30.8.26

Se elas dançam, eu danço

A amiga faz aniversário e um pedido: quer sair para dançarmos juntas!

Saíamos para dançar mais de uma vez por semana, as mesmas músicas nos mesmos lugares com as mesmas pessoas até que surgia um lugar novo e nos mudávamos com as mesmas pessoas para dançar no então novo mesmo lugar as mesmas novas músicas e assim vivemos toda uma juventude. Até que um dia paramos. Não me lembro quando ou como, não acordamos em um dia seguinte como se tivéssemos contraído chicungunya de tão cansadas e nunca mais voltamos, aconteceu aos poucos a sensação de dengue pós-dançar e as novas sextas-feiras,  sábados... algumas quintas e domingos... agora sem dançar.

Ela queria comemorar dançando com as amigas e pedido de amiga recém-separada não se nega. Chegaria para o fim de semana e aceitava qualquer lugar “animado”: “não sei mais onde é legal de ir no Rio, deixo com vocês”. Eu acho a minha casa super legal, tem silêncio, comida fresca, sofá ótimo então passei a missão adiante. Uma queria samba em um lugar que a outra achou não ser asfaltado o suficiente, essa propôs uma festa para “jovens idosos”. Foi ignorada. Outra sugeriu um lugar que parecia bom mas não tinha cadeira. Algumas precisavam voltar cedo, outras só conseguiriam chegar mais tarde, opções com mais de dez quilômetros de trajeto foram negadas e quando o plano já parecia quase inviável a Prefeitura emitiu alerta de vendaval e tempestade e assim entendi porque íamos sempre nos mesmos lugares.

Um mês depois da falida “Missão Dançar”, outra aniversariante resolveu a comemoração de forma prática, reservou um espaço perto das casas, contratou DJ, comida, bebida, a nós só coube nos vestirmos em traje esporte fino e ir.     

Com a graça divina, em um acordo coletivo não formalizado, as festas passaram a começar às sete da noite, como em um ciclo da vida retornamos aos horários de matinês e isso é ótimo. Um logo se ilude - “acabando à meia noite dá para irmos ao Salgueiro depois!”, no que concordo empolgadamente mentirosa. Para estar de pé sorrindo e cantando em uma disputa de samba na quadra do Salgueiro de madrugada eu precisaria de um preparo prévio que envolve até repouso, mas concordei - “Vamos vendo como as coisas evoluem”.

As coisas envolviam, por exemplo, meu corpo, que deu para rejeitar álcool. Tento negociar explicando que dançar bebendo água é estranho, tal qual Zeca Pagodinho amigo eu nunca fiz bebendo leite, mas algo em mim olha um bar e grita ‘afasta de mim esse cálice’. É revelar isso e alguém sempre puxa um saquinho, “cogumelinho?”. É quando cogito ir à festa para jovens idosos. A ausência de elementos animadores e socializantes não exige mais só de mim, também exige mais dos DJs – aceitávamos dançar muita coisa ruim algumas doses acima, não é?

Ainda dançamos em roda, uma prática que acontece em diversos rituais de povos distintos e é comum em festas e boites. Nosso grupo se diverte relembrando passinhos antigos de uma era pré-TikTokeana e chega uma integrante mais exploratória: “por que estão nesse canto, vamos pra láááá, não reconheço vocês, somos os reis da pistaaaa!”. ‘Lá’ é um amontoado de pessoas em frente ao DJ-palco, versus nosso canto onde bate um ventinho e nos ouvimos. Eu não ouço mais em shows e bares, passei a adotar um leve sorriso e olhos de interesse em direção a quem vem conversar, mas a verdade é que escuto dez por cento do que é dito, uma deficiência que as audiometrias não explicam, mas confissões de semelhantes confirmam como epidemia e assim não escolhemos mais restaurantes pelo menu e sim pela acústica. “Vamos no Braseiro? Claro, te vejo lá”. Não minto, verei mesmo, e apenas isso já que naquele barulho a conversa só é possível na calçada e esse é o motivo de ter sempre um amontoado de quarenta mais do lado de fora.

 O grupo Funk das Antigas assume a festa e ainda somos os mesmos e fazemos como nossos pais: “esses funks é que eram bons!”. Mc Marcinho, DJ Marlboro, Bob Rum e na festa no Jockey com Fitzgerald e Penicillin os convidados cantam do fundo do coração e mãozinhas para o alto “é que eu moro na Estrada da Posseeee”. Contrariando a outra epidemia - de falta de memória - todos sabem ainda a letra do endereço dos bailes e vão falar pra você.   

O salto alto vence a batalha contra meus pés e me vejo impossibilitada de continuar a dançar, alguém sugere pedir Havaianas pelo Rappi, mas neste exato momento me aproximo da razão (oh yes) e aceito que a festa pode acabar. Escrevo essas memórias com as pernas para cima, fotos sem qualquer foco no celular e certezas. Uma é que passa rápido (a vida, não a dor nos pés). Outra é que os funks eram fofos.

Mostra teu amor por essa rapaziada, DJ.  

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