A equipe de cozinha tem o cuidado de fazer para mim as mesmas comidas dos outros passageiros apenas mudando a farinha de trigo. Uma pessoa celíaca dá outro valor a um pão delicioso de tapioca no café da manhã com geleia caseira e suco de taperebá.
Amanhecemos ancorados em Airão
Velho. Acordamos às 5h, hábito que reservo às férias e ao Carnaval, para
conhecer as ruínas. Para compensar o esforço do sono, o nascer do sol traz
botos pulando tomando o seu café da manhã.
No fim do século dezenove aquela região
viveu um período de grande riqueza com o ciclo da borracha. Manaus, por
exemplo, foi a primeira cidade do Brasil a ter luz elétrica. A riqueza, claro, foi
mal distribuída e deu origem a homens com poder como Francisco Bezerra, um
português que tomou para si as terras onde estávamos e passou a atrair
trabalhadores de diversas partes do país para a extração da seiva da
seringueira. Contam que os indígenas produziam borracha para fazer brinquedos e
utensílios e mostraram as árvores para os estrangeiros. Além de explorar o
material e o conhecimento do povo local, Bezerra isolou a cidade que criou e vendia
produtos a preços impagáveis, fazendo com que os trabalhadores se tornassem seus
devedores e não conseguissem se libertar. Acredita-se que duas mil pessoas
tenham vivido em Airão Velho, muitas em situação de escravidão.
Entramos no que restou pelo antigo
mercado. Os destroços da cidade ainda permitem ver parte de pisos, azulejos,
telhas e paredes que a floresta está encobrindo, formando um desenho de raízes
e casas e troncos e janelas e galhos se emaranhando pelas ruínas. Pergunto se o
abandono da cidade se deu pelo surgimento da borracha sintética ou concorrência
de países como a Malásia, que passou a plantar seringueiras. Josué faz uma
pausa dramática. Como sou capaz de uma imaginação tão rasa? Ele conta que um
padre missionário foi proibido por Francisco Bezerra de entrar em Airão para catequisar
e rogou uma praga de que algo terrível acontecesse! Pouco depois, formigas
passaram a surgir nas casas, no que a população viu como o início de uma invasão
fatal que dominaria todos os espaços, e fugiu em debandada. Pesquiso, mas não acho
registros de que Bezerra tenha morrido comido por formigas gigantes.
Saímos do Rio Negro para adentrar
a região do Jaú e passamos no posto de controle do Instituto Chico Mendes para fazer
nosso cadastro de visitante. Encontramos 3 homens, dos dez, responsáveis pela fiscalização
do parque. Cabe a esses dez reportar algo de errado para o Ibama, que é o braço
armado de proteção, defendendo a área de aproximadamente 2,2 milhões de
hectares, Patrimônio Mundial Natural pela UNESCO. Dez homens.
Ao passar por um barco a caminho
da cachoeira sou avisada que aqueles são traficantes de tartarugas locais, conhecidos
porque todos moram na mesma pequena cidade ali perto. Pergunto sobre a extensão
de floresta queimada onde passamos e restaram apenas árvores incendiadas. “Incêndio
criminoso”, é uma técnica de distração dos traficantes: os fiscais vão até o
fogo e eles passam tranquilamente por outro lado com a carga.
Vemos araras uma dupla voando
sobre o rio e tento grudar essa imagem nos meus olhos para não esquecer.
Concordo com os gringos que não devíamos
sair do Brasil antes de conhecer a Amazônia. Ou o Pantanal. Ou os Lençóis. Talvez
mais lugares, ao menos um dos que o faz gigante pela própria natureza.
Vamos mergulhar em uma cachoeira
onde só vejo rio e pedras, pergunto onde está a queda d’água. “Estamos nela”,
Josué explica, “veríamos um rio lá embaixo, mas a água está oito metros acima pela
época de cheia”. Tanta água sobe que o que era rio lá embaixo virou rio igual
aqui em cima. Mergulhamos depois de desencalhar as voadeiras das pedras e os
guias garantem que não esbarraremos com jacarés nem seremos devorados por
piranhas. É tanto calor que eu talvez negociasse com os animais se preciso.
No jantar debatemos qual foi o primeiro
lugar que cada um visitou onde se sentiu minúsculo.
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