A filha da família inglesa não quer matar piranhas, compartilha esse desconforto enquanto comemos um delicioso sorvete de maracujá feito a bordo. Além da possível matança, passamos o almoço conversando sobre a família real e religiões, conto sobre a umbanda, concordamos que o rompimento de Harry com a monarquia é repleto de contradições. Tranquilizamos a menina de que devolveremos as piranhas ao rio com vida.
O passeio da manhã é trilha na floresta e aprendemos como fazer corda de planta, amarrar ao redor dos pés para subir nas árvores, pegar frutas e escapar de animais, a fazer fogo e imitar sons de pássaros usando o facão e uma folha. “Aprendemos” não é o verbo mais correto, seria “Josué ensina”. Nascido e criado na Amazônia, descendente dos Tucunas, deu aula de sobrevivência na selva para militares por vários anos. Conto que também sou especialista em sobrevivência na selva - corporativa, a minha - e penso em um intercâmbio de vivências: eu viveria zero dias na dele, quantos ele aguentaria na minha? Por lá as coisas pegam fogo bastante rápido.
Uma das grandes maravilhas da vida: cochilar na sombra do deque do barco. Sou acordada por um trovão e ao olhar na direção das 10 horas vejo a chuva na margem direita - “um caju”, diria meu pai no mar. Em questão de minutos uma ventania que dispararia alertas da prefeitura carioca chega a nós e penso que os planos de sair para pescar piranhas está indo por água abaixo: praga da menina inglesa, aposto. Josué chega na proa, enxerga qualquer coisa que não leio no horizonte e decreta que em vinte minutos nossa embarcação atravessará a zona de chuva, teremos pescaria. Fico ali recebendo o vento que embaralha meus cabelos e um banho de chuva no rio tão abençoado que às gotas se misturam lágrimas de alegria e emoção. Só quem ama vento capta a força que ele traz.
Na margem esquerda, céu claro e
sol.
Onde tem boto não tem piranha, em
correnteza não tem piranha, assim vamos pelo canal procurando o lugar certo
para lançar nossas iscas de carne. Somos ensinados a sacudir a vara na água
para chamar atenção dos peixes e então mergulhar as linhas, é através do
movimento e da percepção de sangue que elas vêm atacar. A proposta é que eu
puxe a vara logo que senti-las pegando a carne, mas são tão rápidas - ou eu tão
má pescadora - que a atividade se transforma em self service para piranhas, um
banquete. Camille grita entusiasmada a cada beliscada na isca e depois de
algumas tentativas consegue fisgar um peixe. Rafael segura o bicho por trás
para retirar o anzol preso na boca, todos se espantam com os dentinhos
afiadíssimos da feiosa que tem mesmo cara pouquíssimo amigável, e, como em um
filme B de terror, em slow motion vejo a entusiasmada suíça levar seus dedinhos
suíços em direção à boca da piranha para, como as crianças, vê-los melhor
tocando. A trilha sonora de Tubarão surge na minha cabeça. Mais rápido do que o
peixe, Rafael intercepta a mão de Camille evitando o arrancamento de dedos que
presenciaríamos. Para demonstração prática do poder destruidor da dita cuja mesmo
fora da água, ele aproxima uma folha perto da boca dela. Nhac! A piranha dá uma
dentada, nós damos um pulo para trás, os locais se divertem conosco e nós com
os peixes.
Voltamos ao barco com duas piranhas para caldo – iguaria deliciosa - e esperamos anoitecer para a caça aos jacarés. Percebo na água um movimento diferente, um cardume de botos ao redor do La Jangada vem fazer nossa alegria. Eu poderia ficar a tarde toda olhando para eles.
Meus olhos de cidade não veem um
palmo para fora da voadeira. Cesar vai entrando com a lancha nos canais
enquanto Rafael, na proa com uma super lanterna, busca pontinhos brilhantes,
olhinhos de animais noturnos. Avista dois na árvore, dá o comando para chegar
mais perto, estica os braços em um galho e delicadamente traz entre as mãos um
pequeno bacurau. É um pássaro parecido com a coruja, mas mais acinzentado e com
olhar assustado de chinchila - foi o que me ocorreu tentando aproximá-lo de
algo que já conheço para classificá-lo, esse bobo exercício da mente que se
confunde com o diferente. O bacurauzinho esperto se solta das mãos dele e volta
para as árvores, é bonitinho. Vamos atrás de jacarés.
A luz da lanterna reflete pontos brilhantes
nas margens e Cesar embica a lancha na mata. Rafael se deita na proa com meio
corpo para fora e grita “pode puxar!”. O barco dá ré e escuto “Trouxe ele!”.
Ele é um jacaré açu de vinte centímetros, entre nós. Com os dedos ao redor de
seu pescoço e outra mão segurando a cauda, traz o bicho para vermos de perto. É
gaiato em sua cara de desenho animado, os olhões tem membranas que se fecham
para protegê-los quando entra na água e por isso pode viver dentro e fora dela.
“Quer encostar nele?’, pergunta. “Estou confortável nessa distância. Acho que
ele deve pensar o mesmo de mim.”. Os dedos ao redor do pescoço não apertam, são
o cuidado que evita que o jacarezinho vire a cabeça e abra a boca para
mordê-lo.
Jacaré de volta ao rio, depois de
piranhas, botos e bacuraus vamos dormir cedo para acordar às 5.
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