Prólogo
Cismo com coisas na vida. Um dia
li sobre uma cidade abandonada na Amazônia criada no auge do ciclo da borracha,
final do século 19, que fora povoada por trabalhadores que extraíam das
seringueiras a riqueza da região. Disso sobraram ruínas que a floresta está
cobrindo com árvores se entrelaçando no que foram casas, mercados e igrejas. Airão
Velho. Cismei de ir até lá.
Em 1927 Mario de Andrade fez uma
viagem de navio “pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia e por
Marajó até dizer chega”. Registrou seus dias no livro O Turista Aprendiz. A edição
que li traz a frase de Fernando Pessoa - “As viagens são os viajantes. O que
vemos não é o que vemos, senão o que somos”.
Chegar em Airão Velho só é
possível de barco, e foi no La Jangada que embarquei por quatro dias para uma
expedição pelo Rio Negro. Descobri que a cidade não foi abandonada pelo declínio
da borracha como eu pensava, mas por uma praga rogada por um padre e um ataque
de formigas.
DIA 1
Embarcamos em Manaus. Um
mexicano, um coreano, uma suíça, cinco ingleses, três franceses, sete brasileiros e a
tripulação.
Diferente do Tapajós e do São
Francisco, minhas experiências fluviais prévias, o Rio Negro tem cor – ó! - de
café. A razão são os sedimentos das árvores.
Logo que chegamos a bordo fomos reunidos
no bar biblioteca com suco de acerola para apresentação da tripulação, 17
pessoas dedicadas à navegação, manutenção, cozinha, limpeza, por dirigir as
voadeiras que nos levarão aos passeios pelos igapós onde o La Jangada não passa
e os guias, que nos orientarão em trilhas, historias e visitas na mata e comunidades
ribeirinhas. Rafael, chefe
da expedição, dá as explicações em inglês, língua comum que todos entendem, por
mais estranheza que me cause estar na Amazônia brasileira falando qualquer
língua que não seja a nossa, e “nossa” seriam tantas por lá.
O quarto é impressionantemente espaçoso, muito confortável, com uma porta de vidro para a varanda do tamanho da parede permitindo uma vista a qual não me acostumei e espero nunca me acostumar, gosto do encanto das viagens. O banheiro tem uma garrafa de água mineral para escovarmos os dentes, tomaremos banho com a água do rio mas não é recomendável ingeri-la. Aprendi da pior forma. Há filtros pelo barco para mantermos nossa hidratação, suo em partes do corpo que nem no Carnaval.
Depois de comer um delicioso doce
de cupuaçu com castanhas e sorvete de chocolate amargo de sobremesa, deito na
cama olhando lá fora. Passava o rio. Ou passávamos nós por ele. “Estou aqui
mesmo?” Eu estava deitada em um quarto flutuante olhando o Rio Negro e sabe uma
parte excelente disso? Saber exatamente como tinha vindo parar ali. A sensação
de inacreditável se repetiria todos os dias.
Nos reunimos no andar superior do La Jangada para observar a floresta e tomar caipirinhas enquanto navegamos até Ariaú. Os estrangeiros me fazem perguntas sobre o lugar que não sei responder, também nunca estive aqui e tento, constrangida, explicar por quê. “Estou aprendendo de novo, me ensinaram errado as histórias na escola. Não aprendi sobre o Brasil.” O mexicano vem em meu socorro, solidário naquela cultura de valorizar americano e europeu. Economista professor universitário em Washington, usou conceitos que atenuaram um pouco a expressão de interrogação dos outros. “I know”, penso, “é estranho mesmo, mas não aconteceu por acaso."
Rafael avisa que sairemos para
nossa primeira expedição. Recebemos nossos coletes salva vidas em verde e preto
camuflado e me sinto uma verdadeira expedicionária.
Nos dividimos nas voadeiras,
lanchinhas rápidas que cortam os rios, para observar árvores e animais. Na
época de cheia do rio, como a que estamos, o avistamento da fauna se torna mais
difícil porque os bichos ficam dentro da mata densa, com tudo alagado não tem
necessidade de vir até a margem do rio Negro. Isso não nos impede de ver, pelo
canal do Ariaú, macacos de cheiro, macacos prego, bugios. O calor é tanto que não
sei se vejo certo a quantidade deles ou deliro, mais um pouco veria um boto
rosa sobre as águas cantando forró.
Entre os canais avisto lá na
frente a cúpula de uma gigantesca árvore que se destaca, lindíssima. A sumaúma
é a árvore sagrada dos povos locais, uma das maiores espécies do mundo e a quem
muitos pedem permissão antes de entrar na floresta para caçar ou qualquer outra
coisa. Acreditam que nela vivam espíritos. Por via das dúvidas, faço a mesma
coisa ao chegarmos perto: ‘com licença, Sumaúma’.
Rafael avista macacos de cheiro e pede que Cesar, condutor do barco, nos leve mais perto. “Não tão perto”, penso, traumatizada que sou com macacos balineses. Mas o barco para no meio das árvores onde o bando pula nos galhos e um deles vem até nós, eu não sabia se pensando “quem são vocês e quem convidou” ou “turistas otários, vamos pegar esses celulares”. Por experiência, ajo como nas ruas do Rio de Janeiro: escondo itens de valor e ativo meu modo “sempre alerta”, que não adiantaria muito visto que a única opção de fuga seria me jogar no rio. Espantosamente nada de mal acontece, passam de galho em galho ao nosso redor e sobre nossas cabeças e não fazem a cara assustadora dos priminhos indonésios, se eu não estivesse preparada para gritar diante do bote de algum diria até que foram bem simpáticos. “São uma sociedade matriarcal”, explica o guia, “não tem macho alfa, são guiados pelas fêmeas”. A natureza é divina em seus ensinamentos.
À noite nos reunimos para uma
aula teórica. A Amazônia ocupa 9 países e a maior área está em território
brasileiro, 7 milhões de quilômetros formam a bacia amazônica e em períodos de
alta o ponto mais largo do rio chega a 30 quilômetros. Aprendo que em 2010 a pesquisadora
Elizabeth Pimentel descobriu o rio Hamza, que corre o mesmo percurso do
Amazonas, 6 mil quilômetros, mas subterrâneo, a mais de 2 mil metros debaixo da
terra! Eu, que já era fascinada pelos rios voadores, ganho mais essa descoberta.
Com o céu limpíssimo, sem poluição nem luz elétrica, lotado de estrelas, a floresta invertida me encanta. O rio Negro vira um espelho d´água cujo reflexo da vegetação aparece de cabeça para baixo. Para quem sofre de vertigem e cristais do ouvido fora do lugar fica menos poético, mas até assim deslumbra.
Na infância eu também dormia no barco.