2.8.20

Diário de uma pandemia - vol X

Dia 144

Quatro meses e meio e ainda não sei fazer batatas palito no forno. “Não coloca muito azeite”, diz uma irmã, “seca bem antes de cozinhar”, diz a outra. Mais uma tentativa e me rendo à air fryer – o quarto maior amor dos quarentenados depois dos mops, aspiradores robô e da Teresa Cristina.

No primeiro dia de uso do robô passo duas horas seguindo o aparelho pela casa como se fosse um filhote recém-chegado. Em vinte minutos queria devolvê-lo – eu, sozinha, já teria aspirado metade dos cômodos naquele tempo. Donos mais experientes garantem que posso deixá-lo trabalhar sem supervisão, relaxo na segunda vez. Abro um vinho, coloco uma música, estendo meus pés no sofá – ah, a alegria de ter um chão sendo limpo sem meu esforço! Um sorriso de satisfação... bleft-pi-piiiiiiiiii. Cadê o troço? Sigo o apito, tensão pelo estrondo vindo da área, chego à cena de guerra, uma batalha sangrenta onde o sangue é poeira, toda a sujeira contida dentro do antigo aspirador arremessada pelos ares e ele despedaçado no chão. Robô apitando paralisado com rodinhas emboladas em fios de cabelo que comprovam minha tendência acelerada à calvície. Não se sabe se o novato avistou o antigo aspirador e o atacou derrubando-o para marcar território ou se o outro enciumado se jogou sobre o robô cuspindo tudo de imundo que continha dentro de si. Saldo da noite: Bruna, vassoura, pá de lixo e pano de chão. Like old (pandemic) times.

Diferentemente de old times, recebo o email de um evento na França confirmando a realização e informando que, esse ano, posso participar virtualmente. "Entendemos que o banimento de viajantes do seu país para a Europa significa que você não poderá estar presente conosco, mas foi pensando em pessoas como você que criamos uma plataforma online”. Pessoas como eu em dúvida sobre o futuro? Pessoas como eu buscando orientação e perdidas? Pessoas como eu colaborando com o coletivo? Não, pessoas como eu: banidas.

O presidente passa a atormentar emas além de nós, o país segue sem Ministro da Saúde em meio à pandemia, mais um governador se encaminha a Bangu, o prefeito ninguém nunca soube mesmo o que faz, tudo é liberado menos sentar na areia, uns tomam chopp nos bares que restaram enquanto outros continuam evitando até elevador. A vida social passa a ser uma grande clandestinidade, com escapadas generalizadas para encontrar flertes do Tinder ou amigos em praças discretas, a culpa católica se torna pluma se comparada à culpa pandêmica e o julgamento alheio passa a amedrontar mais que o vírus.

Chega o dia de voltar ao estúdio. Um protocolo de segurança nos permite algumas horas confinados no mesmo espaço de onde saímos em março.

- Que horas você vai?

- Depois do almoço.

- Eu também, aviso quando chegar para nos encontrarmos.

OMG, “aviso quando chegar!”, “para nos encontrarmos!”, eu não pronuncio essas frases desde o Carnaval!

A ansiedade prévia causa até insônia. Peguei o carregador do celular? E do notebook? Leva água, lá não tem mais copo. Lá ainda tem água? Nunca mais deram notícias da geosmina. Onde guardei o crachá? Posso sentir fome, não tem mais catering, prepara um sanduíche. Toma um Allegra, evita espirrar. Pode demorar, tem que trocar a máscara a cada três horas, leva umas cinco. Não, exagero, leva três. E um saco plástico para guardar as usadas. Coloca um casaco na bolsa, lembra? Estúdio é frio, te faz espirrar. Pego a mochila de camping, não coube tudo na bolsa.

Na entrada do prédio medem minha temperatura. “Boa tarde, senhora. Trinta e seis e meio, bom trabalho”. “Obrigada. Quer dizer, para você também. Trinta e seis e meio, que bom, né? Tá, deixa pra lá.”

Entro na sala. É um espaço para cem pessoas, vazio. Um silêncio absoluto onde antes eu me esforçava para ouvir meus pensamentos no meio de frases díspares como “fechando esse patrocínio batemos a meta do mês” e “é fake esse nude, a bunda dele não estaria aqui se a cabeça do outro está lá”. Agora ouço o som dos meus passos no piso enquanto caminho entre as mesas com novas marcações alternadas de bloqueio e caixas fechadas com todas as coisas que deixamos para trás.

No caminho para o estúdio passo na praça de alimentação para checar o que restou como se andasse em escombros do pós-guerra. Avisto, na porta do restaurante onde eu almoçava, os funcionários! Sorrimos escancaradamente, apesar das máscaras sabemos que sorrimos, tento conter as lágrimas de felicidade por vê-los e alívio por saber que ainda tem empregos. Como viveremos com essa vontade quase incontrolável de abraçar as pessoas queridas que revemos?

Tudo volta, agora sob os olhares de um fiscal da Segurança de Saúde. “Você gosta dessa tarja? Vocês estão muito próximos. O cenário está lindo! Não sai da sua posição, fala pelo comunicador. Vamos passar o roteiro? Passa álcool nesse equipamento. Não consigo montar meu faceshield, alguém me ajuda! Encaixa essa parte naquela, não, na outra, assim não, do outro jeito, mais inclinado, ah faz para mim, não posso encostar no seu, pronto deu certo, vem aprovar a vinheta, socorro, não vejo nada, passa álcool, não posso andar, está tudo embaçado, pareço míope, como vou trabalhar? Tirou a película de proteção? Não. Aí dificulta”. Ouço minha própria voz como retorno. Vocês me ouvem? Alô, som! Viro o Tim Maia com EPIs. Máscara & Faceshield & Óculos & Fone & 3, 2, 1 Gravando. Eu lembro que o coração batia feliz assim.

Em Berlim, milhares vão às ruas protestar contra restrições impostas pela pandemia empunhando cartazes como "Corona: alarme falso". Os manifestantes negacionistas dizem estar “fazendo barulho porque vocês estão nos roubando a liberdade”. Não sei exatamente quem são os “vocês” a quem se dirigem na indignação, mas penso em também protestar contra quem me atrapalha. “F&*@-se, cólica menstrual!”. “Abaixo a lei da gravidade!”. “Devolvam meu Papai Noel!”. Meus sobrinhos se inspiram: “contra a hora de dormir!”. “Pelo direito de não pentear o cabelo!”.

Não levamos adiante a ideia das passeatas, mantenho em nível pessoal a vontade de “start a revolution from my bed” e sigo vendo a live da Teresa Cristina enquanto corto batatas.

- É TT, mais uma noite.

- É, mas é menos uma noite! Pensa assim.

19.7.20

Diário de uma pandemia - vol IX (Bat-histórias y bat-incertezas)

Dia 130

A ideia era conhecer histórias de maias e astecas, explorar a Riviera mexicana, mas nos apaixonamos de tal forma por Tulum que parecíamos viver um catálogo da Richards, no melhor sentido disso – todas as pessoas eram lindas, todos os dias de praia tinham aquele azul de um Pantone deslumbrante, sorríamos inebriados tomando margaritas em nosso rooftop, mesmo as histórias mais fantasiosas de guias duvidosos em ruínas que por vezes pareciam um pouco disneylândicas nos faziam felizes, para sempre teríamos Chichén-Itzá. E assim fomos nadar, acompanhados por um casal de alemães, em um cenote habitado por morcegos. Quando o instrutor nos mostrou as fotos das cavernas onde mergulharíamos tudo parecia divertidíssimo, aqueles lagos subterrâneos inéditos, excitantes, foi nesse clima que Marcelo olhou a foto dos morceguinhos no teto de uma das cavernas e proclamou a frase clássica da viagem: pero é una película de horror! Tivemos, os quatro e o instrutor, um ataque de riso, vestimos as roupas de neoprene alugadas no local (que só de lembrar hoje me deixam com vontade de pular em uma banheira de álcool 70), pegamos os snorkels e nos jogamos na água. Julia não foi: “não consigo respirar com isso”. Os snorkels, isso. De volta ao Brasil, Lucas contou que o cunhado médico não reagiu bem ao relato da aventura, achou muito imprudente nadarmos em uma caverna com morcegos. Que malucos nós, hahaha, nem sabíamos.

Anos depois alugamos uma casa na praia do Felix para férias de verão. Debruçada sobre o mar, a parte de cima da casa era toda aberta – sala, cozinha, nada tinha porta, parede nem vidro, uma total integração com a natureza que só nos exigia esconder todas as comidas à noite para não serem levadas pelos macacos. Em um mezanino nesse lugar dormia o Lucas. “Lucas, desce, vem dormir com a gente, colocamos seu colchão no nosso quarto”. Não queria, achava que os macacos não o levariam, olha a oportunidade de dormir naquele céu de estrelas entre árvores, só precisava de repelente (temíamos a zyka). Em uma noite Lucas estava lendo, deitado em seu berço esplêndido sob a lua, ouviu umas pegadinhas no chão de madeira, um farfalhar de asas, encarou dois olhinhos admirando-o na natureza – um morceguinho! Talvez um amigo remoto mexicano também em viagem?  

Um dia um chinês na província de Wuhan comeu um morcego, ou comeu um mamífero que comeu um morcego. Essa sequência de “quem come quem” já tinha dado tanta confusão na vida, mas nunca como naquele momento. Morcegos – o cunhado do Lucas estava certo – são notórios transmissores de doenças, e dessa vez a epidemia se alastrou pelo mundo inteiro. A contaminação era exponencial, os danos às pessoas podiam ser fatais, as perdas e o contágio aumentavam mais rapidamente do que a ciência conseguia mapear a patologia e controlá-la mesmo com esforços conjuntos, o único esforço eficaz imediato para não colapsar os sistemas de saúde e dizimar populações seria o isolamento. Foi assim que quem podia se trancou em casa, passou a higienizar qualquer objeto externo e lavar as mãos trocentas vezes por dia sem jamais levá-las ao rosto antes disso.

Em casa era onde eu estava há mais de cem dias quando um morcego entrou pela minha janela. Eu não estava na natureza, a parte dela que existia aqui tinha sido desmatada para construir meu prédio, minha rua, bairro e cidade, eu tinha portas e paredes, não estava em uma caverna, mas no meu sofá e o morcego apareceu assim, sem cerimônia: olá, amiga!

Grito, pulo, almofadas pelos ares, aos tropeços me fechei em um quarto onde ele não entraria e tentei raciocinar o que fazer no meio da madrugada. “Posso abrir as janelas da casa, durmo trancada aqui, amanhã ao acordar ele terá ido embora. Ou não terá ido embora e passará a viver comigo. Não pode ficar aqui nem mais um minuto, é o coronavírus em pessoa na minha sala. No caso, “em morcego””. Eu me confinei, usei máscara, álcool gel, senti saudade, medo, ajudei, aprendi a cozinhar, lavar, passar, vou perder a guerra porque o inimigo entrou pela janela, isso não pode acontecer. Pesquisei no Google “como tirar morcegos de casa”. Uma película de horror. Alguém precisa vir aqui. Não podem ser meus pais, grupo de risco. Lucas! Não vê a rua há quatro meses, terá um choque anafilático. Minha prima, vizinha, já entrou morcego na casa dela. Dormia. O tempo ia passando, os coronavirus já podiam estar por toda a minha casa. Liguei para o maior aliado de pessoas que moram sozinhas quando estão em apuros: o porteiro. “Por favor pede para o segurança vir aqui, estou sendo atacada”. Já não sabia do que tinha mais medo: ser contaminada pelo morcego ou pelo homem na porta que apareceu de botas, sem máscara, com duas mãos lotadas de dedos tocando em tudo que podia esconder o meliante de asas. Eu tentava decorar todos os lugares onde ele passava e encostava para higienizar com álcool 70 depois, se um dia aquela cena de ficção científica terminasse.

Nunca achamos o morcego, supomos que ele voou embora enquanto eu me refugiava no quarto, desde então tenho a certeza de que a qualquer momento ele vai sair de uma gaveta ou pular do bolso de uma calça no armário pedindo abrigo por estar sendo perseguido como exterminador do futuro, o vetor que esfregou a impermanência da vida na nossa cara, o transmissor ensurdecedor da notícia de que temos que lidar com o não saber mesmo que, na crueldade ou maravilha dos fatos, nunca tenhamos sabido e só não dormíamos e acordávamos pensando nisso.

Naquele domingo olhei para o Cristo, aqueles braços abertos que nunca abraçam a cidade, não tinha uma única nuvem no céu. Talvez as areias das praias ainda estivessem mais vazias do que costumavam ser, talvez os bares atendessem menos gente, mas fazia o mesmo calor de todos os invernos que insistiam em não chegar no Rio de Janeiro. Eu ainda não estava na praia como estaria em um domingo de sol até março daquele ano, mas quando desci para repetir o mesmo trajeto que fazia há 18 domingos da nova rotina temporária, a feira de antiguidades estava montada de novo na praça. Ao vê-la brotada ali nem pude dizer que estava “de volta”. Não sei se um dia “voltaremos”. Estava no mesmo lugar onde antes havia uma feira, mas não parecia ser a mesma feira. Ou os meus olhos ainda não eram os mesmos olhos? Nunca mais seriam? Não sei se alguma vez voltamos, mesmo quando repetimos padrões. Não sei o que em nós terá acontecido daqui a um tempo, individualmente e coletivamente. Eu não sei, e às vezes queria poder sair voando daqui. 

Ruídos e comunicação


42-0453. Só isso, fácil de decorar, era o número do telefone da casa de Petrópolis. Eram muitos quartos, a mesa de jantar tinha tantos lugares que brincávamos de Escravos de Jó versão estendida na hora de tirar os pratos, mas para aquela multidão toda agregada ali só havia 1 telefone. Ele ficava na sala, em uma mesinha exclusiva com gaveta para o caderno de telefone, bloquinho para recados e uma cadeira para os falantes demorados. Ninguém demorava porque interurbano era caro, não era para ficar conversando no telefone. Ou vai ver não ficávamos conversando porque ninguém tinha privacidade ali, ou porque tínhamos mais o que fazer lá fora. Fato é que só existia um único aparelho, com aquele pequenino número que jamais esqueci apesar de não saber qual é o meu número atual - nem o de ninguém mais.

O telefone de Petrópolis era de disco e muitas coisas eu não entendo sobre os anos 80, mas entre elas estão saber como víamos TV com aquelas imagens sem definição e como ligávamos em aparelhos de disco. Se o número tinha muitos oitos ou noves, pelo-amor-de-deus não solta o disco antes de dar a volta completa! Escapou o dedo, tinha que começar a “discar” tudo de novo. Com a pressa de hoje eu jamais falaria com alguém que tivesse zero no número, levaria uma eternidade e já naqueles tempos eu gostava de telefone de tecla, achava chique.

Na casa dos meus pais tinha telefone de tecla, de disco e até em formato do Garfield, mas era impossível permanecer em uma conversa inteira sem interrupções, sempre alguém pegaria na extensão e ouviria um berro com potência para avisar em Marte: “desliga, tô falaaandoooo”. Éramos oito pessoas co-habitando o lugar, chegamos a ter três linhas na mesma casa-escritório (já vivi em um home-office em outra era). Era tanto telefone tocando que parecia call center – o que acontece em menor escala até hoje, não entendo quem liga tanto para eles enquanto eu nem tenho telefone fixo em casa.

Outras interrupções de conversa na vida aconteciam pelo maldito fax (aparelho que nunca decifrei e produzia um apito insuportável surgido do nada) e pela conexão de internet derrubada por alguém que tirou o telefone do gancho enquanto outra pessoa estava online. Era razão para assassinato, teríamos que ouvir de novo por minutos aquele ruído de sintonização com ETs até reconectar.

Nosso telefone era prefixo 226, o pior prefixo do país. Nunca dava linha, quando queríamos ligar para alguém era preciso se planejar meia hora antes, tirar o fone do gancho e ir fazer outra coisa, de vez em quando voltar ali para checar se já era possível telefonar - quase como acontecia ao ligar nossos primeiros computadores, que demoravam uma tarde inteira “inicializando” (palavra que nunca existiu fora do Windows). Na primeira vez em que viajei para fora do Brasil contei eufórica que lá nos Estados Unidos tirávamos o fone do gancho e já dava linha imediatamente! Fiquei chocada. Além da falta de sinal, os 226 eram os maiores points de linha cruzada da Telerj, aglomeração. Penso em quantos romances começaram em uma linha cruzada e quantos barracos ocorreram pela mesma razão. Era tanta linha cruzada que existia uma etiqueta sobre quem desligava, assim como a cortesia de orientar quem ligava errado querendo falar com alguém que nós já sabíamos ter um número parecido com o nosso. “Alô, é da casa do Alfredo? Não, você trocou o último dígito, o Alfredo é 2578, aqui é 2570. Ah, valeu.”

Nunca passei trote para o Alfredo, mas poderia ter feito isso. Houve uma fase em que adorávamos passar trotes. Trote é uma diversão tão arraigada na cultura que gera até hoje programas de rádio e televisão. Eu fiz amigos porque passei trotes para eles, emendamos a piada em uma conversa e dali fui até a churrasco na casa deles.
Nessa época não apertávamos Send, o telefone ligava sozinho. O Send apareceu na nossa vida quando passamos a andar pelos lugares empunhando aparelhos cinza com antena externa buscando conexão, deve ter ocorrência de gente que caiu da janela, penhasco atrás de sinal de celular. “No service” era a tradução da nossa frustração. Telefone de tecla virou démodé, eu almejava Startacs, baterias azuis que durassem mais de três horas. Luxo.

Os mais velhos achavam que ligar para o celular era coisa de emergência, falavam tão rápido, como se fossem gastar os minutos, que era como conversar com um narrador de turfe. Deviam pensar que celular era uma evolução do bip - o que era, de certa forma, mas entre eles passamos pelo Teletrim. Pagers. Meu amigo mais rico tinha um Teletrim & uma agenda eletrônica, ele era um ícone de tecnologia e status. No meu tempo de memória isso durou uns três meses, pouco mais que vídeo lasers.
Quando surgiram as linhas com identificador de chamadas, que até aquele momento chamávamos de Bina, a preocupação no meu grupo de amigas era como faríamos para ouvir a voz dos nossos crushes – que na época nem lembro como eram classificados – sem sermos reconhecidas. Sim, fazíamos isso: ligávamos para eles, ficávamos encantadas ouvindo um “alô. Alô? Plaft.” e sei lá o que acontecia depois. Éramos estranhas.

Dizem que o primeiro samba gravado no Brasil foi Pelo Telefone: “o chefe da folia pelo telefone manda me avisar / que com alegria não se questione para se brincar”. Eu queria tanto receber essa ligação hoje... Mas certamente antes de ligar o chefe da folia mandaria uma mensagem: “oi, posso ligar para você?”. Não se liga mais para alguém sem permissão ou agendamento, falar no telefone ficou para os íntimos ou assuntos graves. Telefone não é mais considerado possibilidade principal de comunicação, é uma espécie de jornal impresso. Eu ainda assinava jornal impresso, no início da pandemia decidi suspendê-lo.
- Mas você conseguiu cancelar seu jornal impresso?
- Sim, liguei para lá.
- Como “ligou para lá”?
- Peguei meu telefone, apertei os números, apareceu uma voz, eu disse o que queria, aconteceu. Como o gênio da lâmpada.
- Não tinha pensado nisso. O site não funciona.

O Whatsapp criou os emojis para dar uma graça às conversas, para poupar palavras ou por acreditar que uma imagem vale mais do que mil delas? Em qualquer alternativa, gerou questões que nenhum gênio do Vale do Silicio supunha crível existir:
- Convidei-o para um chopp e ele respondeu com aquele emoji de coração ao redor.
- Que bom! E quando vão?
- Nunca, né. Resposta péssima.
- Como péssima, ele foi tão amoroso mandando corações!
- Amoroso com ele, aquele é o emoji narcisista – uma pessoa cheia de corações por si mesma.

O que também não funciona é a vida reduzida a videochamadas. São as falhas de áudio dos aplicativos ou o bombardeio de mensagens por todos os serviços que nos faz confundir ainda mais o que já dava problema? Alguém cobra por Whatssapp resposta do que foi perguntado por email e debatido no Messenger com um terceiro elemento. O quarto chega na reunião semanal por Whereby sem nem saber que o  assunto evoluiu – mas ninguém perde um meme recebido em 4 grupos diferentes, Twitter e Instagram.

Os chats em vídeo implementaram a máxima do “quando um burro fala, o outro abaixa a orelha” (nunca entendi a origem disso, mas nunca observei dois burrinhos interagindo.). É quase uma conversa coletiva por Nextel: alguém fala, todos esperam um tempo para ver se acabou a frase e arriscam responder. Invariavelmente dois arriscam ao mesmo tempo, então todos param esperando a deixa – “pode falar, Bruna”. Bruna segue, quem realmente deveria responder fica mexendo a boca até todos murmurarem – “está mudo, Zezinho”. Isso quando todos ativam os vídeos! Nas reuniões em forma de podcast, sem apelo visual e só com vozes vindas do além, você que lute para desenvolver a sintonia máxima da dinâmica fala-responde e o foco.

Freud, Lacan ou algum deles diz que não devemos acreditar na comunicação, que só os tolos lutam por isso. Não existindo a comunicação perfeita - o domínio de que o dito chegará intacto ao destinatário - o emissor está libertado para dizer e agir como quiser, livre da exaustão de supor o efeito que suas palavras causarão do outro lado. “Desprenda-se disso e verá que sua vida ficará bem mais simples”, insiste o oráculo. Eu sigo interpretando papéis e palavras, tão inútil quanto tentar organizar um Zoom aglomerado.

Beethoven, por outras razões, conhecia bem o isolamento e compôs Para O Amor Distante, uma obra de lamentos por uma separação e anseios pelo reencontro. A música ganhou uma nova performance criada pelo On Site Opera onde um duo de pianista e soprano apresenta a composição para o espectador que está do outro lado da linha, ao telefone! A pessoa se inscreve para atuar como a amada distante e receber a ligação de amor. O texto de Para O Amor Distante foi composto por Alois Jeitteles, um jovem médico que trabalhou incansavelmente durante a epidemia de cólera que assolou seu país.

Já que enfrento tantas dificuldades para me comunicar mesmo com tanto avanço na tecnologia, reinstalei meu telefone fixo e aguardo a ligação dos artistas. Falarão em outra língua, mas vou ouvir do modo mais antigo que conheço uma mensagem que vai me deixar feliz.

14.6.20

Diário de uma pandemia - vol VIII (o dia em que não acabou)

Dia 95

E então? Três meses depois, aquelas músicas, livros, amores ainda te sustentam?

Quando começou, calculei três meses. Guiei-me por Wuhan, ficava olhando para os países que lidavam com a epidemia há mais tempo como se fossem spoilers. Sabia que existiriam condições um pouco distintas, mas não imaginava que teríamos aqui diferenças tão drásticas. O Brasil virou uma quadrilha mal organizada sem graça nenhuma. “Caminho da roça! É mentiiiira!”, sai todo mundo se esbarrando no sentido contrário. O foguete da Space X decolou sem me levar.

Entre hipóteses desencontradas e “o culpado é o morcego”, um filósofo inglês arrisca que a doença é uma conspiração dos que perderam seu amor para reatar com os ex, nem que seja por DM. Essa me parece a teoria mais confiável de tudo que se falou até agora.

No início dessa semana tocaram minha campainha no meio da tarde. Não surgíamos na porta de outra pessoa sem avisar, como isso poderia acontecer no meio da quarentena? Amigos que moram nos subúrbios acham graça dessa falta de costume daqui, onde ninguém senta nas calçadas para ver a vida passar nem aparece na casa dos outros sem ser convidado. Levantei no susto, olhei pelo vidro, era um entregador. “É a casa da dona Sirlene?” Não, mas como um entregador está andando pelos corredores procurando a dona Sirlene se ninguém pode entrar no prédio?

Um dia em março fui dormir fazendo piada sobre coronavirus e no seguinte acordei em uma pandemia, foi de repente que tudo se transformou porque eu não estava dando atenção aos sinais. É como se tivesse acontecido agora de novo.

Poucas noites depois da campainha tocar, saí para descartar o lixo e ouvi vozes novas no apartamento da vizinha. Tem... visitas na casa da vizinha? Voltei para a minha, desinfetei a maçaneta, quase coloquei um pano embebido em álcool enrolado na fresta da porta como se vírus fossem entrar que nem baratas pelos vãos. Se espirrarem na janela chega aqui? Fechei as janelas.

Na manhã seguinte fui à feira. Atravessei para ir às barraquinhas como faço há semanas, está muito calor? Havia alguma coisa estranha no ar. Muitas vozes, barulho de carro, um mendigo cambaleante grita frases desconexas, o rapaz do limão me aborda muito de perto, o rabo de um cachorro esbarra em mim, outro vizinho me cumprimenta talvez sorrindo “oi, há quanto tempo!”, tem elementos demais nessa praça. Corro para casa, aperto com a chave o botão do elevador antes cheio de circulares que informavam sobre funcionários contaminados e regras do parquinho, elas sumiram. Tiro o sapato na porta, passo álcool gel, removo a máscara, troco a roupa, bebo água, o celular... que fotos são essas? Minha cabeça está rodando um pouco. Pessoas na praia, na serra, é feriado. Mas... acabou? Suo nas mãos, meu coração está acelerado. Por que tem tanta gente na rua? “O prefeito autorizou.” Que prefeito? Ligo a TV depois de dois dias de pausa na contagem. Cadê a curva de contaminação? Aquela fila é para entrar em um shopping? Sonho há noventa dias com a nossa libertação, ela não seria assim.

Eu também queria dar um mergulho no mar. Será que ainda tenho anticorpos para a água salgada do Leblon? Ainda sei andar de Havaianas na areia? Eu queria vento! Qual o perigo de contaminação – por coronavírus, não hepatite e micoses? E essa culpa? Atravesso a rua para comprar rúcula e sinto como se traísse o movimento, crio justificativas, mas não convenço nem a mim mesma de que preciso cruzar o portão pela rúcula. “Tenho que ajudar o seu Jair da barraca das verduras. Seu Jair leva pra você. Na feira bate sol, tenho que produzir vitamina D. Senta no estacionamento do prédio. São quase cem apartamentos, e se todos sentarem no estacionamento? Organiza um rodizio. Passo dez horas por dia em zooms, como vou organizar condôminos?” Lágrimas. Eu também quero sair de casa.    

Já achamos que sairíamos melhores dessa experiência, lembra? Que faríamos um mundo melhor. Mundo melhor é tão subjetivo. Três meses depois, vamos aceitar que alguns não terão aprendido nada? Eu não sei por que estão na fila do shopping, mas não posso ir lá entendê-los. Posso ficar aqui. Não cabe a nós julgá-los, já é trabalho suficiente cuidarmos dos nossos caminhos e nossas histórias. Não deixemos que isso nos frustre. Nossa expectativa deve ser sobre o nosso papel nesse grupo imenso de seres habitantes do planeta, alguns na fila do shopping, outros no mat intensificando a yoga, outros acordando de noites mal dormidas, fazendo comida, faxina, tarefas que produzam trocado para dar garantia. Quando acabar e houver tanta necessidade reprimida, quando se intensificar a lógica do “eu primeiro que já esperei demais”, tomara que ainda sobre força e calma para os que estão mais acima na pirâmide poderem defender ideais e lutar pelo tal mundo melhor que nós vislumbramos, aquele no qual não cabe mais tanto acúmulo, vencedores, perdedores, onde entendemos que estamos no mesmo barco.

Seguiremos agindo como acreditamos mesmo sabendo que do outro lado existem pessoas iguaizinhas a nós em composição com a mesma certeza de sensatez, lançaremos palavras para reflexão sem a exigência de convencimento, apenas porque temos essa voz e certa capacidade de traduzir o que nos vai por dentro. Senão, parece luta vã – e não é. Como a visão da Médica Sem Fronteiras, que todos os dias salva pessoas da destruição causada por outras idênticas às vitimas e não perde a fé na humanidade - “porque somos muitos médicos e voluntários e humanos dispostos a ajudar e lutar contra o mal. Escolho olhar para esses”. Se ela ainda está lá, como nós não estaremos mais aqui?

Se cuida. This too shall pass.

13.6.20

Contatos imediatos


E quando eu já estava suficientemente cansada, vem o deboche da irmã que se isolou, antes até da geosmina surgir aqui, em uma ilha no Pacifico: “você é louca de ficar nessa cidade. A única coisa que falta acontecer no Rio é ser invadido por ETs”.

Tenho incentivado nossos pais a se entreterem com qualquer coisa, como uma babá que oferece vídeos para as crianças se distraírem enquanto coisas precisam ser feitas - no caso, acharem uma vacina. Essa semana meu pai ficou quase uma hora conversando com um operador de call center. Sabe que o nome do homem é Leo, que Leo não tem feito exercícios físicos, que mora com a namorada, debateram a dificuldade de se manter são na quarentena, o inicio de uma bela amizade.  Por isso até me alegrei quando ele comentou ter passado horas assistindo ao History Channel. “Um programa muito interessante: Alienigenas do Passado”. Eu teria feito a piada “não quer assistir Alienigenas do Futuro para já nos prepararmos?”. Não fiz. Eu hein, mania súbita de ET na família.

Na véspera era eu quem assistia TV, um documentário sobre a turnê de As Cidades do Chico em 1999. Estava tendo um dia péssimo, culpada por senti-lo péssimo quando coronavirusmente estava tudo bem, mas ainda sentindo. Fui melhorando com aquelas músicas, as risadas do Chico, conversas sobre criação, futebol, parcerias, oi? Chico e Bethania disseram que viram extraterrestres? Devo ter entendido errado, voltei a cena. Mais alguém viu esse documentário, eles falaram sobre disco voador em Copacabana mesmo? Google – Bethania + Disco Voador. Que ainda estou sozinho, apaixonado / Como um objeto não identificado / Para gravar num disco voador / Eu vou fazer uma canção de amor. Apenas música, nada sobre abdução.

Liguei para um amigo. Semanas antes interrompera uma conversa nossa com uma expressão de espanto dizendo ter um balão no céu. À meia-noite, na zona sul do Rio de Janeiro, em plena quarentena? “Não se move como um avião, talvez seja um disco voador.” Eu segui falando como se nada houvesse acontecido, no máximo ri da pausa inesperada, não voltamos a isso. Agora precisava compartilhar a cisma. “Tem uma coisa estranha acontecendo. Surgem ETs por toda a parte na minha vida desde aquele dia”. Dessa vez foi ele quem riu: “ao menos parece que testemunhamos a primeira chegada dessa leva.” Não estava entendendo a seriedade.

Sempre acontece nas redes sociais, um assunto que eu tenha falado com alguém ou conversado por Whatssapp surge no feed naqueles links patrocinados. Essa publicidade programática está extrapolando o mundo digital? Existe no ar um algoritmo selecionando nossos assuntos, estamos monotemáticos com pandemia e governo por metadados e não por emburrecimento e pânico?

Abro o Instagram. Esta lá, na postagem de um perfil que sigo: “5 documentários sobre alienígenas que confirmam que o estreitamento do nosso contato com os ETs é uma questão de tempo.” Não estou alucinando. Me rendo. Quanto tempo, gente? Eu estou exaurida de fatos históricos, não quero receber ETs nem que eles sejam idênticos ao do Spielberg, a única novidade que quero é imunidade generalizada (e, se couber bônus de desejo, troca de governo).

Se só me restar a resignação de aceitar o fato da chegada dos ETs, que venham de máscara, tragam mop, aspirador robô, álcool 70 e sua própria comida porque eu não vou fazer faxina nem almoço para mais ninguém.

2.5.20

Diário de uma pandemia - vol VII (Detalhes de uma vida, histórias que eu contei aqui)

Dia 52
Pressure pushing down on me
Pressing down on you, no man ask for
It's the terror of knowing what the world is about
Watching some good friends screaming
"Let me out!"
Insanity laughs under pressure we're breaking


A casa dos meus pais onde cresci sempre foi muito animada, nunca era um ambiente monótono. Eram quatro filhos, duas funcionárias, hóspedes eventuais, agregados fixos, um entra e sai de gente a qualquer hora, ali já voou jabuti pela janela, entregador de pizza já foi recebido por homem vestindo capacete medieval e empunhando espada de ferro, duas crianças já quebraram os braços ao mesmo tempo, o cachorro jantava medalhão ao molho madeira com arroz à piamontese, até incêndios alheios figuram no álbum de feitos daquela casa.

Eu estudava no escritório, comecei a sentir um cheio de queimado forte vindo pela janela, ao olhar para baixo vi o telhado da pequena escola ao lado em chamas. Uma rua inteira podia ter notado, mas fomos nós. Descemos correndo pelas escadas com extintores em mãos, o porteiro tentava fazer funcionar a mangueira de incêndio da garagem, pai e irmão tentavam pular o muro, mãe ligava para os bombeiros, salvamos o lugar. Uma semana depois, meus irmãos viam TV no quarto quando comentaram: ‘cheiro de queimado de novo, né? Também estou sentindo, acho que a Bruna está secando o cabelo”. Pela janela, uma fumaça negra entrava que, se fosse dos meus fios, significaria que eu estava carbonizada. Foi minha mãe quem deu o alerta – fogo na escola de novo! Mais uma vez corremos pelas escadas, já não havia mais extintores carregados pelo curto espaço de tempo entre os dois incêndios, gritaria na rua, pai e irmão de novo pulando o muro – pelo menos já tinham experiência naquele espaço. Claramente alguém traçara um plano para ganhar o dinheiro do seguro, e no desenho do Scoobydoo essa historia terminaria com “o que teria acontecido se não fosse aquela maldita família vizinha.”
Assim era o cotidiano bucólico na casa dos meus pais. Eu creditava ao excesso de gente, era isso que provocava as estripulias, mas hoje percebo que não – aqueles dois, sozinhos, tem mais capacidade de se meter em altas confusões e aventuras do que todos os personagens da Sessão da Tarde reunidos. E foi assim que, munidos desse know how e impedidos pelos filhos de abrir a porta de casa para qualquer coisa além de buscar comida e descartar lixo, ligaram dizendo haver “uma coisa estranha no hall”.
- Não tem nada de estranho no hall, vocês não vão abrir a porta, não sairão de casa. Já aprendeu a costurar máscaras?
- Tem um pratinho no móvel em frente ao elevador, acho que é uma comida embrulhada.
Respirei fundo. Tanta coisa para lidar e agora meus pais estão delirando ou alguém está fazendo macumba no corredor deles.
- Deve ser do porteiro, ele esqueceu aí. Não coloca a mão!
- O porteiro não sobe aqui.
- Então algum moço do Ifood subiu e deixou para o vizinho.
- Ah não, eles não sobem também. Eu sou o sindico, proibi.
- Seu pai está indo lá!
- Não! É pra Exu, não pode mexer.
- Quem é Exu? Foi você?
Fui, pensei. Tenho que trabalhar, fazer comida, faxina, unha, depilação, exercícios, tudo na mesma sala, faria despacho no corredor alheio.  Os dois estavam com a porta aberta, me mostravam por Facetime o embrulho de papel laminado, eu já pensava em terrorismo com antraz, de repente percebo gargalhadas da minha mãe. Meu pai, mais de quarenta anos naquele casamento, nem se abalou. Olhava imóvel para ela.
- Estou vendo aqui uma mensagem da vizinha! Foi aniversário dela, deixou esse pedaço de bolo para nós! Que amor.
Me jogo no sofá. Fim de ato. Se ao menos eu soubesse fazer bolo...
Horas depois recebo uma mensagem de L, quer um vaso de planta emprestado.
- Que legal, você vai começar uma horta em casa? Essa semana nasceu um manjericão no meu vaso de pimenta, os passarinhos fazem a maior bagunça na plantação!
Não exatamente uma horta, ele quer empreender.
- Está nascendo um pé de maconha no meu cactus.
Eu não sei por quanto tempo viveremos nessa quarentena, mas me preocupo no quão mudados sairemos dela.
C quer se divorciar, não suporta mais o marido, liga aos prantos, diz que aquele homem por quem se apaixonou e parecia incrível no palco agora passa as noites no sofá fazendo lives, ela não suporta aquele repertorio,  teme que ele esteja obcecado pelos coraçõezinhos subindo na tela. Nas primeiras semanas de reclusão eu cantaria Queen – why dont we give love one more chance? Tantos dias depois jogo logo argumentos práticos:
- Você tem uma filha pequena, uma casa de três quartos, vasos sanitários amarelando, um escritório para gerenciar, prefere arrumar tudo sozinha ou dá para amá-lo um pouco mais?
Nunca fui tão convincente. Próxima ligação, por favor.
Minha mãe está comendo o bolo da vizinha, meu pai segue seus comandos separando os parafusos do armário de ferramentas por modelo e tamanho, mas está preocupado com o barco, um veleiro de 27 pés visto pela última vez quando achávamos que tinha uma gripe lá na China. Diz que o barco pode estar perto da água e em risco no caso de uma imprevista ressaca, alagado pela chuva podendo tombar da carreta, pode ter criado vida e fugido pra Dinamarca onde a situação está melhorando!
Finjo sacrifício, decido ir até o clube checar. Preparo um figurino Chernobyl e uma lista de justificativas como se alguém fosse me interpelar no caminho e cobrar explicações sobre o que eu fazia na rua. “Identidade, por favor. A senhora não sabe que tem live do Raça Negra hoje?”.
Atravesso o clube estranhando até o sol na pele - já era quente assim? De repente ouço mini-ondas batendo na parede do cais. Fico ali por minutos longuíssimos, apreciando. Que som deslumbrante proporcionado por uma água negra, destruída com sacos plásticos, garrafas pet, mochila despedaçada e tudo mais de imundície humana produzida!
Existe uma tartaruga que vive no cais do clube, uma guerreira. Tenho enorme afeto por ela, o que passa na cabeça miúda de uma tartaruga que tem o mar inteiro para viver e escolhe o Rio de Janeiro? Consegue nadar e respirar naquele mar de lixo, nunca sei se feliz ou como as moscas que ficam batendo no vidro tentando sair sem perceber que é só chegar para o lado porque a janela está aberta. Somos muito parecidas nesse aspecto habitacional.
Fico pensando na tartaruga quando vem até mim um gato, dos muitos que circulam por ali. São todos vacinados, usam coleirinhas de miçangas, estão presentes na minha vida  desde que sou criança e minha mãe se desesperava: não mexe no gato! Ele arranha! Solta o gato! O bicho traça uma reta em minha direção miando aos gritos quase correndo em duas patas com as outras em forma de braços abertos, como nós faremos ao reencontrar os amigos – peloamordesaofrancisco, fala comigo! Abro meus braços para ele, desobedeço a minha mãe. Sento no chão, máscara no rosto, álcool gel no bolso, sol no corpo, vento do mar, eu e o gato. E de repente avistamos ela, acompanhada de amigas. Ficamos ali vivendo aquele momento lindo - eu, o gato, as tartarugas. #TamoJunto, amiguinhos.
E às vezes eu deixarei
Você me ver chorar, sorrindo

And love (people on streets) dares you to change our way of
Caring about ourselves
This is our last dance
This is ourselves under pressure

23.4.20

Diário de uma pandemia - vol VI (A cólera nos tempos do amor)

Uma bolinha de fliperama em forma de mim. Um leão no zoológico – pelo tamanho, uma leoa anã desnutrida. Uma mulher com TPM presa há horas no trânsito num dia de verão em que está atrasada.   

Foram trinta e seis dias, trinta e fuckin seis dias – bipolares, sim, mas mantendo uma hashtag gratidão no pensamento o tempo todo. "Sou muito privilegiada, tenho salário, posso trabalhar de casa, minha família está saudável, moro sozinha , vai passar, faço yoga, sairemos melhores, vamos distribuir amor, fazer doações, olha tudo de bom que temos, conta comigo". Grrrrruaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhh!   Um dia acordei desencaixada de mim mesma. De novo enxaqueca, de novo vou espremer laranjas, fazer ovo, lavar panelas, essas roupas malditas continuam penduradas nesse varal, não se auto-passam? Custa? Saiam agora daí e vão pras gavetas. E que inferno de tanto lixo eu produzo, é lixeira reciclável, lixeira orgânica, não aguento mais amarrar saquinhos, colocar sapato, dispensá-los, lavar a mão, dane-se a nojeira eu vou largar esse lixo aí e que venham as mosquinhas imbecis, quiçá baratas e ratos do Big Brother.

Vou assinar o Pay Per View do Big Brother, comprar todo o estoque de vinho da cidade e beber vendo o Babu até acharem uma vacina, me demitam. Julia me deu um livro de aniversário no qual a protagonista ficava sedada por 1 ano testando todos os tipos de ansiolíticos, farei isso. Não, não farei, odeio o efeito grogue dos ansiolíticos, odeio até Dramim e Polaramine. Odeio todos os remédios. Não, não odeio todos os remédios, amo os remédios, até o de piolho se ele realmente curar os contaminados. (Quem inventou isso?)   

Preciso sair, decido me revoltar, levarei minha cadeira de praia para a praça e ficarei lá sentada no sol lendo Elena Ferrante. Preciso pegar sol, estou pálida com olhos de panda, irritada como... eu mesma irritada. Marcelo me impede: “não é um bom exemplo”. Dane-se. “Acharão que você é Bolsominion”. Porra. Volto para casa, penso em empurrar as paredes, fazer invertidas até colocar os pés no teto, podia chorar? Gritar no travesseiro? Vou gritar pela janela mesmo não sendo oito e meia. Tento ler a Piauí, preciso de novos assuntos. Coronavírus na pagina 1. Na pagina 2. Na 3 também. Bolsonaro na pagina 4. Jogo a Piauí pela janela, levanto da rede, vou fazer comida, ralar cenouras, anda logo Rita Lobo, como se faz rosbife? Por que esse forno desgraçado nunca liga?  Penso em ligar para os meus amigos, desisto de ligar para os meus amigos, vou espalhar mensagens para meus ex-namorados, dizer que amo todos, quem responder primeiro ganha. O forno finalmente acende, que sorte de todos nós, passo a temperar alimentos para aquecê-los a 180 graus. Já está acabando o feriado, pelo amor de deus? Não, Bruna, nós não vamos estudar sobre São Jorge, não pensaremos em festas populares, não produziremos na-da hoje. Não sentaremos nessa cadeira – que sorte, tá vendo? – ergonômica com seu descanso para pés trazido do escritório enfeitando a sala que era tão arrumadinha e com uma iluminação de casa, não de home office onde nunca escurece.  Não faremos nada hoje. Sentaremos nesse sofá, veremos um filme bobo, largaremos esse celular e, sim, admitiremos que alguns dias são uma merda até pra quem sabe que está bem pra caramba. Vai passar logo. Esse mau humor.  

O telefone toca. “Não posso falar hoje, estou irritadíssima, não quero saber, amanhã eu ligo.”
Apita a mensagem da minha mãe: “não tem problema, é difícil mesmo, eu estou aqui, te amo.”

E então, três dias depois, consigo, enfim, aceitar a partida e me despedir de mais uma pessoa tão querida. Olha, Oswaldo, é como o seu Ho'oponopono, né? “Eu te amo. Eu sou grato. Me perdoa. Eu sinto muito.”

There is a crack in everything
That's how the light gets in

11.4.20

Diário de uma pandemia - vol V

Dia 31

Tem uma coisa acontecendo com o tempo, não dá tempo de fazer nada do que planejei. Leio a coluna do Gregorio sobre o tema e quase respondo por direct para ele – combinado, ninguém produz nada nessa quarentena para não deixar os outros culpados. Mas seria mais uma mensagem para ele ler, ao pegar o celular já veria um meme, depois outro, uma live, lá se foi a tarde. Hoje, ao invés de fazer aula de yoga, fiquei assistindo a uma aula de yoga. Uma hora nisso, hipnotizada. Despertei do mantra com a minha tia avisando que amanhã ao meio-dia teremos Zoom de Pascoa com todos os primos, em seguida o Andrea Bocelli cantará na Catedral de Milão e às três da tarde o padre Omar voará sobre nossas cabeças abençoando a cidade. Eu só queria assistir A Máfia Dos Tigres, não vai dar tempo nesse domingo.

Noto que meu cabelo também é estranho. Como ele pode oscilar mais do que meu ânimo? Se não saio de casa, não mudo o shampoo, todo dia faço tudo sempre igual, não pego sol, nem sal nem vento, como ele pode um dia estar bem e no outro acordar péssimo? Meu cabelo tem hormônios. Um sistema emocional.

Diariamente recebo apoio de amigos em países com situação melhor: o da Itália me deseja força contra Bozo, o da Espanha pergunta quais medidas estamos tomando no combate ao presidente, dos Estados Unidos chega a pergunta – é verdade que teve um golpe aí e encontraram uma cura para o governo?  Ainda não, Maria, seguimos tentando manter a calma mediante o pânico ignorando o que ele comanda, batendo panelas e gritando às 20h30.   

É bem cansativo presenciar eventos históricos como esses realmente. A humanidade ao meu redor começa a se dividir entre otimistas e pessimistas – os que acham que sairemos dessa mais humanos e os que dizem “para de palhaçada sociológica-espiritual, mete essa máscara na cara e manda o Bill Gates financiar logo essa vacina”. Essas são, claro, as mães em casa com os filhos e as avós longe deles. Eu concordo que quem não acreditava que uma pessoa sozinha poderia mudar o mundo nunca suspeitou que alguém comeria restos de um morcego na China.

Entre uma tentativa e outra de ligar o forno para cozinhar meus brócolis recebo uma estranha mensagem de número desconhecido.  (Em um mês já controlei uma infestação de cupins em casa, dei três aulas online de como fazer unhas e mantive uma equipe remota de pé, mas ligar o forno de primeira, sigo sem conseguir. ): “Pow tu robo a conta mlk eu pago vacilou” ou algo por aí. Mais uma tentativa de forno, dez minutos cortando abóbora, chegam 35 mensagens de teor semelhante originárias de números aleatórios. Acho prudente desligar o telefone. 1 reunião por Teams, “tá travando, fala de novo, você está no mudo”. 2ª  reunião, “gente desliga o microfone, muito chiado, sinal tá ruim”. Está entediada? Mais outra então - “compartilha a tela, cuidado com o Whatssapp aberto, mandei aí, por email ou mensagem? Por Skype, ah ta.” Religo o celular 2 horas depois. 245 mensagens e 15 ligações sobre o roubo da conta. Estou sendo invadida dentro de casa, via celular, por golpistas de português duvidoso. É um recado do cosmos? “Falei pra se isolar, po&%@, desliga essa m*r#a”. Não posso, tenho 3 canais para manter no ar e uma mãe judia. Que nem é judia, mas é como se fosse. A Vivo recomenda trocar meu número de telefone. Já estava tudo tão fácil mesmo...

Causo um terror cibernético ao fazer isso, espalham-se fake news de que meu celular foi invadido, meu número clonado, Bruna Leaks (eu não pedi nudes). Tento apenas dar parabéns para um primo, não me atende. Sou expulsa de grupos (minha família foi a pioneira nessa ação...), preciso vencer a desconfiança para ser aceita por quem me ama. “Prove que é você”. Poupo meus amigos de segredos compartilhados, não precisam lidar com esse passado agora. “Friends é melhor do que Seinfeld. O Paul é mais legal que o John. Eu não acredito no Suriname.  Não sei mergulhar de cabeça e, não, não é só dobrar os joelhos e dar impulso.” Retomo meu mundo. Alguns, ah que pena, ficaram de fora. Julia pergunta se agora usarei esse número novo para sempre. Nada é mais definitivo, Rulia, não posso garantir isso em meio a tanta instabilidade. A partir de uma pandemia e um Whatssapp zerado sem back up decido criar um novo mundo. Pelo menos no Meu Mundo.

Lena acredita que eu sou eu e me conta do filho de 20 anos que, tendo que escolher uma casa para passar a quarentena, optou pela da namorada. “Não posso viver sem ela”, justificou. Suspiramos juntas – “ah,  a juventude... Deus nos livre!” De tão intenso e sufocante já basta um ensaio de fim do mundo. Nos reserve, por favor, para o pós-apocalipse, a sorte de um amor tranquilo (com sabor de fruta mordida por alguém não contaminado).

Penso em todas as canções de amor sendo reescritas como as marchinhas machistas e músicas canceladas. Diz o Chico: Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas / Despem-se pros maridos / Bravos guerreiros de Atenas / Apenas depois de confirmarem que estão há 14 dias em quarentena. A Paula Toller:  Eu vejo seu pôster  na folha central / Beijo sua boca depois de passar álcool gel na pagina / Te falo bobagens. Sem contar a Cigana do Raça Negra que parece feliz pisando sobre ele - só espero que descalça tendo deixado os sapatos fora de casa – ou a Garota de Ipanema e seu doce balanço a caminho do mar – por favor ressaltando que o fará apenas quando a praia for liberada, todas as garotas resolvem ir passear no calçadão, já houve registro de briga quando duas estavam paradas conversando, uma terceira queria passar, com a questão dos 2 metros de distancia e a areia interditada precisou se jogar no meio da rua para seguir o cooper, o que o fez xingando alto e cuspindo gotículas.

Quando Roberto receberá de novo seu amigo Erasmo Carlos para um abraço despreocupado no palco? Amigo será coisa pra se guardar higienizada debaixo de sete chaves?

Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar. Serei eu mesma, melhor.

5.4.20

Diário de uma pandemia - vol IV

Dia 25

Combinamos que seríamos os primeiros a entrar no apartamento do outro, caso um de nós morresse, para pegar tudo o que não pode ser encontrado. Organizamos onde deixar para facilitar a busca. Inicialmente achei que falava de drogas e objetos sexuais, depois entendi que era algo muito mais sério: tudo o que escrevemos e nunca publicamos. Prometemos nunca ler, queimar. Talvez até usando álcool gel.

Nunca imaginei que combinaria isso com alguém sendo a ameaça tão cedo e tão real. Não pretendemos morrer, mantemos firmes nossos pulmões e corações, mas às vezes tememos. Sempre tememos, mesmo antigamente. Já sentíamos medo três semanas atrás, mas agora nossos temores são compartilhados. Às vezes nosso sangue parece que corre para as extremidades, viramos uma massa de bolo murcha, mas passa. O importante é que passa. Tudo passa. O porteiro do hotel já dizia isso pra Julia Roberts quando o maior problema dela era o casamento do melhor amigo.

Promete que quando essa pandemia acabar faremos tudo de novo? Viajaremos para Salvador para viver as letras das músicas, dançaremos em cada baile charme e buraco da Lapa num sábado à noite bebendo GT do isopor, teremos outro Carnaval, daremos todos os beijos e abraços contidos nesse espaço e quiçá em toda a nossa vida contida até aqui. Teremos outra vida onde priorizaremos o que amamos, não o dinheiro nem nossos medos. Passaremos horas no mar, largados na areia sem pensar se aquilo ativa vitamina D, faremos só pela felicidade, porque ativa meus poros, meus pelos, hormônios, faz correr meu sangue. Promete?

Promete que você ainda vai aplaudir meus sucessos, me amparar nas derrotas e falaremos de emoções como fazemos hoje? Que as conversas ainda terão “hoje estou me sentindo assim”? Eu prometo continuar atenta aos seus sinais e, na dúvida, perguntarei. Sempre pensarei "pode estar tendo um momento difícil, não vou reagir agora”. Se não puder responder com amor deixarei para depois, quando puder. Nunca esqueceremos o que estamos vivendo, nem na pressa. Ainda saberemos priorizar e regular auto-exigências. Para sempre cuidaremos bem de nós.

Sabemos que ao final dos dias que vivemos nada nos levará de volta. Ninguém volta, toda experiência é um caminho sem retorno ao ponto de partida. Cuidaremos do nosso caminho, nunca sabemos para onde estamos indo.

Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.*

Prefiro a quadra da Portela.
Prefiro assistir no cinema.
Prefiro a Toscana.
Prefiro-me gostando das pessoas também.
Prefiro o mar (acho que por isso não conheço as cachoeiras).
Prefiro as maritacas que descobri que voam aqui perto fazendo estardalhaço.
Prefiro fazer as pazes, mesmo por mensagem.
Prefiro bolo de chocolate e queijos - qualquer queijo.
Prefiro música ao vivo.
Prefiro ler na areia.
Prefiro vento.
Prefiro silêncio.
Prefiro comprar o aspirador-robô porque já prefiro Miosan a Salonpas.  
Preferia estar te fazendo rir, nem sempre dá.
Prefiro ser sincera.

(Mas pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto
Eu to voltando)


*Wislawa Szymborska

29.3.20

Diário de uma pandemia - vol III

Dia 5000

Leio que as Olimpíadas deverão ser realizadas em 2021, mas o nome oficial do evento será Tóquio 2020, ou seja, se já está complicado saber que dia é hoje hoje, no ano quem, chamando 21 de 20, será a zorra total. Perdi dois aniversários, não abro mais o Facebook e desde que aposentei minha agenda da Company é por ali que sei quem parabenizar, não tenho mais noção de tempo. Virei a avó maravilhosa de Downtown Abbey perguntando espantada: o que é fim de semana?

Houve uma época em que minha vida social cumpria o circuito Jobi-Guanabara-Diagonal. Já foi Prelude-Rodeo-Zapatta. Uma pré qualquer-Matriz-BB Lanches. O negócio desandou de tal forma que virou Skype-HangOut-Teams. Whereby- Whatsapp-Zoom. Alguém além de mim está pensando na quantidade de dados que essas empresas estão coletando de nós? Não sei se era possível abrirmos mais a nossa vida do que já fazíamos com os Iphones, mas penso em promover chats falsos para confundi-los. Assim que eu acabar a faxina, as comidas, reuniões, emails, mensagens profissionais e pessoais, yoga, treino de força e, estou esquecendo de alguma coisa? ah, banho! farei isso. E tem as lives dos artistas. Temiam que sofrêssemos de tédio, que tédio? Estou à beira da exaustão, já desenvolvi F.O.M.O. de lives! “Tá vendo a do X? Não? A do Y você viu? Não?! Putz, teria adorado.” Não íamos ficar com nós mesmos meditando? Não leríamos livros e assistiríamos a filmes e séries? Só eu não sei organizar meu tempo? Eu sou um fracasso completo em quarentena. Precisarei de uma quarentena da quarentena.  Desconectada, por favor.

 A cada hora varro a casa, tem um saci aqui dentro desarrumando tudo. Penso em viver de touca para cair menos cabelo pelo chão, me sinto o Capitão Caverna com queda capilar. Conto a um amigo careca a inveja que sinto dele nesse momento e recebo de volta a foto de seus dois cachorros, enormes, soltando tanto pelo que em 24 horas formam um terceiro cão de pequeno porte. Não posso reclamar, vejo mães em reuniões com filhos tentando arrancar seus fones, a última respondeu desatenta “tá, filha, faz o que quiser” e, pela tela, vi a criança vindo com umas facas e bananas da cozinha atrás dela.

E essa moda da semana de “home school”, os pais terem que ser professores além de profissionais, cozinheiras, babás e faxineiros, veio de quem? É como fase de videogame – vamos acrescentar mais uma dificuldadezinha agora, não me importo se vocês tem estrutura mental e equipamentos para isso. Vai ter mãe abandonando filho no Jockey como fazem com os gatos. No meio de uma reunião passou uma criança atrás do pai gritando “ACABOOOOOOOU!!!”, achamos que tinham descoberto a vacina, mas era só o fim da aula online do garoto.

Chegam vídeos da menina que foi ao banheiro durante uma reunião por Zoom. Pobre Jeniffer, viralizou mais rápido que a gripe mundialmente. Fato que até o fim do isolamento veremos cônjuges alheios pelados, telas compartilhadas com imagens indevidas, a ressaca emocional pós-home office vai ser pior do que a das festas adolescentes quando eu ainda sofria disso.

No prédio, vizinhos criaram um grupo de whatssapp para decisões urgentes. São mais de 100 apartamentos, nunca falei com ninguém além dos funcionários e uns poucos conhecidos lá de fora, sinto calafrios ao pensar em uma reunião de condomínio por mensagens, mas precisávamos fazer uma vaquinha para comprar itens de proteção para os porteiros. Aglomeração virtual é pior do que aniversário do Guanabara atualmente, não tenho esse dom. Quando começaram os questionamentos sobre a procedência do álcool gel quase gritei CALABOCA TODOMUNDO E PASSA A GRANA. Foi tanta discordância que subgrupos se criaram e o meu está organizando um panelaço interno contra a síndica hoje às 20h30.

É preciso organizar essas manifestações janelais, não sei quando é pró e quando é contra o Bozo, quando aplaudem se é para os profissionais de saúde ou para um saxofonista vizinho solitário. Edu mandou um vídeo onde uma pessoa gritava “Eu falei faraó” e os vizinhos mais incríveis responderam “êêê, faraó”. Amanhã à noite, ao som da primeira panela, farei o mesmo e já responderei “it´s a match” para quem me acompanhar. Luisa me diz que um homem gritou “a Terra é redonda, porraaaa”. Tememos que vire uma prática passarem a berrar angústias nas varandas. Terapeuticamente fará um bem danado ao berrante, mas não sei se o mesmo acontecerá com os demais.

Cancelei três reuniões para fazer comida, precisava de concentração e tempo, se incendiasse a casa nem bombeiros viriam para não encostar em nada. Encaro uns legumes e peitos de frango congelados. Vejo na receita que devo cortar cubinhos dos legumes, colocá-los no tabuleiro sem sobrepor uns aos outros, jogar azeite e pimenta e cozinhá-los a 180 graus. Esse forno não liga direito ou eu é que não sei ligá-lo? Tem help desk pra isso? Cadê a Ju, a Dores, secretárias fundamentais na vida de qualquer pessoa? Forno aceso, tabuleiro lá dentro, depois de 15 minutos devo virá-los. Por que cortei cubinhos tão pequenoooooosssss??? Vou passar dois meses virando beterraba, não comecei a ler nenhum livro, já perdi cinco lives assando cenouras! E esses frangos não podem dizer que estão prontos como o peru da Sadia no comercial, com aquele negocinho que pula?  Esse timer que está tocando, coloquei para qual preparo? Não sei mais vinte minutos desde o que já passaram!

Lembro do meu dia a dia no estúdio, a comunicação dando pane ao vivo, a mesa do diretor de vídeo travando no ar, aquele Lollapalloza interrompido por tempestade de raio sem previsão de retorno, correria no Controle de Exibição e equipe escondida nas vans, como eu era feliz. O Kid Abelha tem toda razão: as coisas são mais fáceis na televisão. 

Choro em tantos momentos e tão banais que já tenho mais medo de estar grávida ou com hormônios descontrolados do que com Covid. Gustavo me contou que logo nos primeiros dias dois amigos debatiam se estavam infectados porque apresentavam sintomas estranhos: diarréia e “um nozinho na garganta”. “Isso é angústia, boçal, bom que aos quarenta anos você vai aprender a lidar com suas emoções.” A pandemia deixa todos um pouco emotivos, não é o caso de ir ao hospital. Porém, se você chorar ao ver o Babu perdendo a prova do anjo no BBB... procura um médico. Psiquiatra, não infectologista. Eu só me emocionei com Sandy & Jr cantando no Altas Horas “não dá pra não pensar em você / tá cada vez mais difícil não poder te ver”. Mas ali onde eu chorei qualquer um chorava. Não? Eu vi Altas Horas.

Se sobrevivermos à pandemia terminaremos com TOC e bipolares, os psiquiatras serão os novos infectologistas - se alguém tiver dinheiro para pagá-los. Prevejo também um boom imobiliário devido ao volume de divórcios - se alguém tiver dinheiro para aluguel e advogado.

O Verissimo acha que estamos ficando burros e repetitivos. Ontem tive minha primeira conversa online pessoal que não envolvia coronavírus, foi tão aliviante. Combinamos de ver filmes para debater na próxima semana. Aqui também diversificarei, no próximo texto falarei sobre... É... vocês podem ler o acervo desse site?




22.3.20

Diário de uma pandemia - Vol II

Dia 11

Antes de começar esse volume II é necessária uma explicação sobre mim e o ato de cozinhar. Eu não tenho memórias de cenas na cozinha na infância. Na era Collor tivemos que demitir a cozinheira, disso saíram algumas piadas sobre os não-dotes culinários da minha mãe, e não sei como nos alimentamos até a crise passar. Meu pai é mestre em culinária de regatas: qualquer gororoba que se produza em um fogãozinho que balança para ser engolido por uma tripulação masculina esportista é um prato Michelin. Minha avó era um mistério, magicamente da cozinha dela alguém saía com minha iguaria preferida e nutrição básica infantil: bife com batatas fritas. E Nescau! Eu comia tão mal que minha tia secretamente colocava tudo o que encontrava e lhe parecia solúvel na minha bebida: ovo, Sustagen, biscoito Maria e sabe Deus mais o quê. Ela era hábil em uma receita – bala! Já adulta descobri que é palha italiana, mas para nós de férias em Petrópolis era “a bala da tia Zélia”. Nas festas até hoje temos “a mousse do tio Marcio”, que eu não tenho a menor ideia do que seja composta. É de chocolate, ponto.

Estranhamente, com essa mesma criação, minhas duas irmãs se tornaram chefs de cozinha. A comida na minha casa vem 95% desse delivery. Os outros 5% são meu café da manhã. Na adolescência, a cozinha do meu apartamento era o lugar onde minha mãe esperava ansiosamente por mim e minhas amigas quando voltávamos das festas e boites de madrugada para saber das fofocas. Sentávamos na mesa, sobre a bancada, e devíamos comer brigadeiro ou torrada com requeijão durante a resenha, era quase uma extensão da sala, assim como é a planta da minha casa hoje. “My kitchen is for dancing”, diz o pôster que eu ia comprar em uma hora qualquer.

Acordei no domingo, dia 6 da reclusão total, preparada para ir ao mercado. “Compra online” gritavam amigas no whatssapp para outra que quis se aventurar. Eu preciso apertar as laranjas para escolher as melhores, tenho que analisar os tomatinhos. Leio jornal em papel de manhã, livros impressos. Lia jornal em papel, cancelei antes de sentar para organizar meu cardápio da semana e a partir dele elaborar uma lista de compras. 40 minutos depois liguei aos prantos para minha irmã: eu nem sei como conservar minhas compras, qual é a cara de uma beterraba na gôndola? Vou falir em Ifood. Muito rapidamente em uma pandemia aprendemos que ombro virtual amigo é melhor do que Passiflora, o efeito calmante é imediato, sem contra-indicações. Parti para a rua.

Antes de sair voltei 3 vezes. E se eu sentir sede? (Por que sentiria tanta sede?) Bebe mais água logo. Esse é a roupa que vou usar em todas as saídas? Escolhe uma para não ter que desinfetar todas. Confere de novo se tem cartão e álcool gel na bolsa, essa bolsa é bem colada ao corpo para não encostar em nada? Entrei no carro já quase sem respirar. Levava junto uma lista de compras para meus pais. (Descobri nesse dia que meu pai é idoso - a classificação é pelo número de vezes que eles dizem que pre-ci-sam ir à rua. Estão ouvindo o encantador de idosos ou são parte da trama secreta que estão armando quando dão a desculpa esfarrapada de ir ao mercado a cada meia hora.)

O mercado escolhido me parecia amplo na memória: engano. Pessoas vinham se aproximando de forma tão ameaçadora que passei a fugir delas como se estivessem radioativas, virei Pac Man escapando dos fantasmas. Quando percebi uma mulher a um passo de mim na fila dos pães quase gritei como se fosse assalto. Comecei a me enfurecer com o desleixo dos distraídos, vão olhando para os produtos e não medem mentalmente a distância de um metro e meio, ao me afastar rápido corro o risco de trombar no humano de trás, as pessoas viraram carrinhos de bate-bate, o que houve com elas? Ou conosco.

“O arroz acabou? Acabou.” “Prezados clientes, não temos álcool.” “Amoooor, essa banana está boa? Filha, vem aqui com a mamãe.” Uma família inteira na rua??? Tira essa criança assintomática de perto de mim! Toquei em tantas coisas que tive a impressão de estar me esfregando nos produtos como cachorros se coçando nas paredes. E esse rosto que não para de coçar, não posso tocá-lo com as minhas mãos, por favor, nariz! Uma amiga liga, atendo em pânico. “Estou no mercado, está sendo horrível. Calma, as gotículas não voam sem espirro ou tosse. Tem certeza? Tenho fé. Alguém tossiu? Não. Então respira”. Paro na frente dos azeites, fecho os olhos, entoo mantras imaginários e começo um pranayama SOS. Abro os olhos lentamente e um homem me encara em um misto de interrogação, preocupação e “desocupa a seção de azeite porra”. Sorrio para ele, finalizo minhas compras e sigo para o carro.

A mala do meu carro, que até então só carregava cadeira, barraca de praia e um chapéu, fica lotada de sacolas como a Caravan dos meus pais nos tempos de inflação e Freeway na Barra.  Em uma casa com 8 pessoas a hora de guardar as compras virava linha de montagem, quase tocavam um sino recrutando todos os filhos para a Operação Despensa, e lá íamos nós tirando tudo das sacolas, guardando nos armários. Não passávamos Lisoform nos produtos, muito menos Lisoform no Lisoform! Não desinfetávamos o chão onde pousávamos as sacolas. Não olhávamos aquelas compras esbarrando em nossas roupas e pensávamos: é impossível eu escapar dessa, "eu desisto Senhor! Nunca serão". Éramos leves. O maior risco era alguém esconder os chocolates antes que os outros vissem. E se escondessem dentro dos guarda-chuvas fechados? Ninguém procuraria lá! E num dia nublado o pai pegaria esse guarda-chuva, carregaria até a padaria, só abriria ao sair e levaria uma enxurrada de Batons na cabeça no meio da rua.

Eu queria poder chamar meus irmãos para guardar as compras comigo.
Anotei na minha nova lista de coisas que vou fazer assim que esse episódio de Black Mirror acabar. Vai ser logo, só temos que respirar. Até na seção de azeite.