20.2.17

Imagina



(É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós*)

Quando o bloco acaba você sai andando sozinha. Vai ficando para trás aquele som, cada vez mais baixinho. As milhares de pessoas sorridentes saltitantes, sempre algumas lágrimas por celulares roubados e corações apertados que transbordam na euforia, todos os rostos que misturados não são ninguém, pintura impressionista. São abraços, cansaços, uma desordem para explodir qualquer coisa que se precisa extravasar. E acaba, porque o mundo tem essa lei de que tudo acaba. Para mim nunca acaba na hora. Mesmo que o corpo peça, o estômago ronque, a perna fraqueje, o olho turve e seque, a bebida acabe, a razão impere, dentro de mim, em algum canto, não sei quê quer abraçar os tamborins e fazer o povo inteiro sambar.

Só quem viu que pode contar.

“A gente está cansado”, ele falou, sério. “No ano que vem, se tiver ano que vem, a gente precisa contratar alguém para revezar.” Eu sempre desconfio se haverá ano que vem, mas acho que ele se referia ao desfile do bloco.

Eu já fui bailarina, mágica, cigana, alemã, gato da Alice, elas enfermeiras, eu num avião pra Nova York poucas horas depois de cruzar a José Linhares e querer me perder naquele mar naquele tempo em que íamos até lá. Naquele tempo em que começávamos na Academia da Cachaça e reabastecíamos no Bracarense. Quando mal precisava de corda. Tempo em que a gente ia e voltava. Naquele tempo eu achava que nada tinha volta! Que bom que o tempo passa. Houve um tempo em que choviam rosas do céu. Hoje ganho rosas em mãos, sempre com um sorriso acompanhado de uma vontade Titanic de do alto do caminhão gritar “eu sou o rei desse mundo!”, que no Carnaval todo mundo é rei, olhos pra cima de braços abertos exaltando alguém que vive dentro da gente quase sempre sufocado e na mistura do surdo com o repique ganha habeas corpus pra sair. É tão bom estar aqui.

“Você os chantageia depois? Deve ter muito flagrante aí!” o ambulante brincou, flagrando meu disfarce de invisível vendo o bloco passar pela lente da câmera. “Esse seu celular é pequenininho, mas deve ter um monte de foto” exclamou, esquecendo que para alguns ainda existem câmeras que são só câmeras.

Tem quem parece não envelhecer, quem prefere as gringas, quem tem um monte de “amiga”, quem esse ano não estava lá, quem ultimamente eu só vejo pela TV, quem eu conheço há anos e ainda não sei quem é, quem é o dono dessa festa, quem vem de longe, quem sorri em me ver, quem mal externamente sorri, quem deixou as crianças em casa e aproveitou a folga pra fugir de si, quem quer voltar, quem tem mania de aprontar, quem já há uns anos pensa “esse é o último, ano que vem não dá”, quem quando acaba suspira “um ano até o próximo, como eu vou aguentar até lá?”. Tem quem ache que do ultimo pra cá passou voando! Passou não, aconteceu coisa à beça, muito mudou, o que continua igual é que quando acaba o bloco, baixa a corda, Faísca respira, os meninos se abraçam, os apreciadores de um novo estranho Carnaval correm para outras aglomerações, alguns ritmistas ficam e ali a gente é, sempre... Imagina? Muito feliz.  


*Trem Bala, Ana Vilela

19.2.13

Quarta-feira (ou Último Gole)

Quem me vê sempre distante garante que eu não sei sambar.
Eu também tô só vendo, Chico. Sabendo, sentindo, escutando e não posso deixar de falar. Já não quero mais pisar nessas avenidas.

Tinha gente quase em cima do carro e eu, que já fui às touradas em Madri (pa-ra-ra-tim-bum), no Clube Condomínio – que falha - nunca consegui entrar. Mas no dia, o tal primeiro do resto de nossas vidas de folia, no Planetário, eu estava lá. E na foto que o repórter fez de cima do caminhão, razão da nossa preocupação em arrumar uma explicação para dar ao namorado dela, congelado em Boston: por aqui estávamos pulando Carnaval na rua. Depois da praia, no Monobloco. M-o-n-o-b-l-o-c-o, que beleza uh Mono-blocô.

No canto / na dança / no pecado ou na fé / vou seguir no arrasta-pé / deixa o povo aplaudir

Palmas pra ala dos super-heróis, dos alemães complexados e nunca pacificados, da Alice no País das Maravilhas, dos piratas, malandros e alvas-mulatas, palmas pra Arca de Noé no dilúvio do Boitatá! É carnaval, não me diga mais quem eu achei que deveria ser.


Foi ali pela Cinelândia, um pouco depois de fazermos a curva, que o temporal desabou no Bola Preta encharcando de emoção o mais gritado Explode Coração. Você já foi ao Bola, nega? Todos eram, de coração, foliões naquele e nos seguintes Carnavais! Agora já não é normal, o que dá de folião regular profissional atiça em mim um ciúme que sai promovendo desfile de pronomes possessivos metidos a abre-alas de memórias. Ei, você aí, levanta Lamartine, Lupicinio, eu sou tão menina, meu tempo passou? Minha turma do funil - alô povão, agora é sério - dá a chupeta que elas decoraram a letra e estão a cantar “Mamãe eu quero... ser”! Nos anos que vem tá combinado, ensinaremos as filhas das Chiquitas a dançar o iê iê iê. Dos cabelos não sei, mas o samba não nega: mulatas!

As minhas pernas, de meia-arrastão, sobre sapatilhas, ainda podem aguentar levar meu corpo pra junto desse samba por muitos anos até o sol raiar, mas meu anel de foliã de rua entrego hoje a quem mereça usar.  Quem cedinho acorda, Maria Bonita, de bom humor pra pular. Quem gosta de concentração, cachaça com mel e perdoa os mais de mil palhaços do salão (não me leve a mal). Quem entende que o arlequim vai chorar e nem é pelo amor da colombina, tem jardineira que nem está tão triste, é só pra aliviar o peito no meio da multidão e a canoa, no resto do ano, não virar. Pra quem não se importa se ele é Maomé ou bossa nova, cai no huly guly e só dá ele. Quem sabe que, se quisesse, madame antes do nome teria agora, mas isso não teria sido sincero, Aurora. Quem compra fantasia no Saara e não na sex shop, que deixa o bloco passar pra ver o gari, vassoura de estandarte, rodopiar, barão da ralé. Quem leva ainda uns domingos para entender que cachaça (vai por mim) não é água não! Quem se encanta com as cantigas que fazem sonhar sem pensar em como será o amanhã.  Amanhã tudo volta ao normal.

Deixa a praça virar um salão que no a-b-c dos Orixás Anastácia puxa um paticumbum prugurundum, ôô, Clementina traz Silas de Oliveira, chama Paulo da Portela para cantar sua alegria em tempo de Carnaval. É “oguntê, marabô, caiala, sobá, oloxum, ynaê, Janaína, Iemanjá”. Oke o quê? Oxossi, essa sopa de letrinha transforma a gente em pastorinha e a Kizomba vira nossa Constituição. Joga um verso pra iaiá, epa hey, Iansã, abre os braços, um sorriso, aceita a dança do moço, é dois pra lá, dois pra cá. Mas chega cedo, olha a hora, em Santa Tereza se sobe ladeira, desce ladeira, vira à direita, aproveita que o vizinho tá dando banho de mangueira em quem passa, o Céu na Terra fica mais perto se for a pé.  

Foi lá em dois mil e seis que eles passaram em bando, trompete em punho, uma banda, cantando o refrão de alguém que em mais um ano vinha de pirraça e eu nem imaginava que faria parte daquela massa. Eles foram zoando na frente, eu fui correndo atrás. Ê, boi ápis! Fura o fundo da garrafa de agua para aliviar o calor, alá lá ô, levanta as mãos em “ó que beleza máscara negra nesse baile de Veneza” e não se esquece de aplaudir o cancioneiro nos versos “é Carnaval, é Rio de Janeiro”. Aprende que perdemos celulares, câmeras, estribeiras, amores e a vergonha, perdemos a razão e do tempo nem temos noção, só paramos para a apuração e é na quinta-feira que ressurge o verdadeiro sanatório geral. De sexta a terça é feito uma reza, um ritual, é a procissão do samba abençoando, tenta não mudar muito a inocência profana do meu Carnaval.

Vou deixar guardadas no fundo do armário as saias de filó já um pouco amassadas e as rosas de plástico jogadas do carro de som, as botas brancas, os pares de sapatilhas douradas, um chapéu da mesma cor, o outro de pirata, um verde-e-rosa, o de malandro e não mais o de vaqueira, que se perdeu por aí igual à cartola de mágico vermelha. Vou guardar as diversas camisas da Mangueira junto com a lembrança feliz e aliviante de ter voltado a tempo para cantar entre as campeãs o samba que eu decorei nas tantas idas à quadra, ano em que conheci o Delegado, a linha do trem e o teto retrátil. Vou guardar para a qualquer momento usar a fantasia de “bailarina do Imaginô”, aposto que com mais gosto um dia me classificou.

Que gente longe viva na lembrança / Que gente triste possa entrar na dança / Que gente grande saiba ser criança.

Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar
Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar
Eu tô deixando essas ruas, são suas, mas não vá se enganar: estarei sempre, para na manhã do sábado antes ou na noite do seguinte me acabar,
me guardando pra quando o carnaval chegar.

27.8.12

Tendo à lua

O dia em que eu recebi uma carta das Casas Bahia oferecendo “transformar meus sonhos em realidade” foi o dia em que meus pais completaram 36 anos de casados. Esse foi também o dia em que pelo mesmo correio chegou a segunda proposta para que eu me tornasse sócia do Country Clube de Belford Roxo, local onde jamais estive e que fica a 42 quilômetros da minha casa. Foi ainda a data em que O Globo publicou que a proporção de pessoas divorciadas no Brasil duplicou em dez anos e achei 3,1% um número bastante positivo se comparado à minha expectativa. E o dia seguinte à divulgação, pelo mesmo jornal, do resultado do último censo onde 40% dos lares aparecem como sendo chefiados por mulheres.

Horas depois de ler a matéria recebi mensagens de duas amigas. A primeira sugeria informar à massa de conhecidos que se acha no direito de opinar a respeito da minha opção de estado civil sobre a realidade brasileira (e nem entraríamos no âmbito ocidental mundial). A segunda pedia um manual de boas maneiras para um primeiro encontro que ela teria dias depois, e por mais que a junção das mensagens leve a crer que pertenço ao animado grupo de mulheres solteiras cheias de encontros já antecipo não ser este o caso. Tenho em meu círculo social moças que se auto-definem como “porteiros” (por analisarem todo e qualquer elemento do sexo oposto que lhes cruze o caminho), mas a minha vida amorosa pode ser comparada à dos esquimós (N.R. - sempre os visualizo quietinhos e a sós em seus iglus).

Enfim, o dia em que meus pais completaram 36 anos de casados foi a véspera do dia em que confessei minha desconfiança em relação ao Neil Armstrong ter pisado na lua. Nem sabia que ele continuava vivo, por isso não me comovi com sua morte, mas aproveitei para dividir suspeitas – não sei se depois daquele episódio televisionado idas à lua se tornaram habituais (não acompanho a rotina dos astronautas), não entendo por que nunca voltaram, por que não transmitiram mais expedições se a audiência foi espetacular ou se disseram por aqui que na lua só tinha crateras quando na verdade lá é um paraíso ao qual só privilegiados tem acesso. De toda forma, concordo com os Paralamas que o céu de Icaro tem mais poesia que o de Galileu então não perco meu sono investigando a lua da Nasa.

No dia em que meus pais completaram 36 anos de casados pensei em retomar o texto sobre os absurdos que ouço, incrédula e calada, por não ser casada, mas fiquei com preguiça. Pensei em listar de forma cômica situações a evitar em um primeiro encontro, como vomitar sobre o pretendente, revelar o nome planejado para os futuros filhos ou provocar um debate sobre renda fixa ou CDB, mas me faltaram boas idéias. Pensei que o Vaticano deveria usar meus pais como garotos-propaganda do sacramento já que a manutenção do casamento anda um pouco em baixa, eles poderiam até explorar a versão de tratar-se de um milagre com potencial alcance a todos, mas achei melhor deixar a religião fora disso. Pensei em um amigo que diz que ter pais casados e felizes por tantos anos é uma sacanagem com os filhos! Pensei sobre o uso da crase. E pensei seriamente nas razões que podem ter levado o Country Clube de Belford Roxo a enviar duas propostas para eu me tornar sócia do lugar.

Definitivamente, só tem gente esquisita nessa Terra. (E, vai saber, na lua). 

22.7.12

Ensaio


Ele estava no escritório quando ela ligou: “Estou indo embora”. 

Cinquenta e três minutos depois ele chegava ao apartamento. Armários organizadíssimos – simetricamente vazios. Não era na mala que ele queria que ela guardasse as roupas que insistia em deixar espalhadas. Nada no chão, só tristeza no ar. Nunca fez tanto sentido dizer que o transito de São Paulo era de matar. De matar reconciliações.

“Se você tivesse chegado eu não teria partido”, ela explicou, por telefone, de Buenos Aires, depois que a mágoa baixou. “Teríamos nos entendido naquele dia, não no seguinte. No seguinte discutiríamos pelos mesmos motivos, eu choraria, você sairia de casa carregando a certeza de que nossa convivência era um erro, os anos se passariam. Prefiro que eles passem sem arrastar discórdia”. Foi a primeira vez, das tantas em que conversaram desde o inicio, em países tão diferentes quanto os dois, que falaram sem a ilusão romântica de que a paixão move montanhas. Ela move a indústria farmacêutica, os consultórios psiquiátricos e o mercado de cinema. Só. Sem ela, ele seguiu, e chegou à teoria que move a espécie humana ocidental. 

Homens são incansáveis predadores, espécie admirada nos vestiários masculinos pelo louvável hábito conhecido como “pegar geral”. Matematicamente, para cada garanhão destes corresponde em igual numero uma mulher. Culturalmente pode-se aceitar a ideia de que parte do total feminino não é tão ativa assim, o que leva à logica de sobrar para a outra parte das mulheres a porção dispensada pelas primeiras. Em uma comparação quantitativa, o universo de moças em atividade tem mais trabalho a fazer para dar conta de seu quinhão do que os auto-proclamados “pegadores”. Estes desdenham das bem sucedidas na tarefa, sem pensar que elas só estão mantendo viva uma cadeia alimentar.

Coube a ele aqui, e a ela lá, voltar a essa roda viva em busca de um par. Ele sabia que aquela dor era uma questão de tempo, sempre teve a certeza de que ela não era a mulher dele. Nada relacionado a pertencer ou não ao grupo das ativas. Na verdade, apesar da lista de motivos que os dois poderiam em segundos elaborar, não havia de verdade nada relacionado a ideologias politicas, gosto cinematográfico, hábitos alimentares ou opiniões. São essas certezas que temos sobre essas pessoas que esperamos. As tais certezas que nos guiam, ou nos levam à perdição.

4.6.12

# ;-)

Tyler não foi à escola para conhecer Barack Obama, que fez uma visita à fábrica onde seu pai trabalha em Minneapolis. No dia seguinte, Tyler, bom aluno, levou uma justificativa para a falta. 


;-)

26.5.12

Do manicômio


Houve um tempo em que fotografia analógica não era cool, era foto – dispensava sobrenome porque só existia ela. Comprávamos filme, pilha para a câmera (que era máquina, não tratada como se objeto de fotógrafo), não sabíamos se o enquadramento, foco ou cara estavam bons até revelarmos as poses, múltiplos de doze. A trabalheira quase justifica meu calafrio quando, a caminho do aeroporto, ele soltou tranquilamente que não estava levando a dele, tiraríamos as fotos com a minha. Surto interno. Tremeliques, suores nas mãos. Dividiríamos as fotos? Gastaríamos o dobro de filme para registrar eu depois ele a cada lugar? Dividir a cama por um mês em uma viagem pela Europa tudo bem, mas compartilhar a mesma foto já era compromisso demais. Quando aquele romance acabasse o que faríamos dos registros? Fotos individuais garantem a eternidade da lembrança exposta de forma indolor. Hoje tenho seis filmes revelados, uma foto onde aparecemos abraçados, um amigo com quem vivi por dois anos que me irrita a cada vez que me apresenta como ex-namorada. Afinal, nunca tivemos nada oficial. Na-da! Atualmente compartilhamos o psiquiatra.

Anos antes de entrar na igreja para se casar ela vertia lágrimas por causa de um refrigerador, no ato que entrou para a história como O Caso da Geladeira. Moravam há tempos em um apartamento montado com o que juntaram da casa dela com a casa dele, nas fichas preenchiam como estado civil “solteiros”, mas os vizinhos, as famílias, amigos, o proprietário do imóvel, a CEG, Light, Sky e Telemar, se questionados, provavelmente responderiam o contrario. Por sorte, até ali, nunca o fizeram. Um belo dia a geladeira quebrou, os dois olharam desolados o técnico decretar o óbito, a mãe dele gentilmente ofereceu presenteá-los com o modelo lindo que ela tanto sonhava. “Não! Calma. Isso tem que ser pensado com cuidado”. Ele achava que dividir a posse de uma geladeira era um passo muito grande para o qual ainda não estava preparado. Ela dividiu em muitas parcelas uma Consul que gelaria as cervejas dele e manteria café da manhã, almoço e jantar dos dois. Meses depois dividiram calmamente o altar, a lua de mel e hoje compartilham olhares cúmplices a cada vez que o Caso é citado. 

Foi pensando nisso que outra moça, escolada, entrou em uma loja masculina qualquer e pediu cinco bermudas, todas iguais, nem precisava ver o modelo. No tempo em que reinavam absolutas as máquinas de foto apenas as celebridades declaravam que o acompanhante era “apenas um bom amigo”, mesmo que tão bom e intimo que dormisse e acordasse, com frequência que emocionalmente configurava união estável, sob o mesmo teto. De lá para cá os casais intensificaram o “ficar”, a situação de envolvimento intermediária começou a se prolongar e logo a palavra “casal” ganhará contorno de tal forma assombroso para algumas pessoas que haverá que se criar novo termo na língua portuguesa. “Não temos nenhum compromisso” equivale a quando perdemos o fôlego no Policia e Ladrão e gritamos, desacelerando, “altos!”. É caso de vida ou morte, o interlocutor que aja normalmente, inabalável, faz parte do jogo.

Habitavam o banheiro dela duas escovas de dente, soro e caixinha da lente, o Sportv antes nunca sintonizado era agora o campeão de audiência, canal favorito do rapaz esparramado no sofá de óculos fundo de garrafa, camiseta e cueca. Ele não gosta de encostar a calça suja da rua onde eles deitam, cama e sofá, então se despe logo que chega. Ela gentilmente sugeriu deixar no armário uma bermuda dele, a idéia que transformou Bruce Banner em Hulk. “Vamos com calma, é muita intimidade!”. Sem ver sentido em argumentar com um sujeito que diariamente anda pela sua casa  semi-nu ela decidiu disponibilizar junto à porta de entrada bermudas para todos os convidados: assim nenhuma visita menos íntima se sentiria incomodada por ter que circular ali sem calças. 

Ao ver a cliente sair orgulhosa da loja a vendedora comentou: só dá maluco nesse mundo.

14.5.12

Delas

As cartelas de comprimidos são desafiadoras, sempre penso qual pastilha destacar de maneira que o buraco deixado construa uma forma harmoniosa. Raras são as cartelas com fileiras certinhas de comprimidos, a maioria é levemente desalinhada e isso me obriga a calcular como ficará a disposição de espaços com e sem remédios antes de simplesmente pegar um e engolir com água. Essa inofensiva estranheza herdei do meu pai, para quem o universo com seus continentes mal recortados exige uma dupla de réguas para ordená-lo simetricamente, mas sempre penso na sorte que é conseguir engolir comprimidos inteiros ou os remédios gerariam outro problema. Minha avó, por exemplo, tinha certeza de que aquele pó industrialmente compactado não passaria pela sua garganta e incluiu nos objetos pessoais um kit formado por copinho e mini-socador para amassar os medicamentos, vários consumidos diariamente. Essa malgostosa estranheza não herdei de madame Leão Veloso, para quem as baratas eram motivo de escândalos impublicáveis e todos os aparelhos e eletrodomésticos deveriam ser desligados da tomadas em caso de viagem da família. Como alguém sai de casa com esse perigo explosivo?! E sempre saio eu desligando equipamentos.

Perigo, aliás, é algo mais presente no mundo do que átomos, escoteiros são criaturas negligentes se comparadas à minha mãe, cujo lema “sempre alerta” está escrito na entrada de casa como “INRI” nos altares das igrejas. “Não toma banho depois de comer!”, “não brinca com o gato que você não conhece” até a máxima “cuidado com a geladeira!” – esses refrigeradores dissimulados parecem estar fechados, mas rááá!... a Super Mãe sabe que nem sempre estão! Assim como ela sempre sabe diagnosticar qualquer doença e o tratamento mais adequado. A formação em Medicina Materna não a impede de, vez ou outra, confundir a dose ou mesmo o principio ativo, mas os engamos nunca foram fatais. Tanto que aqui estou eu carregando a irresponsável estranheza  de invariavelmente alterar a prescrição seguindo meus instintos curandeiros.

É tanta ameaça terrena, cármica e cósmica que a melhor estratégia é cercar-se de proteção divina. Bruxinhas de todos os modelos e tamanhos, por exemplo, são divinas! As bruxas são intuitivas, não temem desafios, e não bastam elas, há que se reforçar o exército da salvação com santos, patuás, caroços de romã e folhas de louro, objetos herdados e quailquer outra espécie de amuleto mágico. A kind of magic, com ou sem chapéu, caldeirão e capa, é imprescindível . Essa sincrética crença, de forma discreta e branda, herdei da madrinha que se despede com “beijocas mágicas”, só não batizo sapos e desde criança não me afeiçoo mais por girinos. 

Nem o mais poderoso feiticeiro da Terra desfazia meu nariz sempre torcido para o prato de feijão - era uma criança fofinha contra todos e a preocupação do trio de tias-avós de que lá em casa faltasse comida era furada. Não só tinha sempre meu bife especial com batata frita como sorrateiramente a tia acrescentava ovo, Sustagen, biscoitos Maria e sabe-se lá mais o que ao copo de Nescau matutino com o propósito de me fortalecer. Tal alquimia, mel e limão livrariam-me de todos os males, amém. Estranho que hoje, sem pensar, tenha me pego receitando uma colherzinha da mistura para a tosse dela. 


Os anos por si só nos fortalecem, apesar da protetora vontade contrária das mães somos jogados no mundo igualzinho aos paraquedistas dos aviões: "bóra, mermão, voa aí que do chão não passa". Pelo caminho já engoli coisas bem mais indigestas do que Nescau turbinado, duro mesmo tem sido encarar a vida nem sempre fácil com esse coração mole - herança mais preciosa recebida de mulheres tão fortes. Como tentativa, sigo os passos delas.

23.4.12

En prenant soin de moi


Ma cherie Sophie,
Há tantos anos ensaio responder que para não frustrar minhas próprias expectativas deveria só compor um telegrama - “A decisão foi sua, e isso é bom.”
Devorei cada nota publicada a respeito da obra, pesquisei no Google, folheei seus demais livros, elocubrei por horas em noites, quando entrei na exposição tudo mudou. Estava ali, na sua carta ampliada pendurada na parede, por ele assinada, por tantas interpretada, por mim remoída, o óbvio. Você impôs uma condição, ele somente respeitou.
Foi libertador. Acho que gargalhei, sem dúvida sorri, depois parei em frente a cada análise daquelas mulheres e agradeci por podermos exorcizar demônios assim – os reciclamos. Gastemos mesmo, abusemos da paciência deles, saturemos até quem sabe um dia aprendermos que é só mais um, basta esperar passar. A cura para resfriados requer tempo, paixões são males como tal. É mau, hoje prefiro as esteiras das frias academias que não provocam náusea e elevam os batimentos igual, deixo as paixões para os poetas bêbados das calçadas e jovens até vinte e cinco anos. Vivamos o amor e/ou aceitemos que essa obsessão ocidental de felicidade é exagerada.  Nós escolhemos, Sophie. Não vê?
Talvez não tenhamos escolhido sentir tanto, esse jeito de olhar, umas linhas tortas de pensar e o penar, talvez sejam mesmo características herdadas lá detrás, só nos resta o conduzir. Vamos nos “adestrando”, desde pequena incuquei com aquele anjo torto dizendo para Carlos ser gauche na vida – uma sensação de dejá vu, entende? De minha parte vivo na corda bamba tentando endurecer sem perder la ternura, e há um pouco dela na raiva do abandono, não há, Sophie? No “como ele pode”? Torço para um dia aceitar que meus berros e planos nunca farão ninguém voltar. E cada vez que se vão me torturo, despedaço tentando achar o que aqui é incapaz. De repente ali em pé lendo aquela carta onde imaginava encontrar frieza e desprezo esbarrei com dor. Ele não te deixou. Foi você quem não optou por mudar de idéia e ir atrás. Não sei o que queres, Sophie, só me pareceu ser mais do que ele ofereceu. É triste o desperdício de um desencontro, isso não achei ruim.
No folheto roubado da exposição, em meio a tantas anotações que fiz, circulada, reencontrei a visão da mulher acostumada à amargura, loucura, raiva, solidão - “Releia quando a tristeza passar” aconselhou a agente penitenciária.  Também rabiscada achei a interpretação da criança - “li que ele a ama” - apesar das palavras que ela confessou não entender, o argumento da diplomata de que escrever torna a decisão unilateral, minha diversão pela designer na foto estar segurando a carta em frente a uma placa que apontava “toutes directions” e um rascunho de pensamento: “o amor é incondicional, estar junto é decisão que não”.
Nesses tantos anos que ensaio essas palavras só para dividir a opinião esgotei todos os meus amores, cada um deles, e com cada um finalmente rompi para sempre. Não carregarei mágoas no peito, é um jeito de cuidar de mim. Saí do pavilhão com essa frase na cabeça, “Prenez soins de vous”. Cuide de você, Sophie. Ninguém melhor o fará.

23.3.12

Pra você


A dedicada equipe entrou, em frente à mesa se sentou e com tom de salvação do horário nobre disparou: “chefe, queremos que você namore aquele garoto”. A chefe caiu na gargalhada aliviada pela razão da convocação ser a possibilidade do colega ao lado tornar-se uma possível união, agradeceu imensamente a boa intenção. O candidato era um tanto equivocado, mas havia razão naquela questão - já era hora de acabar com tanta solidão. Bastava de tanto penar! Como reverter a situação é no que ela deveria pensar.

Ela sabia que estava diante de uma inédita, intrépida, romântica missão - encantar-se por qualquer um não era a saída, existia um certo moço e ela o traria de volta à sua vida. Ex-namorados até ofereceram cartas de recomendação, mas essa estratégia não parecia uma boa solução. Precisava de um plano que convencesse o homem desavisado em seu viver despreocupado que o melhor lugar era ao seu lado.

A tarefa não parecia fácil ainda que com sua força de vontade ela fosse capaz de desencalhar o mais pesado cetáceo. Outras moças piscariam demoradamente e largariam ao vento lencinhos brancos, dançariam até o chão o mais sexy pancadão, desafiariam para um duelo a rival – uma tal que ele namora e com quem esteve no Carnaval. Há as que invadam prédios, mas isso, juro, ela não considera um bom remédio. Há as que esperam, as que olham para o lado, logo beijam outro e prosperam, as espertas que detectam uma oportunidade e certeiramente agem na maldade, as que desistem, nem insistem, pra que tanta teimosia, isso só traz agonia, segue em frente, olha nesse mundo quanta gente, você arruma rapidinho um outro pretendente. E há ela.

Ela não entrou nessa história para ser passiva donzela, quem dera! Também pudera, desde tão cedo viveu com tanto medo, prefere rio com crocodilo e vilã com serpente a ter que lidar com gente. Não qualquer gente, claro, só essas que quando aparecem o coração sente, as que conversam até tarde,  falam de praia, campo e cidade, as que quando saem de perto ela quase chora, que tem livro espalhado pela casa para ler para ela a qualquer hora. As que quando chegam perto dão aquela olhada maliciosa que a devora (ela adora). Que começam beijando devagarinho, gosto de champagne com uva, bem docinho, que vão esquentando, o corpo dela apertando e dissolvendo, que quando suspiram por trás da nuca... alguém acode, ela está morrendo! Que mordem a boca e dão calafrio, falam baixinho, arrepio, confessam desejo e ela agarra forte num beijo já que vontade não tem juízo não. Então por que, céus, abrir mão? Que bom seria viver sem pensar uma paixão.

Mas o tal alvo é ocupado, sério, decidido, moço já tomado. Fica ressabiado com o que ela pode querer, vai que é mais do que ele pode prometer? O que talvez ele não saiba é que ela mandaria às favas a precaução, pagaria para ver porque o futuro nem ela, nem ele, ninguém nesse mundo pode prever. Então ela decidiu escrever essas rimas, ô rapaz, só pra dizer - joga tudo pro alto, larga tudo pra trás! Não perde a menina na história, depois vai viver de memória? Não se esquece que a vida é do jeito que a gente faz.  

22.3.12

Os moços do meu tempo (ou do tempo do Tribuneiros)



Para Nanda, Lalol, Olga e Pinha. CA e Pim, para Pian, Bruno Menezes e João Paulo Duarte.
De 2006.

Isso não é uma revanche. Os moços do meu tempo, Dondon, ainda gostam muito de competir, mas hoje vamos aplicar uma lição de antes do seu tempo. Porque olha o que encontrei nas conversas do Jobi, moços querendo um amor! Olha esses rapazes tão vaidosos malhando os braços e esquecendo-se das pernas, falando das “mulezinha” e tirando onda com os “muleque”, quem diria que andam sonhando com um beijo gostoso, um abraço apertado daqueles que tira os pés do chão mas que não acabe depois da noitada. Andam muito intransigentes nessa escolha, pior do que donzelas à procura do príncipe encantado, não perdoam um deslize e chamam tudo de deslize! É, Dondon, os moços do meu tempo não mudaram muito desde sua época não, são sempre os mesmos sonhos de quantidade e tamanho. Mas evoluíram, quase acreditam que podem chorar. Ainda não debatem relacionamento mas já aceitam conversar se lhes interessar que tudo acabe bem. Então vamos aplicar nessa conversa a teoria dos jogos, porque falta a eles um manual de instruções. Virou uma guerra o relacionamento entre damas e cavalheiros, e os dois só querem um olho no olho, dançar junto e serem felizes para sempre.

Os moços do meu tempo esperam um dia ser pais de família, um dia... Só não sabem ao certo onde guardar as fotos das micaretas que a musa curtiu com as amigas, e engatinham na arte de fazer o papel de marido nas festas do trabalho dela. Esses moços têm uma sorte: se não quiserem, nunca precisam amadurecer porque o relógio biológico não está em contagem regressiva e não lhes impõe decisões fundamentais bem cedo. Dizem-se confusos, não sabem o que fazer com meninas tão loucas para provar que são capazes de viver sem eles. Diz o Xico Sá, para quem homem que é homem não sabe a diferença entre estria e celulite, que o primo lá da zona leste de São Paulo não anda perdido diante da mina gostosa que ele conduz até o terminal. Por aqui elas bradam que não querem o dinheiro deles, que não precisam de cuidados e agora inventaram de experimentar antes de decidir, mas dão chilique se não são tratadas como princesas. Não entendem nada, esses moços, e ficam ali babando enquanto elas dançam até o chão. Troço tão simples: elas querem que eles reparem na unha feita mas não a ponto de elogiar a mistura de Café com Rebu! (E se algum moço perguntou o que é isso, salvou-se uma alma no purgatório). Estão muito perdidos esses moços, não conseguem acompanhar os vários assuntos que elas falam ao mesmo tempo, não sabem se passam creme ou cospem no chão, se preferem um terno do Ricardo Almeida ou a camisa furada de ontem, se pedem caipirinha com adoçante ou saem por aí pegando geral fingindo que o descartável preenche o buraco no peito.

Juram que têm pavor de aliança, mas quando as moças decidem viver tribalisticamente sem pensar no casamento dizem que elas são descontroladas. Eles não sabem se quando crescerem serão machos-provedores ou coadjuvantes da pós-revolução feminista. Acreditam em todas as façanhas contadas depois do futebol e nunca conseguem fazer em casa o que vêem na TV. Aí perdem a paciência, em Salvador tudo é mais fácil. Para eles tudo tem que ser simples, e quase sempre é, Dondon, graças a uma enorme e invejável capacidade de abstração. Mas as moças adotaram o discurso que por séculos ouviram deles, e aí eles chamam de arrogância o certo ar cruel de quem sabe o que quer que elas têm ensaiado para conquistá-los. Deram para dizer até que elas não prestam! Moças, hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás, eles ainda querem uma lady na mesa. Ora veja bem, se são as mulheres que têm o dom de iludir nessa enchente de canalhas líricos ou mesmo de malandros banais. Não sabem perder, Dondon, eles não aprenderam o que fazer quando desiludidos. Por isso saem pela vida com suas quadrilhas, cheios de hormônios adolescentes, caminhando na ponta dos pés como quem pisa nos corações. São todos ótimos em despertar sentimentos com os quais depois não sabem lidar.

Os moços do meu tempo, Dondon, são eternas crianças. Ainda não pedem informação quando perdidos, não conseguem guardar as roupas e sempre tentam driblar a camisinha. Jogam Playstation no sábado à noite enquanto deixam as moças cheias de caraminholas na cabeça especulando onde andará o meu amor. De resto é balela, eles sabem de cor o número para ligar no dia seguinte, pagam o jantar com um prazer que pula dos olhos, esperam pacientemente e não se desencantam com a tórrida noite por mais precoce que ela tenha sido. Desde que, bem entendido, eles queiram mais. Porque, caso contrário, eles simplesmente “não estão a fim de você”. Mas quando estão, coisa mais linda, Dondon, um moço deitado no colo da moça nem aí para a inveja dos camaradas.

18.3.12

Partes


2012, parte 1
Não sei se a conversa começou pelo fim do casamento, pelo suicídio relatado no último dia feliz dos cônjuges ou pela disputa de stand up paddle ali realizada. Ouvíamos as mais recentes descobertas psicanalíticas de um inquieto e no final do dia o que teríamos aprendido é que a Holanda é na verdade uma província dos Países Baixos e a rua Rainha Elizabeth homenageia a monarca da Bélgica, não da Inglaterra. Ele continuava tendo nascido em São Paulo, filho de um pai ausente que foi o primeiro judeu hippie dos arredores mundiais de Ashton-Heights. Por mais estranho que seja imaginar em uma comunidade Flor, Pepeu, Baby e Jacob isso aconteceu e eles andavam nus, diziam-se artistas e provavelmente não tinham rumo nem renda. Foi assim que o menino aos quatro anos acabou catatônico por vinte e três horas sentado na entrada do apartamento incensado.

2001, parte única
Àquela altura eu já tinha montado uma tabela com valores convertidos de korona para euro, não precisava mais fazer conta a cada produto, mas continuava vivendo como se o próximo passo fosse a falência. Era o quarto dia de uma viagem de trinta e não tenho a menor ideia de por que não acreditei que, me mantendo dentro do orçamento diário, as refeições e compras inerentes ao passeio estavam garantidas. Vai ver eu não acreditava em nada que saísse de mim ou temia que algo inesperado surgisse e eu não soubesse como lidar. Sempre achei melhor me prevenir.  

2012, parte 2
Durou de abril a dezembro a tentativa de reconciliação e ele recomenda que não se perca tempo com terapia de casal nem se conte historias de suicidas a pessoas que não falam sobre seus incômodos. Ela o abandonou, não virou hippie nem ele – ao menos pelo que incluiu no relato – catatônico.
Continuava na nossa frente a disputa de stand up paddle e eu pensava que aquele esporte era novo, tempos atrás era só surf. A areia com os pombos continuava igual, o morro com as casas, prédios com vista para o mar, barracas, cadeiras, turistas, automóveis, biscoitos, bebidas, sudoestes, sujeiras, salvamentos e eu.

2012, parte 3
Sempre vem o pensamento de que deveríamos estar gratos pela vida que temos quando um poeta não a tem mais. Em um dia ele surgia pelo meio das plantas, no outro morria de pancreatite, nem ao menos entendi o que faz o pâncreas.
Tenho e-mails sem resposta, problemas sem resposta e textos sem final. Mais um diálogo na praia, novidades sobre a Holanda e problemas de conexão inter-assúntica. Vivo fragmentos, breve em frangalhos. Vivo entre os amigos que declamavam nomes ao jazigo para cada qual dizer-se “presente”. Entre tantas pessoas uma ausência, jogassem na cova os vazios de si e a sepultura viraria montanha que subiriam escalando para descobrir lá no alto que chegou-se ao final.
Ausências, demências, carências, problemas sem resposta e textos sem moral. E assim vão se entorpecendo para não sentir o que dói lá dentro e um dia com tanto analgésico morre-se de um pâncreas em silêncio. 
Morre-se de silêncio todos os dias.
Morre-se todos os dias. 
Silêncio.

2012, parte 4
Os olhos dele não abriram mais, e ela ficou para sempre com aquela indefinição e eu fiquei com os meus cheios de lágrimas e milhares de indefinições e uma vontade poética de viver com elas. Ou sem elas. Viver apesar delas, à margem delas, na companhia, da forma que for só não mais à mercê de solucioná-las – não há solução. Nem para tudo existe resposta.
Então, inquieto, o que agora lhe digo é para interromper as perguntas. Eu sei, há que se acalmar isso aí dentro – e, por favor, não com tantos analgésicos. Busquemos, pois, distrações diversas, ocupemos a mente, façamos com as minhocas o mesmo que com as crianças à mesa - distraia-as com aviões imaginários. Brinque. Leve, vai. 

Já arrumei gavetas e sei que às vezes nem tudo cabe.

7.3.12

Quase tudo


“Todo mundo desmaia agora!” Aproximava-se uma pessoa chata. Eles tem essa mania de que as pessoas ficam chatas, é dificílimo acompanhar os status e morro de medo de um dia a maldição cair sobre mim. À ordem dela desmaiamos imediatamente soltando nossos braços e cabeças sobre as cadeiras da praia, fechando os olhos e acho que entreabrindo um pouco a boca – não deu para reparar bem, mas a minha interpretação desconfio que tenha sido assim. Quando autorizada nossa volta soubemos que o representante do perigo voltaria à beira-mar pelo mesmo caminho, precisávamos de atenção. Ela conhecia o itinerário porque foi assim que os dois haviam se encontrado semanas antes, quando a visão dele ainda trazia felicidade – ele ainda não era chato e, ela insiste, era malhado.
 
Desconfio de poetas sarados, não tanto por preconceito, mais por estereótipo mesmo, e argumentei que um corpo não decairia em tão pouco tempo, mas ela estava certa de que as costas do menino estavam agora flácidas e a decadência corporal não tinha a ver com a quase-desilusão amorosa. "Quase" não por ter sido pequena, mas por pertencer à sua quase-vida amorosa. Não nos restou outra alternativa além de aguardarmos o retorno do corpo para análise durante um re-desmaio.
 
Além de ter sido personagem da quase-vida amorosa dela o moço tinha adotado uma estratégia duvidosa durante a noite anterior. Um poeta sarado na mesa de um bar movimentado que levanta a camisa e acaricia a barriga para chamar a atenção de sua presa depois de falidas tentativas de jogar saquinhos de sal na cabeça dela não parece expert em sedução. Não parece originalmente sedutor. Não parece nem legal. Não que esperássemos frases bonitas ou textos rebuscados, essa era a tática de outro personagem da quase-vida amorosa dela, apenas consideramos auto-acariciamento e brincadeiras ginasiais esquisito. Acontece que o ato não funcionou como conquista, mas foi imbatível como diversão e passamos a tarde interrompendo diálogos com rápidas imitações da cena, em um estilo Latino featuring Ricky Martin. Quase compensou perder o pretendente.

Apesar de ter uma quase-vida amorosa temos pretendentes, o que é melhor do que nada. Os pretendentes não geram passarinhos de animação voando ao nosso redor em dias ensolarados ou meios que produzam finais felizes, na verdade mal geram as doses diárias mínimas recomendadas de serotonina e por uma infeliz equação de erros + memória quase achamos isso bom, mas geram tardes divertidas. Falando sobre eles, não com eles. Às vezes nós quase preferimos que um desses acerte o alvo e mude o jogo.

Antes que passássemos a preferir ela avisou que o poeta chato já tinha voltado como previsto e não tínhamos percebido. Só nos restou então fazer mais uma vez a imitação de Latino featuring Ricky Martin e revermos nossa opinião sobre comportamentos bizarros: viva os sedutores desastrados e artistas inofensivos.

É normalmente assim meus sábados com eles. Às vezes damos uns furos, analisamos sarcasticamente nossos quase-relacionamentos mantendo a certeza de que todos os esforços devem ser empenhados em prol de boas histórias. Eles são o que ela um dia definiu como “pessoas em quem podemos nos refastelar”. Um quase preenche totalmente o buraco no peito do outro.

23.2.12

Das cinzas, coração


Ele disse que já não se fazem mais crônicas de quarta-feira de cinzas, que não há mais Adalgisa enfezada esperando marido no portão. Que este foi engolido pelo tempo e pela irrelevância. Que isso é coisa do tempo antigo. De outros pós-carnavais.
Talvez daqueles em que pela casa ficava uma purpurina, plumas rosas, no tanque uma sapatilha dourada e botas brancas. De quando ele perguntou o que era meia-arrastão e apontei para suas próprias pernas cabeludas sob o vestido de bolinha. Do tempo em que pagávamos para usar calças, jaquetas e chapéus de soldado em amenas noites de trinta e muitos graus. Esperávamos umas duas horas tomando cerveja no meio da rua em frente à Central do Brasil sem nos preocuparmos com a pouca quantidade de banheiros químicos disponíveis, levávamos mais broncas de um desconhecido do que suportaria a mais elevada autoestima para atravessarmos uma avenida em trinta minutos dançando ao som de uma música que mal conhecíamos sob os olhos de uma platéia indiferente aos nossos esforços e sede. Como não estaríamos felizes? Alcançando o final, suados e famintos, andaríamos um bocado torcendo para que o ônibus estivesse no lugar marcado e, dando certo, passaríamos toda a volta implicando com os bêbados, os sonolentos, casados e solteiros, os inteiros ou semi-mortos. Desse errado agiríamos da mesma forma, por mais tempo. No dia seguinte acordaríamos cedo porque bloco bom é na concentração. E por que andar?, perguntaria Adalgisa. Porque assim a gente chega lá, chega até no mar. E de bloco em bloco acabaríamos de bar em bar. De pirata, marinheiro, de coração partido ou inteiro. De repente, cantando pelos bairros no meio de toda aquela gente. Normalmente. Até nunca cansar. Até a quarta-feira chegar. Até a vida real mandar a gente voltar.
Ele disse que como gênero literário as crônicas da Quarta-feira de Cinzas perderam toda a legitimidade. Viraram anacrônicas. Talvez como uma colombina que cisma em achar mais graça no pierrot mesmo sendo tão bonzinho o arlequim. Como uma coleção de máscaras. Saias de filó. Como quem tem tanta alegria adiada, abafada, quem dera gritar, e está se guardando pra quando o carnaval chegar.

19.1.12

*That smile on your face

Ah, admirador! Lembro de quando a Radical Chic ainda fazia sucesso e se comparou ao Rio de Janeiro: de longe um espetáculo inigualável, de perto uma colcha de retalhos. Até gosto bastante de patchwork, mas não foi no bom sentido que a balzaquiana fictícia se descreveu – estava mais para “meu coração e minha bunda tem mais crateras do que as ruas da cidade”. Eu continuo achando-a maravilhosa, mas daí à perfeição... cantamos os encantos mil, mas quando estamos a sós entre compadres cariocas confessamos os sacrifícios que a musa nos exige. 

Pode confessar, mãe, foi uma boa tentativa de elevar minha auto-estima, me fazer reencontrar a esperança de haver um alguém romântico na multidão, alguém que se tivesse uma rua mandaria ladrilhá-la para eu passar, não funcionou. (Minha mãe nunca entendeu que quando o obstetra anunciou "ela é perfeita" se referia aos meus vinte dedos, dois olhos, nariz e boca.) Aliás, mãe, não precisa ficar com pena de mim não, tá, já conheço os conselhos de exigir e temer menos, blablabla, vão você e papai conversar com Freud e por favor só retornem com um plano de ação e a conta da sessão paga que há pouco redirecionei a verba da terapia para massagem modeladora com ultrassom.

Onze da noite, véspera de feriado, uma hora e treze de transito pós-trabalho e chega o recado dele - "Admirador Secreto"- no blog para mim: “você é perfeita”. Ô, coração, faz isso não, isso aqui é um poço de desilusão. Na segunda série cheguei do recreio e encontrei sobre o estojo três chocolates. Era dia dos namorados, 12 de junho de 1987, o paulistinha gostava de mim e fez essa surpresa, minhas amigas viram, eu congelei, segundo dia mais nervoso da minha vida que no primeiro um outro entrou no play carregando buquê de rosas dez vezes o pequeno tamanho dele. 5 de outubro de 1985. Minha festinha parou, os primos mais velhos adoraram, nossos pais nos obrigaram os dois beijinhos e tenho certeza de que pensei em furar meus olhos nos espinhos para não precisar encarar mais ninguém dali em diante. Essa Perfeição não sabe lidar com galanteios.

Perfeição é uma carga tão pesada, desafio tão intransponível que vou não. Não vou conseguir completar a Travessia dos Fortes, escalar o Pão de Açucar nem dançar balé. Perfeição é chato, um estado de alerta, precaução infinita, é tanto medo que prefiro calculadora financeira, é até mais atraente! Perfeição é pra quem não tem coração, quando ele assume fica tão mais genial.
Escreve “você é uma menina legal”? Aí eu nem gargalho, dou um sorriso, ganho o dia, penso que até pode ser, sem muitos dramas, e ponto final. Imperfeitamente felizes para sempre.

*How long before you screw it up
How many times do I have to tell you to hurry up
With everything I do for you
The least you can do is keep quiet

1.1.12

@Noel


E aí, gorducho fofinho? Teve um #felizNatal? Essa história das festas terem caído em fins de semana atrapalhou mais do que a chuva, não achou? Não percebi que era Natal nem na Leader Magazine! O lado bom é que quase consegui escapar da tradicional angústia de final de ano – e digo quase porque hoje, sem querer, ouvi a Árvore tocar Noite Feliz, aí é um golpe muito baixo. Ela já está linda com presentes iluminados ao redor e ainda inventaram de colocar músicas instrumentais a cada hora, fui pega de surpresa aos quarenta e cinco do segundo tempo! É um certo delay se emocionar no dia primeiro de janeiro, mas fazer o quê? Pude evitar a longa apreciação dos fogos e fui surpreendida pelo efeito caixinha de música ecoando por toda a Lagoa, quando digo que se existe um Deus ele tem um certo humor negro você se zanga.

Enfim, sobrevivi a mais um reveillon, consegui até me divertir bastante em uma festa fortunosa que parecia último capítulo de novela e agora tudo volta ao normal: os turistas que andam de biquíni no calçadão e dirigem como bêbados sumirão, podemos encontrar com os amigos a qualquer dia de qualquer mês sem sentir a pressão de um prazo se esgotando, os planos devem ser colocados em prática porque não cabe mais a desculpa de que em dezembro não adianta começar nada (vai malhar!). Quanto aos turistas, confesso, não sei por quantos sábados e domingos até o Carnaval teremos folga deles – eu que tanto torci pelo desenvolvimento do potencial turístico da cidade me vejo inventando estratégias para espantá-los (e nem assim ouso pensar em preços abusivos como estão, vou pelo caminho de plantar notícias falsas envolvendo as UPPs ou fotografar os miquinhos nas ruas e associá-los ao Planeta dos Macacos). É que não cabe, Noel! Não cabe no meu bolso essa moda de Cidade Olímpica nem nas ruas espremidas entre a montanha, mar e Lagoa. Não cabe nos blocos, nas praias, nos bares, no glamourizado Leblon televisionado pelo Manoel Carlos. Se ao menos os garçons se tornassem mais bem educados... Como será que fazem os parisienses? Uhn, verdade, ficam mal-humorados como estou.

O mau humor é só por esse ponto, Noel, em todo o resto sou só sorrisos para o ano que passou, tanto que por mim ele nem precisava passar. Nem Susan Miller leio mais, acredita? O que tem vindo, de bom ou nem tanto assim, tenho encarado, bem ou nem tanto assim, mas conseguindo. Adoraria não ter essa dor nas costas e acreditar um pouco mais que toda forma de amor vale a pena, por enquanto sigo alternando compressas de água quente e Tandrilax e letras de música e cinema independente, um cachorro que parece urso panda é mais útil para quem vive sozinha do que abridor de potes (anota essa dica). 

É isso, bom velhinho, não poderia deixar de escrever essa nossa já tradicional carta, não prometerei aparecer tão assiduamente nesse blog quanto outrora por ter percebido que foi o que mais pensei em 2011 e não executei . Só deixo aqui registrado que apesar de não saber uma música da Paula Fernandes, ter visto apenas um filme da lista dos melhores e ter sentado raras vezes no Jobi fiz muito bom proveito desse ano arrumando minha casa. O astrólogo recomendou que eu recebesse mais, quem sabe o que vem por aí? Sem pressa, vamos (vi)vendo.

Como aprendi deliciosamente na Italia: tanti auguri per te! E pra não dizer que não falei de Londres, seja exatamente como você quiser – feliz (em) 2012.

26.12.11

As monções


Foi em dezembro de 2011, quando um especial de música evangélica substituiu o Rei no horário nobre e Ingrid Guimarães foi classificada como sinônimo de beleza, que tudo começou. Ne verdade deve ter sido um pouco antes, mudanças assim não acontecem em um estalar de dedos, mas estávamos todos checando o Facebook então só ali nos demos conta de que  Paula Fernandes nas paradas de sucesso não era a única coisa estranha no ar. Suzana Vieira andava quieta, e ainda vinha mais chumbo grosso.
 Anos antes já existia a brincadeira de que o El Nino faria o mar transbordar, Petrópolis seria a nova orla, achamos fashion os cachecóis passarem a integrar o vestuário feminino metro-paulista –me-acho-cool-sexual, foi ótimo poder usar botas de cano alto sem precisar sorrir monalisamente a cada piadinha estilo “deixou o cavalo lá fora?”. A garota de Ipanema ainda tinha marcas de sol, bronzeamento artificial era coisa de ex-BBB e simpatizantes ou tema de episodio de Friends, até que naquele ano o Natal chegou e Papai Noel não.

Dias depois, diante de um povo incrédulo de guarda-chuva, o bom velhinho surge de bicicleta explicando que também tem problemas com GPS e precisou parar para comprar um mapa. Não foram as obras nas ruas nem os valores abusivos que o confundiram, aquela terra nublada de gente desbotada é que não podia ser o balneário carioca de sempre! Onde estava o verão?
Alguns apontaram as baixas temperaturas como mais um indício de desenvolvimento, outros quiseram colocar panos quentes sobre a situação alegando ser decorrência do fortalecimento da classe C, mas nem os ambulantes do Centro aguentavam mais vender guarda-chuva nem  as UPAs tinham mais remédios para as micoses causadas pelas poças pisadas pelas sandálias das moças. Chico abriu a turnê apontando para as nuvens nos versos “o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta” e temeu ter que trocar o patrocínio da cervejaria por vitamina C. Enquanto Caetano opinava sobre a situação Gil achava tudo uma coisa linda, o poder daquela transformação do ser. Com uma enorme preguiça de tocar samba as rodas pós-praia se dedicaram ao chorinho, das areias eternamente úmidas chegavam desolados cidadãos desorientados com quarenta e oito horas por semana para preencher sem mar (o pior que podia acontecer seria virarem paulistas, dia e noite só com uma breja no bar). Elas continuavam batendo nas pedras, as ondas, mas já pareciam os estranhos porta-retratos digitais - um shuffle de bons momentos em imagens do passado. Até quando fazia calor não aquecia vontade.

Foi então que Eike decidiu tomar providências, Nizan Guanaes montou um roteiro, ao Ronaldo entregaram dúzias de ovos, uma verba X e o Beltrame em sacrifício. Sob as câmeras do Luciano Huck lá foi o gorducho como embaixador da cidade enquanto de seu apartamento no Leblon o governador Cabral preparava o Bope para invadir a Fifa, o COI e quem mais ousasse interromper a festa na floresta.  Nunca ficou claro se houve uma falha no sistema ou os responsáveis pelo clima estavam mesmo ocupados aprendendo a dancinha do Michel Teló, fato é que ainda a tempo de ter suas famosas areias entupidas de frango para macumba ou consumo próprio na noite de réveillon Copacabana recebeu o sol. O gorducho voltou para sua cobertura na Barra, as demais praias sempre poluídas voltaram a ser passarela do bom e do mau gosto, aparelhos de ar condicionado voltaram a não dar vazão, chuvas torrenciais só no fim do dia, todo mundo tentando tirar o atraso na academia, toda aquela gente suada e malhada voltou a tomar sua cerveja de Havaianas e regata às oito da noite em pé no balcão do bar. Reclamando do calor todos voltaram a ser felizes, e aos 40 graus o Rio de Janeiro continuou sendo.