27.5.19

Linda do Rosário

A viagem de BH a Brumadinho que levava uma hora durou quase o dobro do tempo. O trânsito para chegar foi explicado por dois motivos: tem muita gente trabalhando na cidade desde o rompimento da barragem em janeiro e tem muito mais carros dos moradores nas ruas. Por um ano a Vale vai pagar mil reais para cada pessoa que vive ali. “Os supermercados estão cheios, a lanchonete tem fila, muita gente parou até de trabalhar. Não sei o que vai acontecer quando esse novo salário acabar, mas hoje vivemos assim”, contou o motorista logo depois de se desculpar pela sujeira que cobria o carro dele. Uma camada de poeira de terra deixa tudo amarronzado, pelos muros há pichações como “Não foi tragédia, foi crime”, a ponte sobre o rio Paraopeba tem fitas brancas amarradas na grade e a estação de tratamento da água foi desativada.

Os funcionários do hotel, taxistas, guias, todos se dispõem a conversar sobre o ocorrido com uma gentileza que na minha cidade não tem mais. Naquele sotaque mineiro que quando falam entre si torna quase difícil para uma carioca acompanhar a prosa, mostram toda a alegria em nos receber de novo. Inhotim viveu dias com mais funcionários do que visitantes, contou o Douglas. “Não espera um ano para voltar não, Bruna, vem de novo logo.” Quem estava no centro da cidade quando chegaram as primeiras mensagens sobre o problema na mina do Córrego do Feijão narra a incompreensão - “começamos a correr pelas ruas, mas para todos os lados porque nem sabíamos por onde fugir ou o que realmente estava acontecendo.” A lama percorreu mais de cem quilômetros e matou 243 pessoas na contagem até agora. “A cidade é pequena, né, então todos perdemos algum parente ou amigo”. Em Inhotim, totens com frases como “Exerça Presença” reforçam a importância de estarmos de novo ali. O instituto não foi atingido, os jardins, as obras e os animais seguem compondo um dos lugares onde eu sou mais feliz no mundo. As salas do Miguel Rio Branco provocam reações na pele, o lago com o pavilhão True Rouge muda o ritmo da minha respiração, a parede da Adriana Varejão inspirada no desabamento de um hotel continua lá.

A 140 quilômetros dali, em Barão de Cocais, Graça também continua no hotel, Soraya na papelaria e Andrea na sorveteria. As minas de Gongo Soco reúnem diversas lendas e histórias de uma riqueza que já gerou sete quilos de ouro por dia. “Vem para cá conhecer as ruínas, são lindas!”. O convite se torna singular nesse momento porque as ruínas às quais Andrea se refere são das antigas fazendas do império, mas a qualquer momento podem surgir novas. Equipes acompanham dia e noite a movimentação de um talude que, quando desabar, pode causar uma vibração e romper mais uma barragem da Vale, espalhando lama composta por resíduos de minério por toda a região. Desde fevereiro a sirene de perigo já tocou três vezes. Os moradores do bairro mais próximo – classificado como Zona de Autossalvamento - foram removidos deixando para trás até os animais de estimação, e a população da cidade passou a conviver com faixas laranja nas calçadas indicando a rota de fuga. Vivem esperando o alerta. Carros em locais estratégicos para levar quem tem dificuldade de locomoção reforçam o plano de refugiar em quarenta minutos cerca de 6 mil moradores nos Pontos de Socorro.

A pedido da Defesa Civil, Andrea fechou a sorveteria no dia do simulado para que todos pudessem participar, mas dali ninguém foi. Preferiram usar a folga para fazer faxina ou ficar em casa, as pessoas não acreditam que o pior vá acontecer. O marido dela tem certeza de que a barragem não vai romper por causa da sua fé, mas ela não consegue pensar assim. “Me sinto sob ameaça todo o tempo como se eu fosse refém e não tivesse dinheiro para resgate. Nem durmo, minha filha estuda em BH e pedi para ela não vir mais. Sei onde são os Pontos de Socorro, mas e se eu ficar tão nervosa na hora que não consiga correr? Se precisar ajudar os idosos e as crianças, como vai ser?” Na última semana Andrea passou a fabricar menos sorvete do que o usual porque não sabe o que vai acontecer se a barragem se romper - se ainda haverá energia elétrica na sorveteria, se haverá pessoas para tomar sorvete, se haverá a sorveteria.

Por um misto de fé e estatística, Soraya também não acredita na destruição pela lama. “Tem dez por cento de chances de acontecer, e os outros noventa? Temos que pensar neles”. Para ela, a Defesa Civil está sendo cautelosa porque teria que arcar com a responsabilidade de uma terceira tragédia em Minas se não fosse e a mídia está dando um peso muito grande e fazendo parecer que Cocais virou uma cidade fantasma. “A vida segue normalmente por aqui. Ficam noticiando um desastre e os bancos fecharam, os turistas não vem mais, nós precisamos trabalhar, tem que parar com isso. Estamos bem informados e pedimos a Deus para não ter a trepidação”. Seu único medo é que as pessoas se desesperem na hora da fuga e esqueçam as orientações, que os pais entrem em pânico se as crianças estiverem na escola e precisarem ir para Pontos de Socorro diferentes dos deles. “Não existe nenhuma recomendação para deixarmos a cidade. Até tocar a sirene eu só saio daqui se vier a polícia”.

No último simulado de evacuação só 26% dos moradores participaram.  Graça não foi, nem pretende ir a lugar nenhum mesmo que venha a lama. “Eu vou para onde, minha filha?”. Com 67 anos, ela está há quinze em Cocais. A família é de Itabira, e sozinha já renderia um filme. “Minhas irmãs são todas casadas lá, minha mãe tem Alzheimer, minha sobrinha vivia aqui comigo até ontem, mas foi embora junto com os últimos hóspedes, uns sacoleiros de Friburgo. Ela não aguentaria ficar mesmo não, tremia que nem vara verde. Vai passar um tempo com o pai, que só pensa em encontrar os assassinos do filho morto no mês passado. Agora me diz: eu vou pra lá? Quem vai pagar minhas contas aqui? Só saio se a Vale arrumar outro hotel para eu trabalhar. Pode vir o Exército, podem me prender, eu não saio.” Mesmo sozinha no lugar, que fica ao lado do rio, ela não tem medo. “Abro a porta à noite, já peguei ladrão, sou pequena, mas valente!”

O dono da gráfica embaixo do hotel também não saiu, nem os funcionários da vidraçaria ao lado. Os da oficina também estão lá, o padre ficou na igreja, a família que morava em frente foi embora por conta própria. A maioria dos removidos era da região de Socorro, muitos conhecidos de Graça. A voz se altera ao contar que saíram sem nada, de repente, e não podem voltar, ficaram lá as roupas, os móveis, cavalos, cachorros, galinhas. “Mas sabe quem tem ido lá? Os assaltantes, estão saqueando tudo. Outro dia teve uma manifestação aqui, tinha uma faixa que dizia que a Vale mata tudo. Mata gente, mata animal. Vai matar nossa cidade!”

Andrea queria ir embora. Há dois dias manda para mim imagens de divulgação de Barão de Cocais destacando as coisas boas do lugar, fotos de cachoeiras e trilhas com a frase “Isso a mídia não mostra!”. Ela fica por não saber o que fazer com os funcionários e estabelecimentos que tem por lá. Já estava sofrendo os efeitos da crise econômica, agora não tem nem dinheiro para demitir mais funcionários. “Quando o Forum mudou de lugar acharam que era teatro da Vale, mas quando os bancos saíram daqui fiquei angustiada. Eu achava que a lama seria igual a jogar um balde de água no chão, mas o tenente explicou que não vai ser que nem enchente. A água vai embora, lama não. Acontece que as contas também não vão embora. O que vai ser de nós? Pode vir a Defesa Civil mandando fechar que não vou. Traz a polícia aqui e explico que pago imposto e não recebo nada em troca, dependo só de mim. Vou fechar como?”

Pedi a elas para me avisarem se escaparam bem quando o talude desabar - se houver comunicação em Cocais. Enquanto isso, as três continuam por lá com a mesma frase: “a vida não para não, uai”.


Quatro meses depois da tragédia em Brumadinho os investigados estão soltos, a multa aplicada pelo Ibama não foi paga e a Polícia Civil declara que o inquérito criminal em andamento já permite apontar a hipótese de homicídio com dolo eventual – quando se assume o risco de cometer o crime.


Nós também continuamos aqui, esperando.

8.4.19

Rap que nem a Rita adora

Primeiro foi a Rita, depois a Dora, agora essa de quem nem soubemos o nome.

Viveram um tempo com eles, os fizeram felizes e num belo dia partiram sem grandes explicações. Uma levou seu retrato, seu trapo, seu prato, uma imagem de São Francisco e um bom disco de Noel. A outra levou tudo que ele disse que já iria lhe dar. E a mais nova, apesar do Spotify, levou alguns CDs e o livro “mais da hora”. Isso além de planos, os pobres enganos daqueles meninos de vinte anos e (ai, o meu...) seus corações.

Eles ficaram desorientados abandonados, alguns mais e outros menos conformados, mas todos sem entender. O Chico acha que foi por vingança, Jorge taxou logo de “danada sem coração” e o Rashid ficou olhando para o bilhete onde ela dizia que partiria e jamais o esqueceria.

O Chico deixou de sorrir, ficou sem assunto, até o violão emudeceu. Jorge se compadeceu dele, daqueles compadecimentos onde o outro já vai logo contando uma historia de si mesmo que julga mais grave, e foi assim que soubemos da Dora. O homem parecia sofrer menos de saudades e mais por não ter tido seu esforço reconhecido, sua dor era pura interrogação: lhe dedicara trova, soneto, samba-canção, lhe dera máquina de lavar, um corpo morrendo de amar e sem qualquer explicação fora abandonado (vai ver ela só queria o tal presunto!). Ele ainda buscou na passadeira Sebastiana uma cumplicidade que louvasse seu empenho, mas de nada adiantou. Ao fim de poucas estrofes, porém, já caminhava para a recuperação: “se não deu pra gente ficar junto, é um lá outro cá”. Vida que segue.

E então, comprovando que há sempre alguém sofrendo por amor na fila do metrô, surge no dial (apesar do Spotify) mais um. Depois de trocar tantas noites pelo dia com ela, Rashid ficou só. Pensou que seria para sempre e agora pensa em como foi e como será daqui em diante, sentindo que perdeu a metade de si, rindo para não chorar do que ela deixou ao partir sem dó - guloseimas, um DVD e o toca-discos. Não pegou um violão, mas papel e caneta, colocou mais versos no seu rap do que os antecessores nos respectivos sambas e sem nem entrar no mérito do que é direito de cada um concluiu logo, poupando choramingos e bradando orgulho: se ela já deve estar em outro lugar, vale tentar logo ocupar aquele espaço porque tem muitas outras por aí. “Quer ir embora? Pode ir, mas devolve meus bagulho!”

Vida que segue rápido, que bom que ainda fazendo das tripas uma canção.  


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O bilhete do Rashid está aquiA Rita do Chico e o Samba Que Nem A Rita À Dora, do Seu Jorge/Luiz Carlos da Vila, não tem link oficial no YouTube. Para não incentivar a pirataria, deixo por sua conta a busca!


17.3.19

Que essa fantasia seja eterna


Depois de tantos foi meu primeiro Carnaval sem você. Sabe que muitas vezes ainda te conto se está sol ou chovendo ao abrir a cortina de manhã? É um hábito, assim como comentar sobre personagens da série ou reparar nos cachorros que queríamos adotar.

Foram dias leves. Todas as ruas eram permitidas, não havia risco de te ver e sofrer. Como eu sabia? Por uma libertação. Nada daquela felicidade dramática, como Alice descreveu ao olharmos fotos antigas. Como sofríamos por essas ruas! Hoje vejo meninas soluçantes pelas calçadas com fantasias e corações aos pedaços e sorrio compaixonadamente. Vai passar, eu penso. E faz parte da festa, são para isso tantos sambas e surdos tão potentes, joga esses sentimentos todos no cordão, querida.
Olha, meu amor, esquece a dor da vida, deixa o desamor caciqueando na avenida.

Desconfio que muitas delas nem conheçam esses caciques, tamoios, mulatos, mas tento não discriminar e manter a festa democrática. Cada um sabe porque veio e não falta é dor para curar.

A luta esse ano foi outra. Pelas ruas do Centro, quadras e barracões tentaram acabar com o Carnaval, mas sabe o que descobri? Não se volta atrás! Passei anos lamentando tudo acabar na quarta-feira e entendi que não acaba, talvez até ali comece. Esses dias que nos permitem os outros mais de trezentos nos mudam em algo que pode até demorar para vir à consciência, mas tocam onde tudo em nós nasce. Se ficarmos atentos no resto do ano permitiremos que floresça a mesma poesia explodida sob o sol escaldante da Presidente Vargas, quando aqueles gritos libertam o muito contido aprisionado. Se está tudo ali, não nos guardemos para quando o Carnaval chegar. Botemos todo dia esse bloco na rua! Que esse ano botamos os corpos, lindos, incandescentes de purpurina e mais nada a deter. Foi um ano em que todas as mulheres estavam pelas outras, eu cuido de você e você cuida de mim. Em seios, bundas, tatuagens, “elas estão ferozes” há quem diga. Elas estão cientes e inteiras, estão prontas. 

Estão no refrão, nas bandeiras verde-e-rosa, nas vozes das arquibancadas e camarotes, nas notas dez dos juízes, no Estandarte de Ouro, nas lágrimas explodidas de felicidade e poder por se ver acompanhado. Na luta a gente se encontrou, ninguém soltou a mão de ninguém. 

Meu nego, deixa eu te contar: não vem do céu nem das mãos de Isabel a liberdade. Eu quero que essa fantasia seja eterna.

9.2.19

Uma Brastemp II

- O senhor esteve aqui há três semanas olhando essa lavadora e me disse que valia a pena consertá-la, que ela era ótima, “não se fazem mais máquinas assim”. Como em tão pouco tempo não tem mais jeito?

- Ah, dona Bruna, máquina de lavar é igual à gente: um dia estamos bem, no outro já era.

E com essa filosofia ele me deixou, com quatrocentos reais a menos e a missão de comprar uma lavadora nova o mais rápido possível antes que montanhas de roupas dominassem a minha casa. Diante do retrato tão cru da efemeridade na vida nem me entristeci pela perda da máquina, protagonista de tantos textos e lições na rotina de uma dona de casa. O que me abalou foi o tempo que levei refletindo sobre nós, minha primeira lavadora e eu.

Há dez anos, quando nos conhecemos, eu guiava meu figurino pelas regras da Brastemp: não importava minha vontade, eu tinha que obedecer à necessidade de acumular roupas da mesma cor até atingir o nível mínimo de lavagem. Hoje nem me lembro dos conselhos dados lá atrás, faço tudo do meu jeito nas raras vezes em que não deixo para a faxineira que em uma semana lava, só na outra passa e com isso eu fico duas semanas esperando pela roupa, fruto do mix de cansaço-falta de tempo-madamismo que me acometeu em uma década. Estou ótima, minhas roupas também, a lavadora não por problemas dela, nada comigo. Não dá mais com essa? Vamos para a próxima, foi bom enquanto duramos. (Quem é essa pessoa desapegada?)

9, 10, 11, 12, 15 quilos, cesto de inox, plástico ou inox com base de plástico, água quente sim ou não, automática, semi ou tanquinho, lava e seca, turbo, reuso de água, porta superior ou frontal, diluição anti mancha, voltagem, cor? Deus, como eu vou escolher? Preciso de um consultor como existem os de investimentos, tenho que montar uma planilha comparativa de máquinas. Seria muito antiético delegar essa tarefa pessoal a algum estagiário da minha equipe? As salas de reunião são de vidro, alguém passaria e nos veria com uma apresentação em power point sobre maquinas de lavar, eu perderia o emprego e o sustento para comprar lavadora. Mães sabem comprar maquinas de lavar? “Mede o espaço que você tem na área, filha”, a minha quer que eu chegue no Ponto Frio e peça “uma lavadora de 50 centímetros por favor”.  

E se eu não tiver mais máquina? Passarei minhas noites nas lavanderias ouvindo música enquanto espero acabar o ciclo e ao meu lado sentará um homem interessante também sem lavadora e nos apaixonaremos como nos filmes... que se passam em Nova York. E se eu abrir uma enquete no Facebook? Além de checar os aniversários do dia meus amigos virtuais usariam a rede para opinar sobre marcas e modelos! Mas são tempos tão estranhos que algum radical poderia associar meu direito a ter lavadora com feminismo, geraria uma discussão politica, um escreveria em caps lock Ele Não, o outro O Lula tá preso babaca e um ministro me mandaria esfregar roupa no tanque como no início do século passado.

Há dez anos eu transformo questões práticas de serem resolvidas em dilemas existenciais que geram mais páginas do que ações. Eu só queria não ter nascido libriana. E um aplicativo que indicasse a lavadora mais adequada para cada pessoa.



Direto do túnel do tempo, "Uma Brastemp I" aqui