3.9.17

Duas ou três coisas que aprendi no Atacama

Todos os relatos aqui podem não ser inteiramente verdadeiros. As minhas experiências são, mas aos fatos convém certo grau de desconfiança ou a cega entrega poética. No primeiro dia um guia contou que Jacques Cousteau fez uma expedição ao topo do vulcão Licancabur e mergulhadores retiraram do fundo do lago que existe lá uma esfera de cristal. Ao chegar à superfície só houve tempo de fotografar o achado, que escorregou das mãos do mergulhador e voltou para o fundo causando  comoção geral. Pouco depois ouvi de outro guia a história de uma amiga, um pouco bruxa um pouco feiticeira, que um dia quis fazer uma oferenda à Pachamama então criou uma esfera de cristal perfeita, escalou o Licancabur e lá atirou o presente dentro do lago.


A ideia que eu tinha de deserto envolvia dunas móveis, areia, camelos e calor de rachar. Não incluía neve nem sal, e óasis era uma pocinha de água tremelicando na visão já turva do sedento – que quase sempre era o Pica Pau em algum desenho na infância.  Certamente não envolvia uma lagoa espelhando montanhas brancas situada depois de uma estrada com dois metros de gelo de cada lado. Essa é uma das belezas de viajar: pega o que você acha que sabe e olha de novo. Surpreendente, não é? E essa palavra, surpreendente, no Atacama ganha outra dimensão.


Passar uns dias no deserto nos dá a medida do nosso tamanho: um microponto no universo, ao mesmo tempo vulnerável e com grande potencial destruidor. (Sempre faz bem para a humildade.) Nada por aqui é pouco.  Se está muito frio na sombra às 9 da manhã, fique cinco minutos no sol, mais do que isso sua pele começa a torrar. A terra por onde passam rios na época das chuvas corresponde ao meu imaginário do sertão, aridez marrom com enormes rachaduras. À primeira vista não dá para acreditar que corra água por ali, mas me dizem que a chuva vem tão violenta que arrasta carros pelo caminho. A umidade originária da floresta Amazônica não consegue passar pela cordilheira, e penso que quando o faz carrega em si toda a fúria que motiva superação, e chega explosiva trazendo felicidade e destruição em forma de água. 

O que precisa ser moderado é o homem. Ouse chegar ao Atacama e não dar ao corpo o tempo necessário para se aclimatar e sentirá sua cabeça explodir. É a puna, ou mal de altitude.


A cidade de San Pedro fica a 2500 metros de altitude, e quem vai ao Salar de Tara ou às Lagunas Altiplanicas pode chegar a quase 5 mil acima do nível do mar. Para combater o mal de puna recomenda-se descanso, hidratação constante e chá de coca. Algumas pessoas para quem indiquei a bebida recusaram com olhos arregalados - não, tenho medo que seja alucinógeno! Fiquei na dúvida se a reação indicava um feedback sobre mim, mas segui bebendo vorazmente e me sentindo igual a sempre, seja lá o que isso queira dizer.


Apesar de ser uma reta, a rua principal de San Pedro chama-se Caracoles. É naquela via de terra onde se misturam mochileiros, alguns europeus de cara rosada pelo calor, hippies vendendo brincos e os milhares de brasileiros e cachorros que geraram dois apelidos para a cidade - San Paulo ou San Perro de Atacama. 


A Caracoles é composta por restaurantes caros como os do Rio, agências de turismo e lojas de um artesanato igual ao do Peru, que então aprendi ser artesanato andino. Quem veio da Bolívia também viu nas tiendas de lá as mesmas bonecas com trajes que não estão no povo daqui, lhamas, esculturas de Pachamama, pompons e gorros coloridos.  Alguns bares locais tem música ao vivo à noite, mas é proibido dançar! Pensei que fosse uma questão de ordem pública para evitar barulho, como a proibição de beber na rua, mas para minha surpresa ouvi que a lei é mistura de resquícios de Pinochet com um tradicionalismo cultural atacamenho – afinal, são uns doidos os que dançam.


Atacama significa lugar quente e frio na língua kunza. A temperatura do deserto em agosto é igual à do Rio de Janeiro em fevereiro, com a diferença que em San Pedro o amanhecer chega com 5 graus. No silêncio do salar, em Baltinache, é possível ouvir o estalar das pedras conforme esquenta o dia. 


O espaço do território chileno ocupado pelo deserto do Atacama é uma faixa estreita de cem mil quilômetros quadrados entre o oceano Pacífico e a cordilheira dos Andes. “Ela é uma cordilheira novinha”, explicam, “e uma esponja”. A água da chuva é absorvida pelas montanhas e corre por baixo da terra, carregando os minerais das rochas até emergir e formar lagunas. Como a água evapora e os minerais não, a quantidade de sal que vai sendo depositado é enorme. Algumas pessoas perguntam sobre extração, eu pergunto se já posso mergulhar. É banho de sal grosso para proteger por eras! Pode vir, felicidade.


Foi o jesuíta Gustave Le Paige quem batizou o Vale de Marte, pela semelhança que acreditava que o lugar tinha com o planeta vermelho. Entre as muitas rochas dali ele viu três que pareciam mulheres rezando e as nomeou "As Três Marias". No tour para olhar as estrelas o astrônomo canadense fez uma pausa para explicar aos turistas do hemisfério norte minha intimidade com o Cinturão de Orion: na América do Sul, ele disse, qualquer trio vira "as três Marias". Com seu sotaque belga Gustave Le Paige falava "Vale de Marte", os atacamenhos entendiam "Vale de la Muerte", e assim ficou.  Suas Três Marias agora são duas, um turista subiu para fotografar em uma delas e quebrou a rocha. 


Diferentemente do que ensinaram na escola, a Terra faz muito mais do que apenas girar em torno de si e do sol em rotação e translação, totalizando 5 movimentos entre os quais um chamado "precisão", que é tudo o que eu achei que faltasse no mundo. O desconhecimento sobre isso até hoje explica muito sobre a minha vida. 


O frio era tanto que estávamos enrolados em cobertores, espalhados por um pátio no observatório sob a nítida Via Lactea. As pessoas exclamavam “ouh! e uau! enquanto olhavam em telescópios gigantes e eu estava certa de aquilo era igual à visão de células em um microscópio, mas fingia com a cara de quem não consegue visualizar ultrassonografia, até que finalmente consegui ver os planetas. Uau! “I know”, disse o astrônomo, com um sorriso de pai orgulhoso do filho. Saturno e seus anéis são mais famosos, mas Júpiter e suas luas são as coisas mais lindas que eu já vi na galáxia.


Nem todos os vulcões parecem os de desenho, estruturas triangulares de onde sai lava pelo topo. Alguns soltam apenas cinzas, alguns são planos no topo porque tiveram explosões. O Licancabur, triangular, separa o Chile da Bolívia e a seu lado fica o Juriques, de topo plano após uma erupção. As lendas locais tem outra versão para esse formato: os vulcões se apaixonaram por Cerro Quimal e nessa disputa amorosa o Licancabur cortou a cabeça de Juriques. Achei um pouco violento.


Só é recomendado escalar o Licancabur pelo lado boliviano. Durante a ditadura militar o general Pinochet encheu a área chilena de minas terrestres para evitar uma invasão vizinha. Com o deslocamento provocado pelas chuvas e pelo fato das minas serem feitas de plástico o processo de remoção dos artefatos é lento, e não faltam histórias de pastores que vão pelos ares ao andar por ali com suas lhamas. Achei o ciumento Licancabur menos violento.


Para minha decepção, diferente de Cuzco, em San Pedro não há lhamas passeando pelas ruas. A única que encontrei foi em uma casa em Toconao, deitada junto com três ovelhas no que poderia ser um canil. A proprietária jurou que solta os animais para passear e por isso os enfeita com adornos de lã colorida nas orelhas e no pelo, assim não as confunde com as outras. A escassez de fauna chamou minha atenção, além de poucas vicunhas vi uma raposa, um coelho, burrinhos peludos e flamingos a uma distancia que só o zoom da câmera possibilitou admirá-los. Estes não estão por aqui em maior número por causa do gelo nos lagos (não deve mesmo ser agradável passar horas se alimentando com a cabeça dentro da água semi-congelada),  mas as vicunhas estão em risco de extinção. Depois de acabar com os guanacos e pumas da região, o predador homem agora caça vicunhas para vender sua pele. Com duzentos policiais para proteger a área inteira fica difícil. Para evitar que os animais se acostumem com a presença humana os guias não param os carros para chegarmos perto, assim eles se mantem sabiamente desconfiados sobre as pessoas e tem mais chances de fugir ao ver alguém se aproximar. 


Depois de caminharmos uns vinte minutos até a sétima laguna escondida de Baltinache meu guia, um brasileiro auto-exilado no Chile, disse “agora vou deixá-la aqui um pouco para refletir sobre a vida”.  Sozinha? Não vai aparecer um coiote, uma raposa? “Não vai aparecer fisicamente ninguém.” E me deixou lá, cercada de sal, água azul e silêncio, relembrando o moai que protege Tara e outros Monges da Pacana, formações rochosas com mais de 20 metros de altura que aterrissaram depois de alguma erupção vulcânica, o anfiteatro do Vale da Lua com suas camadas quase exatas de minerais esculpidos em milênios de erosão, as barreiras de gelo mais altas do que eu no caminho das Lagunas Altiplanicas onde eu esperava ver areia, a incapacidade da câmera de registrar a beleza e a grandiosidade daquele lugar que parece fazer de propósito para obrigar as pessoas a guardarem na memória o que viram ali, e o astrônomo.



Se você não consegue ver uma estrela que apontam no céu, desvia o olhar por um tempo e volta lá que verá com mais clareza. Ele falava sobre observação do espaço, mas achei um ensinamento válido de forma geral. 

20.2.17

Imagina



(É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós*)

Quando o bloco acaba você sai andando sozinha. Vai ficando para trás aquele som, cada vez mais baixinho. As milhares de pessoas sorridentes saltitantes, sempre algumas lágrimas por celulares roubados e corações apertados que transbordam na euforia, todos os rostos que misturados não são ninguém, pintura impressionista. São abraços, cansaços, uma desordem para explodir qualquer coisa que se precisa extravasar. E acaba, porque o mundo tem essa lei de que tudo acaba. Para mim nunca acaba na hora. Mesmo que o corpo peça, o estômago ronque, a perna fraqueje, o olho turve e seque, a bebida acabe, a razão impere, dentro de mim, em algum canto, não sei quê quer abraçar os tamborins e fazer o povo inteiro sambar.

Só quem viu que pode contar.

“A gente está cansado”, ele falou, sério. “No ano que vem, se tiver ano que vem, a gente precisa contratar alguém para revezar.” Eu sempre desconfio se haverá ano que vem, mas acho que ele se referia ao desfile do bloco.

Eu já fui bailarina, mágica, cigana, alemã, gato da Alice, elas enfermeiras, eu num avião pra Nova York poucas horas depois de cruzar a José Linhares e querer me perder naquele mar naquele tempo em que íamos até lá. Naquele tempo em que começávamos na Academia da Cachaça e reabastecíamos no Bracarense. Quando mal precisava de corda. Tempo em que a gente ia e voltava. Naquele tempo eu achava que nada tinha volta! Que bom que o tempo passa. Houve um tempo em que choviam rosas do céu. Hoje ganho rosas em mãos, sempre com um sorriso acompanhado de uma vontade Titanic de do alto do caminhão gritar “eu sou o rei desse mundo!”, que no Carnaval todo mundo é rei, olhos pra cima de braços abertos exaltando alguém que vive dentro da gente quase sempre sufocado e na mistura do surdo com o repique ganha habeas corpus pra sair. É tão bom estar aqui.

“Você os chantageia depois? Deve ter muito flagrante aí!” o ambulante brincou, flagrando meu disfarce de invisível vendo o bloco passar pela lente da câmera. “Esse seu celular é pequenininho, mas deve ter um monte de foto” exclamou, esquecendo que para alguns ainda existem câmeras que são só câmeras.

Tem quem parece não envelhecer, quem prefere as gringas, quem tem um monte de “amiga”, quem esse ano não estava lá, quem ultimamente eu só vejo pela TV, quem eu conheço há anos e ainda não sei quem é, quem é o dono dessa festa, quem vem de longe, quem sorri em me ver, quem mal externamente sorri, quem deixou as crianças em casa e aproveitou a folga pra fugir de si, quem quer voltar, quem tem mania de aprontar, quem já há uns anos pensa “esse é o último, ano que vem não dá”, quem quando acaba suspira “um ano até o próximo, como eu vou aguentar até lá?”. Tem quem ache que do ultimo pra cá passou voando! Passou não, aconteceu coisa à beça, muito mudou, o que continua igual é que quando acaba o bloco, baixa a corda, Faísca respira, os meninos se abraçam, os apreciadores de um novo estranho Carnaval correm para outras aglomerações, alguns ritmistas ficam e ali a gente é, sempre... Imagina? Muito feliz.  


*Trem Bala, Ana Vilela

19.2.13

Quarta-feira (ou Último Gole)

Quem me vê sempre distante garante que eu não sei sambar.
Eu também tô só vendo, Chico. Sabendo, sentindo, escutando e não posso deixar de falar. Já não quero mais pisar nessas avenidas.

Tinha gente quase em cima do carro e eu, que já fui às touradas em Madri (pa-ra-ra-tim-bum), no Clube Condomínio – que falha - nunca consegui entrar. Mas no dia, o tal primeiro do resto de nossas vidas de folia, no Planetário, eu estava lá. E na foto que o repórter fez de cima do caminhão, razão da nossa preocupação em arrumar uma explicação para dar ao namorado dela, congelado em Boston: por aqui estávamos pulando Carnaval na rua. Depois da praia, no Monobloco. M-o-n-o-b-l-o-c-o, que beleza uh Mono-blocô.

No canto / na dança / no pecado ou na fé / vou seguir no arrasta-pé / deixa o povo aplaudir

Palmas pra ala dos super-heróis, dos alemães complexados e nunca pacificados, da Alice no País das Maravilhas, dos piratas, malandros e alvas-mulatas, palmas pra Arca de Noé no dilúvio do Boitatá! É carnaval, não me diga mais quem eu achei que deveria ser.


Foi ali pela Cinelândia, um pouco depois de fazermos a curva, que o temporal desabou no Bola Preta encharcando de emoção o mais gritado Explode Coração. Você já foi ao Bola, nega? Todos eram, de coração, foliões naquele e nos seguintes Carnavais! Agora já não é normal, o que dá de folião regular profissional atiça em mim um ciúme que sai promovendo desfile de pronomes possessivos metidos a abre-alas de memórias. Ei, você aí, levanta Lamartine, Lupicinio, eu sou tão menina, meu tempo passou? Minha turma do funil - alô povão, agora é sério - dá a chupeta que elas decoraram a letra e estão a cantar “Mamãe eu quero... ser”! Nos anos que vem tá combinado, ensinaremos as filhas das Chiquitas a dançar o iê iê iê. Dos cabelos não sei, mas o samba não nega: mulatas!

As minhas pernas, de meia-arrastão, sobre sapatilhas, ainda podem aguentar levar meu corpo pra junto desse samba por muitos anos até o sol raiar, mas meu anel de foliã de rua entrego hoje a quem mereça usar.  Quem cedinho acorda, Maria Bonita, de bom humor pra pular. Quem gosta de concentração, cachaça com mel e perdoa os mais de mil palhaços do salão (não me leve a mal). Quem entende que o arlequim vai chorar e nem é pelo amor da colombina, tem jardineira que nem está tão triste, é só pra aliviar o peito no meio da multidão e a canoa, no resto do ano, não virar. Pra quem não se importa se ele é Maomé ou bossa nova, cai no huly guly e só dá ele. Quem sabe que, se quisesse, madame antes do nome teria agora, mas isso não teria sido sincero, Aurora. Quem compra fantasia no Saara e não na sex shop, que deixa o bloco passar pra ver o gari, vassoura de estandarte, rodopiar, barão da ralé. Quem leva ainda uns domingos para entender que cachaça (vai por mim) não é água não! Quem se encanta com as cantigas que fazem sonhar sem pensar em como será o amanhã.  Amanhã tudo volta ao normal.

Deixa a praça virar um salão que no a-b-c dos Orixás Anastácia puxa um paticumbum prugurundum, ôô, Clementina traz Silas de Oliveira, chama Paulo da Portela para cantar sua alegria em tempo de Carnaval. É “oguntê, marabô, caiala, sobá, oloxum, ynaê, Janaína, Iemanjá”. Oke o quê? Oxossi, essa sopa de letrinha transforma a gente em pastorinha e a Kizomba vira nossa Constituição. Joga um verso pra iaiá, epa hey, Iansã, abre os braços, um sorriso, aceita a dança do moço, é dois pra lá, dois pra cá. Mas chega cedo, olha a hora, em Santa Tereza se sobe ladeira, desce ladeira, vira à direita, aproveita que o vizinho tá dando banho de mangueira em quem passa, o Céu na Terra fica mais perto se for a pé.  

Foi lá em dois mil e seis que eles passaram em bando, trompete em punho, uma banda, cantando o refrão de alguém que em mais um ano vinha de pirraça e eu nem imaginava que faria parte daquela massa. Eles foram zoando na frente, eu fui correndo atrás. Ê, boi ápis! Fura o fundo da garrafa de agua para aliviar o calor, alá lá ô, levanta as mãos em “ó que beleza máscara negra nesse baile de Veneza” e não se esquece de aplaudir o cancioneiro nos versos “é Carnaval, é Rio de Janeiro”. Aprende que perdemos celulares, câmeras, estribeiras, amores e a vergonha, perdemos a razão e do tempo nem temos noção, só paramos para a apuração e é na quinta-feira que ressurge o verdadeiro sanatório geral. De sexta a terça é feito uma reza, um ritual, é a procissão do samba abençoando, tenta não mudar muito a inocência profana do meu Carnaval.

Vou deixar guardadas no fundo do armário as saias de filó já um pouco amassadas e as rosas de plástico jogadas do carro de som, as botas brancas, os pares de sapatilhas douradas, um chapéu da mesma cor, o outro de pirata, um verde-e-rosa, o de malandro e não mais o de vaqueira, que se perdeu por aí igual à cartola de mágico vermelha. Vou guardar as diversas camisas da Mangueira junto com a lembrança feliz e aliviante de ter voltado a tempo para cantar entre as campeãs o samba que eu decorei nas tantas idas à quadra, ano em que conheci o Delegado, a linha do trem e o teto retrátil. Vou guardar para a qualquer momento usar a fantasia de “bailarina do Imaginô”, aposto que com mais gosto um dia me classificou.

Que gente longe viva na lembrança / Que gente triste possa entrar na dança / Que gente grande saiba ser criança.

Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar
Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar
Eu tô deixando essas ruas, são suas, mas não vá se enganar: estarei sempre, para na manhã do sábado antes ou na noite do seguinte me acabar,
me guardando pra quando o carnaval chegar.

27.8.12

Tendo à lua

O dia em que eu recebi uma carta das Casas Bahia oferecendo “transformar meus sonhos em realidade” foi o dia em que meus pais completaram 36 anos de casados. Esse foi também o dia em que pelo mesmo correio chegou a segunda proposta para que eu me tornasse sócia do Country Clube de Belford Roxo, local onde jamais estive e que fica a 42 quilômetros da minha casa. Foi ainda a data em que O Globo publicou que a proporção de pessoas divorciadas no Brasil duplicou em dez anos e achei 3,1% um número bastante positivo se comparado à minha expectativa. E o dia seguinte à divulgação, pelo mesmo jornal, do resultado do último censo onde 40% dos lares aparecem como sendo chefiados por mulheres.

Horas depois de ler a matéria recebi mensagens de duas amigas. A primeira sugeria informar à massa de conhecidos que se acha no direito de opinar a respeito da minha opção de estado civil sobre a realidade brasileira (e nem entraríamos no âmbito ocidental mundial). A segunda pedia um manual de boas maneiras para um primeiro encontro que ela teria dias depois, e por mais que a junção das mensagens leve a crer que pertenço ao animado grupo de mulheres solteiras cheias de encontros já antecipo não ser este o caso. Tenho em meu círculo social moças que se auto-definem como “porteiros” (por analisarem todo e qualquer elemento do sexo oposto que lhes cruze o caminho), mas a minha vida amorosa pode ser comparada à dos esquimós (N.R. - sempre os visualizo quietinhos e a sós em seus iglus).

Enfim, o dia em que meus pais completaram 36 anos de casados foi a véspera do dia em que confessei minha desconfiança em relação ao Neil Armstrong ter pisado na lua. Nem sabia que ele continuava vivo, por isso não me comovi com sua morte, mas aproveitei para dividir suspeitas – não sei se depois daquele episódio televisionado idas à lua se tornaram habituais (não acompanho a rotina dos astronautas), não entendo por que nunca voltaram, por que não transmitiram mais expedições se a audiência foi espetacular ou se disseram por aqui que na lua só tinha crateras quando na verdade lá é um paraíso ao qual só privilegiados tem acesso. De toda forma, concordo com os Paralamas que o céu de Icaro tem mais poesia que o de Galileu então não perco meu sono investigando a lua da Nasa.

No dia em que meus pais completaram 36 anos de casados pensei em retomar o texto sobre os absurdos que ouço, incrédula e calada, por não ser casada, mas fiquei com preguiça. Pensei em listar de forma cômica situações a evitar em um primeiro encontro, como vomitar sobre o pretendente, revelar o nome planejado para os futuros filhos ou provocar um debate sobre renda fixa ou CDB, mas me faltaram boas idéias. Pensei que o Vaticano deveria usar meus pais como garotos-propaganda do sacramento já que a manutenção do casamento anda um pouco em baixa, eles poderiam até explorar a versão de tratar-se de um milagre com potencial alcance a todos, mas achei melhor deixar a religião fora disso. Pensei em um amigo que diz que ter pais casados e felizes por tantos anos é uma sacanagem com os filhos! Pensei sobre o uso da crase. E pensei seriamente nas razões que podem ter levado o Country Clube de Belford Roxo a enviar duas propostas para eu me tornar sócia do lugar.

Definitivamente, só tem gente esquisita nessa Terra. (E, vai saber, na lua). 

22.7.12

Ensaio


Ele estava no escritório quando ela ligou: “Estou indo embora”. 

Cinquenta e três minutos depois ele chegava ao apartamento. Armários organizadíssimos – simetricamente vazios. Não era na mala que ele queria que ela guardasse as roupas que insistia em deixar espalhadas. Nada no chão, só tristeza no ar. Nunca fez tanto sentido dizer que o transito de São Paulo era de matar. De matar reconciliações.

“Se você tivesse chegado eu não teria partido”, ela explicou, por telefone, de Buenos Aires, depois que a mágoa baixou. “Teríamos nos entendido naquele dia, não no seguinte. No seguinte discutiríamos pelos mesmos motivos, eu choraria, você sairia de casa carregando a certeza de que nossa convivência era um erro, os anos se passariam. Prefiro que eles passem sem arrastar discórdia”. Foi a primeira vez, das tantas em que conversaram desde o inicio, em países tão diferentes quanto os dois, que falaram sem a ilusão romântica de que a paixão move montanhas. Ela move a indústria farmacêutica, os consultórios psiquiátricos e o mercado de cinema. Só. Sem ela, ele seguiu, e chegou à teoria que move a espécie humana ocidental. 

Homens são incansáveis predadores, espécie admirada nos vestiários masculinos pelo louvável hábito conhecido como “pegar geral”. Matematicamente, para cada garanhão destes corresponde em igual numero uma mulher. Culturalmente pode-se aceitar a ideia de que parte do total feminino não é tão ativa assim, o que leva à logica de sobrar para a outra parte das mulheres a porção dispensada pelas primeiras. Em uma comparação quantitativa, o universo de moças em atividade tem mais trabalho a fazer para dar conta de seu quinhão do que os auto-proclamados “pegadores”. Estes desdenham das bem sucedidas na tarefa, sem pensar que elas só estão mantendo viva uma cadeia alimentar.

Coube a ele aqui, e a ela lá, voltar a essa roda viva em busca de um par. Ele sabia que aquela dor era uma questão de tempo, sempre teve a certeza de que ela não era a mulher dele. Nada relacionado a pertencer ou não ao grupo das ativas. Na verdade, apesar da lista de motivos que os dois poderiam em segundos elaborar, não havia de verdade nada relacionado a ideologias politicas, gosto cinematográfico, hábitos alimentares ou opiniões. São essas certezas que temos sobre essas pessoas que esperamos. As tais certezas que nos guiam, ou nos levam à perdição.

4.6.12

# ;-)

Tyler não foi à escola para conhecer Barack Obama, que fez uma visita à fábrica onde seu pai trabalha em Minneapolis. No dia seguinte, Tyler, bom aluno, levou uma justificativa para a falta. 


;-)

26.5.12

Do manicômio


Houve um tempo em que fotografia analógica não era cool, era foto – dispensava sobrenome porque só existia ela. Comprávamos filme, pilha para a câmera (que era máquina, não tratada como se objeto de fotógrafo), não sabíamos se o enquadramento, foco ou cara estavam bons até revelarmos as poses, múltiplos de doze. A trabalheira quase justifica meu calafrio quando, a caminho do aeroporto, ele soltou tranquilamente que não estava levando a dele, tiraríamos as fotos com a minha. Surto interno. Tremeliques, suores nas mãos. Dividiríamos as fotos? Gastaríamos o dobro de filme para registrar eu depois ele a cada lugar? Dividir a cama por um mês em uma viagem pela Europa tudo bem, mas compartilhar a mesma foto já era compromisso demais. Quando aquele romance acabasse o que faríamos dos registros? Fotos individuais garantem a eternidade da lembrança exposta de forma indolor. Hoje tenho seis filmes revelados, uma foto onde aparecemos abraçados, um amigo com quem vivi por dois anos que me irrita a cada vez que me apresenta como ex-namorada. Afinal, nunca tivemos nada oficial. Na-da! Atualmente compartilhamos o psiquiatra.

Anos antes de entrar na igreja para se casar ela vertia lágrimas por causa de um refrigerador, no ato que entrou para a história como O Caso da Geladeira. Moravam há tempos em um apartamento montado com o que juntaram da casa dela com a casa dele, nas fichas preenchiam como estado civil “solteiros”, mas os vizinhos, as famílias, amigos, o proprietário do imóvel, a CEG, Light, Sky e Telemar, se questionados, provavelmente responderiam o contrario. Por sorte, até ali, nunca o fizeram. Um belo dia a geladeira quebrou, os dois olharam desolados o técnico decretar o óbito, a mãe dele gentilmente ofereceu presenteá-los com o modelo lindo que ela tanto sonhava. “Não! Calma. Isso tem que ser pensado com cuidado”. Ele achava que dividir a posse de uma geladeira era um passo muito grande para o qual ainda não estava preparado. Ela dividiu em muitas parcelas uma Consul que gelaria as cervejas dele e manteria café da manhã, almoço e jantar dos dois. Meses depois dividiram calmamente o altar, a lua de mel e hoje compartilham olhares cúmplices a cada vez que o Caso é citado. 

Foi pensando nisso que outra moça, escolada, entrou em uma loja masculina qualquer e pediu cinco bermudas, todas iguais, nem precisava ver o modelo. No tempo em que reinavam absolutas as máquinas de foto apenas as celebridades declaravam que o acompanhante era “apenas um bom amigo”, mesmo que tão bom e intimo que dormisse e acordasse, com frequência que emocionalmente configurava união estável, sob o mesmo teto. De lá para cá os casais intensificaram o “ficar”, a situação de envolvimento intermediária começou a se prolongar e logo a palavra “casal” ganhará contorno de tal forma assombroso para algumas pessoas que haverá que se criar novo termo na língua portuguesa. “Não temos nenhum compromisso” equivale a quando perdemos o fôlego no Policia e Ladrão e gritamos, desacelerando, “altos!”. É caso de vida ou morte, o interlocutor que aja normalmente, inabalável, faz parte do jogo.

Habitavam o banheiro dela duas escovas de dente, soro e caixinha da lente, o Sportv antes nunca sintonizado era agora o campeão de audiência, canal favorito do rapaz esparramado no sofá de óculos fundo de garrafa, camiseta e cueca. Ele não gosta de encostar a calça suja da rua onde eles deitam, cama e sofá, então se despe logo que chega. Ela gentilmente sugeriu deixar no armário uma bermuda dele, a idéia que transformou Bruce Banner em Hulk. “Vamos com calma, é muita intimidade!”. Sem ver sentido em argumentar com um sujeito que diariamente anda pela sua casa  semi-nu ela decidiu disponibilizar junto à porta de entrada bermudas para todos os convidados: assim nenhuma visita menos íntima se sentiria incomodada por ter que circular ali sem calças. 

Ao ver a cliente sair orgulhosa da loja a vendedora comentou: só dá maluco nesse mundo.

14.5.12

Delas

As cartelas de comprimidos são desafiadoras, sempre penso qual pastilha destacar de maneira que o buraco deixado construa uma forma harmoniosa. Raras são as cartelas com fileiras certinhas de comprimidos, a maioria é levemente desalinhada e isso me obriga a calcular como ficará a disposição de espaços com e sem remédios antes de simplesmente pegar um e engolir com água. Essa inofensiva estranheza herdei do meu pai, para quem o universo com seus continentes mal recortados exige uma dupla de réguas para ordená-lo simetricamente, mas sempre penso na sorte que é conseguir engolir comprimidos inteiros ou os remédios gerariam outro problema. Minha avó, por exemplo, tinha certeza de que aquele pó industrialmente compactado não passaria pela sua garganta e incluiu nos objetos pessoais um kit formado por copinho e mini-socador para amassar os medicamentos, vários consumidos diariamente. Essa malgostosa estranheza não herdei de madame Leão Veloso, para quem as baratas eram motivo de escândalos impublicáveis e todos os aparelhos e eletrodomésticos deveriam ser desligados da tomadas em caso de viagem da família. Como alguém sai de casa com esse perigo explosivo?! E sempre saio eu desligando equipamentos.

Perigo, aliás, é algo mais presente no mundo do que átomos, escoteiros são criaturas negligentes se comparadas à minha mãe, cujo lema “sempre alerta” está escrito na entrada de casa como “INRI” nos altares das igrejas. “Não toma banho depois de comer!”, “não brinca com o gato que você não conhece” até a máxima “cuidado com a geladeira!” – esses refrigeradores dissimulados parecem estar fechados, mas rááá!... a Super Mãe sabe que nem sempre estão! Assim como ela sempre sabe diagnosticar qualquer doença e o tratamento mais adequado. A formação em Medicina Materna não a impede de, vez ou outra, confundir a dose ou mesmo o principio ativo, mas os engamos nunca foram fatais. Tanto que aqui estou eu carregando a irresponsável estranheza  de invariavelmente alterar a prescrição seguindo meus instintos curandeiros.

É tanta ameaça terrena, cármica e cósmica que a melhor estratégia é cercar-se de proteção divina. Bruxinhas de todos os modelos e tamanhos, por exemplo, são divinas! As bruxas são intuitivas, não temem desafios, e não bastam elas, há que se reforçar o exército da salvação com santos, patuás, caroços de romã e folhas de louro, objetos herdados e quailquer outra espécie de amuleto mágico. A kind of magic, com ou sem chapéu, caldeirão e capa, é imprescindível . Essa sincrética crença, de forma discreta e branda, herdei da madrinha que se despede com “beijocas mágicas”, só não batizo sapos e desde criança não me afeiçoo mais por girinos. 

Nem o mais poderoso feiticeiro da Terra desfazia meu nariz sempre torcido para o prato de feijão - era uma criança fofinha contra todos e a preocupação do trio de tias-avós de que lá em casa faltasse comida era furada. Não só tinha sempre meu bife especial com batata frita como sorrateiramente a tia acrescentava ovo, Sustagen, biscoitos Maria e sabe-se lá mais o que ao copo de Nescau matutino com o propósito de me fortalecer. Tal alquimia, mel e limão livrariam-me de todos os males, amém. Estranho que hoje, sem pensar, tenha me pego receitando uma colherzinha da mistura para a tosse dela. 


Os anos por si só nos fortalecem, apesar da protetora vontade contrária das mães somos jogados no mundo igualzinho aos paraquedistas dos aviões: "bóra, mermão, voa aí que do chão não passa". Pelo caminho já engoli coisas bem mais indigestas do que Nescau turbinado, duro mesmo tem sido encarar a vida nem sempre fácil com esse coração mole - herança mais preciosa recebida de mulheres tão fortes. Como tentativa, sigo os passos delas.

23.4.12

En prenant soin de moi


Ma cherie Sophie,
Há tantos anos ensaio responder que para não frustrar minhas próprias expectativas deveria só compor um telegrama - “A decisão foi sua, e isso é bom.”
Devorei cada nota publicada a respeito da obra, pesquisei no Google, folheei seus demais livros, elocubrei por horas em noites, quando entrei na exposição tudo mudou. Estava ali, na sua carta ampliada pendurada na parede, por ele assinada, por tantas interpretada, por mim remoída, o óbvio. Você impôs uma condição, ele somente respeitou.
Foi libertador. Acho que gargalhei, sem dúvida sorri, depois parei em frente a cada análise daquelas mulheres e agradeci por podermos exorcizar demônios assim – os reciclamos. Gastemos mesmo, abusemos da paciência deles, saturemos até quem sabe um dia aprendermos que é só mais um, basta esperar passar. A cura para resfriados requer tempo, paixões são males como tal. É mau, hoje prefiro as esteiras das frias academias que não provocam náusea e elevam os batimentos igual, deixo as paixões para os poetas bêbados das calçadas e jovens até vinte e cinco anos. Vivamos o amor e/ou aceitemos que essa obsessão ocidental de felicidade é exagerada.  Nós escolhemos, Sophie. Não vê?
Talvez não tenhamos escolhido sentir tanto, esse jeito de olhar, umas linhas tortas de pensar e o penar, talvez sejam mesmo características herdadas lá detrás, só nos resta o conduzir. Vamos nos “adestrando”, desde pequena incuquei com aquele anjo torto dizendo para Carlos ser gauche na vida – uma sensação de dejá vu, entende? De minha parte vivo na corda bamba tentando endurecer sem perder la ternura, e há um pouco dela na raiva do abandono, não há, Sophie? No “como ele pode”? Torço para um dia aceitar que meus berros e planos nunca farão ninguém voltar. E cada vez que se vão me torturo, despedaço tentando achar o que aqui é incapaz. De repente ali em pé lendo aquela carta onde imaginava encontrar frieza e desprezo esbarrei com dor. Ele não te deixou. Foi você quem não optou por mudar de idéia e ir atrás. Não sei o que queres, Sophie, só me pareceu ser mais do que ele ofereceu. É triste o desperdício de um desencontro, isso não achei ruim.
No folheto roubado da exposição, em meio a tantas anotações que fiz, circulada, reencontrei a visão da mulher acostumada à amargura, loucura, raiva, solidão - “Releia quando a tristeza passar” aconselhou a agente penitenciária.  Também rabiscada achei a interpretação da criança - “li que ele a ama” - apesar das palavras que ela confessou não entender, o argumento da diplomata de que escrever torna a decisão unilateral, minha diversão pela designer na foto estar segurando a carta em frente a uma placa que apontava “toutes directions” e um rascunho de pensamento: “o amor é incondicional, estar junto é decisão que não”.
Nesses tantos anos que ensaio essas palavras só para dividir a opinião esgotei todos os meus amores, cada um deles, e com cada um finalmente rompi para sempre. Não carregarei mágoas no peito, é um jeito de cuidar de mim. Saí do pavilhão com essa frase na cabeça, “Prenez soins de vous”. Cuide de você, Sophie. Ninguém melhor o fará.