25.10.26

Carta à Bel em outubro de 2026

 Escrevo antes de votar. Terminadas essas linhas, vou à urna registrar 13. Nem sempre foi assim – nem sempre fomos às urnas, nem sempre votei 13, tudo por aqui, há bem pouco até, era diferente. No ano em que eu nasci existiam pessoas banidas do país e presas por discordar. Seus avós não tinham o direito de escolher um representante para liderar o país. Foi o vovô quem me ensinou sobre a ditadura porque, na escola, nas pesquisas que nos passavam sobre os presidentes da República, as aulas nem falavam em golpe. Foi ele quem me contou dos cavalos nas ruas, dos amigos que sumiam da faculdade, das perseguições. Foi através da TV que aprendi sobre os Anos Rebeldes. Essa TV onde eu trabalho hoje, essa mesma.  Da censura. Dos atos institucionais. Foi o cinema, os livros. As músicas.

Sabe como acontecem as mudanças? A partir dos incômodos. Nasci com um “não é o suficiente” e por obra de tantas antes de mim isso não tem sido uma aberração, se eu tivesse nascido um pouco antes talvez até na fogueira tivessem me jogado. “Ai, Dinda!”. Sei o que você vai dizer ao ler. Um dia você me perguntou se eu não queria ter filhos, como minha irmã fez ao querer você. Eu não quis. Quis e quero tantas outras coisas e acima de todas o que quero é poder querer. Que possamos poder.

Pedi à vovó que votasse. Porque podemos e temos a obrigação de exercer os direitos que conquistaram para nós, através de nós! A vovó conversava com o vovô sobre quem votar, dessa vez ela conversou comigo. E eu vim aqui conversar com você antes de saber o resultado dessas eleições que impactam, sim, as nossas vidas.  Nunca deixe que tirem isso de você.

Saia de casa, ultrapasse os túneis, navegue, pegue as estradas e adentre, verá um povo teu que não foge da luta. Muito diferente do que me enganaram os livros de história. Aprendi História adulta. Desconfie, sempre. Peça para os não detentores do poder contarem suas versões, ouça pelas mulheres, esteja ao lado delas, as suas.      

Vi o sertão sem fome, muito diferente daquelas imagens de carcaças e escassez. Ouvi as vivências dos que deram aos filhos a chance de estudar o que eles não tiveram, conheço esses filhos. Vi escolas no meio da floresta, adultos e crianças aprendendo a ler. Vi cooperativas, assentamentos, comunidades. Ande por essa cidade, por esse país, vai encontrar uma gente firme, trabalhadora, cheia de fé e sabedoria que fará crescer em você mais fé, mais sabedoria, e um enorme sentimento de pertencimento a essa terra. A cultura brasileira é um deslumbre, lute por ela. Defenda os seus, expanda os seus. Tenha causas, esteja a favor dos ventos de mudança. Mudança, sim. Acha que já mudamos o suficiente nesses anos de governo PT? Olhe novamente os topos. Temos muito trabalho pela frente. Tentarão, sempre, a todo custo, tirar de nós qualquer avanço de participação e poder, tentarão manter seus domínios, excluir os diversos, se desesperarão pela permanência do que lhes assegura o controle e hegemonia, odiarão ser questionados e dividir, cometerão violências, esquemas, inventarão mentiras e revidaremos. Saiba quem está com você. 
O que quer que aconteça hoje, não estamos sós e ainda estamos aqui.