29.5.09

E fez o povo inteiro chorar

Três dias cantando Sá Marina.
Começando pelo fim, as pessoas aplaudiram. É muito legal filme onde as pessoas aplaudem, principalmente quando a sessão não é de festival nem no Estação Botafogo, onde o público é tão engajado que se não gostar do que vê é capaz até de discutir com a tela. O casal ao meu lado acrescentava tantas informações à história que vivi uma experiência de cinema interativo, ampliada pelo coro e dancinhas do resto da platéia. Mais um pouco alguém levantaria e regeria Meu Limão Meu Limoeiro dividindo a sala em duas.

Eram só três dias cantando Sá Marina, agora são mais três avaliando todas as questões geradas por um filme que eu já chamo de “historicamente importante por apresentar um outro lado da esquerda glorificada”. Estou virando uma mala e ainda uso gerúndio para confessar isso.

Meu Deus! Sim, é um cachimbo, nada além de um cachimbo, às vezes um charuto é só um charuto, xinga o Jaguar e dane-se. Está explicado o cansaço, compreender os motivos que levaram alguém a fazer alguma coisa fez com que meu cérebro se assemelhasse a contorcionistas do Pilobolus.

O Pasquim acertou, Simonal ficou mais conhecido por seu dedo do que por sua música, e para não cometer o mesmo erro de muitos que desfilaram naquela tela eu não queria apontar o meu para culpar quem em 30 anos não se lembrou de perdoar. Fica a lição, ficou a música, mas fica também ecoando na minha cabeça a declaração de que “ele está no céu regendo um coral de anjos”. Agora, José? Nem vem que não tem.

O filme é sobre a destruição da carreira de um gênio porque não existem bonzinhos e mauzinhos. Talvez a empáfia do filho da empregada que andava de Mercedes tenha encontrado resposta à altura entre seus colegas de profissão, exilaram o Simonal e ao contrário das outras vítimas da ditadura ele nunca voltou. Gente tem preguiça de olhar pro lado, pouco importa o sofrimento alheio seja ele de um branco, negro, rico, pobre, ídolo ou renegado.

A época era de patrulhamento ideológico, a traidora tem pais hippies, o chefe está sendo pressionado, ele tem medo de me magoar, dane-se se não vivi a ditadura, se nasci em um tempo onde não existe nada de tão grave que alguém possa fazer para ser jogado no ostracismo eterno. Gente erra, mas vai errar com outros. Eu tô com raiva. O filme é ótimo. O Jaguar é um filho da p*#@.

Ufa...

27.5.09

Soubesse escrever

Mercúrio retrógrado. Pausa para ler, ouvir música e comer bolinhas de queijo.

20.5.09

O cheiro do ralo (das aventuras de Lar, salgado lar)

Eles ensinaram detalhes dos compostos do carbono, me fizeram decorar a-ante-após-até-com-contra-de-desde-para-per-perante-sob-sub-sobre-trás, eu sei até hoje a fórmula de Baskara e esse inútil nunca me ajudou a pagar uma conta nem ninguém – ninguém! – do maternal à pós-graduação, avisou que eu teria que limpar o ralo.
São dez anos de congressos, milhas e milhas voadas para ouvir gente inteligente dizer coisas importantíssimas e nenhum palestrante jamais mostrou no Power Point: mais fundamental do que rentabilizar o conteúdo é catar os cabelos que caem no banheiro.
Eu entendo sobre cabelos, qualquer mulher entende: se não cortar de dois em dois meses aparecem pontas duplas, um pouquinho de silicone diminui o frizz, mas os danos mortais que os malditos fios que te custam uma fortuna causam no encanamento a Marie Claire não conta. Nunca li na Vogue como abrir o sifão da pia que inundou o banheiro branco decorado com vidrotil. Sei lá onde é o sifão!
Por isso acabei eu, cabelo hidratado com Alfaparf, trocentos cursos no currículo, bombeando um desentupidor no tanque enquanto meu pai, agachado com um plástico enrolado em uma mão e chave de fenda na outra, tentava eliminar o odor de fossa que acabou com minha essência comprada na Daslu Home. Com toda a paciência do mundo o homem puxava gremlings do buraco negro e pensava “se não sair uma cabeça daqui, a minha filha tem um problema capilar”. Ou “essa menina precisa de um marido”.
Amanhã tem reunião de condomínio, talvez seja uma boa idéia seduzir o vizinho.

10.5.09

Jogo da vida

Elas não são sócias da Light, juram que banho depois da comida entorta, sabem as estatísticas de morte de filhos por raio na piscina e vão dançar com a cabeça inclinada e os braços meio dobrados o Hey Jude do karaokê.
Quando você menos esperar, vai estar igualzinha a ela. E antes disso vai perceber que ela sempre foi bem parecida com você.
Feliz dia tribuneiro das mães.

8.5.09

Animal cão

E lá fomos eu e o cachorro ao médico. Por uma questão de especialização, na plaquinha do dele dizia veterinário e, na do meu, cirurgião (apesar do dele também operar e do meu também lidar com instintos animais).
O bichinho já é cego e surdo, eu já sou estressada e medrosa, mas nos dois apareceram bolas que mais pareciam corcovas e se não quiséssemos virar dromedários teríamos que extirpá-las.
- Está nervoso?
- Um pouco, e você?
- Vai dar certo, eu seguro a sua pata e você lambe a minha mão. Mas não morde ninguém.
- Ok. Nem você.


Às vezes o nunca mais não é exagero, é certeza. Não tem palavra. Não tem alívio pro vazio, principalmente pro vazio deixado por quem aliviava o caos do mundo. Quanto sentimento por um bichinho genioso.
Parecia uma nuvenzinha, um poodle de escova. Nos momentos menos higiênicos, uma estopa. A bolinha champagne chegou há tanto tempo que não dá mais pra contar uma história, ela se mistura com a minha. No nosso amor sem alardes talvez fôssemos presença fundamental na vida um do outro, eu o procurava pra fazer carinho, ele se apossava do meu travesseiro. Ele sentava se equilibrando com as patas em volta da minha mão enquanto tínhamos conversas assim:

Eu prometi que você não sofreria, cãozinho. Gente não escolhe sofrer ou não, mas você, deixa que eu protejo. Encara como um agradecimento às tantas vezes em que aturou quietinho eu te amassando em um abraço. Em troca de me eleger o melhor escudo humano contra implicâncias alheias, só precisei te apoiar durante a dor de barriga causada por um medalhão à piamontese. Foi uma relação bem equilibrada.
Há muito você já não me faz mais de apoio para suas espreguiçadas, não pula no meu colo amassando o jornal com a total falta de cerimônia de quem sabe que é o dono da gente. Se abaixo e te encaro não preciso mais desviar como ninja das suas investidas pra lamber minha cara.
Queria ver você pulando em volta de si mesmo até tropeçar quando a porta abre, ouvir os latidos escandalosos que ficaram lá no passado. De barulho, pra mim, só sobraram suas unhas no assoalho. Pra você não sobrou nada. Que diferença? Nunca atendeu ao nosso chamado mesmo. Você só vinha quando queria, e quando queria era a criaturinha mais companheira que eu já tive.
Não tinha isso de “cachorro, vamos brincar agora”, só brincava se quisesse. Correr atrás de bolinha nem pensar, pra quê o trabalho de buscar e vê-la sendo isolada de novo? Preferia sentar à mesa e comer pão com manteiga! Se estava dormindo, estava dormindo, ponto final, smplesmente não queria ser incomodado. Às vezes corria pela casa como se tivesse tomado um ácido, em outras horas ficava sozinho brincando com o vento. Criou bem seu mundinho particular em meio a tantas crianças, agüentava ser jogado pelos ares numa boa e quando passavam do limite rosnava como uma fera me fazendo pensar – um dia ele ataca. Esse era você ou era eu? Você, bem mais controlado.

Não publiquei o texto lá de cima esperando o dia do meu exame. Foi hoje de manhã, mas você foi ontem à tarde. Vou operar minha corcova. E nunca mais vou te esquecer.

1.5.09