29.10.06

Super freak


Cinco da tarde de uma sexta-feira no cinema Leblon. Não era Superman ou outro super-herói, mas o público que não lotava a sala foi ao delírio no final. Também não eram cinéfilos de Festival do Rio ou Estação Botafogo, dados a exaltações durante as sessões. Ouvi u-huuus e palmas! Um cambada de desajustados invadiu o cenário da novela das 8! As famílias não são perfeitas nas tramas de Manoel Carlos, mas a classe alta carioca está indo ao delírio com Pequena Miss Sunshine? Ok, parte dela. E com eles voltamos às críticas de cinema. Cotação: bonequinho fazendo dancinha estranha. Isso é bom.

Não leia a partir daqui se você ainda não tiver visto o filme (inclusive, saia da frente desse computador e vá ver).

Pode ser difícil explicar o que acontece, primeiro também vou ter que recuperar minha consciência. Por partes. É um script que prova ainda haver vida inteligentemente ácida sobre a Terra, guardem o nome do roteirista estreante Michel Arndt. Humor negro é sempre bem-vindo, o politicamente incorreto precisa resistir. Tem momentos não-verbais que mostram existir o silêncio inteligente além do diálogo igual, guardem um Oscar para Steve Carrel. Um casal de diretores de comerciais e clipes que levou quase 5 anos para viabilizar seu primeiro longa – esse! Não sei se Jesus was wrong como diz a camiseta, mas o personagem que a usa está certíssimo e até o final feliz dele incentivado por Proust é quase piegas e bom. O que acontece em um final feliz na vida real? Melhor frase: “Go hug Mum”. Comprei um caderninho. Não vou parar de falar, mas acho que vai melhorar a comunicação.

Pequena Miss Sunshine pode ser o retrato da família mais disfuncional que você já viu, e é um retrato hilário. Até que as gargalhadas dão lugar à lágrimas aqui e ali na platéia, e os disfuncionais vão reconhecendo a tragicomédia que pode ser a vida em casa. O filme foi feito para quem tem certeza que um dia sua família vai levá-lo à loucura e se impressiona que aquele bando de atrapalhados sempre consiga fazer com que tudo acabe bem. Aviões partem todos os dias para todos os lugares do globo, é estranho que tão pouca gente fuja e mais estranho ainda que tanta gente volte. Vai entender... Pode ser como diz a crítica do NY Times: talvez família que tome Prozac unida permaneça unida, o certo é que família que anda unida numa Kombi cor de banana tem maior valor cômico. Cinema é a maior diversão.

27.10.06

Divas


Ainda não tinham inventado a escova progressiva. Elas sacudiam os cabelos levemente ondulados, muito bem penteados, quase sempre louros. Jamais mostravam um milímetro de raiz escura ou apareciam sem maquiagem. Não precisavam optar entre a luva e os anéis, as longas de cetim casavam perfeitamente com enormes diamantes nos dedos, combinados com brincos e colares. Nunca tinham ouvido falar no tal índice de massa corporal que ameaça as modelos de hoje, e abusavam de quadris largos, seios fartos, cintura de violão. Os saltos altíssimos alongavam as pernas que escapavam por entre as fendas dos vestidos glamourosos. Tinham olhos semi-cerrados e lábios brilhantes que sussurravam, a voz só se elevava quando batiam com os punhos nos peitos dos homens cheios de brilhantina. Estavam sempre envoltas pela fumaça dos cigarros nas piteiras e deixavam nos copos marcas de batom vermelho. Nada de gloss. Choravam em público, cantavam em público, dançavam em par. E tinham, principalmente, por trás da aparência de femme fatale, uma enorme vulnerabilidade e dependência daqueles homens que tentavam enlouquecer. Talvez fosse essa, mais do que os decotes, sua principal arma de sedução.
Em cartaz no Cine Tribuneiros, Gilda, estrelado por Rita Hayworth.

20.10.06

Esse turu-turu-turu no meu peito

- Você sempre teve esse sopro?
A primeira vez que o coração bateu errado foi na infância – eu quero esse cachorrinho, mamãe, vamos levá-lo pra casa, vamos, vamos! Não!
Depois bateu por outros cachorros aparentemente mais humanos, bateu muito rápido nas grandes conquistas, quase parou em alguns sustos, mas nunca pensei que a frase “precisamos ouvir seu coração” pudesse ser tão literal – Seu coração está fazendo um barulho estranho. Teremos que fazer uma ultrassonografia.
A médica olhava para a máquina e perguntava coisas.

- Tem uns buracos.
- É que deletei algumas coisas.
- Isso não é bem verdade, ainda estão nos arquivos temporários. Tem coisa demais aqui dentro.
- Preciso fazer uma faxina.
- Tem umas pessoas...
- Deixa elas aí, anda estou resolvendo para onde vão.
- Tem uma substancia estranha aqui.
- É Super-Bonder. Sou um pouco desastrada nesses assuntos sentimentais.
- Os batimentos não estão bons, muito devagar.
- Não tem nada muito emocionante acontecendo, é uma fase (adoro pensar isso, relaxa).
- Vamos ter que intervir para acelerar isso. (no interfone) Mande entrar o Rodrigo Santoro.
- Doutora, não acho que a presença do Rodrigo Santoro ajudaria. Não é um caso para algo mais concreto?
- Hum, tem razão. O que você quer?
- Eu não sei, não quero nada.
- Não pode não querer nada, é por isso que seu coração está batendo errado.
- Mas não sei o que eu quero, é tudo muito difícil.
- Precisa ter fé.
- Não tenho fé.
Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...
- (no interfone) Emergência, código vermelho, traga reforços! – Entra pai, mãe, irmãos, tios, primos, amigos, colegas, cachorros, ex-namorados, casos, desavenças, fantasmas...
- Quem são essas crianças?
- Seus futuros filhos!
- E essa gente estranha?
- Seus funcionários, chefes, orientadores, namorados, você anda vai conhece-los se consertarmos seu coração. Acredita que pode melhorar? Acredita?
- Sim, acredito, por que estamos gritando?
- Você tem fé?
- É um culto? Eu... tenho, ahhhhh!

- Moça, está tudo bem? Se o barulho estiver incomodando podemos tirar o som.
- Que barulho é esse?
- Seu coração na ultrassonografia.
- Parece uma pessoa engolindo muita água.
- Acabamos o exame. Você tem um prolapso na válvula mitral, não traz problemas e basta fazer uma profilaxia em caso de cirurgias na boca. Pode levantar, venha buscar o resultado amanhã, boa tarde.

19.10.06

Disfarces

Ela chega de cara limpa, senta e acendem uma luz fria. Entra a equipe. Molha o cabelo, esconde as marcas, faz uma escova, base na pele, um pouco de cor, enrola o cabelo, cílios postiços, mais pincel, outra cor, solta os cachos, ilumina, ventilador, outro filtro, leva para o Photoshop, alonga o pescoço, aumenta os olhos, coloca mais cabelo, equilibra a luz, imprime. Está bonita.
Leia o livro – http://www.tribuneiros.com
Veja o filme - http://www.campaignforrealbeauty.com
Tire a sua máscara.

14.10.06

Conversa de bar

Impressões femininas sobre o primeiro beijo
- Tinha uma baba, era um pouco nojento.
- Ninguém me disse que teria uma língua rodando na minha boca.
- Quando acabou eu tinha certeza que meus lábios estavam inchados e todo mundo percebia.
A experiência do primeiro beijo pode ser comparada à da primeira comida japonesa. Por que exatamente repetimos depois?

Cicarelli e Tato Malzoni embarcaram hoje para a Eurodisney. Nos Estados Unidos, o governo pensa em fechar os parques temáticos, principalmente os perto de San Francisco.
Quando o Pateta agarra os peitos da Minnie e se esfrega no Mickey, Tico e Teco, você pensa que o fim do mundo pode já ter passado e ninguém reparou.

A Veja dessa semana encalhou nas bancas, foi trocada pela Caras que mostra a gatinha da Globo com o baixinho da Kaiser. Resposta de uma senhora, na Letras e Expressões, ao marido que perguntou por que aquilo seria uma armação - “Ela não precisa disso”, e suspirou.

12.10.06

Feliz dia das crianças

Cartaz do Tim Festival na minha janela. Um adesivo do Governo do Estado informa - Não recomendado para menores de 16 anos. Tema: show musical. Contem: horário inadequado, venda de álcool, rock, funk, pop, rap, jazz e mpb.
A vantagem de ter quase 30 é poder consumir drogas. Que o Senhor seja louvado.

10.10.06

Carta a 4 jovens escritores

“Queria ter alguma certeza. Umazinha que fosse. Acreditar que uma opção pode ser melhor do que a outra. Chega!
(...) E, como boa tia velha, tenho aqueles conselhos babacas pra te dar: cuidado no trânsito, não toma friagem, come direitinho, tenha paciência, não leva para o pessoal, perdoa, se perdoa, aceita e deixa ir embora. Sentimentos guardados azedam. Cuida do coração, ama muito e foca no agora! Porque esse é o momento. Relaxa, medita e principalmente: respira. Porque tudo passa, não é verdade?”

E a resposta em
http://www.tribuneiros.com

9.10.06

When I'm 28

Você não tem emprego, você fica mais velha, o espaço destinado às coisas que levará para a sua futura casa aumenta no armário, você arranha seu carro que completou 15 mil quilômetros e precisa de uma revisão além de renovar o seguro, acabou a cota de sol no Rio, boletins de CTI voltam a fazer parte da sua rotina, suas séries favoritas estão de férias, durante o Festival do Rio você está em São Paulo, suas milhas só te levam para Frankfurt ou Buenos Aires, você não pode voltar para Buenos Aires, você não tem dinheiro para viver em Frankfurt, quando percebe você só escreve sobre política e fica feliz que serão três debates no próximo mês, suas bolinhas homeopáticas estão acabando e você pensa em economiza-las para não ter que pagar outra consulta, sua mãe é agredida por um consertador de máquina enfurecido, você compra um vestido para a festa e descobre que está fantasiada de Ferrero Rocher mas ao contrário do bombom não tem ninguém para aproveitar tamanha delícia, você não consegue se apaixonar por quem deveria e fica feliz porque não estava no avião da Gol que caiu já que estava em outro sem ganhar milhas, o nerd da escola te encontra e diz que além do mega emprego está feliz porque vai casar, você começa a trocar o dia pela noite e pensa que pelo menos vai transformar aquilo tudo em textos de humor negro, até descobrir que por um mistério lostiano que pode ser chamado de burrice da Uol, seu blog é bloqueado e você nem pode mais usá-lo para deixar um recado avisando que se mudou.

É quando suas amigas intervêm e sugerem fazer um filme usando tudo isso já que não deveria ser época de inferno astral delas mas estão todas mais ou menos no mesmo barco quando deveriam estar voltando do trabalho em suas Pajeros, indo buscar os filhinhos fofos na pracinha onde foram brincar com a babá, para encontrar papai de terno bebendo um vinho caro na casa decorada com girassóis.

Filhinhos dão muito trabalho, babás esmurram criancinhas, pracinhas ao ar livre são alvo de bala perdida, Pajeros não cabem nas vagas da cidade, papai de terno vai te trair, se quiser troca o vinho por Absolut e os girassóis por flores artificiais que não morrem. Ou vai buscar o filho único de mãe solteira na casa da vovó de carro popular financiado em cinqüenta meses, esquenta a comida no microondas e toma um Rivotril para dormir bem porque amanhã a tia da escola quer falar com você antes do trabalho e se atrasar o fdp do seu chefe vai encher o saco. Ou se arruma no banheiro da academia, primeira ação do dia que começou às duas da tarde, corre pro analista, liga pra sua mãe no caminho dizendo que não vai jantar, passa no Bobs e faz uma hora na casa de uns amigos antes de ir pra boite de onde só vai sair quando o sol nascer, e se alguém disser que isso não é vida pergunta por que não avisaram antes que aquela casa da Barbie rosa jamais poderia se transformar em realidade já que com aqueles peitos e aquela cintura você seria ainda mais esquisita.

Pergunta se a faculdade e os trezentos cursos extracurriculares que entopem seu currículo devolvem o dinheiro em caso de defeito no processo. Pergunta se os instáveis que juraram amor eterno não te acham mais a mulher mais sensacional e divertida que eles conhecem. Pergunta por que quando você fazia brincadeirinhas para descobrir com quantos anos se casaria e quantos filhos teria, ninguém rasgou aquele papel e te mandou escolher o fundo de aplicação mais rentável e não o nome do príncipe idealizado. Por que venderam uma imagem de vida feliz que não se parece em nada com a sua vida, por mais feliz que ela seja. Por que disseram que quase 30 já é adulto e adultos são independentes. Por que só nos filmes independentes os personagens são uma confusão ambulante e você passou a vida assistindo à blockbusters hollywoodianos onde o amor vence, está sempre sol e se chove as pessoas dançam com os postes. Por que você seguiu o caminho certo e deu de cara num muro sem que ninguém entregue a estrelinha invencível do Mario Bros. Por que os galãs da escola ficaram ultrapassados e não foram substituídos por modelos atualizados. Por que depois de uma noite de debate vocês concluem que não é uma boa estratégia ser cheia de opiniões e o marketing da parvinha ingênua e indefesa ganha mais eleições. Por que as coisas pareciam mais fáceis na época dos seus pais, que deveriam pensar o mesmo sobre a dos seus avós e assim por diante. Por que você insiste em querer se empolgar com qualquer coisa que te tire dessa luta inerte pela sobrevivência. Por que você apaga as velinhas do bolo e pede disposição, definição e coragem.

Porque quando você tiver 64 vai querer rir desses dilemas, e precisa acreditar que vai ter valido a pena.