26.5.12

Do manicômio


Houve um tempo em que fotografia analógica não era cool, era foto – dispensava sobrenome porque só existia ela. Comprávamos filme, pilha para a câmera (que era máquina, não tratada como se objeto de fotógrafo), não sabíamos se o enquadramento, foco ou cara estavam bons até revelarmos as poses, múltiplos de doze. A trabalheira quase justifica meu calafrio quando, a caminho do aeroporto, ele soltou tranquilamente que não estava levando a dele, tiraríamos as fotos com a minha. Surto interno. Tremeliques, suores nas mãos. Dividiríamos as fotos? Gastaríamos o dobro de filme para registrar eu depois ele a cada lugar? Dividir a cama por um mês em uma viagem pela Europa tudo bem, mas compartilhar a mesma foto já era compromisso demais. Quando aquele romance acabasse o que faríamos dos registros? Fotos individuais garantem a eternidade da lembrança exposta de forma indolor. Hoje tenho seis filmes revelados, uma foto onde aparecemos abraçados, um amigo com quem vivi por dois anos que me irrita a cada vez que me apresenta como ex-namorada. Afinal, nunca tivemos nada oficial. Na-da! Atualmente compartilhamos o psiquiatra.

Anos antes de entrar na igreja para se casar ela vertia lágrimas por causa de um refrigerador, no ato que entrou para a história como O Caso da Geladeira. Moravam há tempos em um apartamento montado com o que juntaram da casa dela com a casa dele, nas fichas preenchiam como estado civil “solteiros”, mas os vizinhos, as famílias, amigos, o proprietário do imóvel, a CEG, Light, Sky e Telemar, se questionados, provavelmente responderiam o contrario. Por sorte, até ali, nunca o fizeram. Um belo dia a geladeira quebrou, os dois olharam desolados o técnico decretar o óbito, a mãe dele gentilmente ofereceu presenteá-los com o modelo lindo que ela tanto sonhava. “Não! Calma. Isso tem que ser pensado com cuidado”. Ele achava que dividir a posse de uma geladeira era um passo muito grande para o qual ainda não estava preparado. Ela dividiu em muitas parcelas uma Consul que gelaria as cervejas dele e manteria café da manhã, almoço e jantar dos dois. Meses depois dividiram calmamente o altar, a lua de mel e hoje compartilham olhares cúmplices a cada vez que o Caso é citado. 

Foi pensando nisso que outra moça, escolada, entrou em uma loja masculina qualquer e pediu cinco bermudas, todas iguais, nem precisava ver o modelo. No tempo em que reinavam absolutas as máquinas de foto apenas as celebridades declaravam que o acompanhante era “apenas um bom amigo”, mesmo que tão bom e intimo que dormisse e acordasse, com frequência que emocionalmente configurava união estável, sob o mesmo teto. De lá para cá os casais intensificaram o “ficar”, a situação de envolvimento intermediária começou a se prolongar e logo a palavra “casal” ganhará contorno de tal forma assombroso para algumas pessoas que haverá que se criar novo termo na língua portuguesa. “Não temos nenhum compromisso” equivale a quando perdemos o fôlego no Policia e Ladrão e gritamos, desacelerando, “altos!”. É caso de vida ou morte, o interlocutor que aja normalmente, inabalável, faz parte do jogo.

Habitavam o banheiro dela duas escovas de dente, soro e caixinha da lente, o Sportv antes nunca sintonizado era agora o campeão de audiência, canal favorito do rapaz esparramado no sofá de óculos fundo de garrafa, camiseta e cueca. Ele não gosta de encostar a calça suja da rua onde eles deitam, cama e sofá, então se despe logo que chega. Ela gentilmente sugeriu deixar no armário uma bermuda dele, a idéia que transformou Bruce Banner em Hulk. “Vamos com calma, é muita intimidade!”. Sem ver sentido em argumentar com um sujeito que diariamente anda pela sua casa  semi-nu ela decidiu disponibilizar junto à porta de entrada bermudas para todos os convidados: assim nenhuma visita menos íntima se sentiria incomodada por ter que circular ali sem calças. 

Ao ver a cliente sair orgulhosa da loja a vendedora comentou: só dá maluco nesse mundo.

3 comentários:

Gabi disse...

Muito bom, como sempre!

Anônimo disse...

Otimo.

Lalol disse...

Adorei!!