14.6.20

Diário de uma pandemia - vol VIII (o dia em que não acabou)

Dia 95

E então? Três meses depois, aquelas músicas, livros, amores ainda te sustentam?

Quando começou, calculei três meses. Guiei-me por Wuhan, ficava olhando para os países que lidavam com a epidemia há mais tempo como se fossem spoilers. Sabia que existiriam condições um pouco distintas, mas não imaginava que teríamos aqui diferenças tão drásticas. O Brasil virou uma quadrilha mal organizada sem graça nenhuma. “Caminho da roça! É mentiiiira!”, sai todo mundo se esbarrando no sentido contrário. O foguete da Space X decolou sem me levar.

Entre hipóteses desencontradas e “o culpado é o morcego”, um filósofo inglês arrisca que a doença é uma conspiração dos que perderam seu amor para reatar com os ex, nem que seja por DM. Essa me parece a teoria mais confiável de tudo que se falou até agora.

No início dessa semana tocaram minha campainha no meio da tarde. Não surgíamos na porta de outra pessoa sem avisar, como isso poderia acontecer no meio da quarentena? Amigos que moram nos subúrbios acham graça dessa falta de costume daqui, onde ninguém senta nas calçadas para ver a vida passar nem aparece na casa dos outros sem ser convidado. Levantei no susto, olhei pelo vidro, era um entregador. “É a casa da dona Sirlene?” Não, mas como um entregador está andando pelos corredores procurando a dona Sirlene se ninguém pode entrar no prédio?

Um dia em março fui dormir fazendo piada sobre coronavirus e no seguinte acordei em uma pandemia, foi de repente que tudo se transformou porque eu não estava dando atenção aos sinais. É como se tivesse acontecido agora de novo.

Poucas noites depois da campainha tocar, saí para descartar o lixo e ouvi vozes novas no apartamento da vizinha. Tem... visitas na casa da vizinha? Voltei para a minha, desinfetei a maçaneta, quase coloquei um pano embebido em álcool enrolado na fresta da porta como se vírus fossem entrar que nem baratas pelos vãos. Se espirrarem na janela chega aqui? Fechei as janelas.

Na manhã seguinte fui à feira. Atravessei para ir às barraquinhas como faço há semanas, está muito calor? Havia alguma coisa estranha no ar. Muitas vozes, barulho de carro, um mendigo cambaleante grita frases desconexas, o rapaz do limão me aborda muito de perto, o rabo de um cachorro esbarra em mim, outro vizinho me cumprimenta talvez sorrindo “oi, há quanto tempo!”, tem elementos demais nessa praça. Corro para casa, aperto com a chave o botão do elevador antes cheio de circulares que informavam sobre funcionários contaminados e regras do parquinho, elas sumiram. Tiro o sapato na porta, passo álcool gel, removo a máscara, troco a roupa, bebo água, o celular... que fotos são essas? Minha cabeça está rodando um pouco. Pessoas na praia, na serra, é feriado. Mas... acabou? Suo nas mãos, meu coração está acelerado. Por que tem tanta gente na rua? “O prefeito autorizou.” Que prefeito? Ligo a TV depois de dois dias de pausa na contagem. Cadê a curva de contaminação? Aquela fila é para entrar em um shopping? Sonho há noventa dias com a nossa libertação, ela não seria assim.

Eu também queria dar um mergulho no mar. Será que ainda tenho anticorpos para a água salgada do Leblon? Ainda sei andar de Havaianas na areia? Eu queria vento! Qual o perigo de contaminação – por coronavírus, não hepatite e micoses? E essa culpa? Atravesso a rua para comprar rúcula e sinto como se traísse o movimento, crio justificativas, mas não convenço nem a mim mesma de que preciso cruzar o portão pela rúcula. “Tenho que ajudar o seu Jair da barraca das verduras. Seu Jair leva pra você. Na feira bate sol, tenho que produzir vitamina D. Senta no estacionamento do prédio. São quase cem apartamentos, e se todos sentarem no estacionamento? Organiza um rodizio. Passo dez horas por dia em zooms, como vou organizar condôminos?” Lágrimas. Eu também quero sair de casa.    

Já achamos que sairíamos melhores dessa experiência, lembra? Que faríamos um mundo melhor. Mundo melhor é tão subjetivo. Três meses depois, vamos aceitar que alguns não terão aprendido nada? Eu não sei por que estão na fila do shopping, mas não posso ir lá entendê-los. Posso ficar aqui. Não cabe a nós julgá-los, já é trabalho suficiente cuidarmos dos nossos caminhos e nossas histórias. Não deixemos que isso nos frustre. Nossa expectativa deve ser sobre o nosso papel nesse grupo imenso de seres habitantes do planeta, alguns na fila do shopping, outros no mat intensificando a yoga, outros acordando de noites mal dormidas, fazendo comida, faxina, tarefas que produzam trocado para dar garantia. Quando acabar e houver tanta necessidade reprimida, quando se intensificar a lógica do “eu primeiro que já esperei demais”, tomara que ainda sobre força e calma para os que estão mais acima na pirâmide poderem defender ideais e lutar pelo tal mundo melhor que nós vislumbramos, aquele no qual não cabe mais tanto acúmulo, vencedores, perdedores, onde entendemos que estamos no mesmo barco.

Seguiremos agindo como acreditamos mesmo sabendo que do outro lado existem pessoas iguaizinhas a nós em composição com a mesma certeza de sensatez, lançaremos palavras para reflexão sem a exigência de convencimento, apenas porque temos essa voz e certa capacidade de traduzir o que nos vai por dentro. Senão, parece luta vã – e não é. Como a visão da Médica Sem Fronteiras, que todos os dias salva pessoas da destruição causada por outras idênticas às vitimas e não perde a fé na humanidade - “porque somos muitos médicos e voluntários e humanos dispostos a ajudar e lutar contra o mal. Escolho olhar para esses”. Se ela ainda está lá, como nós não estaremos mais aqui?

Se cuida. This too shall pass.

13.6.20

Contatos imediatos


E quando eu já estava suficientemente cansada, vem o deboche da irmã que se isolou, antes até da geosmina surgir aqui, em uma ilha no Pacifico: “você é louca de ficar nessa cidade. A única coisa que falta acontecer no Rio é ser invadido por ETs”.

Tenho incentivado nossos pais a se entreterem com qualquer coisa, como uma babá que oferece vídeos para as crianças se distraírem enquanto coisas precisam ser feitas - no caso, acharem uma vacina. Essa semana meu pai ficou quase uma hora conversando com um operador de call center. Sabe que o nome do homem é Leo, que Leo não tem feito exercícios físicos, que mora com a namorada, debateram a dificuldade de se manter são na quarentena, o inicio de uma bela amizade.  Por isso até me alegrei quando ele comentou ter passado horas assistindo ao History Channel. “Um programa muito interessante: Alienigenas do Passado”. Eu teria feito a piada “não quer assistir Alienigenas do Futuro para já nos prepararmos?”. Não fiz. Eu hein, mania súbita de ET na família.

Na véspera era eu quem assistia TV, um documentário sobre a turnê de As Cidades do Chico em 1999. Estava tendo um dia péssimo, culpada por senti-lo péssimo quando coronavirusmente estava tudo bem, mas ainda sentindo. Fui melhorando com aquelas músicas, as risadas do Chico, conversas sobre criação, futebol, parcerias, oi? Chico e Bethania disseram que viram extraterrestres? Devo ter entendido errado, voltei a cena. Mais alguém viu esse documentário, eles falaram sobre disco voador em Copacabana mesmo? Google – Bethania + Disco Voador. Que ainda estou sozinho, apaixonado / Como um objeto não identificado / Para gravar num disco voador / Eu vou fazer uma canção de amor. Apenas música, nada sobre abdução.

Liguei para um amigo. Semanas antes interrompera uma conversa nossa com uma expressão de espanto dizendo ter um balão no céu. À meia-noite, na zona sul do Rio de Janeiro, em plena quarentena? “Não se move como um avião, talvez seja um disco voador.” Eu segui falando como se nada houvesse acontecido, no máximo ri da pausa inesperada, não voltamos a isso. Agora precisava compartilhar a cisma. “Tem uma coisa estranha acontecendo. Surgem ETs por toda a parte na minha vida desde aquele dia”. Dessa vez foi ele quem riu: “ao menos parece que testemunhamos a primeira chegada dessa leva.” Não estava entendendo a seriedade.

Sempre acontece nas redes sociais, um assunto que eu tenha falado com alguém ou conversado por Whatssapp surge no feed naqueles links patrocinados. Essa publicidade programática está extrapolando o mundo digital? Existe no ar um algoritmo selecionando nossos assuntos, estamos monotemáticos com pandemia e governo por metadados e não por emburrecimento e pânico?

Abro o Instagram. Esta lá, na postagem de um perfil que sigo: “5 documentários sobre alienígenas que confirmam que o estreitamento do nosso contato com os ETs é uma questão de tempo.” Não estou alucinando. Me rendo. Quanto tempo, gente? Eu estou exaurida de fatos históricos, não quero receber ETs nem que eles sejam idênticos ao do Spielberg, a única novidade que quero é imunidade generalizada (e, se couber bônus de desejo, troca de governo).

Se só me restar a resignação de aceitar o fato da chegada dos ETs, que venham de máscara, tragam mop, aspirador robô, álcool 70 e sua própria comida porque eu não vou fazer faxina nem almoço para mais ninguém.

2.5.20

Diário de uma pandemia - vol VII (Detalhes de uma vida, histórias que eu contei aqui)

Dia 52
Pressure pushing down on me
Pressing down on you, no man ask for
It's the terror of knowing what the world is about
Watching some good friends screaming
"Let me out!"
Insanity laughs under pressure we're breaking


A casa dos meus pais onde cresci sempre foi muito animada, nunca era um ambiente monótono. Eram quatro filhos, duas funcionárias, hóspedes eventuais, agregados fixos, um entra e sai de gente a qualquer hora, ali já voou jabuti pela janela, entregador de pizza já foi recebido por homem vestindo capacete medieval e empunhando espada de ferro, duas crianças já quebraram os braços ao mesmo tempo, o cachorro jantava medalhão ao molho madeira com arroz à piamontese, até incêndios alheios figuram no álbum de feitos daquela casa.

Eu estudava no escritório, comecei a sentir um cheio de queimado forte vindo pela janela, ao olhar para baixo vi o telhado da pequena escola ao lado em chamas. Uma rua inteira podia ter notado, mas fomos nós. Descemos correndo pelas escadas com extintores em mãos, o porteiro tentava fazer funcionar a mangueira de incêndio da garagem, pai e irmão tentavam pular o muro, mãe ligava para os bombeiros, salvamos o lugar. Uma semana depois, meus irmãos viam TV no quarto quando comentaram: ‘cheiro de queimado de novo, né? Também estou sentindo, acho que a Bruna está secando o cabelo”. Pela janela, uma fumaça negra entrava que, se fosse dos meus fios, significaria que eu estava carbonizada. Foi minha mãe quem deu o alerta – fogo na escola de novo! Mais uma vez corremos pelas escadas, já não havia mais extintores carregados pelo curto espaço de tempo entre os dois incêndios, gritaria na rua, pai e irmão de novo pulando o muro – pelo menos já tinham experiência naquele espaço. Claramente alguém traçara um plano para ganhar o dinheiro do seguro, e no desenho do Scoobydoo essa historia terminaria com “o que teria acontecido se não fosse aquela maldita família vizinha.”
Assim era o cotidiano bucólico na casa dos meus pais. Eu creditava ao excesso de gente, era isso que provocava as estripulias, mas hoje percebo que não – aqueles dois, sozinhos, tem mais capacidade de se meter em altas confusões e aventuras do que todos os personagens da Sessão da Tarde reunidos. E foi assim que, munidos desse know how e impedidos pelos filhos de abrir a porta de casa para qualquer coisa além de buscar comida e descartar lixo, ligaram dizendo haver “uma coisa estranha no hall”.
- Não tem nada de estranho no hall, vocês não vão abrir a porta, não sairão de casa. Já aprendeu a costurar máscaras?
- Tem um pratinho no móvel em frente ao elevador, acho que é uma comida embrulhada.
Respirei fundo. Tanta coisa para lidar e agora meus pais estão delirando ou alguém está fazendo macumba no corredor deles.
- Deve ser do porteiro, ele esqueceu aí. Não coloca a mão!
- O porteiro não sobe aqui.
- Então algum moço do Ifood subiu e deixou para o vizinho.
- Ah não, eles não sobem também. Eu sou o sindico, proibi.
- Seu pai está indo lá!
- Não! É pra Exu, não pode mexer.
- Quem é Exu? Foi você?
Fui, pensei. Tenho que trabalhar, fazer comida, faxina, unha, depilação, exercícios, tudo na mesma sala, faria despacho no corredor alheio.  Os dois estavam com a porta aberta, me mostravam por Facetime o embrulho de papel laminado, eu já pensava em terrorismo com antraz, de repente percebo gargalhadas da minha mãe. Meu pai, mais de quarenta anos naquele casamento, nem se abalou. Olhava imóvel para ela.
- Estou vendo aqui uma mensagem da vizinha! Foi aniversário dela, deixou esse pedaço de bolo para nós! Que amor.
Me jogo no sofá. Fim de ato. Se ao menos eu soubesse fazer bolo...
Horas depois recebo uma mensagem de L, quer um vaso de planta emprestado.
- Que legal, você vai começar uma horta em casa? Essa semana nasceu um manjericão no meu vaso de pimenta, os passarinhos fazem a maior bagunça na plantação!
Não exatamente uma horta, ele quer empreender.
- Está nascendo um pé de maconha no meu cactus.
Eu não sei por quanto tempo viveremos nessa quarentena, mas me preocupo no quão mudados sairemos dela.
C quer se divorciar, não suporta mais o marido, liga aos prantos, diz que aquele homem por quem se apaixonou e parecia incrível no palco agora passa as noites no sofá fazendo lives, ela não suporta aquele repertorio,  teme que ele esteja obcecado pelos coraçõezinhos subindo na tela. Nas primeiras semanas de reclusão eu cantaria Queen – why dont we give love one more chance? Tantos dias depois jogo logo argumentos práticos:
- Você tem uma filha pequena, uma casa de três quartos, vasos sanitários amarelando, um escritório para gerenciar, prefere arrumar tudo sozinha ou dá para amá-lo um pouco mais?
Nunca fui tão convincente. Próxima ligação, por favor.
Minha mãe está comendo o bolo da vizinha, meu pai segue seus comandos separando os parafusos do armário de ferramentas por modelo e tamanho, mas está preocupado com o barco, um veleiro de 27 pés visto pela última vez quando achávamos que tinha uma gripe lá na China. Diz que o barco pode estar perto da água e em risco no caso de uma imprevista ressaca, alagado pela chuva podendo tombar da carreta, pode ter criado vida e fugido pra Dinamarca onde a situação está melhorando!
Finjo sacrifício, decido ir até o clube checar. Preparo um figurino Chernobyl e uma lista de justificativas como se alguém fosse me interpelar no caminho e cobrar explicações sobre o que eu fazia na rua. “Identidade, por favor. A senhora não sabe que tem live do Raça Negra hoje?”.
Atravesso o clube estranhando até o sol na pele - já era quente assim? De repente ouço mini-ondas batendo na parede do cais. Fico ali por minutos longuíssimos, apreciando. Que som deslumbrante proporcionado por uma água negra, destruída com sacos plásticos, garrafas pet, mochila despedaçada e tudo mais de imundície humana produzida!
Existe uma tartaruga que vive no cais do clube, uma guerreira. Tenho enorme afeto por ela, o que passa na cabeça miúda de uma tartaruga que tem o mar inteiro para viver e escolhe o Rio de Janeiro? Consegue nadar e respirar naquele mar de lixo, nunca sei se feliz ou como as moscas que ficam batendo no vidro tentando sair sem perceber que é só chegar para o lado porque a janela está aberta. Somos muito parecidas nesse aspecto habitacional.
Fico pensando na tartaruga quando vem até mim um gato, dos muitos que circulam por ali. São todos vacinados, usam coleirinhas de miçangas, estão presentes na minha vida  desde que sou criança e minha mãe se desesperava: não mexe no gato! Ele arranha! Solta o gato! O bicho traça uma reta em minha direção miando aos gritos quase correndo em duas patas com as outras em forma de braços abertos, como nós faremos ao reencontrar os amigos – peloamordesaofrancisco, fala comigo! Abro meus braços para ele, desobedeço a minha mãe. Sento no chão, máscara no rosto, álcool gel no bolso, sol no corpo, vento do mar, eu e o gato. E de repente avistamos ela, acompanhada de amigas. Ficamos ali vivendo aquele momento lindo - eu, o gato, as tartarugas. #TamoJunto, amiguinhos.
E às vezes eu deixarei
Você me ver chorar, sorrindo

And love (people on streets) dares you to change our way of
Caring about ourselves
This is our last dance
This is ourselves under pressure

23.4.20

Diário de uma pandemia - vol VI (A cólera nos tempos do amor)

Uma bolinha de fliperama em forma de mim. Um leão no zoológico – pelo tamanho, uma leoa anã desnutrida. Uma mulher com TPM presa há horas no trânsito num dia de verão em que está atrasada.   

Foram trinta e seis dias, trinta e fuckin seis dias – bipolares, sim, mas mantendo uma hashtag gratidão no pensamento o tempo todo. "Sou muito privilegiada, tenho salário, posso trabalhar de casa, minha família está saudável, moro sozinha , vai passar, faço yoga, sairemos melhores, vamos distribuir amor, fazer doações, olha tudo de bom que temos, conta comigo". Grrrrruaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhh!   Um dia acordei desencaixada de mim mesma. De novo enxaqueca, de novo vou espremer laranjas, fazer ovo, lavar panelas, essas roupas malditas continuam penduradas nesse varal, não se auto-passam? Custa? Saiam agora daí e vão pras gavetas. E que inferno de tanto lixo eu produzo, é lixeira reciclável, lixeira orgânica, não aguento mais amarrar saquinhos, colocar sapato, dispensá-los, lavar a mão, dane-se a nojeira eu vou largar esse lixo aí e que venham as mosquinhas imbecis, quiçá baratas e ratos do Big Brother.

Vou assinar o Pay Per View do Big Brother, comprar todo o estoque de vinho da cidade e beber vendo o Babu até acharem uma vacina, me demitam. Julia me deu um livro de aniversário no qual a protagonista ficava sedada por 1 ano testando todos os tipos de ansiolíticos, farei isso. Não, não farei, odeio o efeito grogue dos ansiolíticos, odeio até Dramim e Polaramine. Odeio todos os remédios. Não, não odeio todos os remédios, amo os remédios, até o de piolho se ele realmente curar os contaminados. (Quem inventou isso?)   

Preciso sair, decido me revoltar, levarei minha cadeira de praia para a praça e ficarei lá sentada no sol lendo Elena Ferrante. Preciso pegar sol, estou pálida com olhos de panda, irritada como... eu mesma irritada. Marcelo me impede: “não é um bom exemplo”. Dane-se. “Acharão que você é Bolsominion”. Porra. Volto para casa, penso em empurrar as paredes, fazer invertidas até colocar os pés no teto, podia chorar? Gritar no travesseiro? Vou gritar pela janela mesmo não sendo oito e meia. Tento ler a Piauí, preciso de novos assuntos. Coronavírus na pagina 1. Na pagina 2. Na 3 também. Bolsonaro na pagina 4. Jogo a Piauí pela janela, levanto da rede, vou fazer comida, ralar cenouras, anda logo Rita Lobo, como se faz rosbife? Por que esse forno desgraçado nunca liga?  Penso em ligar para os meus amigos, desisto de ligar para os meus amigos, vou espalhar mensagens para meus ex-namorados, dizer que amo todos, quem responder primeiro ganha. O forno finalmente acende, que sorte de todos nós, passo a temperar alimentos para aquecê-los a 180 graus. Já está acabando o feriado, pelo amor de deus? Não, Bruna, nós não vamos estudar sobre São Jorge, não pensaremos em festas populares, não produziremos na-da hoje. Não sentaremos nessa cadeira – que sorte, tá vendo? – ergonômica com seu descanso para pés trazido do escritório enfeitando a sala que era tão arrumadinha e com uma iluminação de casa, não de home office onde nunca escurece.  Não faremos nada hoje. Sentaremos nesse sofá, veremos um filme bobo, largaremos esse celular e, sim, admitiremos que alguns dias são uma merda até pra quem sabe que está bem pra caramba. Vai passar logo. Esse mau humor.  

O telefone toca. “Não posso falar hoje, estou irritadíssima, não quero saber, amanhã eu ligo.”
Apita a mensagem da minha mãe: “não tem problema, é difícil mesmo, eu estou aqui, te amo.”

E então, três dias depois, consigo, enfim, aceitar a partida e me despedir de mais uma pessoa tão querida. Olha, Oswaldo, é como o seu Ho'oponopono, né? “Eu te amo. Eu sou grato. Me perdoa. Eu sinto muito.”

There is a crack in everything
That's how the light gets in

11.4.20

Diário de uma pandemia - vol V

Dia 31

Tem uma coisa acontecendo com o tempo, não dá tempo de fazer nada do que planejei. Leio a coluna do Gregorio sobre o tema e quase respondo por direct para ele – combinado, ninguém produz nada nessa quarentena para não deixar os outros culpados. Mas seria mais uma mensagem para ele ler, ao pegar o celular já veria um meme, depois outro, uma live, lá se foi a tarde. Hoje, ao invés de fazer aula de yoga, fiquei assistindo a uma aula de yoga. Uma hora nisso, hipnotizada. Despertei do mantra com a minha tia avisando que amanhã ao meio-dia teremos Zoom de Pascoa com todos os primos, em seguida o Andrea Bocelli cantará na Catedral de Milão e às três da tarde o padre Omar voará sobre nossas cabeças abençoando a cidade. Eu só queria assistir A Máfia Dos Tigres, não vai dar tempo nesse domingo.

Noto que meu cabelo também é estranho. Como ele pode oscilar mais do que meu ânimo? Se não saio de casa, não mudo o shampoo, todo dia faço tudo sempre igual, não pego sol, nem sal nem vento, como ele pode um dia estar bem e no outro acordar péssimo? Meu cabelo tem hormônios. Um sistema emocional.

Diariamente recebo apoio de amigos em países com situação melhor: o da Itália me deseja força contra Bozo, o da Espanha pergunta quais medidas estamos tomando no combate ao presidente, dos Estados Unidos chega a pergunta – é verdade que teve um golpe aí e encontraram uma cura para o governo?  Ainda não, Maria, seguimos tentando manter a calma mediante o pânico ignorando o que ele comanda, batendo panelas e gritando às 20h30.   

É bem cansativo presenciar eventos históricos como esses realmente. A humanidade ao meu redor começa a se dividir entre otimistas e pessimistas – os que acham que sairemos dessa mais humanos e os que dizem “para de palhaçada sociológica-espiritual, mete essa máscara na cara e manda o Bill Gates financiar logo essa vacina”. Essas são, claro, as mães em casa com os filhos e as avós longe deles. Eu concordo que quem não acreditava que uma pessoa sozinha poderia mudar o mundo nunca suspeitou que alguém comeria restos de um morcego na China.

Entre uma tentativa e outra de ligar o forno para cozinhar meus brócolis recebo uma estranha mensagem de número desconhecido.  (Em um mês já controlei uma infestação de cupins em casa, dei três aulas online de como fazer unhas e mantive uma equipe remota de pé, mas ligar o forno de primeira, sigo sem conseguir. ): “Pow tu robo a conta mlk eu pago vacilou” ou algo por aí. Mais uma tentativa de forno, dez minutos cortando abóbora, chegam 35 mensagens de teor semelhante originárias de números aleatórios. Acho prudente desligar o telefone. 1 reunião por Teams, “tá travando, fala de novo, você está no mudo”. 2ª  reunião, “gente desliga o microfone, muito chiado, sinal tá ruim”. Está entediada? Mais outra então - “compartilha a tela, cuidado com o Whatssapp aberto, mandei aí, por email ou mensagem? Por Skype, ah ta.” Religo o celular 2 horas depois. 245 mensagens e 15 ligações sobre o roubo da conta. Estou sendo invadida dentro de casa, via celular, por golpistas de português duvidoso. É um recado do cosmos? “Falei pra se isolar, po&%@, desliga essa m*r#a”. Não posso, tenho 3 canais para manter no ar e uma mãe judia. Que nem é judia, mas é como se fosse. A Vivo recomenda trocar meu número de telefone. Já estava tudo tão fácil mesmo...

Causo um terror cibernético ao fazer isso, espalham-se fake news de que meu celular foi invadido, meu número clonado, Bruna Leaks (eu não pedi nudes). Tento apenas dar parabéns para um primo, não me atende. Sou expulsa de grupos (minha família foi a pioneira nessa ação...), preciso vencer a desconfiança para ser aceita por quem me ama. “Prove que é você”. Poupo meus amigos de segredos compartilhados, não precisam lidar com esse passado agora. “Friends é melhor do que Seinfeld. O Paul é mais legal que o John. Eu não acredito no Suriname.  Não sei mergulhar de cabeça e, não, não é só dobrar os joelhos e dar impulso.” Retomo meu mundo. Alguns, ah que pena, ficaram de fora. Julia pergunta se agora usarei esse número novo para sempre. Nada é mais definitivo, Rulia, não posso garantir isso em meio a tanta instabilidade. A partir de uma pandemia e um Whatssapp zerado sem back up decido criar um novo mundo. Pelo menos no Meu Mundo.

Lena acredita que eu sou eu e me conta do filho de 20 anos que, tendo que escolher uma casa para passar a quarentena, optou pela da namorada. “Não posso viver sem ela”, justificou. Suspiramos juntas – “ah,  a juventude... Deus nos livre!” De tão intenso e sufocante já basta um ensaio de fim do mundo. Nos reserve, por favor, para o pós-apocalipse, a sorte de um amor tranquilo (com sabor de fruta mordida por alguém não contaminado).

Penso em todas as canções de amor sendo reescritas como as marchinhas machistas e músicas canceladas. Diz o Chico: Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas / Despem-se pros maridos / Bravos guerreiros de Atenas / Apenas depois de confirmarem que estão há 14 dias em quarentena. A Paula Toller:  Eu vejo seu pôster  na folha central / Beijo sua boca depois de passar álcool gel na pagina / Te falo bobagens. Sem contar a Cigana do Raça Negra que parece feliz pisando sobre ele - só espero que descalça tendo deixado os sapatos fora de casa – ou a Garota de Ipanema e seu doce balanço a caminho do mar – por favor ressaltando que o fará apenas quando a praia for liberada, todas as garotas resolvem ir passear no calçadão, já houve registro de briga quando duas estavam paradas conversando, uma terceira queria passar, com a questão dos 2 metros de distancia e a areia interditada precisou se jogar no meio da rua para seguir o cooper, o que o fez xingando alto e cuspindo gotículas.

Quando Roberto receberá de novo seu amigo Erasmo Carlos para um abraço despreocupado no palco? Amigo será coisa pra se guardar higienizada debaixo de sete chaves?

Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar. Serei eu mesma, melhor.

5.4.20

Diário de uma pandemia - vol IV

Dia 25

Combinamos que seríamos os primeiros a entrar no apartamento do outro, caso um de nós morresse, para pegar tudo o que não pode ser encontrado. Organizamos onde deixar para facilitar a busca. Inicialmente achei que falava de drogas e objetos sexuais, depois entendi que era algo muito mais sério: tudo o que escrevemos e nunca publicamos. Prometemos nunca ler, queimar. Talvez até usando álcool gel.

Nunca imaginei que combinaria isso com alguém sendo a ameaça tão cedo e tão real. Não pretendemos morrer, mantemos firmes nossos pulmões e corações, mas às vezes tememos. Sempre tememos, mesmo antigamente. Já sentíamos medo três semanas atrás, mas agora nossos temores são compartilhados. Às vezes nosso sangue parece que corre para as extremidades, viramos uma massa de bolo murcha, mas passa. O importante é que passa. Tudo passa. O porteiro do hotel já dizia isso pra Julia Roberts quando o maior problema dela era o casamento do melhor amigo.

Promete que quando essa pandemia acabar faremos tudo de novo? Viajaremos para Salvador para viver as letras das músicas, dançaremos em cada baile charme e buraco da Lapa num sábado à noite bebendo GT do isopor, teremos outro Carnaval, daremos todos os beijos e abraços contidos nesse espaço e quiçá em toda a nossa vida contida até aqui. Teremos outra vida onde priorizaremos o que amamos, não o dinheiro nem nossos medos. Passaremos horas no mar, largados na areia sem pensar se aquilo ativa vitamina D, faremos só pela felicidade, porque ativa meus poros, meus pelos, hormônios, faz correr meu sangue. Promete?

Promete que você ainda vai aplaudir meus sucessos, me amparar nas derrotas e falaremos de emoções como fazemos hoje? Que as conversas ainda terão “hoje estou me sentindo assim”? Eu prometo continuar atenta aos seus sinais e, na dúvida, perguntarei. Sempre pensarei "pode estar tendo um momento difícil, não vou reagir agora”. Se não puder responder com amor deixarei para depois, quando puder. Nunca esqueceremos o que estamos vivendo, nem na pressa. Ainda saberemos priorizar e regular auto-exigências. Para sempre cuidaremos bem de nós.

Sabemos que ao final dos dias que vivemos nada nos levará de volta. Ninguém volta, toda experiência é um caminho sem retorno ao ponto de partida. Cuidaremos do nosso caminho, nunca sabemos para onde estamos indo.

Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.*

Prefiro a quadra da Portela.
Prefiro assistir no cinema.
Prefiro a Toscana.
Prefiro-me gostando das pessoas também.
Prefiro o mar (acho que por isso não conheço as cachoeiras).
Prefiro as maritacas que descobri que voam aqui perto fazendo estardalhaço.
Prefiro fazer as pazes, mesmo por mensagem.
Prefiro bolo de chocolate e queijos - qualquer queijo.
Prefiro música ao vivo.
Prefiro ler na areia.
Prefiro vento.
Prefiro silêncio.
Prefiro comprar o aspirador-robô porque já prefiro Miosan a Salonpas.  
Preferia estar te fazendo rir, nem sempre dá.
Prefiro ser sincera.

(Mas pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto
Eu to voltando)


*Wislawa Szymborska

29.3.20

Diário de uma pandemia - vol III

Dia 5000

Leio que as Olimpíadas deverão ser realizadas em 2021, mas o nome oficial do evento será Tóquio 2020, ou seja, se já está complicado saber que dia é hoje hoje, no ano quem, chamando 21 de 20, será a zorra total. Perdi dois aniversários, não abro mais o Facebook e desde que aposentei minha agenda da Company é por ali que sei quem parabenizar, não tenho mais noção de tempo. Virei a avó maravilhosa de Downtown Abbey perguntando espantada: o que é fim de semana?

Houve uma época em que minha vida social cumpria o circuito Jobi-Guanabara-Diagonal. Já foi Prelude-Rodeo-Zapatta. Uma pré qualquer-Matriz-BB Lanches. O negócio desandou de tal forma que virou Skype-HangOut-Teams. Whereby- Whatsapp-Zoom. Alguém além de mim está pensando na quantidade de dados que essas empresas estão coletando de nós? Não sei se era possível abrirmos mais a nossa vida do que já fazíamos com os Iphones, mas penso em promover chats falsos para confundi-los. Assim que eu acabar a faxina, as comidas, reuniões, emails, mensagens profissionais e pessoais, yoga, treino de força e, estou esquecendo de alguma coisa? ah, banho! farei isso. E tem as lives dos artistas. Temiam que sofrêssemos de tédio, que tédio? Estou à beira da exaustão, já desenvolvi F.O.M.O. de lives! “Tá vendo a do X? Não? A do Y você viu? Não?! Putz, teria adorado.” Não íamos ficar com nós mesmos meditando? Não leríamos livros e assistiríamos a filmes e séries? Só eu não sei organizar meu tempo? Eu sou um fracasso completo em quarentena. Precisarei de uma quarentena da quarentena.  Desconectada, por favor.

 A cada hora varro a casa, tem um saci aqui dentro desarrumando tudo. Penso em viver de touca para cair menos cabelo pelo chão, me sinto o Capitão Caverna com queda capilar. Conto a um amigo careca a inveja que sinto dele nesse momento e recebo de volta a foto de seus dois cachorros, enormes, soltando tanto pelo que em 24 horas formam um terceiro cão de pequeno porte. Não posso reclamar, vejo mães em reuniões com filhos tentando arrancar seus fones, a última respondeu desatenta “tá, filha, faz o que quiser” e, pela tela, vi a criança vindo com umas facas e bananas da cozinha atrás dela.

E essa moda da semana de “home school”, os pais terem que ser professores além de profissionais, cozinheiras, babás e faxineiros, veio de quem? É como fase de videogame – vamos acrescentar mais uma dificuldadezinha agora, não me importo se vocês tem estrutura mental e equipamentos para isso. Vai ter mãe abandonando filho no Jockey como fazem com os gatos. No meio de uma reunião passou uma criança atrás do pai gritando “ACABOOOOOOOU!!!”, achamos que tinham descoberto a vacina, mas era só o fim da aula online do garoto.

Chegam vídeos da menina que foi ao banheiro durante uma reunião por Zoom. Pobre Jeniffer, viralizou mais rápido que a gripe mundialmente. Fato que até o fim do isolamento veremos cônjuges alheios pelados, telas compartilhadas com imagens indevidas, a ressaca emocional pós-home office vai ser pior do que a das festas adolescentes quando eu ainda sofria disso.

No prédio, vizinhos criaram um grupo de whatssapp para decisões urgentes. São mais de 100 apartamentos, nunca falei com ninguém além dos funcionários e uns poucos conhecidos lá de fora, sinto calafrios ao pensar em uma reunião de condomínio por mensagens, mas precisávamos fazer uma vaquinha para comprar itens de proteção para os porteiros. Aglomeração virtual é pior do que aniversário do Guanabara atualmente, não tenho esse dom. Quando começaram os questionamentos sobre a procedência do álcool gel quase gritei CALABOCA TODOMUNDO E PASSA A GRANA. Foi tanta discordância que subgrupos se criaram e o meu está organizando um panelaço interno contra a síndica hoje às 20h30.

É preciso organizar essas manifestações janelais, não sei quando é pró e quando é contra o Bozo, quando aplaudem se é para os profissionais de saúde ou para um saxofonista vizinho solitário. Edu mandou um vídeo onde uma pessoa gritava “Eu falei faraó” e os vizinhos mais incríveis responderam “êêê, faraó”. Amanhã à noite, ao som da primeira panela, farei o mesmo e já responderei “it´s a match” para quem me acompanhar. Luisa me diz que um homem gritou “a Terra é redonda, porraaaa”. Tememos que vire uma prática passarem a berrar angústias nas varandas. Terapeuticamente fará um bem danado ao berrante, mas não sei se o mesmo acontecerá com os demais.

Cancelei três reuniões para fazer comida, precisava de concentração e tempo, se incendiasse a casa nem bombeiros viriam para não encostar em nada. Encaro uns legumes e peitos de frango congelados. Vejo na receita que devo cortar cubinhos dos legumes, colocá-los no tabuleiro sem sobrepor uns aos outros, jogar azeite e pimenta e cozinhá-los a 180 graus. Esse forno não liga direito ou eu é que não sei ligá-lo? Tem help desk pra isso? Cadê a Ju, a Dores, secretárias fundamentais na vida de qualquer pessoa? Forno aceso, tabuleiro lá dentro, depois de 15 minutos devo virá-los. Por que cortei cubinhos tão pequenoooooosssss??? Vou passar dois meses virando beterraba, não comecei a ler nenhum livro, já perdi cinco lives assando cenouras! E esses frangos não podem dizer que estão prontos como o peru da Sadia no comercial, com aquele negocinho que pula?  Esse timer que está tocando, coloquei para qual preparo? Não sei mais vinte minutos desde o que já passaram!

Lembro do meu dia a dia no estúdio, a comunicação dando pane ao vivo, a mesa do diretor de vídeo travando no ar, aquele Lollapalloza interrompido por tempestade de raio sem previsão de retorno, correria no Controle de Exibição e equipe escondida nas vans, como eu era feliz. O Kid Abelha tem toda razão: as coisas são mais fáceis na televisão. 

Choro em tantos momentos e tão banais que já tenho mais medo de estar grávida ou com hormônios descontrolados do que com Covid. Gustavo me contou que logo nos primeiros dias dois amigos debatiam se estavam infectados porque apresentavam sintomas estranhos: diarréia e “um nozinho na garganta”. “Isso é angústia, boçal, bom que aos quarenta anos você vai aprender a lidar com suas emoções.” A pandemia deixa todos um pouco emotivos, não é o caso de ir ao hospital. Porém, se você chorar ao ver o Babu perdendo a prova do anjo no BBB... procura um médico. Psiquiatra, não infectologista. Eu só me emocionei com Sandy & Jr cantando no Altas Horas “não dá pra não pensar em você / tá cada vez mais difícil não poder te ver”. Mas ali onde eu chorei qualquer um chorava. Não? Eu vi Altas Horas.

Se sobrevivermos à pandemia terminaremos com TOC e bipolares, os psiquiatras serão os novos infectologistas - se alguém tiver dinheiro para pagá-los. Prevejo também um boom imobiliário devido ao volume de divórcios - se alguém tiver dinheiro para aluguel e advogado.

O Verissimo acha que estamos ficando burros e repetitivos. Ontem tive minha primeira conversa online pessoal que não envolvia coronavírus, foi tão aliviante. Combinamos de ver filmes para debater na próxima semana. Aqui também diversificarei, no próximo texto falarei sobre... É... vocês podem ler o acervo desse site?




22.3.20

Diário de uma pandemia - Vol II

Dia 11

Antes de começar esse volume II é necessária uma explicação sobre mim e o ato de cozinhar. Eu não tenho memórias de cenas na cozinha na infância. Na era Collor tivemos que demitir a cozinheira, disso saíram algumas piadas sobre os não-dotes culinários da minha mãe, e não sei como nos alimentamos até a crise passar. Meu pai é mestre em culinária de regatas: qualquer gororoba que se produza em um fogãozinho que balança para ser engolido por uma tripulação masculina esportista é um prato Michelin. Minha avó era um mistério, magicamente da cozinha dela alguém saía com minha iguaria preferida e nutrição básica infantil: bife com batatas fritas. E Nescau! Eu comia tão mal que minha tia secretamente colocava tudo o que encontrava e lhe parecia solúvel na minha bebida: ovo, Sustagen, biscoito Maria e sabe Deus mais o quê. Ela era hábil em uma receita – bala! Já adulta descobri que é palha italiana, mas para nós de férias em Petrópolis era “a bala da tia Zélia”. Nas festas até hoje temos “a mousse do tio Marcio”, que eu não tenho a menor ideia do que seja composta. É de chocolate, ponto.

Estranhamente, com essa mesma criação, minhas duas irmãs se tornaram chefs de cozinha. A comida na minha casa vem 95% desse delivery. Os outros 5% são meu café da manhã. Na adolescência, a cozinha do meu apartamento era o lugar onde minha mãe esperava ansiosamente por mim e minhas amigas quando voltávamos das festas e boites de madrugada para saber das fofocas. Sentávamos na mesa, sobre a bancada, e devíamos comer brigadeiro ou torrada com requeijão durante a resenha, era quase uma extensão da sala, assim como é a planta da minha casa hoje. “My kitchen is for dancing”, diz o pôster que eu ia comprar em uma hora qualquer.

Acordei no domingo, dia 6 da reclusão total, preparada para ir ao mercado. “Compra online” gritavam amigas no whatssapp para outra que quis se aventurar. Eu preciso apertar as laranjas para escolher as melhores, tenho que analisar os tomatinhos. Leio jornal em papel de manhã, livros impressos. Lia jornal em papel, cancelei antes de sentar para organizar meu cardápio da semana e a partir dele elaborar uma lista de compras. 40 minutos depois liguei aos prantos para minha irmã: eu nem sei como conservar minhas compras, qual é a cara de uma beterraba na gôndola? Vou falir em Ifood. Muito rapidamente em uma pandemia aprendemos que ombro virtual amigo é melhor do que Passiflora, o efeito calmante é imediato, sem contra-indicações. Parti para a rua.

Antes de sair voltei 3 vezes. E se eu sentir sede? (Por que sentiria tanta sede?) Bebe mais água logo. Esse é a roupa que vou usar em todas as saídas? Escolhe uma para não ter que desinfetar todas. Confere de novo se tem cartão e álcool gel na bolsa, essa bolsa é bem colada ao corpo para não encostar em nada? Entrei no carro já quase sem respirar. Levava junto uma lista de compras para meus pais. (Descobri nesse dia que meu pai é idoso - a classificação é pelo número de vezes que eles dizem que pre-ci-sam ir à rua. Estão ouvindo o encantador de idosos ou são parte da trama secreta que estão armando quando dão a desculpa esfarrapada de ir ao mercado a cada meia hora.)

O mercado escolhido me parecia amplo na memória: engano. Pessoas vinham se aproximando de forma tão ameaçadora que passei a fugir delas como se estivessem radioativas, virei Pac Man escapando dos fantasmas. Quando percebi uma mulher a um passo de mim na fila dos pães quase gritei como se fosse assalto. Comecei a me enfurecer com o desleixo dos distraídos, vão olhando para os produtos e não medem mentalmente a distância de um metro e meio, ao me afastar rápido corro o risco de trombar no humano de trás, as pessoas viraram carrinhos de bate-bate, o que houve com elas? Ou conosco.

“O arroz acabou? Acabou.” “Prezados clientes, não temos álcool.” “Amoooor, essa banana está boa? Filha, vem aqui com a mamãe.” Uma família inteira na rua??? Tira essa criança assintomática de perto de mim! Toquei em tantas coisas que tive a impressão de estar me esfregando nos produtos como cachorros se coçando nas paredes. E esse rosto que não para de coçar, não posso tocá-lo com as minhas mãos, por favor, nariz! Uma amiga liga, atendo em pânico. “Estou no mercado, está sendo horrível. Calma, as gotículas não voam sem espirro ou tosse. Tem certeza? Tenho fé. Alguém tossiu? Não. Então respira”. Paro na frente dos azeites, fecho os olhos, entoo mantras imaginários e começo um pranayama SOS. Abro os olhos lentamente e um homem me encara em um misto de interrogação, preocupação e “desocupa a seção de azeite porra”. Sorrio para ele, finalizo minhas compras e sigo para o carro.

A mala do meu carro, que até então só carregava cadeira, barraca de praia e um chapéu, fica lotada de sacolas como a Caravan dos meus pais nos tempos de inflação e Freeway na Barra.  Em uma casa com 8 pessoas a hora de guardar as compras virava linha de montagem, quase tocavam um sino recrutando todos os filhos para a Operação Despensa, e lá íamos nós tirando tudo das sacolas, guardando nos armários. Não passávamos Lisoform nos produtos, muito menos Lisoform no Lisoform! Não desinfetávamos o chão onde pousávamos as sacolas. Não olhávamos aquelas compras esbarrando em nossas roupas e pensávamos: é impossível eu escapar dessa, "eu desisto Senhor! Nunca serão". Éramos leves. O maior risco era alguém esconder os chocolates antes que os outros vissem. E se escondessem dentro dos guarda-chuvas fechados? Ninguém procuraria lá! E num dia nublado o pai pegaria esse guarda-chuva, carregaria até a padaria, só abriria ao sair e levaria uma enxurrada de Batons na cabeça no meio da rua.

Eu queria poder chamar meus irmãos para guardar as compras comigo.
Anotei na minha nova lista de coisas que vou fazer assim que esse episódio de Black Mirror acabar. Vai ser logo, só temos que respirar. Até na seção de azeite.     

15.3.20

Diário de uma pandemia - vol I


Dia 0
Periodicamente nos encontramos, há mais de dez anos, sempre perto dos aniversários. Dessa vez era o do Herbert. Muitos abraços com saudades, ele brincou que é grupo de risco por ter mais de 80 anos, Jussara disse que o marido está obcecado por coronavirus, fizemos graça de que ele é o mais jovem de nós, combinamos de reservar mesa na varanda na próxima vez já que o restaurante está sempre lotado, pena Helena não ter vindo, estava se sentindo mal, Roberto comentou que ela passou o Carnaval na Itália. Fez-se um silêncio. Nos olhamos por um tempo, Herbert pediu para experimentar o gin da Pat. “Ainda podemos beber em outros copos?” Hahaha, todos rimos, “me dá um gole do seu Moscow Mule”. Pedrinho passou na mesa, o show vai começar em breve no andar debaixo, daqui a pouco descemos, Pat comentou que o marido, dono de casas noturnas, está preocupado de acontecer aqui o mesmo que na Europa, se fecharem tudo como vai ser? Vamos pra praça, Pat! Fazemos como Pedrinho, passamos o chapéu entre o público! Garçom, traz por favor mais um gin. Adorei esse polvo, vai ser nosso novo prato oficial. Ainda vamos poder nos reunir? Trazemos álcool gel, Rosa tem tanto que colocou na porta de casa, na mesa do escritório, peço um pouco hahahaha, que doida, traz o nosso com gelo, açúcar e limão! Vamos pedir o Uber? Toca aí o botão para esse sinal fechar.

Do Havaí, irmã manda um vídeo lindo da chegada da nossa mãe para visitá-la.


Dia 1
Acordei com uma mensagem do Lucas no grupo da família. Estava indo para casa, só voltaria ao escritório em abril. O governo da Dinamarca tinha decretado medidas preventivas. A Primeira Ministra proibiu eventos com mais de 100 pessoas, a orientação era evitar contato na rua. Os bares e restaurantes seriam fechados e os serviços públicos colocaram os funcionários em home office. Fiquei imaginando-o sozinho no apartamento de decoração escandinava falando conosco por Skype, o frio lá fora, as ruas vazias. Sua voz me fez visualizar, pela primeira vez, uma epidemia.

Fui tomar banho. Meus grupos de whatssapp lotaram de mensagens. Ouvi o áudio de um médico do Incor relatando a contaminação da equipe que atende infectados em outros países. Ele enumerava leitos de UTI em São Paulo, concluindo que o Brasil não daria conta de tantos doentes. Ao meio dia esse “áudio do Jatene” já tinha chegado diversas vezes até mim e circulado tão rapidamente quanto um vírus, mensagens diziam ser fake news, mais mensagens diziam ser fake que era fake news, reportagens na web declaravam a autenticidade do relato.

No escritório tivemos uma reunião para saber orientações do Comitê de Gestão de Crise.

Jorge sugeriu cumprimentarmos uns aos outros com um toquinho de pés. Eu sugeri juntar as mãos na altura do peito e dizer Namastê.

Dudu me ofereceu um pote de 500 ml de álcool gel. Disse “consegui um carregamento, chega na terça-feira. Só estou avisando aos mais próximos”. Pedi dois.

Recebi uma matéria que ensina a limpar Iphone com uma solução de 1:1 de água e álcool, importante desligar o telefone antes da limpeza.

Paula mandou uma foto das prateleiras do Zona Sul sem papel higiênico. Percebi que sou péssima em preparação para fim do mundo: fiquei sem gasolina na greve dos caminhoneiros, sem água mineral no começo do ano, servi meu ultimo macarrão ao meu pai anteontem quando foi me visitar. Chequei com Julia, ela comprou um fardo de papel higiênico. Quando passamos a estocar fardos?

Do Havaí, mãe e irmã mandam fotos em uma praia com tartarugas gigantes.


Dia 2
Além da garrafa de água mineral passarei a levar também álcool gel para a academia. Um exercício, uma camada de álcool nas mãos e braços. Olhei os aparelhos onde preciso sentar para a musculação, não sabia como desinfetá-los. Do paninho disposto na prateleira me sorriram bilhões de germes e vírus. Além da garrafa de água mineral passarei a levar também álcool gel e Perfex para a academia.

Um senhor de 87 anos também fazia sua série, mais ninguém além de nós. Sei que ele tem essa idade porque perguntei ao professor depois de um leg press, uma cadeira extensora e uma série de bíceps preocupada por ele não ter lavado a mão. Pensei em ligar para a família irresponsável dele ou ir à polícia. Estão tentando assassiná-lo.
  
Tínhamos marcado teste de luz no novo cenário, quando cheguei ao subsolo onde ficam os estúdios comecei a contar o número de pessoas circulando por ali sem janela. Na sala de vídeo éramos quase 10 olhando para os monitores. Alternei entre a empolgação pelo programa novo e o TOC crescente, mas não falei nada. Só me esquivei de tocar no meu próprio rosto, mesmo com alergia nos olhos.

Passei a evitar maçanetas, testar abrir portas com os cotovelos, apertar botões de elevador com canetas, li que água sanitária diluida tambem pode ser usada em teclados e mouses se acabar o álcool. Desliguei meu Iphone pela primeira vez para seu novo banho diario.

Vou ao Zona Sul comprar minhas laranjas pera semanais para café da manhã. Tantas pessoas entram com carrinhos de tamanhos que pensei só existirem no Freeway que começo a suar de nervosismo, saio com 2 dúzias de laranja lima por engano.

Leio Domenico de Masi no jornal. Diz que, na Itália, a pandemia se manifestou em quatro etapas: a primeira é de descrença; a segunda é de grande caos; a terceira é espectral; a quarta é o acomodamento da resignação.


Três pessoas vieram me abraçar hoje. Em dois casos paramos antes de nos tocarmos. Um eu não via há tempos então não resistimos, mas logo chegou uma pessoa com álcool gel para passarmos nos braços. Percebi que sou querida, vou sentir falta disso.

Do Havaí, mãe e irmã mandam fotos do passeio a um vulcão com o irmão que chegou para férias.


Dia 3
Em um grupo de whatssapp amigos não brigam mais por politica, agora se acusam de irresponsáveis por não estarem fechados em casa. Penso que em breve o contato majoritário com as pessoas pode ser por ali.

Em outro grupo, Maria relata seus cuidados com a gravidez em Washington, não está mais saindo para trabalhar e quer saber como estamos. Pedro diz que lá na Alemanha os supermercados parecem saqueados. Christiano acha que o pior está por vir e mostra seu carrinho de supermercado em São Paulo com 2 fardos de papel higiênico, sob meus protestos. Pergunto se com pasta de dente ninguém se preocupa. Combinamos de quem encontrar álcool gel em sua cidade mandar por correio para os demais.

Um DJ faz um Stories da sua festa lotada e escreve “Resistência”. Alguém comenta “Quero ver resistência com febre de 40 graus e avós mortos”.

Do Havaí, irmã liga com um tom preocupado dizendo que desistiram da ida à California. Não sabem se o espaço aéreo americano será fechado, se mãe e irmão poderão voltar ao Brasil na data marcada. Debatemos o risco da nossa mãe asmática pegar avião e ir a aeroportos.  

Ligo para o Rony, pegamos o barco e rumamos para as Cagarras, longe de qualquer aglomeração e sinal de celular. Levo meu livro da Elena Ferrante – é assim que quero pensar na Itália, Lenu e Lila nas praias de Ischia. Para não enjoar tomo meio Meclin, e ao chegar em casa hiberno por quatorze horas.


Dia 4
Acordo renovada, comemoro que o descanso deve ter fortalecido meu sistema imunológico! Nos raros momentos em que abri os olhos não conseguia decifrar as mensagens pela embriaguez do remédio e escuro sem óculos. Senti a leveza de passar quase um dia sem o bombardeio por Iphone. Tenho mais de cem mensagens não lidas.

Abro a do Havaí. Mãe, irmã e irmão mandam vídeo onde todos dançam na sala de casa. Ninguém supera o cunhado dançando.

Ligo para a companhia aérea, compro uma passagem em promoção, corro para o Galeão com meia dúzia de peças na mala e em vinte e quatro horas começo minha quarentena em Maui.

Ao chegar no aeroporto, informam que durante meu trajeto a American Airlines suspendeu todos os vôos.

Coloco meus fones higienizados, escolho uma playlist, resgato uma mensagem de Julia com um trecho de texto do Juan Pablo Villalobos - en tu cuarentena o en la mía? Dou "encaminhar".

1.3.20

Um saravá pra folia (teu samba é uma reza)


E agora, José? A festa acabou. Como será o amanhã?

Clara, abre o pano do passado.

A sala era grande, enorme, sofás, janelões, a TV era um aparelho anacrônico no canto e eu ficava ali na madrugada, entre os quadros dos antepassados cujos olhos de fotografia me acompanhavam aonde quer que eu fosse. Minha meta era conseguir assistir até a última escola a desfilar, mas nunca conseguia, meus olhinhos de criança ardiam de sono antes, derrotados apesar da vontade de ao menos ver a Beija Flor. A Beija Flor do Joãozinho Trinta, ratos e urubus. Aquele Cristo proibido. Eu queria ter sido um daqueles mendigos.

Meus bailes eram no Clube Petropolitano. A orquestra tocava marchinhas e sambas clássicos no salão, meus primos mais velhos cortavam buracos para os olhos nas fronhas que viravam máscaras, os homens se fantasiavam de mulheres e ficávamos no muro da casa, eufóricos, munidos de garrafinhas para jogar água nos carros que passavam na rua de paralelepípedos da cidade imperial. Mais tarde passei a ir aos bailes à noite e acompanhar a orquestra que deixava o palco arrastando os foliões do salão para a rua. Até hoje eu sou aquela que fica depois do cortejo com a bateria dos blocos cantando os sambas mais lindos, deixando tudo no cordão.

Na Gamboa, a Rua do Propósito fica na Praça da Harmonia.

Eu queria ter estado nos pagodes da casa da Tia Ciata, na Pequena África do Rio de Janeiro no início do século. Queria ter ouvido Donga, João da Baiana e Sinhô versarem sambas de improviso. Queria ter visto Paulo de Oliveira criar trajes de gala nas cores da escola para impor respeito aos integrantes da sua Portela. Queria ter presenciado Noel Rosa mudar a letra de Pierrô Apaixonado, rindo da dor do amigo Heitor dos Prazeres.

Eu não nasci no samba, foi um enredo qualquer que nos juntou, um batuque que atravessou meu caminho e caí na rua atrás do Bola Preta. Caía uma chuva, eu caí de amores. Mas esse amor já estava lá. Okê, Okê, Oxossi! Aquelas palavras que eu repetia cantando sem entender me levaram a fazer o caminho contrário ao dos baianos que desembarcaram por aqui com seu samba de roda, acabei no Gantois ouvindo tudo aquilo de novo e pensando “ah, então é isso?”. Epa hei, Iansã!

Eu não nasci no samba, mas me tornei a colombina que entrou num butiquim, bebeu, bebeu, saiu assim, assim dizendo: pierrô cacete, vai tomar sorvete com o arlequim porque tudo passa, amor. A quarta-feira sempre vem, não importa. Eu estou aqui, no temporal na Sapucaí aplaudindo a Mangueira, vibrando emocionada ao ver passar pregado na cruz o Jesus da gente, mesmo que na cor e estrada ele não se pareça comigo. Nós temos muito a ver no que bate no peito. Hoje ele não foi proibido, olha por nós.

Procuro por mim no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão e sempre me encontro.

24.11.19

O que cantar ao mundo inteiro


Mais cedo tinha visto o Zico dizer na TV que futebol é um assunto de família, uma paixão que os pais transmitem aos filhos em cada partida que assistem juntos na TV, nos jogos em que levam as crianças aos estádios e nas histórias que contam daquele campeonato de mil novecentos e lá vai muita bolinha. Deve ser por isso que ela não sabe nem a cara do Gabigol, não entende que tanto jogo acontece em uma semana. Seu  pai veleja, velejadores não torcem desse jeito, ninguém no mar fica pulando girando colete salva-vidas no ar entoando gritos de guerra e gastando sinalizador.

Estava surpresa com a mobilização das pessoas para aquela final. “É a final da Libertadores!”. Eu sei, mas você vai para Lima por isso? Pensou até em viajar no dia para fugir da bagunça. “Vamos no show do Skank à noite?” “Noite, tá louca? Não vai dar para andar se o Flamengo ganhar!”.
   
As ruas estavam vazias como se fosse Copa do Mundo (“é muito mais importante do que Copa do Mundo!”) Pelo bairro, bares fecharam as portas, cientes de que não dariam conta de flamenguistas em êxtase. Ambulantes e policiais se preparavam para receber os torcedores na praça e se encaixavam nas janelas dos restaurantes e bancas de jornal para assistir à partida nas TVs. Ela foi ao cinema. Foram oitenta minutos de silêncio sepulcral. “Essa cidade vai explodir”, pensou. Até que alguém fez 2 gols nos 3 minutos finais do jogo.

As pessoas chegavam de todos os lados, todas de vermelho e preto, com bandeiras maiores do que elas, cornetas, cervejas e abraços ensopados pela chuva que qualquer inocente apostaria que espantaria a comemoração. Um senhor com uma máscara de urubu na cabeça soltou um grito no meio do shopping, sozinho, de repente. Um garoto caminhava para o BG cantando olhando para o céu sem ninguém ao lado, sorrindo para si mesmo. Mulheres andavam em um trote meio pulo-meio dança mexendo os braços ao som de um axé que não tocava. Abrigados sob a marquise do Braseiro fechado ou soltos no meio da praça, centenas de homens pulavam e cantavam os gritos da torcida repetidamente sem se importar com a dor de garganta do dia seguinte. Ainda poderiam ser campões em outro campeonato no dia seguinte. Se abraçavam e abraçavam quem passasse pela frente, sambavam nas poças lotadas de chuva e cerveja e latinhas e sacos plásticos e sabe Deus mais o quê. Estouravam fogos em qualquer direção, faziam Stories e tiravam fotos e àquela altura tudo já era uma grande mistura de gente, líquidos, fumaças, alegrias, desabafos, extravazamentos e tudo mais que se carrega dentro de si. Ela só parou para ver. E no meio daquela gente toda, de novo ele apareceu. Quantos anos tem que se encontraram naquela mesma praça em uma vitória daquele mesmo time? Era uma época em que saíam muito, por qualquer motivo, qualquer celebração. Nunca mais se reencontraram desde que se deixaram. Ela o acompanhou com o olhar, calma, só achando graça daquela visão naquele lugar. Notou que a mão dele estava ligada à outra mão de uma mulher, e de repente ele virou. Ela deu tchau, ele voltou. “Parabéns!”. “Eu não sou Flamengo”, ela pensou, mas só sorriu. “Ela é Flamengo?”, ele pode ter pensado. Ou “há quanto tempo”? Ou “você de novo aqui”? Ou pode não ter pensado nada. Talvez só depois lembrado, em meio a uma coisa qualquer - “nossa, como eu te amava”.

Ela ficou ali na festa, contagiada pela chuva caindo, amigos chegando. É preciso torcida nessa vida. É preciso vibrar. É preciso raça, esforço, dedicação, garra, mas é preciso coração. Alguma coisa tem que te mover alucinadamente, te tirar do prumo, te despertar. É preciso paixão nessa vida, por qualquer coisa. Se joga nessa vida pra se apaixonar. Vale a pena.

15.11.19

Juanito

Logo que cheguei ao Camboja pensei que a saudação era parte do treinamento dado pelo hotel aos funcionários. “Como está sendo seu dia?”, o rapaz perguntou, e ficou parado me olhando, sorrindo, esperando a resposta. O lugar parecia um oásis com aquela piscina e ambientes refrigerados que prometiam amenizar o calor que já batia os quarenta graus, e responder apenas “bom” pareceu pouco. Não porque meu dia estivesse “maravilhoso” (eu só havia pegado um minúsculo avião até ali), mas porque seria deselegante devolver só uma palavra apressada a quem me recebia com uma reverência de palmas das mãos juntas na altura do peito e um inclinar de cabeça sorridente. “Está ótimo”, respondi, “chegamos agora do Vietnã e amanhã vamos conhecer os templos”. Nós sempre planejamos os lugares que vamos conhecer nas viagens, e de surpresa vem as pessoas.

Diferente de todos os nossos guias até então, Juanito não era atencioso nem cortês, nas primeiras horas falava de forma apressada as informações sobre Buda, hinduísmo, os franceses e mariposas, fazendo uma confusão na minha cabeça superaquecida enquanto andávamos pelo museu de Siem Reap. O prédio enorme e bem montado contrastava com o entorno de casas pequenas e simples, e logo percebi que não era a única construção grandiosa dedicada ao turismo na região. Nos últimos dez anos, mais de cem hotéis estrangeiros surgiram por ali para hospedar os turistas interessados em conhecer Angkor Wat, um complexo arqueológico de templos tão espetacular que, se não fosse a temperatura de quebrar termômetro e a umidade do momento, eu teria ficado admirando até decidir se é mais deslumbrante do que Machu Picchu.

Foram os espanhóis que batizaram Juanito assim. Seu nome verdadeiro ele escreveu no chão de areia, provando ser impronunciável para nós não-cambojanos. Quando entendeu essa dificuldade, decidiu ser Juanito para os latinos, Ivan para os russos, e indisponível para os franceses – que não aceitam erros e não ensinam a língua deles. Todos esses idiomas ele aprendeu sozinho. Quer dizer, para o espanhol teve uma pequena ajuda do Julio Iglesias.

Assim como outros países da Indochina, o Camboja era uma colônia francesa com um governo de marionete até o fim da Segunda Guerra Mundial. A independência foi concedida em 1953, mantendo a monarquia como regime, e logo o país se viu envolvido na Guerra do Vietnã - por lá chamada de “Guerra dos Americanos”. O território era usado como rota vietcongue e bombardeado pelos Estados Unidos, e um golpe militar em 1970 deu início a uma guerra civil que fez piorar ainda mais a situação já difícil. Os cambojanos lutavam entre si, lutavam contra os vietnamitas, e em 1973 o partido comunista chegou ao poder sob liderança de Pol Pot. O Khmer Vermelho, que eu me lembrava dos tempos de Jornal Nacional com Cid Moreira, implementou uma reforma social descrita pelos livros de história como o regime mais letal do século XX, um genocídio que custou a vida de mais de 2 milhões de pessoas. Hoje, 60% da população do Camboja tem menos de 25 anos.

Pol Pot fechou escolas, hospitais, fábricas, extinguiu o sistema bancário e a propriedade privada, proibiu qualquer religião e dizia que os pais estavam contaminados pelo capitalismo, logo, não podiam criar seus filhos. As famílias eram separadas, as pessoas mandadas para as fazendas coletivas e os intelectuais eram perseguidos.

“Quem trabalha nas plantações de arroz tem marcas nos pés, os soldados que carregam armas pesadas tem marcas nos ombros”. Juanito tinha 20 anos quando viu os pais serem assassinados pelo governo. “Eles foram identificados como intelectuais porque usavam óculos, tinham as mãos sem calos e os pés limpos porque usavam sapatos.” Decidiu então se juntar aos guerrilheiros. Terminada a guerrilha e nomeado general, ele voltou à sua cidade natal. As pessoas buscavam suas famílias separadas e escreviam seus nomes nas portas das casas onde tinham vivido para que os sobreviventes soubessem quem estava ali para continuar a história. Ele reencontrou alguns parentes, recomeçou como comerciante, mas perdeu tudo o que conseguiu juntar. Foi quando decidiu procurar amigos em Siem Reap, cidade a poucos quilômetros dos templos de Angkor Wat.

A lenda local conta que as ruínas foram descobertas por acaso por um francês que caçava borboletas na floresta, o que contraria um pouco provas mais cientificas que atestam a presença de pesquisadores ocidentais por ali em data bem anterior à bucólica e inocente cena. Incontestável era que finalmente o clima de paz no país colocava Angkor como rota turística, e alguém precisaria se comunicar com aqueles europeus, americanos, indianos, russos... A maioria dos guias só falava inglês, e Juanito queria falar espanhol. Sem internet, sem cursos ou livrarias, ele foi até a farmácia e pediu todos os remédios que tivessem bulas traduzidas. Devorando posologias e modos de usar, só faltava aperfeiçoar a pronúncia, resolvida com um CD do Julio Iglesias que ganhou da irmã funcionária da embaixada francesa. 

“Eu trabalho uns dois ou três dias com os turistas. Se trabalho, ganho salário, se não trabalho não ganho. Não tenho férias nem aposentadoria, mas tenho hospital, que o governo dá, e se eu morrer vão me cremar. Aqui somos cremados, por isso temos a pele assim escura”, ele ri, “diferente dos vietnamitas, que são enterrados e por isso são brancos! A cada vida nós voltamos mais escuros.” Juanito, Ivan ou o nome impronunciável cambojano não se preocupa nem almeja mais nada. Há quem veja isso como filosofia budista.

Até 1950 não se registravam as crianças no Camboja. Eram tempos de guerra, os pais escreviam a data de nascimento nas paredes das casas, mas a chuva apagava então ninguém contava as idades. Para saber se já deviam ir à escola, os professores checavam se a criança conseguia passar a mão por cima da cabeça e alcançar a orelha do lado oposto. Caso conseguisse, já devia ter uns 6 anos e podia começar a estudar. Hoje os jovens não aprendem na escola nada sobre o Khmer Vermelho. O primeiro-ministro, ex-aliado de Pol Pot que ajudou a derrubar o governo, está no poder desde então, há 30 anos. Juanito estranha ele ter um Iphone 8, mas o defende por ter participado de mais de trezentas batalhas contra os americanos e lutado pela paz no Camboja. “Além disso, vou reclamar com quem, o presidente dos Estados Unidos? Falar com o presidente da China? Com esses não dá, o máximo que posso fazer é falar com os deuses então é o que faço!”, ele diz. “E vamos andando porque tenho que chegar em casa. Adotei uma criança de 8 anos. A Angelina Jolie adotou um filho aqui também, você sabia?”.