23.8.26

A Turista Aprendiz – Diário de Bordo no Rio Negro, dia 4

A caminhada do dia nos leva a mais uma Sumaúma, “a rainha da floresta”. Josué conta que seriam necessárias mais de vinte pessoas de mãos dadas para dar a volta nela, e mostra que suas raízes não são profundas: o solo da Amazonia tem no máximo vinte centímetros. As raízes de árvores gigantescas espalham-se para os lados podendo chegar até a cem metros, essa rede de raízes e os fungos que existem debaixo da terra alimentam outras árvores e fazem o ecossistema que torna a floresta como ela é. Acredita-se que exista no mundo uma rede de fungos conectando tudo.

Chegamos à comunidade quilombola de Cachoeira, que tem esse nome por estar perto de mais uma queda d’água imperceptível pelo alto nível do rio. Saber que navegamos por cima de cachoeiras é muito curioso. Desembarcamos para conhecer o povoado onde vivem 35 pessoas e uma das 23 escolas que a Katerre mantem na região, em uma parceria público-privada.

A estrutura de madeira, suspensa como palafita igual às casas ao redor, tem duas salas de aula, um depósito, banheiro e cozinha muito novos e arrumados. Fica ao lado da casa da professora. Em outras comunidades eles não tem casa. Ou dormem na escola, improvisando cama, ou são abrigados pelos moradores.

Quem nos recebe é Dejane, a merendeira, que explica que estão em período de férias. A cozinha da escola é tão quente mesmo sem atividade que preciso sair e tomar um ar, penso ser impossível alguém estudar naquela temperatura e me dizem que por essa razão só tem aulas de manhã. Josué nos leva para uma das salas de aula para ouvi-lo contar como funciona o sistema. Ali as crianças só estudam até o 9º ano e todas tem aula juntas, independentemente da idade ou nível escolar. Cabe à professora dar conta dessa diversidade. No canto da leitura, Macunaíma, Vidas Secas, Flicts e um livro que me chama a atenção: O Outro Lado do Paraíso. Pergunto que percentual de jovens segue estudando depois do 9º ano, quando precisam ir para cidades maiores completar os estudos porque não existem professores para as séries mais avançadas. Josué não leva um segundo para responder: “Muito pequeno. Aí é aquilo, as meninas conhecem um menino, engravidam, por ali ficam. Eu segui.”. Conta que implementar a escola digital ajudaria a continuidade da educação pela possibilidade das aulas online, o projeto já acontece de maneira embrionária em outros espaços apesar das falhas de tecnologia.

Saímos para ver a casa de manioca, onde preparam a planta para consumo extraindo o cianeto. Ao saber que é preciso descascar, ralar, deixar de molho, passar na prensa para tirar o líquido tóxico e levar ao fogo antes de fazer farinha, tapioca, tucupi e ninguém morrer do veneno, o coreano pergunta em tom baixo – por que não simplesmente plantam batatas?

Como futebol é linguagem universal, os gringos puxam uma espécie de altinha com os meninos enquanto vejo os artesanatos.

De volta ao barco ancorado na beira da comunidade, sento na proa para escrever essas linhas, mas só até ver uma das mulheres arrastar para dentro do rio um estrado quadrado de madeira, levando um balde na mão e duas crianças na outra. Ela senta no estrado e passo a assistir a hora do banho dos meninos no anoitecer. E ela diz a exata mesma coisa de uma mãe na Gávea: ‘esfrega direito essa cabeça!’.

No jantar, além da costela de tambaqui reforçar a certeza de que voltaremos dez quilos acima dos nossos pesos, aprendemos que o metrô coreano tem vagões exclusivos para mulheres com assentos aquecidos reservados para as que sofrem com cólicas menstruais. Planejamos ir um dia à Coreia, onde nossos aviões aterrizarão na ilha perto de Seul e nossa bagagem chegará através de túneis subterrâneos.  Beijo meu bolo de tapioca sem cianeto antes de comê-lo. 

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