11.6.22

Odara

Tinha chovido muito em Salvador e o jardim exalava aquele perfume de plantas molhadas. Eu comia um pão de goiabada na varanda, sentada em frente ao Exu-guardião da casa, enquanto ouvia as histórias das viagens de Jorge e Zélia pelo mundo. A Casa do Rio Vermelho, agora transformada em museu, tinha sido a residência dos escritores por muitos anos, e as paredes guardam memórias de conversas entre eles e seus hóspedes que minha mente recriava como cenas de um filme ao ir passeando entre os sapos, os móveis, a cozinha colorida de azulejos, a máquina de escrever que Jorge Amado usava e seus manuscritos. 

Com o hábito de escrever em computadores, nunca mais saberemos por quantas correções e incertezas os autores passaram até chegar naquelas linhas finalmente apresentadas a nós.

Desculpem-me os donos da casa pela intromissão se tudo não era para estar tão exposto, mas me fez bem esse axé. Só segui o escrito na porta – “se for de paz, pode entrar”.


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Ainda no táxi liguei para confirmar se poderia mesmo visitá-los: “é só chegar”. As várias pessoas de branco deitadas nas sombras das árvores, em esteiras pelo salão, nos bancos, uma varria o quintal onde corriam galinhas, outra enxaguava as escadas, ninguém olhou para mim com estranhamento ou questionou o que eu fazia ali. Perguntei por Ana e fiquei esperando um tempo enorme, sem saber se aquilo era uma completa invasão. Mais tarde, Clara me diria: a primeira coisa que se aprende no candomblé é a esperar. Chegou uma vendedora de sorvete, um garoto carregando um jabuti, ouvi que era o dia das Águas de Oxalá e todos estavam desde a véspera em suas obrigações. Quando Ana finalmente apareceu, eu tinha ainda mais perguntas do que as já trazidas de casa.

- Queria que você me explicasse sobre a religião.

 - O que você quer saber?

- Tudo. O que os orixás fazem, se todo mundo é filho de alguém, por que jogam búzios, o que é Odo, Eparrê, Oyá, por que vocês estão de branco, o que são esses colares...

- Como você chegou aqui?

Essa resposta seria longuíssima, quase respondi “de avião” só para rirmos e não precisar me aprofundar. Então resumi:

- Me deu uma vontade.

Ana sorriu, disse “porque tinha que vir” e que eu ficasse ali até a noite porque Oxalá chegaria e eu poderia vê-lo. “Como ele vai chegar aqui?” pensei, mas também só sorri e entendi que ninguém me daria o curso “candomblé em trinta minutos”.

Por que tinha que ir, naquela noite fui parar no Gantois. Tem isso em Salvador – nem adianta muito se planejar, as coisas vão acontecendo. A Bahia tem um jeito...

Por sorte eu tinha levado roupas brancas suficientes para todos os eventos que foram surgindo, e eu aceitando. Tentava fazer o mínimo de perguntas possíveis para as pessoas – o que consistia em uma a cada minuto. Naquela noite seria anunciado o orixá regente do ano, estávamos no dia 3 de janeiro de 2020. Eu não entendia quase nada do que acontecia, e quando uma mulher trouxe lá de onde estava Mãe Carmem um papel e anunciou “Xangô” me apressei em checar as reações ao redor: “isso é bom, gente? Estaremos bem?”


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Fazia um calor de dois de fevereiro, descansávamos na escada da Fundação Casa de Jorge Amado, quando avistamos alguns Filhos de Gandhy.

- Vocês vão tocar?

- Vamos sim.

- Agora?

Ele olhou no relógio, Adauto, e fez uma cara de nenhuma convicção naquela agenda.

- Daqui a pouco. Vamos fazer o padé, depois saímos.

Os baianos do meu caminho falam coisas como se eu entendesse. Aceito e sigo.

- Querem entrar?

No botequim do Preto Velho vendia rapé contra enxaqueca, adereços, algo que se parecia com frango à passarinho, e a TV local transmitia a saída do presente-oferenda dos pescadores da Casa de Iemanjá para o mar no Rio Vermelho. Adauto nos deu água, um dos bens mais valiosos naqueles dias de geosmina, e outro homem veio em nossa direção com dois colares dos Filhos de Gandhy. “Um presente para vocês!”. O problema de se viver no Rio de Janeiro é que perdemos o hábito da gentileza, apenas não sabemos mais receber sem desconfiar. Participamos do padé – a cerimônia para Exu abrir os caminhos - ouvimos de Adauto histórias de como uma comédia indiana inspirou a criação do afoxé nos anos 40, vimos um senhorzinho dançar um miudinho ao redor da oferenda com uma graça que só no samba, tomamos muito banho de lavanda e, no final, quando perguntamos como retribuir de algum jeito, eles só responderam: “nada não”. Saímos atrás do bloco pelas ladeiras do Pelourinho seguindo três balaios de flores que seriam oferecidos à Rainha do Mar, com nossos colares no pescoço - símbolos do desejo de paz - e uma alegria que exalava mais do que a alfazema.

A música que tocara no táxi na saída do aeroporto já tinha me avisado: isso é pra te levar na fé.

 

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Quase dois anos depois pudemos voltar a sair de novo, e eu, a pessoa mais atrasada da história dos relógios, cheguei pontualmente cinco minutos depois da hora marcada para o ensaio. Novamente estava na casa de Caetano, agora no Rio e não em Santo Amaro, como se retomasse as coisas de onde parei - mas tendo feito muitas correções nos manuscritos. Tinha passado o dia estudando entrevistas recentes, o álbum novo, além de toda a bagagem acumulada de anos de exposição à obra daquele homem e seus parceiros, essas coisas que nos compõem sem nos darmos conta de que, sem esforço, passam a fazer parte de nós e soam como nós no que nos tornamos pelo efeito.

“Cheguei cedo?”, perguntei. “Não, não, os outros avisaram que vão se atrasar, Zeca está no estúdio, eu estava aqui tocando umas coisas, fica à vontade”. Estava ali, generoso e calmo como um sacerdote deve ser (bem longe da figura criada pela religião dos brancos europeus) o homem que escreveu que a tristeza é Senhora desde que o samba é samba. O homem que se dizia ateu, mas viu milagres - como eu. Miúdo, grisalho, com olhos tão vivos e atentos como de um jovem que tem pressa, mas sem pressa nenhuma.

Não sei identificar quais palavras ou gestos foram soltando meus ombros e amenizando a dor dos sisos extraídos dias antes, sei notar que em um momento, enquanto falávamos de reformas e a final da Libertadores que explodia lá fora, perguntei a ele qual tinha sido a conversa com Moreno que mudou sua espiritualidade. Com toda a leveza que distribui, ele respondia com palavras que eu identificava, mas logo escorregavam da minha compreensão como se dançassem pela sala em passos que eu não soubesse acompanhar e só admirasse - algo sobre termos consciência de si, o conhecimento do mundo, talvez nada assim. Então Zeca nos levou ao estúdio, sentou-se em frente ao teclado, desculpou-se pela voz cansada que não sustentaria o falsete e cantou “Todo Homem” sob os olhos do pai e do resto de nós.

E eu, que passei a vida entendendo perfeitamente os versos “pra mim nunca tá bom” antes mesmo até de Zeca os compor, finalmente entendi Gil: o melhor lugar do mundo é aqui e agora.