30.8.26

Se elas dançam, eu danço

A amiga faz aniversário e um pedido: quer sair para dançarmos juntas!

Saíamos para dançar mais de uma vez por semana, as mesmas músicas nos mesmos lugares com as mesmas pessoas até que surgia um lugar novo e nos mudávamos com as mesmas pessoas para dançar no então novo mesmo lugar as mesmas novas músicas e assim vivemos toda uma juventude. Até que um dia paramos. Não me lembro quando ou como, não acordamos em um dia seguinte como se tivéssemos contraído chicungunya de tão cansadas e nunca mais voltamos, aconteceu aos poucos a sensação de dengue pós-dançar e as novas sextas-feiras,  sábados... algumas quintas e domingos... agora sem dançar.

Ela queria comemorar dançando com as amigas e pedido de amiga recém-separada não se nega. Chegaria para o fim de semana e aceitava qualquer lugar “animado”: “não sei mais onde é legal de ir no Rio, deixo com vocês”. Eu acho a minha casa super legal, tem silêncio, comida fresca, sofá ótimo então passei a missão adiante. Uma queria samba em um lugar que a outra achou não ser asfaltado o suficiente, essa propôs uma festa para “jovens idosos”. Foi ignorada. Outra sugeriu um lugar que parecia bom mas não tinha cadeira. Algumas precisavam voltar cedo, outras só conseguiriam chegar mais tarde, opções com mais de dez quilômetros de trajeto foram negadas e quando o plano já parecia quase inviável a Prefeitura emitiu alerta de vendaval e tempestade e assim entendi porque íamos sempre nos mesmos lugares.

Um mês depois da falida “Missão Dançar”, outra aniversariante resolveu a comemoração de forma prática, reservou um espaço perto das casas, contratou DJ, comida, bebida, a nós só coube nos vestirmos em traje esporte fino e ir.     

Com a graça divina, em um acordo coletivo não formalizado, as festas passaram a começar às sete da noite, como em um ciclo da vida retornamos aos horários de matinês e isso é ótimo. Um logo se ilude - “acabando à meia noite dá para irmos ao Salgueiro depois!”, no que concordo empolgadamente mentirosa. Para estar de pé sorrindo e cantando em uma disputa de samba na quadra do Salgueiro de madrugada eu precisaria de um preparo prévio que envolve até repouso, mas concordei - “Vamos vendo como as coisas evoluem”.

As coisas envolviam, por exemplo, meu corpo, que deu para rejeitar álcool. Tento negociar explicando que dançar bebendo água é estranho, tal qual Zeca Pagodinho amigo eu nunca fiz bebendo leite, mas algo em mim olha um bar e grita ‘afasta de mim esse cálice’. É revelar isso e alguém sempre puxa um saquinho, “cogumelinho?”. É quando cogito ir à festa para jovens idosos. A ausência de elementos animadores e socializantes não exige mais só de mim, também exige mais dos DJs – aceitávamos dançar muita coisa ruim algumas doses acima, não é?

Ainda dançamos em roda, uma prática que acontece em diversos rituais de povos distintos e é comum em festas e boites. Nosso grupo se diverte relembrando passinhos antigos de uma era pré-TikTokeana e chega uma integrante mais exploratória: “por que estão nesse canto, vamos pra láááá, não reconheço vocês, somos os reis da pistaaaa!”. ‘Lá’ é um amontoado de pessoas em frente ao DJ-palco, versus nosso canto onde bate um ventinho e nos ouvimos. Eu não ouço mais em shows e bares, passei a adotar um leve sorriso e olhos de interesse em direção a quem vem conversar, mas a verdade é que escuto dez por cento do que é dito, uma deficiência que as audiometrias não explicam, mas confissões de semelhantes confirmam como epidemia e assim não escolhemos mais restaurantes pelo menu e sim pela acústica. “Vamos no Braseiro? Claro, te vejo lá”. Não minto, verei mesmo, e apenas isso já que naquele barulho a conversa só é possível na calçada e esse é o motivo de ter sempre um amontoado de quarenta mais do lado de fora.

 O grupo Funk das Antigas assume a festa e ainda somos os mesmos e fazemos como nossos pais: “esses funks é que eram bons!”. Mc Marcinho, DJ Marlboro, Bob Rum e na festa no Jockey com Fitzgerald e Penicillin os convidados cantam do fundo do coração e mãozinhas para o alto “é que eu moro na Estrada da Posseeee”. Contrariando a outra epidemia - de falta de memória - todos sabem ainda a letra do endereço dos bailes e vão falar pra você.   

O salto alto vence a batalha contra meus pés e me vejo impossibilitada de continuar a dançar, alguém sugere pedir Havaianas pelo Rappi, mas neste exato momento me aproximo da razão (oh yes) e aceito que a festa pode acabar. Escrevo essas memórias com as pernas para cima, fotos sem qualquer foco no celular e certezas. Uma é que passa rápido (a vida, não a dor nos pés). Outra é que os funks eram fofos.

Mostra teu amor por essa rapaziada, DJ.  

23.8.26

A Turista Aprendiz – Diário de Bordo no Rio Negro, dia 5

Os primeiros raios de sol surgiam e oito canoas nos esperavam, com um remador cada, para passearmos pelos igapós. Em uma medida rápida notei que, além de bastante estreita, a canoinha ficava a um palmo fechado acima da água. Treinada na paranóia que fui desde bem nova por minha mãe, sondei como que por curiosidade matinal: “Tem piranha nessa água?  Tem sim. Jacaré? Tem sim”.  Começou a remar, movendo suavemente o remo com desenho de jacaré no rio, e assim fomos passando pelas árvores da floresta inundada ouvindo só o deslizar da canoa, as aves do amanhecer, a calma de um universo tão distante do meu... Ouço um barulho de algo grande caindo na água, uma pessoa. Sem me mover ou olhar para trás para não ser a próxima, pergunto o que aconteceu. O remador faz uma volta com nossa canoa e vejo o coreano dentro do rio, com chapéu intacto, boiando com seu colete camuflado. “I lost my phone”, ele diz. As piranhas! Em pânico tento perguntar se ele está bem, “avisei a ele para não usar tripé”, “something hit me”, “como ele volta para a canoa?”, “are you ok?”, “eu disse a Neia que ele ir cair”, penso “Neia pelo amor das águas recolha o coreano”, alguém diz que ele não pode se apoiar na canoa sob o risco dela virar derrubando mais gente, deve nadar até uma árvore e subir nela. Nos vejo nos jornais, “coreano devorado na Amazonia”. As outras canoas se aproximam, levam o coreano a nado no igapó até uma árvore, ele sobe e volta para a dele com todos os dedos no lugar. “Quer voltar para a voadeira?”. A pergunta era para ele, quem quer sou eu, mas não digo nada e seguimos todos no suposto idílico passeio. Minha respiração vai retomando o fluxo, evito qualquer movimento brusco na finíssima embarcação. Não houve nada de grave, riremos disso. Splash de novo! “O que agora, deus! Calma, é só um pato mergulhando.”     

Horas depois os remadores voltam ao lugar, mergulham dois metros e meio e resgatam o celular do igapó, ligado e funcionando. Nenhuma selfie de piranha. Josué brinca que àquela hora estavam dormindo ainda.

Visitamos uma comunidade formada por cerca de trinta e cinco habitantes de origem indígena que viviam nas margens do rio Purus, afluente do Solimões, mas se estabeleceram ali fugindo da perseguição de brancos. A violência fez com que a cacique, falecida mês atrás, evitasse falar com os seus na língua nativa e deixasse de adotar os costumes culturais do seu povo por medo de novas perseguições. São suas filhas as responsáveis pelo grupo agora e que nos recebem para mostrar suas casas, artesanato, a escola, casa de farinha e uma igreja evangélica. Contam que há alguns anos um pastor aportou por ali e ‘gostou muito deles’ então, através de  sua “missão de Deus”, passou a ajudá-los com educação, ia até lá de vez em quando e os ensinou a rezar. O homem foi embora, a igreja ficou, e a escola com uma professora do governo e instalações da Katerre recebe as crianças locais. Uma das moças nos leva em sua casa para vermos o artesanato exposto na varanda - pinturas em madeira, objetos esculpidos em formato de casinhas, coração e animais. No cômodo interno, dois sofás vermelhos pequenos e uma TV. “O que você assiste?”, pergunto. “Novelas na Globo”, ela diz, “quando tenho tempo”.

De volta a bordo Josué me diz que a voadeira vem me buscar às seis para me levar ao carro em Novo Airão e de lá ir para o aeroporto em Manaus de volta para casa. Saber que só tenho mais duas horas na floresta me faz querer abraçar as paredes da embarcação, as pessoas, levar em mim aquelas árvores que por horas fiquei vendo passar do alto do barco. Guardar em mim aquele outro tempo do céu lotado de estrelas onde vemos nitidamente o Cruzeiro do Sul, o tempo de ver voarem araras, tucanos e papagaios soltos na sua natureza, do sobe desce dos botos, das águas cor de café refletindo a floresta invertida, tempo do preparo da manioca, do amanhecer cada dia de uma cor, do sorriso gentil da tripulação e da pergunta incessante dos gringos: mas por que vocês não vem mais aqui? 

 

 

A Turista Aprendiz – Diário de Bordo no Rio Negro, dia 4

A caminhada do dia nos leva a mais uma Sumaúma, “a rainha da floresta”. Josué conta que seriam necessárias mais de vinte pessoas de mãos dadas para dar a volta nela, e mostra que suas raízes não são profundas: o solo da Amazonia tem no máximo vinte centímetros. As raízes de árvores gigantescas espalham-se para os lados podendo chegar até a cem metros, essa rede de raízes e os fungos que existem debaixo da terra alimentam outras árvores e fazem o ecossistema que torna a floresta como ela é. Acredita-se que exista no mundo uma rede de fungos conectando tudo.

Chegamos à comunidade quilombola de Cachoeira, que tem esse nome por estar perto de mais uma queda d’água imperceptível pelo alto nível do rio. Saber que navegamos por cima de cachoeiras é muito curioso. Desembarcamos para conhecer o povoado onde vivem 35 pessoas e uma das 23 escolas que a Katerre mantem na região, em uma parceria público-privada.

A estrutura de madeira, suspensa como palafita igual às casas ao redor, tem duas salas de aula, um depósito, banheiro e cozinha muito novos e arrumados. Fica ao lado da casa da professora. Em outras comunidades eles não tem casa. Ou dormem na escola, improvisando cama, ou são abrigados pelos moradores.

Quem nos recebe é Dejane, a merendeira, que explica que estão em período de férias. A cozinha da escola é tão quente mesmo sem atividade que preciso sair e tomar um ar, penso ser impossível alguém estudar naquela temperatura e me dizem que por essa razão só tem aulas de manhã. Josué nos leva para uma das salas de aula para ouvi-lo contar como funciona o sistema. Ali as crianças só estudam até o 9º ano e todas tem aula juntas, independentemente da idade ou nível escolar. Cabe à professora dar conta dessa diversidade. No canto da leitura, Macunaíma, Vidas Secas, Flicts e um livro que me chama a atenção: O Outro Lado do Paraíso. Pergunto que percentual de jovens segue estudando depois do 9º ano, quando precisam ir para cidades maiores completar os estudos porque não existem professores para as séries mais avançadas. Josué não leva um segundo para responder: “Muito pequeno. Aí é aquilo, as meninas conhecem um menino, engravidam, por ali ficam. Eu segui.”. Conta que implementar a escola digital ajudaria a continuidade da educação pela possibilidade das aulas online, o projeto já acontece de maneira embrionária em outros espaços apesar das falhas de tecnologia.

Saímos para ver a casa de manioca, onde preparam a planta para consumo extraindo o cianeto. Ao saber que é preciso descascar, ralar, deixar de molho, passar na prensa para tirar o líquido tóxico e levar ao fogo antes de fazer farinha, tapioca, tucupi e ninguém morrer do veneno, o coreano pergunta em tom baixo – por que não simplesmente plantam batatas?

Como futebol é linguagem universal, os gringos puxam uma espécie de altinha com os meninos enquanto vejo os artesanatos.

De volta ao barco ancorado na beira da comunidade, sento na proa para escrever essas linhas, mas só até ver uma das mulheres arrastar para dentro do rio um estrado quadrado de madeira, levando um balde na mão e duas crianças na outra. Ela senta no estrado e passo a assistir a hora do banho dos meninos no anoitecer. E ela diz a exata mesma coisa de uma mãe na Gávea: ‘esfrega direito essa cabeça!’.

No jantar, além da costela de tambaqui reforçar a certeza de que voltaremos dez quilos acima dos nossos pesos, aprendemos que o metrô coreano tem vagões exclusivos para mulheres com assentos aquecidos reservados para as que sofrem com cólicas menstruais. Planejamos ir um dia à Coreia, onde nossos aviões aterrizarão na ilha perto de Seul e nossa bagagem chegará através de túneis subterrâneos.  Beijo meu bolo de tapioca sem cianeto antes de comê-lo. 

A Turista Aprendiz – Diário de Bordo no Rio Negro, dia 3

A equipe de cozinha tem o cuidado de fazer para mim as mesmas comidas dos outros passageiros apenas mudando a farinha de trigo. Uma pessoa celíaca dá outro valor a um pão delicioso de tapioca no café da manhã com geleia caseira e suco de taperebá.

Amanhecemos ancorados em Airão Velho. Acordamos às 5h, hábito que reservo às férias e ao Carnaval, para conhecer as ruínas. Para compensar o esforço do sono, o nascer do sol traz botos pulando tomando o seu café da manhã.

No fim do século dezenove aquela região viveu um período de grande riqueza com o ciclo da borracha. Manaus, por exemplo, foi a primeira cidade do Brasil a ter luz elétrica. A riqueza, claro, foi mal distribuída e deu origem a homens com poder como Francisco Bezerra, um português que tomou para si as terras onde estávamos e passou a atrair trabalhadores de diversas partes do país para a extração da seiva da seringueira. Contam que os indígenas produziam borracha para fazer brinquedos e utensílios e mostraram as árvores para os estrangeiros. Além de explorar o material e o conhecimento do povo local, Bezerra isolou a cidade que criou e vendia produtos a preços impagáveis, fazendo com que os trabalhadores se tornassem seus devedores e não conseguissem se libertar. Acredita-se que duas mil pessoas tenham vivido em Airão Velho, muitas em situação de escravidão.

Entramos no que restou pelo antigo mercado. Os destroços da cidade ainda permitem ver parte de pisos, azulejos, telhas e paredes que a floresta está encobrindo, formando um desenho de raízes e casas e troncos e janelas e galhos se emaranhando pelas ruínas. Pergunto se o abandono da cidade se deu pelo surgimento da borracha sintética ou concorrência de países como a Malásia, que passou a plantar seringueiras. Josué faz uma pausa dramática. Como sou capaz de uma imaginação tão rasa? Ele conta que um padre missionário foi proibido por Francisco Bezerra de entrar em Airão para catequisar e rogou uma praga de que algo terrível acontecesse! Pouco depois, formigas passaram a surgir nas casas, no que a população viu como o início de uma invasão fatal que dominaria todos os espaços, e fugiu em debandada. Pesquiso, mas não acho registros de que Bezerra tenha morrido comido por formigas gigantes.

 

Saímos do Rio Negro para adentrar a região do Jaú e passamos no posto de controle do Instituto Chico Mendes para fazer nosso cadastro de visitante. Encontramos 3 homens, dos dez, responsáveis pela fiscalização do parque. Cabe a esses dez reportar algo de errado para o Ibama, que é o braço armado de proteção, defendendo a área de aproximadamente 2,2 milhões de hectares, Patrimônio Mundial Natural pela UNESCO. Dez homens.

Ao passar por um barco a caminho da cachoeira sou avisada que aqueles são traficantes de tartarugas locais, conhecidos porque todos moram na mesma pequena cidade ali perto. Pergunto sobre a extensão de floresta queimada onde passamos e restaram apenas árvores incendiadas. “Incêndio criminoso”, é uma técnica de distração dos traficantes: os fiscais vão até o fogo e eles passam tranquilamente por outro lado com a carga.  

 

Vemos araras uma dupla voando sobre o rio e tento grudar essa imagem nos meus olhos para não esquecer.

 

Concordo com os gringos que não devíamos sair do Brasil antes de conhecer a Amazônia. Ou o Pantanal. Ou os Lençóis. Talvez mais lugares, ao menos um dos que o faz gigante pela própria natureza.

Vamos mergulhar em uma cachoeira onde só vejo rio e pedras, pergunto onde está a queda d’água. “Estamos nela”, Josué explica, “veríamos um rio lá embaixo, mas a água está oito metros acima pela época de cheia”. Tanta água sobe que o que era rio lá embaixo virou rio igual aqui em cima. Mergulhamos depois de desencalhar as voadeiras das pedras e os guias garantem que não esbarraremos com jacarés nem seremos devorados por piranhas. É tanto calor que eu talvez negociasse com os animais se preciso.

 

No jantar debatemos qual foi o primeiro lugar que cada um visitou onde se sentiu minúsculo.  

A Turista Aprendiz – Diário de Bordo no Rio Negro, dia 2

A filha da família inglesa não quer matar piranhas, compartilha esse desconforto enquanto comemos um delicioso sorvete de maracujá feito a bordo. Além da possível matança, passamos o almoço conversando sobre a família real e religiões, conto sobre a umbanda, concordamos que o rompimento de Harry com a monarquia é repleto de contradições. Tranquilizamos a menina de que devolveremos as piranhas ao rio com vida. 

O passeio da manhã é trilha na floresta e aprendemos como fazer corda de planta, amarrar ao redor dos pés para subir nas árvores, pegar frutas e escapar de animais, a fazer fogo e imitar sons de pássaros usando o facão e uma folha. “Aprendemos” não é o verbo mais correto, seria “Josué ensina”. Nascido e criado na Amazônia, descendente dos Tucunas, deu aula de sobrevivência na selva para militares por vários anos. Conto que também sou especialista em sobrevivência na selva - corporativa, a minha - e penso em um intercâmbio de vivências: eu viveria zero dias na dele, quantos ele aguentaria na minha? Por lá as coisas pegam fogo bastante rápido.

Uma das grandes maravilhas da vida: cochilar na sombra do deque do barco. Sou acordada por um trovão e ao olhar na direção das 10 horas vejo a chuva na margem direita - “um caju”, diria meu pai no mar. Em questão de minutos uma ventania que dispararia alertas da prefeitura carioca chega a nós e penso que os planos de sair para pescar piranhas está indo por água abaixo: praga da menina inglesa, aposto. Josué chega na proa, enxerga qualquer coisa que não leio no horizonte e decreta que em vinte minutos nossa embarcação atravessará a zona de chuva, teremos pescaria. Fico ali recebendo o vento que embaralha meus cabelos e um banho de chuva no rio tão abençoado que às gotas se misturam lágrimas de alegria e emoção. Só quem ama vento capta a força que ele traz.

Na margem esquerda, céu claro e sol. 

 

Onde tem boto não tem piranha, em correnteza não tem piranha, assim vamos pelo canal procurando o lugar certo para lançar nossas iscas de carne. Somos ensinados a sacudir a vara na água para chamar atenção dos peixes e então mergulhar as linhas, é através do movimento e da percepção de sangue que elas vêm atacar. A proposta é que eu puxe a vara logo que senti-las pegando a carne, mas são tão rápidas - ou eu tão má pescadora - que a atividade se transforma em self service para piranhas, um banquete. Camille grita entusiasmada a cada beliscada na isca e depois de algumas tentativas consegue fisgar um peixe. Rafael segura o bicho por trás para retirar o anzol preso na boca, todos se espantam com os dentinhos afiadíssimos da feiosa que tem mesmo cara pouquíssimo amigável, e, como em um filme B de terror, em slow motion vejo a entusiasmada suíça levar seus dedinhos suíços em direção à boca da piranha para, como as crianças, vê-los melhor tocando. A trilha sonora de Tubarão surge na minha cabeça. Mais rápido do que o peixe, Rafael intercepta a mão de Camille evitando o arrancamento de dedos que presenciaríamos. Para demonstração prática do poder destruidor da dita cuja mesmo fora da água, ele aproxima uma folha perto da boca dela. Nhac! A piranha dá uma dentada, nós damos um pulo para trás, os locais se divertem conosco e nós com os peixes.

Voltamos ao barco com duas piranhas para caldo – iguaria deliciosa - e esperamos anoitecer para a caça aos jacarés. Percebo na água um movimento diferente, um cardume de botos ao redor do La Jangada vem fazer nossa alegria. Eu poderia ficar a tarde toda olhando para eles.

 

Meus olhos de cidade não veem um palmo para fora da voadeira. Cesar vai entrando com a lancha nos canais enquanto Rafael, na proa com uma super lanterna, busca pontinhos brilhantes, olhinhos de animais noturnos. Avista dois na árvore, dá o comando para chegar mais perto, estica os braços em um galho e delicadamente traz entre as mãos um pequeno bacurau. É um pássaro parecido com a coruja, mas mais acinzentado e com olhar assustado de chinchila - foi o que me ocorreu tentando aproximá-lo de algo que já conheço para classificá-lo, esse bobo exercício da mente que se confunde com o diferente. O bacurauzinho esperto se solta das mãos dele e volta para as árvores, é bonitinho. Vamos atrás de jacarés. 

A luz da lanterna reflete pontos brilhantes nas margens e Cesar embica a lancha na mata. Rafael se deita na proa com meio corpo para fora e grita “pode puxar!”. O barco dá ré e escuto “Trouxe ele!”. Ele é um jacaré açu de vinte centímetros, entre nós. Com os dedos ao redor de seu pescoço e outra mão segurando a cauda, traz o bicho para vermos de perto. É gaiato em sua cara de desenho animado, os olhões tem membranas que se fecham para protegê-los quando entra na água e por isso pode viver dentro e fora dela. “Quer encostar nele?’, pergunta. “Estou confortável nessa distância. Acho que ele deve pensar o mesmo de mim.”. Os dedos ao redor do pescoço não apertam, são o cuidado que evita que o jacarezinho vire a cabeça e abra a boca para mordê-lo.

Jacaré de volta ao rio, depois de piranhas, botos e bacuraus vamos dormir cedo para acordar às 5. 

18.8.26

A Turista Aprendiz – Diário de Bordo no Rio Negro, dia 1

 Prólogo

Cismo com coisas na vida. Um dia li sobre uma cidade abandonada na Amazônia criada no auge do ciclo da borracha, final do século 19, que fora povoada por trabalhadores que extraíam das seringueiras a riqueza da região. Disso sobraram ruínas que a floresta está cobrindo com árvores se entrelaçando no que foram casas, mercados e igrejas. Airão Velho. Cismei de ir até lá. 

Em 1927 Mario de Andrade fez uma viagem de navio “pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia e por Marajó até dizer chega”. Registrou seus dias no livro O Turista Aprendiz. A edição que li traz a frase de Fernando Pessoa - “As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos”.

 

Chegar em Airão Velho só é possível de barco, e foi no La Jangada que embarquei por quatro dias para uma expedição pelo Rio Negro. Descobri que a cidade não foi abandonada pelo declínio da borracha como eu pensava, mas por uma praga rogada por um padre e um ataque de formigas. 

 

DIA 1

Embarcamos em Manaus. Um mexicano, um coreano, uma suíça, cinco ingleses, três franceses, sete brasileiros e a tripulação.

Diferente do Tapajós e do São Francisco, minhas experiências fluviais prévias, o Rio Negro tem cor – ó! - de café. A razão são os sedimentos das árvores. 

Logo que chegamos a bordo fomos reunidos no bar biblioteca com suco de acerola para apresentação da tripulação, 17 pessoas dedicadas à navegação, manutenção, cozinha, limpeza, por dirigir as voadeiras que nos levarão aos passeios pelos igapós onde o La Jangada não passa e os guias, que nos orientarão em trilhas, historias e visitas na mata e comunidades ribeirinhas. Rafael, chefe da expedição, dá as explicações em inglês, língua comum que todos entendem, por mais estranheza que me cause estar na Amazônia brasileira falando qualquer língua que não seja a nossa, e “nossa” seriam tantas por lá.

O quarto é impressionantemente espaçoso, muito confortável, com uma porta de vidro para a varanda do tamanho da parede permitindo uma vista a qual não me acostumei e espero nunca me acostumar, gosto do encanto das viagens. O banheiro tem uma garrafa de água mineral para escovarmos os dentes, tomaremos banho com a água do rio mas não é recomendável ingeri-la. Aprendi da pior forma. Há filtros pelo barco para mantermos nossa hidratação, suo em partes do corpo que nem no Carnaval.

Depois de comer um delicioso doce de cupuaçu com castanhas e sorvete de chocolate amargo de sobremesa, deito na cama olhando lá fora. Passava o rio. Ou passávamos nós por ele. “Estou aqui mesmo?” Eu estava deitada em um quarto flutuante olhando o Rio Negro e sabe uma parte excelente disso? Saber exatamente como tinha vindo parar ali. A sensação de inacreditável se repetiria todos os dias. 

Nos reunimos no andar superior do La Jangada para observar a floresta e tomar caipirinhas enquanto navegamos até Ariaú. Os estrangeiros me fazem perguntas sobre o lugar que não sei responder, também nunca estive aqui e tento, constrangida, explicar por quê. “Estou aprendendo de novo, me ensinaram errado as histórias na escola. Não aprendi sobre o Brasil.” O mexicano vem em meu socorro, solidário naquela cultura de valorizar americano e europeu. Economista professor universitário em Washington, usou conceitos que atenuaram um pouco a expressão de interrogação dos outros. “I know”, penso, “é estranho mesmo, mas não aconteceu por acaso."

Rafael avisa que sairemos para nossa primeira expedição. Recebemos nossos coletes salva vidas em verde e preto camuflado e me sinto uma verdadeira expedicionária.


Nos dividimos nas voadeiras, lanchinhas rápidas que cortam os rios, para observar árvores e animais. Na época de cheia do rio, como a que estamos, o avistamento da fauna se torna mais difícil porque os bichos ficam dentro da mata densa, com tudo alagado não tem necessidade de vir até a margem do rio Negro. Isso não nos impede de ver, pelo canal do Ariaú, macacos de cheiro, macacos prego, bugios. O calor é tanto que não sei se vejo certo a quantidade deles ou deliro, mais um pouco veria um boto rosa sobre as águas cantando forró.

Entre os canais avisto lá na frente a cúpula de uma gigantesca árvore que se destaca, lindíssima. A sumaúma é a árvore sagrada dos povos locais, uma das maiores espécies do mundo e a quem muitos pedem permissão antes de entrar na floresta para caçar ou qualquer outra coisa. Acreditam que nela vivam espíritos. Por via das dúvidas, faço a mesma coisa ao chegarmos perto: ‘com licença, Sumaúma’.

Rafael avista macacos de cheiro e pede que Cesar, condutor do barco, nos leve mais perto. “Não tão perto”, penso, traumatizada que sou com macacos balineses. Mas o barco para no meio das árvores onde o bando pula nos galhos e um deles  vem até nós, eu não sabia se pensando “quem são vocês e quem convidou” ou “turistas otários, vamos pegar esses celulares”. Por experiência, ajo como nas ruas do Rio de Janeiro: escondo itens de valor e ativo meu modo “sempre alerta”, que não adiantaria muito visto que a única opção de fuga seria me jogar no rio. Espantosamente nada de mal acontece, passam de galho em galho ao nosso redor e sobre nossas cabeças e não fazem a cara assustadora dos priminhos indonésios, se eu não estivesse preparada para gritar diante do bote de algum diria até que foram bem simpáticos. “São uma sociedade matriarcal”, explica o guia, “não tem macho alfa, são guiados pelas fêmeas”. A natureza é divina em seus ensinamentos. 

 

À noite nos reunimos para uma aula teórica. A Amazônia ocupa 9 países e a maior área está em território brasileiro, 7 milhões de quilômetros formam a bacia amazônica e em períodos de alta o ponto mais largo do rio chega a 30 quilômetros. Aprendo que em 2010 a pesquisadora Elizabeth Pimentel descobriu o rio Hamza, que corre o mesmo percurso do Amazonas, 6 mil quilômetros, mas subterrâneo, a mais de 2 mil metros debaixo da terra! Eu, que já era fascinada pelos rios voadores, ganho mais essa descoberta. 

 

Com o céu limpíssimo, sem poluição nem luz elétrica, lotado de estrelas, a floresta invertida me encanta. O rio Negro vira um espelho d´água cujo reflexo da vegetação aparece de cabeça para baixo. Para quem sofre de vertigem e cristais do ouvido fora do lugar fica menos poético, mas até assim deslumbra. 

Na infância eu também dormia no barco.