23.4.12

En prenant soin de moi


Ma cherie Sophie,
Há tantos anos ensaio responder que para não frustrar minhas próprias expectativas deveria só compor um telegrama - “A decisão foi sua, e isso é bom.”
Devorei cada nota publicada a respeito da obra, pesquisei no Google, folheei seus demais livros, elocubrei por horas em noites, quando entrei na exposição tudo mudou. Estava ali, na sua carta ampliada pendurada na parede, por ele assinada, por tantas interpretada, por mim remoída, o óbvio. Você impôs uma condição, ele somente respeitou.
Foi libertador. Acho que gargalhei, sem dúvida sorri, depois parei em frente a cada análise daquelas mulheres e agradeci por podermos exorcizar demônios assim – os reciclamos. Gastemos mesmo, abusemos da paciência deles, saturemos até quem sabe um dia aprendermos que é só mais um, basta esperar passar. A cura para resfriados requer tempo, paixões são males como tal. É mau, hoje prefiro as esteiras das frias academias que não provocam náusea e elevam os batimentos igual, deixo as paixões para os poetas bêbados das calçadas e jovens até vinte e cinco anos. Vivamos o amor e/ou aceitemos que essa obsessão ocidental de felicidade é exagerada.  Nós escolhemos, Sophie. Não vê?
Talvez não tenhamos escolhido sentir tanto, esse jeito de olhar, umas linhas tortas de pensar e o penar, talvez sejam mesmo características herdadas lá detrás, só nos resta o conduzir. Vamos nos “adestrando”, desde pequena incuquei com aquele anjo torto dizendo para Carlos ser gauche na vida – uma sensação de dejá vu, entende? De minha parte vivo na corda bamba tentando endurecer sem perder la ternura, e há um pouco dela na raiva do abandono, não há, Sophie? No “como ele pode”? Torço para um dia aceitar que meus berros e planos nunca farão ninguém voltar. E cada vez que se vão me torturo, despedaço tentando achar o que aqui é incapaz. De repente ali em pé lendo aquela carta onde imaginava encontrar frieza e desprezo esbarrei com dor. Ele não te deixou. Foi você quem não optou por mudar de idéia e ir atrás. Não sei o que queres, Sophie, só me pareceu ser mais do que ele ofereceu. É triste o desperdício de um desencontro, isso não achei ruim.
No folheto roubado da exposição, em meio a tantas anotações que fiz, circulada, reencontrei a visão da mulher acostumada à amargura, loucura, raiva, solidão - “Releia quando a tristeza passar” aconselhou a agente penitenciária.  Também rabiscada achei a interpretação da criança - “li que ele a ama” - apesar das palavras que ela confessou não entender, o argumento da diplomata de que escrever torna a decisão unilateral, minha diversão pela designer na foto estar segurando a carta em frente a uma placa que apontava “toutes directions” e um rascunho de pensamento: “o amor é incondicional, estar junto é decisão que não”.
Nesses tantos anos que ensaio essas palavras só para dividir a opinião esgotei todos os meus amores, cada um deles, e com cada um finalmente rompi para sempre. Não carregarei mágoas no peito, é um jeito de cuidar de mim. Saí do pavilhão com essa frase na cabeça, “Prenez soins de vous”. Cuide de você, Sophie. Ninguém melhor o fará.

23.3.12

Pra você


A dedicada equipe entrou, em frente à mesa se sentou e com tom de salvação do horário nobre disparou: “chefe, queremos que você namore aquele garoto”. A chefe caiu na gargalhada aliviada pela razão da convocação ser a possibilidade do colega ao lado tornar-se uma possível união, agradeceu imensamente a boa intenção. O candidato era um tanto equivocado, mas havia razão naquela questão - já era hora de acabar com tanta solidão. Bastava de tanto penar! Como reverter a situação é no que ela deveria pensar.

Ela sabia que estava diante de uma inédita, intrépida, romântica missão - encantar-se por qualquer um não era a saída, existia um certo moço e ela o traria de volta à sua vida. Ex-namorados até ofereceram cartas de recomendação, mas essa estratégia não parecia uma boa solução. Precisava de um plano que convencesse o homem desavisado em seu viver despreocupado que o melhor lugar era ao seu lado.

A tarefa não parecia fácil ainda que com sua força de vontade ela fosse capaz de desencalhar o mais pesado cetáceo. Outras moças piscariam demoradamente e largariam ao vento lencinhos brancos, dançariam até o chão o mais sexy pancadão, desafiariam para um duelo a rival – uma tal que ele namora e com quem esteve no Carnaval. Há as que invadam prédios, mas isso, juro, ela não considera um bom remédio. Há as que esperam, as que olham para o lado, logo beijam outro e prosperam, as espertas que detectam uma oportunidade e certeiramente agem na maldade, as que desistem, nem insistem, pra que tanta teimosia, isso só traz agonia, segue em frente, olha nesse mundo quanta gente, você arruma rapidinho um outro pretendente. E há ela.

Ela não entrou nessa história para ser passiva donzela, quem dera! Também pudera, desde tão cedo viveu com tanto medo, prefere rio com crocodilo e vilã com serpente a ter que lidar com gente. Não qualquer gente, claro, só essas que quando aparecem o coração sente, as que conversam até tarde,  falam de praia, campo e cidade, as que quando saem de perto ela quase chora, que tem livro espalhado pela casa para ler para ela a qualquer hora. As que quando chegam perto dão aquela olhada maliciosa que a devora (ela adora). Que começam beijando devagarinho, gosto de champagne com uva, bem docinho, que vão esquentando, o corpo dela apertando e dissolvendo, que quando suspiram por trás da nuca... alguém acode, ela está morrendo! Que mordem a boca e dão calafrio, falam baixinho, arrepio, confessam desejo e ela agarra forte num beijo já que vontade não tem juízo não. Então por que, céus, abrir mão? Que bom seria viver sem pensar uma paixão.

Mas o tal alvo é ocupado, sério, decidido, moço já tomado. Fica ressabiado com o que ela pode querer, vai que é mais do que ele pode prometer? O que talvez ele não saiba é que ela mandaria às favas a precaução, pagaria para ver porque o futuro nem ela, nem ele, ninguém nesse mundo pode prever. Então ela decidiu escrever essas rimas, ô rapaz, só pra dizer - joga tudo pro alto, larga tudo pra trás! Não perde a menina na história, depois vai viver de memória? Não se esquece que a vida é do jeito que a gente faz.  

22.3.12

Os moços do meu tempo (ou do tempo do Tribuneiros)



Para Nanda, Lalol, Olga e Pinha. CA e Pim, para Pian, Bruno Menezes e João Paulo Duarte.
De 2006.

Isso não é uma revanche. Os moços do meu tempo, Dondon, ainda gostam muito de competir, mas hoje vamos aplicar uma lição de antes do seu tempo. Porque olha o que encontrei nas conversas do Jobi, moços querendo um amor! Olha esses rapazes tão vaidosos malhando os braços e esquecendo-se das pernas, falando das “mulezinha” e tirando onda com os “muleque”, quem diria que andam sonhando com um beijo gostoso, um abraço apertado daqueles que tira os pés do chão mas que não acabe depois da noitada. Andam muito intransigentes nessa escolha, pior do que donzelas à procura do príncipe encantado, não perdoam um deslize e chamam tudo de deslize! É, Dondon, os moços do meu tempo não mudaram muito desde sua época não, são sempre os mesmos sonhos de quantidade e tamanho. Mas evoluíram, quase acreditam que podem chorar. Ainda não debatem relacionamento mas já aceitam conversar se lhes interessar que tudo acabe bem. Então vamos aplicar nessa conversa a teoria dos jogos, porque falta a eles um manual de instruções. Virou uma guerra o relacionamento entre damas e cavalheiros, e os dois só querem um olho no olho, dançar junto e serem felizes para sempre.

Os moços do meu tempo esperam um dia ser pais de família, um dia... Só não sabem ao certo onde guardar as fotos das micaretas que a musa curtiu com as amigas, e engatinham na arte de fazer o papel de marido nas festas do trabalho dela. Esses moços têm uma sorte: se não quiserem, nunca precisam amadurecer porque o relógio biológico não está em contagem regressiva e não lhes impõe decisões fundamentais bem cedo. Dizem-se confusos, não sabem o que fazer com meninas tão loucas para provar que são capazes de viver sem eles. Diz o Xico Sá, para quem homem que é homem não sabe a diferença entre estria e celulite, que o primo lá da zona leste de São Paulo não anda perdido diante da mina gostosa que ele conduz até o terminal. Por aqui elas bradam que não querem o dinheiro deles, que não precisam de cuidados e agora inventaram de experimentar antes de decidir, mas dão chilique se não são tratadas como princesas. Não entendem nada, esses moços, e ficam ali babando enquanto elas dançam até o chão. Troço tão simples: elas querem que eles reparem na unha feita mas não a ponto de elogiar a mistura de Café com Rebu! (E se algum moço perguntou o que é isso, salvou-se uma alma no purgatório). Estão muito perdidos esses moços, não conseguem acompanhar os vários assuntos que elas falam ao mesmo tempo, não sabem se passam creme ou cospem no chão, se preferem um terno do Ricardo Almeida ou a camisa furada de ontem, se pedem caipirinha com adoçante ou saem por aí pegando geral fingindo que o descartável preenche o buraco no peito.

Juram que têm pavor de aliança, mas quando as moças decidem viver tribalisticamente sem pensar no casamento dizem que elas são descontroladas. Eles não sabem se quando crescerem serão machos-provedores ou coadjuvantes da pós-revolução feminista. Acreditam em todas as façanhas contadas depois do futebol e nunca conseguem fazer em casa o que vêem na TV. Aí perdem a paciência, em Salvador tudo é mais fácil. Para eles tudo tem que ser simples, e quase sempre é, Dondon, graças a uma enorme e invejável capacidade de abstração. Mas as moças adotaram o discurso que por séculos ouviram deles, e aí eles chamam de arrogância o certo ar cruel de quem sabe o que quer que elas têm ensaiado para conquistá-los. Deram para dizer até que elas não prestam! Moças, hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás, eles ainda querem uma lady na mesa. Ora veja bem, se são as mulheres que têm o dom de iludir nessa enchente de canalhas líricos ou mesmo de malandros banais. Não sabem perder, Dondon, eles não aprenderam o que fazer quando desiludidos. Por isso saem pela vida com suas quadrilhas, cheios de hormônios adolescentes, caminhando na ponta dos pés como quem pisa nos corações. São todos ótimos em despertar sentimentos com os quais depois não sabem lidar.

Os moços do meu tempo, Dondon, são eternas crianças. Ainda não pedem informação quando perdidos, não conseguem guardar as roupas e sempre tentam driblar a camisinha. Jogam Playstation no sábado à noite enquanto deixam as moças cheias de caraminholas na cabeça especulando onde andará o meu amor. De resto é balela, eles sabem de cor o número para ligar no dia seguinte, pagam o jantar com um prazer que pula dos olhos, esperam pacientemente e não se desencantam com a tórrida noite por mais precoce que ela tenha sido. Desde que, bem entendido, eles queiram mais. Porque, caso contrário, eles simplesmente “não estão a fim de você”. Mas quando estão, coisa mais linda, Dondon, um moço deitado no colo da moça nem aí para a inveja dos camaradas.

18.3.12

Partes


2012, parte 1
Não sei se a conversa começou pelo fim do casamento, pelo suicídio relatado no último dia feliz dos cônjuges ou pela disputa de stand up paddle ali realizada. Ouvíamos as mais recentes descobertas psicanalíticas de um inquieto e no final do dia o que teríamos aprendido é que a Holanda é na verdade uma província dos Países Baixos e a rua Rainha Elizabeth homenageia a monarca da Bélgica, não da Inglaterra. Ele continuava tendo nascido em São Paulo, filho de um pai ausente que foi o primeiro judeu hippie dos arredores mundiais de Ashton-Heights. Por mais estranho que seja imaginar em uma comunidade Flor, Pepeu, Baby e Jacob isso aconteceu e eles andavam nus, diziam-se artistas e provavelmente não tinham rumo nem renda. Foi assim que o menino aos quatro anos acabou catatônico por vinte e três horas sentado na entrada do apartamento incensado.

2001, parte única
Àquela altura eu já tinha montado uma tabela com valores convertidos de korona para euro, não precisava mais fazer conta a cada produto, mas continuava vivendo como se o próximo passo fosse a falência. Era o quarto dia de uma viagem de trinta e não tenho a menor ideia de por que não acreditei que, me mantendo dentro do orçamento diário, as refeições e compras inerentes ao passeio estavam garantidas. Vai ver eu não acreditava em nada que saísse de mim ou temia que algo inesperado surgisse e eu não soubesse como lidar. Sempre achei melhor me prevenir.  

2012, parte 2
Durou de abril a dezembro a tentativa de reconciliação e ele recomenda que não se perca tempo com terapia de casal nem se conte historias de suicidas a pessoas que não falam sobre seus incômodos. Ela o abandonou, não virou hippie nem ele – ao menos pelo que incluiu no relato – catatônico.
Continuava na nossa frente a disputa de stand up paddle e eu pensava que aquele esporte era novo, tempos atrás era só surf. A areia com os pombos continuava igual, o morro com as casas, prédios com vista para o mar, barracas, cadeiras, turistas, automóveis, biscoitos, bebidas, sudoestes, sujeiras, salvamentos e eu.

2012, parte 3
Sempre vem o pensamento de que deveríamos estar gratos pela vida que temos quando um poeta não a tem mais. Em um dia ele surgia pelo meio das plantas, no outro morria de pancreatite, nem ao menos entendi o que faz o pâncreas.
Tenho e-mails sem resposta, problemas sem resposta e textos sem final. Mais um diálogo na praia, novidades sobre a Holanda e problemas de conexão inter-assúntica. Vivo fragmentos, breve em frangalhos. Vivo entre os amigos que declamavam nomes ao jazigo para cada qual dizer-se “presente”. Entre tantas pessoas uma ausência, jogassem na cova os vazios de si e a sepultura viraria montanha que subiriam escalando para descobrir lá no alto que chegou-se ao final.
Ausências, demências, carências, problemas sem resposta e textos sem moral. E assim vão se entorpecendo para não sentir o que dói lá dentro e um dia com tanto analgésico morre-se de um pâncreas em silêncio. 
Morre-se de silêncio todos os dias.
Morre-se todos os dias. 
Silêncio.

2012, parte 4
Os olhos dele não abriram mais, e ela ficou para sempre com aquela indefinição e eu fiquei com os meus cheios de lágrimas e milhares de indefinições e uma vontade poética de viver com elas. Ou sem elas. Viver apesar delas, à margem delas, na companhia, da forma que for só não mais à mercê de solucioná-las – não há solução. Nem para tudo existe resposta.
Então, inquieto, o que agora lhe digo é para interromper as perguntas. Eu sei, há que se acalmar isso aí dentro – e, por favor, não com tantos analgésicos. Busquemos, pois, distrações diversas, ocupemos a mente, façamos com as minhocas o mesmo que com as crianças à mesa - distraia-as com aviões imaginários. Brinque. Leve, vai. 

Já arrumei gavetas e sei que às vezes nem tudo cabe.

7.3.12

Quase tudo


“Todo mundo desmaia agora!” Aproximava-se uma pessoa chata. Eles tem essa mania de que as pessoas ficam chatas, é dificílimo acompanhar os status e morro de medo de um dia a maldição cair sobre mim. À ordem dela desmaiamos imediatamente soltando nossos braços e cabeças sobre as cadeiras da praia, fechando os olhos e acho que entreabrindo um pouco a boca – não deu para reparar bem, mas a minha interpretação desconfio que tenha sido assim. Quando autorizada nossa volta soubemos que o representante do perigo voltaria à beira-mar pelo mesmo caminho, precisávamos de atenção. Ela conhecia o itinerário porque foi assim que os dois haviam se encontrado semanas antes, quando a visão dele ainda trazia felicidade – ele ainda não era chato e, ela insiste, era malhado.
 
Desconfio de poetas sarados, não tanto por preconceito, mais por estereótipo mesmo, e argumentei que um corpo não decairia em tão pouco tempo, mas ela estava certa de que as costas do menino estavam agora flácidas e a decadência corporal não tinha a ver com a quase-desilusão amorosa. "Quase" não por ter sido pequena, mas por pertencer à sua quase-vida amorosa. Não nos restou outra alternativa além de aguardarmos o retorno do corpo para análise durante um re-desmaio.
 
Além de ter sido personagem da quase-vida amorosa dela o moço tinha adotado uma estratégia duvidosa durante a noite anterior. Um poeta sarado na mesa de um bar movimentado que levanta a camisa e acaricia a barriga para chamar a atenção de sua presa depois de falidas tentativas de jogar saquinhos de sal na cabeça dela não parece expert em sedução. Não parece originalmente sedutor. Não parece nem legal. Não que esperássemos frases bonitas ou textos rebuscados, essa era a tática de outro personagem da quase-vida amorosa dela, apenas consideramos auto-acariciamento e brincadeiras ginasiais esquisito. Acontece que o ato não funcionou como conquista, mas foi imbatível como diversão e passamos a tarde interrompendo diálogos com rápidas imitações da cena, em um estilo Latino featuring Ricky Martin. Quase compensou perder o pretendente.

Apesar de ter uma quase-vida amorosa temos pretendentes, o que é melhor do que nada. Os pretendentes não geram passarinhos de animação voando ao nosso redor em dias ensolarados ou meios que produzam finais felizes, na verdade mal geram as doses diárias mínimas recomendadas de serotonina e por uma infeliz equação de erros + memória quase achamos isso bom, mas geram tardes divertidas. Falando sobre eles, não com eles. Às vezes nós quase preferimos que um desses acerte o alvo e mude o jogo.

Antes que passássemos a preferir ela avisou que o poeta chato já tinha voltado como previsto e não tínhamos percebido. Só nos restou então fazer mais uma vez a imitação de Latino featuring Ricky Martin e revermos nossa opinião sobre comportamentos bizarros: viva os sedutores desastrados e artistas inofensivos.

É normalmente assim meus sábados com eles. Às vezes damos uns furos, analisamos sarcasticamente nossos quase-relacionamentos mantendo a certeza de que todos os esforços devem ser empenhados em prol de boas histórias. Eles são o que ela um dia definiu como “pessoas em quem podemos nos refastelar”. Um quase preenche totalmente o buraco no peito do outro.

23.2.12

Das cinzas, coração


Ele disse que já não se fazem mais crônicas de quarta-feira de cinzas, que não há mais Adalgisa enfezada esperando marido no portão. Que este foi engolido pelo tempo e pela irrelevância. Que isso é coisa do tempo antigo. De outros pós-carnavais.
Talvez daqueles em que pela casa ficava uma purpurina, plumas rosas, no tanque uma sapatilha dourada e botas brancas. De quando ele perguntou o que era meia-arrastão e apontei para suas próprias pernas cabeludas sob o vestido de bolinha. Do tempo em que pagávamos para usar calças, jaquetas e chapéus de soldado em amenas noites de trinta e muitos graus. Esperávamos umas duas horas tomando cerveja no meio da rua em frente à Central do Brasil sem nos preocuparmos com a pouca quantidade de banheiros químicos disponíveis, levávamos mais broncas de um desconhecido do que suportaria a mais elevada autoestima para atravessarmos uma avenida em trinta minutos dançando ao som de uma música que mal conhecíamos sob os olhos de uma platéia indiferente aos nossos esforços e sede. Como não estaríamos felizes? Alcançando o final, suados e famintos, andaríamos um bocado torcendo para que o ônibus estivesse no lugar marcado e, dando certo, passaríamos toda a volta implicando com os bêbados, os sonolentos, casados e solteiros, os inteiros ou semi-mortos. Desse errado agiríamos da mesma forma, por mais tempo. No dia seguinte acordaríamos cedo porque bloco bom é na concentração. E por que andar?, perguntaria Adalgisa. Porque assim a gente chega lá, chega até no mar. E de bloco em bloco acabaríamos de bar em bar. De pirata, marinheiro, de coração partido ou inteiro. De repente, cantando pelos bairros no meio de toda aquela gente. Normalmente. Até nunca cansar. Até a quarta-feira chegar. Até a vida real mandar a gente voltar.
Ele disse que como gênero literário as crônicas da Quarta-feira de Cinzas perderam toda a legitimidade. Viraram anacrônicas. Talvez como uma colombina que cisma em achar mais graça no pierrot mesmo sendo tão bonzinho o arlequim. Como uma coleção de máscaras. Saias de filó. Como quem tem tanta alegria adiada, abafada, quem dera gritar, e está se guardando pra quando o carnaval chegar.

19.1.12

*That smile on your face

Ah, admirador! Lembro de quando a Radical Chic ainda fazia sucesso e se comparou ao Rio de Janeiro: de longe um espetáculo inigualável, de perto uma colcha de retalhos. Até gosto bastante de patchwork, mas não foi no bom sentido que a balzaquiana fictícia se descreveu – estava mais para “meu coração e minha bunda tem mais crateras do que as ruas da cidade”. Eu continuo achando-a maravilhosa, mas daí à perfeição... cantamos os encantos mil, mas quando estamos a sós entre compadres cariocas confessamos os sacrifícios que a musa nos exige. 

Pode confessar, mãe, foi uma boa tentativa de elevar minha auto-estima, me fazer reencontrar a esperança de haver um alguém romântico na multidão, alguém que se tivesse uma rua mandaria ladrilhá-la para eu passar, não funcionou. (Minha mãe nunca entendeu que quando o obstetra anunciou "ela é perfeita" se referia aos meus vinte dedos, dois olhos, nariz e boca.) Aliás, mãe, não precisa ficar com pena de mim não, tá, já conheço os conselhos de exigir e temer menos, blablabla, vão você e papai conversar com Freud e por favor só retornem com um plano de ação e a conta da sessão paga que há pouco redirecionei a verba da terapia para massagem modeladora com ultrassom.

Onze da noite, véspera de feriado, uma hora e treze de transito pós-trabalho e chega o recado dele - "Admirador Secreto"- no blog para mim: “você é perfeita”. Ô, coração, faz isso não, isso aqui é um poço de desilusão. Na segunda série cheguei do recreio e encontrei sobre o estojo três chocolates. Era dia dos namorados, 12 de junho de 1987, o paulistinha gostava de mim e fez essa surpresa, minhas amigas viram, eu congelei, segundo dia mais nervoso da minha vida que no primeiro um outro entrou no play carregando buquê de rosas dez vezes o pequeno tamanho dele. 5 de outubro de 1985. Minha festinha parou, os primos mais velhos adoraram, nossos pais nos obrigaram os dois beijinhos e tenho certeza de que pensei em furar meus olhos nos espinhos para não precisar encarar mais ninguém dali em diante. Essa Perfeição não sabe lidar com galanteios.

Perfeição é uma carga tão pesada, desafio tão intransponível que vou não. Não vou conseguir completar a Travessia dos Fortes, escalar o Pão de Açucar nem dançar balé. Perfeição é chato, um estado de alerta, precaução infinita, é tanto medo que prefiro calculadora financeira, é até mais atraente! Perfeição é pra quem não tem coração, quando ele assume fica tão mais genial.
Escreve “você é uma menina legal”? Aí eu nem gargalho, dou um sorriso, ganho o dia, penso que até pode ser, sem muitos dramas, e ponto final. Imperfeitamente felizes para sempre.

*How long before you screw it up
How many times do I have to tell you to hurry up
With everything I do for you
The least you can do is keep quiet

1.1.12

@Noel


E aí, gorducho fofinho? Teve um #felizNatal? Essa história das festas terem caído em fins de semana atrapalhou mais do que a chuva, não achou? Não percebi que era Natal nem na Leader Magazine! O lado bom é que quase consegui escapar da tradicional angústia de final de ano – e digo quase porque hoje, sem querer, ouvi a Árvore tocar Noite Feliz, aí é um golpe muito baixo. Ela já está linda com presentes iluminados ao redor e ainda inventaram de colocar músicas instrumentais a cada hora, fui pega de surpresa aos quarenta e cinco do segundo tempo! É um certo delay se emocionar no dia primeiro de janeiro, mas fazer o quê? Pude evitar a longa apreciação dos fogos e fui surpreendida pelo efeito caixinha de música ecoando por toda a Lagoa, quando digo que se existe um Deus ele tem um certo humor negro você se zanga.

Enfim, sobrevivi a mais um reveillon, consegui até me divertir bastante em uma festa fortunosa que parecia último capítulo de novela e agora tudo volta ao normal: os turistas que andam de biquíni no calçadão e dirigem como bêbados sumirão, podemos encontrar com os amigos a qualquer dia de qualquer mês sem sentir a pressão de um prazo se esgotando, os planos devem ser colocados em prática porque não cabe mais a desculpa de que em dezembro não adianta começar nada (vai malhar!). Quanto aos turistas, confesso, não sei por quantos sábados e domingos até o Carnaval teremos folga deles – eu que tanto torci pelo desenvolvimento do potencial turístico da cidade me vejo inventando estratégias para espantá-los (e nem assim ouso pensar em preços abusivos como estão, vou pelo caminho de plantar notícias falsas envolvendo as UPPs ou fotografar os miquinhos nas ruas e associá-los ao Planeta dos Macacos). É que não cabe, Noel! Não cabe no meu bolso essa moda de Cidade Olímpica nem nas ruas espremidas entre a montanha, mar e Lagoa. Não cabe nos blocos, nas praias, nos bares, no glamourizado Leblon televisionado pelo Manoel Carlos. Se ao menos os garçons se tornassem mais bem educados... Como será que fazem os parisienses? Uhn, verdade, ficam mal-humorados como estou.

O mau humor é só por esse ponto, Noel, em todo o resto sou só sorrisos para o ano que passou, tanto que por mim ele nem precisava passar. Nem Susan Miller leio mais, acredita? O que tem vindo, de bom ou nem tanto assim, tenho encarado, bem ou nem tanto assim, mas conseguindo. Adoraria não ter essa dor nas costas e acreditar um pouco mais que toda forma de amor vale a pena, por enquanto sigo alternando compressas de água quente e Tandrilax e letras de música e cinema independente, um cachorro que parece urso panda é mais útil para quem vive sozinha do que abridor de potes (anota essa dica). 

É isso, bom velhinho, não poderia deixar de escrever essa nossa já tradicional carta, não prometerei aparecer tão assiduamente nesse blog quanto outrora por ter percebido que foi o que mais pensei em 2011 e não executei . Só deixo aqui registrado que apesar de não saber uma música da Paula Fernandes, ter visto apenas um filme da lista dos melhores e ter sentado raras vezes no Jobi fiz muito bom proveito desse ano arrumando minha casa. O astrólogo recomendou que eu recebesse mais, quem sabe o que vem por aí? Sem pressa, vamos (vi)vendo.

Como aprendi deliciosamente na Italia: tanti auguri per te! E pra não dizer que não falei de Londres, seja exatamente como você quiser – feliz (em) 2012.

26.12.11

As monções

Foi em dezembro de 2011, quando um especial de música evangélica substituiu o Rei no horário nobre que tudo começou. Ne verdade deve ter sido um pouco antes, mudanças assim não acontecem em um estalar de dedos, mas estávamos todos checando o Facebook então só ali nos demos conta de que  Suzana Vieira andava quieta, e ainda vinha mais chumbo grosso.
 Anos antes já existia a brincadeira de que o El Nino faria o mar transbordar, Petrópolis seria a nova orla, achamos fashion os cachecóis passarem a integrar o vestuário feminino metro-paulista –me-acho-cool-sexual, foi ótimo poder usar botas de cano alto sem precisar sorrir monalisamente a cada piadinha estilo “deixou o cavalo lá fora?”. A garota de Ipanema ainda tinha marcas de sol, bronzeamento artificial era coisa de ex-BBB e simpatizantes ou tema de episodio de Friends, até que naquele ano o Natal chegou e Papai Noel não.

Dias depois, diante de um povo incrédulo de guarda-chuva, o bom velhinho surge de bicicleta explicando que também tem problemas com GPS e precisou parar para comprar um mapa. Não foram as obras nas ruas nem os valores abusivos que o confundiram, aquela terra nublada de gente desbotada é que não podia ser o balneário carioca de sempre! Onde estava o verão?
Alguns apontaram as baixas temperaturas como mais um indício de desenvolvimento, outros quiseram colocar panos quentes sobre a situação alegando ser decorrência do fortalecimento da classe C, mas nem os ambulantes do Centro aguentavam mais vender guarda-chuva nem  as UPAs tinham mais remédios para as micoses causadas pelas poças pisadas pelas sandálias das moças. Chico abriu a turnê apontando para as nuvens nos versos “o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta” e temeu ter que trocar o patrocínio da cervejaria por vitamina C. Enquanto Caetano opinava sobre a situação Gil achava tudo uma coisa linda, o poder daquela transformação do ser. Com uma enorme preguiça de tocar samba as rodas pós-praia se dedicaram ao chorinho, das areias eternamente úmidas chegavam desolados cidadãos desorientados com quarenta e oito horas por semana para preencher sem mar (o pior que podia acontecer seria virarem paulistas, dia e noite só com uma breja no bar). Elas continuavam batendo nas pedras, as ondas, mas já pareciam os estranhos porta-retratos digitais - um shuffle de bons momentos em imagens do passado. Até quando fazia calor não aquecia vontade.

Foi então que Eike decidiu tomar providências, Nizan Guanaes montou um roteiro, ao Ronaldo entregaram dúzias de ovos, uma verba X e o Beltrame em sacrifício. Sob as câmeras do Luciano Huck lá foi o gorducho como embaixador da cidade enquanto de seu apartamento no Leblon o governador Cabral preparava o Bope para invadir a Fifa, o COI e quem mais ousasse interromper a festa na floresta.  Nunca ficou claro se houve uma falha no sistema ou os responsáveis pelo clima estavam mesmo ocupados aprendendo a dancinha do Michel Teló, fato é que ainda a tempo de ter suas famosas areias entupidas de frango para macumba ou consumo próprio na noite de réveillon Copacabana recebeu o sol. O gorducho voltou para sua cobertura na Barra, as demais praias sempre poluídas voltaram a ser passarela do bom e do mau gosto, aparelhos de ar condicionado voltaram a não dar vazão, chuvas torrenciais só no fim do dia, todo mundo tentando tirar o atraso na academia, toda aquela gente suada e malhada voltou a tomar sua cerveja de Havaianas e regata às oito da noite em pé no balcão do bar. Reclamando do calor todos voltaram a ser felizes, e aos 40 graus o Rio de Janeiro continuou sendo.

25.12.11

;-)


http://letterstodeadpeople.tumblr.com/page/4

4.12.11

O descompasso do criador


O que aconteceu? Isso lá é época de falar em Belo Monte? A revista de domingo lista cinquenta tendências do verão e sobre a metade delas nunca ouvi falar, a própria estação parece distante como Copa e Olimpiadas - vai acontecer, mas no futuro, medida de tempo que não consigo dimensionar como também não visualizo bilhão. Distância sempre foi uma referência complicada para mim, só passei a calcular um quilômetro quando descobri que entre dois postos da orla tem oitocentos metros. Mas os verões, esses eram fáceis! Estavam sempre a um palmo. Passados, bastava recordar os fatos mais marcantes, futuros, era só contar os fins-de-semana: esse é o da festa, o próximo o do show, depois tem amigo oculto, no seguinte é a escolha do samba, pronto, movimentos circulares, zona sul de bar em bar. E agora cadê o bar? Cadê as pessoas do bar? Cadê o verão?
Lamentando não ter casaco e uma garrafa de vinho nos sentamos no estacionamento do cinema para admirar a Árvore da Lagoa. Não houve problema na dublagem, estávamos mesmo em um sábado à noite, começo de dezembro, embevecidos com a árvore. Achamos um pouco invasivas as luzes que adentram as janelas da Epitácio Pessoa, e já que era para reclamar meus companheiros desligariam o barulho que vinha do espaço ao lado. O barulho era o samba do bloco do bairro, de onde estávamos víamos o primeiro ensaio onde muita gente se espremia no escuro então saímos dali para jantar no restaurante que vivia lotado, mas agora sobra mesa porque o dono abriu um com mais drinks na redondeza.
Estava cheio de “lher-mu”, ele disse sobre o evento barulhento, ao que rebati de imediato com um “não frequento lugares com “lher-mus”” e ainda complementei que no ultimo ensaio fiquei horrorizada com a falta de respeito dos que conversavam alheios à presença do Monarco no palco. Eu mesma não acreditei nas minhas palavras. Virei praticamente um João Gilberto, fevereiro me aguarda no Municipal! “Eu ainda não cresci”, ele explicou sorrindo, notavelmente a léguas do meu mau-humor, e passei o resto do dia pensando que não existe pressa nenhuma para que isso aconteça. Eu ainda não envelheci.
Dia desses alguém brincou que o Brasil está tão desenvolvido que atualmente faz frio em dezembro, mais dois anos e montaremos bonecos de neve no Natal. Outra explicação cogitou estar o tempo passando tão rápido que as estações não conseguiriam mais acompanhar, viveríamos um problema grave de falta de sincronização. Pode acontecer. Quem garante que o tempo das coisas deve ser absolutamente cartesiano e previsível? Vai ver o ritmo do mundo desandou, sei lá, do meu ponto de vista as coisas parecem bastante paradas. Acontece que pode começar uma guerra de vídeos com fundo branco sobre a construção de hidrelétricas, a Fatima Bernardes deixar o Jornal Nacional para entrar no BBB, não sobrar um ministro no governo Dilma e na praça Tahir começarem a cantar Michel Teló, preciso que foquemos no que realmente importa porque não estou pronta para viver de outono. Não adotei estratégia de pacificação então, a quem de direito, peço o favor de soprar essas nuvens, vamos empurrar essas cadeiras para o canto e abrir espaço no salão.
Como tocava na falecida Rádio Cidade: é verão no Brasil e a cidade ferve!

17.11.11

Em palavras


É pior do que morrer porque ao morrer - considerando que até agora ninguém voltou para desmentir - acabou. Ruim é continuar preenchendo todas aquelas horas cheias de minutos, dias inteiros, todos os dias em que nasce o sol, fica tudo colorido lá fora, muitos sons, e anoitece noites enormes, compridas. Noites que emendarão em dias em que você tem que se levantar mesmo tão cansada, decidir se pior é engolir comida em um esforço semelhante a ruminar papelão ou manter-se um pouco mais sem nada, e encarar pessoas. Poucas pessoas ainda distraem, você ri, se ninguém comenta sobre o nariz vermelho ou olhos marejados é porque nem notaram a escapada discreta ao banheiro, pausa momentânea para chorar. Qualquer porta que se fecha dispara o gatilho de lágrimas, ao dirigir elas vertem tão habitual e automaticamente que nem devem ser classificadas como choro – são só seus olhos que escorrem. Uma sobrevida onde quase não há movimentos, não existe o brusco. Tudo vai sendo porque deixa ser, deve ser, mar antes da arrebentação, aquela água que vem e vai, vai, vem. Você nem transborda.
Fúria, um grito, socos, aos berros, louças quebradas, roupas rasgadas, nada. O único rompante de euforia vem do álcool porque você está ali, vestida, acordada, as pessoas ao redor riem e pulam, festejam, há música, luzes mas não essa fumaça, como se dissipa? Se tudo parece meio distante é porque aquilo não é um sonho, é real, estão todos ali mesmo parecendo impossível tocá-los, as vozes estão aqui, você é quem não está. Você não pertence. É um feitiço, sonambulismo. E daquelas garrafas sai a cura que aproxima as pessoas e afasta as memorias então é mais um copo, outra dose, cuidado, não pára pra isso não acabar, e você está se misturando, olha quanta alegria e de repente uma coisa, qualquer coisa, estala. O encanto se rompe. Não vai, se esforça, disfarça! A raiva que cresce do fundo do fígado chega à goela na forma de dor, e aí sim você chora. Chora. Se contorce. Se assusta e apavora porque escancara, se afasta, vai se trancar – quem colocou essa aqui? E a culpa te espreme na cama, não abre essa cortina que todo esse sol vai apontar um dedo indicando que esse mundo lá fora não foi feito para você. Você não o merece. Ele não te entende. Quase ninguém entende, só te defende quem repete que vai passar e é claro que mente. Passa. Dia a dia você se entende porque quer viver, viver é muito melhor do que morrer. Eu sei.  

6.11.11

Testemunho




Um dia perguntei se não o incomodava ver a mãe beijando outra mulher. Ele riu, daquele jeito indicativo de que algo mais forte vem a seguir, e disse que já a tinha visto amarrada em uma cadeira sob a ameaça de ter uma faca enfiada entre as pernas. Pensei que eu não saberia lidar com uma mãe atriz.
O sol de sábado com o trânsito insuportável da rua Jardim Botânico mais o deslumbre por cada canto do Instituto Moreira Salles fizeram meu atraso perder o começo do filme, quando sentei não sabia o que as pessoas ao meu redor já sabiam sobre aquelas que se amparavam entre lágrimas na tela. Eu já sabia que seria algo pesado e que o documentário acompanhava uma atriz em sua personagem durante a encenação de uma peça sobre o Holocausto.
Logo alguém diz para a protagonista completamente abalada: “isso é só teatro, não pira!”. Ela continua chorando, Carla Ribas. Anos atrás uma amiga comentava sobre os tantos prêmios que Carla Ribas ganhara em seu filme de estréia, mas desde que essa amiga me apresentou a ele – o filho da Carla Ribas – até o dia da resposta da faca entre as pernas eu nunca  tinha pensado muito sobre fato do Grabo ser filho de uma atriz. O Grabo era um amigo meu, fazia cinema, três refeições ao dia e sucesso no karaokê.
 Eu tenho uma teoria de que se alguém responde que um filme é bom porque a luz é incrível é porque o filme é ruim. Resposta positiva para “você gostou, o filme é bom?” só pode ser “é”, se precisa de explicação são ressalvas. Depois do “é” permito vir elogios à técnica, atuação impecável, trilha genial, direção segura, etc. O filme do Grabo é foda. Personificando mais um palavrão estava eu desejando poder desmoronar de chorar enquanto o silêncio sepulcral da plateia transformava a dúvida do funcionário em abrir a porta ou não em comédia, ninguém falava, os créditos subiam sem música, os aplausos não começavam e o homem ao meu lado, que havia acabado de entrar na sala, pergunta baixinho: “é de se emocionar?” Meu indiscreto nariz vermelho se vira para ele acompanhando o resto da cabeça num sim que não satisfaz o interrogador: “por quê?”. Que diabos faz um homem que acabou de chegar me perguntando coisas assim? É porque é, não sei, você é meu terapeuta, meu consciente? É tudo tão doído, doente, estafante, eu torcendo para aquela câmera mostrar uma luz, cadê o dia, que horas são que já faz mais de doze que aqueles atores estão entrando e saindo de cena e repetindo aquele texto horripilante e quando finalmente acaba em um mergulho na praia e os braços são jogados para cima dá um alívio...
Não.
Então abriram o debate e a plateia começa a dissecar o filme – onde estava a câmera? Era sempre zoom? Aquele assunto despertava interesse especial no diretor? Todas as imagens foram feitas durante a montagem de vinte e quatro horas da peça? Houve ensaio? Eu queria perguntar como ele tinha conseguido se tornar invisível para estar sempre perto sem interferir na construção do trabalho dela, não consegui.
 Acabou que o homem das perguntas foi apresentado como Eduardo Wotzik, diretor da peça, rimos cúmplices, aproveitei o sol de sábado para um mergulho atrasado na praia e só na volta no trânsito insuportável da Jardim Botânico ainda deslumbrada com Testemunha 4 me dei conta do tal porquê. Aquele abraço no final, Grabo e Carla, a dedicatória no canto direito da tela: “para a minha mãe”.
Se é um zoom em uma atriz por um diretor, mãe pelo filho, isso não é uma critica cinematográfica: só uma tentativa de ir mais fundo no meu sentimento para compreender.

(And I keep thinking where to hang a Warhol that says "Art is what you can get away with.)

18.10.11

And I don't know why (keep walkin for miles)

*Last night she said
 Oh, Baby, I feel so down
 Oh, and turned me off
 When I feel left out

Eu tenho amigas legais pra caramba, juro. Tenho que ir dormir, uns três episódios da temporada passada de Grey’s Anatomy para assistir, a série nova que ele me deu de aniversário, tenho um cachorro que não se importa de ter o sono interrompido por um abraço meu, um provável convite de trabalho na caixa postal do celular, um pote de brigadeiro vencido na geladeira e uma planilha de filmes do festival de cinema para essa semana. Eu tenho uma festa na sexta-feira e uma nova casa de shows pra conhecer no sábado. Tenho um blog onde finalmente voltei a escrever e outro caótico para ser arrumado sobre os lugares do mundo que eu gosto. Eu tenho lugares espalhados pelo mundo sobre os quais posso falar, tenho fotos incríveis e recordações mais ainda da Toscana, do sul da França e de Boipeba. Eu tenho “pretendentes”, segundo o astrólogo. Tenho um astrólogo, eu e minhas amigas. Tem tanto tempo que um homem não domina desse jeito nossos assuntos e cabeças que já tenho vontade de sufocá-lo como fiz com quase todos os que passaram por semelhante condição. Tenho adoração pelo verso “porque era ela, porque era eu”. Tenho vontade de comprar o CD novo da Mallu Magalhães mesmo que tenha tido tanto preconceito quando ela virou namorada do Camelo. Eu tenho amigos que fazem filmes, que fazem livros, músicas, cupcakes, amigos que fazem falta, festa, filho e tanta força pra ficar bem. Gente que quer uma casa em Guaratiba, um trabalho independente, fritar bifes para o marido, que está desinformada de si mesma ou acomodada a velhas idéias. Gente que está no armário se guardando pra uma ocasião especial. Gente que confunde liberdade com solidão, que dirige sozinha cantando de noite, pra quem as informações sempre tiveram links. Gente incoerente e inconsequente, gente inteligente pacas do tipo que me deixa encabulada sem falar. Gente de quem é tão fácil gostar mesmo que se ache tão difícil.
Eu tenho que dizer para ela que vai ficar tudo bem e que apesar de querermos ser diferente isso é como no final das novelas mesmo que tenhamos certeza de que a vida segue depois dos créditos, mas tenho medo dela perguntar como. Eu também tenho uma dificuldade enorme em entender porque.

 I'm walking out that door, yeah
* Last Nite, Strokes

16.10.11

Otimista demais

Nós sempre fazíamos cartões além de dar os presentes. Um dia, deixamos de escrevê-los. Eu deixei. Porque os dias começaram a ficar corridos, os hormônios da adolescência nos permitiram menos frenesi, porque escrever exigia reflexões que remexiam e comecei a me afogar no redemoinho causado por elas, todas as alternativas anteriores, relevante aqui é que, pra mim, o encerramento dos textos sempre podia ser com palavras do Rei: ao fim de mais um ano de vida ou encerramento de um velho, o feliz ano novo trazia a mensagem de que, tivéssemos nós chorado ou sorrido, importante é que emoções tínhamos vivido.


O cinismo da vida adulta adaptou a lição de Emoções no campo amoroso fazendo surgir a premissa de que tudo vale a pena desde que renda boas história na mesa de um bar. Melhorou os fins de noite já carentes de grandes acontecimentos e aliviou a pressão das coisas terem que ser como uma comédia romântica - se passamos a assistir mais produções independentes com protagonistas disfuncionais por que não assumir logo o roteiro inesperado entregue pela realidade? Em contrapartida, comecei a batucar “qualquer coisa que se sinta...”. Por resistência, cicatriz, comprimido ou Oscar, pouco passou a importar. Se até ônibus que demora a passar passa (e me abalar não altera em nada o itinerário dele) imagina dar corda para aborrecimentos que não são diários! “Eu, hein, Creuza” virou mantra, pobre súdita do Rei.

Substituímos nossos terapeutas por um astrólogo – o mesmo para compartilharmos o aprendizado de interrogá-lo - e não o fizemos por inclinações místicas, mas porque a ciência que economiza sessões oferece um panorama de tendências mais objetivo. Aproveitamos que a casa afetiva está vazia para descartar essa ansiedade e focar no realismo que Saturno traz, frequentamos festivais de rock com musica pop e grama sintética, planejamos o negócio próprio menos por idealismo do que por rentabilidade e autonomia. Até que num sábado muito depois dos tempos dos cartões, quando música alta de músicos atraentes é tema de conflito mais profissional do que amoroso, releio a sequencia de e-mails há dias sendo casualmente escrita entre nós. Falamos sobre entender ao invés de julgar, tentamos um perdão, pensamos se o erro do outro não foi o melhor que ele pôde fazer, lamentamos calmamente o descompasso entre os seres e que reciprocidade seja tão complicado de viver quanto de pronunciar.

Porque queremos desacelerar os dias, porque nossa intempestividade não altera em nada o tempo de cada um, porque sabemos que aquele festival não é pra nós, porque nosso mapa astral já aponta o fim do retorno de Saturno, porque todas as alternativas anteriores são verdadeiras vem finalmente uma vontade de chorar e de rir, e uma impressão de que o encerramento-padrão dos cartões não faz sentido de novo, faz um novo sentido. Em paz com a vida, o que ela me traz só acrescenta que o importante é que a emoções sobrevivi.