3.9.17

Duas ou três coisas que aprendi no Atacama

Todos os relatos aqui podem não ser inteiramente verdadeiros. As minhas experiências são, mas aos fatos convém certo grau de desconfiança ou a cega entrega poética. No primeiro dia um guia contou que Jacques Cousteau fez uma expedição ao topo do vulcão Licancabur e mergulhadores retiraram do fundo do lago que existe lá uma esfera de cristal. Ao chegar à superfície só houve tempo de fotografar o achado, que escorregou das mãos do mergulhador e voltou para o fundo causando  comoção geral. Pouco depois ouvi de outro guia a história de uma amiga, um pouco bruxa um pouco feiticeira, que um dia quis fazer uma oferenda à Pachamama então criou uma esfera de cristal perfeita, escalou o Licancabur e lá atirou o presente dentro do lago.


A ideia que eu tinha de deserto envolvia dunas móveis, areia, camelos e calor de rachar. Não incluía neve nem sal, e óasis era uma pocinha de água tremelicando na visão já turva do sedento – que quase sempre era o Pica Pau em algum desenho na infância.  Certamente não envolvia uma lagoa espelhando montanhas brancas situada depois de uma estrada com dois metros de gelo de cada lado. Essa é uma das belezas de viajar: pega o que você acha que sabe e olha de novo. Surpreendente, não é? E essa palavra, surpreendente, no Atacama ganha outra dimensão.


Passar uns dias no deserto nos dá a medida do nosso tamanho: um microponto no universo, ao mesmo tempo vulnerável e com grande potencial destruidor. (Sempre faz bem para a humildade.) Nada por aqui é pouco.  Se está muito frio na sombra às 9 da manhã, fique cinco minutos no sol, mais do que isso sua pele começa a torrar. A terra por onde passam rios na época das chuvas corresponde ao meu imaginário do sertão, aridez marrom com enormes rachaduras. À primeira vista não dá para acreditar que corra água por ali, mas me dizem que a chuva vem tão violenta que arrasta carros pelo caminho. A umidade originária da floresta Amazônica não consegue passar pela cordilheira, e penso que quando o faz carrega em si toda a fúria que motiva superação, e chega explosiva trazendo felicidade e destruição em forma de água. 

O que precisa ser moderado é o homem. Ouse chegar ao Atacama e não dar ao corpo o tempo necessário para se aclimatar e sentirá sua cabeça explodir. É a puna, ou mal de altitude.


A cidade de San Pedro fica a 2500 metros de altitude, e quem vai ao Salar de Tara ou às Lagunas Altiplanicas pode chegar a quase 5 mil acima do nível do mar. Para combater o mal de puna recomenda-se descanso, hidratação constante e chá de coca. Algumas pessoas para quem indiquei a bebida recusaram com olhos arregalados - não, tenho medo que seja alucinógeno! Fiquei na dúvida se a reação indicava um feedback sobre mim, mas segui bebendo vorazmente e me sentindo igual a sempre, seja lá o que isso queira dizer.


Apesar de ser uma reta, a rua principal de San Pedro chama-se Caracoles. É naquela via de terra onde se misturam mochileiros, alguns europeus de cara rosada pelo calor, hippies vendendo brincos e os milhares de brasileiros e cachorros que geraram dois apelidos para a cidade - San Paulo ou San Perro de Atacama. 


A Caracoles é composta por restaurantes caros como os do Rio, agências de turismo e lojas de um artesanato igual ao do Peru, que então aprendi ser artesanato andino. Quem veio da Bolívia também viu nas tiendas de lá as mesmas bonecas com trajes que não estão no povo daqui, lhamas, esculturas de Pachamama, pompons e gorros coloridos.  Alguns bares locais tem música ao vivo à noite, mas é proibido dançar! Pensei que fosse uma questão de ordem pública para evitar barulho, como a proibição de beber na rua, mas para minha surpresa ouvi que a lei é mistura de resquícios de Pinochet com um tradicionalismo cultural atacamenho – afinal, são uns doidos os que dançam.


Atacama significa lugar quente e frio na língua kunza. A temperatura do deserto em agosto é igual à do Rio de Janeiro em fevereiro, com a diferença que em San Pedro o amanhecer chega com 5 graus. No silêncio do salar, em Baltinache, é possível ouvir o estalar das pedras conforme esquenta o dia. 


O espaço do território chileno ocupado pelo deserto do Atacama é uma faixa estreita de cem mil quilômetros quadrados entre o oceano Pacífico e a cordilheira dos Andes. “Ela é uma cordilheira novinha”, explicam, “e uma esponja”. A água da chuva é absorvida pelas montanhas e corre por baixo da terra, carregando os minerais das rochas até emergir e formar lagunas. Como a água evapora e os minerais não, a quantidade de sal que vai sendo depositado é enorme. Algumas pessoas perguntam sobre extração, eu pergunto se já posso mergulhar. É banho de sal grosso para proteger por eras! Pode vir, felicidade.


Foi o jesuíta Gustave Le Paige quem batizou o Vale de Marte, pela semelhança que acreditava que o lugar tinha com o planeta vermelho. Entre as muitas rochas dali ele viu três que pareciam mulheres rezando e as nomeou "As Três Marias". No tour para olhar as estrelas o astrônomo canadense fez uma pausa para explicar aos turistas do hemisfério norte minha intimidade com o Cinturão de Orion: na América do Sul, ele disse, qualquer trio vira "as três Marias". Com seu sotaque belga Gustave Le Paige falava "Vale de Marte", os atacamenhos entendiam "Vale de la Muerte", e assim ficou.  Suas Três Marias agora são duas, um turista subiu para fotografar em uma delas e quebrou a rocha. 


Diferentemente do que ensinaram na escola, a Terra faz muito mais do que apenas girar em torno de si e do sol em rotação e translação, totalizando 5 movimentos entre os quais um chamado "precisão", que é tudo o que eu achei que faltasse no mundo. O desconhecimento sobre isso até hoje explica muito sobre a minha vida. 


O frio era tanto que estávamos enrolados em cobertores, espalhados por um pátio no observatório sob a nítida Via Lactea. As pessoas exclamavam “ouh! e uau! enquanto olhavam em telescópios gigantes e eu estava certa de aquilo era igual à visão de células em um microscópio, mas fingia com a cara de quem não consegue visualizar ultrassonografia, até que finalmente consegui ver os planetas. Uau! “I know”, disse o astrônomo, com um sorriso de pai orgulhoso do filho. Saturno e seus anéis são mais famosos, mas Júpiter e suas luas são as coisas mais lindas que eu já vi na galáxia.


Nem todos os vulcões parecem os de desenho, estruturas triangulares de onde sai lava pelo topo. Alguns soltam apenas cinzas, alguns são planos no topo porque tiveram explosões. O Licancabur, triangular, separa o Chile da Bolívia e a seu lado fica o Juriques, de topo plano após uma erupção. As lendas locais tem outra versão para esse formato: os vulcões se apaixonaram por Cerro Quimal e nessa disputa amorosa o Licancabur cortou a cabeça de Juriques. Achei um pouco violento.


Só é recomendado escalar o Licancabur pelo lado boliviano. Durante a ditadura militar o general Pinochet encheu a área chilena de minas terrestres para evitar uma invasão vizinha. Com o deslocamento provocado pelas chuvas e pelo fato das minas serem feitas de plástico o processo de remoção dos artefatos é lento, e não faltam histórias de pastores que vão pelos ares ao andar por ali com suas lhamas. Achei o ciumento Licancabur menos violento.


Para minha decepção, diferente de Cuzco, em San Pedro não há lhamas passeando pelas ruas. A única que encontrei foi em uma casa em Toconao, deitada junto com três ovelhas no que poderia ser um canil. A proprietária jurou que solta os animais para passear e por isso os enfeita com adornos de lã colorida nas orelhas e no pelo, assim não as confunde com as outras. A escassez de fauna chamou minha atenção, além de poucas vicunhas vi uma raposa, um coelho, burrinhos peludos e flamingos a uma distancia que só o zoom da câmera possibilitou admirá-los. Estes não estão por aqui em maior número por causa do gelo nos lagos (não deve mesmo ser agradável passar horas se alimentando com a cabeça dentro da água semi-congelada),  mas as vicunhas estão em risco de extinção. Depois de acabar com os guanacos e pumas da região, o predador homem agora caça vicunhas para vender sua pele. Com duzentos policiais para proteger a área inteira fica difícil. Para evitar que os animais se acostumem com a presença humana os guias não param os carros para chegarmos perto, assim eles se mantem sabiamente desconfiados sobre as pessoas e tem mais chances de fugir ao ver alguém se aproximar. 


Depois de caminharmos uns vinte minutos até a sétima laguna escondida de Baltinache meu guia, um brasileiro auto-exilado no Chile, disse “agora vou deixá-la aqui um pouco para refletir sobre a vida”.  Sozinha? Não vai aparecer um coiote, uma raposa? “Não vai aparecer fisicamente ninguém.” E me deixou lá, cercada de sal, água azul e silêncio, relembrando o moai que protege Tara e outros Monges da Pacana, formações rochosas com mais de 20 metros de altura que aterrissaram depois de alguma erupção vulcânica, o anfiteatro do Vale da Lua com suas camadas quase exatas de minerais esculpidos em milênios de erosão, as barreiras de gelo mais altas do que eu no caminho das Lagunas Altiplanicas onde eu esperava ver areia, a incapacidade da câmera de registrar a beleza e a grandiosidade daquele lugar que parece fazer de propósito para obrigar as pessoas a guardarem na memória o que viram ali, e o astrônomo.



Se você não consegue ver uma estrela que apontam no céu, desvia o olhar por um tempo e volta lá que verá com mais clareza. Ele falava sobre observação do espaço, mas achei um ensinamento válido de forma geral. 

20.2.17

Imagina



(É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós*)

Quando o bloco acaba você sai andando sozinha. Vai ficando para trás aquele som, cada vez mais baixinho. As milhares de pessoas sorridentes saltitantes, sempre algumas lágrimas por celulares roubados e corações apertados que transbordam na euforia, todos os rostos que misturados não são ninguém, pintura impressionista. São abraços, cansaços, uma desordem para explodir qualquer coisa que se precisa extravasar. E acaba, porque o mundo tem essa lei de que tudo acaba. Para mim nunca acaba na hora. Mesmo que o corpo peça, o estômago ronque, a perna fraqueje, o olho turve e seque, a bebida acabe, a razão impere, dentro de mim, em algum canto, não sei quê quer abraçar os tamborins e fazer o povo inteiro sambar.

Só quem viu que pode contar.

“A gente está cansado”, ele falou, sério. “No ano que vem, se tiver ano que vem, a gente precisa contratar alguém para revezar.” Eu sempre desconfio se haverá ano que vem, mas acho que ele se referia ao desfile do bloco.

Eu já fui bailarina, mágica, cigana, alemã, gato da Alice, elas enfermeiras, eu num avião pra Nova York poucas horas depois de cruzar a José Linhares e querer me perder naquele mar naquele tempo em que íamos até lá. Naquele tempo em que começávamos na Academia da Cachaça e reabastecíamos no Bracarense. Quando mal precisava de corda. Tempo em que a gente ia e voltava. Naquele tempo eu achava que nada tinha volta! Que bom que o tempo passa. Houve um tempo em que choviam rosas do céu. Hoje ganho rosas em mãos, sempre com um sorriso acompanhado de uma vontade Titanic de do alto do caminhão gritar “eu sou o rei desse mundo!”, que no Carnaval todo mundo é rei, olhos pra cima de braços abertos exaltando alguém que vive dentro da gente quase sempre sufocado e na mistura do surdo com o repique ganha habeas corpus pra sair. É tão bom estar aqui.

“Você os chantageia depois? Deve ter muito flagrante aí!” o ambulante brincou, flagrando meu disfarce de invisível vendo o bloco passar pela lente da câmera. “Esse seu celular é pequenininho, mas deve ter um monte de foto” exclamou, esquecendo que para alguns ainda existem câmeras que são só câmeras.

Tem quem parece não envelhecer, quem prefere as gringas, quem tem um monte de “amiga”, quem esse ano não estava lá, quem ultimamente eu só vejo pela TV, quem eu conheço há anos e ainda não sei quem é, quem é o dono dessa festa, quem vem de longe, quem sorri em me ver, quem mal externamente sorri, quem deixou as crianças em casa e aproveitou a folga pra fugir de si, quem quer voltar, quem tem mania de aprontar, quem já há uns anos pensa “esse é o último, ano que vem não dá”, quem quando acaba suspira “um ano até o próximo, como eu vou aguentar até lá?”. Tem quem ache que do ultimo pra cá passou voando! Passou não, aconteceu coisa à beça, muito mudou, o que continua igual é que quando acaba o bloco, baixa a corda, Faísca respira, os meninos se abraçam, os apreciadores de um novo estranho Carnaval correm para outras aglomerações, alguns ritmistas ficam e ali a gente é, sempre... Imagina? Muito feliz.  


*Trem Bala, Ana Vilela