cima dá um alívio...
Não.
Então abriram o debate e a
plateia começa a dissecar o filme – onde estava a câmera? Era sempre zoom?
Aquele assunto despertava interesse especial no diretor? Todas as imagens foram
feitas durante a montagem de vinte e quatro horas da peça? Houve ensaio? Eu
queria perguntar como ele tinha conseguido se tornar invisível para estar
sempre perto sem interferir na construção do trabalho dela, não consegui.
Acabou que o homem das perguntas foi
apresentado como Eduardo Wotzik, diretor da peça, rimos cúmplices, aproveitei o
sol de sábado para um mergulho atrasado na praia e só na volta no trânsito insuportável
da Jardim Botânico ainda deslumbrada com Testemunha 4 me dei conta do tal
porquê. Aquele abraço no final, Grabo e Carla, a dedicatória no canto direito
da tela: “para a minha mãe”.
Se é um zoom em uma atriz por um diretor, mãe pelo filho, isso não é uma critica cinematográfica: só uma tentativa de ir mais fundo no meu sentimento para compreender.
Se é um zoom em uma atriz por um diretor, mãe pelo filho, isso não é uma critica cinematográfica: só uma tentativa de ir mais fundo no meu sentimento para compreender.
(And I keep thinking where to hang a Warhol that says "Art is what
you can get away with.)
18.10.11
And I don't know why (keep walkin for miles)
*Last night she said
Oh, Baby, I feel so down
Oh, and turned me off
When I feel left out
Eu tenho amigas legais pra caramba, juro. Tenho que ir dormir, uns três episódios da temporada passada de Grey’s Anatomy para assistir, a série nova que ele me deu de aniversário, tenho um cachorro que não se importa de ter o sono interrompido por um abraço meu, um provável convite de trabalho na caixa postal do celular, um pote de brigadeiro vencido na geladeira e uma planilha de filmes do festival de cinema para essa semana. Eu tenho uma festa na sexta-feira e uma nova casa de shows pra conhecer no sábado. Tenho um blog onde finalmente voltei a escrever e outro caótico para ser arrumado sobre os lugares do mundo que eu gosto. Eu tenho lugares espalhados pelo mundo sobre os quais posso falar, tenho fotos incríveis e recordações mais ainda da Toscana, do sul da França e de Boipeba. Eu tenho “pretendentes”, segundo o astrólogo. Tenho um astrólogo, eu e minhas amigas. Tem tanto tempo que um homem não domina desse jeito nossos assuntos e cabeças que já tenho vontade de sufocá-lo como fiz com quase todos os que passaram por semelhante condição. Tenho adoração pelo verso “porque era ela, porque era eu”. Tenho vontade de comprar o CD novo da Mallu Magalhães mesmo que tenha tido tanto preconceito quando ela virou namorada do Camelo. Eu tenho amigos que fazem filmes, que fazem livros, músicas, cupcakes, amigos que fazem falta, festa, filho e tanta força pra ficar bem. Gente que quer uma casa em Guaratiba, um trabalho independente, fritar bifes para o marido, que está desinformada de si mesma ou acomodada a velhas idéias. Gente que está no armário se guardando pra uma ocasião especial. Gente que confunde liberdade com solidão, que dirige sozinha cantando de noite, pra quem as informações sempre tiveram links. Gente incoerente e inconsequente, gente inteligente pacas do tipo que me deixa encabulada sem falar. Gente de quem é tão fácil gostar mesmo que se ache tão difícil.
Eu tenho que dizer para ela que vai ficar tudo bem e que apesar de querermos ser diferente isso é como no final das novelas mesmo que tenhamos certeza de que a vida segue depois dos créditos, mas tenho medo dela perguntar como. Eu também tenho uma dificuldade enorme em entender porque.
I'm walking out that door, yeah
* Last Nite, Strokes
Oh, Baby, I feel so down
Oh, and turned me off
When I feel left out
Eu tenho amigas legais pra caramba, juro. Tenho que ir dormir, uns três episódios da temporada passada de Grey’s Anatomy para assistir, a série nova que ele me deu de aniversário, tenho um cachorro que não se importa de ter o sono interrompido por um abraço meu, um provável convite de trabalho na caixa postal do celular, um pote de brigadeiro vencido na geladeira e uma planilha de filmes do festival de cinema para essa semana. Eu tenho uma festa na sexta-feira e uma nova casa de shows pra conhecer no sábado. Tenho um blog onde finalmente voltei a escrever e outro caótico para ser arrumado sobre os lugares do mundo que eu gosto. Eu tenho lugares espalhados pelo mundo sobre os quais posso falar, tenho fotos incríveis e recordações mais ainda da Toscana, do sul da França e de Boipeba. Eu tenho “pretendentes”, segundo o astrólogo. Tenho um astrólogo, eu e minhas amigas. Tem tanto tempo que um homem não domina desse jeito nossos assuntos e cabeças que já tenho vontade de sufocá-lo como fiz com quase todos os que passaram por semelhante condição. Tenho adoração pelo verso “porque era ela, porque era eu”. Tenho vontade de comprar o CD novo da Mallu Magalhães mesmo que tenha tido tanto preconceito quando ela virou namorada do Camelo. Eu tenho amigos que fazem filmes, que fazem livros, músicas, cupcakes, amigos que fazem falta, festa, filho e tanta força pra ficar bem. Gente que quer uma casa em Guaratiba, um trabalho independente, fritar bifes para o marido, que está desinformada de si mesma ou acomodada a velhas idéias. Gente que está no armário se guardando pra uma ocasião especial. Gente que confunde liberdade com solidão, que dirige sozinha cantando de noite, pra quem as informações sempre tiveram links. Gente incoerente e inconsequente, gente inteligente pacas do tipo que me deixa encabulada sem falar. Gente de quem é tão fácil gostar mesmo que se ache tão difícil.
Eu tenho que dizer para ela que vai ficar tudo bem e que apesar de querermos ser diferente isso é como no final das novelas mesmo que tenhamos certeza de que a vida segue depois dos créditos, mas tenho medo dela perguntar como. Eu também tenho uma dificuldade enorme em entender porque.
I'm walking out that door, yeah
* Last Nite, Strokes
16.10.11
Otimista demais
Nós sempre fazíamos cartões além de dar os presentes. Um dia, deixamos de escrevê-los. Eu deixei. Porque os dias começaram a ficar corridos, os hormônios da adolescência nos permitiram menos frenesi, porque escrever exigia reflexões que remexiam e comecei a me afogar no redemoinho causado por elas, todas as alternativas anteriores, relevante aqui é que, pra mim, o encerramento dos textos sempre podia ser com palavras do Rei: ao fim de mais um ano de vida ou encerramento de um velho, o feliz ano novo trazia a mensagem de que, tivéssemos nós chorado ou sorrido, importante é que emoções tínhamos vivido.
O cinismo da vida adulta adaptou a lição de Emoções no campo amoroso fazendo surgir a premissa de que tudo vale a pena desde que renda boas história na mesa de um bar. Melhorou os fins de noite já carentes de grandes acontecimentos e aliviou a pressão das coisas terem que ser como uma comédia romântica - se passamos a assistir mais produções independentes com protagonistas disfuncionais por que não assumir logo o roteiro inesperado entregue pela realidade? Em contrapartida, comecei a batucar “qualquer coisa que se sinta...”. Por resistência, cicatriz, comprimido ou Oscar, pouco passou a importar. Se até ônibus que demora a passar passa (e me abalar não altera em nada o itinerário dele) imagina dar corda para aborrecimentos que não são diários! “Eu, hein, Creuza” virou mantra, pobre súdita do Rei.
Substituímos nossos terapeutas por um astrólogo – o mesmo para compartilharmos o aprendizado de interrogá-lo - e não o fizemos por inclinações místicas, mas porque a ciência que economiza sessões oferece um panorama de tendências mais objetivo. Aproveitamos que a casa afetiva está vazia para descartar essa ansiedade e focar no realismo que Saturno traz, frequentamos festivais de rock com musica pop e grama sintética, planejamos o negócio próprio menos por idealismo do que por rentabilidade e autonomia. Até que num sábado muito depois dos tempos dos cartões, quando música alta de músicos atraentes é tema de conflito mais profissional do que amoroso, releio a sequencia de e-mails há dias sendo casualmente escrita entre nós. Falamos sobre entender ao invés de julgar, tentamos um perdão, pensamos se o erro do outro não foi o melhor que ele pôde fazer, lamentamos calmamente o descompasso entre os seres e que reciprocidade seja tão complicado de viver quanto de pronunciar.
Porque queremos desacelerar os dias, porque nossa intempestividade não altera em nada o tempo de cada um, porque sabemos que aquele festival não é pra nós, porque nosso mapa astral já aponta o fim do retorno de Saturno, porque todas as alternativas anteriores são verdadeiras vem finalmente uma vontade de chorar e de rir, e uma impressão de que o encerramento-padrão dos cartões não faz sentido de novo, faz um novo sentido. Em paz com a vida, o que ela me traz só acrescenta que o importante é que a emoções sobrevivi.
O cinismo da vida adulta adaptou a lição de Emoções no campo amoroso fazendo surgir a premissa de que tudo vale a pena desde que renda boas história na mesa de um bar. Melhorou os fins de noite já carentes de grandes acontecimentos e aliviou a pressão das coisas terem que ser como uma comédia romântica - se passamos a assistir mais produções independentes com protagonistas disfuncionais por que não assumir logo o roteiro inesperado entregue pela realidade? Em contrapartida, comecei a batucar “qualquer coisa que se sinta...”. Por resistência, cicatriz, comprimido ou Oscar, pouco passou a importar. Se até ônibus que demora a passar passa (e me abalar não altera em nada o itinerário dele) imagina dar corda para aborrecimentos que não são diários! “Eu, hein, Creuza” virou mantra, pobre súdita do Rei.
Substituímos nossos terapeutas por um astrólogo – o mesmo para compartilharmos o aprendizado de interrogá-lo - e não o fizemos por inclinações místicas, mas porque a ciência que economiza sessões oferece um panorama de tendências mais objetivo. Aproveitamos que a casa afetiva está vazia para descartar essa ansiedade e focar no realismo que Saturno traz, frequentamos festivais de rock com musica pop e grama sintética, planejamos o negócio próprio menos por idealismo do que por rentabilidade e autonomia. Até que num sábado muito depois dos tempos dos cartões, quando música alta de músicos atraentes é tema de conflito mais profissional do que amoroso, releio a sequencia de e-mails há dias sendo casualmente escrita entre nós. Falamos sobre entender ao invés de julgar, tentamos um perdão, pensamos se o erro do outro não foi o melhor que ele pôde fazer, lamentamos calmamente o descompasso entre os seres e que reciprocidade seja tão complicado de viver quanto de pronunciar.
Porque queremos desacelerar os dias, porque nossa intempestividade não altera em nada o tempo de cada um, porque sabemos que aquele festival não é pra nós, porque nosso mapa astral já aponta o fim do retorno de Saturno, porque todas as alternativas anteriores são verdadeiras vem finalmente uma vontade de chorar e de rir, e uma impressão de que o encerramento-padrão dos cartões não faz sentido de novo, faz um novo sentido. Em paz com a vida, o que ela me traz só acrescenta que o importante é que a emoções sobrevivi.
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