18.12.10

Tout ça m'est bien égal

Então, Cherie, isto é o ensaio aberto de linhas para você. Só nos veremos agora quase em fevereiro! Pelo mesmo motivo que não desejei feliz natal ou ano novo tampouco farei contas. Sei que você entende.

De tão entediada já dei banho no cachorro três vezes essa semana. Ele começa a me olhar com a mesma cara de quando eu torcia pra que a mania de morder tudo ao redor acabasse. Um dia o segurei no ar, mostrei os quilômetros de brinquedos pelo chão e perguntei: você tem tudo, por que diabos insiste em querer sempre alguma outra coisa? Percebi a armadilha e acho que ele fez “humpf”.

Como uma delinquente dei play na música sabendo que aquilo traria recordações. Queria sentir saudade dos emails bêbados, gargalhadas de dia seguinte, Something que não fosse Beatles. Sinto é uma coceira nas pernas e essa cigarra cantando até explodir. Coitada da cigarra. Será mesmo que o barulho é indício de calor ou a pobre só está agindo como sua natureza? Uma de nos checará no Google. É péssimo que em um dado dia você se pegue em um flashback e imediatamente se acuse de estar exatamente igual ao que estava há um ano. Ou a sempre.

Cobraram-me um texto noutro dia. “O texto de fim de ano”, ela disse. Uma querida! Não quis desapontá-la, ela deve entender. A música do teclado dá saudade quando não toca mais, vez ou outra forço uma tentativa de aplacar o incômodo desse blog não atualizado e vem uma vontade de dizer aos leitores “sua atenção é muito importante para mim, no momento todos os neurotransmissores estão ocupados, por favor volte mais tarde”. Ou vontade freudiana que às vezes é só uma vontade ou Duchamps caberia melhor? Humpf. Desejo, necessidade titânica, anestesiada, vira um pensamento-nuvem. Dissipa-se.

Quero dizer que não haverá retrospectivas? Perceberão, certo? Sem mais delongas a ausência delas dirá, com menos graça e redemoinhos, que seguimos. Sem fogos, mais uma folha arrancada no calendário de parede - não fosse o celular meu único recurso externo a marcar o tempo. Não começamos mais novas agendas da Company, no Outlook o último dia de dezembro é atualizado à meia-noite pelo primeiro de janeiro como se fosse abril, nenhum rito de passagem. Triste a vida dos que nada celebram, não? Entendo.

Fôlego é o que tomo todos os dias, brindemos no café da manhã!
Pour moi, croissant et fromage. A tout a l’heure.

7.12.10

5.12.10

Os Buchas ep2

Porque sempre tem uma Erika que faz um Mark Zuckerberg se sentir um bucha.



2.12.10

Os Buchas

(enquanto as palavras não vem)




(continuação)

1.11.10

Une femme (Betty Davis Eyes)

Ganhou a presidenta, ganhamos uma presidenta, eu acho presidenta uma palavra horrível e aceno com o comum de dois da escola antes que Jorge Doria e Carvalhinho ecoem no jingle horripilante porém eficaz da antiga peça. Além de não saber nem empregar o verbo vitorioso nessa primeira frase – o que não tem a menor importância porque ela também não sabe (empregar. Conjugar. Nada?), entendo pouco mais que o básico sobre política então, por favor, Bruna, encerre esse assunto e ore pelos finados.

(A teimosia) Até mesmo a sensação de que ter uma mulher no cargo político mais alto do país deveria despertar em mim um orgulho pela classe não rende parágrafo, se não me vejo representada nela é melhor acabar essa suíte de assunto rapidinho antes que comecem os desabafos de que não temos uma mulher no poder, mas um fantoche engordado (olha...) à sombra de um homem forte e isso feministamente é quase um retrocesso embaraçoso. (Fantasio que a história na Argentina seria mais interessante se Cristina tivesse matado o marido para assumir el govierno, drama carregado no tango). Arrisco dizer, crânio na mão, foco de luz na personagem sobre o palco escuro: “se não é pra ser passional, por que nascer mulher?” E deslizo tal qual creme de baunilha na pele para o cerne do tema. Strike a pose: eu elegeria Madonna minha presidente. Don’t go for a second best, babe. Express yourself.

Essas mulheres.... que por condescendência, burrice ou hábito creditam as mentiras, covardias e impulsividades como atos sem má-fé, dolo, crêem que sejam tão somente consequencias do que a falível pessoa é. Continuará sendo. Elas, a quem resta decidir como se relacionar com isso. Isso que é o amor. E o amor próprio. Elas a quem a visão de um corpo nu a seu dispor não representa o interminável sonho adolescente de tamanho e poder, mas o ingênuo delírio infantil de bem querer.

Elas que como uma ação coordenada postam estranhas mensagens de status com sentido dúbio - “eu gosto no sofá”, “preferia a cama, mas tenho gostado da mesa”, “em qualquer lugar que seja fácil” – e atiçam minha curiosidade estrogênica somente saciada pelo sussurro de quem divide um segredo maçom: “não recebeu a mensagem? Foi pra todas nós.”, e lá estava eu de novo tirando do lixo o que precipitadamente achei descartável.

Essas mulheres, sempre julgando o sexo oposto inimigo infiel por seus critérios, me confundem com sua campanha cuja estratégia passa por escrever o lugar onde cada uma gosta de deixar suas bolsas ao chegar em casa e assinam com um clamor por demonstrar como são poderosas. Se há qualquer curiosidade masculina que transcenda aquilo que eles ainda não viram me escapa a lógica de que isso possa aumentar a conscientização para o combate ao câncer de mama, e se o plano parte da idéia de que eles só prestam atenção em sexo (logo, “no mamas, no sex”?) ainda retruco que se são mamas deveriam ser conscientizadas mais mulheres, ou só posso concluir que homens causam cancer de mama, ou então as mulheres... essas mulheres em busca de libertação.

Elas tem muito pela frente, siliconadas ou não. Que vão de peito aberto. Diz a manchete que elas estão no poder.

Julgo que já posso ser loura novamente.


"... and she knows just what it takes to make a pro blush"

24.10.10

Um versinho

Faltou eu no vídeo. Tínhamos que gravar um depoimento contando como soubemos da sua existência, ficou uma graça. Faltando um mês pra você nascer, fizemos uma festa e demos de presente pra sua mãe. Mas eu não achei nada para dizer.

Sabe, pequenino, tenho fugido das minhas emoções. Tem tanta coisa que dói e gente que machuca, o jeito foi por um tempo não olhar pra dentro. Ênfase no “por um tempo”, tá? Não recomendo a você fechar os olhos pra nada, fingir que não existe ou esconder nunca dá certo, a gente sabe, em algum cantinho o sapato sempre aperta e uma hora o caldo entorna. Adianto que viver de verdades também vai te gerar um bocado de problemas, infinitas acusações, é estranho porém muito mais usual que se viva por aí com sorrisos falsos do que lágrimas verdadeiras. O povo tem pavor de lágrima mesmo depois da santa invenção do rímel à prova d’água! E eu, se for juntar tudo que chorei, girininho, haja lencinho de papel. Agora mesmo cá estou de novo assoando meu nariz vermelho, pronta pra enfim te contar a tal historia, que quando vi sua bisavó na TV dizendo coisas bonitas não me contive e mais uma vez me pus a chorar!

Eu tinha ido para São Paulo no fim de semana e ao pisar em casa de volta sua mãe ligou. Só sua mãe liga aqui pra casa, além da minha. Ela tinha ido a um casamento, anunciou novidades, eu obviamente esperava alguma fofoca da festa! “Estou grávida”. Igual à lembrança do que estávamos fazendo na hora da noticia da morte do Ayrton Senna, essa também jamais vai se apagar da memória. Diante do silêncio ela completou: “é, Gata”. Sua mãe costuma completar com “é, gata” as frases que ela solta e vê que nos causam espanto. Então comecei a chorar. Muito. Em pé na sala roxa, telefone azul na mão, um sentimento de felicidade tomou conta de mim e de repente eu tinha uma razão muito forte para viver até novembro: vinha uma pessoinha nova pro mundo! Um serzinho minúsculo, indefeso, inocente de quem eu precisaria cuidar. Nunca, como diria nosso atual presidente de quem um dia você ouvirá falar, nunca na história da minha vida senti um amor tão imenso e imediato por alguém. E nunca pensei que essas palavras pudessem ser mais do que cafonas e simples clichês.

Sobre as coisas por aqui, vou te contar a verdade: É, Gato, às vezes as pessoas mentem, magoam a gente, tanta gente, mesmo sem querer, abala nossa fé. Alguns dias sofridos, minutos mal-vividos, horas que nem os velhinhos contentes conseguem esquecer. Tem tanta miopia, banho de água fria, a gente até pensa se quer mesmo viver. Mas olha, girininho, quando o mundo ficar escuro, o jogo muito duro, se lembra que a sua chegada fez uma menina tão cansada reacreditar no bem querer.

23.10.10

Lar, salgado lar (ou FormiguinhaZ)

Decidi sempre deixar duas formigas vivas. Uma seria muita carga para a pobre, três construiria uma relação triangular fadada a turbulências, dois garante um suporte emocional, a calma de olhar pro lado e ter quem já passou pelo mesmo, dividirão o peso.
Sempre evito matá-las, temos um acordo sobre limites, aceito que co-habitem meu espaço ainda que de graça, mas quando é inevitável costumava afogar todas ou Matoxiza-las. Mal-humorada dia desses, descobri a casa delas debaixo do mármore da pia e pronto, exterminei-as. Cuidei para que quem não estava em casa morresse também, assim a minha cozinha não viraria o antro das lamentações e eu não viveria com aquela energia pesada de formigas em luto. Dias depois, atraídas pela aguinha de um tomate, elas voltaram.
Não acredito que a tomada de novos territórios pelas formigas seja rápido como de morros por facções, então calculei que aquelas eram sobreviventes da população chacinada, os dias em que habitei sozinha o apartamento deve ter sido o tempo que elas levaram para se refazer da perda. Há muito que observo nas formigas essa capacidade de lidar com a perda, pense em como estão acostumadas com isso! Foi daí que instituí a lei própria de nunca deixar uma em pé para ser a arauta da desgraça, a que entra no formigueiro em horário inesperado, já causando apreensão, e dá a notícia. No entanto hoje de manhã, ao ver as poucas retornadas, pensei na dor das famílias sem notícias sobre seus entes desaparecidos e concluí que a dúvida é pior do que a mais cruel das certezas ainda que a primeira permita uma confortável ilusão, e julguei mais humano sempre poupar duas.
Não estou certa de que a chegada da noticia na comunidade cause drama, acredito na aceitação desse povo às baixas, imagino que sejam bem-resolvidas e sigam outros códigos, mas, baseada no relato de mães de soldados mortos em combate e nas cenas da Norah Walker em Brothers and Sisters, dentro dos meus domínios quero que o relato chegue àquelas sociedades. Seja para chorar uma ausência ou condecorar seus heróis, é preciso que haja um rito de passagem bem marcado para a vida seguir adiante, e assim anuncio que sempre pouparei duas formigas.
É como repetiu John Lennon: pense globalmente, aja localmente.

15.10.10

Como nossos pais

Imagina se sua empresa tivesse promovido um Dia das Crianças no escritório. Seu escritório ficasse em um prédio com nove andares e em cada um você tivesse contabilizado cerca de 100 pessoas. 100 porque viu uma multidão sentada em baias olhando para computadores, nem enxergou o final da sala então pensou logo na centena, parâmetro numérico possível pra quem só sabe que um metro é menos do que sua altura, dois equivalem a um homem enorme, a ciclovia da Lagoa tem oito quilômetros, entre um posto e outro na orla são oitocentos metros e a régua da escola tinha trinta centímetros.
Digamos que no tal dia os colaboradores levassem seus filhos, então atrações seriam organizadas para diverti-los, pipoca, sorvete e flores fossem distribuídos (e você logo desconfiaria que as flores envolviam algum clichê cafona). Enquanto você estivesse lendo os emails do dia, garotinhos louros e meninas de cabelos cacheados correriam pelo corredor gritando porque crianças não andam nem falam baixo. Como idéia genial para diminuir os decibéis você organizasse uma sessão de Lua Nova, convocasse o publico mirim e saisse como o flautista de Hamelin guiando todos até a distante sala de TV proporcionando a volta à normalidade antes da primeira telespectadora sair gritando “mãe, sangueeeee!”.
Digamos que inicialmente você sugerisse aproveitar a mão-de-obra extra e distribuir tarefas atrasadas entre eles como uma gincana: quem arrumar o arquivo primeiro ganha um calendário! A melhor resposta para idéias inúteis vale um porta-crachá! – mas no meio do dia admitisse que as crianças até dão um clima de humanidade ao ambiente.
Digamos que ao tirar os tampões de ouvido, melhor mimo oferecido pela TAM, ouvisse o espanto provocado pela visão de uma máquina de biscoitos na saída do elevador: “papai, você come isso o dia todo?”, que é diferente de dizer que isso é tudo que papai come em quase todos os dias.
Digamos que o encantamento dos filhos por desvendar o tão famoso “trabalho dos pais’ fizesse você se lembrar do que representava ir trabalhar com seu pai na cidade anos atrás. O Centro era um vai e vem de pernas cinzas onde você tinha que dar muitos passinhos rápidos segurando a mão dos adultos, pessoas se abaixavam para te olhar e davam papeis de rascunho para você desenhar em mesas por onde era levada de uma em uma para ser apresentada, sempre fascinada pelas maquinas enormes de escrever que eram terminantemente proibidas para menores porque acabava a fita.
Digamos que apesar de considerar aqueles papéis-carbono muito glamourosos você ficasse observando o cenário e decidindo que quando crescesse não queria nada daquilo, planejasse um futuro colorido, pessoas em movimento, imaginasse um trabalho em que cada dia fosse diferente do outro e não houvesse paredes sem janelas.
Digamos que um dia você se visse trabalhando com sono por ter passado a noite tentando comprar ingresso pro show de um Beatle, depois de duas Neosaldinas se rendesse, recostasse na cadeira e ficasse vendo as crianças brincando de aviãozinho. Ainda insistiria em falar das coisas que aprendeu nos discos ou essa lembrança seria o quadro que dói mais?

4.10.10

Faxina


Brusse, "I clean today"

1.10.10

Publicação #301

Não inventei uma coreografia solo para revolucionar a dança, mas por não ter par.

27.9.10

Life In A Day

O item mais estranho é um gel higienizador de mãos que passou a fazer parte da minha vida desde que calculei a quantidade de pessoas que seguram os postezinhos do metrô (os que me fazem pensar em como seria legal se alguém fizesse um pole dance inesperado). Tem sempre papéis, odeio-os, não é possível que eu precise receber tantos. Os óbvios: carteira, telefone, chaves de casa, cada vez mais raramente chaves e documento do carro, corretivo pras inseparáveis olheiras e moleskine pras inseparáveis inspirações, o crachá do trabalho – objeto inversamente proporcional ao moleskine – duas ou três canetas sei lá por que, guarda-chuva devido à quantidade de dias nublados e um floral devido à quantidade de dias em que eu estive nublada recentemente.
Rio muito do politicamente incorreto, você mesmo diz que sem sarcasmo não sou eu. A rotina na lente de aumento comentada por quem tem sinapses rápidas e línguas mordazes me faz virar o Flipper dando piruetas , eu poderia viver com o Fabio Porchat. Tenho medo de ficar sozinha. Não em casa ou nos sábados à noite, na vida. Velhinha. Mais velha ou amanhã. Amo filhotes. Cachorros em geral, praia e talvez você. Amar você e ficar sozinha podem estar relacionados – eu poderia estar sozinha por amar você ou inventar de amar você pra não ficar sozinha - mas acho que não é isso não, nem tenho me sentido sozinha e se o arrebatamento de alegria por ter você por perto é amar eu te amo, senão é só bom mesmo e o que amo com certeza são os filhotes. E vento! Amo vento. Entendo bem cachorros nas janelas dos carros.
Agora vem o snapshot do meu dia, escolhi hoje porque em 24/07/2010 não me lembrei de você, ontem foi bom, anteontem ótimo, mas estou num momento presente e acabei de saber do filme, vai ser hoje. Eu deveria explicar sobre o filme antes: Ridley Scott e Kevin Macdonald pediram no You Tube vídeos sobre um dia na Terra, uma passagem qualquer de 24 de julho de 2010. Receberam 80 mil e vão montar um longa-metragem, registro histórico, trabalho colaborativo, lançamento em Sundance 2011. Fizeram as perguntas acima: o que tem no seu bolso, o que faz você rir, do que tem medo e o que ama.
Gravando: (trilha a definir)
Espreguiço-Nescau-caminho-escritório-conversinhas-email pra você (“já desistiu de ficar sem mim? carinha feliz”)- power points banais-plano geral da sala gigante.
Enquanto você não responder continuará um dia feliz, depois volta ao normal ou fica muito mais feliz por mais tempo.
I just did it.



Fim.

23.9.10

de Tim Burton

Perfect situation



Jorge Garcia canta com Weezer em um motel de Hollywood.

*Miss that plane

Expresso Darjeeling, identificado por mim como “tenembaums”, não vi, assim como não vi I´m not there, “Death Proof-Tarantino”, O outro lado da cama, A Captura dos Friedman nem Fay Grim, traduzido como “henry fool”. Eram tantos filmes selecionados que às vezes nem eu mesma sabia por que tinha marcado aquele se não rabiscasse uma dica ao lado. O disputadíssimo Paranoid Park, do famooooso Gus van Sant, nunca nem procurei na locadora. Tem filme que é de cinema, e essa opinião não mudou.

Encantada por Albergue Espanhol, me enfiei no São Luiz no meio de uma tarde pra ver Bonecas Russas, só tinha lá, estava esgotado em todos os outros lugares. Esgotado como Os Sonhadores, Aos Treze, Pieces of April, só Encontros e Desencontros consegui comprar com a antecedência precavida que revelava a solenidade da ocasião. E Antes do Pôr-do-Sol. Pra explicar o calafrio que a perda daquele avião no final causou seria preciso revelar a Teoria do Elástico, e se já nem me lembro mais às voltas com qual fantasma eu andava posso deixar essa memória pra trás. Já exorcizei Caché, que até hoje não entendi, e fique à vontade quem quiser explicar tanto entusiasmo por aquela galinha.

O suplemento do Globo publicado na véspera da abertura ajudava muito, mas antes disso já começávamos a confecção e comparação das planilhas com opções de lugares, dias e as cores indicando o grau de preferência de cada filme que queríamos assistir. Era legal dizer “o do Almodovar” ao invés de “Má Educação”, sendo que “La Mala Educacion” no original também valia. Ou vale ainda, não sei mais.

Esse ano eu vou. Vai começar o festival. Festival do Rio.

Sempre tinha um Almodovar pra causar rebuliço e os novatos poderem dizer que foram ao Festival. Ok, e os veteranos também, que não se contentavam em assistir à estréia massificada em circuito oficial uma semana depois. Como se Almodovar fosse massificavel... Era glamouroso depois dizer “é bom, vi no Festival”. E sempre tinha o Gael. Gael num filme do Gondry é uma combinação como morango e chocolate, tão delicioso, isso ficou. “Super-fine” é como ele definia se sentir em Science of Sleep, e a expressão virou uma piada interna. Ficou a lembrança tristonha daquela gargalhada a dois no escuro e uma rápida boa herança para espantar o saudosismo – Maggie May ainda toca! E sem danos que nem tudo é tão difícil, desde Lords of Dogtown, agradável surpresa apresentada pela companhia da época no finado Paissandu. Para completar o parágrafo-cemitério ele termina com caipirinha na fila do Odeon esperando a premiere de Noiva Cadáver de Tim Burton. Premiere no Odeon transforma um filme.

Um dia descobrimos que legenda queimada na tela indicava que o filme entraria em circuito depois, e até um site oficial com as estréias do ano era repassado para tranqüilizar quem não tivesse comprado ingresso a tempo na interminável e tensa fila do Estação. Acho que não precisa mais mofar na fila. Não sei.

Foi no Estação que conheci o cinema argentino e aprendi a dizer que, como o italiano, ele é diferente. Bom. Um inteligente, o outro sublime. Com os anos las películas ganharam uma platéia menos uniforme, figurinos além das camisas xadrez e tênis estilosos dos homens e das mulheres de saias largas e blusas sobrepostas fumando na porta. Já se pode tomar banho e fazer a barba antes de ver um filme do Festival. Eu acho.

Pra mim passou a fase de filmes raros com direito a perguntas para cineastas iranianas depois da exibição, uma vez presa em uma sala mínima com uma delas e superei essa necessidade de “coolzice-intelectual”, me permiti admitir que acho chato. Chato é bem diferente de interessante, mesmo em festival. Filme interessante no festival tem avant-premiere nas conversas prévias e só termina nos debates posteriores. Tem que cutucar.

Nunca consegui ver milhares de filmes seguidos e depois de um tempo aceitei nem marcar sessões antes das três da tarde, me tornei sincera e segura. Entrar de sala em sala é como excursão à Europa com dez capitais em sete dias, na volta o turista coloca Notre Dame em Roma e cinema no festival tem que ser a maior imersão, precisa de tempo para assentar.

Pra retrospectiva ficar completa falta preencher as reticências depois do verbo que define Ricardo Darin. Ricardo Darin é... meu “Un certain regard hors-concours”, e essa é a frase mais metida a cinéfila besta desse festival de "era assim". Esse ano ele está lá, talvez com Gael e um Almodóvar? Esse ano eu vou. Sair diferente, quem sabe um pouquinho mais reflexiva ou mais terna por uns pouquinhos minutos. Do cinema, é de onde vou sair diferente, e como se não fosse óbvio só então me dou conta de que ali é o lugar onde realmente estou quando estou em um lugar. Principalmente se tiver Ricardo Darin.

Esse ano quero ver José e Pilar. Porque o festival tem que me lembrar de uma beleza e talvez eu só a absorva ao me trancar em uma sala escura onde nada mais acontece. Por cerca de duas horas não há onde ir. Olhar e ouvir. E reparo na mesa ao lado do livro sobre os quinhentos filmes a serem vistos a gravura com frase do Warhol - “Art is what you can get away with.”.

Eu vou.
Preciso reaprender a ir embora sem medo de nunca mais voltar.

* Antes do pôr-do-sol, cinema Leblon, Festival do Rio 2004

15.9.10

Bebo

(...)
Mas o texto que fez a amiga se lembrar de mim falava sobre ansiedade - algo totalmente aplicável à minha pessoa e, ao que parece, à Fernanda Young.
(...)

Em pé na areia escaldante do Leblon, música alta, sal secando ao sol, um garotinho se aproxima de mim, típico personagem. Ele me oferece a cerveja que segura, eu faço que não com a cabeça, ele começa a mexer os lábios, eu tiro um fone do ouvido: Você não bebe? Não, sorriso amarelo de ponto final. Mas posso lhe conhicê? - me estende a mão - eu sou Rénan. Olhei ao redor - não tinha uma gangue por perto, não era para me distrair. Não tinham câmeras por perto, não era uma pegadinha. Há tanto tempo não ouvia alguém usar o pronome “lhe” que chacoalhei a mão de Renan e quase invejei aquele estufar de peito nordestino do conquistador neo-carioca. Como carioca-com-muitos-anos-de-praia, rapidinho recolhi minhas coisas e fui embora meditar em outro canto sobre a minha condição de pior que Fernanda Young.

Voltei para casa derretendo, pensando que até em avião os conversadores respeitam fones de música, agora nem controlar a ansiedade em paz é possível. E de repente ri da cara-de-pau do jaguncinho. Rénan podia achar que é numa dessas que se começa uma grande amizade, que assim nasce um romance, que não há melhor companhia para uma tarde na praia. Ele podia estar deprimido e resolveu chutar o balde, podia estar feliz da vida e quis compartilhar, podia estar numa terça-feira na praia sozinho tomando uma cerveja e resolveu puxar papo com a menina sozinha ao lado que ouvia música. Simples assim. Mas para alcançar essa simplicidade ele precisou de um desapego, de uma esperança, uma ingenuidade, uma segurança, uma tranqüilidade, uma determinação! Ou não, precisou de um gole, um mergulho e nada a perder.

A Fernanda Young otimista tem razão. Por causa dessa interminável agonia nem perdemos só pessoas e oportunidades, perdemos tempo. Desperdiçamos muita energia com uma obstinação às vezes desmedida. Uma coisa é correr atrás, a outra é rastejar, se esgoelar, achar que a vida não tem sentido sem aquilo. Tem. A vida só não tem sentido sem graça. E para ter graça, é preciso leveza de espírito. Para o resto dar-se-á um jeito.

****************
(recorte dos tempos Tribuneiros, e terças de sol.)

2.9.10

Sobre chineses e fadas

Aquele chinesinho me apaixonou. Era um momento em que eu estava muito propícia a me apaixonar por coisas que se fossem pessoas seriam descritas como “as que não fazem mal a uma mosca”, ainda que classificasse moscas como criaturas de nível 4 na escala de potenciais alvos de maus tratos. Não fazer mal a uma barata na pia de mármore do banheiro é indicativo de extrema bondade, moscas só ultrapassam os limites quando zumbem nos ouvidos de quem dorme ou pousam em nossas comidas, e quem dorme ou come em um lugar com moscas deveria repensar seus hábitos. Logo, não fazer mal a moscas não me dizia muito, quero ver alguém tratar com delicadeza um sujeito que conversa em excessivos decibéis no banco de trás.

Entre uma frase e outra o sujeito coçava a garganta fazendo aquele barulho de porco, e foram quarenta e sete minutos de ligações até chegar ao nosso destino: “Faaaala, Menoti!”, e nenhuma pessoa sã poderia corresponder àquela agitação tão cedo de manhã, independentemente de estar acordando ou prestes a dormir. O sujeito no entanto não se abalava. “Quinta-feira tem aquela gravação do DVD, como é aquele lugar na Barra? Sertanejo bomba, muita mulé, se bem que nem rola muita pegação, mas po%$@ 5 mil pessoas naquele lugar da Barra! É, Hard Rock.” Deveras heavy, pensei eu, e apesar de ter tido o olhar  percebido somente pelos demais espectadores daquele cena no coletivo, e cem porcento ignorado pelo amigo do Menoti, não quis evitá-lo. Era a minha contribuição a um mundo melhor do dia. Há quem se imponha a meta de três elogios a cada duas dúzias de horas, atenho-me a ações menos forçadas como olhares de reprovação.

Ela insistia em provar que sua teoria não incentivava a mentira, e baseada na reação satisfeita do elogiado seguia com a técnica, sempre acompanhada de um sorrisinho na minha direção a fim de enfatizar seu ponto. "Fazer três elogios por dia melhora o clima do ambiente", pregava.

Começamos a conversar porque ambas admitiram, depois do ataque do touro à platéia em Navarra, que sentíamos mais pena dos bichos do que das crianças. Não é lá algo que se revele assim sem medo de retaliações, e nenhuma das duas dava de ombros para os pequenos com barriga estufada e insetos ao redor de si estampados nos jornais, só tinham apertos no coração em comerciais da Suipa e ímpetos de revolta contra os que culpavam a baleia que atacou a treinadora no parque aquático.

O nome dela era Carol, feminino de Zé. Nutria certo ódio por porteiros e zeladores que a chamavam de Caroline, e não por errarem o nome mas porque a troca da última letra alterava completamente a cor da sua aura, que assim passava de lilás para amarela. Quando pequena, para incômodo da mãe, Carol queria ser caixa de supermercado. Não qualquer supermercado, queria trabalhar nas Casas da Banha. Era muito pequena para entender a relação com o tal de bacalhau que Chacrinha lançava na platéia, tinha medo do Arnaldo Antunes e, orientada pelos pais, colocava seus dentinhos debaixo do travesseiro a fim de serem levados pela fada.

Além de sentirmos mais penas dos bichos do que das crianças também compartilhávamos o título de doadoras de dentes para fadas - eu, os que não engolia, e ela, os que a avó arrancava amarrando-os com um barbante à porta. Várias vezes temi que os engolidos gerassem uma plantação de dentes na minha barriga, mas para jamais alarmar os pais sobre o perigo preferia nem perguntar. Ocupada em disfarçar a questão, nunca parei para pensar no que a fada fazia com tantos dentes!

Carol pensava bastante sobre o espaço livre no mundo das fadas, e como além de nós mais gente acreditava na tradição mas nem todos questionavam tudo enquanto esperavam seus dentes cairem uma delas, ao crescer, montou uma história, e como era um momento em que eu estava muito propícia a me apaixonar por coisas esbarrei com a história e aqueles dentinhos me apaixonaram.

Deixei-me assim, por um tempo só me apaixonando por coisas que se fossem pessoas seriam descritas como “as que não fazem mal a uma mosca”. Como um inseto viveria voando por aí, fazendo meu trabalho, e isso não causaria mal a mim, à minha barriga, ao mundo da fada, à Carol, platéia, touro, passageiros de transportes coletivos ou ao amigo do Menotti. Das coisas voltaria para as pessoas e um dia esbarraria com mais gente que ao invés de questionar cria historias, e eu viraria o chinesinho.

12.8.10

The office

Quarta-feira. Frio. Feeling like Monday but someday I´ll be Saturday night. Escova dentes, come torrada, anda até o ônibus, desce no metrô, repara em como tem gente feia no subterrâneo carioca, anda mais, passa o crachá, liga o computador, perturba as pessoas mais legais do escritório que ainda estão com remelas nos olhos, pensa que não existe em português a palavra “inicializando” e que já era tempo da Microsoft mudá-la, coloca o celular no vibra-call para ser diferente de quem tem toques personalizados insuportáveis e compra um passeio de barco no Tahiti. É mais um presente de casamento, esses sites de cotas de lua-de-mel deveriam ser fiscalizados pelo Conar.


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Uma van passa a centímetros do seu nariz e a metade de um homem pendurado pela janela grita: “Santa Cruz?”. Na velocidade em que vinha continuou e ela pensa que se quisesse ir para Santa Cruz teria que correr pelo meio da rua e entrar no veículo em movimento tal qual Pequena Miss Sunshine. Sendo honesta confessa intimamente que isso aconteceu logo depois, no primeiro instante o pensamento foi – eu estou com cara de quem sai do Centro às oito da noite a caminho de Santa Cruz? Ainda que fosse verdade, gostaria de estar parada na calçada com jeito de quem vai tomar um drink no Fasano. A produtividade feminina nas grandes empresas subiria se nos benefícios fosse incluído um maquiador. O terceiro pensamento é reescrever os direitos humanos.


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Senhora, cuidado! Sua barriga está escorrendo entre a calça esturricada e a blusa de lycra. Pede aos garotos a seu lado para, por favor, falar um pouco menos alto? Condutor, saia. Exija treinamento para que os trens se movimentem da forma como foram planejados e não engasguem a cada duas estações – as freadas promovem um contato físico forçado entre os passageiros que viajam em pé e podem derrubar os mais frágeis, o que geraria uma cena bem engraçada no entanto incorreta. Vocês – todos – parados na porta do vagão: se não pretendem descer na próxima estação desocupem imediatamente o caminho ou os empurrarei. Senhor, sem puns. Calcula que os usuários de transporte público sofrem um problema crônico de gases na mesma proporção que motoristas com insufilm produzem muita meleca e reconhece que precisa criar a playlist “manhã” para evitar raciocínios desse tipo.
Coloca Pixies no Ipod e na chegada à Carioca a massa sobe as escadas batendo palmas e dançando à la eighties, segue pela Avenida Chile, os grupos dividem-se para caber nos elevadores do prédio e correm para suas baias pulando nas cadeiras de rodinhas.
Desliga o Ipod. A fantasia é brutalmente esmagada pela rotina assalariada.

9.8.10

26.7.10

Patchwork (vol. I)

Eu fico pensando se ali na frente vou olhar pra trás e dizer que valeu a pena. Se um dia vou contar a minha historia incentivando alguém a persistir. É difícil. Menos que isso aconteça, mais o persistir.

Ontem vi nuvens. Na verdade ontem olhei nuvens, possivelmente as vejo todos os dias a não ser que em algum dia eu nem levante os olhos de modo que caiba em cena o céu. Pensando bem, quando não saio do quarto não vejo o céu, e está aí uma boa razão para não repetir esse ato: decidi que é inadmissível uma pessoa passar todo um dia sem avistar o céu, e então levantarei da cama.
Ontem quando vi nuvens pensei que olhá-las seria uma estratégia para o pensamento estar ali. Não olhá-las imaginando formas, mas tirando fotos. De um tempo pra cá tirar fotos me obrigou a procurar detalhes e buscar pontos de vista, montar composições, é mais fácil com câmera. Win Wenders falou que há tantos anos usa óculos que se habituou a ver o mundo emoldurado. Às vezes eu vivo pensando naquilo como um texto. Tomara que seja de uma historia feliz.


*******
Ia se chamar pedaços. Ou vestígios? De pedaços virou uma colcha, de retalhos. Da colcha a cadeira, a lareira e o cachorro. O copo de leite, a madeira escura e o orvalho. A manhã gelada, o sol pro meio-dia e o saco de pães. A casa acordando, a mesa completa. Ponto.

Em frangalhos. O joio e o trigo. O branco do leite, do casaco novinho, da neve no parque. Branco bom. A tranqüilidade. A inspiração. A mão estendida sorriso no rosto. Essa vida se fosse minha logo mandava colorir, mas os momentos em preto e branco parecem imortalizados, historias de castelos, melancolia que não é tristeza. Retratos de um tempo feliz. Vestígios. Vestígios não doem.

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E você... será que um dia eu vou descobrir que não é nada perto da minha imaginação? Nós seremos muito felizes nas minhas histórias. Até... .

18.7.10

As preparadas (ou "lições do Bonde para o baile todo")

Quantas horas por dia você faz ginástica?, ele perguntou. Não são bem horas por dia, eu teria que fazer um cálculo para dividir duas vezes irregulares por semana por sete dias inteiros para achar o inexpressivo decimal que representa minha ocupação de tempo com exercícios físicos. E trabalho? Leitura, cinema, amigos? Aparentemente estava comprovado que eu não sei dizer adeus porque passo meus dias fazendo nada. Lamentável. Ele não considerou as horas na terapia, naquela filosofia tempo gasto falando sobre o assunto não é considerado “ocupar a mente com outras coisas”.

Masculinamente diagnosticado, meu problema era “inventar problema”. Não há mensagens ocultas por trás de Crepúsculo nem Woody Allen é um bom parâmetro, as musicas não dizem o que eu sinto - como os hipocondríacos sou eu que começo a sentir o que dizem as letras - ninguém insinuou nada quando perguntou como eu estava, isso é parte das normas de educação ocidental, “vai pegar alguém”, prescreveu.

Como no universo de seres aparentemente tão parecidos comigo a solução para uma gigantesca disfunção amorosa pode ser “vai-pegar-alguém”? E meu histórico familiar? Instinto de defesa, necessidade de auto-suficiência, programação cerebral constituída há mais de três décadas? Ele sugeriu trocar a meia-calça fashion por um jeans que aperta até meu útero e “partir pra night”. Maquiagem não faria mal, eu pareceria "menos chata".

Eu pensando que me desconectar do problema sem perder a ligação comigo mesma para tudo voltar ao lugar – ou ir pra lá pela primeira vez – indicava que viver havia se tornado tão complexo que a matrícula em uma aula de respiração seria o primeiro passo para a cura. “Depois alguém gosta de você como você é, primeiro deixa nego te chamar de gostosa”.

E foi nessa hora que Simone espichou os olhos do livro e sussurrou pra mim: "vai que é tua, Taffarel".

De Beauvoir. Simone de Beauvoir.

12.7.10

Saudade, amor, que saudade

Chamei de saudade instalada, aquela que realmente é.
Não é a falta cotidiana, o não estar mais, é o nunca. O não estar e reticências (porque saber se é um ponto final não temos como, mas sempre parece).
Tem a saudade do não saber cadê, diferente dessa saudade do vão. É a saudade birrenta, do lugar vazio no carro, não tocar do telefone, mas a que dói mesmo é a do não abraço, do não sorriso cúmplice, do não carinho no cabelo. Parece maior. Pior. Não é a saudade que bate o pé, é a que suspira.
Tem a saudade antecipada, quando você realiza o quanto é feliz, mas entende que vai mudar. É quando já dá para ver o fim da linha, bola pra frente, e você saboreia cada minutinho restante. O cãozinho já cego que não sobe mais na cama mas ainda abana o rabo quando você chega. O sussurro no escuro da madrugada - “mãe, cheguei, boa noite” – que na casa nova vai virar só lembrança. O olhar registrador a caminho do aeroporto.
Tem a saudade ingênua, que adoraria não pintar o cabelo nem cuidar do marido péssimo de febre de 37 graus. Saudade daqueles tempos, ah, aquele Rio de Janeiro, Co-pa-ca-ba-na. É a saudade que diz falsamente indignada “onde já se viu?”. Que pode ser sacana – lembra da Lalinha? Hehe, Lalinha, que pedaço de mulher! E Lalinha nem nunca olhou para o saudoso.
Saudade do que nunca foi. Saudade dos ideais que a vida insistiu em provar não passarem disso.
Tem ela – se todos fossem iguais a você - a saudade bem resolvida, aquela certa nostalgia que sorri com o canto do lábio. A das fotos das férias de verão quando duravam três meses. Dos banhos de mangueira, waffle com mel e calça Fiorucci.
Tem o bichinho esperando na porta. Um par de sobrancelhas arqueadas. Braços ao redor de um travesseiro. Orvalho. Jangada a seco. Estalar da cadeira de balanço. Fim do Fantástico. Canção de marinheiro. Flor de viúva. Incompletude ou o que fica quando a gente sabe que é hora de partir.

Tem tanta saudade na vida, mas a saudade instalada é aquela que já entendeu que não adianta gritar, então chora baixinho mesmo.

Saudade é o registro do amor que só pôde ir porque um dia pôde ficar.

Tribuneiros.com é o site que se despede hoje, mesmo que nunca vá pra longe de mim.

7.7.10

Ok, go


well, don't go blamin' the kids again

28.6.10

Da foto

"Está aqui, registrada em cores, a prova de que no fim do mundo tem uma possibilidade!"

Ufa, existe uma alternativa, ainda que ela desconfiasse que se precisasse ir até lá escolheria forma menos capitalista de vida. Depois de responder à brincadeira da amiga se deu conta de que, devagarzinho, voltava a ter esperança de que talvez existissem outros caminhos que levam a lugares mais perto. Ou fé, parente da esperança. Fé deve levar muitas pessoas a fins de mundo como aquele fotografado na viagem. Aquele pode ser o fim de um mundo que não serve mais para os que chegam ali e, por isso mesmo, o começo de outro diferente - possivelmente melhor pros que estavam gostando bem pouco do antigo e acreditaram que dava pra refazer.

Estava ali, em construção, uma casinha num canto qualquer da India sem nada em volta. Grama baixinha, pontas de pedras, um morro na frente, varias arvores à esquerda quase saindo de quadro, telhado verde, futura varanda, janelas de madeira e vidros e uma antena de TV via satélite. Em tom de brincadeira a amiga mostrava a ela que até nos lugares mais distantes do planeta seu ganha-pão estaria garantido! Aquela casinha lá nos cafundós lhe pareceu tão aconchegante quanto cobertor fofinho no inverno. Alguém no outro lado do mundo, por um detalhe imperceptível para os tantos turistas que passam por ali, se lembrou dela. Só aquela pessoa olharia praquela antena e pensaria naquela história. Talvez fosse isso a poção mágica, do fim do mundo veio uma pista.

Começou a cantarolar o verso que sempre lhe intrigou - tudo que a antena captar meu coração captura... E sorriu. Ela iria viver a vida ao vivo porque essa era a sua opção, e ao vivo a gente improvisa. Tudo bem.

24.6.10

Pra não dizer que não falei de Saramago

"Diz o refrão que não há bem que sempre dure nem mal que ature, o que vem assentar como uma luva no trabalho de escrita que acaba aqui e em quem o fez. Algo de bom se encontrará neste textos, e por eles, sem vaidade, me felicito, algo de mal terei feito noutros e por esse defeito me desculpo, mas só por não tê-los feito melhor, que diferentes, com perdão, não poderiam eles ser. Às despedidas sempre conveio que fossem breves. Não é isto uma ária de ópera para lhe meter agora um interminável adio, adio. Adeus, portanto. Até outro dia? Sinceramente, não creio. Comecei outro livro e quero dedicar-lhe todo o meu tempo. Já se verá porquê, se tudo correr bem."

*****
"O mais certo é ser a palavra o melhor que se pôde arranjar, a tentativa sempre frustrada para exprimir isso a que, por palavra, chamamos pensamento."

12.6.10

Uma porção de bolinhas de queijo

(Conversa de botas batidas)
Primeiro concluímos que o Leblon estava se transformando em Epcot Center. Japonês, árabe, espanhol, português, italiano, todos os povos estavam espremidos em não mais que um quarteirão, representado pela culinária um pedaço da cidade reunia todo o mundo: it’s a small world after all. Traduzido com o nome de bebidas até o lema foi copiado – “if you can dream it you can do it” é uma baboseira suicida sem fim. E como em um mini-mundo eles não poderiam faltar, identificamos imediatamente a Faixa de Gaza onde circulam livremente os terroristas, homens-bomba das origens do movimento pela libertação Hamas, a.k.a. Jamás se iluda com eles.
Tem problema não, nosso tabuleiro de War está armado em cima da mesa, vai jogando. Não temos pretensão nenhuma de conquistar o mundo, o objetivo é ter boas histórias para rir no final. No dialeto Jobi escreveu o poeta: tudo vale a pena se a alma não é pequena. Pequeno é só o orçamento desse filme com elenco reaproveitado, vambora, roteiro bom sustenta a obra.
Vou pra festa de dia dos namorados nenhuma, podem encher o Scala com dancinhas comemorativas que eu vou ver o jogo de um lugar seguro. Desculpe, slogan, “faz de conta que sou o primeiro” vai me fazer acreditar que é o único. Pfffff.... Sei lá se já fiz loucuras por amor, assumo todas as que já cometi por falta de amor próprio.
It’s time, diz a Jabulani.
Agora penso que a figura do quebra cabeça pode ser uma pintura surrealista e, se não soubermos logo, não vamos entender nada e ficar chorando porque não faz sentido. Faz assim: eu tento e te conto.

4.6.10

Glossário da Copa

Se o Beckham vai à Africa só dar apoio moral eu também posso oferecer ajuda com minha perspectiva única! Não entramos em campo, mas entendemos do negócio.
Começa o jogo aqui no Tribuneiros.

Ke Nako!

2.6.10

Lixo

Se não consigo me concentrar, essas vozes, onde foi o chão, porta, estou em pânico. Pânico. Fome porque é impossível comer, vontade de morrer. Sair correndo se tivesse força, cair no chão, por favor, me deixa ir embora, fugir pra longe daqui, desaparece. Queima esses jornais, rasga fotos, nome, menções que são mísseis. Sou engolida por um monstro gigantesco ou ferida com um punhal no meio do peito, esse maldito ponto que lateja como se tivesse prendido o dedo na porta. Não, por favor, de joelhos em súplica: não. Me sinto zonza. Não foi assim que descreveram os poetas, se existe música é trilha de terror, mil tubarões engolindo barcos a um relance da sua mão na dela. Sai! E cresce um ódio, bateria em você até me cansar e dormir. Rasgaria sua pele, exporia sua carne para mostrar um pouquinho do que corrói em mim. Se não precisasse depois acordar.

Se chorar adiantasse choraria por horas, dias, noites, gritos. Conversar, escolheria com cuidado entre todas as palavras do dicionário as que trouxessem você pra mim. Imploraria. Desenharia o tamanho do gostar e prometeria nunca te ferir. É isso? Tanta dor. Quando é bom? Se te trancasse em uma gaiola e alimentasse como meu você fugiria, eu temeria constantemente. Viveria em vigília, soldado a postos em guerra - contra quem? é em mim. Conseguisse, eu me mataria. Berraria até catapultar a parte tão infeliz. Fraca. Sem vergonha. Exterminaria cirurgicamente a sangue frio cada neurônio que reage a você nessa doença.

Engole esse choro e levanta a cabeça. Já. Não é ninguém, nada, não tem. Chega.

Não dá.

Um dia vai passar. Um novo dia.

Recolham esse trapo.

1.6.10

Thank you

De tanto acertar nos convenceram da nossa capacidade, ninguém prestou atenção ao esforço. E se baixássemos as armas? Com tanto acerto mal conhecemos o erro, não nos arrependeremos deles.
As fotografias de apartamentos pasteurizadamente decorados, quadros de Hopper, violinos cortantes. Juro que queria algumas palavras, quais são? E se por um momento elas me faltarem? Fica essa mensagem estranha, não entende como vazia, está repleta, só embaçada. Ecos em uma caverna, água gelada que nem dói. E se superarmos a anestesia?
Tem muito branco, pérola, superfícies lisas. Três goles da bebida mais cor de sangue na taça mais fina para despertar o que adormece. O que se embala com os sons dos carros cortando a larga avenida e aqui ao lado tem uma pequena rua, vou pintá-la. Como se a caixinha de música na mesa de mármore tocasse a melodia do bosque que se chama solidão. E se não tivermos medo de lobo mau?
Agora que sorriu não se esqueça de trazer as cores, respirar fundo para renovar o ar. Presta atenção. Tira o sapato, escuta o vento. Aceita, mas não desiste. Se entrega, não se entrega, permite. Esteja lá, só, lá. Naquele momento. Não tire fotos, guarde lembranças e seja capaz de recontar as histórias, desenhe em aquarelas ou grafite paredes, faça viver. Toque a pele encardida das mulheres, os enfeites que as fazem tão sagradas, as sedas e crenças, busque a força que os faz tão ingênuos. Espertas somos nós construindo fortalezas que nos trancam do lado de dentro. Faça parte. Depois me conta como querer sem se quebrar, que nunca entendi como não desejar não é morrer.
E se não for nada disso, recomece. Não se esqueça. De tanto errar perderemos o medo.
Boa viagem, aproveita o caminho. Um dia componho uma canção, um dia entenderemos tudo melhor.

Leva Alanis no Ipod.

27.5.10

How's “this” for muchness?

O assunto do email dizia algo como “velha, mas boa”.

“Durante a visita a um hospital psiquiátrico, um dos visitantes perguntou ao diretor:
- Qual é o critério pelo qual vocês decidem quem precisa ser hospitalizado aqui?
- Nós enchemos uma banheira com água e oferecemos ao doente uma colher, um copo e um balde e pedimos que a esvazie. De acordo com a forma que ele decida realizar a missão, nós decidimos se o hospitalizamos ou não.
- Entendi - disse o visitante. Uma pessoa normal usaria o balde, que é maior que o copo e a colher.
Não - respondeu o diretor - uma pessoa normal tiraria a tampa do ralo. O que o senhor prefere? Quarto particular ou enfermaria?”

E terminava com a frase “dedicado a todos que escolheram o balde”.
Danou-se. A palavra que pensei foi uma pouco mais agressiva, mas com o mesmo significado – não me encaixo nem em hospital psiquiátrico. Talvez no circo.

Eu pensei em pular na banheira. Dar uma bomba como fazíamos na piscina durante as férias de verão e depois provocar ondas até toda a água transbordar. Ainda gosto de fazer isso no terraço dos meus pais, não a bomba porque com tamanha profundidade eu quebraria o coccix, mas o maremoto: com os braços e as pernas esticadas vou e volto de uma borda à outra e com meus impulsos crio um Wet and Wild! Quando chove é mais legal, tempestade no mar revolto! Mas o normal é tirar a tampa do ralo.

Em mais uma manhã incomodamente sonolenta me arrastei para ligar a TV e assim algum barulho me manter acordada, e notei que o apresentador começou o jornal animado: “faltam quinze dias para a grande festa do futebol!”. Vi os jogadores saindo do avião, entrando no ônibus e o repórter em frente ao tapume que cobre o hotel, o piloto que tirou uma foto de dentro da cabine ao aterrissar, o ônibus não adesivado, nas ruas vizinhas ninguém circula. Como o homem pilota um vôo desses e não tira foto com os jogadores? Nenhum tinha pandeiro pra puxar um samba no caminho? Foi em 2002 ou 2006 que eles cantavam “Deixa a vida me levar”?

Lá nas férias de verão eu gostava de fazer concurso de pulos: nos jogávamos na água em pé como prego, girando como parafuso, de barriga, cambalhota, correndo de longe, no final do dia era um tal de pingar álcool nos ouvidos das crianças que não duvido que a prática tenha causado danos à nossa audição. Eu nunca mergulhei de cabeça. Não aprendi. Sempre achei lindo quem chega embalado, rasgua a água com as mãos e aparece lá do outro lado com um ar de refrescância. Eu sempre achei que não conseguiria, e parei de tentar.

O mais óbvio é tirar a tampa do ralo. Qualquer ser cerebrado pode tirar a tampa do ralo depois de arregaçar as mangas para não se molhar. Tirar a tampa é o esperado, óbvio. Sem graça pra quem acha que quando conhecemos alguém especial o mundo pára, que a felicidade é como um bode tocando violino. Quem quer de qualquer forma vibrar na Copa do Mundo então passa a seguir os convocados no Twitter, colecionar as figurinhas do álbum mesmo que todos já o tenham completado e marca uma visita-guiada ao Maracanã pra ver se isso desperta algum sentimento incontrolável que não seja medo. Quer sentir arrepios, teima que a vida é assim. Que precisamos nos afeiçoar a esses jogadores, torcer, é Copa do Mundo!

Futebol é legal por ser uma caixinha de surpresas.
Essa é velha, mas boa.

The Mad Hatter: Have I gone mad?
Alice checks Hatter's temperature.
Alice Kingsley: I'm afraid so. You're entirely bonkers. But I'll tell you a secret: all the best people are.
(Alice in Wonderland, de Tim Burton)

23.5.10

O vírus da pressão (um dedinho de prosa)


Sobre gripe suína e Lulu Santos, lá no Tribuneiros. E algumas mudanças por aqui para help me get my feet back on the ground.

30.4.10

Msg para @girino

Recorde histórico: surgimento de uma nova pessoa faz Bruna ter crise de ansiedade em menos de 4 semanas. Leia hoje no Tribuneiros.com.

28.4.10

Os Buchas

Assista aqui.

Porque eu até acredito em alma gêmea, mas morro de medo de espíritos.

19.4.10

Cartas a um girino (volume I)

Era uma vez meninas que brincavam de princesas. Um dia elas descobriram que os sapos eram bem mais legais do que os principes, e começaram até a conversar com girinos.
Abra aqui a correspondência alheia.

15.4.10

Remington & Sons

Há muito tempo, em um mundo nem tão distante, não existia o verbo deletar. Não existia nem o "Delete". A menininha colocava a máquina em cima da mesa de jantar, encaixava o papel com cuidado pra não ficar torto e assim as histórias não parecerem que cairiam da folha e ia empurrando com os dedinhos as letras até o fundo, para que as hastes subissem com força e carimbassem o simbolo correspondente à imaginação. No final puxava a obra com orgulho e guardava numa pastinha de elástico.
Um dia eu escrevo sobre a máquina automática que as crianças não podiam usar: "vocês vão acabar com a fita de apagar". E um dia eu aprendo a fotografar.


7.4.10

10 lições que você aprende ao ficar presa no temporal

1. Os vizinhos do andar de cima criam hipopótamos no apartamento. Só isso explica os barulhos.
2. A cobertura da Globonews é mais legal enquanto os repórteres estão alagados na rua.
3. Mamãe não quero ser prefeito.
4. É bom que sobrem alguns ovos de Páscoa.
5. Para o caso de faltar luz, tenha livros e Rivotril em casa. Ou banheira e vinho, assim você faz sonoterapia.
6. Internet no celular é tão importante quanto um par de galochas
7. Não tente roubar os pedalinhos desgarrados da Lagoa para passear pela cidade, algumas pessoas não tem seu humor negro e estão realmente em apuros.
8. Seja o primeiro a correr pro supermercado. Zombar dos desesperados que começam a estocar alimentos não perecíveis fará com que você passe fome depois de 30 horas de temporal.
9. Lave ao menos um casaco a cada quinze dias. Depois de meses de verão inclemente eles te matarão de alergia se a temperatura cair e você não vai querer perder a grande chance de passar a tarde enroscada no sofá só ouvindo a chuva, como na infância.
10. Monte com amigos uma playlist temática sobre chuva. Se eles não forem completamente surtados se ocuparão por mais de 5 minutos com a brincadeira e chegarão ao seguinte resultado:

1. Chove, chuva (Grammy de piadinha mais infame da semana)
2. Aguas de março (em versão abril)
3. Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
4. Purple rain, do Prince
5. Chove lá fora e aqui (no meu caso, também chove)
6. Eu quero que chova uma chuva bem fininha
7. Rain da Madonna
8. Rain dos Beatles
9. The rain do Roxette
10. Queen of Rain da mesma dupla
11. Raindrops keep falling on my head, Burt Bacharach
12. Have you ever seen the rain – não como essa, Credence Clearwater
13. Black Rain, do Ben Harper, em São Paulo
14. Singing in the Rain, com Gene Kelly em uma cidade onde a água escoa pelos ralos e as encostas não desabam
15. November Rain, do Guns n' Roses, que ganhou prêmios nos quesitos merchan (cabelo de anúncio de xampu do Axl), figurino (terno azul cintilante, o vestido de noiva e as backing vocals vestidas como Madonna em Like A Virgin), actor in a suporting role (Slash quando não encontra as alianças do casamento e num solo de guitarra de pernas abertas em frente à igrejinha do deserto) e momento “não faça isso em casa” (um convidado infeliz se joga em cima do bolo de casamento pra escapar de uns pingos d'água)
16. Come Rain or come Shine, do Ray Charles
17. Dry the Rain - The Beta Band
18. No rain - Blind Melon (sim, eu também adorava esse clipe da abelhinha no Disk MTV com a Astrid!)
19. It's raining men (vai que cai um do céu)
20. I'm only happy when it rains, que o Garbage compôs numa tarde como a de ontem
21. Right as Rain, da Adele
22. Rainy Days, do Ja Rule
23. Why does it always rain on me, da época em que o Green Day Morava numa casa com goteiras
24. The Rain Song, do Led Zeppelin (recomendada por nossos especialistas como “linda de doer”)
25. Fool in the Rain, que o mesmo Led Zeppelin compôs ao te ver andando no atoleiro pensando em roubar um pedalinho

Bonus track: O Rio de Janeiro continua lindo.

Agradecimentos especiais: Dear Juliet (que não é a de A Rainy Day Song!)

3.4.10

Exercício (eu, o Cazuza e pessoas de cabelos enrolados adoramos um amor inventado)

Que estranho seu Cristo, Rio
De braços abertos sem proteger ninguém
Do frio do abandono, solidão, pensamentos soltos
e eu já não sei onde terminam ou começam histórias
se coloco palavras por ser ou pra rimar

Eu preciso dizer que não te amo
Passageiro
Essa tristeza existe só pra depois a gente medir o amor feliz
Como eu vou saber?
Você vai saber

Não tem mentira, não
Tá tudo aqui, embrulhei numa trouxinha pra despejar na sua cama
Encaixa aí
Essa marra, minha raiva, pecinha por pecinha de um quebra-cabeça imperfeito de quebra coração, quebra ilusão
Com a gente não é assim não, amor
Desculpe dizer: esses versinhos são pra mim, nenhum pra você

24.3.10

Caio

"Porto, 22 de dezembro de 1979

Zézim,
cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tUa carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quietO e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portantO, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudo-inteligente.

Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace al andar”.

Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.

Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentem ente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.

Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tUdo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.

Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.

(...)

Ler é alimento de quem escreve.
Caio Fernando Abreu

16.3.10

She and him

Distribuição de Serenata do Amor aqui no Tribuneiros pra acabar com o estoque.
E uma música.


7.3.10

Os poderes de Greyskull

Você pode acordar para ir trabalhar ou faltar e ver todas as estréias da semana. Pode vestir um terno ou decidir que hoje vai casual, mesmo que não seja friday. Pode almoçar no restaurante ali da esquina ou andar mais um pouco e arriscar um novo, ir regularmente à academia ou caminhar no parque ouvindo música. Pode dormir com a TV ligada ou ligar para alguém com quem não fala há tempos, arriscar outro caminho ou seguir naquele já conhecido, pode fazer Administração, Direito, Economia ou passar um ano a quilômetros da faculdade só para estudar línguas, arte e viajar por aí.
Você pode se formar e imediatamente começar uma pós-graduação ou confessar abertamente que não tem a mínima idéia do que quer ser quando crescer. Pode nunca sair de casa sem camadas e camadas de protetor solar ou torrar no sol e usar biquíni branco no inverno, pode ficar com todos os caras que te olham ou não estar nunca satisfeita com ninguém. Pode reclamar do que te incomoda ou esperar para ver se passa, guardar dinheiro para ter um carro zero ou andar de ônibus e ter mais sapatos que Imelda Marcos. Pode tocar vários instrumentos ou entender sobre musica tanto quanto o I-Tunes permite, insistir para ver se volta ou acreditar que acabou.
Pode saber de cor quantas calorias tem em cada alimento ou fechar a boca sempre que a calca jeans apertar, ler todos os clássicos ou os quadrinhos do jornal, sair todas as noites ou dormir oito horas por dia. Pode falar com seus amigos toda hora ou curtir os status nas redes sociais, viver num apartamento onde, se entrar correndo, cai pela janela ou se lembrar de avisar aos pais quando não dormir em casa. Pode anular seu voto ou se esforçar para entender os projetos de cada candidato, conversar para chegar a um acordo ou desistir porque não vale a pena.

Você não pode não se lembrar do que queria quando criança, não pode não saber se quem importa está bem, não pode não conhecer o lugar com o qual sempre sonhou ou não dar uma chance se existir uma mínima possibilidade. Não pode não saber quais musicas e filmes te fazem chorar e quais te fazem sorrir, não pode não descobrir por que está se sentindo mal há tanto tempo nem não ter algo só seu. Não pode não ter alguém com quem contar nem um motivo para continuar.
Você não pode um dia acordar e ver que não se lembra como tudo ficou assim. Pelo menos não deve.

Seu Martin 1, 10/09/2006

24.2.10

Juliet, naked

Quando a segunda-feira começou, ela não. Dormiu mais meia-hora no dia em que o ano começava porque ela já tinha começado, mesmo que da forma mais atrapalhada possível. Foi a possível, e odiaria começar qualquer coisa em uma segunda-feira, seria banal.
Enquanto todos se moviam para seus trabalhos ela comprou um suco de laranja e caminhou na direção contrária para olhar as revistas da livraria que tinham sido substituídas por livros enormes e desinteressantes que obviamente estavam ali só para disfarçar o vazio. “Que merda!”. Então foi para a praia. Não pensou “que merda” com raiva, até chegou a olhar para o livreiro a fim de dizer que estava ruim, mas desistiu. “Ele deve saber”.
O cara mais interessante da areia tirou os óculos Ray Ban e deu um mergulho enquanto ela se deliciava com o espaço, o calor e o barulho das ondas. Na volta ele pegou uma toalha na sacola ecologicamente correta de supermercado e se deitou de bruços. Ela achou ruim, mas não lamentou. "Ele deve ser gringo".
A amiga voltou da tomografia de seios da face e tirou a roupa depois de tirar da bolsa o mesmo livro que ela estava lendo, e nenhuma das duas queria ver o filme apesar de adorarem cinema. Ficaram uma meia-hora considerando a vida sexual dos outros para concluir que todos mentem, decidiram que a tecnologia era culpada pelo aumento da ansiedade, se espantaram que em 2010 uma mulher não pudesse só querer sexo e desconfiaram da certeza dos que prometem ficar juntos até que a morte os separe. Cogitaram maconha como tranquilizante, mas acabaram se conformando em ver obras de arte. Acordaram que poderiam fazer a comida para o amado exausto, se conseguissem um amado e isso não as deixasse exaustas.
Enquanto o sol se escondia atrás da montanha escurecendo o Leblon, os créditos subiam ao som de Silly Love Songs. Roteiro, direção, figurino, trilha, tudo era assinado por elas, mesmo que às vezes errassem no casting. Eram boas personagens, só não gostavam de tanta reality no show.

18.2.10

Da jardineira

Era o calor que subia do asfalto ou havia uma névoa na avenida. O trombone pesava no velhinho, parceiro de tantos Carnavais. Na banda tocava-se cada um a seu tempo, e aquilo era tudo o que não podia me faltar na vida. As marchinhas estavam no acorde errado, ou era eu.

Os três dias de folia e brincadeira, eu pra cá e você pra lá, era só até quarta-feira. Aquela máscara negra que esconde do rosto a saudade nem saiu do armário, arlequim mal sabia por que chorava. No balancê tantos passavam sem despedaçar um coração, só restavam os mais de mil palhaços, cada qual segurando uma camélia, a sorrir no salão. Se fossem sinceros pulavam? Valsavam.

As cinzas vieram antes. Não posso mais.

Naquela esquina em frente à livraria não se cantou As Pastorinhas. Nem vi a livraria, confete ou serpentina, não ouvi o Abre alas. Eu devia ter puxado que “esse ano, meu bem, está combinado”, mas precisaríamos ter nos falado antes pra você perceber o recado. Então quando notei inventei uma coreografia solo não para revolucionar a festa, mas por não ter par. E a turma toda grita, que no barulho não se ouve nada mesmo - colombina, onde vai você? E ao me ver já estava dando a volta na praça, tamborim de um lado, o surdo a bater, cantando o refrão até o amanhecer: “gentileza é assim, eu cuido de você e você cuida de mim.”

Foi um último gole. Foi bom te ver outra vez, só não posso beijar-te agora. Não me leve a mal. Quero cantar até decorar que esse mundo é todo meu para de novo poder pular o Carnaval.

Lala-iá lala-iá, lala-iá lala-iá, lala-lalala-laiá. Hey!

4.2.10

Quem te viu, quem te vê

"Oi Bruna,
Como se dizia naquele programa humorístico: “Olha o coração do velho!”
Fico muito lisonjeado e emocionado por ter dado uma pequena contribuição ao seu belo texto. É lindo ver que palavras que escrevi sem muito cuidado se transformam em ótimas colocações para sugerir uma conduta de vida. Parabéns. Tenho certeza que você se saiu muito bem na palestra.
Quanto à autorização, os direitos autorais daquele texto são seus. Eu o escrevi para você.
Um beijo,
F."

E eu publiquei aqui, para arrumar as coisas e termos todos um bom Carnaval.

26.1.10

Landing

NATALIE
When I was 16 I thought by 23 I would be married, maybe have a kid… corner office by day, entertaining at night. I was supposed to be driving a Grand Cherokee by now.

ALEX
Life can underwhelm you that way.

NATALIE
Now I have my sights on 29 because 30 is just way too… apocalyptic. I mean where did you think you’d be by…

ALEX
It doesn’t work that way.

RYAN
At a certain point, you stop with the deadlines.

ALEX
They can be a little counterproductive.

(...)
ALEX
You really thought this guy was the one.

NATALIE
I guess. I don’t know. I could have made it work. He just really fit the bill.

RYAN
The bill?

NATALIE
My type. You know. White collar. College grad. Loves dogs. Likes funny movies. Six foot one. Brown hair. Kind eyes. Works in finance, but is outdoorsy, you know on the “weekends.” I always imagined he’d have a single syllable name like Matt or John or… Dave. In a perfect world, he drives a Four Runner and the only thing he loves more than me is his golden lab.
Oh… and a nice smile.
What about you?

ALEX
Well… by the time you’re 34, all the physical requirements are pretty much out the window.
You secretly pray he’ll be taller than you. Not an asshole would be nice. Just someone who enjoys my company. Comes from a good family- you don’t think that when you’re younger. Wants kids… likes kids… wants kids. Healthy enough to play catch with his future son one day. Please let him earn more than I do - that doesn’t make sense now, but believe me, it will one day. Otherwise it’s just a recipe for disaster. Hopefully some hair on his head… but it’s not exactly a deal breaker anymore. Nice smile. Yep. A nice smile just might do it.

NATALIE
Wow. That was depressing.

Up in the air

24.1.10

Lost in translation

Aceito, é difícil ser brilhante todas as vezes. São muitos lançamentos que exigem diversos processos de rotina em uma equipe que não necessariamente está super envolvida com aquilo e um deles, só mais um na lista de coisas a serem feitas, é criar título em português. Se o filme tem nome de gente, danou-se, na melhor das hipóteses acrescentam um complemento explicativo para mongol, mas normalmente avacalham tudo.
Eles mudam os cartazes. Obviamente por trás dessa decisão existe um estudo de marketing provando a necessidade de se adaptar a imagem do filme à cultura local e eu não sei se são criadas varias opções de cartazes ou cada escritório regional tem carta branca para adaptar a seu gosto, mas pessoalmente gostaria de sempre olhar um cartaz aprovado pelo diretor - quem imaginou aponta a figurinha. É dar tiro no meu próprio pé pregar a liberdade artística em prol das decisões executivas visto que parte do meu trabalho consiste em meter o bedelho na obra alheia, mas aqui sou só uma menina sentada na frente de um computador pedindo aos distribuidores de filmes mais atenção.
Não são monstros (inclusive, achei-os fofinhos!). É “onde estão as coisas selvagens”. Não entendeu o tag line? (o slogan do filme) Não entendeu o filme? Como se não bastasse tudo o mais, percebo que tradução também é complicado.
Você pode colocar seres azuis correndo em uma floresta em 3D para pregar o bem, pode filmar a história de um menino abandonado que se torna rei de seres peludos e grandes com medo da solidão, ou simplesmente andar com um cartaz na rua escrito: eu estou te vendo, está tudo bem. É o que as pessoas sentadas naquela sala escura precisam, mesmo as que só vão ao cinema ver Velozes e Furiosos. Mas algumas não vêem tão claramente. Ou vêem e saem correndo (o “monstro” explicou, nem sempre reagimos como queremos).
Encontro-me em uma fase complicada com as palavras, dificuldade de exatidão. Sofrer em inglês é quase mais fácil se você já passou maior número de horas assistindo a produções made in Hollywood do que ficção na TV aberta, porém é preciso um esforço extra por parte dos encarregados na função de encontrar o nome certo para o que está ali. Se você errar a palavra que define a coisa o outro pode não entender, e aí a historia foi em vão. Se é que existem histórias em vão.
Existem em cartaz Where the wild things are e Up in the air. Don’t miss it.

13.1.10

Receita para tempos bons

Para se ter um bom ano é preciso Carnaval. E poesia. É preciso barraca de praia, biquíni novo e Sundown. É preciso uma mesa de bar com amigos, histórias inacreditáveis de se ouvir, e questões.
Para se ter um bom ano é aconselhável dois Ipods, se roubarem um ainda sobra outro. (Para se ter uma boa cidade seria preciso menos violência, mas para acreditar nisso seria preciso algo que já perdi). Para se ter um bom ano é preciso internet rápida para baixar músicas novas e pessoas velhas que conhecem músicas. É preciso que alguém veja o que eu vi, por mais surreal que pareça. E que alguém se lembre do pedaço da noite que esquecemos (mas como assim)?
O ano melhora com um mergulho, piscina, mar ou a cachoeira se você encontrar. Um bom ano tem noites em que uma cama menor bastaria praquelas duas pessoas, é mais fácil com muitas pessoas mesmo que só exista uma, mais carinhoso com cachorro abanando o rabo mesmo que não seja seu e mais garantido com algum trocado. É preciso vento.
Para se ter um bom ano é preciso bons livros, filmes e séries, alguma comida, e pedaços de morango com chocolate. É preciso um entorpecente qualquer, alguém que chegue perto e te bote tonta, que venha dançar assim pertinho e você pense que seria prudente sair. É preciso imprudência, imaturidade e um tiquinho de irresponsabilidade. Para se ter um bom ano é preciso dormir no sofá.
Um bom ano melhora com torcida, na arquibancada ou na cadeira. É bom um ano com Copa do Mundo. É inútil um ano sem beijo. Para se ter um bom ano é preciso ver o sol nascer, o sol se por e tomar chuva. É preciso cantar. Dançar. Surpresa. É preciso chorar, aprender o nome de uma flor diferente e usar uma roupa linda.
É bom que tenha avião, que se faça malas e planos e roteiros de viagem. É fundamental viajar, mesmo que sem tirar os pés do chão. É preciso tirar os pés do chão mesmo que em quadrilha de festa junina e é preciso fantasia, o ano inteiro. É preciso que se libere o Matte de galão e batucar na mesa, liberar ajuda.
Para se ter um bom ano, é preciso Vinicius: a vida só se dá pra quem se deu. É preciso tentar.

4.1.10

Gentle people with flowers in their hair

Fui chamada no meio da noite, o prefeito batia à minha porta. Não sei se mais pelos efeitos dos remédios para dormir, pela hora ou pelo inesperado, estava completamente zonza, eram tantos oficiais do Choque de Ordem que mal cabiam na minha pequena sala. Queriam me levar para a praia antes que amanhecesse. Tenho levantado a hipótese da cidade não poder sediar eventos internacionais, me enfureço com a proibição do Matte de galão na orla e não dos flanelinhas, mas a razão da urgência não era censura: dezenas de leões-marinhos ocupavam as águas do Leblon.
Era a terceira vez no repeat, volume máximo. Estava com essa mania de ouvir música aos berros para que me desligasse das baboseiras cuspidas, dos meus pensamentos, tinha que ser mais alto. Fosse mais alto talvez eu berrasse e se berrasse no meio do escritório talvez fosse internada, ou libertasse aquelas almas excelianas que lutam pelo nada. Na ida, a cada relógio-termômetro a taquicardia aumentava e com ela o calor e aquele engarrafamento de idéias e palavrões e era apenas uma manhã qualquer de uma vida, existia a promessa de um verão inteiro pela frente e a visão de um mar lindo à direita e nada parecia suficiente, pior, tudo parecia motivo óbvio para que aquele tradicional trajeto fosse interrompido e coisas absolutamente sem sentido fossem feitas porque nenhum sentido mais havia em chegar onde eu estava indo. Não era mais try a little harder, era parar. No mais barato dos clichês, deixar a vela panejando porque não existe pressa e à noite no mar ecoam os versos de que o céu de Icaro tem mais poesia que o de Galileu.
Peguei um avião, “tira umas férias!”. Exausta, me vi ali sentada, caveiras e monstros correndo felizes pelo Pier 39 no sábado pré-Halloween, olhos ardendo por causa do fedor que os cartões postais não mostram, hipnotizada por leões-marinhos que se derrubavam uns aos outros por um cantinho no sol. Hilário. Eles são bem parecidos com focas e tão gordos! São da família das “otters”? “Otters” são tão bonitinhas, quando pensava em lontra imaginava uma coisa meio capivara. Eu queria ter uma lontra. Não tomei nenhuma grande decisão nas tardes ali sentada, não refleti sobre minhas angústias, fiquei parada automaticamente respirando e achando graça dos gorduchos barulhentos. Me afeiçoei a eles.
A visão na praia era linda. A Niemeyer amanhecendo, eu e o prefeito, milhares de leões marinhos. Vieram me dar um abraço. Acho que choramos um pouco, mostrei o Arpoador, pegamos uns jacarés e eles partiram. O prefeito se acalmou, nos jornais cariocas não foi publicada uma linha, só uma nota sobre os folclóricos leões-marinhos terem desaparecido de San Francisco.
Às vezes tudo o que precisamos é de amigos que acreditem em nós.

Be a good boy
Push a little farther now
That wasn't fast enough to make us happy
We'll love you just the way you are
if you're perfect