29.10.18

Verás que uma Bruna não foge à luta


Quando o Senna morreu eu estava no calçadão em Ipanema, a pista da praia já fechava naquela época e eu tinha terminado na véspera meu primeiro namoro. Não estava nem um pouco triste pelo rompimento, mas fingi uma mínima dor porque esperavam isso de mim e aproveitei para ficar cabisbaixa pelos dois motivos comprando um sorvete.

Lembro com detalhes também do dia do 7 X 1. Assim como no ataque às torres gêmeas, por um instante achei que a cena que se repetia era replay. Ninguém podia ir embora quando acabou o jogo porque chovia um oceano, minha bicicleta elétrica entraria em pane, então ficamos sentados na sala da casa da minha irmã achando que estávamos vivendo uma daquelas cenas que depois se resolve no roteiro dizendo que foi sonho, não aconteceu.

Eu estava chegando na produtora onde trabalhava quando o avião acertou a segunda torre e não me surpreendo por ter saído de casa no meio daquela transmissão à qual assistíamos em choque - jamais poderíamos pensar que ainda havia mais alguma coisa para acontecer. Um editor matou a charada tão rápido que até hoje desconfio do envolvimento dele (“deve ter sido aquele milionário barbudo árabe, Bin Laden, conhece?”). São três momentos dos quais não esquecerei.

Ontem eu estava sozinha em casa. Tínhamos combinado de acompanhar a apuração juntos como no primeiro turno, mas cada um por sua razão acabou não confirmando. Eu liguei a TV e entrei no Twitter quando já havia mais de 80% das urnas apuradas. Andava pela casa em zigue zague com o celular na mão ouvindo a transmissão da Piauí e olhando para a televisão sem som. Ao mesmo tempo apitou na mensagem do nosso grupo de apoio, na tarja da TV e na voz da comentarista o resultado. Pessoas começaram a soltar fogos nas ruas e buzinar. Eu fiquei catatônica na janela e só consegui me deixar chorar. “E agora?”. Dei um grito que poderia ter rachado o prédio: ele não! A sensação era de que estávamos sitiados e a qualquer momento viriam me pegar. Pelo Whatssapp, familiares e conhecidos em grupos distintos celebravam com menos força do que outros parentes e amigos se apoiavam na derrota, mas pareciam que iam nos soterrar. “Não responde”, nos orientávamos, “silencia o grupo”, e os fogos lá fora aumentavam e a TV mostrava o que parecia um réveillon na Barra. “Não vai dar, precisamos fugir daqui”. Nunca mais vou me esquecer.

O dia amanheceu com uma frase sendo replicada pela timeline: ninguém solta a mão de ninguém. A desilusão foi dando lugar ao sentimento de pertencimento, somos a metade do país. Ainda existiam encolerizados publicando “Pabllo Vittar já fugiu do Brasil?” e  “aproveita e mata uns petistas pelo caminho”, mas nas minhas trincheiras todo esse horror ao que não é espelho começou a ser combatido com mais paz, em uma coletânea de conversas e frases na direção da compreensão e da ideia de que já passamos por outros momentos ruins e superamos trazendo lições que ajudam dessa vez, não se volta ao início. Não fomos derrotados, estamos vivos de pé e acompanhados. Passamos a buscar como aceitar que as pessoas a quem até há pouco tempo admirávamos não enlouqueceram, algum ponto na mensagem de um lado ou do outro atingiu em cheio seus maiores pavores, causando uma reação de defesa porque em nossas emoções podemos ser tão racionais quanto uma criança com medo de monstro embaixo da cama.

Eu não tenho medo do que vai vir porque, mais do que a própria guerra, importa quem está ao meu lado nela. Você me abre seus braços, a gente faz um país.