15 Novembro 2009

Capítulo 2

Tinha vontades – uma caixa de Caran d’Ache, relógio Cuco, sanduíche de carne assada no pão de forma, sino. Vestia uma calça de moletom, considerava calças de moletom sinônimo de conforto como pantufas (ninguém tem pressa de pantufas) e tinha acima de tudo vontade de não ter pressa. Para não ter pressa tinha vontade de ter tempo, e desde que começou a prestar atenção nos que exclamavam como era possível já ser novembro considerou ser tempo substantivo masculino subjetivo. Era novembro porque acontecera outubro, e antes setembro e agosto e assim o contrário de sucessivamente e só causa desconfiança essa contagem em quem não esteve ali, o que acontece com bem mais freqüência do que dizem os cartões de ponto das indústrias fedorentas. Antes ela própria não estava, e quando esteve estava tudo tão estranho que escolheu se sentar na nuvem.
De lá viu o cantor cantando na beira do palco. Ele também estava sentado quando engasgou com as palavras e num soluço a lembrou do tanto de amor que há. Alguém no palco tem uma platéia e um disco e curumins e um amor e canta, e ela sentiu vontade de cantar. Juntou à caixa de Caran d’Ache, ao relógio Cuco, sanduíche de carne assada no pão de forma e ao sino mais essa, sem saber se era também lembrança boa ou promessa de felicidade possível. Pensou se essa seria uma vontade-chave, e deu-se conta de que chaves na língua portuguesa abrem portas.

13 Novembro 2009

Agora eu já sei

"Restaram pela casa três corpos a serem recolhidos em cena que lembrava o dia seguinte de uma chacina. Estavam ali, jogados no chão faltando só aquela marca em volta do defunto, duas baratas e um besouro. Ela, de galochas, com as mãos em luvas, armada de pá de lixo e vassoura, rezava para nenhum morto ressuscitar. Besouros são legais se comparados a baratas, as cascudas cheias de patas não são tão terríveis quanto lagartixas, catar aquilo seria melhor do que desentupir ralos e um parágrafo desses só poderia descrever punições."

E só poderá ser lido no Tribuneiros.com

06 Novembro 2009

Capítulo 1

Depois de selar a carta à moda antiga, não usando a língua e sim aquela cola de pincel que ainda existe nos Correios, entregou ao atendente e pediu licença. Não licença ao atendente, que para sair dos Correios basta atravessar a porta, mas à vida mesmo. Ficaria ali no alto por um tempo. É um lugar entre a terra e o céu, como se estivesse sentada em uma nuvem, sabe? Uma pausa. Você pode pensar que ficar sentada por muito tempo dói a coluna como nos vôos muito longos onde não se dorme, mas nesse caso isso não acontece, e não sei por quê. Precisava de tempo, e não esse dos casais sem coragem ou com muita dor no coração, mas o dos cansados, daqueles que não sabem em que direção seguir. Já tinha passado por maus bocados antes, e bota maus nisso! Os atuais nem eram assim tão ruins, havia solução, qualquer um apontaria uma dezena delas, mas as instruções não funcionavam, inicializar não lhe parecia palavra em português, faltava até metáfora para ilustrar, e a pausa prescindia de razões, explicações, desculpas, respostas confortáveis para os ouvidos dos que perguntavam. Foi por isso que puxou-se pela gola e lá em cima se sentou.

09 Outubro 2009

Passagem

"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida*."

Participe do programa de milhagens do Tribuneiros.com. O primeiro com a garantia de vôos turbulentos, além da certeza da chegada.

*Drummond

05 Outubro 2009

Dica bafo

27 Setembro 2009

Carta a J.

Chérie,
Não consegui responder de imediato, sua carta ficou me incomodando. Na verdade eu nem precisaria responder porque não foi endereçada a mim, mas você deixou espalhada então li, foi irresistível.
Nem sei direito se me lembro bem das palavras porque tem sido tantas coisas que... tão inúteis. Eu deveria me lembrar de cor e repetir até esclarecer aqui dentro, mas... tanta perda de tempo. E enquanto isso meu caderno está ali, em branco, dizendo que não sou obrigada a dizer nada: se não sei, posso calar-me. Já há besteiras demais no mundo, agora ainda incessantemente propagandeadas pela internet. As coisas têm feito barulho demais? Isso deve ser o segundo sinal da velhice, precisa ver como minhas pernas doem.
Não tenho entendido as aulas, sei que são discutidos assuntos fabulosos, prendo os olhos no professor a cada vez que pronuncia Matisse, é em vão. Desconfio que falavam na língua do pê ontem só para me provocar, tudo o que consegui fazer foi retirar-me e usar dos limpadores de para-brisas e lenços do porta-luvas para chegar até em casa consciente de que minha presença física ali não evitava minha ausência. Estou completamente exausta, não sei se mais cansada por ser quarta-feira ou por tanta precaução. Arrisco o segundo, sinto-me existencialistamente esgotada e isso é o máximo de beleza que eu enxergaria em algum lugar. O meu caso requer um reprocessamento cerebral.
Já o seu caso, minha querida, ah... As coisas são repetitivas sim, você é que não é. É tão bom deixar pra trás o que já não é mais, recomendo veementemente. Meu único medo em relação a isso é não ter fôlego para convencer os outros, eles lhe parecem muito acomodados onde estão? Vontade que tenho de sacudir pessoas, mas por que desejar a elas o incômodo que me assombra? Felizes os outros, na sala de jantar. Os outros não se tornam, eles sempre foram. O que acontece quando nos tornamos o que queríamos ser? Adoraria culpá-los, gritar com eles, expulsá-los daqui! Seguiria com tudo que joguei em cima deles berrando para o espelho. Se eu fosse burra nem perceberia, droga.
Vi que ele respondeu a sua carta e meu conselho de leitora intrusa é que você dê atenção às palavras dele – poder constatar que não mais ou não agora é um crescimento, não tivesse você vivido até aqui não teria discernimento para apreciar ou rejeitar o que lhe é oferecido, mesmo que tenha sangrentamente lutado por aquilo. Só alcançando somos capazes de não querer mais, sem birra ou ansiedade juvenil.
Calma, em breve voltaremos à mesa lotada. Nos juntaremos ao resto na pista de dança e de longe nem dará pra perceber que não estivemos ali o tempo todo. Por ora ficarei por aqui, estas poucas linhas já me causam dúvidas e só não as amasso porque me ajudaram a localizar o norte de novo. Nós estamos mesmo sozinhos. Eu só queria alguém que dissesse “estou aqui”. E sorrisse.

A tout a l'heure.

20 Setembro 2009

Keep Walking

É quase sempre assim: ali no cantinho direito o relógio avisa que se eu não for dormir agora amanhã vou me arrepender, e o silêncio da madrugada coloca as roldanas das minhocas para funcionar. O registro escrito é pura conseqüência. O amanhã chega sonado, mas a cada par de olhos que sorri ou se inunda ao compartilhar as palavras o arrependimento tem menos chance de existir. Ele nunca existiu.

Ouvi dizer que as comemorações são importantes para marcarmos nossos passos e interiorizarmos os feitos. São 4 anos hoje, e por mais bobo que às vezes meu cinismo faça parecer seria um desperdício não aproveitar a data para celebrar por termos vindo até aqui.

É mesmo uma exposição, as pessoas acham que tudo aconteceu. Não sei bem o que realmente aconteceu e o que invento, mas isso já é assim há mais anos do que completa agora essa idéia engraçada de publicar, então tudo bem. Minha cabeça insiste em criar histórias, é a realidade quem falha ao ser incapaz de acompanhá-las.

Estamos comemorando também o Ano Novo, e qualquer idéia de renovação ou pretexto para ajeitar o que está ruim me parece bem-vinda independente do mês e dos fogos. Com seu quipá na cabeça, da cabeceira da mesa, ele ensinou que parássemos para pensar no que temos feito, e brindou. Shaná Tová, que você seja inscrito no livro da vida.

Na minha história continuo achando que a felicidade é mais completa com um bode tocando violino, volta e meia há pausas para conversas de Brunas ao som de Strokes porque são muitos hard and twisted thoughts that spin round my head. Saio provocando quem estiver por perto para sermos todos loucos nesse hospício de portas abertas, assumo verdades que não são fraquezas e quando são tento me lembrar de pedir socorro. Cantando em verso e prosa amores e desamores e pulando tantos carnavais ficam mais leves e ricas as centenas de dúvidas e questões que mostram que a vida é para ser vivida com paixão para que até a saudade valha a pena.

Continuo andando, mesmo tendo percebido que o titulo original sumiu do blog. Foi uma evolução natural, quando reparei já tinha acontecido, vai ver a mensagem está tão presente em cada linha que seria redundante colocar uma faixa lá em cima. Mas não se preocupe, as pessoas comuns aqui retratadas continuam determinadas a terem vidas extraordinárias e fazerem seus próprios caminhos. Sabem que acontecimentos não fazem escolhas como se fossem extrínsecos a nós, como se a vida fosse indo tal qual um barco levado pela maré sem que tomássemos o leme. Somos a soma das nossas escolhas – não as grandes, enormes, que parecem definitivas, mas as pequenas e diárias, aqueles percursos que traçamos todos os dias e que só passam a existir no momento em que os criamos. Somos protagonistas, roteiristas e diretores desse filme (preciso, inclusive, renegociar o orçamento).

É dessa mesa, desse lado da tela, às vezes mera espectadora desse mundo, que vasculho um jeito de tornar tudo mais fácil. A solidão não é uma ameaça, é condição e até opção, mesmo que não pareça. A minha história não é um monólogo.

Puxa essa cadeira. Você mesmo! Como no jogo de buraco que a vez é sempre de quem pergunta “quem é agora?”, é exatamente você. Pede um Johnnie Walker para brindar.
Feliz ano novo!